A GESTÃO DO CONHECIMENTO E A ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL DA INFORMAÇÃO

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1 FUNDAÇÃO ESCOLA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA DE SÃO PAULO Faculdade de Biblioteconomia e Ciência da Informação A GESTÃO DO CONHECIMENTO E A ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL DA INFORMAÇÃO São Paulo 2002

2 FUNDAÇÃO ESCOLA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA DE SÃO PAULO Faculdade de Biblioteconomia e Ciência da Informação A GESTÃO DO CONHECIMENTO E A ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL DA INFORMAÇÃO Andréia Gonçalves Silva Antonia Regina Q. de Oliveira Carlos Eduardo da Silva Débora Ferreira dos Santos Henrique M. Coimbra Ferreira Sadrac Leite Silva Sônia Duarte D'Ambrosio Trabalho de conclusão de curso - TCC, apresentado à Faculdade de Biblioteconomia e Ciência da Informação - FaBCI, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo - FESPSP, como exigência parcial para obtenção do grau de Bacharel em Biblioteconomia. Coordenador: Prof. Cláudio Marcondes de Castro Filho Orientadora: Prof. Telma de Carvalho São Paulo 2002

3 G393 A gestão do conhecimento e a atuação do profissional da informação / Andréia Gonçalves Silva... [et al.]; coordenador Cláudio Marcondes de Castro Filho; orientadora Telma de Carvalho f. :il. ; 29 cm Demais autores: Antonia Regina Q. de Oliveira, Carlos Eduardo da Silva, Débora Ferreira dos Santos, Henrique M. Coimbra Ferreira, Sadrac Leite Silva, Sônia Duarte D'Ambrosio. Coordenador Cláudio Marcondes de Castro Filho; orientadora Telma de Carvalho. Trabalho de conclusão de curso (Bacharel) - Faculdade de Biblioteconomia e Ciência da Informação da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. 1. Gestão do conhecimento. 2. Profissional da Informação. 3. Bibliotecário. 4. Tecnologia da Informação. 5. Sociedade do Conhecimento. 6. Conhecimento. 7. Capital Intelectual. I. Silva, Andréia Gonçalves. II. Oliveira, Antonia Regina Q. de. III. Silva, Carlos Eduardo da. IV. Santos, Débora Ferreira dos. V. Ferreira, Henrique M. Coimbra. VI. Silva, Sadrac Leite. VII. D' Ambrosio, Sônia Duarte. CDD

4 Dedicamos a Deus, a nossos pais, familiares, amigos, professores e todos que colaboraram direta e indiretamente para a realização deste trabalho.

5 Agradecimentos Agradecimentos A Deus, por nos conceder a capacidade de realizar este trabalho. Ao saudoso Professor Jaime Teixeira Filho, responsável pelo estudo da GC no Brasil. Foi uma das primeiras pessoas que contatamos quando buscávamos entender o que era a GC. Infelizmente, o prof. Jaime nos deixou de maneira repentina. Hoje, só nos resta na lembrança a sua dedicação e competência, no desenvolvimento deste tema de tão grande importância e, sua simplicidade e prontidão em nos atender sempre que foi necessário. Ao Professor Cláudio Marcondes de Castro Filho, pelas orientações, sugestões e críticas que nos incentivaram a realizar um trabalho de boa qualidade. À Prof. Telma, pelas orientações e sugestões. À Prof. Auta Barreto, pelas sugestões, explicações e envio de seus artigos. À Yara Rezende (Natura), pelas diversas leituras críticas, sugestões, envio de bibliografia e por ter nos concedido a entrevista. À Marinete (Promon), pela entrevista concedida. À Cristiane Giacomini (Promon), por fazer nosso contato com o Sr. Sérgio Alfredo. À Ana Maria Freire (Tozzini e Freire), pela entrevista concedida. À Alice Nonaka (Tozzini e Freire), pelo envio de informações referentes à biblioteca do escritório. À Nádia Hommerding, pelo envio de sua Tese - que foi de grande importância e pelas sugestões.

