EMENTA: VISÃO MONOCULAR. CARACTERIZAÇÃO DE DEFICIÊNCIAS DECRETO Nº 5.296/04. NOTA TÉCNICA Nº 12/2007 CORDE/SEDH/PR.460/06 DA CÂMARA DOS DEPUTADOS.

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1 CÂMARA DE COORDENAÇÃO E REVISÃO PGT/CCR/Nº 4570/2008 INTERESSADOS: EXPRESSO RODOVIÁRIO SÃO MIGUEL LTDA ASSUNTO: CONTRATAÇÃO DE PORTADORES DE DEFICIÊNCIA: MÍNIMO LEGAL EMENTA: VISÃO MONOCULAR. CARACTERIZAÇÃO DE DEFICIÊNCIAS DECRETO Nº 5.296/04. NOTA TÉCNICA Nº 12/2007 CORDE/SEDH/PR. VETO AO PL Nº 20/08 DO SENADO FEDERAL E Nº 7.460/06 DA CÂMARA DOS DEPUTADOS. A pessoa com visão monocular não será considerada pessoa com deficiência visual se os valores de acuidade visual no olho único, com a melhor correção óptica, estiverem acima de 20/70 (0,3). Caso os valores de acuidade visual do olho único, com a melhor correção óptica, estiverem abaixo de 20/70 (0,3) a pessoa será classificada como pessoa com deficiência visual (visão subnormal ou cegueira, de acordo com os valores de acuidade visual observados). A visão monocular não caracteriza impedimento para o exercício profissional. RELATÓRIO Trata-se de Procedimento Preparatório instaurado para verificar a não contratação de empregados reabilitados ou pessoa com deficiência em afronta ao Art. 93, da Lei nº 8.213/91.

2 A empresa investigada, obrigada a contratar sete trabalhadores com deficiência, juntou documentação que comprova a contratação de cinco pessoas com deficiência e de outros dois trabalhadores com visão monocular. Orientada sobre a não admissibilidade da visão monocular no rol do Dececreto nº 5.296/04, a empresa (fls 263/264) juntou declaração da Médica do Trabalho Letícia Batista de Oliveira, do Comitê de Gerenciamento Ocupacional ERGOS, defendendo a inclusão desses trabalhadores na cota pois são, de fato, limitados para o mercado de trabalho e necessitam de assistência. A Procuradora Lutiana Nacur Lorentz, promoveu o arquivamento do procedimento (fls 274/280) considerando sanada a irregularidade pela contratação desses dois trabalhadores com visão monocular apesar da legislação que caracteriza as deficiências não inclui-la para integrar a reserva obrigatória nas empresas. Colacionou jurisprudências do STJ e STF nas quais a visão monocular foi considerada para a reserva de vagas em concurso público. VOTO Em que pesem as decisões paradigmáticas citadas na promoção de arquivamento considerando a visão monocular como deficiência, as mesmas decorreram de processos judiciais individuais e atendendo peculiaridades próprias, inter partes e sem força vinculativa. Os casos apontados, estão fora do padrão conceituado de deficiência e do Decreto nº 5.296/04. Recentemente foi vetado o Projeto de Lei (PL nº 20/08 do Senado Federal e nº 7.460/06 da Câmara dos Deputados) para que as pessoas com visão monocular fossem 2

3 incluídas no rol de pessoas com deficiência. Referido projeto de lei visava a modificação da Lei nº 7.853/89. Foi rechaçado na mensagem de veto nº 570, de 31 de julho de : Segundo a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas relacionados à Saúde - Décima Revisão (CID-10), o enquadramento da visão monocular como deficiência dependerá da acuidade visual do olho único. O seu enquadramento sem a mencionada diferenciação causará distorções nas ações afirmativas nesta seara, prejudicando pessoas com outras deficiências. Ademais, deve-se destacar que está em tramitação no Congresso Nacional projeto de lei destinado a instituir o Estatuto da Pessoa com Deficiência, que estabelece um modelo único de classificação. Além disso, foi instituído em 26 de abril de 2007 Grupo Interministerial com o objetivo de avaliar o modelo de classificação e valoração das deficiências utilizado no Brasil e definir a elaboração e adoção de um modelo único para todo o País. Ao dispor sobre a visão monocular individualmente, o Projeto de Lei segue caminho oposto ao que está se delineando nesses dois Poderes da República. O veto presidencial apoiou-se na Nota Técnica nº 12/2007 CORDE/SEDH/PR, da Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência CORDE, resultado de uma câmara técnica que tive o privilégio de compor como convidada especialista. Tomo as razões da referida nota técnica para decidir pela não homologação da promoção de arquivamento, destacando inclusive o pensamento da Sociedade Brasileira de Visão Subnormal, contrário ao reconhecimento da visão monocular como deficiência, posto que esta não impede a atividade profissional: Visão Monocular De acordo com a 10ª revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas relacionados à Saúde Décima Revisão (CID-10), uma pessoa tem visão subnormal quando sua acuidade visual corrigida no melhor olho é menor que 6/18 (0,3) e maior ou 1 Acessível em: 3

