Palavras-chave: Mediação Cultural; Autonomia; Diversidade.

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1 Um olhar sobre a diversidade dos educativos da Fundaj 1 Maria Clara Martins Rocha Unesco / MG Maria José Gonçalves Fundaj / PE RESUMO Os programas educativos nos diferentes equipamentos culturais da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), considerando os Campi Museológicos Museu do Homem do Nordeste, Engenho Massangana e Espaço Cultural Mauro Mota vêm construindo, de maneiras diferentes e em tempos diferentes, ações educativas que promovem a difusão do conhecimento e a autonomia, bem como a interação com esses espaços. As ações de mediação cultural atingem públicos variados através de propostas de formação. Para isso, são realizadas diversas atividades, que demandam uma sistematização e um processo avaliativo capaz de abranger todas as questões que tangem às construções conceituais e metodológicas que vêm sendo construídas de modo adequado a cada espaço. Esse artigo visa lançar um olhar sobre essa diversidade e enfatizar um processo de apropriação conceitual que se instaura como uma política geradora de autonomia e de diversidade dentro desses espaços culturais. Esse olhar se constrói a partir de um processo de consultoria instalado entre setembro de 2013 e maio de 2014, para gerar reflexões e para acolher essas diferenças em busca de uma unidade conceitual e metodológica. E, juntamente com ele, construções interpessoais e descrições de heterogeneidade tomam forma. Um ponto de encontro que se destaca entre tantas diferenças é a mediação cultural, conceito que nasceu com autonomia, construído de maneira empírica e que vem sendo debatido com a finalidade de trocar e construir juntos a unidade conceitual dos educativos da Fundaj, que preserva essa diversidade e acolhe as diferenças. Palavras-chave: Mediação Cultural; Autonomia; Diversidade. 1 Trabalho apresentado na 29ª Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 03 e 06 de agosto de 2014, Natal/RN. 1

2 Uma história para contar... Esse artigo revela uma história na qual enfatizamos a presença de muitos personagens, entre eles, uma que tinha uma risada boa; uma que era tímida e professora; uma que tinha o nome exótico; outra que tinha o nome de origem hebraica; outra que era comum; e tinha uma que era tropicalista; uma que ia ser franciscana; uma grávida; entre vários outras... Esse grupo diverso se encontrou com um objetivo em comum, pensar sobre sua própria prática e compartilhá-la. Cada pessoa desse grupo de personagens possui em comum a prática da mediação nos programas educativos dos diferentes equipamentos culturais da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), sendo eles o Museu do Homem do Nordeste (MUHNE), o Engenho Massangana (EM) e o Espaço Cultural Mauro Mota (ECMM), e vêm construindo, de maneiras diferentes e em tempos diferentes, ações educativas que promovem a difusão do conhecimento e a autonomia, bem como a interação com esses espaços. Esses espaços possuem uma identidade que se constrói com equipes diferentes, diferentes maneiras de formar e preparar essas equipes e projetos e programas que também se diferenciam. Existem, em distintas dimensões, aproximações com diálogos contemporâneos no que tange à mediação cultural, à diversidade cultural e ao pensamento complexo, o que contribui para a formação de sujeitos que atuam na interface entre educação e cultura. Os educativos da Fundaj são setores responsáveis pela elaboração e desenvolvimento de ações de educação não formal que potencializam a difusão, a fruição e a relação dos diferentes públicos com os acervos, projetos e exposições da Meca/Fundaj. Assume, portanto, o compromisso de desenvolver uma ação educativa ampla, reflexiva e discursiva, que não se resume somente às práticas de mediação. Estar sensível ao que cada sujeito pertencente a esse grupo tem a oferecer, para além de seus nomes e identidades, considerando suas características pessoais, que os fazem pessoas únicas e que compartilham a experiência de mediação, acolhe exatamente o que esse conceito pretende desdobrar: ser um espaço social de construção e negociação de sentidos, assumido por indivíduos que possuem modos de fazer diferenciados, mas que se propõem a dialogar. 2