6 Agradecimentos À Elisabete Neves, pela tese, sugestões, leituras críticas, incentivos e por ter se colocado à nossa disposição. À Elisabety Vargas, pelas indicações e sugestões. À Elisabety Braga Moreira (ACB), pelo envio do artigo solicitado. À Aracy Campos, pelo envio de referências e sugestões da literatura em GC. À Prof. Concilia Teodosio, pelos incentivos de sempre e revisão da ficha catalográfica. À Prof. Elisa, pelos elogios e sugestões. Ao corpo docente da FaBCI, cujos conhecimentos compartilhados ao longo de nossa formação contribuíram de forma fundamental para a execução deste trabalho Ao Prof. Fernando Duran, pelas leituras e releituras críticas, e por suas sugestões que foram de grande importância, contribuindo para a clareza deste trabalho. Ao Prof. Alfonso, pela leitura do capítulo referente à filosofia. Ao Gustavo Jacob (Andrade Gutierrez), pela entrevista concedida. Ao Sérgio Alfredo (Promon), pela entrevista concedida. Ao Cláudio Wilberg (Tozzini), por nos conceder a entrevista, enviar material referente a TI e realizar a revisão deste capítulo. Ao Dr. José Aníbal, pela revisão do português. Aos futuros bibliotecários - Marcos e Juliana - pela paciência que eles têm que ter com os alunos do 4º ano.

7 Bem-aventurado o homem que acha sabedoria e o homem que adquire conhecimento. Melhor é a sabedoria do que as jóias; tudo o que se deseja, nada se compara com ela. - Provérbios de Salomão

8 SUMÁRIO RESUMO / ABSTRACT LISTA DE ILUSTRAÇÃO APRESENTAÇÃO 1 INTRODUÇÃO OBJETIVOS Objetivos gerais Objetivos específicos JUSTIFICATIVA METODOLOGIA CONHECIMENTO: VISÃO FILOSÓFICA Tipos de conhecimento Diferenças entre conhecimento, informação e dados Sociedade do conhecimento... 32

9 6 GESTÃO DO CONHECIMENTO = KNOWLEDGE MANAGEMENT CAPITAIS DO CONHECIMENTO TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO ATUAÇÃO DO BIBLIOTECÁRIO NAS EMPRESAS: MUDANÇAS DE ATITUDES Atuação do profissional da informação na Gestão do Conhecimento A formação do bibliotecário: necessidade de atualização e aperfeiçoamento curricular CASES DE EMPRESAS QUE IMPLANTARAM A GESTÃO DO CONHECIMENTO CONCLUSÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIA CONSULTADA ANEXOS GLOSSÁRIO CURRÍCULOS

10 Resumo - Abstract RESUMO Este trabalho apresenta os conceitos e temas relacionados à Gestão do Conhecimento 1 (GC), revelando os aspectos teóricos do conhecimento à época dos antigos filósofos e sob a ótica dos gerentes, pesquisadores e consultores empresariais da sociedade do conhecimento. Relata os objetivos buscados pelas empresas ao implantarem a GC, expondo as etapas, técnicas e ferramentas necessárias para a efetivação desse processo. Analisa a inserção dos bibliotecários no ambiente da GC, apontando o quão importante é para o profissional da informação redefinir seus objetivos, possuir uma nova postura, desenvolver determinadas habilidades comportamentais exigidas pela GC e investir em seu aperfeiçoamento curricular. Demonstra ainda a experiência de algumas empresas que implantaram a GC e a participação do bibliotecário nesse contexto. Palavras-chave: Gestão do Conhecimento Profissional da Informação Bibliotecário Tecnologia da Informação Sociedade do Conhecimento Conhecimento Capital Intelectual ABSTRACT This report contains the concepts and subjects related to Knowledge Management (KM). It demonstrates theoretical aspects of the knowledge that were developed by former philosophers. It also reveals how they have been analysed the knowledge society s managers, researchers, and enterprise consultants. The goals that enterprises has to be intented in introducing KM, indicating the necessary stages, techniques and tools for reaching up this process. It also analyses the librarian s insertion to the KM enviroment showing the importance of the information professional in redefining his intention, getting a new approach, developing specific behave skills required on KM, and investing in his career growing. Finally, demonstrate the experience taken from some enterprises which introduce the KM to their company structure, and the librarian s participation in this context as well. Keywords: Knowledge Management - Information Professional - Librarian - Information Technology - Knowledge Society Knowledge Intellectual Capital 1 No decorrer do trabalho o termo "Gestão do Conhecimento" será substituído pela sigla GC.

