ÁREA TEMÁTICA: Direito, Crime e Dependências INFÂNCIA, SOCIALIZAÇÃO E TERRITÓRIO: A APRENDIZAGEM SOCIAL DA DELINQUÊNCIA POR CRIANÇAS

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1 ÁREA TEMÁTICA: Direito, Crime e Dependências INFÂNCIA, SOCIALIZAÇÃO E TERRITÓRIO: A APRENDIZAGEM SOCIAL DA DELINQUÊNCIA POR CRIANÇAS EM CONTEXTO DE REALOJAMENTO CARVALHO, Maria João Leote de Doutorada em Sociologia especialidade em Sociologia do Desenvolvimento e da Mudança Social CesNova FCSH, Universidade Nova de Lisboa

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3 Resumo Fundando-se nos campos do interacionismo simbólico, da ecologia social e da sociologia da infância, a pesquisa que serve de base a esta comunicação teve por objetivo estudar as relações emergentes entre a delinquência de crianças em idade escolar (1º Ciclo do Ensino Básico: 6-12 anos) e os modelos de urbanização em que se integra a construção de seis bairros de realojamento no concelho de Oeiras, Área Metropolitana de Lisboa. Com base numa linha orientadora que cruza três vetores infância, delinquência e território, partiu-se da hipótese de que esses modelos se articulam com o desenvolvimento de processos de socialização e modos de vida facilitadores do acesso das crianças a janelas de oportunidades para a prática de delinquência. Entre final de 2005 e 2009 realizou-se um estudo de caso, de base etnográfica, aplicando-se um metodologia qualitativa que resultou da complementaridade de diferentes técnicas observação participante, técnicas visuais (desenho e fotografias dos bairros), entrevistas e análise documental, numa lógica analítica compreensiva que teve por ponto de partida a voz das crianças. No final, constatou-se como a espacialização da diferenciação social na origem destes bairros traduz-se em fragilidades do controlo social, identificando-se um quadro de desorganização social e baixa eficácia coletiva que favorece a aprendizagem social da delinquência. A transmissão de valores delinquentes, especialmente em famílias que se constituem como modelo de não conformidade social, assume significativa importância espelhando-se na diluição do controlo social informal. Para várias crianças a delinquência assume um carácter funcional e instrumental, nela encontrando formas atrativas e desafiantes de socialização. Abstract Rooted in the symbolic interactionism theory, social ecology theoretical approaches and childhood studies, the PhD research project in which this paper is based aimed to study the relation between school children delinquency (Elementary Level: 6-12 years-old), and the models of urbanization which have supported the construction of six public housing neighbourhoods in Oeiras, Lisbon Metropolitan Area, Portugal. Based on guideline that crosses three vectors childhood, delinquency, and territory, we started from the hypothesis that these models are linked with the development of socialization processes that facilitate the access to windows of opportunities for committing delinquency. Within this framework, between late 2005 and 009, it has been carried out a case study based on ethnographic research involving a combination of qualitative methodologies participant observation, visual techniques (neighbourhood drawings and community photography), interviews and documental analysis, sustained in a comprehensive analytical logic that has considered the voice of children as its starting point. Locally, the spatialization of the social differentiation of these neighbourhoods reflects into weaknesses of social control, and into the existence of a framework of social disorganization and low collective efficacy that promote the social learning of delinquency. The transmission of delinquent values, especially in families that are not models of social conformity, assumes significant importance and it is reflected in the dilution of informal social control. For many children, delinquency takes a functional and instrumental role, and may find in it attractive and rewarding forms of socialization. Palavras-chave: crianças, socialização, delinquência, ecologia social, políticas de habitação social Keywords: children, socialization, delinquency, socio ecological theories, public housing policies PAP de 15

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5 Introdução A delinquência não é um fenómeno exclusivo das sociedades contemporâneas; existiu desde sempre e em todos os grupos sociais, variando apenas a forma como se caracteriza e se torna visível ao longo dos tempos. No presente, constitui um traço fundamental da análise social das dinâmicas da(s) cidade(s) e da(s) metropóle(s), que se edificam num quadro alargado de mudanças sociais tendo por pano de fundo um fenómeno de globalização. De igual modo, também a preocupação social sobre esta problemática não é nova. Contudo, nos dias de hoje, adquire um especial relevo pelas questões sociais que coloca em causa no seio de uma determinada sociedade, especialmente quando reportada aos atos dos seus membros mais novos, as crianças. Assente numa uma linha orientadora que cruzou três vetores infância, delinquência e território, no âmbito de dissertação de Doutoramento em Sociologia desenvolveu-se um projeto de investigação financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (SFRH/BD/43563/2008)que teve por objetivo estudar as relações emergentes entre a delinquência de crianças em idade escolar (1º Ciclo do Ensino Básico: 6-12 anos) e os modelos de urbanização em que se integra a construção de seis bairros de realojamento no concelho de Oeiras, na Área Metropolitana de Lisboa, com base na hipótese de que esses modelos e os processos de urbanização concretizados se articulam com o desenvolvimento de formas de socialização e modos de vida que facilitam o acesso a janelas de oportunidades para a prática de atos delinquentes. 