O caráter geral do reino dos céus

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1 I O caráter geral do reino dos céus 1. O PANO DE FUNDO 1. O Antigo Testamento Quando Jesus apareceu em Israel após a pregação de João Batista com a proclamação: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus (Mt 4.17; cf. 3.2), ele não forneceu qualquer outra explicação ou descrição a respeito do acontecimento que se avizinhava, pelo menos de acordo com a tradição que nos chegou. Isso é uma indicação de que a expressão reino dos céus não era desconhecida daqueles a quem a sua mensagem era dirigida, mas que tinha sido calculada para produzir uma reação imediata por parte dos ouvintes. A parte excepcional e espetacular do aparecimento de João Batista e de Jesus não foi que eles falaram do reino dos céus, mas que eles anunciaram a Israel que esse reino estava próximo, às portas. Essa circunstância nos leva a procurar a origem e explorar o pano de fundo da expressão reino dos céus, usada tanto por Jesus como por João com tanta ênfase. Que ideias o povo associava a essa conclamação ao arrependimento? Para encontrar uma resposta a essa pergunta, não podemos simplesmente nos referir ao Antigo Testamento, pois a expressão reino dos céus não ocorre nele. Ela aparece somente nos escritos judaicos posteriores * e é razoavelmente certo que não tenha se tornado uma frase padrão até esse período posterior (précristão), vindo, mais tarde, a ser usada por Jesus e por João Batista como base para o ensinamento deles. Todavia, as bases desse uso linguístico, especialmente a ideia significada por ele, estão enraizadas profundamente na revelação divina do Antigo A vinda do reino.indb 25 19/11/ :59:23

2 26 A VINDA DO REINO Testamento e na expectativa da fé. Sem esse pano de fundo veterotestamentário, nem a fé judaica posterior no reino dos céus nem a proclamação desse reino no Novo Testamento podem ser compreendidas. É por esse motivo que temos de, em primeiro lugar, considerar o ambiente em que a expressão nasceu. Como foi dito, o Antigo Testamento não menciona o reino dos céus. Igualmente, reino de Deus nem de longe é uma expressão padrão no Antigo Testamento, como é no Novo. Existem apenas umas poucas passagens que contêm o equivalente de basileia no sentido de realeza ou do domínio real de Deus. 1 De fato, com frequência, Yahweh é indicado pessoalmente como rei, especialmente nos salmos e nos profetas, 2 e o Senhor é chamado de rei. 3 Essa aplicação do conceito de rei para Yahweh é encontrada também nas partes mais antigas do Antigo Testamento, 4 e, portanto, devemos rejeitar a afirmação de que a ideia de Yahweh ser um rei surgiu somente nos tempos pós-exílio, em imitação ao assim chamado Deutero-Isaías. 5 Isso se tornará ainda mais claro quando entrarmos um pouco mais profundamente nesse conceito. É preciso fazer, aqui, uma distinção dupla. Em primeiro lugar, o Antigo Testamento fala de um tipo geral e de um tipo particular da realeza do Senhor. O primeiro tipo tem a ver com o poder universal e o domínio de Deus sobre o mundo todo e sobre todas as nações e é fundamentado na criação dos céus e da terra. 6 O segundo indica a relação especial entre o Senhor e Israel. 7 Mais tarde, isso veio a ser chamado de teocracia, num sentido especial, e coincide, em muitos aspectos, com a aliança de Deus no Antigo Testamento. Além disso, uma distinção pode ser feita entre as passagens nas quais a realeza de Yahweh inclui igualmente o passado e o futuro, ou, como Von Rad coloca, que enfatizam o caráter quase atemporal da realeza de Yahweh, 8 e as passagens nas quais o elemento dominante é o de expectativa, de Yahweh revelar-se e manter-se como rei em plena glória. Esta última ideia da realeza vindoura de Deus é encontrada especialmente nos livros mais recentes do Antigo Testamento, particularmente nos dos profetas. Sua origem está estreitamente ligada com a vida nacional de Israel. Durante o período no qual a existência nacional de Israel estava declinando cada vez mais e os poderes do mundo ameaçavam esmagar a nação, surgiu uma forte tensão entre a majestade de Deus revelada a Israel (ou seja, seu poder sobre o mundo inteiro e sua relação particular com Israel, de quem ele era rei) e o desenvolvimento concreto da História. Essa tensão foi aliviada pelo que os profetas revelaram acerca da manifestação futura da majestade de Deus. Essa expectativa do futuro é de tamanha importância no escopo da revelação profética divina, que pode ser considerada como o centro de toda a promessa de salvação veterotestamentária. 9 As mais proeminentes dessas profecias se encontram em Isaías 40-55; cf., por exemplo, ; 52.7; e, certamente e não A vinda do reino.indb 26 19/11/ :59:23

