A PARTICIPAÇÃO PÚBLICA E A REGIÃO NORTE

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1 A PARTICIPAÇÃO PÚBLICA E A REGIÃO NORTE Autores: 1 Gabriela Azevedo e Rita Ramos Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte INTRODUÇÃO E OBJECTIVOS No âmbito dos procedimentos da Avaliação de Impacte Ambiental (AIA), desde a transposição da Directiva 85/337/CEE para o quadro jurídico interno, através do DL n.º 186/90, de 6 de Junho, que a Participação Pública (PP), nomeadamente o acesso à informação e a consulta do público, é abordada como um elemento obrigatório, mas de forma muito geral, não obrigando a procedimentos específicos. Com a evolução do direito do ambiente que, ao nível comunitário, fez repercutir os princípios decorrentes da Conferência do Rio e, posteriormente transpôs, pela Directiva 2003/35/CE, a Convenção de Aahrus, que a participação pública aí prevista passou a assumir um papel de relevância incontornável nesta matéria, e tem vindo a ter, gradualmente, um papel de destaque em toda a hierarquia do processo decisório. Com a publicação do DL n.º 69/2000, de 3 de Maio, foram introduzidas importantes alterações no âmbito do procedimento de PP, cabendo ao IPAMB as formas de publicitação de participação dos interessados. Contudo, é com a publicação do DL n.º 197/2005, de 8 de Novembro, que transpõe para a legislação portuguesa a Directiva 2003/35/CE, que são reformuladas as definições de consulta pública e de participação pública, e estabelecidas as de público e de público interessado, e em que passam a ser expressamente definidos os elementos de publicitação, bem como as regras relativas à promoção e gestão da PP. Além do referido, o DL n.º 197/2005, de 8 de Novembro introduz a responsabilização da Autoridade de AIA na condução da tramitação da fase de PP dos procedimentos de AIA. O presente estudo aborda a experiência da CCDR-N neste domínio, e pretende apresentar os resultados decorrentes da actuação desta Entidade neste domínio, e no contributo da PP para uma tomada de decisão final mais apoiada e transparente. O desenvolvimento deste estudo tem os seguintes objectivos fundamentais: - Relativamente à participação nos procedimentos de AIA, pretende-se aferir a sua relação com a tipologia dos projectos, a sua localização e a altura do ano em que decorreu o período da Consulta Pública (CP); 1 Contactos dos autores: Gabriela Azevedo e Rita Ramos CCDR Norte/ Telefone: / Fax:

2 - Relativamente às participações registadas, pretende-se conhecer o público interessado, nomeadamente quem é que mais frequentemente participa nos procedimentos de AIA, e quais as matérias abordadas nos pareceres; - No que diz respeito aos procedimentos adoptados pelas Comissões de Avaliação (CA s), pretende-se analisar o seguimento dado às participações e a sua contribuição nas decisões finais dos procedimentos de AIA. METODOLOGIA APLICADA O estudo incidirá nos procedimentos de AIA em que a CCDR-Norte foi Autoridade de AIA (AAIA) e responsável pelo procedimento de PP, ou seja, desde a implementação do Decreto-Lei n.º 197/2005, de 8 de Novembro, que veio alterar o Decreto-Lei n.º 69/2000, de 3 de Maio, e termina nos procedimentos que deram entrada na CCDR-N em A análise teve como ponto de partida a recolha dos dados de caracterização dos processos, nomeadamente em termos de tipologia e fase do projecto, localização, período de CP e a existência ou não de participações públicas. Esta fase preliminar permite aferir a relação entre os processos participados e a tipologia dos projectos, a sua localização e a altura do ano em que decorreu o período de CP. Numa segunda fase, procedeu-se à análise das reclamações/participações, quer em termos de tipo de participantes (p.e. particulares ou organizações), quer em termos das matérias abordadas nas reclamações. Por fim, procedeu-se à análise do procedimento adoptado pelas Comissões de Avaliação (CA s), nomeadamente a forma como integram as contribuições da PP, e o seu seguimento/tratamento, nos Pareceres Finais e respectiva Declaração de Impacte Ambiental (DIA). Para isso foram analisados os Relatórios da CP, na perspectiva de perceber as questões abordadas nas participações, assim como os Pareceres Finais e as Declarações de Impacte Ambiental (DIAs), no sentido de identificar as questões pertinentes abordadas pelo público, e de que forma estão reflectidas através de condicionantes, medidas de minimização e/ou Planos de Monitorização. Com a definição dos objectivos deste estudo e a opção metodológica seguida, pretendeu-se encontrar respostas sobre a actuação da CCDR-Norte no domínio da PP em processos de AIA, ou pelo menos contribuir para lançar o debate sobre a eficácia dos procedimentos da Participação Pública e o seu contributo para uma tomada de decisão final mais apoiada e transparente. RESULTADOS Os processos de AIA com uma decisão final Favorável Condicionada, nos quais a CCDR-Norte se constituiu como AAIA e responsável pelo procedimento de PP, que ocorreram entre 2005 e 2009, correspondem a um total de 101 projectos.