1 Observar e compreender os quadros de vida das crianças significa apreender um universo muito vasto. A infância não é uma realidade plana, vivida ou representada exclusivamente no singular; pelo contrário destaca-se em cada forma de a viver um campo próprio que remete para a coexistência de traços singulares diversos decorrentes de desigualdades assinaladas por diferentes origens de género, espaço social de classes e, até mesmo, de local geográfico (Almeida, 2009). Dada a dimensão da pesquisa em causa, esta comunicação fica reduzida a uma breve discussão sobre alguns dos principais resultados obtidos relativos às práticas sociais das crianças e às formas como representam e assumem o seu envolvimento em delinquência. Teve-se a intenção de identificar a natureza e dimensões da delinquência na infância nos bairros de realojamento escolhidos, tentando-se perceber de que formas as crianças se apropriam dos modelos culturais dominantes e os violam, aceitam ou legitimam pela ação, como constroem o sentido da delinquência nestas idades. Trata-se de uma perspetiva que visa a conjugação dos atos, dos autores, dos resultados e sentidos da ação que lhes são atribuídos (Cusson, 1993). 1. Infância, urbanização e delinquência Enquanto conceito socialmente construído por referência a normas, valores, quadros socioculturais e jurídicos de uma sociedade, a delinquência reporta-se aos atos de violação desses quadros praticados por indivíduos que, em função da idade, se encontram na condição de inimputáveis perante a lei penal ficando, por isso, abrangidos por legislação específica de proteção à infância e juventude. Na sua origem estão processos e dinâmicas sociais cuja discussão se revela pertinente incrementar tanto a nível científico como social. Para isso importa identificar as formas de produção da delinquência a partir dos contextos onde se manifesta, dos protagonistas que envolve e dos instrumentos de reação social de que uma sociedade dispõe. O modelo teórico de análise preconizado nesta investigação (Carvalho, 2010), com origem nos campos do interacionismo simbólico, da ecologia social e da sociologia da infância, pensa a delinquência na infância (6-12 anos) como expressão de um problema social que, não sendo novo, está associado a um amplo espetro de fatores e circunstâncias de natureza diversa. Estes fatores e circunstâncias colocam-se em jogo num determinado território cujo ambiente físico influi e simultaneamente sofre as influências da ação e do controlo social exercido pelos indivíduos que nele se situam, ou o atravessam, e em relação aos quais as crianças, na qualidade de atores sociais, atribuem um sentido particular que apropriam, integram, reconstituem e (re)produzem. Ter em consideração o olhar da criança abre horizontes que remetem para a sua compreensão como entidade participativa na construção da realidade e da mudança social nas mais variadas dimensões. Se é verdade que 5 de 15

6 toda a ação tem um sentido, só assumindo a capacidade de escuta sobre esse sentido a partir do ator social é que se poderá caminhar para um processo de desocultação da mesma e dos mecanismos sociais que lhe estão subjacentes (Bourdieu, 1993). Nesta investigação interessou particularmente a conclusão apontada em diversos estudos relativamente à existência de uma relação positiva entre a concentração de desvantagens sociais em certos espaços urbanos e a delinquência. Na sua origem, o facto de desorganização social e (baixa) eficácia coletiva se interpenetrarem mutuamente, decorrendo da natureza deste processo o favorecimento da aprendizagem social da delinquência pelas crianças (Sampson, 2002).A eficácia coletiva refere-se aos mecanismos sociais de construção de confiança e de partilha de expectativas entre residentes de um determinado território relativamente ao controlo social, deslocando-se o foco de atenção dos laços individuais para o da eficácia social dos grupos. Como provam os resultados de várias pesquisas (Sampson, 2008), processos sociais fulcrais como o controlo social, se exercido nos espaços públicos com base no envolvimento coletivo dos residentes, associa-se negativamente a violência, delinquência e crime. À luz dos contornos do desenvolvimento urbano, a eficácia coletiva depende da construção de relações de confiança estabelecidas com o(s) outro(s), que satisfaçam tanto necessidades pessoais como sociais, sendo indissociáveis do território onde se concretizam. Nesta perspetiva, a delinquência surge como resultado de uma aprendizagem social (Akers, Krohn, Bandura) que se associa à existência de janelas de oportunidades que facilitam a passagem ao ato delinquente. Entre estas, destaque para a prevalência de determinados padrões de vizinhança e de redes sociais em determinadas zonas (Merton, Cohen, Cloward e Ohlin) e para a associação a modelos de referência delinquentes e criminais. A socialização de crianças em contextos sociais onde violência e crime tendem a acontecer com regularidade sujeita-as a uma maior exposição e contacto com esses problemas sociais, num quadro de valores que pode favorecer a violação de regras sociais e a não conformidade social. A família, como instância de socialização privilegiada nestas idades, tem um especial papel neste campo.os fatores associados à esfera familiar, ao controlo social informal, ao exercício da supervisão educativa e aos processos de aprendizagem que pais constroem com os filhos, em especial no sentido de lhes incutir ou não a adesão aos valores da sociedade, estão associados à delinquência e extensamente retratados na literatura científica. E tal como as famílias influenciam o desenvolvimento dos seus membros através da situação social e física, também sofrem com as influências do meio onde se (des)integram (McCord, 2002). 