11 Lista de Ilustrações LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 Teoria da conversão do conhecimento... p. 24 Figura 2 A transformação de dados e informação em conhecimento... p. 31 Figura 3 Gestão do Conhecimento nas organizações... p. 43 Figura 4 Diagrama da Gestão do Conhecimento... p. 45 Figura 5 Benefícios esperados pelas empresas com a implantação de um projeto de Gestão do Conhecimento... p. 49 Figura 6 Resultados esperados com a implantação da Gestão do Conhecimento... p. 50 Figura 7 Os quatros capitais do conhecimento... p. 54 Figura 8 Implantação da TI - Efeitos... p. 64 Figura 9 As formas de educação continuada... p. 84

12 Lista de Ilustrações LISTA DE ILUSTRAÇÕES Quadro 1 Exemplo didático para compreensão das diferenças entre dados, informação e conhecimento... p. 28 Quadro 2 Os princípios da organização do conhecimento... p. 35 Quadro 3 Tecnologia para a Gestão do Conhecimento... p. 61 Quadro 4 Evolução e características das bibliotecas nas empresas.. p. 69 Quadro 5 Perfil desejado para o profissional da informação... p. 71 Quadro 6 Comparação entre os perfis e atitudes dos tradicionais e dos atuais profissionais da informação... p. 73

13 Apresentação Descobrir consiste em olhar para o que todo mundo está vendo e pensar uma coisa diferente - Albert Szent-Gyorgy Prêmio Nobel de Medicina APRESENTAÇÃO O presente trabalho trata de um tema que está mobilizando gerentes, diretores, consultores empresariais e profissionais da informação/bibliotecários: a Gestão do Conhecimento - GC. A cada dia crescem a demanda de seminários, congressos e palestras que visam a discutir as questões relacionadas à GC. Deste modo, constata-se que o mercado necessitará de profissionais capacitados para atuarem no comando e implantação dessa nova ferramenta empresarial. Assim, inicia-se este trabalho com uma introdução sobre o contexto da GC e, em seguida, apresentam-se os objetivos, justificativas e metodologias aplicadas (capítulos, 2, 3 e 4). No capítulo 5 demonstram-se os temas e as definições necessárias ao estudo da GC e, o capítulo 6 trata dos conceitos, elementos e princípios da GC. O capítulo 7 aborda os fatores internos e externos que influenciam os processos da GC (capitais do conhecimento). A importância da Tecnologia da Informação para a GC é enfatizada no capítulo 8. O capítulo 9 aponta as competências e habilidades do profissional da informação, revelando a necessidade de uma nova postura diante do ambiente da GC. A experiência de algumas empresas com a GC é relatada nos cases (capítulo 10). Na conclusão, expõem-se alguns comentários e considerações sobre o tema abordado, com base nas premissas apresentadas nos capítulos anteriores.

