Ética Empresarial e Responsabilidade Social Corporativa à Luz da Teoria de Julgamento Moral, de Lawrence Kohlberg

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1 Ética Empresarial e Responsabilidade Social Corporativa à Luz da Teoria de Julgamento Moral, de Lawrence Kohlberg BUSINESS ETHICS AND CORPORATE SOCIAL RESPONSIBILITY IN LIGHT OF LAWRENCE KOHLBERG S THEORY OF MORAL JUDGEMENT Resumo Este ensaio trata da relação entre a ética e as ciências econômicas. Para tanto, discute o interesse na ética empresarial e a evolução da preocupação com a responsabilidade social corporativa, tomando por base as teorias de Swift e Zadek. A seguir, apresenta a teoria do julgamento moral de Kohlberg, comparando os estágios evolutivos nela definidos com as categorias das discussões sobre ética empresarial. Mostra também a necessidade de se reconhecer que a responsabilidade social corporativa surgiu em resposta às reivindicações da sociedade. Indica que a ação da maioria das empresas ainda corresponde aos estágios mais elementares de desenvolvimento moral e que as expectativas quanto ao seu papel, como fundamental para reverter o quadro de pobreza global e a degradação ambiental dificilmente, poderão ser cumpridas por cada uma delas, isoladamente. Conclui sobre a necessidade de maior comunicação e colaboração entre os vários setores da sociedade para desenvolver uma ética econômica e empresarial aplicada à transformação social. Palavras-chave ÉTICA EMPRESARIAL RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA JULGAMENTO MORAL. MARGARET ANN GRIESSE Global Responsibility Project, Concordia University, Montréal/Canadá Abstract This paper deals with the relationship between ethics and economic sciences. It discusses the interest in business ethics and the evolution of the concept of corporate social responsibility as outlined in the theories of Swift and Zadek. Next, it presents Kohlberg s theory of moral judgement and compares the evolution of moral stages to the categories of business ethics. In addition, it shows the need to acknowledge that corporate social responsibility came as a response to societal demands. That most of the actions of businesses still correspond to elementary stages of moral development indicates that the expectation that business play a fundamental role in reversing the present context of global poverty and environmental degradation cannot be met in isolation. In conclusion, communication and collaboration is needed among the various sectors of society in order to develop an economic and business ethics whose application could result in social transformation. Keywords BUSINESS ETHICS CORPORATE SOCIAL RESPONSIBILITY MORAL JUDGMENT. Impulso, Piracicaba, 14(35): 33-48,

2 The nature of modern economics has been substantially impoverished by the distance that has grown between economics and ethics. AMARTYA SEN INTRODUÇÃO Aeconomia moderna, na condição de ciência, é geralmente caracterizada por uma vasta área de pesquisas empíricas e teóricas sobre temas como econometria, contabilidade, administração, comércio e marketing, entre outros, que raramente tratam de questões morais. Recentemente, porém, ao avaliar sobretudo processos de tomada de decisões e seu impacto global, essa área tem se aberto a discussões ambientais, sociais e particularmente éticas, mostrando que o diálogo entre ética e economia é possível. 1 As empresas, entendidas como unidades fundamentais no contexto global, são cada vez mais desafiadas a aplicar princípios éticos e a responsabilizar-se por atos relacionados direta ou indiretamente com os problemas da sociedade. Em casos como esses, elas não podem se limitar a uma visão rígida e estreita de seus interesses particulares, e sim desenvolver critérios específicos fazendo jus à sua realidade, isto é, considerando não somente fatores econômicos, mas também os contextos políticos, os impactos sociais e ambientais e vários outros aspectos associados às suas atividades. Com base nessas considerações práticas, surge, cada vez mais, e com maior apelo, a ênfase no conceito de ética empresarial. 2 O NOVO INTERESSE NA ÉTICA EMPRESARIAL A discussão recente sobre ética começou a ganhar força na década de 1980, provocando uma série de mudanças de comportamento nas empresas. 3 Pesquisa realizada pelo Bentley College Center for Business Ethics, nos Estados Unidos, com 244 multinacionais, apresenta dados concretos sobre tais transformações. Em 1990, 46% delas afirmaram estar expandindo suas ações no sentido de incorporar a ética como uma questão institucional, ao passo que, em 1984, somente 19% haviam tomado iniciativas nessa área. Por outro lado, 49% já tinham adotado algu- 1 Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia em 1998, tem sido um dos mais importantes defensores desse diálogo. Cf. SEN, A expressão ética empresarial é utilizada aqui em sentido amplo, ainda que em alguns estudos ela se refira mais ao comportamento interno da empresa, ou seja, à maneira como os funcionários resolvem problemas éticos de seu trabalho no dia-a-dia. 3 A preocupação com questões éticas nas relações econômicas e comerciais tem antecedentes de longa data, desde o Código de Hamurabi, passando pelas associações profissionais da Idade Média, chegando às iniciativas hoje em dia consideradas paternalistas, como as ações filantrópicas de Ford e Carnegie, nos Estados Unidos, no século XX. Cf., por exemplo, BAUTIER, 1971; SWARD, 1972; GIES & GIES, 1972; BARBOSA, PEDRON & CAFFARATE, Impulso, Piracicaba, 14(35): 33-48, 2003