3 Conceitualmente, a mediação cultural já vem sendo pensada e discutida de maneira ampliada. No entanto, nesse texto queremos compartilhar exatamente o processo em que esse conceito se transforma em uma base para mediação e de que maneira os encontros entre os sujeitos e suas práticas se transformaram em um documento que afirma as escolhas e as diretrizes conceituais e metodológicas para a Educação Não Formal na Fundaj. Esse processo de apropriação conceitual destaca-se como uma micro-política para a área da arte/educação no ambiente institucional e foi gerador de reflexões e de afirmação da autonomia dos espaços educativos, enquanto formuladores das ações educativas. Evidencia como o exercício da autonomia pode construir essas micropolíticas dentro das instituições culturais, enfatizando as escolhas e garantindo as diferentes perspectivas que um espaço cultural pode ter. A consultoria Sabe-se que muitas instituições também se apropriam de conceitos que determinam as bases para a prática da mediação; no entanto, como eles são construídos? Por quem? A Fundaj optou pela contratação de consultoria porque identificou a necessidade de diagnosticar, investigar, colaborar com a organização conceitual e metodológica e promover o diálogo entre os três espaços culturais pertencentes à mesma instituição. Essa contratação foi definida a partir de um desejo de diálogo entre os três grupos de educativos, que há muito se ressentiam da falta de comunicação entre os espaços e de compartilhamento de suas práticas. E a consultoria foi acolhida de maneira a colaborar com esses diálogos e a promover esses encontros que originariam as bases para que os trabalhos fossem realizados de modo coletivo e dialógico. No primeiro momento foi instalado um processo de escuta, que coletou material para gerar um diagnóstico desses educativos. Através de entrevistas, documentos produzidos pelos educativos, reuniões e acompanhamento das atividades junto com os coordenadores e suas equipes (compostas de servidores, funcionários terceirizados e estagiários) esse diagnóstico foi construído. É inegável a importância desse momento, pois apontou as diferenças e enfatizou os aspectos positivos que esses 3

4 educativos/equipes possuíam. Contribuiu, ainda, para que os aspectos negativos fossem refletidos e revistos. Dessa maneira, as diferenças foram evidenciadas construindo diálogos entre os espaços, provocando um inter-relacionamento complexo e dialético. As informações coletadas foram organizadas e analisadas a partir de um olhar crítico e analítico, que enfatizou as ações que se destacam positivamente e sugeriu melhorias para minimizar as fragilidades de cada espaço. Aconteceram verdadeiros encontros, mas também desencontros; momentos em que estávamos compassados e muitos momentos de descompasso. Como tudo que se experimenta, ocorreram erros e acertos. O que se percebeu no processo e que se quer enfatizar é a importância da diversidade cultural, do respeito aos diferentes objetos, aos diferentes modos de fazer, aos sujeitos únicos envolvidos na experiência da mediação. Consideramos que ao viabilizar um processo que se debruça sobre diferentes pensamentos, opiniões e modos de fazer, estamos reconhecendo que micro-políticas para a autonomia estão se fortalecendo. Trazendo para essa discussão o conceito ampliado de diversidade cultural, reconhecemos a importância da diferença em grupos originados de uma mesma cultura, mas que assumem concepções, posturas e tradições diversas. As diferenças entendidas como diversidade, como múltiplas possibilidades, como oportunidades de exercitar a convivência democrática no campo da cultura. Entendemos que os modos de perceber e viver a realidade social/cultural pode confirmar o que já é vivenciado (aspecto permanente) ou provocar transformações. No caso das modificações, é possível trazer novos símbolos e significados para o coletivo. O estudo dos sistemas simbólicos, segundo Bourdieu, deve estar fundamentado na estrutura de um sistema de relações sociais de produção, circulação e consumo simbólicos onde tais relações são engendradas e onde se definem as funções sociais que elas cumprem objetivamente em um dado tempo (BOURDIEU, 1986, p. 32). Os espaços culturais, então, apresentam-se como sujeitos e como meios para as vivências de circulação/fruição dos bens simbólicos, tornando-se elemento importante 4

5 para tratar questões ligadas à legitimação da diversidade cultural. Neles, exercitamos a formulação de pensamentos que norteiam nossa prática. Por isso, a reflexão sobre o modo como esses educativos vêm atuando pode contribuir para a realização de ações significativas que contribuam para a formação dos sujeitos que vivem/acessam esses espaços/objetos/exposições. Percebemos esse trabalho como um grande processo de costura e descostura. Costuramos conceitos que já estavam incorporados às práticas dos educativos e desconstruímos muitos também. A mediação nos espaços culturais vinha sendo feita de maneira empírica e foi debatida com a finalidade de trocar e construir juntos a unidade conceitual, fortalecida por bases teóricas e reafirmada pela experiência. Mediação: tecendo conceitos Mas que mediação é essa a que nos referimos? Ao longo do trabalho, percebemos que a palavra mediação pode se referir a uma coisa diferente para cada grupo de pessoas. Às vezes, achamos que estamos falando de uma mesma coisa, mas a forma é diferente, ela é única em cada lugar. E por isso, quando nos encontramos para conversar sobre mediação foi essencial entender o que isso significava para esse grupo. De maneira abrangente buscamos encontrar o que se revelava na experiência de cada indivíduo do grupo, o que chamamos de mediação. Sem perder de vista a diversidade, porém na tentativa de unificar conceitos, esse processo possibilitou fazer escolhas que orientam as diretrizes do que se trata por mediação, considerando o modo como ela é feita dentro dos espaços não formais de educação da Fundaj. O grupo trouxe para a discussão possibilidades de definição do conceito de mediação, que por alguns momentos divergem entre si ou se contradizem, mas que no processo de discussão e de formação colaboraram de maneira extrema para as escolhas do que é mediação na Meca/Fundaj. O processo vivenciado possibilitou a esse grupo a apropriação e o entendimento conceitual fundamentais para a prática de mediação e afirmou a autonomia daqueles que realmente estão envolvidos nesse fazer, contribuindo para o empoderamento dos educativos no que diz respeito ao objeto 5

