Jurandir Zamberlam Joel Ferrari Giovanni Corso Joaquim Roque Filippin

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1 Jurandir Zamberlam Joel Ferrari Giovanni Corso Joaquim Roque Filippin Liv-Jura3.p65 1

2 COLEÇÃO: PASTORAL & MIGRAÇÃO Percepção do Fenômeno Migratório em cidades das Dioceses do Rio Grande do Sul - Jurandir Zamberlam e Giovanni Corso (orgs.) O Processo Migratório no Brasil e os desafios da Mobilidade Humana na Globalização - Jurandir Zamberlam Pastoral dos Migrantes - subsídio - Jurandir Zamberlam e Giovanni Corso (orgs.) Memória - 1 Congresso Mundial dos Leigos Scalabrinianos - Piacenza - Jurandir Zamberlam e Giovanni Corso (orgs.) Tendências da Mobilidade Humana nas Três Fronteiras - Jurandir Zamberlam e Giovanni Corso (orgs.) Memoria - 1er Congreso Mundial de los Laicos Scalabrinianos en Piacenza - Presencia Sudamericana - Jurandir Zamberlam e Giovanni Corso A emigração da Grande Criciúma na ótica de familiares - desafios para a Igreja de origem e de destino - Jurandir Zamberlam, Giovanni Corso, Wladmyr Külkamp, Ludgero Buss Emigrantes brasileiros no Paraguai - presença scalabriniana - Jurandir Zamberlam, Giovanni Corso, Joaquim Filippin, Eduardo Bresolin e Eduardo Geremia Desafios das Migrações para a Igreja no Rio Grande do Sul - Jurandir Zamberlam, Giovanni Corso, Joaquim R Filippin, Lauro Bocchi, Egídia Muraro, Guilherme Ilarze Missão em contexto de mobilidade - Paróquia Bom Jesus do Migrante Jurandir Zamberlam, Joel Ferrari, Giovanni Corso, Joaquim R. Filippin 2007 Foz do Iguaçu em contexto de mobilidade Paróquia Bom Jesus do Migrantel./Jurandir Zamberlam, Joel Ferrari, Giovanni Corso, Joaquim R Filippin, Porto Alegre. Solidus, p. 1. Migração. 2. Mobilidade Humana. Pastoral Migratória-I. Zamberam, Jurandir.-II. Ferrari, Joel.- III.Corso, Giovanni.-IV Filippin R. Joaquim. VI. Título. Capa: Regiane Palazzo Diagramação: ImagineDesign Apoio: CIBAI - Migrações CDU 312:25(816.5) Liv-Jura3.p65 2

3 SUMÁRIO Apresentação I... 5 Apresentação II... 7 Introdução Foz do Iguaçu: Origem, desenvolvimento e desafios A presença da Igreja Católica em Foz do Iguaçu Paróquia Bom Jesus do Migrante em busca de uma proposta pastoral Comunidade Nossa Senhora de Fátima Comunidade Bom Jesus do Migrante Comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro Comunidade Santo Antônio Comunidade Santa Terezinha Indicativos de Ação Pastoral da Paróquia Bom Jesus do Migrante Fontes de Consulta Depoimentos Bibliografia consultada Anexo Autores Liv-Jura3.p65 3

4 Liv-Jura3.p65 4

5 APRESENTAÇÃO I O mundo anda depressa e nós não podemos parar. Conhecer a história das origens e a realidade atual de uma comunidade é a chave para poder incidir nela com competência e eficácia. O presente trabalho, que tenho a alegria de apresentar, traz ao leitor, em maneira simples e acessível, elementos das origens de Foz do Iguaçu e do povoamento de cada um dos treze bairros, vilas e ocupações que compõem a mais jovem paróquia da Diocese de Foz do Iguaçu: a Paróquia Bom Jesus do Migrante. Depoimentos, entrevistas, gráficos, tabelas, fotos, textos e uma infinidade de dados foram coletados, catalogados, tabulados, estudados, e aqui apresentados, compondo um verdadeiro mosaico da realidade da população residente na Paróquia Bom Jesus do Migrante. Parte dos dados foram disponibilizados pelo Departamento de Informações Institucionais da Prefeitura Municipal de Foz do Iguaçu e pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Outros foram coletados por um grupo de 16 Missionários/as Scalabrinianos/as que visitaram quase mil famílias, no mês de maio de A partir da realidade exposta, sempre respeitando as peculiaridades da população de cada bairro, temos, através do presente trabalho, um bom indicativo da realidade periférica de toda Foz do Iguaçu. Por isso, o texto é de grande proveito para as lideranças comunitárias, para os agentes de pastoral, alunos e pesquisadores na área da sociologia e da mobilidade humana. É um valioso instrumento para a elaboração do Projeto de Pastoral da Paróquia Bom Jesus do Migrante e para a atualização do Projeto de Pastoral da Mobilidade Humana na Diocese de Foz do Iguaçu. Há mais de cem anos atrás, dizia o Bem-aventurado João Batista Scalabrini: O mundo anda depressa e nós não podemos parar. Em Foz do Iguaçu a imigração, os povos, as culturas e etnias cresceram num ritmo Liv-Jura3.p65 5

6 muito acelerado transformando a cidade num pólo de atração de milhares de pessoas com as conseqüentes repercussões na vida social, econômica, cultural e religiosa. Não podemos parar, precisamos conhecer e acompanhar o ritmo da mobilidade da população de nossa cidade para apontar caminhos de ação mais humanos e cristãos. A você amigo uma ótima leitura! Foz do Iguaçu, novembro de 2007 Pe. Joel Ferrari, cs Pároco da Paróquia Bom Jesus do Migrante Liv-Jura3.p65 6