3 4 WEISS, 1994, p Para uma análise histórica e evolutiva da reação das empresas às denúncias ambientais, cf. HOFFMAN, Cf. FISCHER & FALCONER, 1998; FERNANDES, 1994; FORSTATER, MACDONALD & RAYNARD, ma forma de treinamento no âmbito da ética em 1990, apontando um avanço substancial com relação a 1984, quando esse índice foi de 35%. 4 As razões para essas mudanças são várias. Uma delas é que as expectativas da sociedade civil aumentaram com respeito à atuação das empresas, ao mesmo tempo em que a confiança da sociedade para com essas instituições diminuía. Para lidar com essa situação, elas começaram a desenvolver após um período de negação de sua responsabilidade perante a sociedade projetos pró-ativos, destinados a evitar o julgamento social negativo sobre suas atividades. Particularmente as transnacionais, sensíveis a possíveis denúncias, passaram a incorporar programas de ética empresarial e organizaram códigos de desempenho ético para seus funcionários, criando setores e recrutando recursos humanos para esse fim. 5 Além disso, há uma percepção generalizada de que o Estado nacional não tem tido condições para responder às necessidades de suas populações. Mesmo nos países onde os benefícios do Estado são maiores nos chamados welfare states ou Estados sociais democráticos, a crise do Estado tem tornado difícil ao poder público proporcionar uma vida digna a todos os cidadãos e cidadãs. Em resposta a essa situação, surgiram outras tentativas de providenciar tais benefícios, tendo em vista o bem comum. No Brasil, por exemplo, empresas, organizações civis e várias instâncias do Estado envolveram-se em alianças que têm redundado no desenvolvimento de novos modelos de atuação para os setores público, privado e também para o chamado terceiro setor. 6 Outra explicação para o interesse na ética empresarial pode estar relacionada, em parte, a um projeto internacional, delineado pela ONU e por outras organizações supranacionais, com os objetivos de reduzir a pobreza no mundo, defender o meio ambiente e promover o desenvolvimento sustentável. O Pacto Global foi uma iniciativa do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, lançado formalmente em Ele solicita às empresas que explicitem sua adesão a nove princípios universais, relativos a direitos humanos, normas trabalhistas e questões ambientais. Nas palavras de Kofi Annan: Vamos nos decidir por unir as forças do mercado com a autoridade de ideais universais. Resolvemos reconciliar as forças criativas da iniciativa privada com as necessidades dos desfavorecidos e as demandas das gerações futuras. 7 Aliado a isso, a ética empresarial pode ser vista como parte de uma resposta às situações com as quais somos atualmente confrontados: preocupações com o crescente número de pessoas vivendo em condições de miséria, a percepção generalizada de que a integridade do meio ambiente não pode ser mantida com os atuais níveis de degradação, o alarmante avanço da pandemia de aids no continente africano, os crescentes conflitos internacionais e a ampliação do impacto do terrorismo, além da globalização e do aumento na concorrência internacional. Também devem ser mencionadas questões que afetam mais diretamente as empresas, entre elas, as exigências e a crescente desconfiança das sociedades quanto à ação empresarial, incluindo as denúncias de organizações internacionais e da sociedade civil, assim como o desenvolvimento de tecnologias de comunicação a permitir a rápida divulgação de informações que podem afetar o desempenho, a visibilidade, a respeitabilidade e o valor de mercado de determinada organização. Todos esses pontos podem ser encarados como razões para o renovado interesse na discussão sobre o papel da empresa na sociedade. Ao levar em conta esse amplo contexto, podemos concluir que o interesse pelo tema da ética empresarial não é um fenômeno puramente endógeno, nascido dentro das empresas e depois ampliado para esfera social. Pelo contrário, ele não pode ser visto de modo isolado, mas também como uma 7 UNITED NATIONS Global Compact: <www.unglobalcompact.org>, jan./03 [essa e todas as traduções a seguir são da própria autora]. Impulso, Piracicaba, 14(35): 33-48,

4 reação à situação econômica paradoxal em que nos encontramos. 8 SOLOMON, R.C. Corporate Roles, Personal Virtues: an Aristotelian approach to business ethics, in: WINKLER & COOMBS, 1993, p WEISS, 1994, p. 6. DA ÉTICA EMPRESARIAL À RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA As razões aqui colocadas não explicitam o conteúdo das iniciativas, nem como a ética empresarial poderia ser definida. Tampouco dizem, mais especificamente, como ela é implementada dentro das empresas. Recentemente, expressões como responsabilidade social corporativa, filantropia, cidadania empresarial, marketing empresarial, ética empresarial, terceiro setor e balanço social, entre outras, entraram no vocabulário econômico e ganharam aceitabilidade nos discursos sociais, empresariais e políticos, sem muita reflexão anterior sobre seu significado ou suas conseqüências. Em artigo bem-humorado, Solomon comenta que o problema referente à ética empresarial não é mais a ignorância, pois tanto as universidades quanto as empresas e organizações civis são conscientes dos discursos e estão se envolvendo com o assunto. O problema diz respeito a uma confusão muito mais sofisticada sobre o que devemos esperar do tema e como a teoria sobre ética poderia ser útil nas práticas empresariais. 8 De forma resumida e geral, Weiss propõe definir a ética empresarial como a arte e a disciplina de aplicar princípios éticos para examinar e solucionar dilemas morais complexos. 9 Mais analiticamente, e tomando a perspectiva das teorias micro e macroeconômicas, podemos notar também duas vertentes gerais nessa discussão. Por um lado, teorias macroéticas sobre ética empresarial englobam o direito, a filosofia sociopolítica e a economia, tratando, por exemplo, os mecanismos de distribuição de bens dentro do mercado livre, os direitos à propriedade e as políticas públicas. Por outro, teorias microéticas sobre ética empresarial focalizam o indivíduo no interior da corporação, e o seu papel e comportamento dentro e fora da empresa, ao passo que, na corporação particular, poderiam discutir a relação dela com funcionários e membros da comunidade, no que diz respeito a discriminação, assédio sexual, qualidade do produto, relações trabalhistas e outros. 10 Visto por outra ótica, o discurso sobre ética no mundo empresarial e nas organizações civis tem enfatizado a idéia de responsabilidade diante das expectativas da sociedade e dos complexos dilemas morais que nos confrontam em vários níveis. O termo preferido na literatura empresarial para caracterizar essa questão tem sido responsabilidade social corporativa. São várias as suas definições e múltiplas as dimensões subentendidas: desde a tentativa de definir o compromisso das empresas com seus próprios empregados e clientes, passando pela normatização de seus procedimentos internos e chegando ao compromisso com a sociedade, com os direitos humanos, com a preservação do meio ambiente e com o desenvolvimento sustentável. No Brasil, o Instituto Ethos, criado, em 1998, como uma associação de empresas com o objetivo de disseminar a prática de responsabilidade social nas organizações brasileiras, num processo de avaliação e aperfeiçoamento contínuo, relata a sua visão quanto à participação delas da seguinte forma: As empresas, adotando um comportamento socialmente responsável, são poderosos agentes de mudança para, juntamente com Estados e sociedade civil, construir um mundo melhor. Este comportamento é caracterizado por uma coerência ética nas suas ações e relações com os diversos públicos com os quais interagem, contribuindo para o desenvolvimento contínuo das pessoas, das comunidades e de suas relações entre si e com o meio ambiente SOLOMON, R.C. Corporate Roles, personal virtues: an Aristotelian approach to business ethics, in: WINKLER & COOMBS, Cf. também SOLOMON & HANSON, INSTITUTO ETHOS: <http://www.ethos.org.br/docs/institucional/visao.shtml>, Impulso, Piracicaba, 14(35): 33-48, 2003