6 mesmo da sua atividade. O significado dessa autonomia é relevante para o contexto tanto institucional, quanto da mediação cultural em âmbito nacional, uma vez que não está presa a formatos e a regras pré-estabelecidas. Diante da percepção de que muitos conceitos de mediação vêm sendo praticados e também discutidos nos diversos espaços culturais, optamos por não afirmar o que está certo ou errado, porém, escolher aqueles que melhor se adequam à prática da mediação nos três espaços culturais da Fundaj. É possível dizer que não há somente um modo de fazer e que a diversidade de objetos de cada educativo contribui para enriquecer as práticas no campo da educação não formal. Entendemos que as ações, os espaços e objetos dos equipamentos culturais devem estar acessíveis para os públicos, tal como eles os procuram e se abrem para acessálos; Assumimos a experiência como principal sentido da educação não formal e os sujeitos da experiência como agentes dessa prática e reflexão. Esse modo de fazer coloca todos os elementos que compõem essa relação em posição de igualdade e pressupõe uma reciprocidade (mesmo que não seja simultânea). Ao longo do trabalho, definimos, então, a missão dos educativos: propiciar o acesso aos espaços culturais da Diretoria de Memória, Educação, Cultura e Arte (Meca) com o objetivo de difundir a cultura, o patrimônio e a arte como campos de conhecimento. Contribuir para que a experiência da educação não formal seja múltipla, abrangente e construtiva (Documento Técnico Relatório da Consultoria Prodoc Fundaj/UNESCO). Estar com, desconstruir, intervir e escutar: essas palavras se tornaram conceitos e fazem parte dessa escolha que orienta a experiência da prática da mediação nos espaços culturais da Fundaj. Mediação é estar com. A preposição com indica modo, relações de companhia, interação, união etc. A mediação com se propõe a estar em companhia de todos os sujeitos e elementos envolvidos, se opõe ao estar entre, uma vez que mediar com não é uma mediação para o sujeito, é uma mediação com o sujeito; não é uma mediação do espaço, é uma mediação com o espaço. É um percurso complexo de pensar junto 6

7 que considera a autonomia das diversas vozes envolvidas, quais sejam dos sujeitos, dos espaços e dos discursos. Trata-se de caminhar junto com as pessoas, numa relação de compartilhamento e troca. Desconstrução como objetivo principal de toda a prática da mediação. Desconstruir conceitos pré-estabelecidos para abrir espaço para novas perspectivas e para a construção de novos olhares é um dos objetivos da prática da mediação. Esse processo tem como principal base o questionamento. No exercício da mediação, as perguntas precisam colaborar com o aguçar da curiosidade e com a construção do conhecimento. A desconstrução permite o deslocamento, a ressignificação e a apropriação. Intervenção como um elemento presente na mediação. Assumir a intervenção como parte de um processo de mediação é perceber que todos os elementos ali presentes intervêm uns nos outros. O próprio espaço intervém no olhar e os conceitos e sujeitos intervêm nos processos de construção de conhecimento. É uma forma de provocar movimentos para que algo mude ou se reafirme. Escuta como método. Escutar envolve o considerar o outro, deixar o outro te afetar; escutar é ter atenção e acolher o que se ouve. Um processo dialógico pressupõe a escuta como base principal para que a mediação aconteça. A escuta é um modo de fazer mediação e pode ser um ponto gerador de estratégia e construção de dispositivos. Admite-se a contingência no desenvolvimento da mediação, porque a abertura para o outro pode gerar mudanças de percursos. Os educativos assumem esses conceitos como pressupostos básicos que orientam as ações e atividades dos três espaços culturais da Meca/Fundaj, norteando a elaboração e construção de programas e projetos, estratégias de mediação, parcerias e relações internas e externas, bem como o processo de formação das equipes. Afirmamos a importância do processo vivido, visto que possibilitou aos sujeitos envolvidos um pensar sobre suas ideias e práticas e o compartilhamento das dificuldades encontradas no cotidiano desses espaços educativos. 7

8 Contudo, esse texto evidencia as diferenças na perspectiva da construção de diálogos entre os espaços, discutindo a importância da autonomia, tanto dos sujeitos quanto da instituição, nessa construção e propondo um inter-relacionamento complexo e dialético que promova a reflexão sobre a construção da diversidade cultural nas sociedades contemporâneas. 8

9 REFERÊNCIAS BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. In Revista Brasileira de Educação, jan/fev/mar/abr, n.19, 2002, p BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. Introdução, organização e seleção de Sergio Miceli. São Paulo: Perspectiva, (Coleção Estudos). ROCHA, Maria Clara. Produto III: desenho conceitual para os educativos da Fundaj. Relatório da Consultoria Prodoc FUNDAJ/UNESCO. Recife, Março,

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