A CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS COMO INSTRUMENTO DE SOCIALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE EDUCAÇÃO (FACED) CURSO DE GRADUAÇÃO EM PEDAGOGIA LICENCIATURA ROSANA MARIA DOS SANTOS A CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS COMO INSTRUMENTO DE SOCIALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL Três Cachoeiras 2011

2 ROSANA MARIA DOS SANTOS A CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS COMO INSTRUMENTO DE SOCIALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL Trabalho de Conclusão de Curso de graduação apresentado a comissão de graduação do Curso de Pedagogia Licenciatura, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul como requisito parcial e obrigatório para a obtenção do título de Licenciada em Pedagogia. Orientadora: Clevi Elena Rapkiewicz, DSc. Tutora: Analissa Scherer Três Cachoeiras 2011

3 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL Reitor: Prof. Carlos Alexandre Netto Vice-Reitor: Prof. Rui Vicente Oppermann Pró-Reitoria de Graduação: Pró-Reitora Valquíria Linck Bassani Diretor da Faculdade de Educação: Prof. Johannes Doll Coordenadoras do Curso de Graduação em Pedagogia Licenciatura na modalidade a distância/pead: Profas. Rosane Aragón de Nevado e Marie Jane Soares Carvalho

4 AGRADECIMENTOS fundamentar. Agradeço a Deus, por me fazer perseverante e me firmar, fortificar e Aos meus filhos, pelo amor incondicional e compreensão constantes. Obrigada por serem generosos ao compreender e desculpar minhas ausências. A minha família, por ser meu porto seguro e não permitir minha abnegação nos momentos de desespero e desalento. Aos meus amigos, pela crença e o incentivo depositados em mim, que me fizeram crer que era possível transcender a este momento. Meu reconhecimento a orientadora Clevi, pelo comprometimento, pela sabedoria e incomparável habilidade para conseguir o melhor de mim. encorajamento. Minha consideração a tutora Analissa, pelas valiosas orientações e Aos professores, tutores de pólo e tutores de sede, coordenadores, pelos conhecimentos compartilhados, aos secretários da UFRGS e do Pólo de Três Cachoeiras, pela paciência, incentivo e dedicação dispensados em todos os momentos. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em especial, a coordenadora do curso de graduação, Rosane Aragón de Nevado, pelo apoio institucional e pelas oportunidades oferecidas para que a concretização deste curso fosse possível.

5 Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir. Michel Foucault

6 RESUMO O presente trabalho se constitui em um estudo da socialização da criança da educação infantil. O processo de socialização inicia-se desde o nascimento da criança e continua por toda sua vida, de forma que durante o crescimento são adquiridos posturas, hábitos e comportamentos necessários para a convivência em grupo. Na intenção de constituir um ser social, as histórias da literatura infantil, através da contação de histórias, estimulam o desenvolvimento intelectual promovendo ideais e atitudes positivas que contemplam a formação de posturas e habilidades que contribuem para a formação pessoal e social. Neste contexto o presente trabalho se constitui em um estudo de caso que tem como foco central a contação de histórias como instrumento de socialização no contexto da educação infantil. O objetivo que se propõe o presente trabalho, através da exploração desta prática, refletir e analisar a importância da contação de histórias e sua relação com a socialização na criança de 05 anos na educação infantil. O estudo apoiou-se na realização da prática pedagógica do estágio, desenvolvida com uma turma de préescolar, constituída de onze alunos, com crianças entre cinco e seis anos de idade, de uma escola de Educação Infantil da rede municipal de ensino na cidade de Terra de Areia-RS. A análise feita diz respeito a diferentes aspectos de socialização observados durante as atividades de contação de histórias e delas derivados durante o estágio docente. Pode-se perceber que a contação de histórias é instrumento de grande valia no processo de socialização, interferindo principalmente nos seguintes aspectos: individualismo, segregação, respeito às diferenças, solidariedade e consideração pelo outro. Palavras-chave: Contação de histórias, Educação Infantil, Socialização