5 No quadro internacional, o Conselho Mundial de Negócios para o Desenvolvimento Sustentável (World Business Council for Sustainable Development-WBCSD) chegou a propor, após pesquisar as tendências regionais, nos vários continentes, durante dois anos, a seguinte definição geral de responsabilidade social corporativa: compromisso das empresas em contribuir para o desenvolvimento economicamente sustentável, trabalhando com funcionários, suas famílias, a comunidade local e a sociedade em geral para melhorar sua qualidade de vida. 12 Entre outras tentativas de definir o compromisso empresarial com a responsabilidade social, essas foram usadas como base para o desenvolvimento de vários códigos e guias, de modo a orientar as empresas a desenvolver ações e medidas que, em seu conjunto, são entendidas como indicadores de sua responsabilidade social corporativa. Por exemplo, partindo de sua visão global, o Instituto Ethos publicou uma lista de indicadores para que a empresa possa avaliar o seu desempenho nas seguintes áreas: valores e transparência, público interno, meio ambiente, fornecedores, consumidores e clientes, comunidade, governo e sociedade. 13 Outra iniciativa em âmbito mundial é a Norma de Responsabilidade Social SA8000, lançada em 1997 e revisada, pela Social Accountability International (SAI), em A SA8000 consiste num código para a auditoria de condições trabalhistas básicas, apoiado nas normas da Organização Internacional de Trabalho, na Declaração dos Direitos Humanos e na Convenção para os Direitos da Criança. Abrange nove temas: trabalho infantil, trabalho forçado, segurança e saúde no trabalho, liberdade de associação e direito à negociação coletiva, discriminação, práticas disciplinares, horário de trabalho, remuneração e sistemas de gestão. 14 Esse sistema de certificação é similar ao esquema internacional de Avaliação da 12 HOLME & WATTS, 2000, p INSTITUTO ETHOS: <http://www.ethos.org.br/docs/ conceitos_praticas/indicadores/default.asp>, Cf. SOCIAL ACCOUNTABILITY International: <www.sa-intl.org>, ou <www.cepaa.org/document%20center/standard%20portuguese.doc>, 2003; e CICCO, Conformidade por Organismos Certificadores de Sistemas de Gestão da Qualidade (ISO 9000) e ao Sistema de Gestão Ambiental (ISO 14000). 15 A Global Reporting Initiative (GRI) é uma instituição dedicada a desenvolver e disseminar as Sustainability Reporting Guidelines, diretrizes voluntárias organizadas de acordo com as dimensões econômicas, ambientais e sociais. A GRI foi desenvolvida em colaboração com o Programa de Meio Ambiente da ONU e o Pacto Global. Essas diretrizes ou guias medem não o desempenho, mas as formas de elaboração de relatórios (reporting), para que a divulgação de informação sobre a organização esteja em conformidade com os princípios de globalidade, transparência, inclusividade, auditabilidade, relevância e contexto de sustentabilidade por meio de um processo multistakeholder. 16 Essas são algumas das inúmeras iniciativas lançadas nos últimos anos. Podemos observar, de modo geral, a tendência de reivindicar a aplicação concreta dos princípios universais, já aceitos em grande parte, pela comunidade internacional, como a Declaração dos Direitos Humanos e as recomendações para a diminuição dos níveis de agressão contra o meio ambiente. A responsabilidade social é vista, assim, como um veículo para a transformação social, desde que a empresa vá além de seus interesses próprios estritamente definidos, posicionando-se como ator importante na comunidade, no contexto nacional e até em relação aos processos internacionais. Voltando a Solomon, podemos concluir que somos atualmente confrontados por uma confusão sofisticada ao tentar relacionar as diferentes definições de ética empresarial e de responsabilidade social corporativa. Tal confusão ocorre não somente por haver concepções de ética empresarial segundo a micro e a macroeconomia, mas também em razão de diretrizes, guias e 15 ISO-International Organization for Standardization (Organização International de Standarização) é uma organização não-governamental e a maior organizadora de códigos voluntários para organizações e empresas do mundo. Os códigos mais conhecidos são ISO 9000, sobre gestão de qualidade, e ISO 14000, que lida com gestão do meio ambiente. Para maiores informações, cf. <www.iso.ch>. 16 GLOBAL REPORTING INITIATIVE, Impulso, Piracicaba, 14(35): 33-48,

6 indicadores distintos para definir e operacionalizar o que se entende por responsabilidade social corporativa. Além disso, as expectativas são grandes e trazem consigo várias questões. Em alguns casos, as empresas são vistas como catalisadores e transformadores do contexto global. Porém, que condições elas têm de atender a esses anseios? Trata-se de uma intrincada situação, que nos leva a indagar: até que ponto podemos relacionar esse fenômeno com outras conceituações sobre ética e sua aplicação a dilemas morais complexos? AS GERAÇÕES EVOLUTIVAS DA RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA Para dar sentido e sistematização às várias definições e experiências apresentadas, tornamos ao trabalho de Tracey Swift e Simon Zadek. 17 Eles partem da análise da situação de empresas no mercado europeu para concluir que as iniciativas na área de responsabilidade social corporativa permanecem limitadas, quando não são incorporadas em estratégias e políticas mais amplas. Argumentam que, até agora, o foco tem sido a empresa particular (microética) e a forma como ela reage a novas situações e desenvolve políticas de responsabilidade social, ao passo que o novo desafio seria a possibilidade de operacionalizar uma política em conjunto com outros setores da sociedade (macroética). 18 Para atingi-lo, as empresas precisariam desenvolver um entendimento mais sofisticado sobre responsabilidade social corporativa. Swift e Zadek delineiam três estágios ou gerações de responsabilidade social corporativa, tomando por base suas pesquisas sobre a evolução do pensamento ético dentro das empresas. O primeiro é o estágio básico. Nele, a empresa considera a responsabilidade social corporativa como mera obrigação de cumprir com as leis referentes 17 SWIFT & ZADEK, Esse estudo foi organizado por The Copenhagen Centre (TCC), centro autônomo de reconhecimento internacional estabelecido pelo governo da Dinamarca, e AccountAbility, organização não-governamental localizada em Londres e uma das primeiras entidades a lidar com a questão da responsabilidade social corporativa. Simon Zadek é diretor-presidente da AccountAbility e Tracy Swift é diretor de Pesquisa dessa organização. 18 Ibid., p. ii. a impostos, segurança e saúde, direitos trabalhistas, direitos do consumidor, regulamentação sobre meio ambiente e outras normas vigentes. Para ser considerada boa e responsável, ela deve simplesmente atuar de acordo com as regras do jogo. Esse estágio não significa necessariamente uma política de responsabilidade social, e sim o mínimo a se esperar de uma empresa em termos de comportamento moral, pois cumprir as leis não seria necessariamente uma grande virtude, mas o simples exercício de uma cidadania que visa a que suas ações não sejam consideradas criminosas. Mais além desse estágio inicial, Swift e Zadek definem a primeira geração da responsabilidade social corporativa (low-level business case), 19 em que a empresa percebe a importância de evitar riscos ou crises e, para tanto, implementa processos de risk-management de curto prazo, ações pró-ativas e doações filantrópicas. A expressão business case trata de uma justificativa apoiada nos benefícios que poderiam melhorar o funcionamento da empresa, e não em qualquer princípio ético além do interesse próprio. Já na segunda geração (responsabilidade social corporativa estratégica), a empresa incorpora tal responsabilidade em sua estrutura, criando-lhe uma gerência geral. Isso ocorre quando ela percebe, por exemplo, que pode agregar valor a seus produtos e serviços, ao relacioná-los com programas sociais e benefícios e, assim, atrair e manter funcionários talentosos. Com uma estratégia de constante diálogo a longo prazo com a comunidade, a empresa pode desenvolver sensibilidade às necessidades do consumidor ou usuário e criar produtos de acordo com elas. Nessa condição, a responsabilidade social corporativa é vista como uma boa estratégia empresarial e há a tentativa de sistematizar a questão ética em todos os setores da empresa. 20 Por fim, na terceira geração (reformulação das vantagens competitivas), a responsabilidade social corporativa é vista não quanto ao comportamento exemplar de algumas empresas particu- 19 Ibid., p Ibid., p Impulso, Piracicaba, 14(35): 33-48, 2003