14 Introdução 12 O novo paradigma da sociedade do conhecimento é ver o mundo pelo ponto de vista do conhecimento. - Karl Sveiby 1 INTRODUÇÃO As organizações sempre se preocuparam em implantar ferramentas e instrumentos administrativos a fim de melhorar resultados, comportamentos, lucros e posição no mercado. Ao fazer uma retrospectiva na história da Administração de Empresas, constata-se que as práticas administrativas sempre acompanharam a existência das empresas, tais como: a Qualidade Total (TQM); o Downsizing; a Reengenharia e a Empowerment. Agora, a ferramenta administrativa implantada nas organizações é a chamada Gestão do Conhecimento GC. Hoje, os métodos de produção de lucros e riquezas concentram-se no uso, controle e domínio da informação e conhecimento. Os ativos que outrora traziam riquezas (terra, trabalho, capital) não desapareceram, porém, tornaram-se secundários. Assim, informação e conhecimento transformaram-se em matériaprima para as empresas, sendo o novo motor da economia. No entanto, para que a informação e o conhecimento sejam de fato instrumentos para obtenção de riquezas, é necessário que os mesmos sejam gerenciados e, em seguida, compartilhados entre todos os membros da organização. Nesse contexto, surge a GC, cuja finalidade é identificar, coletar, armazenar e disponibilizar o conhecimento relevante para a empresa. Na prática a GC é uma ferramenta que habilita as empresas a identificarem o conhecimento tácito que circula entre seus diversos setores, deixando-o explícito

15 Introdução 13 para toda a organização, isto é, as empresas identificam o conhecimento que está na cabeça das pessoas, as experiências e os talentos disponibilizando-os, por meio de banco de dados, portais do conhecimento ou páginas amarelas. Ao utilizar os processos da GC, a empresa aprende a aproveitar os recursos já existentes, aplicando as melhores práticas, sem precisar reinventar a roda. Este é um dos motivos que levam as organizações a aplicarem os ensinamentos da GC, uma vez que a dinâmica da sociedade, a concorrência e a competitividade do mercado não deixam espaço para aquelas empresas que não tenham soluções e criações rápidas. Entretanto, para que a GC produza bons frutos dentro da organização é necessário que esta seja gerenciada de uma maneira eficaz. Desta forma, surge a figura do gerente do conhecimento. Neste trabalho, pretende-se demonstrar que, apesar de não se encontrar na literatura autores que indicam a formação do gerente do conhecimento, o bibliotecário, assim como outros profissionais, poderá obter capacitação para atuar na GC. Todavia, do mesmo modo que a economia, o mercado e as organizações mudaram e se adaptaram à realidade da sociedade do conhecimento, o bibliotecário corporativo também deve fazê-lo. Logo, é fundamental que o profissional da informação adapte seu perfil a essa nova realidade, tenha uma postura agressiva e dinâmica, seja empreendedor, criativo, inovador e invista em seu aperfeiçoamento curricular. Com estas atribuições, acredita-se que o bibliotecário poderá ocupar uma vaga no mundo das oportunidades que estão surgindo no mercado.

16 Capítulo 2 Objetivos 14 Não há vento a favor, quando não se sabe para onde vai - Sêneca 2 OBJETIVOS 2.1 Objetivos gerais Apresentar os conceitos e temas relacionados a Gestão do Conhecimento - GC, demonstrando-o como um novo campo de atuação para o profissional da informação/bibliotecário. 2.2 Objetivos específicos Relatar os aspectos teóricos do conhecimento e a evolução da sociedade do conhecimento; Demonstrar as atividades, funções e habilidades do profissional da informação/bibliotecário, diante do contexto da GC, apontando a necessidade de seu aperfeiçoamento curricular; Identificar as características e competências necessárias ao profissional que almeja atuar como gerente do conhecimento, Expor algumas experiências de empresas que incorporaram os ensinamentos da GC, por intermédio de estudos de casos.