2. Aspetos metodológicos Entre final de 2005 e 2009, realizou-se um estudo de caso, de base etnográfica, em seis bairros de realojamento no concelho de Oeiras, Área Metropolitana de Lisboa. 2 A opção pelo uso da expressão bairro de realojamento nesta pesquisa remete primordialmente para uma medida de política pública de habitação social, que assentou em processos de relocalização de populações que conduziram ou podem ter mantido uma concentração de determinados problemas e desvantagens sociais em alguns territórios quando se poderia, eventualmente, ter defendido outras soluções que obstassem a esta concentração. Se é certo que estes são espaços onde está identificada a existência de um leque de problemas sociais, também é certo que esses problemas não se encontram ou se produzem só no seu interior, bem como não podem ser analisados sem se ter em consideração os contornos do funcionamento de sistemas sociais (de ensino, saúde, proteção e ação social, segurança e justiça), tanto a montante como a jusante (Machado e Silva, 2009). Em função da observação de uma realidade social complexa a nível de conteúdo e também, de forma específica, da acessibilidade aos atores sociais nela envolvidos, aplicou-se um metodologia qualitativa que resultou da complementaridade entre diferentes técnicas - observação participante, conversas informais, entrevistas semi-estruturadas a crianças (72) e a pais ou seus substitutos (62), técnicas visuais (312 desenhos sobre os bairros e fotografias dos bairros tiradas por 34 crianças de duas turmas de escola do 1º CicloEB),análise documental (primordialmente das ocorrências registadas na Esquadra local da Polícia de Segurança Pública e dos processo entrados na Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Oeiras pela prática de facto qualificado pela lei penal como crime). 3 6 de 15

7 O tratamento da informação recolhida foi sustentado numa lógica analítica compreensiva que teve como ponto de partida a voz das crianças. Neste texto são apresentados excertos resultantes da operacionalização das várias técnicas salientando-se, pela profundidade da informação recolhida, o desenho sobre o bairro. Nele participaram 312 crianças do 1º Ciclo do Ensino Básico, de ambos os sexos, com idades compreendidas entre os seis e os 13 anos, que, entre final de 2005 e início de 2009, frequentaram duas escolas do 1º Ciclo EB abrangidas pelo Programa TEIP II no contexto em estudo. Nesta análise cruzou-se o plano de representação gráfica com o conteúdo da descrição e interpretação (a narrativa) feita pelas próprias crianças no entendimento de que o desenho das crianças é, afinal, o desenho de um mundo (Sarmento, 2007, p.20). Esta foi uma investigação marcada por intensos desafios metodológicos e éticos relativamente aos quais não se tem oportunidade de abordar nestas páginas recomendando-se a consulta da dissertação (Carvalho, 2010) pois muito fica por dizer sobre estas matérias. 3. Putos assaltantes : práticas sociais e delinquência(s) Na análise das perspetivas das crianças sobre os bairros onde residem, o primeiro ponto relevante prende-se com o facto dos aspetos negativos se sobreporem significativamente aos positivos. Violência, desordens e crime, sob diferentes formas, foram os problemas mais destacados (Carvalho, 2010). Imagem 1 O meu bairro É a minha casa e tem o cano e o ribeiro ao lado com muito lixo. Precisa mais segurança no prédio porque eles vão para lá fumar, estragam o prédio todo, a rua, são bandidos. Neste bairro o que há a mais são bandidos, bandidos e ladrões, carros roubados e putos assaltantes, carros roubados a fazerem piões e bandidos a roubarem lojas e pessoas. O meu bairro tem tudo mas falta segurança, é muitos bandidos. [rapaz M70, 11 anos, 4º ano, Bairro Verde] Evidencia-se, nos seus discursos e produções visuais, como as crianças estão atentas à realidade social e dela participam, reconstruindo o seu papel social pelas situações que vivenciam, representando-as de forma conflitual. São significativas as referências a desordens, incivilidades e delinquência levadas a cabo por várias crianças e a consideração da existência de putos assaltantes, para usar a expressão de um dos participantes, representa a visibilidade que os atos delinquentes dos mais novos adquirem junto de quem aqui vive. 7 de 15