7 APRESENTAÇÃO II Para o migrante, a Pátria é a terra que lhe dá o Pão (Bem-aventurado Scalabrini) A Congregação dos Missionários de São Carlos Scalabrinianos, fundada há 120 anos, pelo Bem-aventurado João Batista Scalabrini, nasceu para ser, na Igreja, a continuação da presença encarnada de Jesus Cristo. Eu era migrante e tu me acolheste (Mt. 25,35). Vivendo a espiritualidade do peregrino e do provisório, somos missionários: prontos a partir e anunciar o Evangelho. Onde chegaram com os migrantes, os scalabrinianos em quase todos os lugares organizaram as comunidades e construíram obras e igrejas, visando o serviço e o atendimento ao povo de Deus migrante. Mas assim que as comunidades e paróquias se estruturam somos convidados, como missionários, a partir. A irmos onde o migrante está. Na Diocese de Foz do Iguaçu, marcamos presença há muito tempo: em São Miguel do Iguaçu e na paróquia São José Operário, em Foz do Iguaçu. Aqui viemos para acompanhar os migrantes, sobretudo internos, na construção da Itaipu. Deixamos esta paróquia para o cuidado pastoral dos padres diocesanos, no começo de Buscamos uma presença diferente, na mesma cidade, assumindo a Paróquia Bom Jesus do Migrante. Scalabrini dizia: Onde está o povo que luta e sofre, ali está a Igreja. Entendemos que os migrantes mais necessitados de nossa presença, em Foz do Iguaçu, neste momento, são os que ocupam esta parte da cidade. Por isso migramos também nós. Como os migrantes deixamos o conforto e a estabilidade, para entrarmos na dinâmica de recomeçar de novo. Procuramos ser solidários com os mais necessitados, muitos dos quais, depois de terem visto frustrado seu sonho de construir um futuro no Paraguai, voltaram ao Brasil para recomeçar a vida aqui. Desde esta paróquia procuramos, em conjunto com as Irmãs Missionári- Liv-Jura3.p65 7

8 as Scalabrinianas, dinamizar e atender a pastoral migratória da diocese. Esperamos ser na Igreja Local de Foz do Iguaçu, uma presença de Deus junto ao povo migrante. Sabemos caminhar como Igreja, enriquecendoa com nosso carisma, construindo juntos, de diversas raças, povos e culturas, um só Povo de Deus, a humanidade como uma só família. Porto Alegre, novembro de 2007 Pe. Adilson Pedro Busin, cs Superior Provincial Liv-Jura3.p65 8

9 INTRODUÇÃO A criação da Paróquia Bom Jesus do Migrante é um sinal concreto da Igreja diocesana desejando caminhar com os migrantes e um gesto corajoso de fidelidade ao seu carisma da Congregação dos Missionários Scalabrinianos. A vivência desta missão exige uma análise histórica da realidade como primeiro passo para formar a consciência da nova paróquia. Este pequeno ensaio que oferecemos é somente um fazer memória elementar fundamentado em leituras, pesquisas e escuta de pessoas, com o objetivo de iniciar um diálogo com toda a comunidade para viver a missão de caminhar com os migrantes. Dentro desse contexto o trabalho aborda cinco pontos: No primeiro ponto faz-se um sucinto resgate histórico da ocupação da região de Foz do Iguaçu, a evolução do município e os desafios e perspectivas atuais. Destaca-se os diversos cenários que marcaram a trajetória de Foz do Iguaçu para uma cidade que nasceu da mobilidade humana. Inúmeros fatores se fizeram presentes no crescimento de Foz do Iguaçu: a tríplice fronteira, a riqueza florestal, as belezas naturais do rio Iguaçu, a construção da hidrelétrica de Itaipu no rio Paraná e o comércio atacadista exportador. Foz passou a ser um lugar de encontro e de escoamento; lugar pelo qual transita mercadoria que procede do oriente, dos países do hemisfério norte e que atende a demanda consumista do povo brasileiro. Uma cidade de desafios, pois a necessidade de atender pessoas tão diversificadas provoca a criatividade organizativa da cidade e a capacidade das instituições (civis e religiosas) de desenvolver valores e ações de inserção cidadã. Diante dessa realidade há o perigo de buscar respostas imediatistas e isoladas sem tentar uma reflexão mais ampla e profunda. O mundo fragmentado de Foz do Iguaçu apela por uma sabedoria que aponte e alimente ideais. Se há uma crise de emprego, habitação, saneamento, violência, há uma crise mais profunda que é a perda do sentido da vida: a pessoa se torna um elemento solto, com laços superficiais e explora todas as oportunidades sem fixar-se em nada. A crise de sentido é a fonte de toda violência e o ambiente propício para a depressão. Liv-Jura3.p65 9

10 O segundo ponto analisa a inserção da Igreja no sertão do oeste paranaense e, especificamente na cidade de Foz. Leva a entender que o espírito do Concílio Vaticano II e a criação da Diocese fazem acontecer igreja povo de Deus. O leigo organiza-se em grupos de reflexão ou em grupos de famílias passando efetivamente a ser fermento de transformação na sociedade. O espírito missionário dos sacerdotes e das religiosas identifica para o fenômeno da intensa mobilidade humana: imigrantes estrangeiros, migrantes internos, retornados do Paraguai, emigrantes brasileiros para o exterior, turistas, caminhoneiros e estudantes estrangeiros. Partindo do Banco de Dados do Departamento de Informações Institucionais da Prefeitura Municipal de Foz do Iguaçu o terceiro ponto aborda os indicadores sociais da realidade onde a Paróquia Bom Jesus do Migrante está inserida. O quarto ponto apresenta as cinco comunidades que compõem a Paróquia Bom Jesus do Migrante: Nossa Senhora de Fátima, Bom Jesus do Migrante, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Santo Antônio e Santa Terezinha. Relata entrevistas com pessoas que participaram da origem e organização das comunidades e apresenta dados de uma pesquisa feita com uma parcela das famílias dessas comunidades. O último ponto levanta indicativos de ação pastoral da Paróquia com o objetivo de projetar caminhos para melhor servir na realidade da mobilidade humana em nível paroquial, diocesano e da região das três fronteiras. Aponta para o desafio de perceber a problemática da mobilidade humana, interpretá-la (diagnosticá-la), estabelecer indicativos de ação e deixa dois questionamentos: Como a Paróquia Bom Jesus do Migrante poderá vir a ser um modelo exemplar de pastoral migratória para as demais paróquias da cidade de Foz? Como unificar os serviços da pastoral migratória existentes na Diocese para que possam trabalhar em rede? Porto Alegre, 2007 Os Autores Liv-Jura3.p65 10

11 1. FOZ DO IGUAÇU: ORIGEM, DESENVOLVIMENTO E DESAFIOS Introdução Toda organização se desenvolve sempre num processo histórico. Seria difícil compreender a formação da comunidade religiosa na região de Foz do Iguaçu sem apresentar os fatores que fizeram das barrancas do rio Paraná a sede de uma próspera e estratégica cidade. Resgatando as origens Apesar de haver registros de civilização de anos a.c., é Álvaro Nunes Cabeza de Vaca considerado pelos historiadores o descobridor das Cataratas do Iguaçu no ano de Não deixou, contudo, rastros de ocupação da área (WEBER, 2003). Nos séculos seguintes, há inúmeros registros ligados aos indígenas, às missões jesuíticas e às disputas entre espanhóis e portugueses pela posse do território, numa saga que se arrastaria até fins do século XIX, quando tem início o processo de colonização. O território foi integrado ao mapa do Brasil pelo Tratado de Madrid, celebrado entre Portugal e Espanha em 1750 (CAMPANA & ALENCAR, 1997). A caminhada para a formação do Município Desde o fim da guerra do Paraguai (1870) a região estava entregue à exploração predatória pelo sistema de obrage 1, dominado por estrangeiros. Em 1881 começou a ocupação efetiva de Foz do Iguaçu por parte do Brasil com a migração de duas famílias: o brasileiro Pedro Martins da Silva e o espanhol Manoel Gomes. Pouco depois chegaram os irmãos 1 Obrage significa etimologicamente o local onde se trabalhava manualmente. Seu proprietário ou dono de concessão era chamado de obragero. Na realidade o sistema obrage adotava práticas internas semelhantes a um sistema quase escravocrata (LIMA, 2001). Liv-Jura3.p65 11

