Projeto OTCA-BID: Marco Estratégico para elaborar uma agenda regional de proteção de povos indígenas em isolamento voluntário e contato inicial

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1 Projeto OTCA-BID: Marco Estratégico para elaborar uma agenda regional de proteção de povos indígenas em isolamento voluntário e contato inicial Subsídios à participação brasileira no evento e considerações sobre os documentos iniciais do Projeto, que serão discutidos em encontro dos pontos focais nacionais, a ser realizado em Brasília entre os dias 11 e 12 de agosto de 2011 A) Antecedentes da discussão internacional sobre políticas de proteção a povos indígenas isolados e de recente contato na região amazônica 1. Muito embora alguns países amazônicos não reconheçam oficialmente a existência de povos indígenas isolados em seus territórios e tampouco tenham políticas, normas ou estruturas administrativas voltadas à proteção e a promoção dos direitos desses grupos, ao menos diversas iniciativas têm ocorrido nos últimos anos no sentido de se discutir a questão no plano internacional. 2. No âmbito das Nações Unidas, a declaração da Segunda Década dos Povos Indígenas trouxe recomendações específicas sobre os povos isolados, para que se criasse um sistema de monitoramento global da situação dessas populações e que os governos ao redor do mundo estabelecessem marcos legais e políticas específicas para a proteção e promoção dos direitos desses grupos, considerando sobretudo sua vulnerabilidade física e seu direito a autodeterminação Por isso, ainda por iniciativa das Nações Unidas, o Alto Comissariado para os Direitos Humanos e o Foro Permanente para Questões Indígenas trabalharam desde 2006 junto com governos, organismos internacionais e organizações não-governamentais na elaboração de diretrizes cujo objetivo principal é melhor contextualizar o direito internacional no planejamento e na execução de ações nacionais para a proteção desses povos (Anexo I). 4. Nesse sentido, a perspectiva do Estado brasileiro sobre a proteção de povos indígenas isolados, baseada no princípio de não-contato como forma de garantir a proteção e o direito à autodeterminação desses povos, tem se traduzido em significativa participação em eventos de discussão multilateral, como o Primeiro Encontro Internacional sobre Povos Indígenas Isolados da Amazônia e do Gran Chaco, realizado entre os dias 8 e 11 de novembro de 2005 em Belém do Pará, Brasil. O evento contou com a participação de mais de 60 representantes de órgãos públicos e organizações não-governamentais de diversos países, os quais discutiram a situação dos índios 1 Além do respeito a autodeterminação de permanecerem isolados, o Estado brasileiro institui mecanismos efetivos para a definição e proteção de seus territórios enquanto direito de livre acesso, locomoção, usufruto e ocupação. 1

2 isolados da região e das iniciativas para sua proteção. Ali, firmaram o documento que ficou conhecido como Declaração de Belém (Anexo II), e constituíram a Aliança Internacional para a Proteção de Povos Indígenas Isolados. 5. Assim como outros eventos realizados na época, esse evento de Belém trouxe à mesa de discussões aspectos e questões que, debatidos a partir de diversos pontos de vista indígena, governamental e da sociedade civil, dentre outros, puderam ser mais bem alinhavados para a construção de consensos regionais em torno do conceito de proteção a povos isolados e de ações para sua consecução. Esse processo de convergência ao menos conceitual ou de perspectiva entre os atores envolvidos na proteção de isolados na região amazônica segue em construção, fortalecido pelas diretrizes da ONU e pela realização de eventos regionais de discussão e articulação entre os países da região 2. B) Políticas e conceitos de proteção a povos indígenas isolados e recém contatados 3 6. É inegável a importância desse processo de consolidação multilateral de uma perspectiva sobre povos isolados que, baseada em diálogos entre organizações indígenas, organismos internacionais, governos e outros setores, tem fortalecido a idéia de que é preciso garantir o direito à autodeterminação desses povos como forma de lhes preservar as integridades físicas e culturais. 7. A política pública brasileira de proteção e promoção de direitos a povos indígenas isolados e de recente contato parte de perspectivas semelhantes na medida em que busca formas de ação que antecipem a proteção à expansão das frentes de desenvolvimento em áreas onde existam vestígios constatados da existência de grupos isolados e/ou considerados recém contatados. Embora 2 A exemplo de iniciativas desencadeadas pela sociedade civil, destaca-se o Comité Indígena Internacional para la Protección de los Pueblos en Aislamiento y en Contacto Inicial de la Amazonía, el Gran Chaco y la Región Oriental del Paraguay (CIPIACI). Trata-se de um comitê internacional formado por organizações indígenas de âmbito local, regional e nacional de Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Paraguai e Brasil, cujo objetivo é concentrar esforços e iniciativas para criar mecanismos de proteção dos povos indígenas isolados e de recente contato da Amazôna, o Grande Chaco e a região central do Paraguai. O CIPIACI opera com respaldo do Foro Permanente das Nações Unidas para Questões Indígenas, tendo sido criado no fim de 2006, na Bolívia. Algumas organizações indígenas que o compõem são as seguintes: ONIC, CONAIE, NAWE, FENAMAD, AIDESEP, CIDOB, UNAP, CAPI, OPIT, ACIDI E COIAB. Outra iniciativa refere-se ao Comitê Consultivo Internacional para Assuntos de Índios Isolados e Recém Contatados, composto por oito especialistas sul-americanos, que contribuem com a formulação de políticas públicas em defesa dos índios isolados e recém contatados e de sua causa junto aos países da bacia Amazônica e Grande Chaco. 3 São consideramos isolados os grupos indígenas que não estabeleceram contato permanente com a comunidade nacional, diferenciando-se das sociedades indígenas já contatadas. 2