3 O número de processos de AIA decresceu ao longo dos anos em análise, excluindo 2005, uma vez que apenas um processo obedecia às características seleccionadas. Quanto à tipologia dos projectos, verifica-se uma predominância das Pedreiras (47%), seguindose as Indústrias e os Conjuntos Comerciais (ambos representam 21% da amostra). A maioria dos projectos encontra-se em fase de projecto de execução (79%). Localização dos Projectos sujeitos a AIA A análise espacial dos projectos indica que, de uma forma geral, os projectos têm tendência para se desenvolver na zona do Grande Porto e sua envolvente, e no distrito de Vila Real, nomeadamente nos concelhos de Vila Pouca de Aguiar e de Mondim de Basto. Entre os 101 projectos, apenas 16 tiveram participação por parte do público interessado, no âmbito dos procedimentos de Consulta Pública.

4 Apesar de a amostra não ser muito significativa, O número de processos de AIA participados nestes dois últimos anos foi ainda inferior, quando comparada com 2006 e No que se refere às tipologias dos projectos verifica-se uma participação mais elevada para projectos de Conjuntos Comerciais (29% destes projectos foram participados), seguindo-se os Loteamentos, com 22%, as Indústrias, com 14% e, por fim as Pedreiras, com apenas 10% dos processos participados.

5 Localização dos Projectos sujeitos a AIA com Participação A análise da distribuição espacial dos projectos que tiveram uma efectiva participação pública permite concluir que não existe qualquer influência entre a localização dos projectos e a adesão à participação nos procedimentos de AIA. De facto, as participações registadas dizem respeito a projectos localizados em todas as zonas da Região Norte, desde o interior até ao litoral. Entre Janeiro e Março e Setembro e Outubro, não houve procedimentos de AIA com participações. Os períodos em que se registaram mais participações nos procedimentos correspondem aos meses de Junho e Julho, seguindo-se Setembro e Outubro.

6 A maioria do público interessado corresponde a Associações, Grupos ou Comissões, seguindose os Particulares e as Juntas de Freguesia. As principais matérias abordadas nos pareceres do público interessado dizem respeito a questões relacionadas com o Ordenamento do Território e Uso do Solo, Acessibilidades e Tráfego, Recursos Hídricos e Efluentes, Ruído e Sócio-Economia e Saúde Pública. Critérios de ponderação Símbolos Parecer Final DIA Foi considerada a reclamação, mas a CA não acrescentou especificamente MM/condicionantes ao Parecer Final Não foi considerada a reclamação nem a CA acrescentou MM/condicionantes ao Parecer Final Foi especificamente considerada a reclamação e a CA acrescentou MM/condicionantes específicas ao Parecer Final Foi considerada a reclamação, e a CA acrescentou parcialmente MM/condicionantes ao Parecer Final Não foi especificamente considerada a reclamação nem a CA acrescentou MM/condicionantes ao Parecer Final Ausência de transposição das condições/mm Transposição total das condições/mm Transposição parcial das condições/mm Da análise dos Pareceres Finais das CA s verifica-se que as contribuições das reclamações não estão a ser devidamente tratadas nos pareceres finais sectoriais. De facto, cerca de 45% dos pareceres não aborda concretamente as questões tratadas nas exposições do público interessado, nem acrescenta qualquer contributo proveniente das mesmas. Apenas 13% aborda especificamente as matérias das reclamações e contém condicionantes e/ou medidas de