8 3.1 Dimensões da delinquência patrimonial Na conjugação dos resultados obtidos nos diversos patamares de análise, há a salientar vários aspetos relativamente às delinquências identificadas, podendo considerar-se a existência de diferentes dimensões consoante a natureza dos atos. Como observado noutros estudos realizados sobre esta problemática em contextos semelhantes (Chaiken, 2000), a maioria das crianças envolvidas em delinquência nestes bairros é do sexo masculino e desenvolve-a no campo patrimonial, numa linha aquisitiva que se vê concretizada, sobretudo, por pequenos furtos. Uma primeira dimensão, por assim dizer de base, mais extensa, por ser das mais referidas pelas próprias crianças, abrange ambos os sexos ainda que com maior incidência junto de rapazes, e diferentes idades, designadamente logo a partir dos 4-5 anos. Trata-se de uma delinquência de natureza exclusivamente patrimonial baseada em furtos praticados dentro e fora dos bairros, tendo por principais bens visados as guloseimas e os produtos alimentares cujo consumo tende a iniciar-se no interior dos espaços comerciais (delinquência formigueiro ).São situações que a maioria dos envolvidos, tal como muitos dos adultos residentes neste contexto, sobretudo os familiares das crianças, tende a desvalorizar, percecionando-as como coisa de crianças, não se denotando um juízo de condenação moral relativamente às mesmas. Ia lá só apanhar pastilhas e rebuçados ( ) Não, não, a minha mãe não se zangava, ela sabia que era coisa de crianças, não dizia nada. [rapaz M10, 9 anos, 3º ano, Bairro Azul, entrevista] Os modos de agir descritos pelas crianças entra-se, apanha-se, come-se e sai-se ocorrem, principalmente, nas grandes superfícies comerciais localizadas nas imediações dos bairros, onde é maior a possibilidade de se passar despercebido no meio das pessoas que os frequentam. Estrutura-se, assim, um primeiro patamar das delinquências aqui observadas. Pelo registado durante a inserção etnográfica nestes espaços comerciais facilmente se observa como esta prática se encontra vulgarizada entre parte dos clientes e não é exclusiva dos oriundos dos bairros. Seria, pois, importante verificar até que ponto a ausência de perceção sobre a ilegalidade e violação das normas que acarretam se estendem a outros setores da sociedade portuguesa e quais os efeitos das mesmas na socialização dos mais novos. Uma segunda dimensão, relativamente alargada a ambos os sexos, em que as idades variam entre os 6-7 e 12 anos situa-se também no campo da delinquência patrimonial, numa perspetiva básica de consumo, primordialmente concretizada através de furtos nas grandes superfícies comerciais localizadas nas proximidades dos bairros, algumas das quais especializadas em determinados produtos (desporto, equipamentos eletrónicos e informáticos, materiais de construção, vestuário, etc.).observa-se uma especialização por género, com os rapazes a furtarem mais objetos e materiais desportivos, eletrónicos, informáticos, enquanto as raparigas procuram mais vestuário, acessórios e material escolar. Épocas festivas, como o Natal, quando acresce a demonstração de equipamentos e de ofertas para o público, parecem suscitar uma maior atratividade, mesmo para aquelas crianças que habitualmente não estão envolvidas em delinquência, e são maiores as possibilidades de ação. Transparece a ideia de que esses espaços se transformam em locais de recreio que algumas tendem a usar com frequência em determinados períodos do dia e da noite, maioritariamente distantes de qualquer supervisão familiar. Em ambas as dimensões anteriormente mencionadas, para várias crianças estas ações parecem fazer parte da vida quotidiana, assentes numa variação da perceção sobre a sua gravidade. Um dos pontos mais destacados diz respeito ao lema recorrentemente notado, segundo o qual crime não é roubar, crime é ser-se apanhado e que não é exclusivo do contexto da investigação, estendendo-se a diversos segmentos da população portuguesa. Vê-se reforçada a perspetiva interacionista na forma como estes problemas são abordados, numa orientação associada à diluição dos mecanismos informais de controlo social que se encontra instalada nestes territórios. Daí decorre uma alteração significativa na perceção dos atos cometidos que se reflete na diferenciação entre o que se considera ser grave ou não em função das categorias de pensamento entretanto construídas e interiorizadas. 8 de 15

9 Eu roubar?!... Roubar não, nunca furtei um carro, isso é fatela, nunca andei a conduzir! Não, não furtei nada, não furto, já apanhei, já apanhei mas eu não ando para aí a furtar, só apanhei lá no [hipermercado] [rapaz M50, 11 anos, 4º ano, Bairro Branco] Como é que é isso? Já apanhei antenas e chocolates lá no [hipermercado], nunca um telemóvel. Fico lá ontem, apanhei bué de chocolates e comi. Vamos lá da escola, tem lá uma nova Play Station que dá para jogar e vamos lá, vamos lá, fingimos que vamos tirar os chocolates e metemos os chocolates atrás da outra caixa e abrimos e pomos tudo no bolso e vamos embora. Vem o segurança e não vê nada que está lá a caixa e já comemos tudo. És só tu a fazer isso? Nã, acha? São todos daqui, até o [M44]. E achas que isso não é furtar, isso não é roubar? Não é furtar, é apanhar, não é furto, isso aí de furto é de carros... Uma vez tive que lutar com o segurança, mandou bocas, era branco e estava mesmo a ver se levava e ele bateu em mim e levou meu e dos meus amigos, eu também era mais pequeno agora já ninguém vem bater. [entrevista] A utilização frequente de termos como apanhar e tomar em vez de furtar ou roubar, numa perspetiva que se identificou também comum entre muitos adultos, nomeadamente seus familiares, associa-se a códigos de conduta onde a reprovação dos atos delinquentes tende a fazer-se apenas a partir de um certo patamar. No fundo, predomina uma visão da pequena delinquência como uma experiência banal extensiva a um conjunto expressivo de crianças. Não quer isto dizer que as crianças não demonstrem ter a noção do bem ou do mal, embora esta tendência só se tenha manifestado mais visível quando