7 SUMÁRIO LISTA DE SIGLAS... 8 LISTA DE FIGURAS... 9 INTRODUÇÃO CONSTRUÇÃO DO OBJETO DE PESQUISA Justificativa e motivação Caracterização do problema Questões, hipótese e objetivos da pesquisa Metodologia FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA SOCIALIZAÇÃO O que é Estádio do desenvolvimento cognitivo Onde acontece O que dizem a LDB e o RCNEI? CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS Contar histórias, mas quais? Como contar histórias Por que contar histórias RESULTADOS A socialização da criança de 05 anos e a contação de histórias A contação de histórias no desenvolvimento cognitivo e afetivo da criança de 05 anos CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS APÊNDICE A Histórias utilizadas APÊNDICE B Termo de Consentimento ANEXOS... 51

8 8 LISTA DE SIGLAS - RCNEI - Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil - LDB: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - CD: Compact disc, em português, Disco Compacto - DVD: Digital Versatile Disc, em português, Disco Digital Versátil - EMEI: Escola Municipal de Educação Infantil - FACED: Faculdade de Educação - PEAD: Pedagogia à Distância - UFRGS: Universidade Federal do Rio Grande do Sul

9 9 LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Contando a história para os colegas Figura 2 - Brincadeiras na casinha Figura 3 - Brincando na casinha O casamento da Dona Baratinha Figura 4 - Relatos diários- início Figura 5 - Relatos realizados em detalhes Figura 6 - O material Figura 7 Seleção no brinquedo Figura 8 - Colaboração entre colegas Figura 9 - Brincadeira livre coletividade Figura 10 - Confeccionando palitoches Figura 11 - Interpretando os personagens da história Figura 12 Imitando gente grande Figura 13 Imagem e semelhança Figura 14 - Auto-retrato Figura 15 - Apresentação de teatro na formatura... 42

10 10 1. INTRODUÇÃO A contação de histórias se faz desde o início dos tempos. Que pessoa, em toda sua trajetória de vida não foi encantada pelas histórias, sejam elas, as que ilustram a trajetória de um povo, marcos históricos, as científicas ou as histórias infantis, que nos dão a oportunidade de voar nas asas da imaginação e nesse mundo imaginário, se abrem as portas para um mundo maravilhoso. Segundo Dohme (2000, pag.5) as histórias são um Abra-te sésamo para o imaginário, onde a realidade e a fantasia se sobrepõem. Com a abertura destas portas, são disponibilizadas inúmeras oportunidades para o desenvolvimento cognitivo e afetivo, da oralidade e da escrita, bem como favorece o desenvolvimento pessoal e social dos alunos da educação infantil. Através da contação de histórias infantis e dos contos de fadas, temos a oportunidade de representar papéis e cenas do cotidiano, tomando posições e solucionando problemas de forma livre, sem a intervenção das pressões da realidade, podendo experimentar outras formas de ser e pensar (BRASIL, 1998). Isso possibilita a criança inventar seu próprio mundo, descobrindo respostas as necessidades infantis, sendo utilizadas de forma fantasiosa revelando situações que levam liberar a imaginação, ao pensamento e ao desenvolvimento pessoal, reconhecendo suas emoções, possibilitando novas vivências relevantes para o processo de socialização (BRASIL, 1998). Conforme minhas observações realizadas durante o estágio docente, surgiram algumas questões em relação ao uso da contação de histórias no desenvolvimento do ensino aprendizagem, explorando a utilização desta prática e sua contribuição no desenvolvimento pessoal e social da criança de 05 anos na educação infantil. Este trabalho teve como metodologia o estudo de caso, onde foi realizada uma pesquisa qualitativa realizada durante o período de estágio docente supervisionado, tendo como foco a socialização da criança de 05 anos onde a contação de histórias foi utilizado como instrumento. Este Trabalho de Conclusão de Curso é constituído de cinco partes, compostos pela introdução e quatro capítulos, que procuram ilustrar ao leitor traçando de forma geral a escolha do tema deste trabalho, bem como o referencial

