XIII Congresso Estadual das APAEs

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1 XIII Congresso Estadual das APAEs IV Fórum de Autodefensores 28 a 30 de março de 2010 Parque Vila Germânica, Setor 2 Blumenau (SC), BRASIL A IMPORTÂNCIA E SIGNIFICÂNCIA DO TRABALHO EM EQUIPE INTERDISCIPLINAR NA EDUCAÇÃO ESPECIAL SAEDE (SERVIÇO DE ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO). BENEDET, Marina Corbetta 1 ; LOPES, Márcia Cristofolini 2. Resumo Muitas são, na atualidade, as tentativas de trabalhos que visem metodologias diferenciadas na área da Educação Especial, principalmente com a proposta da Inclusão Social. Neste sentido, surge cada vez mais a necessidade de trabalhos interdisciplinares que visem uma ação em conjunto para pensar e fazer a Educação Especial. Desta maneira é que, no Estado de Santa Catarina, se organizou o SAEDE Serviço de Atendimento Educacional Especializado, que foi buscar suas raízes na Teoria Histórico-Cultural para traçar metodologias para a ação pedagógica interdisciplinar junto aos educandos com necessidades especiais. Neste trabalho, então, busca-se, na área da Deficiência Mental, ou Deficiência Intelectual conforme vem-se reformulando no referido estado, promover uma qualificação dos chamados processos psicológicos superiores junto aos educandos. Deste modo, em conjunto, os profissionais de fonoaudiologia, psicologia, pedagogia, artes e educação física da APAE/SAEDE constroem práticas educativas que trabalhem com atenção concentrada, memória significativa, percepções significadas, linguagem, pensamento e imaginação/criatividade, possibilitando aos educandos a complexificação destes processos. Para isto estabelece-se um conceito comum para o trabalho junto aos educandos e cada área de atuação profissional traça objetivos e ações para que os conceitos cotidianos do educando sejam, aos poucos, transformados em conceitos científicos. As intervenções dos diversos profissionais são pensadas de maneira a utilizar de jogos, brincadeiras e trabalhos sistematizados junto aos educandos, bem como de estudos de caso e grupos de estudos junto aos profissionais, na tentativa de efetivação de um trabalho interdisciplinar que vise a construção conjunta de ações de intervenção. Ao longo do trabalho, percebemos a necessidade de troca entre os diferentes profissionais e seus diferentes saberes que permite uma ação pedagógica melhor organizada e com maior resolutividade, bem como uma abertura para falar das dificuldades singulares de intervenção e efetivação de trabalho junto a determinados educandos, possibilitando um compartilhar de responsabilidades; bem como encaminhamentos de ações internas e externas a instituição. Neste sentido, buscamos trabalhar na interdisciplinaridade que se caracteriza por perspectivas comuns tanto para plano de formação de profissionais como plano de pesquisa na educação. Assim, nesta proposta de trabalho essas diferentes áreas de intervenção e compreensão do processo de 1 Psicóloga da Escola Especial Tempo Feliz APAE/B.C., especialista em Psicopedagogia Escolar e Clínica, Mestre em Psicologia e doutoranda em Psicologia. 2 Fonoaudióloga da Escola Especial Tempo Feliz APAE/B.C., especialista em Educação Especial Inclusão e especializanda em Fonoaudiologia Hospitalar Disfagia Orofaríngea.

2 desenvolvimento e aprendizagem buscam comunicar-se entre si, buscando alternativas para a construção de condições de possibilidade para uma efetiva inclusão dos educandos no Ensino Regular. Sabemos das necessidades de revisão e reestruturação desta proposta, principalmente no que tange a realmente conseguir estabelecer um trabalho interdisciplinar, pelas dificuldades de aproximações de linguagens e visões, tendo em vista a diversidade de formações pessoais e profissionais. Entretanto, ela vem se apresentando como possível na medida em que todos os profissionais buscam aos colegas de trabalho nos momentos de decisão, impasses e dificuldades, assim como nos planejamentos de intervenções. Também conseguimos perceber os impactos dessa proposta na medida em que temos, cada vez mais, educandos que freqüentam o programa, cumprindo aquilo a que ele se propõe e que são desligados deste, ou seja, a efetivação do processo inclusivo, pelo menos no que diz respeito à inclusão educacional. Palavras-chave: Interdisciplinariedade; Educação Especial; SAEDE. INTRODUÇÃO Na atualidade são muitas as tentativas de trabalhos que visem metodologias diferenciadas na área da Educação Especial, principalmente com a proposta da Inclusão Social que fez com que todas as escolas especiais necessitassem rever seu lugar e seu módus de ação diante de uma nova realidade que vem se apresentando. Neste sentido, surge cada vez mais a necessidade de trabalhos interdisciplinares que visem uma ação em conjunto para pensar e fazer a Educação Especial de maneira a responder as demandas as quais se colocam na sociedade de hoje. Desta maneira é que, no Estado de Santa Catarina, se organizou o SAEDE Serviço de Atendimento Educacional Especializado, que foi buscar suas raízes epistemológicas na Teoria Histórico-Cultural de Vygotsky (1991) para traçar metodologias, fazeres e entendimentos para a ação pedagógica interdisciplinar junto aos educandos com necessidades especiais. Neste trabalho, então, busca-se, na área da Deficiência Mental, ou Deficiência Intelectual conforme vem-se reformulando no referido estado (SANTA CATARINA, 2005), promover uma qualificação dos chamados processos psicológicos superiores junto aos educandos, conforme a proposta de compensação de Vygotsky (1998). Esta proposta parte do entendimento de que existe uma deficiência primária, orgânica, que devido a formas de interação acabam por constituir-se em uma deficiência secundária (não em importância, mas em ordem de aparecimento) que se cria devido à cultura e sociedade onde o sujeito com deficiência primária se insere (VYGOTSKY, 1998). Desta forma, entende-se que o ser humano nasce com alguns processos chamados de básicos, de origem orgânica, construídos ao longo de sua evolução enquanto espécie, e que nas mediações com a cultura, através de um outro sujeito mais experiente nesta, ele complexifica estes processos transformando-os em processos superiores (VYGOTSKY, 2000).