17 Justificativa 15 Será útil, sem ser nocivo a ninguém. - Descartes 3 JUSTIFICATIVA A principal razão em estudar a atuação do profissional da informação/bibliotecário no cenário da GC, justifica-se no fato do bibliotecário possuir formação acadêmica compatível e favorável às práticas da GC. Entretanto, possuir uma formação propícia não é o suficiente para inseri-lo no mercado da GC, tendo em vista que, neste novo contexto a habilidade deixa de ser técnica para se tornar comportamental. Tão logo, é fundamental que o bibliotecário desenvolva algumas habilidades comportamentais exigidas pela GC, redirecionando seus objetivos e se adaptando às transformações ocorridas na sociedade do conhecimento. Além disso, é essencial que o bibliotecário redefina alguns conceitos, aprimore e atualize seu currículo, assuma uma postura mais agressiva e inovadora, seja flexível para interagir com as mudanças que estão ocorrendo e esteja atento a evolução das Tecnologias da Informação. Para a área da Ciência da Informação, esta pesquisa visa a contribuir para os estudos sobre os novos desafios e perspectivas do profissional da informação/bibliotecário.

18 Capítulo 4 - Metodologia 16 Não recearei dizer, porém, que julgo haver tido muita sorte em ter-me encontrado, desde a mocidade, em certos caminhos que me conduziram a considerações e máximas com as quais formei um método pelo qual, parece, tenho um meio de aumentar gradualmente o meu conhecimento. - Descartes 4 METODOLOGIA Para a execução deste trabalho, buscou-se na literatura os conceitos, princípios e temas relacionados à GC. Em seguida, efetuou-se revisão de literatura na área da Ciência da Informação, com o intuito de revelar o perfil, características, postura, competências e habilidades necessárias para o profissional da informação/bibliotecário atuar diante das oportunidades que estão surgindo no mercado. Utilizando o método de estudo de casos, retratou-se a experiência de empresas que implantaram a GC, demonstrando na prática o papel, funções e atividades do profissional que atua como gerente do conhecimento. De acordo com GIL (1997, p. 90) o estudo de caso consiste em apresentar fatos ou resumos narrativos de situações ocorridas em empresas, órgão públicos ou em outras instituições.... Assim sendo, com o objetivo de narrar a situação das empresas que estão atuando na GC, realizou-se uma série de contatos com bibliotecários que de alguma forma estavam envolvidos com o estudo da GC. Para direcionar o enfoque do estudo de caso utilizou-se a monografia 2 da bibliotecária Nádia 2 Ganhadora do IV Prêmio de Biblioteconomia Paulista "Laura Russo".

19 Capítulo 4 - Metodologia 17 Hommerding que descreveu em sua dissertação de mestrado a experiência da KPMG, onde a bibliotecária Maria Luiza da Silva participou da implantação da GC. Logo após, foram mantidos contados com empresas que estavam aplicando a doutrina da GC, em seus negócios. Dentre as empresas contatadas escolheu-se o escritório de advocacia Tozzini, Freire, Teixeira e Silva e as empresas, Natura, Promon e Andrade Gutierrez. O estudo de caso foi realizado por meio de visitas às empresas quando se entrevistou o bibliotecário ou o responsável pela implantação da GC. Em algumas empresas o contato foi realizado com os dois profissionais. (Roteiro de entrevista - ANEXO A). GIL (1997) afirma ainda, que a entrevista identifica valores e padrões de ação. Desta maneira, no decurso das entrevistas coletaram-se dados referentes ao histórico da instituição, área de atuação, objetivos e expectativas quando da implantação da GC, enfatizando a participação do bibliotecário nesse processo. Para a revisão de literatura, realizou-se um levantamento bibliográfico em: livros e periódicos das áreas de Ciência da Informação, Administração e Tecnologia da Informação, Teses e Anais de Congressos de Biblioteconomia. Na Web pesquisou-se na Biblioteca Virtual nas áreas de Biblioteconomia e Ciência da Informação, nos sites voltados para a divulgação e estudo da GC, nas bases de dados do Sibi/Usp, na base da Biblioteca Digital Brasileira (link Revista Ciência da Informação) e no site de busca Google. Os descritores utilizados para elaboração da pesquisa foram: Bibliotecário e perfil e formação; Gestão e conhecimento; Gestão e conhecimento e profissional e informação; Informação e conhecimento; Profissional e informação e educação e continuada; Profissional e informação e atualização;