3 O CARÁTER GERAL DO REINO DOS CÉUS O PANO DE FUNDO 27 menos impressionante, em Isaías Também nos livros dos outros profetas, essa profecia do reino vindouro de Deus é um elemento essencial, cf. Obadias 21; Miquéias 4.3; Sofonias 3.15; Zacarias O conteúdo dessa grande expectativa de salvação é multifacetado. Uma característica essencial da profecia é a sua descrição do reino vindouro de Deus em termos da nacionalidade de Israel. Israel será restaurado como uma nação; o Senhor terá o seu trono em Jerusalém; os inimigos de Israel serão subjugados. Apesar disso, repetidamente, essas ideias parecem se referir a uma realidade maior, espiritual e imperecível. O futuro reino de Deus será inaugurado pelo grande Dia do Senhor, o dia do julgamento para a parte apóstata de Israel, como também para as nações em geral. Ao mesmo tempo, todavia, é dia de libertação e salvação para o povo oprimido do Senhor. Na descrição de ambos os dias, encontramos características que irrompem através da realidade temporal 10 e que se referem a uma dispensação inteiramente nova, como ao julgamento final, cf. Oséias 4.3; Isaías 2.10ss, e outros lugares; e também à salvação vindoura, cf. Oséias 2.17; Miquéias 4.1s; Isaías 9.1-6; ss. A salvação vindoura é imperecível (Is 51.6); uma realidade supramundana começará (Is 60.1ss.); um novo céu e uma nova terra virão à existência (Is 60.19; 65.17; 66.22); a morte será aniquilada (Is 25.7ss.); os mortos serão ressuscitados (Is 26.19). Em oposição ao castigo eterno do ímpio, virá a bênção eterna dos redimidos (Is 66.24). Nos pontos culminantes da profecia, esse futuro feliz revela a sua universalidade; basicamente, ela consiste na ruína e na derrocada do poder do mundo (Is 26.21; 27.1) e na participação dos gentios na felicidade de Israel (Is 25.6; 45.22; ); nesse dia, o Senhor será o rei de todo o mundo (Mq 4.1ss.). Como já foi dito, esse quadro da realidade sobrenatural do reino divino irrompendo através das fronteiras da dispensação temporal-mundana não é a característica usual das profecias. Como regra, a descrição que eles fazem permanece dentro dos limites da vida aqui na terra. Ainda assim, no fundo, essa profecia, na sua totalidade, enfoca essa salvação eterna e indestrutível: Todos os julgamentos temporais anunciados pelos profetas são tipos do grande julgamento do mundo; todo tipo de bênção que foi profetizada se refere à perfeita felicidade do grande futuro. 11 Quanto à relação entre o conceito veterotestamentário do reino de Deus e a expectativa messiânica da salvação, foi declarado enfaticamente que esses dois conceitos deveriam ser claramente distinguidos um do outro. Sem dúvida, é verdade que o conceito da vinda do futuro estado de bênção no qual Yahweh assumirá a sua realeza no sentido pleno da palavra é sempre desacompanhado de qualquer menção ao Messias-Rei. Mas um não pode ser separado do outro, porque o que é dito a respeito do reino vindouro de Deus não tem outro alcance que não aquele das profecias a respeito do reino messiânico da paz (cf. Is 9.11; 32). Ele é o governante futuro do mundo (Is ); pelo menos de acordo com A vinda do reino.indb 27 19/11/ :59:23

