Empreendedorismo Social 10 de Janeiro 2012

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1 Empreendedorismo Social 10 de Janeiro 2012 É um grande prazer estar aqui convosco no lançamento do Prémio de Empreendedorismo Social Damião de Góis. Queria felicitar-vos pela iniciativa e desejar o maior sucesso para o projeto. E queria também dar-vos a minha perspectiva pessoal sobre este tema. É uma perspectiva de alguém de fora. Fiz toda a minha vida no chamado segundo sector, no mundo privado. Estou há uns meses no primeiro sector. Mas de facto nunca trabalhei no terceiro sector. Acompanho, no entanto, a evolução destes temas. E devo dizer que não me revejo nas típicas gavetas estanques e dicotomias com que estes tendem a ser categorizados. Compreendo o uso de termos como terceiro sector ou sector sem Page1of8

2 fins lucrativos. Mas julgo que não se deve encarar de forma rígida este tipo de categorias. Uma interessante evolução dos últimos tempos tem sido precisamente a constatação que as fronteiras entre os diversos sectores são cada vez menos claras. São cada vez mais fluídas. E isso é positivo. Aliás, o empreendedorismo social tem contribuído de forma decisiva para esbater essas fronteiras entre o mundo das empresas e o mundo da ação social. Nem sempre foi assim. Há umas décadas Milton Friedman, adoptando uma postura crítica no então nascente debate em torno da responsabilidade social das empresas, dizia: thebusinessofbusinessisbusiness. Com algum temor reverencial, e com a devida vénia, devo dizer que não concordo totalmente com o Professor Friedman. Talvez o que ele quisesse dizer é que as empresas não se podem esquecer daquela que é a sua atividade principal. E que não podem ter Page2of8

3 vergonha dos seus lucros. A primeira missão social de uma empresa é precisamente a de ser lucrativa na medida em que tal seja reflexo de um processo de criação de valor. Só assim se cria riqueza para um país. Só assim se gera emprego sustentável. Nisto penso que todos concordamos. Mas julgo que o negócio dos negócios não deve ser apenas o negócio. Julgo que as empresas não se devem demitir de uma vertente mais direcionada à intervenção social. As empresas cumprindo a primeira condição, que é a de serem lucrativas podem e devem ter uma intervenção social direta. Devemter essa intervenção porque com isso melhoram o meio em que se inserem; porque têm competências de gestão que podem ser úteis no terreno;mas também porque com essa intervenção podem também beneficiar a sua atividade principal. Este último ponto é talvez o menos compreendido. O argumento é que uma empresa com preocupações sociais é tipicamente uma empresa mais aberta ao mundo e portanto mais aberta a oportunidades e a necessidades futuras. Page3of8

4 Ian Davis, antigo ManagingDirector da Mckinsey, num artigo para a Economist há uns anos atrás, apresentava uma análise bastante interessante. Defendia estratégias de cidadania empresarial argumentando que, quando bem conduzidas,permitem às empresas antecipar alterações importantes no seu contexto competitivo. As pressões que hoje estão confinadas a pequenas ONGs podem amanhã ser parte do mainstream. Por outro lado, numa perspectiva de prevenção de risco competitivo, o autor relembra também que as pressões sociais de hoje podem ser as diretivas do regulador de amanhã. Por todas estas razões, mas principalmente porque são também agentes da sociedade, julgo que as empresas não devem, portanto, arredarse dos desafios sociais do espaço que ocupam. Da mesma forma que empresas socialmente responsáveis beneficiam a sociedade mas também a si próprias, também os projetos sociais e as Organizações Não Governamentais podem aprender e muito com as empresas e com a Page4of8

5 gestão privada. O empreendedorismo social é também isso mesmo. Reconhecer que os desafios sociais não se resolvem com a mera injeção de dinheiro. Requerem respostas criativas, garra, profissionalismo e tal como nas empresas uma certa apetência pelo risco. Existem vários argumentos a favor do empreendedorismo social. Argumentos que sugerem mesmo a primazia desta forma de intervenção social face a outras. Mas se me permitem, queria dizer-vos, qual é, para mim, o argumento decisivo. Nestamatéria, como em tantas outras, há uma certa tendência paraconfundir inputs com outputs. Dada a dificuldade em medir o impacto social dos projetos, muitas ONGs, muitas empresas com programas de Responsabilidade Social, muitas Agências de Desenvolvimento,entram no erro de apenas reportar o dinheiro que dedicam a estas causas,em vez de tentarem aferir o impacto Page5of8

6 social que obtiveram com esse mesmo investimento. Para mim a grande vantagem do empreendedorismo social é o facto de promover de forma natural um enfoque nos resultados. No empreendedorismo social, tal como no empreendedorismo em geral, o ponto de partida é a identificação de um problema e o ponto de chegada é a solução para esse problema. Tudo o resto a verba investida, os recursos utilizados, a metodologia de ação pode ser importante. Mas o essencial é saber se o problema foi resolvido ou não foi resolvido. Chegar a uma solução pode passar por uma ação de voluntariado, pode passar pela angariação de fundos, mas pode passar também pela criação de um projeto com fins lucrativos;pela criação de uma empesa;pode passar por parcerias entre o sector privado, público e social; pode passar pelo envolvimento das comunidades locais. O caminho pode ser diverso e variado, porque o importante é chegarmos ao nosso objetivo. Page6of8

7 É esta atitude que gera um enfoque no resultado. É este aspecto que faz do empreendedorismo social uma poderosa ferramenta de mudança social. Assim, se me é permitido, e em jeito de conclusão, deixo um apelo ao júri: Que no momento de escolherem o projeto vencedor: - Privilegiem projetos com fins ambiciosos; - Sejam implacáveis na exigência de métricas claras e quantificáveis de sucesso; - Mas sejam tolerantes face ao caminho e ao método escolhido para atingir os resultados, mesmo que este vos pareça estranho ou desadequado. Tal como na inovação em geral, um bom projeto de empreendedorismo social força-nos a abandonar ideias pré-concebidas e rotinas estabelecidas. Torna-nos tolerantes face à experiência e ao erro. Mas conduz-nos a uma Page7of8

8 cultura de responsabilidade e a uma cultura de resultados. Muito obrigado pela vossa atenção. Page8of8

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