acabaram também por ser vítimas de situações de natureza idêntica. É, contudo, de ressalvar que nem isso constituiu impedimento ou travão à continuação deste tipo de práticas. O que emerge mais significativo é a clara diluição de fronteiras entre conformidade e desvio que conduz à notória desvalorização da importância e consequências da violação de normas e regras da sociedade numa perspetiva que decorre, em larga medida, da desorganização social prevalente nos bairros. Isto é patente no discurso anterior, em que somente os ilícitos associados à delinquência rodoviária são vistos numa perspetiva de violação das normas e percecionados como graves e ilegais.esta ideia aparece fortemente enraizada em determinados grupos da população residente, como se observa nas palavras da avó de uma criança apanhada a furtar um jogo de PlayStation, sendo simultaneamente visíveis as dificuldades de exercício da mais adequada supervisão e controlo. De vez em quando ele [rapaz M02, 9 anos, 3º ano, Bairro Verde] porta bem. Agora foi lá tomar o jogo (risos), ele disse que foi apanhar o jogo com o [rapaz M56, 8 anos, 2º ano, Bairro Amarelo] (risos) ( ) Agora tenho de passar a fechar lá em casa à chave. Eu quando estou lá fecho a porta à chave para ver se ele não sai. Um dia foi lá casa um senhor, abri a porta e ele foi logo pela varanda, saiu... [avóe33, 51 anos, Bairro Verde] 3.2 A negação do outro Uma terceira dimensão, menos expressiva de um ponto de vista do número de crianças envolvidas mas onde se destaca a presença maioritária daquelas identificadas simultaneamente numa ou até mesmo nas duas dimensões anteriormente apresentadas, está associada a atos que tendem a ocorrer especialmente nos espaços públicos, mais dentro do que fora dos bairros, bem como especificamente no contexto escolar. Integra uma delinquência patrimonial manifestada pela realização de danos em equipamentos e mobiliário urbano ou em 9 de 15

10 bens privados (delinquência para o público ) e uma delinquência contra as pessoas concretizada através de ameaças, coação, injúrias e ofensas corporais. Trata-se de ações maioritariamente masculinas, surgindo os 8-9 anos como faixa etária mais relevante na sua realização. Foi possível identificar como as crianças nelas participam fundamentalmente a dois níveis. Por um lado, num papel ativo primordialmente por orientação de mais velhos, jovens e adultos, até da própria família, num processo que, em certos casos, se vai construindo como forma de promoção que pode acabar por desembocar na sua aceitação na criminalidade dos adultos. Isto foi especialmente visível nos danos causados em equipamentos e mobiliário urbano, nas ações de vandalização do espaço público e em algumas situações de envolvimento na provocação ou obstáculo à intervenção policial. Mas também se regista que acontece entre pares, em pequenos grupos e, sobretudo, em duplas do mesmo sexo, que se organizam sem qualquer supervisão como outros grupos juvenis que se encontram institucionalizados e territorialmente instalados em zonas urbanas tendencialmente degradadas em qualquer ponto do mundo (Hagedorn, 2007). Mas para muitas, mesmo sem envolvimento na delinquência, emerge um papel passivo em que a criança é espetadora, mesmo que involuntariamente e contra a sua vontade ou da família, expostas a um elevado grau de desordens e violência, sem possibilidade de escape pelo simples facto de ali se encontrarem a residir. Facilmente se passa de um destes níveis para uma brincadeira de polícias e ladrões entre pares comuns à infância em qualquer ponto do mundo, reproduzindo-se nestes casos alguns pormenores mais complexos socialmente aprendidos. O desafio às figuras de autoridade seja policial, escolar, autárquica, social ou outra constitui-se constantemente em torno de uma ideia próxima de um jogo de gato e de rato, numa provocação que se torna frequente envolvendo crianças, jovens e adultos de ambos os sexos. A construção discursiva das crianças sobre as vítimas dos seus atos, sobretudo ao nível dos atos contra pessoas, faz emergir diversas polarizações que se podem situar nos seguintes níveis: pobres vs ricos; homens (masculino) vs mulheres (feminino); novos vs velhos ( cotas ); familiares vs não familiares; preto vs brancos vs ciganos ; do bairro vs fora do bairro. Vou pedir uma roupa, uma moeda, quando não têm dinheiro roubo a mala. Quando vejo uma cota, fico a ver, vejo a cota, vejo a mala, vejo logo e depois roubo a mala, passo, passo, e levo a correr. Não é aqui, é lá mais para... lá em cima... [fora dos bairros] levo-lhes a mal, depois fico com a carteira. Se tem dinheiro tiro ( ) se tem só documentos deito fora, deito fora, deito para o mato lá em baixo, deito para o lixo, já não tem nada. ( ) Só as cotas, as mulheres, os homens não, há uns baixinhos que correm muito e dão para ir atrás... já um me apanhou, não quero mais, é mais fácil as cotas. Há uns que correm bué, bué depois dá esquadra não é? [rapaz M02, 9 anos, 2º ano, Bairro Azul, entrevista] Facilmente se deteta uma procura por aqueles que se encontram sozinhos ou em situação de maior diferenciação ou exclusão, constituindo o diferente posicionamento na estrutura social uma das fontes na seleção das vítimas que, como se verifica neste discurso, nem sempre acontecerá de modo imprevisto antes obedecendo a uma série de critérios baseados numa relação de custo-benefício que se antecipa à ação. A aparente ausência de entender e pensar os efeitos sobre a vítima é patente em muitas situações, não transparecendo uma ideia de julgamento moral. O outro representado pela vítima é somente visto num quadro funcional de utilitarismo e, por vezes, de alguma futilidade, numa via estabelecida para a obtenção de determinados bens e objetos. Deste modo, tudo se estrutura em função de oposições entre nós e os outros, valorizando-se a sua condição infantil numa perspetiva de grande rentabilidade na prática delinquente. Mas também é a própria criança envolvida em delinquência que pode considerada um outro que se usa, manipula e facilmente se descarta, explorando-se ao máximo a sua condição de menor, sobretudo quando se vê enquadrada por redes criminais de adultos. 