3 Nesse sentido, Vygotsky considera ser possível superar uma deficiência primária/orgânica, através dos processos psicológicos superiores/culturais. Assim, na APAE Escola Especial Tempo Feliz, de Balneário Camboriú, em parceria com a Secretaria Estadual de Educação de Santa Catarina, contamos com este programa (SAEDE) que atende a educandos regularmente matriculados nas Escolas de Ensino Regular da rede Municipal, Estadual e Particular de Educação, trabalho este que viemos aqui apresentar. MATERIAIS E MÉTODOS As intervenções junto aos educandos são sistematizadas da seguinte maneira: ocorrem em contra-turno ao Ensino Regular, com crianças e jovens a partir de 04 anos de idade (anterior a isto estas crianças participam da Estimulação Essencial), abrangendo Educação Infantil, Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos; os educandos participam do Programa duas vezes por semana, pelo período de quatro (04) horas, divididos em noventa (90) minutos de atendimento pedagógico (02 vezes na semana) quarenta e cinco (45) minutos de trabalho fonoaudiológico educacional (01 vez por semana), quarenta e cinco (45) minutos de trabalho psicológico educacional (01 vez por semana), quarenta e cinco (45) minutos de trabalho de educação física (01vez por semana) e quarenta e cinco (45) minutos de trabalho de artes (01 vez por semana). Deste modo, partindo do supracitado referencial teórico-metodológico, em conjunto, os profissionais de fonoaudiologia, psicologia, pedagogia, artes e educação física da APAE/SAEDE constroem práticas educativas que trabalhem com atenção concentrada, memória significativa, percepções significadas, linguagem, pensamento e imaginação/criatividade, possibilitando aos educandos a complexificação destes processos através da mediação semiótica. Para isto estabelece-se um conceito comum para o trabalho junto aos educandos e cada área de atuação profissional (psicólogo, fonoaudiólogo, pedagogo, arte educador e educador físico) traça objetivos e ações para transformação dos conceitos cotidianos do educando (ou seja, aqueles que ele construiu ao longo de sua vida no dia-a-dia, nas relações estabelecidas com família, comunidade e escola) serem, aos poucos, transformados em conceitos científicos (aqueles que são conceitos mediados por outros conceitos, afetiva e volitivamente), através da mediação e da qualificação dos processos psicológicos superiores. As intervenções dos diversos profissionais são pensadas de maneira a utilizar de jogos, brincadeiras e trabalhos sistematizados junto aos educandos, bem como de estudos de caso e grupos de estudos junto aos profissionais buscando uma prática coerente com a proposta epistemológica e metodológica da teoria Histórico-Cultural, na tentativa de efetivação de um trabalho interdisciplinar que visa a construção conjunta de ações de intervenção para efetiva inclusão destes educandos junto ao Ensino Regular. Além disto, são realizadas visitas mensais