4 igual a 3/60 (0,05) (graus 1 e 2 de comprometimento visual) e é cega quando esses valores encontram-se abaixo de 3/60 (0,05) (graus 3, 4 e 5 de comprometimento visual). Quanto aos valores de campo visual, a pessoa com campo visual entre 5 e 10 graus em torno do ponto central de fixação deve ser considerada no grau 3 de comprometimento visual e a pessoa com campo até 5 graus em torno do ponto central de fixação deve ser considerada no grau 4 de comprometimento visual, mesmo que a acuidade visual não esteja comprometida. O Decreto nº 5.296, de 2 de dezembro de 2004 caracteriza a pessoa com deficiência visual como cega, quando sua acuidade visual corrigida é igual ou menor que 0,05 no melhor olho e como pessoa com baixa visão quando sua acuidade visual corrigida estiver entre 0,3 e 0,05 no melhor olho. Nos casos em que a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60 graus; ou ocorrência simultânea de quaisquer das condições anteriores, a pessoa também será considerada pessoa com deficiência visual. A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde CIF, tem como objetivo geral proporcionar uma linguagem unificada e padronizada como um sistema de descrição da saúde e de estados relacionados à saúde, como por exemplo, educação e trabalho. Os domínios contidos na CIF podem, portanto, ser considerados como domínios relacionados à saúde. Esses domínios são descritos com base na perspectiva do corpo, do indivíduo e da sociedade em duas listas básicas: (1) Funções e Estruturas do Corpo, e (2) Atividades e Participação. Como uma classificação, a CIF agrupa sistematicamente diferentes domínios de uma pessoa em um determinado estado de saúde (o que uma pessoa com uma doença ou transtorno faz ou pode fazer). Funcionalidade é um termo que abrange todas as funções do corpo, atividades e participação; de maneira similar, a incapacidade é um termo que abrange limitação de atividades ou restrição na participação. A CIF também relaciona os fatores ambientais que interagem com todos estes construtos. Neste sentido, ela permite ao usuário registrar perfis úteis da funcionalidade, incapacidade e saúde dos indivíduos em vários domínios. A CID-10 e a CIF são complementares, e os usuários são estimulados a utilizar esses dois membros da família de classificações internacionais da OMS em conjunto. A CID-10 fornece um 4

5 diagnóstico de doenças, distúrbios ou outras condições de saúde, e essas informações são complementadas pelas informações adicionais fornecidas pela CIF sobre funcionalidade. Em conjunto, as informações sobre o diagnóstico e sobre a funcionalidade fornecem uma imagem mais ampla e mais significativa da saúde da pessoa ou população, que pode ser utilizada para propósitos de tomada de decisão. O Conselho Internacional de Oftalmologia (2002) adotou os critérios propostos pela CID-10 e CIF. São propostas categorias de deficiência visual, pela Organização Mundial da Saúde e Conselho Internacional de Oftalmologia, revistas no ano de 2003: deficiência visual leve ou ausência de deficiência visual (Categoria 0 acuidade visual igual ou melhor que 6/18); deficiência visual moderada (Categoria 1); deficiência visual grave (Categoria 2) e cegueira (Categorias 3,4 e 5). O desenvolvimento da visão em cada olho ocorre desde o nascimento até cerca de 6 a 7 anos, apresentando um período de plasticidade sensorial maior nos dois primeiros anos. Nesta fase, qualquer obstáculo ao desenvolvimento visual causa importante baixa da acuidade visual. Assim, um estímulo anormal pela presença de interação binocular inadequada de imagens em cada olho como ocorre no estrabismo e na anisometropia*, ou uma imagem borrada ou distorcida, por opacidade de meio por catarata congênita ou presença de inflamação intra-ocular ou hemorragia intra-ocular, ametropia significante, pode interromper este desenvolvimento visual normal, levando a um processo de supressão, em nível cortical, resultando em baixa visual denominada ambliopia. A ambliopia é, portanto, definida como uma diminuição da acuidade visual unilateral ou bilateral, por uma privação visual e /ou interação binocular anormal, com ou sem lesão orgânica, durante o período de imaturidade do sistema visual e ocorre entre 2 a 5% da população. Dependendo da causa, da gravidade, do tempo de aparecimento, ou seja, quanto mais precoce o início e quanto maior a duração deste estímulo anormal nesta fase de maturação visual, mais grave será o impacto neurológico e mais profunda será a ambliopia.. Dessa forma, 5