3.3 Delinquência em rede Finalmente, uma quarta dimensão reporta-se a uma delinquência que se enquadra no campo da criminalidade de adultos, organizada e de redes criminais, abrangendo, essencialmente, tráfico de droga, furto de uso de 10 de 15

11 veículos, furtos no interior de veículos e o acesso a armas de fogo. São ações onde se vê concretizada uma distribuição de papéis específicos na atuação coletiva (os mais novos que carregam os bens furtados ou os utensílios usados; os mais novos que ficam sempre que ficam para trás para ser intercetados permitindo a fuga dos mais velhos; os mais novos que participam da venda de droga aos carochos, etc.), muitas vezes depois reproduzida nos atos cometidos somente entre pares. Os casos identificados neste âmbito são em número reduzido, quase na totalidade do sexo masculino, e num padrão em que os laços familiares voltam mais uma vez a estar significativamente presentes; muitas vezes, é a própria família que se encontra envolvida e dinamiza estas redes. A influência direta dos grupos e redes criminais, que já se via manifestada em desordens de natureza diversa, nomeadamente quando de tratava de criar obstáculos específicos à ação dos mecanismos de controlo social formal nos bairros, sobretudo a polícia, está na origem de alguns percursos de acentuada reincidência desde idades muito baixas e onde o envolvimento no furto de veículos ou no tráfico de droga constituem os momentos decisivos nesta evolução. [Arranjo as ganzas para vender] Na casa do [nome], ele orienta-me! [rapazm23, 11 anos, 4º ano, Bairro Verde] Depois vais à casa dos drogados [rapaz M58, 10 anos, 4º ano, Bairro Rosa] Olha, na casa do [nome] levas uma ganza e vens com o bolso cheio de dinheiro é, cheíiiiinho! [rapaz M14, 11 anos, 4º ano, Bairro Verde] [notas de campo] É digno de registo que não se tenha encontrado qualquer ocorrência policial na esquadra local sobre o envolvimento no tráfico de droga nestas idades, o que deixa transparecer o desfasamento entre o registado a nível oficial e algumas das ações referidas pelas crianças. Isto pode decorrer do facto de o mesmo apenas vir a ser feito por elas no âmbito dos bairros, como referiram, integrando-se nos percursos e rotinas diárias num modo que será difícil de detetar, não se levantando suspeitas por se tratar dos espaços de brincadeiras e socialização primária. Acresce que as próprias crianças têm consciência dos riscos envolvidos, mostrando-se atentas a qualquer indício que possa surgir e revelam-se aparentemente dotadas de estratégias e de conhecimento de expedientes capazes de contornar a situação. De igual modo, a frequência de certas atividades ilegais, como as corridas de automóveis e a condução perigosa leva à consideração da facilidade de acesso à delinquência rodoviária. Os furtos de uso de veículo, os furtos do seu interior, os danos e as tentativas de condução de veículos na via pública são atividades muito atraentes e gratificantes para várias crianças. A par da falta de parques infantis na maioria destes bairros algo reclamado intensamente pelas crianças participantes, a presença de automóveis na via pública, especialmente de certas marcas e em condição de abandono, constitui um desafio, sendo usados como se fossem brinquedos grandes, como espaços de recreio e equipamentos lúdicos, num processo de natureza exclusivamente masculina. Para alguns, constitui um motivo para a iniciação e aprendizagem de atos delinquentes que se adquire entre pares, com outros menores de 16 anos ou com familiares, por vezes os próprios pais. Imagem 2: O meu bairro 11 de 15

12 O meu bairro é fixe. Fazemos muitas corridas de motos e também de carros e é tudo fixe. Não falta nada. [rapaz M23, 11 anos, 4º ano, Bairro Verde] Constatou-se também como a perceção da gravidade dos atos pode decorrer a par da frequência com que os mesmos tendem a ganhar visibilidade nos bairros, quase numa perspetiva de naturalização ou normalização da violência e crime dada a sua regularidade, e não apenas isoladamente pela sua natureza. Nesta área, outro dos aspetos mais relevantes trazido para discussão pelas crianças prende-se com a aparente facilidade de acesso a armas de fogo. Assalto com pistola não é nada! [rapaz M51, 10 anos, 3º ano, Bairro Azul, notas de campo] A minha avó tinha uma pistola e não era a fingir. [rapaz M21, 9 anos, 3º ano, Bairro Verde, notas de campo] A existência de armas de fogo em casa é uma tendência de longa data registada na sociedade portuguesa e encontra-se muito longe de estar restrita à população deste tipo de bairros (Pureza et al., 2010). No entanto, contrariamente ao mais que será mais comum, aqui muitas crianças aprendem mais por si próprias e na rua a conhecer e a avaliar os perigos e riscos que correm do que sob a orientação adequada de adultos. E a experiência de contacto com armas de fogo ou armas brancas