12 Goycochéa, ligados à Compania Mate Laranjeiras, que começaram a explorar a erva-mate, atraindo argentinos e paraguaios (LIMA, 2001). Sete anos depois, em 1888, a Expedição Militar encontrou na região de Foz do Iguaçu a presença de pessoas de inúmeras nacionalidades: 188 paraguaios, 93 brasileiros, 33 argentinos, 5 franceses, 2 uruguaios, 2 orientais e l inglês, totalizando 324 habitantes (LIMA, 2001). A região se caracterizou desde o início pela multiculturalidade. Em 1889 foi instalada a Colônia Militar em Foz do Iguaçu. Na primeira década do século XX surgiu a preocupação com a formação escolar. No início o ensino, entre 1901 e 1905, era muito restrito, ministrado por professores particulares nas casas. Em 1915 o ensino já era ministrado na igreja pela professora Geolinda Sottomaior, com 40 alunos. Em 1917 surge a primeira escola, tendo como mestre o professor Guimarães (SANTOS, 1993). A partir de 1905 novos serviços federais e estaduais foram instalados. Em 1910, a Colônia Militar passou à condição de Vila Iguassu, distrito do Município de Guarapuava, sendo entregue ao governo do Paraná (WEBER, 2003). Em 14 de março de 1914, pela Lei 1383, foi criado o Município de Vila Iguassu, instalado efetivamente no dia 10 de junho do mesmo ano, com a posse do primeiro prefeito Jorge Schimmelpfeng ( ) e da primeira Câmara de Vereadores. Em 1918 o município passou a denominar-se Foz do Iguaçu (CAMPANA & ALENCAR, 1997). Cenários de desenvolvimento O novo município se desenvolveu lentamente nas primeiras décadas. Faltavam estradas, comunicação e escolas. A cidade de Foz do Iguaçu era servida pelo porto existente no lado do Paraguai que transportava passageiros, erva-mate e madeira da região brasileira. Uma série de fatores, contudo, favoreceu o crescimento de Foz do Iguaçu: a fronteira, a riqueza florestal, as belezas naturais, a construção da hidrelétrica de Itaipu no rio Paraná e o comércio atacadista exportador. 12 Liv-Jura3.p65 12

13 FOZ DO IGUAÇU EM CONTEXTO DE MOBILIDADE Esses fatores contribuíram para o surgimento de um cenário de desenvolvimento que marcou o município de Foz do Iguaçu e direcionou a organização social (LIMA, 2001; FONSECA, 2005). A fase da ocupação (de 1881 a 1935). Caracterizou-se pela exploração da erva-mate e corte predatório da madeira conduzida por companhias argentinas a serviço dos ingleses. Teve início a agricultura de subsistência com a chegada de inúmeros imigrantes 2. A fase da diversificação (de 1935 a 1965). A agricultura se ampliou pela presença de novas levas de imigrantes procedentes de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Aos poucos foram implantadas indústrias de alimentos, bebidas, beneficiamento de madeira, serviços de infra-estrutura, casa de saúde, escolas e uma rede hoteleira voltada para o turismo, inclusive com a presença de investidores estrangeiros. A fase das políticas públicas (de 1958 a 1980). Foi o período das grandes obras coordenadas pelos governos estadual e federal (Ponte da Amizade, asfaltamento da BR-277, Ponte Tancredo Neves e Usina hidrelétrica de Itaipu, com a entrada de royalties) que impulsionaram o comércio atacadista exportador e a prática do turismo de compra em Ciudad del Este, além do avanço do turismo em torno das belezas naturais (cataratas) e artificial (Itaipu). A fase do processo de integração no Mercosul (de 1990 aos dias atuais). O Tratado de Asunción (1991) que deu origem ao Mercosul entra em vigor em 1º. de janeiro de 1995, facilitando as trocas entre as empresas produtoras sediadas nas regiões industrializadas do Brasil (São Paulo, Curitiba, Maringá, Cascavel...) e empresas comerciais sediadas em Asun- 2 De 1910 a 1935 inúmeras famílias de imigrantes chegaram a cidade de Foz do Iguaçu: paraguaias, argentinas, alemães, italianas, polonesas... Dentre elas lembramos: Schimmelpfeng, Sanways, Boska, Sottomayor, Risden, Chevallier, Engel, Klein, Rouver, Schinke, Höller, Rockenback, Engel, Fuchs, Welter, Ghillardi, Mertig, Bernardi, Urnau, Roth, Lacki, Weirich, Colombelli, Peters, Barthel, Rorato, Dotto, Otremba, Ramaiher, Werner, Friedrich, Rodinski, Kapfemberg, Samaha, Maran, Saucedo, Valle, Vera, Palácios, Benitez, Villordo, Rolon, Rios, Ortega, Moleda, Anzoategui, Inzauralde (LIMA, 2001). 13 Liv-Jura3.p65 13

14 ción, Ciudad del Este, San Lorenzo, Lambare, Fernando de la Mora e na região metropolitana de Buenos Aires. Foz do Iguaçu ficou excluída desse processo, o que gerou um esvaziamento da região exportadora da Vila Portes e Jardim Jupira, afetando sensivelmente o sistema de comércio atacadista exportador. As crises se acentuaram com as mudanças da taxa de câmbio no Brasil e as políticas administrativas de restrição da alfândega brasileira para o comércio formiga importador. Problemas e desafios da cidade de Foz do Iguaçu A determinante do rápido crescimento da cidade foi, sem dúvida, a construção da hidrelétrica de Itaipu. Dezenas de milhares de operários deslocaram-se com suas famílias, oriundos de todo o Brasil, aproveitando a oportunidade de trabalho. Grandes vilas, bem planejadas formaram-se rapidamente. Junto com elas surgiram ocupações por um segmento populacional que sobrevive do subemprego e de trabalhos eventuais. Estas, hoje, ultrapassam de três dezenas. Explosão populacional A mobilidade humana foi marca constante no crescimento populacional de Foz do Iguaçu. Segundo o SINCRE do Ministério da Justiça 62 nacionalidades residem na cidade, além dos oriundos de todos os estados brasileiros, atraídos pela fronteira agrícola 3, pela construção de grandes obras, pela beleza natural e pelo turismo comercial. A história do crescimento populacional da cidade de Foz do Iguaçu se confunde com a história da Hidrelétrica de Itaipu. As correntes migratórias e as conseqüentes características da população foram definidas pelas oportunidades abertas na construção dessa hidrelétrica. O tipo de trabalho disponível, em sua maioria absoluta para peões de obra, atrairia uma população com baixo grau de escolarização e de parcas condições financeiras. Isto exigiu do Estado e da adminis- 3 A área original do Município abrangia os hoje emancipados municípios de: S. Tereza de Itaipu, S. Miguel do Iguaçu, Medianeira, Missal, Itaipulândia, Ramilândia, Matelândia, Diamante do Oeste e Serranópolis. 14 Liv-Jura3.p65 14

