Revista do Ministério Público do Trabalho do Mato Grosso do Sul

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1 Revista do Ministério Público do Trabalho do Mato Grosso do Sul Campo Grande - MS

2 Ministério Público do Trabalho Procuradoria Regional do Trabalho da 24ª Região COMISSÃO EDITORIAL Presidente: Odracir Juares Hecht Procurador do Trabalho Membros: Celso Henrique Rodrigues Fortes Procurador do Trabalho Carlos Eduardo Almeida Martins de Andrade Procurador do Trabalho Mateus de Oliveira Biondi Procurador do Trabalho Anete de Oliveira Freitas Analista de Documentação/Biblioteconomista Revista do Ministério Público do Trabalho do Mato Grosso do Sul Campo Grande MS n Keyla Borges Tormena Gusmão Assessora de Comunicação ISSN R. do Min. Púb. Trab. do MS Campo Grande-MS n.8 p

3 Revista do Ministério Público do Trabalho do Mato Grosso do Sul. -- V. 1, n.1 (abr. 2007)-. -- Campo Grande: PRT 24ª, V. Anual ISSN Direito do Trabalho. 2. Direito Previdenciário. 3. Direito Constitucional. 4. Direito Processual. CDD CDU Os artigos publicados são de responsabilidade dos seus autores. Qualquer parte desta publicação pode ser reproduzida, desde que citada a fonte. Procuradoria Regional do Trabalho da 24ª Região Sede Campo Grande/MS Rua Pimenta Bueno, 139 Bairro Amambaí CEP Fone/Fax: (67) Procuradoria do Trabalho no Município de Dourados/MS Rua Ponta Porã, 2045 Vila Progresso CEP Fone/Fax: (67) Procuradoria do Trabalho no Município de Corumbá/MS Rua Ladário, 788, Centro CEP Fone/Fax: (67) Procuradoria do Trabalho no Município de Três Lagoas/MS Rua Ranulpho Marques Leal, 378 Jd. Angélica CEP Fone/Fax: (67) Capa: Foto de construção de prédio em Campo Grande, de autoria de Valéria Aparecida Barbosa França, Engenheira de Seg. do Trabalho/ Perita do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul. Tiragem: exemplares Impressão: Gráfica F&F - Brasília/DF Ministério Público do Trabalho Procurador-Geral do Trabalho Luís Antônio Camargo de Melo Procuradoria Regional do Trabalho da 24ª Região Procurador-Chefe da 24ª Região Odracir Juares Hecht Procurador-Chefe Substituto Hiran Sebastião Meneghelli Filho Procuradores Campo Grande Celso Henrique Rodrigues Fortes Cícero Rufino Pereira Jonas Ratier Moreno Leontino Ferreira de Lima Júnior Paulo Douglas Almeida de Moraes Rosimara Delmoura Caldeira Simone Beatriz Assis de Rezende Dourados Cândice Gabriela Arosio Jeferson Pereira Três Lagoas Carlos Eduardo Almeida Martins de Andrade Mateus de Oliveira Biondi

4 SUMÁRIO Apresentação do presidente da Comissão Editorial. Odracir Juares Hecht...9 ARTIGOS Trabalho em pé e sentado. Flexibilidade postural. Alessandro Santos de Miranda...13 Auditoria fiscal do trabalho: compromisso com o trabalho digno. Benedito de Lima e Silva Filho e Luize Surkamp...33 A dimensão qualificada do meio ambiente de trabalho. Carlos Alberto Costa Peixoto e Aline Fonseca Franco da Silva...41 O trabalho escravo na fronteira Brasil/Paraguai e o direito fundamental à saúde. Cícero Rufino Pereira e Kaciane Corrêa Mochizuke...65 O instituto do dano moral coletivo e as graves violações de direitos humanos no âmbito trabalhista. Leontino Ferreira de Lima Junior e Luciana Aparecida Furtado de Lima...83 O Ministério Público do Trabalho e o acesso à justiça no Brasil. Luís Antônio Camargo de Melo...95 Amianto: a crônica de uma tragédia epidemiológica anunciada. Márcia Cristina Kamei López Aliaga Fragilidade da mulher: sociedade, trabalho e formas de discriminação e violência. Nathália Eberhardt Ziolkowski e Marina Belini Morilha Reinventando a negociação coletiva no setor sucroalcooleiro: diagnósticos e proposições. Paulo Douglas Almeida de Moraes...137

5 GUIA MINISTERIAL Encerramento dos lixões e a inclusão social e produtiva das catadoras e catadores de materiais recicláveis. Conselho Nacional do Ministério Público PEÇAS PROCESSUAIS Termo de cooperação técnica pela fiscalização das condições de trabalho nas obras de construção e reformas de pontes nas estradas do estado de Mato Grosso do Sul. Junho/2014. Ministério Público do Trabalho, Estado de Mato Grosso do Sul e Comissão Permanente de Investigação e Fiscalização das Condições de Trabalho no Estado de Mato Grosso do Sul Ação Civil Pública com pedido de antecipação de tutela. Aprendizagem no município de Bataguassu: Senac - Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial - Departamento Regional do Mato Grosso do Sul e Senai - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial - Departamento Regional do Mato Grosso do Sul. Março/2014. Carlos Eduardo Almeida Martins de Andrade Ação Civil Pública com pedido cautelar liminar. Cláusulas ilegais sobre horas in itinere em acordos coletivos de trabalho: Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Nova Andradina/MS, Sindicado dos Trabalhadores nas Indústrias da Fabricação do Açúcar e Álcool de Nova Andradina - MS e Energética Santa Helena S/A. Abril/2014. Jeferson Pereira Ação Civil Pública c/c Ação Trabalhista com pedido de antecipação dos efeitos da tutela definitiva. Trabalho infantil doméstico. Jardim/MS. Julho/2013. Leontino Ferreira de Lima Júnior Ação Civil Pública com pedido de tutela antecipada. Ações de Combate ao Trabalho Infantil: Município de Três Lagoas. Maio/2014. Mateus de Oliveira Biondi Recomendação. Uso do tacógrafo digital: Agência Nacional de Transportes Terrestres. Setembro/2014. Paulo Douglas Almeida de Moraes Apresentação A Revista Jurídica do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul, criada com a vocação de propagar conhecimento por meio da publicação de artigos doutrinários e peças processuais acerca da atuação institucional na defesa dos direitos trabalhistas, chega em 2014 ao seu oitavo número, com ampla variedade de temas. O primeiro artigo aborda a ergonomia laboral, apontando agravos à saúde relacionados às posturas rígidas no trabalho. O autor é o Procurador do Trabalho Alessandro Santos de Miranda, que recomenda a adaptação dos postos de trabalho entre outras ações preventivas e educativas para melhorias das condições de trabalho. A segunda contribuição, escrita pelos Auditores Benedito de Lima e Silva Filho e Luize Surkamp, aborda o papel da auditoria fiscal do trabalho no compromisso com o trabalho digno. O Procurador do Trabalho Carlos Alberto Costa Peixoto e a Advogada Aline Fonseca Franco da Silva descrevem e analisam as multidimensões do Meio Ambiente do Trabalho e a responsabilidade civil-trabalhista do empregador pela garantia da higidez e segurança do meio ambiente de laboral no terceiro artigo. Considerando as peculiaridades do estado de Mato Grosso do Sul, com sua extensa faixa de fronteira, outro destaque desta Revista Jurídica é o artigo do Procurador do Trabalho Cícero Rufino Pereira e da Fisioterapeuta Kaciane Corrêa Mochizuke, que, juntos, discorrem sobre o trabalho escravo na fronteira Brasil/ Paraguai e o direito fundamental à saúde. O sexto artigo trata do instituto do dano moral coletivo e as graves violações de direitos humanos no âmbito trabalhista e foi elaborado pelo Procurador do Trabalho Leontino Ferreira de Lima Junior e pela Servidora do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região Luciana Aparecida Furtado de Lima. O artigo intitulado O Ministério Público do Trabalho e o acesso à justiça no Brasil, de autoria do Procurador-Geral do Trabalho, Luís Antônio Camargo de Melo, destaca o papel das Coordenadorias Nacionais Temáticas como fundamental para garantir a ação efetiva, eficiente e coesa em todo o território nacional contra os principais desafios às relações laborais brasileiras. Na sequência, a Procuradora do Trabalho Márcia Cristina Kamei López Aliaga alerta sobre os riscos do amianto e