20 Capítulo 4 - Metodologia 18 Profissional e informação e aperfeiçoamento; Profissional e informação e empresas; Profissional e informação e formação; Sociedade e conhecimento; Tecnologia e informação. O referido levantamento bibliográfico foi desenvolvido durante um período de seis meses. Convém ressaltar ainda, que além dos ensinamentos extraídos da literatura, buscou-se informações por intermédio de contatos pessoais com autores, pesquisadores, consultores e estudiosos da GC. Dentre eles, os professores Jayme Teixeira Filho e Auta Barreto, as bibliotecárias Yara Rezende, Elisabete Neves, Aracy Campos, a consultora Elisabety Vargas, entre outros. Deste modo, por meio destas atividades metodológicas iniciou-se a elaboração da pesquisa proposta.

21 Capítulo 5 Visão filosófica 19 "Sábio não é aquele que conhece muitas coisas, mas o que conhece coisas úteis" - Ésquilo a.c. 5 CONHECIMENTO: VISÃO FILOSÓFICA O termo Conhecimento sempre esteve presente nos trabalhos de muitos filósofos e pensadores, tais como: Platão, Aristóteles, René Decartes, Jonh Locke, Kant, Francis Bacon, Hegel entre outros. Segundo Nonaka e Takeuchi (1997) Platão foi quem inicialmente desenvolveu uma elaborada estrutura sobre o conhecimento, definindo-o como crença verdadeira justificada. Na Antigüidade (séc. V e IV a.c.), o conhecimento era considerado fonte de sabedoria e Atenas era o centro cultural, onde aconteciam as reuniões dos grandes filósofos no Areópago. O pensamento filosófico desse período pode ser caracterizado nas palavras de Pitágoras: o filósofo não é movido por interesses comerciais - não coloca o saber como propriedade sua, como uma coisa para ser comprada e vendida no mercado; também não é movido pelo desejo de competir - não faz das idéias e dos conhecimentos uma habilidade para vencer competidores ou "atletas intelectuais", mas é movido pelo desejo de observar, contemplar, julgar e avaliar as coisas, as ações, a vida; em resumo, pelo desejo do saber (CHAUÍ, 2002, p. 20). Chauí (2002, p. 112) explica que Platão distinguiu quatro formas ou graus de conhecimento que vão do grau inferior ao superior: crença, opinião, raciocínio e intuição intelectual, sendo que os dois primeiros graus deveriam ser afastados da filosofia - são conhecimentos ilusórios ou das aparências - e somente os dois últimos poderiam ser considerados válidos.

22 Capítulo 5 Visão filosófica 20 Aristóteles também estudou as questões relacionadas ao conhecimento, distinguindo seis formas ou graus de conhecimento: sensação, percepção, imaginação, memória, raciocínio e intuição. Ao contrário de Platão, Aristóteles afirmava que o conhecimento vai sendo formado e enriquecido por acumulação das informações trazidas por todos os graus, de modo que, em lugar de uma ruptura entre o conhecimento sensível e intelectual, Aristóteles estabeleceu uma continuidade entre eles. Embora o conhecimento tenha provocado reflexões na Antigüidade e na Idade Média, ele só se tornou uma disciplina independente da filosofia na Idade Moderna. Entre o período dos séculos XVII e XVIII a história assistiu ao apogeu da ciência, e o conhecimento passou a ser questionado pelos filósofos. René Descartes, considerado pai da filosofia moderna, iniciou os primeiros estudos sobre a capacidade e possibilidade do ser para o erro e a verdade, que resultou em um método de verificação controlável. Para Descartes a verdade definitiva só poderia ser deduzida a partir da verdadeira existência de um eu pensante. É de sua autoria a famosa frase Penso, logo existo. (NONAKA; TAKEUCHI, 1997). Francis Bacon, contemporâneo de Descartes, tinha um lema que o diferenciava dos filósofos anteriores: "Saber é poder". Bacon buscava no conhecimento não apenas um saber que não tivesse um fim em si, mas um saber instrumental que possibilitasse a dominação da natureza, isto é, o poder propriamente dito (ARANHA; MARTINS, 1993). Destas discussões surge, então, a disciplina que estuda o conhecimento sob a ótica da filosofia a Teoria do Conhecimento ou Epistemologia - apresentada pela primeira vez pelo filósofo John Locke em sua obra "Ensaios sobre o entendimento humano", publicada em Conforme Aranha e Martins (1993, p. 23) a Teoria do Conhecimento é uma disciplina filosófica que investiga quais são os problemas decorrentes da relação entre sujeito e objeto do conhecimento, bem como as condições do conhecimento verdadeiro".