15 FOZ DO IGUAÇU EM CONTEXTO DE MOBILIDADE tração municipal amplo empreendimento estrutural para a cidade (ROSEIRA, 2006). EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO DE FOZ DO IGUAÇU Anos População Variação por período % % ,9% ,7% ,1% ,9% ,3% ,5% ,8% ,6% FONTE: IBGE. Estatísticas Históricas do Brasil, 1550 a IBGE. Censos Demográficos 1940 a RJ, IBGE. Estimativas Populacionais, Evolução da População em Foz a Liv-Jura3.p65 15

16 Em decorrência disso o déficit populacional é elevado, especialmente para as centenas de famílias que vivem abaixo da linha de pobreza 4. Diagnóstico da Prefeitura de Foz do Iguaçu (2005) constata: Multiculturalidade A cidade de Foz do Iguaçu convive com o problema de ocupações irregulares às margens de rios, córregos e várzeas, outras localizadas nas imediações de depósitos de lixo e áreas públicas (...). Em 1989, existiam 18 favelas (2.965 famílias), em 2002, cinqüenta e sete favelas, sendo destas vinte e sete sem nenhuma infra-estrutura em áreas de riscos, a beira de mananciais ou em locais de preservação ambiental (www2.fozdoiguacu.pr.gov.br/planodiretor/vol_i/ 14_Aspectos_urbanos.pdf -). Foz do Iguaçu é a cidade das culturas: 62 nacionalidades convivem, marcando a vida do povo com a variedade de línguas, costumes, tipos de alimentos e vivência religiosa. O contexto regional, no raio de 50 quilômetros, abrange nove cidades 5 (quatro no Paraguai, quatro no Brasil e uma na Argentina) totalizando uma população de 900 mil pessoas. Acrescente-se ainda a essa população o grande número de turistas e muambeiros. Foz do Iguaçu pode ser comparada a um grande mercado, onde há um movimento intenso durante o tempo dos negócios, mas que facilmente se esvazia. É desta maneira que se explica o aumento populacional, que, perigosamente, pode se alojar em periferias desorganizadas. De fato Foz 4 De acordo com os dados do Instituto de Foz do Iguaçu (Foz Habita), em 2003, dos 92 bolsões de pobreza de Foz do Iguaçu, 69 foram urbanizados ao longo dos últimos anos (...). Os números apontam um déficit habitacional de 15 mil moradias. Revelam que 60% destas famílias vivem em condições subumanas, sem a mínima infra-estrutura, nas chamadas ocupações irregulares (...). Os dados revelam que 30% da população de Foz do Iguaçu é de pobres, sendo que aproximadamente 36 mil vivem abaixo da linha da pobreza (WEBER, 2005). 5 As cidades são: na Argentina (Puerto Iguazú); no Paraguai (Ciudad del Este, Presidente Franco, Hernandárias e Minga Guazú) e no Brasil (Foz do Iguaçu, Santa Terezinha do Iguaçu, São Miguel do Iguaçu e Medianeira). 16 Liv-Jura3.p65 16

17 FOZ DO IGUAÇU EM CONTEXTO DE MOBILIDADE do Iguaçu é cidade opulenta, rica e pacífica, quando os negócios vão bem, para tornar-se repentinamente lugar de desemprego, de falências, de tensão social e de violência. Foz do Iguaçu, lugar de muitas etnias, é constantemente desafiada a desenvolver-se na integração das mesmas. Integração não significa descaracterização, mas vivência plena de identidade na diversidade e no diálogo das culturas. Brimos - A comunidade árabe da Tríplice Fronteira conta com aproximadamente pessoas e tem uma ampla estrutura com duas mesquitas e quatro escolas. Os sírio-libaneses chegaram em 1953, como mascates, em Foz e daí começaram a percorrer o Paraguai oferecendo produtos brasileiros. Fixaram-se na cidade, sendo base para o comércio atacadista exportador para o Paraguai. Até hoje participam ativamente da dinâmica econômica da fronteira (...). Hermanos - A presença de argentinos e paraguaios em Foz foi identificada já na época da formação da colônia militar, no século XIX. Estudo feito pelo Exército em 1888 identificou uma população formada por 324 pessoas, em sua maioria hermanos que imigraram para o território brasileiro. Atualmente, eles são parte integrante do município. Perto do rio Iguaçu, na região da grande Porto Meira, uma avenida funciona quase que exclusivamente para atender os argentinos que compram alimentos e buscam os serviços brasileiros. São supermercados, lojas de materiais de construção e até oficinas mecânicas especializadas em atender clientes argentinos. A região é habitada por descendentes de paraguaios que trouxeram a chipa, a sopa paraguaia, o tererê e outros costumes guaranis. Mas a bebida que faz mais sucesso na região é a cerveja argentina Quilmes, de um litro, que leva o singelo apelido de Nhonho - o personagem obeso da série televisiva Chaves. 17 Liv-Jura3.p65 17