6 o Fórum de Trabalho Decente Mulher contribui com artigo sobre o trabalho, discriminação e violência contra a mulher na sociedade contemporânea, escrito pela Cientista Social Nathália Eberhardt Ziolkowski e pela Fisioterapeuta Marina Belini Morilha. O último artigo é do Procurador do Trabalho Paulo Douglas Almeida de Moraes, sobre a negociação coletiva no setor sucroalcooleiro. A revista também contém o Guia Ministerial Encerramento dos lixões e a inclusão social e produtiva das catadoras e catadores de materiais recicláveis, lançado pelo Conselho Nacional do Ministério Público. Complementando os artigos doutrinários, a Revista traz peças processuais de autoria dos Procuradores do Trabalho que atuam no Estado. Entre os temas, destacam-se a exigência de oferecimento de cursos para cumprimento da cota legal de aprendizagem profissional, de autoria do Procurador do Trabalho Carlos Eduardo Almeida Martins de Andrade; jornada e horas in itinere de autoria de Jeferson Pereira, Procurador do MPT em Dourados; a Ação Civil Pública sobre trabalho infantil doméstico do Procurador Leontino Ferreira Lima Júnior e a exigência de implementação de ações de combate ao trabalho infantil, ação movida pelo Procurador Mateus de Oliveira Biondi. Também integram a revista, pela importância, a recomendação quanto ao uso de tacógrafo digital, feita à Agência Nacional de Transportes Terrestres pelo Procurador do Trabalho Paulo Douglas Almeida de Moraes, como forma de dar mais efetividade à Lei do Descanso, e o Termo de Cooperação Técnica pela fiscalização das condições de trabalho nas obras de construção e reformas de pontes nas estradas em Mato Grosso do Sul. Conforme descrito nas linhas acima, este número apresenta, de diversos ângulos, aspectos relevantes da atuação institucional, seja na defesa do meio ambiente laboral saudável, seja no respeito a direitos e à dignidade de imigrantes, indígenas, crianças e adolescentes, mulheres e todos os demais trabalhadores brasileiros, desafios que se constituem na missão e bandeira do MPT. Doutrina Odracir Juares Hecht Presidente da Comissão Editorial

7 TRABALHO EM PÉ E SENTADO. FLEXIBILIDADE POSTURAL Alessandro Santos de Miranda 1 POSTURAS GERAIS Muitas situações de trabalho requerem posturas que devem ser mantidas por um longo período de tempo. Entre elas está a postura em pé, que é comum em muitas ocupações, tais como vendedores de lojas, trabalhadores que prestam serviços na área de alimentação, no trabalho de linha de montagem, operadores de caixas, assim como em diversas outras atividades na indústria e no comércio. A questão da postura no trabalho é tratada, na maioria das vezes, como um problema de caráter individual, responsabilizando o trabalhador pela adoção de posições incorretas. Esta percepção é inverídica levando-se em conta que a proteção ao meio ambiente laboral é um direito social com interesse coletivo. Assim, constitui obrigação dos empregadores adotar as medidas necessárias com o fim de reduzir e eliminar os riscos inerentes ao trabalho pela aplicação das normas de saúde, higiene e segurança. Neste contexto, a exigência de posturas fixas na execução das tarefas aponta para a associação de vários agravos à saúde ocupacional, tais como LER/ DORT, distúrbios vasculares, entre outros, devendo, pois, ser evitada. A postura é o arranjo relativo das partes do corpo dispostas no espaço. É o principal elemento da atividade humana, 1 Procurador-Chefe da Procuradoria Regional do Trabalho da 10ª Região DF e TO. Mestre em Direito Constitucional pela Universidade de Sevilha, Espanha. Coordenador Nacional da Defesa do Meio Ambiente de Trabalho do Ministério Público do Trabalho entre dezembro/2005 e outubro/