7 21 Ibid., p Ibid., p CONCEITO de PPP, 10/08/ KOHLBERG, 1981 e lares, mas como parte do tecido da economia. Isso inclui o desenvolvimento de um modelo de participação generalizada de múltiplos stakeholders, parcerias, construção de instituições e políticas públicas. 21 Esse modelo teria de incluir, necessariamente, um processo de diálogo e comunicação entre os vários setores do país e até mesmo as organizações internacionais. Entre as discussões que poderiam ser levantadas nessa geração está, por exemplo, se os códigos de responsabilidade social teriam como favorecer as empresas multinacionais e prejudicar as microempresas. Na mesma linha, no âmbito do comércio internacional, a adoção dos preceitos de responsabilidade social poderia beneficiar os países mais ricos, que têm os recursos para desenvolver e implementar produtos que adquirem um prêmio intangível. 22 Num mundo globalizado, onde muitos países pobres dependem particularmente do desempenho de organizações menores, os códigos poderiam aumentar os problemas sociais, ao invés de solucioná-los. Swift e Zadek vêem a resposta a esse dilema no desenvolvimento de clusters de responsabilidade social, ou seja, na cooperação entre empresas, sindicatos, ONGs e as várias instâncias do poder público. Argumentam que uma organização mais sistemática e eficiente de responsabilidade social no âmbito da economia seria capaz de aumentar a competitividade de toda uma nação. Já há tentativas brasileiras nesse sentido, por exemplo, os projetos PPP (Parcerias Público-Privado), 23 envolvendo a iniciativa privada e o Estado na construção de infra-estrutura. Porém, de modo geral, esse estágio tanto no Brasil quanto na Europa ainda está para ser criado. É por meio dessa análise evolutiva que se pode avaliar mais precisamente a maneira como o conceito de responsabilidade social está sendo implementado na empresa e no mundo. De acordo com os estudos de Swift e Zadek, a maioria das instituições atualmente envolvidas com responsabilidade social corporativa encontra-se na primeira geração, havendo, porém, um número cada vez maior chegando à segunda geração. Entretanto, nossa preocupação principal não é necessariamente registrar a ampliação no uso desse conceito em si, mas questionar de que modo relacionar as práticas econômicas com a concepção de ética, para melhor definir o que é ou não ética empresarial. A visão da responsabilidade social corporativa segundo estágios oferece uma boa base para realizar esse intento, pois podemos compará-los com os estágios do desenvolvimento moral e ético, sobre os quais existe ampla literatura ainda não utilizada extensivamente para tratar esse tema. Consideramos, então, necessária uma avaliação da atuação da empresa, com base em teorias mais abrangentes, como os estudos empíricos e as reflexões teóricas desenvolvidas por Lawrence Kohlberg. A TEORIA DE JULGAMENTO MORAL, DE LAWRENCE KOHLBERG Kohlberg preocupou-se em definir os níveis de consciência moral dos indivíduos, 24 tendo por base os estudos de Jean Piaget. Julgamento moral refere-se aqui à maneira como uma pessoa resolve dilemas e chega a decisões valendo-se de um fundamento ético. Portanto, mantemos a definição inicial de Weiss, da ética como a arte e a disciplina de aplicar princípios éticos, enquanto entendemos ser a moral o julgamento diante de um problema concreto. A moral refere-se, assim, a uma contextualização ou à praticabilidade da ética. Kohlberg baseia seu trabalho numa definição de justiça, proposta na filosofia moral de Kant, que a entendeu como um conceito ético fundado em princípios universais e em pressupostos racionais, cognitivos e formais. Apesar de suas raízes obviamente ocidentais e de ser considerada muito abstrata, a concepção de princípios éticos universais tem sido incorporada em documentos internacionais, como nas várias declarações referentes aos direitos humanos, apresentando, portanto, uma validade não apenas formal, mas também política e social. Além de funda- Impulso, Piracicaba, 14(35): 33-48,

8 mentar seu trabalho nesse conceito, Kohlberg também o complementou com estudos empíricos, envolvendo grande contingente de pessoas estudadas durante mais de 20 anos. Por isso, consideramos a sua teoria atual e válida para a nossa discussão, sendo sempre citada como referência obrigatória no debate atual sobre o tema. 25 O ponto de partida para a teoria sobre ética e julgamento moral, de Kohlberg, são os estudos piagetianos de estágios de desenvolvimento. 26 De acordo com a epistemologia de Piaget, a criança não nasce inteligente ou com uma moralidade, mas desenvolve suas capacidades por meio de um processo de construção cognitiva em interações com o meio ambiente. Nesse processo, a criança passa por estágios que consistem em sistemas completos de pensamento, pelos quais se organiza a informação, de acordo com as estruturas e os padrões do sistema. Mediante processos cognitivos de assimilação e acomodação, a criança avança de uma estrutura mais simples para outra maior de pensamento, que incorpora os estágios prévios em um sistema mais complexo e abrangente. Kohlberg, por sua vez, incorpora o construtivismo de Piaget, mas o modifica significativamente no que diz respeito à teoria moral. De acordo com Kohlberg, os estágios morais representam esquemas cognitivos qualitativamente diferenciáveis, seqüenciais, integrados hierarquicamente e considerados universais. O indivíduo teria de passar seqüencialmente pelos distintos níveis, integrando as estruturas prévias de pensamento num sistema mais complexo. E Kohlberg argumenta que tais estruturas de pensamento moral são comuns a todas as pessoas, independentemente da cultura. Para sistematizar esses aspectos distintos, ele desenvolveu uma teoria de desenvolvimento moral que incorpora três níveis: pré-convencional, convencional e pós-convencional, cada um deles constituído por dois estágios. Assim, chegou a um total de seis estágios progressivos de desenvolvimento moral. 25 Cf. as referências a Kohlberg em HABERMAS, 1993; APEL, 1994; GILLIGAN, 1982; e a crítica de Sung, em ASSMAN & SUNG, PIAGET, O primeiro nível, pré-convencional, referese ao desenvolvimento normalmente encontrado em crianças até aproximadamente os nove anos de idade, fase em que a moralidade é considerada algo externo, imposto por uma figura autoritária. A pessoa raciocina como um indivíduo que ainda não se coloca como membro de uma sociedade. No primeiro estágio desse nível, ela age cegamente à autoridade externa a moralidade é imposta pela autoridade por meio de ameaças de punição. Também nessa fase o indivíduo é egoísta e não tem a capacidade de tomar a perspectiva do outro. Já no segundo estágio desse primeiro nível, a pessoa pensa e age de acordo com os próprios interesses, mas consegue perceber que outros podem ter anseios diferentes. Para lidar com essa situação conflitante, ela se envolve em acordos, apoiados na idéia de troca e seguidos na medida em que satisfazem os desejos pessoais. Se, no primeiro estágio, a ameaça de punição prova que algo é errado ou imoral, no segundo, o interesse próprio indica o que vale como moral, ao passo que a punição é vista simplesmente como algo a ser evitado. No segundo nível, convencional, o indivíduo considera-se membro de um grupo maior e tem uma noção da importância das normas sociais. Tende a identificar-se com as normas e acreditar na moralidade como o que é definido pela sociedade. Tem-se aqui o terceiro estágio, no qual a pessoa preocupa-se em possuir características consideradas boas, comportar-se de acordo com as expectativas da família ou do grupo e desenvolver sentimentos como amor, lealdade, empatia, gratidão etc. Os sentimentos compartidos e os papéis sociais a serem desempenhados ganham mais importância do que os interesses individuais. Passando-se, porém, para o quarto estágio ainda como parte do nível convencional, a pessoa entende-se como membro da sociedade e preocupa-se em cumprir seus deveres e manter a ordem e o bem-estar geral. Enquanto a moralidade do terceiro estágio é definida mais pelos laços de família, grupo social ou comunidade local, a do quarto estágio envolve a organização, instituições e responsabilidades com o sistema social maior. 40 Impulso, Piracicaba, 14(35): 33-48, 2003