11 11 teórico, as evidências analisadas e as considerações finais sobre o uso da contação de história como instrumento socializador. Para melhor entendimento, segue um breve relato do conteúdo disposto em cada capítulo. O capítulo dois trata da construção do objeto de pesquisa. Neste capítulo são apresentadas ao leitor as justificativas e as motivações da escolha do tema, onde é descrita minha trajetória pessoal e profissional, em como adquiri o gosto pela leitura, após apresenta a caracterização do problema. Em seguida, apresenta questões, hipóteses e objetivo do estudo de caso, apresenta a questão norteadora e a partir desta questão, estabeleceram-se questões específicas, hipótese, objetivos específicos bem como a metodologia usada no desenvolvimento da pesquisa. O capítulo três, dividido em duas partes, traz o referencial teórico a partir de autores que falam sobre socialização e contação de histórias. Discorro, na primeira parte deste capítulo sobre o que é socialização, o estádio do desenvolvimento cognitivo, onde acontece a socialização, tendo como instâncias de socialização primárias a família e a escola. Na segunda parte deste capítulo, traz um apanhado geral sobre a contação de histórias da literatura infantil, focalizando a importância de como ler e contar histórias para criança na educação infantil, e finalizando o capítulo, por que contar histórias. O capítulo quatro traz a análise dos resultados obtidos pelo estudo de caso, o qual foi desenvolvido com crianças de 05 a 06 anos da Escola Municipal de Educação Infantil Madre Teresa, localizada no município de Terra de Areia-RS, sendo a maioria dos alunos desta turma de nível sócio-econômico médio-baixo. Essa análise diz respeito a diferentes aspectos de socialização observados durante as atividades de contação de histórias e delas derivados durante o estágio docente. E por fim, o capítulo cinco contém as considerações finais a respeito das evidências do favorecimento da socialização na educação infantil tendo sido utilizado como instrumento a contação de histórias.

12 12 2. CONSTRUÇÃO DO OBJETO DE PESQUISA Este capítulo apresenta ao leitor as motivações que levaram a escolha do tema do presente estudo de caso. Além disso, este capítulo também apresenta a caracterização do problema abordado, questões de pesquisa, hipóteses, o objetivo da pesquisa, bem como a metodologia usada Justificativa e motivação Ao fazer uma retrospectiva e recordar de minha infância, não consigo lembrar como foi que adquiri o hábito pela leitura e saber interpretar a mensagem ou o objetivo que cada história possui. Gosto muito de ler, não importando o gênero. Durante o período em que estava na primeira série, assim como no decurso das outras séries, uma vez por semana, éramos levados para a biblioteca onde estavam previamente separados, em quatro mesas distintas, 1ª, 2ª, 3ª e 4ª séries, os livros. Sendo que éramos avisados categoricamente que não poderíamos mexer nos livros das outras mesas e fazer absoluto silêncio enquanto permanecêssemos ali. Lembro que todos os alunos tinham medo da bibliotecária. Não tenho lembrança deste tempo, se algum dos professores que tive, tenham contado ou interpretado alguma história infantil, muitas vezes não se sabia a razão e para que se estava lendo alguma coisa para depois escrevê-la. Parecia que era somente uma dinâmica para passar o tempo. Não conseguia compreender as mensagens que tinham por trás de cada história e nem que poderiam me ajudar a perceber a realidade e também lidar com os meus medos. Na época, não tinha qualquer informação e conhecimento do que abrangia essas histórias, nem como poderia fazer um bom uso delas. Quando estava cursando o magistério, a razão de estar neste curso, segundo os professores, era que estávamos sendo preparados para ensinar, transmitir conhecimentos e que seria dada uma fórmula mágica para que isso acontecesse. Durante três anos, exerci o magistério com alunos em uma classe multisseriada composta por alunos de 1ª, 3ª e 4ª séries. Não consegui ter a satisfação de