8 ou seja, não se trata apenas de manter-se em pé ou sentado, mas de interagir no ambiente. Deste modo, uma das funções da postura é proteger as estruturas de suporte do corpo contra lesões progressivas, independentemente da atitude (ereta, deitada, agachada, encurvada) nas quais essas estruturas estão trabalhando ou repousando 2. A postura natural ou saudável é aquela em que as articulações ocupam uma posição neutra de equilíbrio muscular e esquelético, sem movimentos (de extensão, flexão ou inclinação) ou com o mínimo de esforço energético, não exigindo grande esforço para mantê-la e, assim, não prejudicando o organismo com sobrecargas funcionais ou condições que a médio ou longo prazo possam originar processos patológicos 3 4. Assim, uma boa postura mantém o esforço total em seu mínimo, distribuindo-o para as estruturas mais aptas a suportá-lo 5. Em contrapartida, a má postura tem efeito contrário, aumentando o estresse total e distribuindo-o para estruturas menos capazes de suportá-lo, ocasionando o adoecimento. A postura e o equilíbrio dos segmentos corporais dependem da harmonia entre os membros inferiores, cintura pélvica, coluna vertebral, membros superiores e cintura escapular. Problemas relacionados à manutenção dessa harmonia podem ocasionar alterações de ordem postural, prejudicando a boa postura do indivíduo 6. Com efeito, as posturas gerais básicas são as posições em pé (parado e andando), sentado, de cócoras e deitado. Além destas, há posturas relacionadas a segmentos particulares, tendo como base as posturas gerais 7. Neste estudo serão abordadas as posturas sentada, em pé e alternada, por serem as mais adotadas nas relações de trabalho, bem como os parâmetros mínimos que permitem a 2ASSUNÇÃO, 2004, p SÃO PAULO. Norma Técnica para o Trabalho em Pé e Sentado. 4ASSUNÇÃO, 2004, p JORGE, 2003, p JORGE, 2003, p SÃO PAULO, op. cit. 14 adaptação das condições laborais às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um máximo de conforto, segurança, saúde e desempenho eficiente. Entretanto, ressalte-se que as orientações contidas neste texto não excluem a necessidade de uma análise ergonômica do trabalho para ampliar o ângulo da abordagem, principalmente quanto à investigação dos aspectos relacionados às doenças ocupacionais, de forma a evitar a implantação inócua de medidas que poderiam ser contraditórias com a realização das atividades desempenhadas pelos trabalhadores. A postura sentada, associada à pouca movimentação, exige atividade muscular do dorso e do ventre e tem como consequência imediata a carga estática sobre certos segmentos corporais que, embora possa não ser intensa, se prolongada e associada à inércia, produz a fadiga. Assim, a postura sentada, de todas as posturas, é a mais dolorosa, principalmente quando o assento é inadequado, pois há menor nível de atividade muscular na posição sentado em comparação com a posição em pé 8. Neste sentido, deve-se ter em conta que o homem é um ser em movimento constante, e que qualquer tarefa que o obrigue a posições estáticas leva-o ao desconforto. Neste particular, a posição ligeiramente inclinada para frente é mais natural e menos fatigante que aquela ereta, pois mantém o corpo em equilíbrio 9. Já a postura parada em pé (postura ortostática) é altamente fatigante porque exige demasiado trabalho estático da musculatura envolvida para manter essa posição, dispendendo muita energia. As pessoas que executam trabalhos dinâmicos em pé, em constante movimento, geralmente apresentam menos fadiga que aquelas que permanecem estáticas ou com pouca movimentação. Não é possível a manutenção da postura em pé por longos períodos, sendo comum o uso assimétrico dos membros inferiores, usando alternadamente as pernas direita e esquerda como principal apoio para facilitar a circulação sanguínea ou reduzir as compressões sobre as articulações 8 JORGE, 2003, p SÃO PAULO, op. cit. 15

9 que estavam contraídas 10. O ideal é que haja flexibilidade postural (posturas alternadas), pois a variação de posições favorece as articulações e economiza energia, vez que não existe uma única postura que satisfaça às duas necessidades. Por intermédio da variação das posturas corporais permite-se ao indivíduo alternar os focos principais de exigências, ao mesmo tempo em que propicia mobilidade para o sistema musculoesquelético e a manutenção da saúde dos músculos, tendões, entre outros. Neste contexto, a postura de trabalho é adotada em função da atividade desenvolvida, das exigências da tarefa (visuais, emprego de forças, precisão dos movimentos, pressão temporal, volume de produção, ritmo das tarefas, variabilidade do processo e qualidade), dos espaços de trabalho (dimensões do mobiliário e equipamentos), da ligação do trabalhador com máquinas e equipamentos (como, por exemplo, o acionamento de comandos), entre outros. As amplitudes de movimentos dos segmentos corporais, assim como as exigências da tarefa em termos visuais, de peso ou esforços, influenciam na posição do tronco e no esforço postural, tanto no trabalho sentado como no trabalho em pé 11. A postura mais adequada ao trabalhador é aquela que ele próprio escolhe livremente e que pode ser variada ao longo do tempo. Assim, a concepção dos postos de trabalho ou da tarefa deve favorecer a variação postural, principalmente a alternância entre a postura sentada e em pé. Em outros termos, para uma postura sadia é recomendável a variação frequente do repertório de posturas, pois uma posição conveniente torna-se ruim se prolongada demasiadamente. Assim, o conforto merece destaque especial. A regulamentação em segurança e saúde no trabalho quase sempre diz respeito a limites de tolerância que podem ser medidos objetivamente. O mesmo não ocorre neste caso. Para se avaliar o conforto, é imprescindível a manifestação dos trabalhadores. Só estes poderão 10 SÃO PAULO, op. cit. 11 BRASIL, confirmar ou não a adequação das soluções técnicas propostas. Portanto, para investigar as inadequações ou para solucioná-las, a palavra daqueles deve ser a principal diretiva. AGRAVOS À SAÚDE RELACIONADOS ÀS POSTURAS RÍGIDAS NO TRABALHO Inicialmente, deve-se ter em conta que, de maneira geral, os postos de trabalho são concebidos levando-se em consideração as necessidades da produção, e não o conforto do empregado na escolha da postura a ser adotada, contrariando o disposto na Convenção 155 da Organização Internacional do Trabalho, que predispõe que o ambiente laboral deve ser adaptado, na medida do possível, ao trabalhador, e não o contrário: Art. 16 Deverá ser exigido dos empregadores que, à medida que for razoável e possível, garantam que os locais de trabalho, o maquinário, os equipamentos e as operações e processos que estiverem sob seu controle são seguros e não envolvem risco algum para a segurança e saúde dos trabalhadores. Sob o enfoque ergonômico, analisando a relação entre o homem e o trabalho, predomina a opinião de que a postura laboral, sobretudo a permanência prolongada em pé, pode desencadear e/ou agravar os sintomas de transtornos venosos nos membros inferiores, resultando em dores que se prolongam além do horário de labor. Assim, tem-se o paradoxo: muitos problemas de saúde ocupacional estão associados com a permanência da postura em pé, ao passo que inúmeras são as situações que requerem a manutenção desta postura por um longo período em certas categorias profissionais como, por exemplo, em diversos postos de trabalho da indústria e do comércio. A postura parada em pé exige o trabalho estático da musculatura envolvida para manutenção desta posição, provocando diversos problemas somáticos, tais como maior desgaste físico, tensão e fadiga musculares, dores lombares e desconfortos nos membros 17