23 Capítulo 5 Visão filosófica 21 Foram muitas as correntes que tentaram resolver as questões relacionadas ao conhecimento. Porém, duas se destacaram e influenciaram os filósofos da Idade Moderna, ao apresentarem soluções significativas para a problemática do conhecimento: Racionalismo: afirmavam que a fonte do conhecimento verdadeiro é a razão operando por si mesma, sem o auxílio da experiência sensível (...). Para eles o verdadeiro conhecimento não é produto da experiência sensorial, mas sim um processo mental ideal (CHAUÍ, 2002, p. 117). Segundo a visão dos racionalistas existe um conhecimento a priori que não precisa ser justificado pela experiência sensorial (NONAKA; TAKEUCHI, 1997). Empirismo: acreditavam que a fonte de todo e qualquer conhecimento é a experiência sensível, responsável pelas idéias da razão e controlando o trabalho da própria razão (...). Suas principais formas são a sensação e a percepção. Eles alegam não existir conhecimento a priori e que a única fonte de conhecimento é a experiência sensorial (CHAUÍ, 2002, p. 117). Como se pode observar e conforme declaram Nonaka e Takeuchi (1997, p. 27-8) as duas principais correntes filosóficas (racionalistas e empiristas) diferemse nos seus conceitos em relação à constituição da fonte do conhecimento. Jonh Locke não concordava com a posição dos racionalistas de que a mente humana já vem equipada com idéias ou conceitos inatos. Locke comparava a mente humana a uma tábula rasa ou uma folha de papel em branco, sem nenhuma idéia a priori. Por outro lado, Kant não concordava com os empiristas, os quais argumentavam que a experiência seria a única fonte de conhecimento. Kant afirmava que embora todo conhecimento comece com a experiência isso não quer dizer que todo conhecimento surja da experiência (p. 28). Além destas diferenças, os racionalistas e empiristas se divergem também no que diz respeito ao método pelo qual se obtém conhecimento. O racionalismo argumenta que se pode obter conhecimento por dedução (através de conceitos, leis ou teorias) e o empirismo