13 13 desenvolver na prática o que me foi ensinado, de maneira que em 1989, me desliguei da área da educação com uma enorme frustração. Não conseguia identificar onde estava a falha. No decorrer do curso de Pedagogia do PEAD, apareceu uma necessidade de exorcizar alguns fantasmas em relação às questões literárias. Para que isso fosse possível, necessitava vivenciar atividades diferentes daquelas que tive no início de minha vida escolar. As motivações que me fizeram escolher este tema, através da interdisciplina de Literatura Infanto-Juvenil e Aprendizagem, são as reflexões sobre a importância da socialização da criança de 05 anos na educação infantil, o desenvolvimento pessoal e do gosto pela leitura 1, que pode ser desenvolvido utilizando a contação de histórias. Quem ouve histórias desenvolve capacidades como o entendimento e compreensão, tornando-se um leitor crítico e formador de opinião. Da mesma forma, o uso da contação de histórias são respostas as necessidades infantis, sendo utilizado de forma fantasiosa revelando situações que levam a criança liberar sua imaginação, o pensamento. Da mesma forma, os estudos oportunizaram uma reflexão sobre minha formação, como indivíduo que é parte integrante de uma sociedade e devo estar comprometida com ela Caracterização do problema O problema pesquisado partiu da observação de uma turma de educação infantil na qual constatei o individualismo, a segregação, a falta de consideração e solidariedade pelo outro e o não respeito à diferença. Não na turma como um todo, mas havia manifestações isoladas que mostravam dificuldades de socialização. Neste contexto, pensei na contação de histórias como instrumento de socialização. Neste sentido, os estudos apontaram que as histórias são transformadas de maneira que a criança consiga perceber seu objetivo, estando colocadas objetiva ou 1 Na Educação Infantil, Ler é manusear os livros, observando as imagens e figuras dos livros

14 14 subjetivamente, abordando temas que falam de sentimentos e acontecimentos presentes em situações cotidianas, as quais em algum momento são vivenciadas, alguns mais intensamente, outros nem tanto. Da mesma forma, as situações apresentadas pelas histórias infantis oportunizam a criança a identificar os acontecimentos, reconhecendo e comparando situações, sentimentos e atitudes fazendo relação com suas vivências, proporcionando uma compreensão de si próprio e do ambiente a sua volta. Neste contexto, o problema abordado neste trabalho está relacionado com a socialização na educação infantil e com as possíveis intervenções que podem ser feitas a respeito através da contação de histórias.

15 Questões, Hipótese e Objetivos da Pesquisa O tema deste trabalho de conclusão de curso é a contação de história e sua relação com a socialização da criança de 05 anos na educação infantil. Assim, considerando o contexto apresentado, foi estabelecida a seguinte questão de pesquisa: Qual a influência da contação de histórias na socialização de crianças de 05 anos na educação infantil? A partir dessa questão, identificam-se as seguintes questões específicas: A contação de histórias pode favorecer a mudança de atitudes de alunos de 05 anos em sala de aula? A contação de histórias facilita ao aluno falar de si mesmo? Neste sentido, a pretensão deste trabalho é verificar e refletir as práticas pedagógicas desenvolvidas durante o estágio docente supervisionado, tendo sido utilizados como recurso diferentes tipos de mídias para a contação de histórias associadas às atividades pedagógicas das diferentes áreas de conhecimentos, analisando qual a influência desta prática no desenvolvimento pessoal e social na criança de 05 anos frente às inúmeras situações vividas no cotidiano infantil. Nesse contexto, parte-se da hipótese que: A contação de histórias favorece a socialização, contribuindo para o desenvolvimento pessoal e social da criança na educação infantil. Portanto, este trabalho tem como objetivo geral verificar, analisar e refletir sobre a utilização da contação de histórias como instrumento de socialização, explorando a utilização desta prática e sua contribuição no desenvolvimento pessoal e social da criança na educação infantil.