9 No terceiro nível, definido por Kohlberg como pós-convencional, o indivíduo é capaz de ir mais além e olhar a sociedade de uma perspectiva exterior, realizando julgamentos sobre como ela deveria organizar-se, valendo-se de fundamentos previamente determinados. Diferentemente do quarto estágio, no qual se dá a preocupação em manter a ordem vigente, a pessoa no quinto estágio apóia a ordem social apenas quando essa tem sua base num contrato social, processos democráticos e direitos fundamentais. As leis são avaliadas quanto à sua coerência com os princípios de justiça. No sexto estágio, tais princípios são entendidos como transcendentes a sociedades ou culturas e devem ser apoiados independentemente das leis, normas ou convenções. Nesse nível, segue-se a própria consciência por sua vez, altamente desenvolvida para determinar a moralidade de uma ação, em vez de firmar a decisão ou ação em convenções. Kohhberg admitiu que poucas pessoas conseguem chegar a esse último estágio e acabou por desconsiderá-lo, deixando-o somente como uma possibilidade teórica de seqüência na evolução moral. Em suas pesquisas empíricas, Kohlberg colocou cada indivíduo diante de um dilema moral e pediu para que justificasse sua opinião sobre como ele deveria ser resolvido. Não se preocupou com as respostas quanto à definição de ação certa ou errada, mas com as justificativas e os argumentos, indicativos do nível de julgamento moral do entrevistado. Por meio de exaustivas pesquisas longitudinais e interculturais, Kohlberg apresentou evidências com relação às suas teses. É importante novamente enfatizar que Kohlberg baseia a sua análise nas justificativas, e não nas respostas afirmativas ou negativas. Por exemplo, a resposta de que alguém ou alguma empresa deveria obedecer à lei pode receber distintas justificativas, de acordo com os diferentes níveis. No pré-convencional, a lei deveria ser obedecida por ter sido imposta por uma autoridade ou porque a negligência no respeito a ela poderia resultar em punição. No nível convencional, obedecendo a lei, a pessoa ou empresa receberia uma boa avaliação da comunidade ou estaria fazendo o seu dever na sociedade, mantendo a ordem social. Finalmente, o argumento no nível pós-convencional resultaria da análise sobre a correspondência entre a lei e os princípios universais. Questões a serem respondidas antes da tomada de decisão seriam: nesse contexto particular, há conexão entre obediência à lei e apoio dos fundamentos? Os princípios fundamentais requerem uma ação que inclui a lei, mas, ao mesmo tempo, vai além dela? A teoria de Kohlberg tem sido discutida por vários autores e autoras, levando a uma série de debates sobre a fundamentação e a universalidade dos princípios éticos. Por exemplo, a ética do cuidar (caring), desenvolvida por Carol Gilligan, defende que o conceito de ética proposto por Kohlberg é limitado. Gilligan afirma que as mulheres têm uma tendência a desenvolver sua ética na consideração para com o outro, na necessidade de cuidar e de fazer intervenções na vida do outro. 27 Nesse sentido, reclama do conceito de justiça de Kohlberg como demasiado abstrato, por não incluir essa dimensão. A ética do discurso, de Jürgen Habermas e Karl-Otto Apel, incorpora os estágios de Kohlberg. De acordo com Habermas, o discurso e a ação comunicativa dentro de uma estrutura democrática possibilita a pessoas, grupos, instituições e organizações internacionais chegarem ao consenso sobre responsabilidade, moralidade, justiça ou ética. Na sua concepção, a teoria de Kohlberg confirma a prática da ética discursiva. 28 Nesse esquema, Habermas se interessa sobretudo pelo nível pós-convencional, argumentando que o discurso permite a construção de meios e estruturas, tendo em vista a comunicação democrática. Apel, por sua vez, considera que a teoria de Kohlberg vale como descrição empírica da evolução moral, ao passo que a ética do discurso assume o papel de fundamentação filosófica pragmático-transcendental do princípio normativo da ética. 29 Tanto Habermas como Apel incluem a dimensão da comunicação e do discurso como a instância capaz de ajudar a resolver o problema de definir a 27 GILLIGAN, HABERMAS, 1983, p. 185ss. 29 APEL, 1994, p Impulso, Piracicaba, 14(35): 33-48,