18 Sulinos - Entre as décadas de 40 e 70, gaúchos e catarinenses e posteriormente cariocas, paulistas, mineiros e nordestinos escolheram a região para cultivar a terra, trabalhar na construção da barragem da Itaipu Binacional e criar seus filhos. A gauchada que trouxe o churrasco e o chimarrão modificou o sotaque regional com os parlari e as carroças com um erre só. Os CTGs (Centros de Tradições Gaúchas) são comuns na região. Orientais - Os chineses e coreanos foram os últimos a embarcarem no caldeirão lingüístico. O mandarim já é ouvido e falado nos bares, confeitarias, escolas, supermercados e até em danceterias. Há agências de turismo, serviços imobiliários, médicos e construtoras que atendem somente clientes orientais. A maioria dessas nacionalidades tornaram Foz do Iguaçu um dormitório, pois seus investimentos estão em Ciudad del Este. Caldeirão - Toda essa variedade ressalta que a região vive o multilinguismo descrito no clássico Blader Runner em que mostra a língua falada numa grande metrópole de 2025 é um codemixing (mistura de línguas) de vários dialetos. Situações peculiares como o de Marcos Krats, com 19 anos, mostra bem essa realidade, pois, embora analfabeto, fala o inglês e o espanhol e ajuda no sustento da família, trabalhando como piranha (autônomos que agenciam turistas em cruzamentos e recebem comissão pela indicação). Ele agencia visitantes que preferem as pensões e hotéis mais baratos. Ganho os meus dólares por mês para sustento da minha família. O tino comercial de Krats reflete a importância do turismo na fronteira. A região é a segunda escala no Brasil para o turismo internacional. Guia de turismo que não domina uma (inglês) ou mais línguas, tem o seu mercado de trabalho reduzidíssimo. 18 Liv-Jura3.p65 18

19 FOZ DO IGUAÇU EM CONTEXTO DE MOBILIDADE A preferência pelo turismo internacional trouxe a Foz e região uma leva de profissionais estrangeiros que trabalham em diversas áreas de prestação de serviços. É fácil encontrar bailarinos argentinos que dançam nas casas de shows; americanos proprietários de agências de turismo; franceses, livreiros e portugueses, hoteleiros (...). O caldeirão cultural da Tríplice Fronteira rendeu nome para o espaço mais democrático. Localizada no centro de Foz, a Praça das Nações recebeu esse nome justamente numa referência às 62 nacionalidades do município. Ela é a expressão de povos que formam uma região única no planeta (http:// Indústria, agropecuária, comércio e serviços ESTABELECIMENTOS COMERCIAIS DE TRÊS PÓLOS REGIONAIS Município Número de Estabelecimentos por Setor Indústria Com.Varejo Com.Atacado Serviços Total Cascavel Foz do Iguaçu Toledo FONTE: ROSEIRA, Comparando Foz do Iguaçu com outros pólos regionais percebe-se a discrepância no que se refere ao setor industrial e à insignificante produção agrícola e agropecuária. Fica evidente que Foz do Iguaçu destoa do restante da região. Sua pequena atividade agroindustrial faz com que tenha de maneira generalizada uma atividade industrial reduzida se comparada a Cascavel e Toledo. Seus estabelecimentos industriais, segundo o IPARDES, estão vinculados principalmente à indústria de estruturas metálicas e a indústria de madeira. Já nos demais setores Foz do Iguaçu apresentam um potencial, especialmente na prestação de serviços. Turismo e crise econômica Não se pode ignorar o elevado número de turistas que são atraídos pelas 19 Liv-Jura3.p65 19

20 belezas naturais das Cataratas do rio Iguaçu e pela maravilha da obra da Itaipu. São os turistas ricos que se hospedam em redes de hotéis luxuosos. Há também outra categoria de turistas compras : mais conhecidos como muambeiros. Procedem de todo Brasil, chegam de madrugada, de ônibus, se abastecem no Paraguai, retornando na outra noite para sua cidade de origem. Entre eles uns permanecem mais tempo na cidade utilizam a rede de hotéis com padrão mais popular. EVOLUÇÃO DE PASSAGEIROS POR ÔNIBUS DE TURISMO, VISITANTES DO PARQUE NACIONAL E TOTAL DE VISITANTES AO ANO EM FOZ Ano Nº de passageiros Visitantes do Parque Total de visitantes (ônibus de turismo) Nacional do Iguaçu a Foz do Iguaçu FONTE: PERIS & LUGNANI, Evolução: passageiros, visitantes do parque e total de visitantes a Foz do Iguaçu Total de visitantes a Foz Passageiros de ônibus de turismo a Foz Visitantes do Parque de Foz Liv-Jura3.p65 20

21 FOZ DO IGUAÇU EM CONTEXTO DE MOBILIDADE A análise do quadro e do gráfico leva aos seguintes indicativos: a) Drástica diminuição (69,7%) dos turistas de compras, também chamados muambeiros ou sacoleiros, após entrar em vigência o Tratado de Assunção (Mercosul) e as mudanças da política fiscal e alfandegária do Brasil limitando a cota de importados por pessoa, além da adoção de severo controle na entrada. b) Queda do total de visitantes de 4,3 milhões, em 1995, para 3 milhões, em 1996; 2,5 milhões, em 1997 e 2 milhões, em Isso significa que de 1998 a 1994 houve uma redução de 52,4%. c) Queda lenta anual de turistas visitantes do Parque Nacional com uma diminuição acumulada de 21,9%. Os dados fornecidos pela Secretaria Municipal de Turismo e que compõem o gráfico a seguir, mostram que entre 1999 e 2003, houve uma retração no turismo, com acentuada queda em Entre 1999 e 2003 a média de visitantes ao ano foi de 737 mil. A partir de 2004 a média anual elevou-se para aproximadamente um milhão de visitantes por ano, permanecendo até os dias atuais. Evolução de visitantes ao Parque Nacional 1999 a Liv-Jura3.p65 21

22 Violência Pesquisa da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura, qualifica o nível de violência da cidade de Foz do Iguaçu no Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros. MÉDIA DE HOMICÍDIOS POR CADA 100 MIL HABITANTES: BRASIL, PARANÁ E FOZ DO IGUAÇU Localidade Média geral (Adultos e jovens) Média de jovens Brasil 27,2 51,7 Paraná 20,7 59,9 Foz do Iguaçu 94, FONTE: OEA Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros, Pelos dados a cada 100 mil habitantes o Brasil registra uma média de 27,2 homicídios, o Paraná 20,7 e Foz do Iguaçu 94,3, ocupando o 1º lugar no Estado do Paraná e em 11º no Brasil. Porém, tomando somente a taxa de homicídio na população jovem Foz do Iguaçu passa a ocupar o 1º lugar em nível de Brasil, o que poderia sinalizar a falta de oportunidades de trabalho, a influência do narcotráfico, a desestruturação familiar, a tênue rede de valores morais e religiosos e a limitada perspectiva de vida para o jovem. Qualificação dos investimentos Em levantamento recente a Prefeitura identificou prioridades nos investimentos a partir de lideranças ouvidas: aumentar a oferta de cursos universitários 6 e profissionalizantes; 6 Existem sete instituições de nível superior em Foz do Iguaçu: Faculdade Anglo- Americano; Instituto de Ensino Superior de Foz do Iguaçu; Faculdade Dinâmica das Cataratas; Faculdade União das Américas; Faculdades Unificadas de Foz do Iguaçu; Instituto Superior de Educação União das Américas; e Universidade Estadual do Oeste do Paraná. 22 Liv-Jura3.p65 22