16 16 específicos: Decorrentes desse objetivo geral propõem-se os seguintes objetivos Verificar se houve mudanças de atitudes em sala de aula dos alunos da turma analisada; dos alunos. Verificar se as práticas utilizadas promoveram a comunicação pessoal 2.4. Metodologia A metodologia utilizada neste trabalho de conclusão de curso é o Estudo de Caso, baseado em uma investigação qualitativa, realizada durante o período de estágio docente supervisionado tendo como foco a contação de história como instrumento socializador. Entre os métodos utilizados em pesquisas, Yin (2001) afirma que, o estudo de caso é uma inquirição empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro de um contexto da vida real, quando a fronteira entre o fenômeno e o contexto não é claramente evidente e onde múltiplas fontes de evidência são utilizadas. (YIN, 2001,pag. 35) O estudo de caso escolhido tem por objetivo analisar e compreender de que forma o uso da contação de histórias no contexto escolar, influenciam na formação pessoal e na socialização dos alunos da educação infantil. De acordo com Gil (1995, p. 58), são definidas quatro fases que estão relacionadas ao estudo de caso: Delimitação da unidade-caso; Coleta de dados; Seleção, análise e interpretação dos dados; Elaboração do relatório. A vantagem do estudo de caso possibilita ao investigador fazer estudos exploratórios de determinada unidade, neste caso numa turma de Pré-Escolar, em

17 17 razão de uma situação especifica, tentando identificar os resultados, mas limitandose as dificuldades de generalização desses resultados (Gil, 1995), uma vez que ele não pode interferir e induzir ao resultado desejado. As conclusões deste trabalho não podem ser generalizadas. O presente estudo de caso foi desenvolvido com a turma do Pré-II, constituída de 11 alunos, sendo seis meninas e cinco meninos, entre setembro e novembro de 2010, com crianças de 05 a 06 anos de idade na Escola Municipal de Educação Infantil Madre Teresa, localizada no bairro Centro, município de Terra de Areia-RS, sendo a maioria dos alunos desta turma de nível sócio-econômico médio-baixo. A escola, mais conhecida como creche Madre Teresa, foi fundada em 1974, tendo passado por várias dificuldades e mudanças de locais de suas instalações até meados de Atualmente, a E. M. E. I. Madre Teresa, tem 120 crianças matriculadas, distribuídas em dois turnos. O horário de funcionamento da escola é das 7 horas às 19 horas, de segunda a sexta-feira. O número de funcionários efetivos que fazem o atendimento na escola são 36 pessoas, entre profissionais nomeados, contratados emergencialmente e estagiários conveniados, distribuídos entre os cargos de direção, professores, atendentes, serventes/merendeiras, auxiliar de serviços gerais e estagiários. Ao desenvolver meu projeto de estágio, fiz uso de mídias como livros ilustrados de histórias infantis, revistas, jornais, utilizando como recurso audiovisual equipamentos eletro-eletrônicos como reprodutor de DVD e CD, aparelho de som e CD player, projetor multimídia e de informática como notebook. Visando explicitar quais foram os pressupostos que orientou este trabalho, o próximo capítulo apresenta a fundamentação teórica.

18 18 3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Este capítulo está dividido em duas partes: uma traz o referencial teórico a partir de autores que falam sobre socialização, tendo como instâncias de socialização primárias a família e a escola. A segunda parte deste capítulo faz um apanhado geral sobre a contação de histórias da literatura infantil, focalizando a importância de ler e contar histórias para criança na educação infantil, de acordo com os escritos dos autores sobre estes temas SOCIALIZAÇÃO O QUE É Segundo o dicionário do Pensamento Social do Século XX socialização é: Os processos pelos quais os seres humanos são induzidos a adotar os padrões de comportamento, normas, regras e valores do seu mundo social são denominados socialização. Começam na infância e prosseguem ao longo da vida. A socialização é um processo de aprendizagem que se apóia, em parte, no ensino explicito e, também em parte, na aprendizagem latente ou seja, na absorção inadvertida de formas consideradas evidentes de relacionamentos com os outros. (OUTHWAITE,1996, pag. 710) Partindo deste contexto, o processo de socialização, inicia-se desde o nascimento da criança, estando presente nas relações entre pais e filhos que suprem as necessidades da criança. Durante o crescimento, os pais transmitem a criança valores familiares, comportamentos e atitudes, costumes, crenças, entre outros princípios que julgarem corretos. [...] Depois da família, as principais agências socializantes nas sociedades ocidentais são: a escola e os grupos dos pares, o ingresso na vida econômica, a exposição aos veículos de comunicação de massa, o estabelecimento de uma família e o casamento, a participação na vida comunitária organizada e, finalmente, as condições de aposentadoria. (OUTHWAITE,1996, pag. 712)