24 Capítulo 5 Visão filosófica 22 defende que o conhecimento é obtido por indução (por meio de experiências sensoriais específicas). Assim, estas foram algumas das inúmeras divergências que surgiram entre os filósofos que se posicionavam entre a razão dos racionalistas ou na experiência sensível dos empiristas. Naquela época os filósofos buscavam compreender a origem e a forma de se chegar ao conhecimento. Se era por meio da razão ou percepção, se a mente humana já nascia com algum conhecimento, ou se este era adquirido por meio de experiências. A preocupação maior era chegar ao verdadeiro caminho da fonte do conhecimento. Nos dias atuais, busca-se novamente entender as origens e conceitos do conhecimento, uma vez que este passou a ser um bem de valor na chamada sociedade do conhecimento. Nesta sociedade, o conhecimento é chamado de capital intelectual, o qual pode ser definido como a soma de experiência, talentos e conhecimentos dos indivíduos. Na ótica da sociedade do conhecimento, existem dois tipos de conhecimento: o tácito e o explícito. O conhecimento tácito é o que está na mente das pessoas e, o explícito é o conhecimento codificado, aquele encontrado em livros, manuais, memória de computador, entre outros. Percebe-se que, mesmo possuindo uma nova finalidade, as atuais definições de conhecimento são influenciadas pela visão dos antigos filósofos. As seis formas ou graus de conhecimento, segundo os estudos de Aristóteles - sensação, percepção, imaginação, memória, raciocínio e intuição - estão presentes na teoria dos consultores e estudiosos da sociedade do conhecimento, quando estes se referem ao conhecimento tácito. Desta forma, justifica-se a razão de estudar as bases filosóficas do conhecimento antes de iniciar a apresentação do verdadeiro objetivo deste trabalho, que é abordar os temas relacionados à GC. Destarte, o conhecimento é objeto de estudo desde os tempos dos antigos filósofos. Ao estudá-lo eles buscavam o entendimento do ser, tentando descobrir a origem do conhecimento. Logo, o conhecimento era visto como fonte de

25 Capítulo 5 Visão filosófica 23 sabedoria. Hoje, o conhecimento é novamente fator de discussão, sendo estudado não apenas por filósofos, mas por consultores, diretores e gerentes empresariais que contemplam o conhecimento com uma visão diferente daquela exposta por Pitágoras, quando afirmava que o conhecimento não deveria ser usado para vencer competidores. Na sociedade empresarial o conhecimento é, sim, fonte para vencer competidores e gerar riquezas. Constata-se que há divergência entre a concepção do conhecimento da Antigüidade comparando-a com a atual sociedade. Entretanto, as bases filosóficas continuam influenciando os estudos da humanidade, inclusive as teorias da sociedade do conhecimento. Assim, o conhecimento tem hoje uma outra finalidade, permanecendo de maneira implícita a essência da filosofia. Nos próximos capítulos, apresenta-se a definição e conceito de conhecimento sob o ponto de vista da GC. 5.1 Tipos de conhecimento Dando prosseguimento aos conceitos relacionados à GC, expõe-se neste capítulo os tipos de conhecimentos importantes à compreensão deste tema. Segundo literatura consultada, estes conhecimentos são classificados em: tácito e explícito. O conhecimento tácito ou implícito é aquele que está na mente das pessoas, as experiências e insights. O conhecimento explícito é encontrado em relatórios, livros, banco de dados e palestras. É o conhecimento que outrora foi tácito e ao ser explicitado é compartilhado com todos os funcionários da instituição.

26 Capítulo 5.1 Tipos de conhecimento 24 Teixeira Filho (2001, p. 23) afirma que o conhecimento tácito é aquele que as pessoas possuem, mas não está descrito em nenhum lugar, residindo apenas em suas cabeças e, o conhecimento explícito é aquele que está registrado de alguma forma e, assim, disponível para as demais pessoas. Na visão de Neves (2002) o conhecimento tácito é a verdadeira chave para resolver problemas e está associado a experiências, emoções e valores do indivíduo, enquanto o conhecimento explicito é considerado um suporte para a organização. Nonaka e Takeuchi (1997, p ) argumentam que o conhecimento é criado por meio da interação entre o conhecimento tácito e explícito; assim, os autores criaram a teoria da conversão do conhecimento, conforme demonstra a Figura 1. Conhecimento tácito em Conhecimento explicito Conhecimento Tácito Socialização Externalização do Conhecimento explícito Internalização Combinação Figura 1: Teoria da conversão do conhecimento Socialização: conversão do conhecimento tácito em tácito: Na socialização, o indivíduo adquire conhecimento a partir da experiência de outros, sem utilizar a linguagem. Por exemplo, os aprendizes trabalham com seus mestres e aprendem sua arte, por meio de observação e não fazendo uso da linguagem.

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