10 inferiores (dores, edema, sensação de peso nas pernas e câimbras, que aumentam ao longo do dia, especialmente após a permanência prolongada da postura em pé), os quais, mesmo que não gerem uma incapacidade laboral, propiciam a diminuição da resistência dos trabalhadores, levando-os a adquirir doenças de origem ocupacional Estar de pé significa que todo o peso do corpo é suportado pelos membros inferiores e que se trabalha contra a lei da gravidade, com a solicitação excessiva de vários músculos do dorso e das pernas para manter a postura ereta, como também do sistema cardiovascular, que faz o sangue retornar dos membros inferiores ao coração 14. Para a manutenção da postura estática em pé são necessários níveis baixos, porém constantes, de tensão muscular, e esse estado prolongado de contração provoca uma compressão dos vasos sanguíneos, prejudicando a circulação sanguínea e linfática. Como consequência, a manutenção da postura em pé por 45% a 50% da carga horária de trabalho é suficiente para causar o aparecimento de alguns transtornos musculoesqueléticos e circulatórios nos membros inferiores (pernas e pés, além de joelhos e quadris), como varizes, edema e celulite que, além do comprometimento estético e funcional, desencadeiam dores, podendo evoluir para a perda parcial ou total da mobilidade de aludidos membros 15. Com efeito, a doença venosa é um problema de saúde pública importante, pois acomete pessoas de diferentes faixas etárias e pode causar sérios problemas socioeconômicos como, por exemplo, a inaptidão laboral, pois apresenta uma repercussão direta sobre a qualidade de vida e da produção e, consequentemente, sobre a perda de eficiência operacional. Assim, são comuns os absenteísmos, hospitalizações e até mesmo aposentadorias precoces de indivíduos na fase produtiva da vida, acometidos por sequelas físicas e psicológicas, além de limitações e impedimentos permanentes para a realização das atividades cotidianas e do trabalho 16. Como pontuado anteriormente, muitas situações de trabalho requerem a manutenção da postura em pé por um longo período de tempo. Entretanto, a escolha desta postura só se justifica quando a tarefa: exige deslocamentos contínuos (no caso de rondas); pressupõe manipulação de cargas com peso igual ou superior a 4,5 kg; exige alcances amplos frequentes, para cima, para frente ou para baixo (deve-se reduzir a amplitude destes alcances para que se possa trabalhar sentado); determina mudanças constantes de postos de trabalho, fisicamente separados; exige a aplicação de forças para baixo (como o empacotamento) Deve ser levado em consideração, ainda, que em muitas atividades econômicas há um controle rígido da produtividade, o qual aumenta quando a demanda da produção ou dos serviços é maior, sendo os trabalhadores submetidos a extensas e desgastantes jornadas, permanecendo mais tempo no local de trabalho e aumentando ainda mais o tempo de exposição à carga estática, tornando-os mais suscetíveis a doenças. Com relação à postura sentada, tem-se que o esforço postural e as solicitações sobre as articulações são mais limitadas que na posição em pé. A postura sentada permite melhor controle dos movimentos, razão pela qual o esforço de equilíbrio é reduzido. Por este fato, é a melhor postura a ser adotada para os trabalhos que exijam precisão. De idêntica forma, em algumas atividades a tendência é permanecer sentado por longos períodos (escritórios, trabalhos com computadores e administrativos, entre outros). Nesta posição, a compressão dos discos intervertebrais é maior, não só pelas cargas que atuam sobre a coluna vertebral, mas principalmente pela manutenção da própria postura estática. Desta forma, a incidência de 12 GUIMARÃES, BRASIL, ASSUNÇÃO, 2004, p GRANDJEAN, FRANÇA, 2003, p BRASIL, BRASIL,

11 dores lombares é menor quando adotada a flexibilidade postural 19, sendo importante que o design do assento possibilite as mudanças de postura 20. Assim, há vantagens e desvantagens na adoção da postura de trabalho sentado, se bem concebida (com apoios e inclinações adequados). Como vantagens, destacam-se: baixa solicitação dos membros inferiores (o que reduz a sensação de desconforto e cansaço); possibilidade de evitar posições forçadas do corpo; menor consumo de energia; facilidade da circulação sanguínea nos membros inferiores. As principais desvantagens são: sedentarismo; adoção de posturas desfavoráveis; redução da circulação sanguínea nos membros inferiores. Neste particular, o Poder Judiciário Trabalhista tem reconhecido o nexo causal entre a culpa patronal (má organização da atividade produtiva; insuficiência de aplicação dos princípios ergonômicos na concepção de métodos e dos postos de trabalho; falta de ajuste dos equipamentos às características dos trabalhadores) e os adoecimentos dos trabalhadores decorrentes da exposição ao risco postural, pois estes têm o direito de desenvolverem suas atividades profissionais em ambiente seguro que preserve sua vida, saúde e integridades física e moral. Não é outro o entendimento esposado nos seguintes acórdãos: RO nº (3ª Turma do e. Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região); RO nº (7ª Turma do e. Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região); RO nº (6ª Turma do e. Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região). ADOÇÃO DAS POSTURAS ALTERNADAS PARA O CONFORTO NO TRABALHO O conforto do trabalho sentado ou do trabalho em pé ocorre 19 BRASIL, ASSUNÇÃO, 2004, p em função 21 : a) do tempo de manutenção da postura; b) da adaptação às exigências visuais (a localização das fontes de informação influencia na postura corporal, podendo induzir o trabalhador a adotar posturas inadequadas prolongadas ou repetitivas); c) dos espaços para pernas e pés (a falta de espaço obriga o trabalhador a adotar posturas incorretas); d) da altura do plano de trabalho (importante elemento para o conforto postural 22 ); e) das características da cadeira (o assento de trabalho ideal deve ser determinado em função da atividade desenvolvida, das condições ambientais de trabalho e da opinião dos trabalhadores). Como visto, qualquer postura prolongada é mal tolerada pelo corpo humano. Por esta razão, a alternância de posturas deve ser sempre privilegiada, pois permite que os músculos não sejam sobrecarregados e fiquem fatigados. O item da Norma Regulamentadora 17 do Ministério do Trabalho e Emprego dispõe que Sempre que o trabalho puder ser executado na posição sentada, o posto de trabalho deve ser planejado ou adaptado para essa posição. A interpretação desse item normativo tem gerado malentendidos, vez que sua intenção é reduzir a posição de trabalho em pé, muito comum nos meios industrial e comercial. Com efeito, a alternância da postura deve sempre ficar à livre escolha do trabalhador. Ele é quem vai saber, diante da exigência momentânea da tarefa e de suas condições pessoais, se é melhor a posição sentada ou em pé. Assim, o tempo de manutenção de uma postura deve ser o mais breve possível, pois seus efeitos, eventualmente nocivos, dependem do tempo durante o qual ela será mantida. 21 BRASIL, Esta observação é válida tanto para o trabalho sentado como para o trabalho em pé. O ponto de referência utilizado para determinar a altura confortável de trabalho é a altura dos cotovelos em relação ao piso, mas a altura da tarefa tem que ser levada em consideração. No planejamento / adaptação do posto de trabalho sentado deve-se sempre levar em consideração duas medidas principais: a altura da cadeira e a altura do plano de trabalho. Considerando que as dimensões corporais são muito diversas, (inter e intra-indivíduos), no mínimo uma destas alturas tem que ser regulável, para facilitar a adaptação do posto à maioria dos trabalhadores. (BRASIL, 2001). 21