4 28 A VINDA DO REINO algumas das profecias, sua realeza também exibe um caráter sobrenatural (cf. Mq 5.2); em resumo, tudo o que se aplica à futura manifestação divina do Rei também se aplica ao governo do Messias-Rei. Em outras palavras, é o mesmo que dizer que é o Senhor que outra vez afirmará seu governo sobre Israel e manterá sua realeza sobre todo o mundo no Messias-Rei vindouro e por intermédio dele, ao passo que, inversamente, também nas passagens em que apenas a manifestação vindoura da realeza de Deus é mencionada, ela deve ser ligada com a promessa do Redentor-Rei da casa de Davi. As profecias de Daniel têm uma importância individual para a compreensão do pano de fundo da pregação de Jesus a respeito do reino de Deus. Em especial, elas esclarecem a antítese entre o que pode ser concisamente formulado como o império terreno e o reino de Deus. Em oposição ao poder de Nabucodonosor, que usurpou direitos reais divinos, mantém-se em primeiro lugar que o malkuth [reino] de Deus é eterno e infinito (Dn 4.25), e que, portanto, ele é livre para conceder o domínio real a quem quiser. Mas esse pensamento genérico ganha mais concretude quando dizemos que Deus irá, de fato, esvaziar os impérios mundanos do domínio deles; e que ele dará o domínio à figura daquele que, nas visões noturnas do profeta, se dirige ao Ancião de Dias no seu trono flamejante um como o Filho do Homem : Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído (Dn 7.9ss.). Na explicação do sonho de Daniel, é dito que os santos do Altíssimo receberão o reino e o possuirão para todo o sempre, de eternidade em eternidade (Dn 7.18). Isso não deveria ser interpretado como se o Filho do Homem e os santos fossem idênticos, argumentando-se que o primeiro age como representante do último ou que, na expressão os santos do Altíssimo, é o Filho do Homem quem está sendo definido. O Filho do Homem é aquele cujo reino os santos do Altíssimo um dia irão compartilhar. Aqui, também, o futuro reino de Deus é mencionado, no qual a figura do Filho do Homem fará o seu povo participar nas bênçãos do domínio de Deus. 12 Embora o Messias-Rei da casa de Davi não esteja sendo mencionado aqui e o fato de que, em geral, as características terrenas nacionais foram trocadas por características transcendentes-apocalípticas, é claro que aquele que aparece na forma do Filho do Homem do futuro glorioso receberá domínio mundial das mãos de Deus e que é ele que se constitui na bênção do grande futuro. Finalmente, além das profecias no sentido mais estreito, devemos mencionar também os assim chamados salmos da ascensão ao trono como testemunhas do Antigo Testamento sobre o domínio divino vindouro, tais como Salmos 47; 93; 96; 97; e 99. Eles, também, falam de Deus se tornando Rei e falam da revelação do seu poder a todas as nações. Apesar de, em primeira instância, esses salmos A vinda do reino.indb 28 19/11/ :59:23

5 O CARÁTER GERAL DO REINO DOS CÉUS O PANO DE FUNDO 29 terem de ser explicados como se referindo a algum acontecimento histórico (p. ex., Sl 47 a chegada da arca?), ainda assim, no fundo, esses salmos também dão expressão à expectativa de uma revelação final e definida da majestade de Yahweh, da qual toda manifestação do seu poder na história da salvação já revela um começo. A interpretação da sua entronização somente no sentido cúltico (isto é, como a ascensão anual de Yahweh ao trono, a qual supostamente deve ser celebrada no culto com uma procissão solene), de acordo com o conceito defendido por Mowinckel, 13 baseia-se somente em analogias do mundo pagão, pois não se conhece em Israel algo como uma festa de ano-novo. * Para resumir o que encontramos, podemos dizer que, no Antigo Testamento, a expressão reino de Deus ainda não ocorre naquele mesmo sentido invariável com que aparece no Novo testamento. Todavia, a ideia de um reino vindouro de Deus, consistindo em sua realeza divina universal sobre todo o mundo, para o bem do seu povo e para a derrocada de todos os poderes que se opõe ao seu domínio, tem sido em Israel, desde os tempos antigos, um dos motivos centrais da expectativa da salvação. Fundamentada na confissão de que Deus é rei (realeza presente), surge a expectativa de que ele se tornará rei no sentido intensificado e escatológico (realeza futura). 2. O judaísmo posterior Em contraste com as declarações verbais e pessoais sobre a realeza de Yahweh no Antigo Testamento, encontramos quase que invariavelmente a expressão abstrata malkuth shamaim na literatura judaica posterior. A tradução literal dessa expressão é reino ou realeza dos céus (basileia toon ouranoon). 14 Em harmonia com a tendência judaica de evitar, sempre que possível, o uso do nome de Deus, a palavra shamaim (céus) deve ser considerada simplesmente como uma circunlocução da palavra Deus. Esse é o motivo pelo qual ela ocorre invariavelmente sem artigo nesse grupo de palavras. 15 Embora entre os rabinos malkuth shamaim seja uma expressão padrão, ela ocorre apenas raramente na literatura rabínica, em comparação com seu uso linguístico nos Evangelhos, 16 e não tem, nem de longe, o significado central que basileia toon ouranoon (tou theou) tem nos Evangelhos. Isso também transparece no fato de que malkuth no sentido de malkuth shamaim nunca é usado independentemente na literatura pseudepígrafa e rabínica, como ocorre com o termo basileia nos Evangelhos. Toda vez que malkuth é usado de maneira absoluta na literatura judaica, sempre indica o domínio terreno e pagão (romano). 17 A expressão malkuth shamaim tem um sentido duplo na literatura judaica posterior. Em primeiro lugar, ela indica o domínio moral de Deus sobre todos os homens, implícito na criação do homem por Deus, um domínio ao qual a A vinda do reino.indb 29 19/11/ :59:23