6 quantitativamente, a ambliopia pode ser leve, moderada e profunda, clinicamente definida pela acuidade visual monocular apresentada. Visão monocular define-se como uma condição onde há cegueira de um dos olhos (Categorias 3,4 e 5 da CID-10), com comprometimento ou não da função visual do olho contralateral. O comprometimento da função visual do olho contralateral será classificado de acordo com os critérios adotados pela CID-10 e CIF. As causas de perda visual podem ser congênitas ou adquiridas e podem acometer um ou ambos os olhos. Causas oculares congênitas ou adquiridas precocemente: opacidade de meio, ou seja, opacidade na córnea, no cristalino, no vítreo; erro refrativo significante (graus significantes de miopia, hipermetropia, astigmatismo) e lesões retinianas. Imagens borradas, distorcidas ou de tamanhos diferentes em cada olho são suficientes para prejudicar o desenvolvimento visual normal, com conseqüente ambliopia ou baixa visual. As causas mais freqüentes de diminuição das respostas visuais na infância são: estrabismo, ambliopia, altas ametropias, erros refrativos não corrigidos, inflamação intra-ocular por toxoplasmose ocular congênita (esta, freqüentemente leva à baixa visual com retinocoroidite macular cicatrizada), catarata congênita, doenças degenerativas da retina, malformação ocular, glaucoma congênito, atrofia óptica, retinopatia da prematuridade, retinoblastoma e traumas. Quanto às causas de diminuição das respostas visuais na população adulta e idosa observamos: erros refrativos não corrigidos, catarata não operada, a degeneração macular relacionada à idade (DMRI), a retinopatia diabética, o glaucoma e traumas. De acordo com as normas apresentadas, a pessoa com visão monocular (olho único) não será considerada pessoa com deficiência visual se os valores de acuidade visual no olho único, com a melhor correção óptica, estiverem acima de 20/70 (0,3). Caso os valores de acuidade visual do olho único, com a melhor correção óptica, estiverem abaixo de 20/70 (0,3) a pessoa será classificada como pessoa com deficiência visual (visão subnormal ou cegueira, de acordo com os valores de acuidade visual observados). 6

7 Cabe, ainda, ressaltar que a pessoa com visão subnormal ou cegueira necessita de auxílios especiais para desenvolvimento de suas atividades de vida diária: auxílios ópticos/não ópticos/eletrônicos para maior resolução visual (nos casos de visão subnormal), auxílios para orientação e mobilidade (como, por exemplo, uso da bengala, guia vidente ou cão-guia), auxílios na área da informática (programas para leitura de textos, programas para ampliação da imagem na tela). A pessoa com deficiência visual requer a orientação de serviços de reabilitação especializados para a promoção de sua inclusão na escola, no trabalho e na sociedade. Comparativamente, a pessoa com visão monocular e que não se enquadra na definição de deficiência visual (por apresentar respostas visuais consideradas normais no olho remanescente) não teria necessidade de tais auxílios e nem de serviços especializados de reabilitação, uma vez que seu desempenho nas atividades de vida diária não está prejudicado. Verifica-se atualmente a promoção da inclusão do indivíduo com deficiência visual a partir de uma série de ações afirmativas (cotas em concursos, isenção de tarifas para transportes coletivos, por exemplo). A Sociedade Brasileira de Visão Subnormal acredita que a inclusão de pessoas com visão monocular (com visão remanescente dentro dos valores de acuidade visual normal) na definição de deficiência visual, de acordo com o exposto anteriormente, é contrária a toda política de inclusão social da pessoa com deficiência visual que vem sendo desenvolvida no nosso país. Assim, torna-se condenável a restrição ao acesso de qualquer candidato à empregabilidade nos âmbitos público e privado. A visão monocular não caracteriza impedimento para o exercício profissional. No mais, a alegação (uma ameaça revelada!) da empresa de que a eventual rejeição dos laudos médicos pode causar a demissão dos dois trabalhadores com visão monocular é desproporcional em relação ao seu poder potestativo. Além de absurda, deve ser encarada como mais um elemento de convicção para se persistir na atuação e no cumprimento do Art. 93, da Lei nº 8.213/91. 7

8 Do exposto, NÃO HOMOLOGO a promoção de arquivamento devendo os autos retornar a origem dar continuidade às investigações. Deixo, no momento, de aplicar o inciso II, 4º, Art. 10, Resolução nº69/07, devendo a designação atender às da Regional. Brasília, 22 de agosto de Maria Aparecida Gugel Conselheira Relatora 8

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