23 elevar a oferta (geração) de emprego 7 ; melhorar o atendimento à saúde; maior incentivo às indústrias; FOZ DO IGUAÇU EM CONTEXTO DE MOBILIDADE desenvolver e divulgar o setor de turismo e hotelaria. Além desses pontos que tiveram maior incidências de respostas foram apontadas também a questão da segurança, o desfavelamento, oferecimento de melhor qualidade de vida à população carente, implantação de mais áreas de lazer e investimento na cultura. Considerações e alguns indicativos Foz do Iguaçu é, assim, uma cidade que nasceu da mobilidade humana, lugar de encontro e de escoamento, lugar que transita mercadoria que procede do oriente, dos países do hemisfério norte e que atende a demanda consumista do povo brasileiro. É uma cidade de desafios, pois a necessidade de atender pessoas tão diversificadas provoca a criatividade organizativa da cidade e a capacidade das instituições (civis e religiosas) de desenvolver valores e ações de inserção cidadã. O quadro descrito nos dá a radiografia de uma região marcada pela mobilidade humana: de bens, pessoas e instituições. Existem problemas econômicos, sociais, políticos e éticos. Nascem chocantes desafios para as pessoas e para todas as instituições. Diante desta realidade há um perigo: contentar-se com respostas imediatistas e isoladas sem tentar uma reflexão mais ampla. O mundo fragmentado de Foz do Iguaçu apela por uma sabedoria que aponte e alimente ideais. Se há uma crise de emprego, habitação, saneamento, violência, há uma crise mais profunda que é a perda do sentido da vida: a 7 Novo arrocho da fiscalização da Receita Federal em Foz do Iguaçu começou em 2004, obrigando os compristas a respeitar a cota máxima de compras. Como resultado da operação, o número de sacoleiros que fazem compras na fronteira caiu drasticamente de aproximadamente 250 ônibus dia, para cerca de 50, atualmente. (Acesso ao site da ABN em 31/7/ Liv-Jura3.p65 23

24 pessoa se torna um elemento solto, com laços superficiais e explora todas as oportunidades sem fixar-se em nada. A crise de sentido é a fonte de toda violência e o ambiente propício para a depressão. Qual o papel da religião em tudo isso? Continuaremos na análise da realidade sob a dimensão religiosa da caminhada de Foz do Iguaçu. 24 Liv-Jura3.p65 24

25 2. A PRESENÇA DA IGREJA CATÓLICA EM FOZ DO IGUAÇU Os Missionários Verbitas Nos primeiros anos de colonização até 1907 raras vezes os moradores de Foz do Iguaçu contaram com a presença estável de um sacerdote. Seitz (1974), missionário verbita, afirma que o único padre que visitou o local duas ou três vezes, foi o de Posadas, Argentina. No Livro Tombo nº 1 da Paróquia São João Batista 8 de Foz do Iguaçu está registrado: Desde o ano de 1907, Dom Duarte Leopoldo da Silva, bispo de Curitiba, entregou a vasta Paróquia de Guarapuava aos cuidados espirituais da Congregação do Verbo Divino, ficou-lhe também confiada à colônia militar de Foz do Iguaçu, que eclesiasticamente pertencia à Paróquia de Guarapuava (...). Desde 1907, pois, os padres do Verbo Divino vinham de Guarapuava a fim de atender os interesses espirituais desta próspera colônia. Porém, sendo separada da sede da Paróquia por um imenso sertão, não foi possível visitá-la mais de que uma vez por ano. O primeiro sacerdote que vem trazer ao bom povo de Foz do Iguaçu os consolos da nossa santa religião foi o Reverendo Pe. Guilherme Münster (...). Mais tarde visitaram a Colônia Militar de Foz do Iguaçu os padres Camillo Kerkhoff, Humberto Osttender, Nicolao Simon, Nicolao Baur, Paulo Schneider (p. 2-3). Neste período foi construída uma pequena capela no local onde hoje se encontra a matriz São João Batista. Após a emancipação política de Foz do Iguaçu (1914) o então prefeito Jorge Schimmelpfeng doou, em 14 de 8 Os padres missionários da Congregação do Verbo de Deus estão servindo a comunidade de Foz do Iguaçu desde Liv-Jura3.p65 25

26 dezembro de 1916, um terreno e construiu uma modesta casa de madeira atrás da capela, destinada a abrigar o futuro pároco (SEITZ, 1974). Em 1918, o Pe. Guilherme Münster, svd, em missão especial visitou a comunidade e apresentou um relatório detalhado ao bispo de Curitiba Dom João Francisco Braga. A população continuou sendo atendida pelos Missionários Verbitas. Segundo relato do Pe. Germano Lauck, svd, os missionários vinham em lombo de animal, percorrendo o trajeto em um mês, pois iam atendendo a população que encontravam: batizando, legitimando casamentos, atendendo doentes, celebrando missa e ensinando a doutrina. Permaneciam na cidade por mais um mês e empregavam o terceiro mês para retornar novamente atendendo as populações dos povoados existentes. Criação da Paróquia São João Batista e Incêndio da Igreja Em 1922, por ordem do bispo de Curitiba, o Pe. Guilherme Maria Thiletzek realizou uma viagem de inspeção à região de Foz do Iguaçu, o que possibilitou a instalação da primeira paróquia dedicada a São João Batista em Padre Guilherme assumiu a paróquia, juntamente com o Pe. João Progzeba e o Irmão Bianchi, todos da congregação do Verbo Divino (Seitz, 1974). No ano de 1924 foi construída a segunda igreja de madeira, que queimou no ano seguinte, 3 de maio de Estava sendo celebrada uma missa solene de Ação de Graças pela retirada dos Revolucionários da Coluna Prestes. Durante a festa foram disparados foguetes e um deles explodiu em cima do telhado da Igreja-Matriz, coberta de tabuinhas, pegando fogo. Em 1926 foi lançada a pedra fundamental para a construção da terceira igreja, só concluída em Segundo o Pe. Germano Lauck a construção foi em etapas: em 1928 foi concluído o presbitério; em 1930, a Casa Paroquial; em 1942, a nave, em estilo gótico; finalmente, em 1947, foi construída a torre. Perseguição aos padres alemães A 2ª Guerra Mundial influiu na vida da Igreja de Foz do Iguaçu. Com a 26 Liv-Jura3.p65 26