12 Conforme preceitua o item da mesma Norma Regulamentadora, Para as atividades em que os trabalhos devam ser realizados de pé, devem ser colocados assentos para descanso em locais em que possam ser utilizados por todos os trabalhadores durante as pausas. Por corolário, exclui-se do atendimento à norma a disponibilização de assentos em locais inadequados, insalubres ou perigosos. Assim, os trabalhadores devem ter a oportunidade de se sentar durante as paradas no trabalho. Um assento do tipo pedestal ou uma estação de trabalho sentada/de pé pode ser fornecida ao operador para que ele possa variar a postura durante a atividade laboral. Neste tocante, se adotado o assento tipo pedestal (posição semi-sentada) 23 como solução, deve-se observar que este somente pode ser utilizado para quem trabalha em pé, parado, possibilitando que o trabalhador desenvolva suas atividades sem a fadiga própria desta situação laboral. Mas não deve ser usado por longos períodos e só se adapta às atividades realizadas em pé nas quais não se exige muita força nos movimentos. Ainda, o chão deve oferecer atrito suficiente para evitar que o banco deslize. A SELEÇÃO DO MOBILIÁRIO: PARÂMETROS MÍNIMOS A importância do mobiliário se fundamenta no fato de este ser considerado um dos equipamentos de trabalho, necessitando ser compatível com a tarefa a ser desenvolvida e ser adaptado a seus usuários. Frise-se que a postura a ser adotada dependerá de múltiplos fatores: variação da produção, características do mobiliário e arranjo do espaço físico, entre outros. Assim, o mobiliário deve ser concebido com regulagens que permitam ao trabalhador adaptá-lo às suas características antropométricas (altura, peso, comprimento das pernas e dos braços, entre outros). Deve permitir também alternância de posturas (sentado, em pé), pois não existe nenhuma postura fixa que seja confortável. Também deve ser adaptado à natureza do trabalho, ou seja, às exigências da tarefa. Entre a população trabalhadora há indivíduos de diversas alturas, sendo difícil conceber um mobiliário que satisfaça a todos. O recomendável é que o mobiliário permita uma regulagem que atenda a pelo menos 95% da população em geral. Segundo o item da Norma Regulamentadora 17 do Ministério do Trabalho e Emprego, Para trabalho manual sentado ou que tenha de ser feito em pé, as bancadas, mesas, escrivaninhas e os painéis devem proporcionar ao trabalhador condições de boa postura, visualização e operação e devem atender aos seguintes requisitos mínimos: a) ter altura e características da superfície de trabalho compatíveis com o tipo de atividade, com a distância requerida dos olhos ao campo de trabalho e com a altura do assento; b) ter área de trabalho de fácil alcance [35 a 45 cm] e visualização pelo trabalhador; c) ter características dimensionais que possibilitem posicionamento e movimentação adequados dos segmentos corporais 24. Percebe-se que a intenção da norma é permitir a concepção do mobiliário adaptado às características do trabalho e do trabalhador. Assim, para que se possibilite a realização das tarefas em condições de conforto, deve-se proporcionar flexibilidade de posturas e possibilidade de regulagem do mobiliário de forma a permitir a adaptação às características antropométricas do trabalhador. 23 Um assento pedestal consiste em um banco de altura ajustável (65 a 85 cm) e inclinado entre 15 a 30 graus, o que permite a assunção de posturas semi-apoiadas, que aliviam o estresse sobre as pernas ABRAHAO; ASSUNÇÃO, 2002, p

13 Para a realização de trabalho manual sentado ou que tenha de ser feito em pé, deve ser proporcionado mobiliário que atenda aos itens , , e alíneas da Norma Regulamentadora 17 do Ministério do Trabalho e Emprego e que permita variações posturais, com ajustes de fácil acionamento, de modo a prover espaço suficiente para o conforto do usuário, atendendo, no mínimo, aos seguintes parâmetros: a) as dimensões antropométricas devem ser tomadas considerando, no mínimo, 95% da população brasileira; b) mesas com profundidade de, no mínimo, 90 cm, e largura de, no mínimo, 100 cm que proporcionem zonas de alcance manual do material e dos equipamentos de trabalho até, no máximo, 65 cm de raio, medidas centradas nos ombros do usuário em posição de trabalho; c) mesas reguláveis em altura de, no mínimo, 64 a 98 cm, medidas de sua face inferior, para colocação do terminal de vídeo, documentos e equipamentos, com bordas arredondadas, sem quinas e sem canaletas plásticas que ultrapassem a superfície da madeira para evitar desconforto e compressão de tecidos ao apoiar os antebraços; d) superfícies para teclado e mouse independentes do monitor, com regulagem de altura entre, no mínimo, 64 e 98 cm e espaço para apoio dos antebraços e movimentação do mouse; e) facilidade de disposição, acesso e organização dos diferentes equipamentos e documentos utilizados na execução do trabalho; para vídeo; f) superfície e mecanismo de regulagem independentes g) espaço sob a mesa de trabalho com profundidade mínima de 45 cm ao nível dos joelhos e de 70 cm ao nível dos pés; h) disponibilidade de apoio para os pés de altura regulável, adaptável ao comprimento das pernas do usuário, permitindo o apoio das plantas de ambos os pés, com largura de 30 a 40 cm, inclinação entre 10 e 20 graus com a horizontal e superfície revestida de material 24 antiderrapante; i) disponibilidade de suporte para documentos que fique à altura do monitor; j) telas de vídeo dotadas de mecanismos que permitam regulagens ao correto ajuste do monitor à iluminação do ambiente, de forma a assegurar, também, que a parte superior da tela esteja situada na altura dos olhos, formando um cone em torno de 30 graus posicionada a uma distância que varie entre 40 a 60 cm dos olhos, não ultrapassando o limite de 70 cm; l) assentos dotados de: l.1) apoio em 05 (cinco) pés, com rodízios cuja resistência evite deslocamentos involuntários e que não comprometam a estabilidade do assento; l.2) revestimento com material que permita a perspiração; l.3) estofamento da base com material de densidade mínima de 50 Kg/cm³; l.4) alturas ajustáveis em relação ao piso por mecanismo de fácil manuseio, a gás ou similar, com intervalo de 37 a 50 cm; l.5) profundidade útil de 38 a 44 cm; l.6) borda frontal arredondada; l.7) características de pouca ou nenhuma conformação na base; l.8) encosto com forma levemente adaptada ao corpo para proteção da região lombar, separado do assento, com regulagem de altura e inclinação ântero-posterior. Caso não haja mesa regulável e espaço para antebraços no próprio plano de trabalho, as cadeiras devem ser dotadas de apoio para antebraços de material macio, com regulagem de altura. Ainda, devem ser adotadas outras providências em relação ao mobiliário: 25