10 ética pós-convencional em termos de princípios universais, sem, contudo, submetê-la ao plano exclusivamente ocidental ou puramente masculino. Por sua vez, Dussel, em sua ética da libertação, critica Kohlberg, Habermas e Apel por não incluírem um princípio ético-crítico em suas teorias. 30 Tomando a vida como princípio ético fundamental e discutindo os problemas da globalização econômica, Dussel afirma que a opção ética preferencial deve ser dada às pessoas excluídas da comunidade de comunicação. Enquanto Kohlberg se recusa a discutir conteúdos nos estágios de desenvolvimento moral, Dussel chama a atenção para a necessidade de se construir uma ética apoiada nas vítimas do processo de exclusão social e econômica. O juízo de fato crítico (a partir do marco material da ética) é enunciado como a possibilidade da produção, reprodução, e desenvolvimento da vida dos sujeitos reais do sistema, e como medida ou critério dos fins do mesmo: se a vida não é possível, a razão instrumental que se exerce em torná-la impossível é eticamente perversa. 31 De acordo com a ética de libertação, de Dussel, é pela organização crítica de uma comunidade de vítimas que a perversidade ética de um sistema evidencia-se. A responsabilidade consiste precisamente no diálogo com as vítimas e na transformação da sociedade, objetivando a sua inclusão e a promoção de suas vidas. Não é nossa intenção resolver essa discussão sobre ética e julgamento moral, mas somente mostrar a importância da teoria do julgamento moral, de Kohlberg, especialmente sua definição de vários estágios. Por outro lado, também consideramos que as teorias aqui colocadas já nos providenciam alguns marcos referenciais gerais para o debate acerca da ética e da responsabilidade social da empresa. Obviamente, empresas não são, nem devem ser, consideradas como indivíduos, que desenvolvem pensamentos ou moralidade. Nossa intenção não é encaixar rigidamente a teoria de Kohlberg ou as dos outros na discussão sobre responsabilidade e ética empresarial, mas utilizá-las como instrumentos a guiarem a nossa reflexão. ESTÁGIOS MORAIS E GERAÇÕES DE RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA Como podemos relacionar os estágios de julgamento moral, de Kohlberg, com as gerações de responsabilidade social corporativa? Swift e Zadek não fizeram, de forma alguma, referência a princípios éticos ou morais; porém, a descrição deles mostra uma evolução de como a empresa se porta diante da questão ética. É esse desenvolvimento que nos interessa e que gostaríamos de analisar. Estágio Básico Quanto à aplicação da teoria de Kohlberg à avaliação de Swift e Zadek, o estágio básico referido por esses dois últimos autores poderia ser comparado, grosso modo, com o nível pré-convencional estabelecido pelo primeiro. Esse é o nível no qual a moralidade impõe-se por uma autoridade exterior e, no caso da empresa, ocorre quando ela se submete ao sistema jurídico/legislativo do país. Para muitos estudiosos, inclusive Swift e Zadek, essa fase não deveria ser considerada como parte de um programa de responsabilidade social corporativa, pois não há necessariamente um senso de responsabilidade próprio da empresa, ou seja, uma ética internalizada. Por outro lado, muito do material sobre o tema de responsabilidade social da empresa corresponde a esse nível de discussão. Há um número crescente de organizações não-governamentais dedicadas ao trabalho de vigilância com relação ao respeito da empresa às leis. O desrespeito a elas normalmente aparece na forma de escândalos, quando se descobre executivos ou funcionários de determinada instituição envolvidos conscientemente em atividades ilegais ou que propositadamente obscureceram informação, como ocorreu, recentemente, nos relatórios financeiros da Enron, 32 nos Estados Unidos, ou no desastre 30 DUSSEL, 2000, p Ibid., p CLARK & DEMIRAG, Impulso, Piracicaba, 14(35): 33-48, 2003

11 ecológico causado pela indústria de papel Cataguases, no Brasil, por conta da falta de manutenção e inspeção correta de um reservatório de resíduos químicos tóxicos. 33 Outro exemplo é a denúncia de trabalho infantil e escravo no Brasil, identificando particularmente as empresas agrícolas que praticam esse tipo de infração das leis trabalhistas. 34 Organizações como Greenpeace, Corpwatch, Anistia Internacional, Global Exchange, Social Accountability International, Transparência Internacional para nomear somente algumas dedicam-se, entre outras atividades, a denunciar ocorrências de fraude e corrupção no mundo empresarial. Acerca das justificativas encontradas pelas empresas para obedecer a lei, Donaldson argumenta que a adesão às normas ambientais e trabalhistas pelas empresas na Noruega é mais um resultado da pressão exterior dos sindicatos e das organizações civis do que uma reflexão dos executivos sobre a ética empresarial. 35 Machado Filho e Zylbersztajn 36 argumentam que, em sua pesquisa, a responsabilidade social corporativa parece ser motivada mais por pressões dos consumidores e órgãos financeiros entre eles, o Banco Mundial, o BNDES e as normas regulatórias restritivas impostas pelo Estado do que por razões altruístas. Esses casos mostram que, mesmo quando as empresas obedecem a regras avançadas referentes a direitos trabalhistas e a cuidados ao meio ambiente, como na Noruega, não o fazem por possuir um código de ética avançado, mas por causa das pressões externas. Do ponto de vista da teoria de Kohlberg, isso indica um nível baixo de evolução moral, além da importância do papel das organizações da sociedade civil em regulamentar o comportamento das empresas. Por outro lado, seguir a lei nem sempre corresponde a respeitar regras definidas e óbvias. Às vezes, há ambigüidades sobre a lei ou sobre qual das leis a empresa deve respeitar. O fato de todas as organizações mencionadas acima serem entidades de alcance internacional indica a preocupação com a conduta consistente das empresas no âmbito global. A mão-de-obra barata nos países menos desenvolvidos economicamente tem atraído corporações a desenvolver atividades de produção nessas áreas, abrindo, assim, uma questão ética menos definida, não podendo ser vista como o simples respeito às autoridades políticas e às leis locais. Por exemplo, a permissão conseguida pelas fábricas contratadas pela Nike como forma de incentivo, por parte do governo do país onde se instalaram, para oferecer salários abaixo do estabelecido como mínimo estimulou discussões e denúncias internacionalmente. As fábricas não estavam, tecnicamente, desrespeitando a lei, no entanto a Nike havia utilizado o seu poder de lobby para conseguir vantagens que resultavam em salários abaixo do necessário à sobrevivência (living wage). 37 Exemplo semelhante se dá com as leis ambientais. Quais delas deveriam ser respeitadas por uma empresa que atua em rede mundial? E como a empresa deveria proceder quando se cria um produto novo, para o qual ainda não foi concebida qualquer regulamentação, como no caso de organismos transgênicos? Essas ocorrências levantam questões que dificilmente poderiam ser ponderadas, de forma adequada, no nível préconvencional ou mesmo no convencional, pois exigem uma reflexão sobre princípios para além das regras convencionais de um contexto particular. Portanto, o nível básico de funcionamento do sistema capitalista, definido por Swift e Zadek, de obedecer às leis requer, na verdade, um sistema desenvolvido de informação e regulamentação pela sociedade civil e pelo poder público, como também um espaço para refletir sobre casos ainda não totalmente definidos. Tal atividade tem exigido uma grande dedicação de tempo e energia de várias entidades e, por isso, corresponde a uma área de responsabilidade e ética empresarial significativa. 33 GENTILE, ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO, DONALDSON, J. Key Issues in Business Ethics. New York: Academic Press, 1989, citado em BULL, MACHADO FILHO & ZYLBERSZTAJN, CLEAN CLOTHES CAMPAIGN, Impulso, Piracicaba, 14(35): 33-48,