19 19 Então, de acordo com o texto, pode-se dizer que a escola é uma das principais fontes de socialização para criança. A socialização é um processo interativo, necessário para o desenvolvimento, através do qual a criança satisfaz suas necessidades e assimila a cultura ao mesmo tempo que, reciprocamente, a sociedade se perpetua e desenvolve. Este processo inicia-se com o nascimento e, embora sujeito a mudanças, permanece ao longo de todo o ciclo vital. (BORSA, 2007, p. 1) Sendo a escola uma das fontes de socialização, nela a criança conhecerá e conviverá com outras crianças desenvolvendo relações de afetividade, conviverá com outros adultos que não seus familiares, adaptando-se as regras da escola, como horário de chegada, a formação da fila, ao uso de uniformes, enfim, o que pode ou o que não pode fazer dentro deste ambiente. A criança, como todo ser humano, é um sujeito social e histórico e faz parte de uma organização familiar que está inserida em uma sociedade, com uma determinada cultura, em um determinado momento histórico. É profundamente marcada pelo meio social em que se desenvolve, mas também o marca. (BRASIL, 1998, Vol. 1, p. 21). Normalmente, o tempo que a criança fica em casa até chegar o período escolar está habituado com as regras e o comportamento familiar. A escola será determinante para o desenvolvimento cognitivo e social infantil, [...] É na escola se constrói parte da identidade de ser e pertencer ao mundo, nela adquirem-se os modelos de aprendizagem, a aquisição de princípios éticos e morais que permeiam a sociedade [...] (BORSA, 2007, p.2) De acordo com a autora, na escola, a criança irá conviver e se adaptar a novos costumes, atitudes e irá construir um conjunto de princípios éticos e morais, como solidariedade, respeito e consideração pelo outro, bem como assumir responsabilidades consigo, com a escola e com a sociedade. [...] é preciso lembrar que criar cidadãos éticos é uma responsabilidade de toda a sociedade e suas instituições. A família, por exemplo, desempenha uma função muito importante até o fim da adolescência, enquanto tem algum poder sobre os filhos. A escola também, na medida em que apresenta experiências de convívio diferentes das que existem no ambiente familiar (LA TAILLE, 2008)

20 20 No ambiente escolar o comportamento revela-se nas mais diferentes ocasiões, ou seja, de acordo com Outhwaite (1996), um dos efeitos disso é a atitude de segregação entre as crianças, pois isolam uns aos outros, sendo necessárias orientação e instrução aos alunos na maneira de conviver uns com os outros, orientando e facilitando o caminho para o conhecimento, estabelecendo para isso, uma relação de amizade, de cooperação e respeito mútuos. Este trabalho pode ser facilitado através da postura do professor frente à classe: atitudes como estabelecer critérios de comportamento a ser seguido pela turma, conscientizar os alunos sobre a importância e a necessidade de conviverem uns com os outros e a respeitarem pontos de vista contrário. Os conteúdos e atividades propostas devem visar à construção do conhecimento e das potencialidades dos educandos, como a criatividade, a observação, a logicidade, a análise, a interpretação, a alteridade e a vontade de participação social, pela interação entre os indivíduos no desenvolvimento de sua formação pessoal e sua autonomia, para que o conhecimento se reflita em uma cidadania participativa Estádio do Desenvolvimento Cognitivo Segundo Piaget (2005), existe quatro estádios de desenvolvimento cognitivo: sensório-motor, pré-operatório, operatório-concreto e operatório formal, onde a ordem em que ocorrem esses estádios é constante. De acordo com o autor, a inteligência é o resultado de uma capacidade inerente ao ser humano de se adaptar a novas situações e realidades. Neste caso, darei um destaque especial na descrição do estágio préoperatório, pois o estudo de caso foi realizado com crianças de 05 e 06 anos desta fase as quais se direciona o presente trabalho.