14 a) será necessário avaliar a adequação de um protótipo de todos os móveis, em seus diferentes modelos, antes da aquisição final, com participação da equipe de saúde, onde houver, e, principalmente, dos trabalhadores envolvidos, que deverão testá-los; b) em caso de pessoas com necessidades especiais e aquelas cujas medidas antropométricas não sejam atendidas pelas especificações supra, o mobiliário dos postos de trabalho deve ser adaptado para atender às suas necessidades, e devem ser disponibilizadas ajudas técnicas necessárias para que se permita facilitar sua integração ao trabalho, levando em consideração as repercussões sobre a saúde destes trabalhadores; c) os empregados devem ser orientados para a correta utilização dos mecanismos de ajuste do mobiliário; d) devem ser realizadas campanhas acerca da importância da ergonomia no trabalho; e) devem ser garantidas a manutenção e a reposição do mobiliário, com a participação dos trabalhadores no processo de decisão de compra do mesmo. Ainda com relação à altura do assento, deve ser definida de forma que: proporcione o conforto dos membros inferiores (os pés estejam bem apoiados sobre o solo, sem haver compressão das coxas 25 ) e superiores, assim como o conforto visual (determinado pela distância entre o olho e o plano de trabalho, das características da atividade e da acuidade visual do trabalhador) 26. Deve ser observado que toda introdução de novos métodos ou dispositivos tecnológicos que traga alterações sobre os modos operatórios dos trabalhadores deve ser alvo de análise ergonômica prévia das repercussões sobre as formas e carga de trabalho daqueles, prevendo-se períodos e procedimentos adequados de capacitação e adaptação, incluindo reformulação de métodos de 25 Para adaptar o posto de trabalho a todos, deve ser disponibilizado suporte para os pés para os que têm estatura menor, com inclinação de, no máximo, 20º, não devendo ser uma barra fixa. 26 BRASIL, avaliação de desempenho e organização do trabalho. RECOMENDAÇÕES ERGONÔMICAS PARA FLEXIBILIDADE POSTURAL A integração das questões de saúde e segurança nos processos produtivos é um marco para a construção de ações preventivas e educativas visando à transformação das situações de trabalho. Com isso, todos os envolvidos são beneficiados: os trabalhadores têm a saúde preservada, melhoram a qualidade de vida e o bem-estar e obtêm satisfação no trabalho; os empregadores aumentam a produtividade e competitividade com a diminuição das interrupções no processo e a redução do absenteísmo, dos acidentes 27

15 e das doenças ocupacionais; o governo, por sua vez, gera empregos sustentáveis, em boas condições; e a sociedade se beneficia com a redução do ônus social. Desta forma, deve ser dado o mesmo nível de importância para as questões de qualidade, segurança, saúde ocupacional e meio ambiente do trabalho. Como visto, qualquer postura, desde que mantida prolongadamente, é mal tolerada pelo corpo humano. A alternância de postura deve ser sempre privilegiada, pois permite que os músculos não se fatiguem. E é o próprio trabalhador quem deve livremente escolher a postura a ser adotada, em constante alternância (em pé, sentado), diante da exigência momentânea da tarefa. Percebe-se que a permanência prolongada na postura em pé pode ter influência no desencadeamento e/ou no agravamento de sinais e sintomas referentes aos transtornos circulatórios (varizes, ocorrência de dor, sensação de peso ou cansaço, câimbras e edema, entre outros) nos membros inferiores. Importante destacar que a orientação de uma postura ou a prescrição de um assento, sem se considerar a situação em que a atividade se desenvolve, pode gerar conflitos, entre os quais a adoção de posturas estereotipadas e a não utilização do mobiliário prescrito. Ainda, em inúmeras situações de trabalho, apesar de disponível, o assento não é utilizado pelos trabalhadores, pois a falta de cultura em saúde e segurança laborais podem gerar resistência às mudanças. Daí a importância de se realizar um estudo ergonômico, avaliando as características de cada atividade, além de promover a conscientização dos trabalhadores para as boas práticas posturais. Outro ponto relevante diz respeito aos aspectos organizacionais que permitam o usufruto da melhoria das condições materiais de trabalho propostas, pois uma rigidez excessiva na organização laboral, com imposição de um ritmo artificial, neutraliza a vida mental durante o trabalho, tornando o obreiro mais suscetível de doenças. Muitas vezes a rigidez operativa do trabalho leva ao excesso da carga psicológica, principalmente em atividades profissionais onde são exigidas dos trabalhadores metas de produção 27. Portanto, para prevenir as desordens musculoesqueléticas no local de trabalho, deve-se atentar às intervenções e soluções ergonômicas: a partir da identificação dos fatores do local do trabalho, dos aspectos individuais e tendo como base as pesquisas epidemiológicas, podem ser instituídas medidas preventivas, minimizando ou eliminando os fatores de risco. É de salutar importância que haja mais conscientização tanto por parte dos empregadores como dos trabalhadores com relação à existência dos distúrbios musculoesqueléticos e vasculares, bem como quanto às medidas conjuntas que devem ser adotadas para que esses males sejam prevenidos. Por todo o exposto, para minimizar a incidência dos sintomas de origem circulatória nos membros inferiores em atividades laborais que exijam a postura ortostática (em pé), o Ministério Público do Trabalho recomenda, além da realização de análise ergonômica primorosa nos postos de trabalho, a adoção das seguintes ações preventivas e educativas: posturas; a) adaptação dos postos de trabalho para alternância de b) para as atividades em que os trabalhos devam ser realizados em pé, disponibilização de assentos para alternância de postura nos horários de intervalos, em número compatível ao de trabalhadores, em locais em que possam ser utilizados por estes durante as pausas (item da Norma Regulamentadora 17); c) fornecimento de apoios para os pés; d) alternância de tarefas entre aquelas que devem ser desenvolvidas durante longos períodos na posição em pé e outras que possam se executadas sentado; e) redução das jornadas dos trabalhadores que trabalham em pé, sem que haja comprometimento com a redução salarial; JORGE,