7 minimização acrescentadas aos pareceres, que provêm das exposições recebidas na fase de consulta pública. Da análise das DIA s, verifica-se que 41% das questões abordadas nas reclamações estão totalmente asseguradas, e 22% estão parcialmente asseguradas, nas decisões finais dos projectos em análise através de condicionantes e/ou medidas de minimização. No entanto, verifica-se ainda um elevado grau (37%) de ausência de transposição das preocupações do público interessado nas decisões finais dos procedimentos de AIA. CONCLUSÃO A PP em processos de AIA deve ser entendida como uma das melhores garantias de que o processo de decisão será justo e equitativo, sendo uma forma de conhecer as realidades locais o que, aliado à parte técnica do projecto, aumenta as probabilidades de identificação das possíveis consequências, bem como das reacções locais face ao projecto em causa. A legislação de AIA tem vindo a sofrer alterações que reflectem a importância dada à PP, nomeadamente, nos procedimentos que pretendem incluir as sugestões do público nas decisões sobre os projectos de desenvolvimento, por oposição aos processos tradicionais. Da análise efectuada conclui-se que a participação nos procedimentos de AIA ainda se encontra num grau reduzido. Relativamente aos projectos sujeitos a AIA da Região Norte, entre 2005 e 2009, verifica-se um reduzido grau de adesão na sua participação. No que diz respeito aos processos participados não se pode concluir sobre se as características gerais dos projectos (localização, fase e período das Consultas Públicas) têm alguma influência na adesão do público interessado. No entanto, verifica-se que os procedimentos que tiveram uma maior adesão à participação dizem respeito a Conjuntos Comerciais, seguindo-se os Loteamentos e as Indústrias. Esta relação pode ser explicada pela maior afectação directa da população em termos do enquadramento a nível local destas tipologias de projectos. Conclui-se que, no âmbito do procedimento de PP, as Associações/Grupos/Comissões são quem mais participa. De facto, trata-se de uma forma mais confortável de expor as reclamações em situações de grande afectação. A maioria das matérias abordadas nas exposições diz respeito a questões relacionadas com o Ordenamento do Território e Uso do Solo e Acessibilidades e Tráfego Em geral, as reclamações não são mencionadas especificamente nos Pareceres Finais, mas são acauteladas nas DIAs através de Medidas de Minimização, Condicionantes e Programas de Monitorização. Trata-se então de uma questão a ser melhorada pelas Comissões de Avaliação que acompanham os processos de AIA que recebam exposições na fase de Consulta Pública. RECOMENDAÇÕES A eficácia da participação pública em processos de AIA está directamente relacionada com a forma como o projecto é comunicado (acesso à informação), assim como da educação ambiental fornecida aos cidadãos e às entidades envolvidas no processo de AIA. A informação, na sua componente de divulgação, deve ter um formato activo, procurando atingir um público-alvo mais vasto. A componente do acesso à informação pode e deve ser uma

8 parte para a maior transparência e fortalecimento da confiança dos cidadãos nas entidades responsáveis pelo processo de AIA, encorajando-os a participar. Ao nível da educação ambiental, de forma a melhorar o grau da participação pública em processos de AIA, devería-se apostar na inclusão nos programas escolares a informação relativa aos procedimentos de AIA, aproveitando para participar nos projectos de desenvolvimento na sua área de localização, assim como implementarem-se acções de educação, direccionadas para os grupos mais desfavorecidos em termos de conhecimento do processo de AIA. As Autoridades de AIA poderão também contribuir para uma melhoria na participação dos procedimentos adoptando as seguintes recomendações: Implementar formatos mais activos de participação, favorecendo a interacção e o debate, envolvendo entidades locais na divulgação dos processos, como por exemplo, Juntas de Freguesia, Paróquias, Associações Desportivas e Recreativas, Instituições de Ensino, entre outras; Potenciar a mobilização para a participação dando a devida atenção às características da população-alvo de forma a maximizar os resultados do processo; Para projectos com impactes mais significativos e polémicos, promover a distribuição de informação e das possibilidades de participação através dos correios da área afectada, ou entrega de panfletos na área afectada; Elaboração de guias orientadoras para os cidadãos facilitando-lhe a identificação rápida da legislação e procedimentos necessários; Promoção da inclusão de resultados de auscultações públicas nos próprios EIAs. No que diz respeito aos procedimentos adoptados pelas Comissões de Avaliação (CA s), o seguimento dado às participações e o seu tratamento e a sua contribuição nas decisões finais dos procedimentos de AIA, poderão ser melhorados nomeadamente através da adopção de novas práticas no desenvolvimento dos pareceres, como por exemplo: Abordagem específica das reclamações/exposições provenientes do procedimento da participação pública nos Pareceres Finais Sectoriais, indicando o assunto da participação e a forma como estão acauteladas as preocupações, nomeadamente através de medidas de minimização constantes do EIA ou acrescentadas pela CA, imposição de condicionantes ou através de Planos de Monitorização. Em suma, para melhorar a participação pública nos processos de AIA da Região Norte é essencial apostar na formação e educação ambiental, não só ao nível do cidadão comum, como também dos representantes da Autoridade de AIA e das próprias equipas que elaboram os EIAs, que devem evidenciar os resultados das consultas efectuadas durante o respectivo período de elaboração do EIA.

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