21 21 Estádio Pré-Operatório 2 7 anos Devido à existência de representações simbólicas, este estádio marca o início do pensamento. A criança pode representar as ações e objetos através de símbolos. Não necessita de agir imediatamente. Ela exerce a função simbólica ao falar, ao brincar ao faz de conta, ao desenhar. Este estádio coincide com o começo da aquisição da linguagem, possibilitando na criança a realização de ações mentais, reconstruindo suas experiências passadas e conduzindo a socialização de suas ações (PIAGET, 2005). Nesta etapa abre-se um novo mundo para a criança em que os símbolos de que dispõe (palavras) se apresentam como substitutos dos objetos e das situações. Estes passam, portanto, a ser representados. Neste estádio, ao nível do pensamento, a criança é extremamente egocêntrica. Pensa que o mundo foi criado para ela. Ela ainda não é capaz de compreender o ponto de vista dos outros. A criança fica centrada no seu ponto de vista. Nesta fase, mesmo quando brinca em conjunto com outras crianças, verificase que cada uma fala para si sem se interessar pelas respostas dos outros (PIAGET, 2005). A percepção de consciência das ações é parcial nesta fase. A criança desta fase, por ser egocêntrica, seu comportamento e no relacionamento com outras crianças, ela se torna individualista. Esse individualismo leva a criança em seu dia a dia, a tomar atitudes pensando e agindo de forma inconsciente. Nesse estádio, a criança ainda não possui maturidade cognitiva para se colocar no lugar do outro. Desse individualismo, originam-se outras atitudes que podem ser observadas como a falta de solidariedade e consideração pelo outro, a segregação e o desrespeito as diferenças. Esse comportamento é resultado de sistemas de representação criados socialmente em diferentes instâncias, onde a criança acaba por reproduzir atitudes em suas relações entendendo-a como normal Onde acontece

22 22 Conforme destacado na seção 3.1, o processo de socialização ocorre através das relações que ocorrem em diferentes instâncias. A família é a primeira instância de socialização da criança. Desde o nascimento e durante o seu crescimento até chegar à vida adulta, na maioria das vezes, a criança mora com a família. A família é o alicerce do desenvolvimento do sujeito. Cabe a ela a incumbência de socialização dos seus filhos. É por meio desse relacionamento, que a criança congrega modelos de interações que irão guiar suas ações de convivência por toda a sua existência. Sua forma de afeto, de compartilhar, de se relacionar, seus valores, assim sendo, seu modo de agir como ser humano, será resultado da experiência relacional de seu intercâmbio familiar. (HANZE, 2011) Independente da composição familiar, a criança possui pessoas que são responsáveis e se preocupam com seu bem-estar e seu futuro, as quais cabem o dever de encaminhá-lo para a escola. Existem famílias compostas tradicionalmente, outras diferentes, que são formadas por pais separados, crianças que moram com avós, ou com tios, ou constituído somente por um dos pares, principalmente pela mulher, enfim, o que importa são os laços afetivos que unem essas famílias. Dentre muitos questionamentos que fazemos durante nossa existência, uma delas, que a maioria das pessoas já se fez é o porquê e para que ir para a escola. Algumas respostas são que se vai para a escola para aprender tudo o que é necessário. Respostas comuns, como é preciso aprender para ter um emprego bem remunerado e um futuro tranquilo sem muitas preocupações. Outras é que para ser alguém na vida é necessário o estudo, ou então, que existe uma lei que diz que os pais são obrigados a mandarem seus filhos para a escola, essa resposta, algumas vezes é utilizada. Na escola, a criança irá perceber as diferenças das relações e o comportamento das outras crianças com o seu próprio, bem como o dos professores e da comunidade escolar, irá conviver com outras pessoas além dos seus familiares e todos os tipos de situações durante sua permanência no ambiente escolar. Começando pelas diferenças de temperamento, de habilidades e de conhecimentos, até as diferenças de gênero, de etnia e de credo religioso, o