ganha outras proporções, mais sérias e de efeitos imprevisíveis, quando se trata de ser partilhada ou adquirida junto de familiares, até mesmo sob a sua iniciativa. Já vi muita caçadeira boa, automática na parte do bairro novo. Então no Ano Novo [rapaz M02, 10 anos, 3º ano, Bairro Azul] Pois, pois, está tudo na rua, o meu pai é que diz que é nessa altura que se vê quem tem as melhores armas! [rapaz M10, 9 anos, 3º ano, Bairro Azul] Ah! Ah! (risos) é só pum, pum [imita o som dos tiros] Eu andava com ela e também disparei lá para baixo, uma espingarda assim [faz os gestos do tamanho] Eu andava com ela. ( ) foi quatro caixas de balas ( ) deram-me, um gajo, um gajo fixe ( ) está em casa, está escondida, o meu pai também deu tiros para lá. [rapaz M02] [notas de campo] Outros pontos merecem particular atenção, nomeadamente o conhecimento que certas crianças, quase exclusivamente do sexo masculino, revelam sobre as possibilidades de aquisição de armas de fogo: sim, sou capaz de arranjar uma pistola, vou ao [nome] e compro, ele vende barato mas há muitos. Está a ver o [nome], ele já faz negócio ; posso ir lá [nome] e trocar por outra coisa, tanto faz e dá para ter, o [nome] já fez isso com [nome] e ficou com uma.38 ; vai comprar num carocho. Esta não são respostas isoladas e os nomes referenciados por uns e outros repetem-se, apontando para uma realidade dinâmica e acessível neste contexto. Além da aquisição, alguns mencionam ainda as formas de adaptação de determinadas armas, sobretudo de alarme, para o uso com munição real de certos calibres estando a par do como se faz, que mais do que em grupo de amigos parece ocorrer sobretudo no seio da família. De um modo geral, as crianças mais envolvidas nestas redes representam a posse e uso de arma de fogo associados a um determinado estatuto que lhes parece conferir poder e acesso a outro tipo de bens e recursos, ao mesmo tempo que acreditam que lhes garante proteção e segurança. Algumas, mais do sexo masculino do que do feminino, não só verbalizam o desejo de uso de armas como descrevem situações em que já tiveram oportunidade de o concretizar em idades inferiores aos 10 anos. Conclusão Para diversos autores (Sampson 2002; Wacquant, 2007; Moignard, 2008), desde os anos 1990 que as violências em contexto urbano revelam ruturas sociais fortemente associadas a uma delinquência crónica, persistente, que não provém somente de carências afetivas e educativas mas tem a sua 12 de 15

13 origem em segmentos da população e em territórios urbanos duramente atingidos por fatores de desvantagem social e exclusão. Trata-se de uma delinquência mais complexa, pois aos aspetos individuais recorrentemente identificados tende a associar-se, nestes espaços, uma concentração de indivíduos e redes criminosas que, aproveitando e explorando as vulnerabilidades sociais aí existentes, funcionam num enquadramento e organização que ultrapassa as fronteiras de bairros, cidades, e até, em alguns casos, de países. Apesar de inicialmente considerados na sua individualidade, depressa a pesquisa no terreno permitiu dar conta da interdependência entre os seis bairros em estudo, especialmente sentida por cinco deles terem como zona residencial mais próxima precisamente um outro bairro da mesma natureza. Este é, provavelmente, um dos pontos mais críticos no âmbito do planeamento urbano e das políticas de habitação social que lhes deram origem e que se revela determinante na existência de janelas de oportunidades para a prática de delinquência que aqui se veem territorialmente concentradas. A sua localização privilegiada, na confluência de importantes vias de comunicação e numa zona de crescente implementação comercial e empresarial, parece associar-se às delinquências de crianças identificadas. À medida que cresceu o número de estabelecimentos comerciais nas proximidades, foi aumentando o número de atos praticados nesses locais em detrimento dos poucos que se encontram instalados no seu interior. Este processo revela a elevada mobilidade que uma parte das crianças manifesta, mesmo em idades muito baixas, e que se estende além dos limites geográficos da zona de residência. Confirma-se nesta investigação que os bairros de realojamento selecionados não podem ser vistos de modo isolado, fechados nas suas características internas. Observa-se como a posição espacial que cada um ocupa na malha da grande cidade é fulcral nesta discussão. Os atos delinquentes das crianças entre os seis e os doze anos revelam que os mesmos são sistemas sociais interdependentes em territórios físicos e sociais mais vastos que implicam uma leitura sobre a cidade e a área metropolitana onde se localizam. Nesta conceção, um dos aspetos mais relevantes manifesta-se na forma como as delinquências identificadas são influenciadas pelas características sócio espaciais de cada bairro, por sua vez condicionadas pelos processos espaciais que caracterizam todo o sistema metropolitano (Sampson, 2002). Situados do outro lado da cidade, estes espaços não beneficiam de uma maior proximidade com outros onde as expectativas relativamente ao controlo social das crianças são mais elevadas. Na inserção etnográfica, dificilmente se teve a possibilidade de observar trocas de sentido positivo com zonas residenciais socialmente mais diferenciadas, mesmo em iniciativas promovidas pela autarquia com esse objetivo, acentuando-se desigualdades em termos de recursos a nível espacial (Morenoff et al., 2001). Como amplamente demonstrado na literatura científica, a