3 possua antecedentes mais antigos, como o I Encontro de Sertanistas, realizado em junho de 1987, no âmbito da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), a adoção desse paradigma de não-contato na definição de políticas de proteção a esses povos tem como marco a Constituição Federal brasileira, de 1988, que elevou a nível constitucional os direitos dos povos indígenas no país. 8. Apesar disso, o isolamento de alguns povos indígenas habitantes da Bacia Amazônica não é percebido nem tratado da mesma forma pelos Estados que possuem territórios cobertos pela floresta, sendo bastante singulares a perspectiva oficial e o contexto institucional brasileiro nesse tocante. Nos outros países amazônicos, diferenças na condução das políticas indigenistas, ou mesmo sua inexistência, afetam as ações de proteção a povos isolados, de forma que as maneiras como percebem esse desafio refletem, em última medida, vieses políticos e as respostas dadas a perguntas trazidas colateralmente pela questão conceitual: A quem interessa o reconhecimento ou não da existência desses povos? O que é proteção de índios isolados? Significa atraí-los à integração ou fazer respeitar o seu isolamento? 9. O modelo brasileiro se baseia no (i) Sistema de Proteção ao Índio Isolado e Recém- Contatado, que prevê metodologia e procedimentos adequados às diversas fases do processo de localização e vigilância dos territórios ocupados por grupos isolados, e na (ii) atuação das Frentes de Proteção Etnoambiental, que executam as ações de verificação de referências e proteção territorial sem pretender atrair essas comunidades ao convívio permanente. A demarcação territorial para povos indígenas de modo geral é o principal aspecto de um modelo que se projeta para outra frente, que é a demarcação de terras para índios isolados. 10. Porém, as singularidades desse modelo não podem contribuir para uma visão desequilibrada do contexto regional e dos outros países naquilo que diz respeito à proteção de povos indígenas isolados. Mesmo que não existam ações oficiais nesse sentido em alguns deles, organizações indígenas e indigenistas têm trabalhado para suprir o vácuo deixado por agências indigenistas governamentais, que, muitas vezes, percebem o desafio de maneira distinta e acabam por atender a interesses diversos na sua interação com os povos indígenas. C) Participação da sociedade civil na proteção a povos isolados e recém contatados 11. Experiências as mais diversas têm ocorrido na região amazônica para a proteção de povos indígenas isolados, e considerável parte das ações mais bem sucedidas no objetivo de garantir os direitos e o isolamento desses povos contam com a participação de organizações da sociedade civil em sua concepção e execução. 12. A formulação e a execução da política específica para índios isolados e recém contatados no Brasil é de competência exclusiva do Estado. No entanto, para implementar o Sistema de Proteção 3

4 ao Índio Isolado e Recém Contatado, numa articulação com a política ambiental a FUNAI optou por estabelecer Termos de Cooperação com organizações não-governamentais. Desde a década de 1990, a FUNAI vem instituindo cooperações com organizações da sociedade civil que mediante apresentação e aprovação de projetos, desenvolvem ações coordenadas e monitoradas pela FUNAI. 13. Aqui, mais que em qualqer outro país amazônico, é significativa a presença do Estado na definição e execução de iniciativas para a proteção de índios isolados ou recém contatados, não obstante o reconhecimento da importância de se incluir a sociedade civil nesse processo. A experiência brasileira tem levado a entender que essa inclusão de organizações não-governamentais e do movimento indígena contribui para maior capilaridade de tomadas de decisão e controle social mais efetivo de ações. Onde a participação de ONGs é mais marcante na proteção a povos isolados, tem-se efetiva mudança de paradigmas, com que a política de tutela passa a vez à defesa do protagonismo indígena e de seus outros direitos. D) Comentários aos componentes do Plano Operativo Anual (POA). 14. O Componente 1 trata do desenvolvimento de instâncias de proteção aos povos indígenas isolados nos países-membros, a ser realizado a partir de diagnósticos nacionais de iniciativas e instituições já existentes. Embora a minuta do POA faça menção à atuação de organizações da sociedade civil na proteção a povos isolados, é preciso reforçar a importância de sua participação também durante as fases iniciais de discussão do projeto. 15. Isso é ainda mais imperativo quando se observa o Componente 2, que busca identificar conjunto de princípios básicos que dêem suporte a um marco estratégico consensuado entre os países a partir da análise das capacidades técnicas e normativas dos países. O fato de não haver sido mencionada a participação da sociedade civil nessa etapa de definição de princípios deixa receio quanto à possibilidade de uma percepção excessivamente estatocêntrica do tema. 16. Componente 3 e 4 não possuem aspectos que demandem observações adicionais. 17. Para falar sobre o Componente 5 e suas ações de informação e capacitação de agentes envolvidos na proteção de povos indígenas isolados, volta-se a destacar a importância de se integrar os movimentos e organizações indígenas. Além disso, é importante ressaltar que as comunidades vizinhas a terras de isolados, sendo indígenas ou não, também devem receber capacitação. Nesse sentido, a experiência brasileira com capacitação de quadros técnicos para trabalhar com o Sistema de Proteção ao Índio Isolado e Recém Contatado indica dois caminhos possíveis e complementares: o primeiro reporta-se à formação e concepção de novas estruturas conceituais e paradigmáticas, enquanto o segundo refere-se à formação metodológica relacionada à experiências em selva, 4

5 vivenciando situações reais de localização, vigilância e identificação de vestígios deixados por índios isolados. 5

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