16 f) desenvolvimento de campanhas de conscientização dos trabalhadores sobre a importância da utilização dos assentos nos intervalos naturais e os riscos à saúde pela permanência em pé durante toda a jornada; g) fornecimento, como equipamento de proteção individual, de meias de compressão elásticas, após análise da viabilidade técnica deste EPI; h) por fim, não permissão, não tolerância e não submissão dos trabalhadores, por meio de seus superiores hierárquicos, a situações de constrangimento ou proibição, ainda que velada, à utilização de assentos nas pausas permitidas ou nos momentos de não atendimento ao público (em caso de estabelecimentos comerciais). BIBLIOGRAFIA ABRAHAO, Júlia Issy.; ASSUNÇÃO, Ada Ávila. A Concepção de Postos de Trabalho Informatizados Visando à Prevenção de Problemas Posturais. Revista de Saúde Coletiva da UEFS, Feira de Santana, v.1, n.1, p , ASSUNÇÃO, Ada Ávila. A Cadeirologia e o Mito da Postura Correta. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, São Paulo, v. 29, p , Disponível em: <http://pt.scribd.com/doc/ /a- Cadeirologia-e-o-Mito-Da-Postura-Correta>. Acesso em: 20 jul ASSUNÇÃO, Ada Ávila. SAMPAIO, Rosana Ferreira. NASCIMENTO, Licia M.B. Agir em Empresas de Pequena e Média Dimensão para Promover a Saúde dos Trabalhadores: O Caso do Setor de Alimentos e Bebidas. Revista Brasileira Fisioter, v. 14, p , BRASIL. Manual de Aplicação da Norma Regulamentadora nº 17. Brasília: Ministério do Trabalho e Emprego / Secretaria de Inspeção do Trabalho, 2. ed., BRASIL. Nota Técnica 60/2001. Brasília: Ministério do Trabalho e Emprego / Secretaria de Inspeção do Trabalho, PEREIRA, Alexandre Demetrius. Tratado de Segurança e Saúde Ocupacional. Aspectos Técnicos e Jurídicos. São Paulo: LTr, v. IV, p. 111/115. FRANÇA, Luiz Henrique Gil; TAVARES, Viviane. Insuficiência Venosa Crônica: Uma Atualização. São Paulo: Jornal Vascular Brasileiro, v. 2, n. 4, p , GRANDJEAN, Etienne. Manual de Ergonomia: Adaptando o Trabalho ao Homem. Porto Alegre: Artes Médicas, 4ª ed., GRATAROLLI, Jacqueline et al. Implantar cadeiras garante a postura sentada? Curitiba: Anais do IV Congresso Brasileiro de Ergonomia - ABERGO, GUIMARÃES, Lia Buarque de Macedo. Avaliação do Trabalho Físico. In: GUIMARÃES, Lia Buarque de Macedo. Ergonomia de Produto: Antropometria, Fisiologia e Biomecânica, 5. ed., Porto Alegre: FEENG, 2006, v. 1. JORGE, Maria do Carmo Teixeira Carvalho. A Postura de Trabalho em Pé: Um Estudo com Trabalhadores Lojistas. Universidade Federal de Santa Catarina. Dissertação de Mestrado Disponível em: <https:// repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/ /85414/ pdf?sequence=1>. Acesso em: 20 jul SÃO PAULO. Norma Técnica para o Trabalho em Pé e Sentado. Secretaria Municipal de Saúde. Subgerência da Vigilância em Saúde do Trabalhador. Disponível em: <www.prefeitura.sp.gov.br/.../7_ pagina_saude_do_trabalhador_ >. Acesso em: 19 jul

17 AUDITORIA FISCAL DO TRABALHO: COMPROMISSO COM O TRABALHO DIGNO Benedito de Lima e Silva Filho 1 Luize Surkamp 2 O conceito de trabalho análogo ao de escravo no Brasil deixou, a bem pouco tempo, de se limitar à restrição da liberdade de ir e vir dos trabalhadores, para ter uma abrangência multifacetada, consoante com as diretrizes da Lei Maior. Com efeito, analisando os Direitos Fundamentais dos trabalhadores brasileiros, pretende-se demonstrar que o fenômeno do trabalho análogo ao de escravo e, portanto indigno, se materializa quando ocorrem sérias restrições às liberdades substantivas, ou seja, inicia-se quando as irregularidades trabalhistas deixam de constituir simples descumprimento de normas e passam a afrontar os Direitos Humanos, notadamente nos desdobramentos constituídos pelos Direitos Fundamentais dos trabalhadores. Este artigo pretende enfocar de forma mais destacada que a ocorrência do trabalho análogo ao de escravo no Brasil tem embutido na sua gênesis não apenas fatores provocados pelos empregadores, mas também restrições às liberdades substantivas que na sua maioria são de responsabilidade do Estado. Tal conceito vai de encontro à visão anterior, na qual o trabalho análogo ao de escravo exigia apenas a presença de condições tradicionais como a restrição 32 1 Auditor Fiscal do Trabalho 2 Auditora Fiscal do Trabalho 33

18 do direito de ir e vir, trabalho forçado, servidão por dívida e vigilância armada. Uma vez que as restrições das liberdades podem ser causadas tanto pela sociedade civil quanto pelo Estado, pretende-se demonstrar que o trabalho análogo ao de escravo estudado sob o aspecto destas restrições confere maior amplitude à análise e aumenta o leque de atores responsáveis pela existência deste fenômeno, e que é dever da auditoria fiscal do trabalho, além de exercer seu papel fiscalizador, identificar suas causas e atuar sobre as mesmas, com a participação de outras instituições e órgãos do Estado, se necessário, com o fito de fazer surgir o trabalho digno em seu lugar. A correlação de trabalho análogo ao de escravo com as restrições das liberdades suscita uma discussão mais aprofundada sobre as capacidades dos trabalhadores e como as suas necessidades são asseguradas, pois estas estão fortemente ligadas à qualidade de vida e às liberdades substantivas. Tomando como referência o pensamento de Sen (2007), a liberdade individual é essencialmente um produto social e exige uma relação de mão dupla entre as disposições sociais que visam expandir as liberdades individuais e o seu uso, não só para melhorar a vida de cada um, mas também para tornar as disposições sociais mais eficientes e eficazes. Segundo o mesmo autor, ao se estudar um fenômeno sob o enfoque das restrições das liberdades, não se pode esquecer que as liberdades substantivas têm um viés tanto social quanto econômico. Dentro desta ótica, o Estado pode ser parte importante na existência do trabalho análogo ao de escravo, uma vez que no campo social, em última instância, é o responsável pela garantia da educação, da saúde, da moradia e da segurança e, no campo econômico, responde como indutor do crescimento, gerenciador do mercado de trabalho e moderador das relações deste com o capital. É mister enfatizar que no Brasil o Estado é na maioria das vezes o principal financiador de projetos onde ocorre trabalho indigno. Seguindo este raciocínio, pode-se vislumbrar uma forte correlação entre a existência do trabalho análogo ao de escravo e a privação das liberdades substantivas, pois, o que as pessoas conseguem realizar está umbilicalmente ligado às oportunidades econômicas, às liberdades políticas, às atuações das organizações sociais e às condições habilitadoras, como melhores condições de saúde, uma boa educação e incentivo às iniciativas de aperfeiçoamento profissional e educacional. Este raciocínio, por sua vez, levaria à conclusão de que o Estado pode ser um dos indutores do fenômeno do trabalho análogo ao de escravo, ao não assegurar de forma generalizada os elementos básicos de afirmação da cidadania, de defesa contra a exploração dos trabalhadores e de capacitação dos trabalhadores para a sua própria defesa contra a exploração. Para Sen (2007) as oportunidades sociais estão inequivocamente relacionadas com as ações do Estado, uma vez que se referem às necessidades básicas dos indivíduos, e que influenciam claramente a qualidade da vida de cada um. As oportunidades sociais influenciam tanto a vida privada como a participação do cidadão na sua comunidade. Assim, um analfabeto terá grande dificuldade para participar do mercado de trabalho no qual se exija conhecimentos que não possui. Da mesma forma, será limitado seu poder para interferir politicamente na comunidade, especialmente pela dificuldade de acessar informações. Depreende-se desta abordagem das liberdades instrumentais que a criação de oportunidade e a capacitação dos cidadãos através, por exemplo, da oferta de educação pública, de serviços de saúde, de liberdades políticas e de imprensa podem contribuir significativamente para a melhoria da qualidade de vida e, em consequência, para a redução do trabalho indigno. Resta, portanto, verificar se os elementos presentes na gênesis do trabalho análogo ao de escravo no Brasil têm origem nas restrições das liberdades substantivas e se estas são suficientes para caracterizar o fenômeno acima referido. Com esse intuito, escolheram-se variáveis que refletissem os direitos fundamentais dos trabalhadores e elaborou-se uma 34 35