12 Primeira Geração A primeira geração corresponde aproximadamente ao segundo estágio de desenvolvimento moral, pois a empresa considera a responsabilidade social de acordo com os seus próprios interesses, particularmente como uma troca, e não uma forma de seguir uma ética maior ou melhorar a situação social ou ambiental. Esse tipo de comportamento, caracterizado pelo ato de oferecer doações filantrópicas insignificantes ou envolver-se em atividades sociais com a finalidade única de evitar danos ou punição, tem também sido motivo de denúncia pelas organizações não-governamentais. Ele corresponde a uma atitude defensiva, de proteção, e não de engajamento social. Por exemplo, o termo Greenwash foi cunhado para se referir às empresas que fazem campanhas de marketing sobre responsabilidade social, especialmente ambiental, sem ter realmente projetos significativos na área, ou que os utilizam para desviar a atenção de outras atividades que desrespeitam a natureza ou que exploram os trabalhadores ou fornecedores. 38 Por outro lado, analisada do prisma da teoria do desenvolvimento moral, essa primeira geração significa um pequeno avanço no sentido de que a empresa reconhece, embora de forma limitada ou enganosa, a importância de lidar com o aspecto social e ambiental. Segunda Geração A segunda geração representa uma fase com potencial de muita atividade e criatividade entre empresa, poder público e organizações civis. A maioria das ações caracterizadas como de responsabilidade social poderia ser considerada resultado dessa geração. Corresponde, grosso modo, ao nível convencional de julgamento moral, sobretudo ao terceiro estágio, no qual a empresa se situa como um ator numa sociedade com vários setores e com interesse em gozar de boa reputação e ser bem-vista pela comunidade. A maioria das empresas nessa geração desenvolve uma série de atividades de acordo com o interesse demonstrado pelos funcionários ou executivos por um assunto particular, sendo essa uma oportunidade para que elas mostrem um lado bom perante a comunidade, ou também a convicção de que isso pode oferecer benefícios mútuos para si e os outros stakeholders. Programas de treinamento e benefícios para atrair e manter funcionários talentosos e investimentos em projetos ambientais e sociais de impacto mercadológico são exemplos de ações de responsabilidade social nessa geração. A chegada a essa geração significa uma ampliação na capacidade da empresa de ver sua atuação além do nível técnico ou do simples aumento de lucro. Implica uma abertura para as necessidades da sociedade e a possibilidade de chegar a soluções em conjunto. Nas palavras do World Business Council on Sustainable Development, para qualquer empresa, dar alta prioridade à RSC não é mais visto como algo que represente um custo não produtivo ou desperdício de recursos, mas como um meio de melhorar sua reputação e credibilidade perante os stakeholders algo do qual o sucesso ou mesmo a sobrevivência dependam. Entender e tomar conta das expectativas da sociedade é simplesmente interesse próprio esclarecido dentro do mundo interdependente de hoje. 39 A justificativa das empresas para se envolver em programas de responsabilidade social nessa geração corresponde ao modelo win-win, no qual tanto a sociedade quanto a empresa se beneficiam com a interação. A organização econômica do capitalismo contemporâneo dificulta e quase proíbe uma empresa de chegar a níveis de decisões morais além desse, convencional. Mesmo assim, indicações da existência de princípios éticos universais que vão além do que podemos encontrar na sociedade convencional aparecem nos discursos de empresas e representam, pelo menos, o reconhecimento da relevância deles. Kenneth Goodpaster cita uma carta escrita por um alto executivo, demons- 38 GREER & BRUNO, HOLME & WATT, 2000, p Impulso, Piracicaba, 14(35): 33-48, 2003

13 trando suas justificativas por apoiar a ação afirmativa da empresa. Freqüentemente me perguntam porque essa [ação afirmativa] é uma prioridade tão alta em nossa empresa. Há, por suposto, a resposta óbvia de que é de nosso maior interesse buscar e empregar pessoas boas de todos os setores da sociedade. E há a resposta que o interesse próprio esclarecido nos diz que mais e mais pessoas jovens, as quais devemos atrair como futuros funcionários, escolhem uma empresa tanto por seus indicadores sociais quanto por suas perspectivas nos negócios. Mas a razão principal para essa ênfase é porque é correto fazer isso. 40 É interessante notar que, nessa carta, as justificativas óbvias são aquelas que se referem ao interesse próprio, relativo aos níveis pré-convencional e convencional, indicadores do comportamento esperado no funcionamento normal da empresa. O executivo precisa fazer quase uma apologia para usar princípios que vão além desses níveis. Porém, esse documento mostra uma exceção, não a regra. 40 GOODPASTER, K. Business Ethics and Stakeholder Analysis, in: WINKLER & COOMBS, 1993, p UTTING, Terceira Geração A terceira geração dificilmente se encaixa na teoria de Kohlberg, a não ser com a ampliação sugerida por Habermas e Apel. Nessa geração, a empresa reconhece ter deveres sociais, afora os seus próprios interesses de lucro e crescimento. Mas, além disso, esse reconhecimento significa uma mudança no conceito sobre o papel da empresa na sociedade, pois o centro deixa de ser a empresa rodeada pelos stakeholders, sendo essa posição ocupada por ela em conjunto com os outros setores, na tentativa de construir uma sociedade saudável. Iniciativas desse tipo são, por exemplo, as parcerias entre organizações civis e o poder público para melhoria na infra-estrutura, adoção de escolas, organização de fóruns sociais e desenvolvimento de políticas públicas que incentivem a cooperação entre os vários segmentos. Essa fase implica o diálogo entre os diversos setores da sociedade. A teoria discursiva de Habermas e Apel é necessária para complementar o conceito de moralidade nessa fase, pois ele não poderia ser alcançado pela empresa sem estruturas de participação e comunicação comunitária. Por razões de clarificação teórica, as gerações da responsabilidade social corporativa foram comparadas com os níveis de julgamento moral, como se a empresa passasse por elas em sua íntegra. Na prática, mesmo que as empresas representem um conjunto organizacional com uma certa cultura empresarial, não se pode esperar que elas possuam uma organização cognitiva sistêmica, como se fossem pessoas. É mais provável que algumas áreas da empresa se comportem de maneira diferente com relação a outras. De fato, várias das empresas denunciadas por práticas corruptas tiveram programas de ação social exemplares. 41 Na verdade, uma empresa tem inúmeros níveis e áreas de atuação e, em cada um, poderia apresentar um nível distinto de comportamento ético. Sem um programa de integração da responsabilidade social, a empresa dificilmente alcança uma uniformidade ética. Por outro lado, isso indica a complexidade da empresa e o desafio presente de encontrar modelos para desenvolver uma ética empresarial. Finalmente, observamos que, sem pressão, colaboração e parceria dos outros setores da sociedade, a empresa pouco consegue implementar a ética empresarial. Em outras palavras, a ética empresarial é uma questão de incluir a participação de outros setores, e não meramente instituir uma iniciativa corporativa. CONCLUSÃO Devemos reconhecer, primeiramente, que a aproximação entre ética e economia é um reflexo da condição global de desequilíbrios sociais crescentes, degradação da natureza e falta de um desenvolvimento sustentável. A exclusão de uma grande parcela da população humana também tornou necessária uma nova organização e arti- Impulso, Piracicaba, 14(35): 33-48,