4 nas escolas de Ensino Regular dos educandos na tentativa de estabelecer trocas profissionais para o planejamento das intervenções. RESULTADOS E DISCUSSÕES Ao longo do trabalho, percebemos a necessidade de troca entre os diferentes profissionais e seus diferentes saberes que permite uma ação pedagógica melhor organizada e com maior resolutividade, bem como uma abertura para falar das dificuldades singulares de intervenção e efetivação de trabalho junto a determinados educandos, possibilitando um compartilhar de responsabilidades, tentativas frustradas e de sucesso nas intervenções, bem como encaminhamentos de ações internas a instituição ou externas de atendimentos clínicos e/ou educacionais. Neste sentido, buscamos trabalhar a interdisciplinaridade, palavra e conceito que atravessou fronteiras e, atualmente, dá a volta ao planeta. Essa palavra é usada em inúmeros países e tem um sentido socialmente compartilhado pelo conjunto de seus utilizadores, e que se caracteriza por perspectivas comuns tanto para plano de formação de profissionais como plano de pesquisa na educação. Desta maneira, sendo o Fonoaudiólogo o profissional responsável pela promoção da saúde e prevenção das alterações relacionadas à linguagem (escrita/oral), voz, audição, estruturas e funções estomatognáticas (mastigação, deglutição,respiração e fala) cabe a estes profissionais desenvolver programas e ações especiais elaborados para a população a qual trabalha. Acreditamos na influência e importância que as instituições educacionais exercem sobre o desenvolvimento global da criança, favorecendo a aprendizagem e ensinando aos educandos o exercício de sua cidadania, de modo que, através deste pressuposto que o trabalho desenvolvido na APAE de Balneário Camboriú, pelo programa SAEDE, se fortalece no trabalho interdisciplinar no qual a fonoaudiologia educacional ganha espaço na e pela linguagem, permeando seus fazeres viajando na imaginação, memória, discriminação auditiva, atenção, entre outros processos psicológicos dos educandos, buscando torná-los sujeitos ativos de uma sociedade que se expressa através da fala, de gestos, olhares e sentimentos os quais ganham forma e significado através desde trabalho em equipe. Contribuindo neste processo a Psicologia Escolar/Educacional, que se propõe a produção de conhecimentos, pesquisa e intervenção, por intermédio do psicólogo escolar/educacional, contribui nas intervenções realizadas junto aos educandos e a equipe ao visar a construção de espaços de efetivo desenvolvimento e aprendizagem, de discussão junto a todos da equipe para interlocução e circulação de concepções e representações sobre desenvolvimento, promoção de estratégias psicopedagógicas do processo ensino-aprendizagem, fomentando, junto aos educandos o desenvolvimento e aprendizagem dos processos psicológicos superiores,

5 mediatizados pela linguagem, volição e afetividade, tendo em vista o caráter de construção da consciência, conforme proposto por Vygotsky, isto é, a consciência como um processo social, cuja base é a palavra significada. O educador especial, através do trabalho pedagógico, contribui não somente para a alfabetização, tendo em vista que este é um processo secundário, e sim para que os educandos consigam subjetivar/internalizar os processos psicológicos superiores, pois somente após aquisição dos processos superiores é que os educandos conseguem alfabeitzar-se nas mais diversas linguagens. Também nesta perspectiva vemos a importância do exercício da expressão artística, não relacionada apenas ao desenvolvimento da criatividade que ela promove, ou ao aprimoramento das formas de percepção por parte das pessoas: a Arte é relevante enquanto objeto de conhecimento que amplia a compreensão do sujeito a respeito de si mesmo e de sua interação com o mundo no qual vive. Neste sentido, no programa SAEDE, a arte educação permite, através da música, artes visuais, teatro e dança, a construção dos conceitos científicos, por intermédio de uma relação sensível com o mundo, ou seja, uma relação estética. Já a Educação física, que se propõe a investigar as diferentes manifestações da cultura do movimento humano na forma de jogos, danças, ginásticas e esportes, identificando os vários sentidos do corpo e suas relações com o mundo, contribui na construção dos conceitos científicos e qualificação dos processos psicológicos superiores, ao permitir e compreender o movimento como uma linguagem, uma comunicação com o mundo, construída na e pela cultura, promovendo a construção de processos de consciência e ressignificação (construção de novos sentidos) para os movimentos vivenciados. Assim, nesta proposta de trabalho essas diferentes áreas de intervenção e compreensão do processo de desenvolvimento e aprendizagem buscam comunicar-se entre si, buscando alternativas para a construção de condições de possibilidade para uma efetiva inclusão dos educandos no Ensino Regular. CONSIDERAÇÕES FINAIS Sabemos das necessidades de revisão e reestruturação desta proposta, principalmente no que tange a realmente conseguir estabelecer um trabalho interdisciplinar (e não multidisciplinar), pelas dificuldades de aproximações de linguagens e visões, tendo em vista a diversidade de formações pessoais e profissionais. Entretanto, ela vem se apresentando como possível e se efetivando no fazer profissional, na medida em que todos os profissionais buscam aos colegas/parceiros de trabalho nos momentos de decisão, impasses e dificuldades, assim como nos planejamentos de intervenções.

6 Também conseguimos perceber os impactos dessa proposta na medida em que, com o passar do tempo, temos, cada vez mais, educandos que freqüentam o programa, cumprindo aquilo a que ele se propõe e que são desligados deste, sem a construção de dependência da instituição APAE, ou seja, a efetivação do processo inclusivo, pelo menos no que diz respeito a inclusão educacional. Deste modo, entendemos que o SAEDE na APAE de Balneário Camboriú não se propõe como modelo perfeito a ser seguido, mas se apresenta como uma possibilidade de intervenção junto aos educandos com necessidades especiais, tendo em vista seu contexto, suas propostas e objetivos, sua história e seu processo constitutivo nesta instituição. REFERÊNCIAS SANTA CATARINA. Política estadual de Inclusão. Florianópolis: SED, VYGOTSKY, L.S. Obras Escogidas: problemas teóricos y metodológico de La Psicología. Madrid: Visor, VYGOTSKY, L.S. Obras Escogidas: fundamentos de la defectologia. Madrid: Visor, VYGOTSKY, L.S. Obras Escogidas: Psicología infantil. 2.ed. Madrid: Visor, 2000.

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