19 plataforma de coleta de dados que foi aplicada em campo pelos Grupos Especiais de Fiscalização Móvel de combate ao trabalho análogo ao de escravo GEFM, do Ministério do Trabalho e Emprego. A seguir, utilizou-se um programa estatístico de domínio público bastante aplicado nas ciências médicas, chamado EPI info para tratar os dados. ANÁLISE DOS DADOS No Brasil, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, no ano de 2009, foram resgatados em condições análogas às de escravo (três mil setecentos e sessenta e três) trabalhadores e em 2010, até agosto, mais (um mil e trezentos e sessenta e seis) trabalhadores. A coleta de dados utilizados neste artigo iniciou-se a partir de maio de 2009 e encerrou-se em agosto de Deste universo foram entrevistados 379 (trezentos e setenta e nove) trabalhadores os quais trabalhavam em atividades como roço de juquira, corte de pinus, corte de erva-mate, corte de cana e outras. As entrevistas foram realizadas nas mais diversas regiões do Brasil. (Sul, Norte, Nordeste). Ao serem tratados os dados constante da planilha de coleta de dados constatou-se que 61,7 % dos trabalhadores começaram a trabalhar antes de completarem 14 anos; 23,5% iniciaram as suas atividades laborais entre 14 e 16 anos de idade; 12,7% começaram a trabalhar entre 16 e 18 anos; apenas 2,1% dos trabalhadores começaram a trabalhar na idade adulta, acima de 18 anos. Quanto ao nível de escolaridade dos trabalhadores resgatados em condições análogas às de escravo verificou-se que 84,3% dos trabalhadores resgatados estudaram somente até a 5ª Série do primeiro grau. O percentual de 84,3% referente aos trabalhadores resgatados que estudaram somente até a quinta série é muito superior à média nacional, que segundo dados divulgados pela PESQUISA NACIONAL DE DOMICÍLIO - PNAD, do IBGE, em , para pessoas que possuem de 4 a 7 anos de estudos é de 28,2%, e o percentual de pessoas sem instrução ou com menos de um ano de estudo é de 10,2%, ao passo que os índices alcançados pelos trabalhadores resgatados para trabalhadores analfabetos é de 25,7%. Ao se fazer a correlação entre as variáveis trabalho análogo ao de escravo e o nível de escolaridade, constatou-se que há uma dependência entre elas no percentual de 62,3%. Pode-se constatar que a reta de regressão linear traçada entre trabalhadores escravos e nível de escolaridade apresenta um coeficiente angular negativo, o que significa que à medida que aumenta a escolaridade, diminui a incidência de trabalho análogo ao de escravo. Haja vista que, principalmente após a 5ª série de estudo, a incidência de trabalhadores resgatados é insignificante (15,7%) dentro do universo pesquisado. Constatou-se também que devido ao baixo grau de escolaridade dos trabalhadores encontrados em condições análogas às de escravo, apenas 5,3% deles detém algum tipo de profissionalização. Ao se analisar as fichas de dados dos trabalhadores resgatados verificou-se, como era de se esperar, que os trabalhadores que fizeram cursos profissionalizantes são aqueles que estudaram além da 8ª série. Diante destes dados, pode-se inferir que o início precoce de atividade laboral leva a um baixo nível de escolaridade. A baixa escolaridade aliada à falta de capacitação profissional que os habilite a um trabalho que os remunerem melhor faz com que cerca de 38,2% dos trabalhadores resgatados tenham renda familiar abaixo de um salário mínimo. Os dados coletados relativos à moradia dos trabalhadores resgatados em condições análogas à de escravo refletem a baixa renda dos trabalhadores, pois apenas 47,8% deles possuem casa própria. Verificou-se através da análise de dados que a baixa renda dos trabalhadores reflete-se no seu cotidiano, pois em 19,4% das moradias o piso é de chão batido e cerca de 67,6% das casas 3 <http://downloads.uol.com.br/windows/educativos/pnad2008sintese.jhtm>. Acesso 36 em: 17 out

20 possuem no máximo 4 (quatro) cômodos. Constatou-se também que, apesar de existirem no Brasil alguns programas de proteção social como bolsa família, bolsa escola, vale gás e outros, 68,2% dos trabalhadores resgatados não estão sendo alcançados por estes programas. CONCLUSÃO A Auditoria Fiscal do Trabalho pretendeu através deste estudo analisar os fatores presentes na gênesis do trabalho análogo ao de escravo e mostrar que além de exercer o seu papel de fiscalizador, deve também procurar entender os fenômenos que fiscaliza e mostrar como solucioná-los para assegurar condições necessárias para que o trabalho seja exercido em condições dignas. Ao serem tratados os dados coletados, verificou-se que a rede de proteção social provida pelo Estado não está alcançando adequadamente os cidadãos de baixa renda e baixa escolaridade que vivem nas regiões mais distante dos centros urbanos, ou está sendo insuficiente para fortalecer seus mecanismos de defesa contra a superexploração patronal que visa maximizar lucros a qualquer custo. Analisando o fenômeno do trabalho análogo ao de escravo pela ótica da privação das liberdades, conclui-se que o Estado tem um papel muito mais amplo e preponderante no combate do trabalho análogo ao de escravo do que se poderia supor; não apenas exercendo seu poder de polícia em relação aos empregadores no tocante ao cumprimento das leis trabalhistas, mas também (e talvez principalmente) assegurando de forma efetiva os direitos fundamentais dos cidadãos. Deste modo, a não realização dos atos compreendidos nesse mínimo constitui violação ao princípio constitucional da dignidade da pessoa humana, podendo-se acionar judicialmente o Estado para efetivação dos direitos sociais violados, resguardando-se as liberdades. E, neste caso, não é possível ponderar um princípio, especialmente o da dignidade da pessoa humana, a ponto de esvaziar todo o seu conteúdo. Diante dessas considerações, a conclusão a que se chega, à luz do princípio da dignidade da pessoa humana, é a de que o Estado deve garantir as condições mínimas para que as pessoas possam se desenvolver e tenham chances reais de assegurar por si próprias suas dignidades. Esta é a idéia corrente de igualdade de chances ou igualdade de oportunidades. As capacidades adquiridas através das ações do Estado deixam de ser, segundo este prisma, objetivos finais da sociedade para se apresentarem como meios de combate ao trabalho indigno, passando a figurarem como instrumentos pelos quais os cidadãos evitarão a superexploração do trabalho pelo capital. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS SEN, Amartya Kumar. Desenvolvimento como liberdade. 6. Ed. São Paulo: Companhia das letras, 2000 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988: Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal,

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