14 culação social, mesmo que de forma precária, e resultando em ações voltadas a aliviar sua situação. Devemos concordar com Dussel ao ele afirmar que o dilema complexo moral, nesse período da história, é a preocupação com a vida seja ela humana seja no sentido mais amplo, o meio ambiente. E essa é a principal justificativa encontrada nas declarações sobre a ética empresarial e sobre a responsabilidade social da empresa. Como parte de uma resposta a essa situação, as empresas e organizações civis, além do poder público e das entidades internacionais, têm proposto um novo papel para as empresas, fazendo-as assumir responsabilidades para reverter esse quadro e desenvolver uma ética sustentável e socialmente responsável. As propostas daí advindas chamam a atenção para uma ética apoiada nos princípios universais de direitos humanos e de respeito à vida, aplicada também às relações econômicas. Embora esse desenvolvimento seja positivo, nossa análise de Swift e Zadek e a comparação com Kohlberg mostraram que a maioria das atividades relacionadas a esse tema se concentra em níveis éticos bastante elementares. Mesmo sendo um avanço com referência ao passado, a exigência de respeitar a lei, ou de reconhecer os interesses de outros setores, não é considerada por muitos como parte de um programa ético, mas como simples observância às convenções vigentes: cumprir com aquilo que todo mundo deveria fazer. Portanto, é válida a descrição realística de Howard Bowen, de 1953, sobre o que se pode esperar da responsabilidade social corporativa: Responsabilidade social é a obrigação dos empresários de seguir as políticas, tomar as decisões ou seguir as linhas de ação desejáveis aos objetivos e valores da sociedade. 42 Bowen posiciona a responsabilidade social diretamente no nível convencional de moralidade, obrigando as empresas a incorporar os objetivos e valores da sociedade. Desse modo, o apelo para que elas incorporem princípios éticos capazes de transformar a sociedade parece-nos ser uma expectativa longe do seu alcance. É necessário um sistema de interação mais global para fazer transformações significativas. Para a empresa ir além do princípio do lucro e do interesse próprio, de modo sistemático, há que ter o apoio institucional da sociedade, do poder público e de outras empresas para transformar o tecido cultural e a forma de se entender a ética nos negócios. O princípio da comunicação, proposto por Habermas e Apel, é um elemento fundamental a essa mudança, pois a dimensão comunicativa é essencial ao desenvolvimento e à evolução dos níveis morais em direção a estágios ou gerações mais avançadas. Significa que a responsabilidade social corporativa deve ser comunicativa e cooperativa, incluindo a participação dos outros setores da sociedade, sem limitar-se à ação individual ou desenvolvida em isolamento. Nesse sentido, pode-se concluir que a condição para que as empresas possam transformar a sociedade é a sua articulação em conjunto com outros setores, objetivando a promoção da vida e tornando possível o diálogo entre ética e economia. 42 Citado em BATTEMAN, 2003 (grifos acrescidos). Referências Bibliográficas APEL, K.-O. Estudos de Moral Moderna. Petrópolis: Vozes, ASSMANN, H. & SUNG, J.M. Competência e Sensibilidade Solidária. Petrópolis: Vozes, BATEMAN, T. Thinking about Corporate Social Responsibility, The Integra Venture. <http://iintegra.infotech.sk/ downloads/83_csr-thinking%20.pdf>. Acesso em: 7/abr./03. BARBOSA, F.; PEDRON, Q. & CAFFARATE, V.M. Evolução histórica do direito do consumidor. Procon. <www.procon. goias.gov.br>. Acesso em: BAUTIER, R.-H. The Economic Development of Medieval Europe. Harcourt Brace Jovanovich, Inc Impulso, Piracicaba, 14(35): 33-48, 2003

15 BULL, B. Corporate social responsibility: the Norwegian Experience. Apresentado ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (Iniciativa sobre Ética e Desenvolvimento, 19/mar./03), e incluído na biblioteca digital da Iniciativa Interamericana de Capital Social, Ética e Desenvolvimento <www.iadb.org/etica/ingles/ index-i.cfm>. Acesso em: 12/set./03. CLARK, W. & DEMIRAG, I. Enron: the failure of Corporate Governance. Journal of Corporate Citizenship 8, Winter Greenleaf Publishing, CLEAN CLOTHES CAMPAIGN <www.cleanclothes.org/codes/inilivingwa.htm>. Acesso em: 16/08/03. CICCO, F. SA 8000: um sistema de certificação de âmbito mundial para monitorar a reponsabilidade social das empresas SP. QSP <www.qsp.org.br/sa8000_umsistema.shtml>. Acesso em: 21/set./03. CONCEITO DE PPP é adotado em pelo menos 50 países há 10 anos. OESP on-line, <www.estado.estadão.com.br>. Acesso em: 10/ago./03. DONALDSON, Th. The Ethics of International Business. New York: Oxford University Press, DUSSEL, E. Ética da Libertação na Idade da Globalização e da Exclusão. Petrópolis: Vozes, GENTILE, C. Director arrested for Brazilian disaster. UPI Latin America Correspondent. <www.upi.com>. Acesso em: 4/jul./03. GREER, J. & BRUNO, K. Greenwash: the reality behind corporate environmentalism. Penang/New York: Third World Network/The Apex Press, FERNANDES, R.C. Privado Porém Público o terceiro setor na América Latina. Rio de Janeiro: Civicus/Relume Dumará, FISCHER, R.M. & FALCONER, A.P. Desafios da parceiria governo e terceiro setor. Revista de Administração da USP, v. 33, n. 1, FORSTATER, M.; MACDONALD, J. & RAYNARD, P. Business and Poverty: bridging the gap. London: Prince of Wales International Business Leaders Forum, GIES, J. & GIES, F. Merchants and Moneymen: the commercial revolution New York: Thomas Y. Crowell Company, GILLIGAN, C. In a Different Voice. Cambridge/London: Harvard University Press, GLOBAL REPORTING INITIATIVE (GRI). Introducing the 2002 Sustainability Reporting Guidelines <www.globalreporting.org/guidelines/2002/gri_companion_lite.pdf>. Acesso em: 14/set./03. HABERMAS, J. Moralbewusstsein und kommunikatives Handeln. Frankfurt: Suhrkamp, HOFFMAN, A.J. From Heresy to Dogma: an institutional history of corporate environmentalism. Standford: Standford University Press, HOLME, R. & WATTS, P. Corporate Social Responsbility: making good business sense. Geneva: World Business Report for Sustainable Development, KOHLBERG, L. Essays on Moral Development. Cambridge: Cambridge University Press, v. 1-2, KOHLBERG, L. & COLBY, A. The Measurement of Moral Judgment. Cambridge: Cambridge University Press, MACHADO FILHO, C.A.P. M. & ZYLBERSZTAJN, D. Responsabilidade Social Corporativa e a Criação de Valor para as Organizações. v.1., n. 1, <www.unimep.br/tmp/revistaextrato.html>. Acesso em: 11/ set./03. ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DE TRABALHO (OIT). Combate ao Trabalho Escravo: estatísticas. <http:// Acesso em: 25/set./03. PIAGET, J. The Moral Judgment of the Child. London: Kegan Paul, SEN, A. On Ethics and Economics. New York: Basil Blackwell, SOCIAL ACCOUNTABILITY INTERNATIONAL. <www.sa-intl.org>. Acesso em: 25/set./03. Impulso, Piracicaba, 14(35): 33-48,

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