27 FOZ DO IGUAÇU EM CONTEXTO DE MOBILIDADE Incêndio da Igreja São João Batista, 1925 entrada na guerra, em 1942, o Brasil estabeleceu a Lei da Fronteira e do Litoral, afetando aos cidadãos alemães e, conseqüentemente, os padres de Foz do Iguaçu. É importante lembrar um acontecimento origem de graves dissabores: Nos anos de 1937 e 1938 hospedava-se na casa dos padres um membro da Família Real da Áustria, um Arquiduque de Habsburgo. Tinha uma grande fazenda no Paraguai. Com seu próprio avião levava cientistas e exploradores para estudar o solo dessa fazenda. Retornando a Europa em 1938 as tropas de Hitler invadiram a Áustria e ele ficou preso e não mais voltou. Deixou aos cuidados dos padres alguns caixotes com artigos de uso pessoal e de trabalho para exploração das terras da fazenda. Continham também alguns fuzis e munição e 2 quilos de dinamite. Os padres nem sabiam do conteúdo destas caixas. Os guardaram religiosamente num quarto sempre chaveado. 27 Liv-Jura3.p65 27

28 Em 1942 um homem que residia em Foz e era conhecido daquele Arquiduque e sabia do conteúdo dessas caixas, foi denunciar Mons. Könner na delegacia por ter ocultado material bélico na sua residência, proibido que era pela Lei da Fronteira e do Litoral (...). Mons. Könner foi preso e levado de ônibus, incomunicável, para Curitiba... Em 1944 foi conseguida uma declaração do conteúdo pelo próprio Arquiduque. Só então foi libertado (...). Os demais padres também conseguiram retornar a Foz do Iguaçu... (SEITZ, 1974) 9. Segundo depoimento de antigos moradores esse episódio afetou, por muito tempo, a imagem da Igreja Católica em Foz do Iguaçu, o que explicaria a pouca influência sobre a vida religiosa do povo, pois como instituição Igreja não era valorizada na sociedade local. Os livros que narram a história de Foz do Iguaçu fazem poucas referências ao papel da Igreja. Em um dos raros referimentos encontra-se o seguinte registro: A comunidade não prima pelo zelo religioso. Visto tratar-se de cidade turística e de fronteira, nota-se uma desagregação social intensa. As festas religiosas não são muito comemoradas, mesmo as de cunho local como a de São João Batista, padroeiro da cidade e Santa Terezinha (MONTEIRO, 1970). A força das Congregações Religiosas Desde 1907 os padres do Verbo Divino atendiam as populações da região não apenas na dimensão espiritual, mas também na saúde e educação. Em 1938 os padres fundaram, em parceria com a comunidade, a Santa Casa de Saúde Monsenhor Guilherme. Em 1944, após o exílio forçado dos sacerdotes alemães devido à Lei da Fronteira e do Litoral, com a criação da escola estadual Bartolomeu Mitre, assumiu como primeiro diretor Pe. Guilherme Maria Thiletzke e os padres João Worth e José Winks passaram a fazer parte do corpo docente (LIMA, 2001). 9 Foz do Iguaçu foi declarada zona de guerra e por isso foi proibida a presença de alemães e italianos na fronteira em razão do Brasil ter se aliado, a partir de 1942, aos países do Eixo contra os alemães, italianos e japoneses. 28 Liv-Jura3.p65 28

29 FOZ DO IGUAÇU EM CONTEXTO DE MOBILIDADE Em 1947 chegou a Foz do Iguaçu a Congregação das Irmãs da Caridade de São Vicente de Paula para se dedicarem às obras sociais, educação e saúde. As Irmãs, além de assumirem a Santa Casa Monsenhor Guilherme no atendimento aos doentes, abriram em 1948 o Instituto Educacional São José (LIMA, 2001). Na década de 1970 outras Congregações começaram a se fazer presentes para atender aos novos apelos pastorais: Schöenstatt, Jesuítas, Scalabrinianos, Capuchinhos. As Congregações femininas: Beneditinas da Divina Providência, Maria Santíssima Consoladora, Sagrado Coração do Verbo Encarnado, Scalabrinianas, Voluntárias de Cristo Rei, Irmãs Franciscanas de São José. O despertar da vivência religiosa com o Concílio Vaticano II ( ) Há um depoimento interessante e significativo do padre Germano Lauck, svd, da Paróquia São João Batista: Ante a pouca participação e vivência da fé de muitos cristãos, o Pároco da Paróquia São João Batista, logo após o Concílio Vaticano II, ao invés de fazer a homilia, lia os documentos do Concílio que apontavam para novas atitudes na Evangelização e desafiava os cristãos a assumirem sua vocação de batizados. Em 1968 foram organizadas as primeiras Missões Populares que deram novo impulso à vida religiosa 10. Mas o fator mais importante foi a chegada de muitas famílias que vieram de outras localidades do Brasil com uma experiência religiosa mais madura. A construção de Itaipu ao mesmo tempo em que congregava trabalhadores reunia lideranças religiosas motivadas e empreendedoras. Novas paróquias foram criadas na década de 1970 para atender a explosão demográfica: São Paulo Apóstolo (1971) e São José Operário (1976). A Igreja de Foz do Iguaçu que contava com associações mais antigas, 10 Outras duas missões populares ocorreram: uma em 1994 e a outra em Liv-Jura3.p65 29

30 como o Apostolado da Oração (1924), passou a enriquecer-se com os novos movimentos, que no espírito do Concílio Vaticano II, trouxeram novas motivações para a vida cristã: Movimento dos Irmãos (1972), Movimento de Casais (1973), Cursilho de Cristandade (1974), Renovação Carismática Católica (1974) e Associação Santa Rita (1977). O surgimento de pastorais, mais orgânicas e sistematizadas, começou a partir de 1973 quando se reforça a Pastoral Catequética e Litúrgica e se iniciam as pastorais do Batismo e do Matrimônio. Criação da Diocese de Foz do Iguaçu O aumento da população exigia uma reorganização da Igreja. Em 05 de maio de 1978, pela Bula De Christiani Populi do Papa Paulo VI, criavase a Diocese de Foz do Iguaçu. O primeiro bispo foi Dom Olívio Aurélio Fazza que permaneceu no cargo até Ao assumir a diocese Dom Olívio enfrentava uma realidade desafiadora: presença de muitas famílias, de culturas diferentes, reunidas no mesmo lugar por motivo de trabalho e nem sempre bem atendidas em suas necessidades de moradia, saúde e educação. Além do mais não havia, ainda, um clero diocesano. Em 1993 em entrevista a Gazeta do Iguaçu declarava: Procurei incentivar os grupos de reflexão nas paróquias (...). Em Assembléia Diocesana definimos que o modo de caminhar da diocese devia se pautar por uma linha de participação comunitária com ênfase na atuação do leigo. Também (...) enfatizamos a formação de novos padres (CAMPANA & ALENCAR, 1997). Novas paróquias foram criadas: Perpétuo Socorro (1982), São Francisco (1991), Divino Espírito Santo / Nossa Senhora Aparecida (1992), São Pedro (1993), Anunciação do Senhor (1996) e Nossa Senhora da Luz (2001). Desenvolveram-se os Grupos de Reflexão (1979), Convívio Damasco (1983), Focolare e Neo-Catecumenato (1989), Lareira (2000) e Convívio Tabor (2002) Em 1992 havia a presença da Associação Fraternidade Aliança (AFA) - Pequenos Irmãos do Evangelho. 30 Liv-Jura3.p65 30