delinquência é aprendida na interação social e quanto mais um indivíduo se associar a padrões delinquentes, maiores as probabilidades de vir a delinquir. Nestes padrões, incluem-se os de natureza familiar e a transgeracionalidade deste problema social, à semelhança de outros, não pode ser desvalorizada, o que conduz ao questionamento dos estilos e dos processos de aprendizagem que os pais constroem com os filhos no sentido de lhes incutir (ou não) a adesão aos valores da sociedade. Mas não basta uma criança estar na presença de modelos de não conformidade social. A delinquência coexiste com ações convencionais e paralelamente à não conformidade contrapõe-se a ausência de relações e laços significativos a modelos que promovam a conformidade social. As crianças não rejeitam os valores convencionais, só que na prática de delinquência sobrepõe-se a excitação, o prazer e noções fortemente difundidas e valorizadas nestes territórios ( ser esperto, ser duro e corajoso, ter poder e dinheiro ), recorrentemente associadas a traços de um código da rua (Anderson, 1999). Constata-se que nestes espaços onde a aplicação de regras convencionasse vê enfraquecida tende a prevalecer um conjunto de definições e regras informais que prescrevem ou rejeitam determinados comportamentos e ações tendo por base a procura de respeito e afirmação. E de uma socialização inicialmente marcada por uma lógica de transmissão e orientação na delinquência assiste-se, progressivamente, à emergência de uma lógica de poder sustentada a partir do reconhecimento social obtido, a que se associa uma crescente capacidade e competência de regulação individual da ação da criança que a revela parte ativa na construção da 13 de 15

14 sua própria socialização, visando determinadas oportunidades em detrimento de outras. Isto é particularmente notório no modo como se passa a selecionar o perfil de vítimas e de ações a desenvolver. Os constrangimentos que a delinquência em contexto urbano coloca à intervenção dos mecanismos de controlo social na sociedade portuguesa estão longe de se esgotar no que é apresentado nesta comunicação. E se é verdade que a delinquência na infância constitui um problema nestes bairros, importa reter, como se foi observando na etnografia e é referenciado em diferentes estudos, que mais do que agressoras, as crianças oriundas deste tipo de contextos sociais são as que tendem a apresentar uma maior probabilidade de ser vítimas de atos violentos, quando comparadas com as que residem noutros locais. Referências bibliográficas Almeida, Ana Nunes de (2009). Para uma Sociologia da Infância. Jogos de Olhares, Pistas para a Investigação. Lisboa: Instituto de Ciências Sociais. Anderson, Elijah (1999). The Code of the Street. Decency, Violence, and the moral Life of the Inner City. New York: W.W. Norton & Company Ltd. Bourdieu, Pierre (ed.) (1993). La Misère du Monde. Paris: Éditions du Seuil. Carvalho, Maria João Leote de (2010). Do Outro Lado da Cidade. Crianças, Socialização e Delinquência em Bairros de Realojamento (Dissertação de Doutoramento em Sociologia). Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, disponível em Cusson, Maurice (1993). Délinquants Pourquoi? Québec: Hurtubise HMH. Chaiken, Marcia (2000). Violent Neighborhoods, Violent Kids, Juvenile Justice Bulletin. Washington: Office of Juvenile Justice and Delinquency Prevention. Hagedorn, Jonh (ed.) (2007). Gangs in the Global City. Alternatives to Traditional Criminology. Chicago: University of Illinois Press. Machado, Fernando Luís e Alexandre Silva (2009). Quantos Caminhos há no Mundo? Transições para a Vida Adulta num Bairro Social. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Edições Principia. McCord, Jonh (2002). Forjar criminosos na família. In António Fonseca (ed.), Comportamento Anti-Social e Família. Uma Abordagem Científica, Coimbra: Almedina, pp Moignard, Benjamin (2008). L École et la Rue: Fabriques de Délinquance, Recherches Comparatives en France et au Brésil. Paris: PUF. Morenoff, Jeffrey D.; Sampson, Robert e Stephen W. Raudenbush (2001). Neighborhood inequality, collective efficacy, and the spatial dynamics of urban violence, Criminology, Vol.39, nº3, Pureza, José Manuel; Moura, Tatiana; Santos, Rita; Afonso, Carla e Marta Peça (2010).Violência e Armas Ligeiras. Um Retrato Português. Núcleo de Estudos para a Paz do Centro de Estudos Sociais, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Acedido em 28 de maio de 2010, em Sampson, Robert (2008). After-school Chicago: space and the city, Urban Geography, 29, nº2, Sampson, Robert (2002). Transcending tradition: new directions in community research, Chicago style, Criminology, Vol.40, nº2, Sarmento, Manuel Jacinto (2007). Conhecer a Infância: os Desenhos das Crianças como Produções Simbólicas, Lição de Síntese para Provas de Agregação. Braga: Universidade do Minho (documento não publicado). Wacquant, Loïc (2007). Parias Urbains: Ghetto, Banlieues, État. Paris: Éditions La Découverte. 14 de 15

15 1 Dissertação realizada sob a orientação do Prof. Doutor Nelson Lourenço, apresentada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, em julho de Num total de fogos, mais de residentes, segundo dados oficiais, dos quais 32,2% entre 0-18 anos. 3 De forma a preservar a sua identidade, neste texto os nomes das crianças e adultos foram substituídos por códigos alfanuméricos e, no caso dos bairros, por nomes fictícios em torno do uso de cores. 15 de 15

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