31 FOZ DO IGUAÇU EM CONTEXTO DE MOBILIDADE A caminhada da diocese foi conduzida através de Planos de Ação Pastoral mais incisivos na realidade regional. Foi qualificada a formação de lideranças e intensificada a preparação de vocacionados em vista do sacerdócio. A criação de novas paróquias melhorou o atendimento ao povo. Novas pastorais, de acordo com a caminhada da Igreja do Brasil e as orientações das Conferências Latino-Americanas se desenvolveram: Pastoral dos Migrantes, da Juventude, Vocacional, Carcerária, do Dízimo, da Saúde, da Criança e a Cáritas. Consolidou-se um projeto pastoral compatível com os tempos e as exigências da mobilidade humana. Outro passo marcante foi o início do processo de integração de algumas pastorais com as dioceses de Fronteira. Dom Laurindo dá continuidade a Pastoral Diocesana Em 2002 assumiu a diocese Dom Laurindo Guizzardi dando continuidade à caminhada da Igreja. Reforçou a regulamentação pastoral e administrativa da diocese e deu início às obras da nova Igreja Catedral. A linha pastoral do 10 o Plano da Ação Evangelizadora Diocesana tem como foco o fortalecimento, a criação e a formação dos Grupos de Famílias com vistas à vivência de uma fé mais viva e comprometida na sociedade, como fermento de transformação. Para a concretização deste foco, o plano indica missões populares, formação permanente de lideranças, preparação aos sacramentos nos grupos de famílias e ação concreta no serviço da caridade (10º Plano Diocesano, 2004). Com a construção da nova Catedral Diocesana na área da Paróquia São José Operário, esta, em 2007, foi extinta para dar origem a outras duas paróquias: a Catedral Nossa Senhora de Guadalupe e a Paróquia Bom Jesus do Migrante. A Paróquia Bom Jesus do Migrante é a expressão da consciência da necessidade de atuar de uma maneira específica no fenômeno da mobilidade humana. De fato considerando toda a história da região, há um elemento que é o denominador comum de todo o processo de formação civil: o intenso movimento de pessoas e de grupos das diferentes regiões do país e também de outros países. 31 Liv-Jura3.p65 31

32 A realidade migratória na diocese Através de um quadro sintético se pode especificar essa realidade 12. a ) Mais da metade da população é originária de fora do município. b) Há uma significativa migração interna oriunda de outros municípios do Paraná e de outros estados brasileiros, constituída de aposentados na busca de qualidade de vida; trabalhadores atraídos pelas ofertas de emprego, no passado e, hoje, especialmente, pelo comércio de importados e turismo. Normalmente são pessoas que procuram estabelecer-se definitivamente. c ) Migração de retornados. Brasileiros que nas décadas de 70 e 80 sonharam com uma vida melhor no Paraguai e com a evolução da modernização agrícola muitos se obrigaram a retornar, sem profissão e sem renda definida. Vivem em situação de exclusão. Na prática são excluídos tanto pela sociedade paraguaia, como pela brasileira, pois perderam sua identidade sócio-cultural. Não se sentem brasileiros, pois já perderam, o contato com as raízes, nem paraguaios, pois têm traços culturais brasileiros e a maioria não domina o idioma castelhano e, menos ainda, o guarani. d) Imigrantes 13 estrangeiros sul-americanos, especialmente paraguaios e argentinos. Os que imigraram antes da década de 90 e estão inseridos na sociedade brasileira, com estabilidade jurídica, econômica, social e cultural. Os que migraram a partir da década de 90 vivem, em sua maioria, a situação de indocumentados, clandestinos, por carência de documentos e em trabalhos temporários. 12 A área territorial da diocese se constitui de 14 municípios e conta com mil habitantes, predominando o gênero masculino com 51,4% e o feminino com 48,3% (ZAMBERLAM, 2005). 13 No Censo de 2000 foram registrados estrangeiros em Foz do Iguaçu. Em 2006 ultrapassavam a 13 mil, oriundos de 62 nacionalidades (SINCRE, órgão ligado ao Ministério da Justiça). 32 Liv-Jura3.p65 32

33 FOZ DO IGUAÇU EM CONTEXTO DE MOBILIDADE e) Imigrantes oriundos do Oriente com empreendimentos em vários pontos do Brasil - Foz do Iguaçu, Fronteira meridional do Rio Grande do Sul (JARDIM, 1995), no Paraguai e em outros países. Destacam-se dois subgrupos: os procedentes do Oriente Médio (sírio-libaneses e os chamados genericamente de árabes e os judeus); e o segmento do Extremo Oriente (chineses, japoneses, coreanos...). Nos dois subgrupos muitos têm atividades comerciais em Ciudad del Este e residência em Foz do Iguaçu. f) Estudantes provindos do estado do Paraná e outras federações do Brasil e os provindos de nações latino-americanas, especialmente Paraguai, Bolívia e Argentina. g) Caminhoneiros. Devido ao grande comércio internacional que passa por Foz do Iguaçu há um significativo número de motoristas que se obriga a parar na cidade para cumprir as exigências da fiscalização. h) Emigrantes brasileiros. Há ainda um outro crescente fenômeno: o fluxo de brasileiros que estão indo para o exterior América Latina, Europa, Norte América e Oriente. i) Turistas. As belezas naturais e as artificiais da região têm atraído grande número de turistas. Há ainda os atrativos de ordem econômica que motivam a vinda dos turistas compristas, denominados também, pejorativamente, de muambeiros ou sacoleiros. Missionários e Missionárias de São Carlos Borromeu - Scalabrinianos A Congregação dos Missionários de São Carlos (Scalabrinianos) em 1976, percebendo a gravidade do problema com a construção da Hidrelétrica de Itaipu, ofereceu seu serviço ao bispo de Toledo, Dom Armando Cirio, que imediatamente erigiu a Paróquia São José Operário (1976). O objetivo era atender o forte deslocamento populacional interno. 33 Liv-Jura3.p65 33

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