23 23 respeito a essa diversidade deve permear as relações cotidianas. (BRASIL, 1998, Vol. 2, pág. 41) Em sua permanência na escola, a criança irá perceber que algumas pessoas vivem, pensam e se comportam de forma diferente a que ela está acostumada e, principalmente ao encerrar esta fase, terá que se adequar a regras e valores ao qual o mundo dos adultos é regido. Neste contexto, o que diz a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e o Referencial Curricular Nacional da Educação Infantil sobre socialização? É o que veremos na próxima seção O QUE DIZEM A LDB E O RCNEI? De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996) estabeleceu-se que: Art. 1º - A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais. (BRASIL, 1996, pág. 7) [grifo meu] Na instância familiar, a criança inicia seu processo de socialização, apropriando-se das regras e valores que aí circulam. É com base nesse aprendizado que ela adquire os primeiros princípios que regulam a convivência humana. Esse processo tem continuidade na escola, por meio da educação formal: Art A educação básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores. (BRASIL, 1996, pág. 20) [grifo meu] Na escola, além do compromisso para com a construção do conhecimento, encontra-se a tarefa de contribuir para que os alunos se desenvolvam enquanto sujeitos capazes de trabalhar em grupos, de aceitar as idéias e opiniões do outro, pois o exercício da cidadania compreende, além do conhecimento científico, a capacidade do sujeito de conviver harmoniosamente em sociedade.

24 24 Esse objetivo está presente na escola desde os primeiros anos, na educação infantil, conforme podemos observar no Art. 29 da LDB: Art A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. (BRASIL, 1996, pág ) [grifo meu] O aluno, portanto, é concebido como um sujeito dotado de diferentes dimensões: física, psíquica, intelectual e social. Fica evidente, nos destaques feitos (grifos), que há uma junção entre as instâncias: família, escola e comunidade e que cada uma possui suas especificidades. A escola complementa as ações familiares, não as substituindo, na intenção de formar indivíduos conscientes de seus direitos e deveres, reconhecendo-se como parte integrante de um grupo inserido plenamente na sociedade. A instituição de educação infantil [...]. Cumpre um papel socializador, propiciando o desenvolvimento da identidade das crianças, por meio de aprendizagens diversificadas, realizadas em situações de interação. (BRASIL, 1998, Vol. I, pág. 23) [grifo meu] Na Educação Infantil, o desenvolvimento da socialização acontece de modo contínuo, estando presente em todos os momentos. Por isso, é importante que o professor esteja atento ao movimento da sala de aula e aproveitar as oportunidades disponíveis para propor atividades que favoreçam o desenvolvimento da socialização, buscando, assim, cumprir com seu papel socializador. Educar significa, portanto, propiciar situações de cuidados, brincadeiras e aprendizagens orientadas de forma integrada e que possam contribuir para o desenvolvimento das capacidades infantis de relação interpessoal, [...] respeito e confiança, e o acesso, pelas crianças, aos conhecimentos mais amplos da realidade social e cultural. (BRASIL, 1998, Vol. I, pág. 23) Nesse processo, as propostas de atividades precisam levar em conta os interesses e curiosidades do aluno. A ação dialógica é fundamental na construção das relações interpessoais, pois permite ao aluno falar de seus sentimentos, suas emoções e, ao fazer isso, ele também os reelabora, reformula, re-significa. [...] Cabe ao professor organizar situações para que as brincadeiras ocorram de maneira diversificada para propiciar às crianças a possibilidade

25 25 de escolherem os temas, papéis, objetos e companheiros com quem brincar ou os jogos de regras e de construção, e assim elaborarem de forma pessoal e independente suas emoções, sentimentos, conhecimentos e regras sociais. (BRASIL, 1998, Vol. I, pág. 29) [grifo meu] A escola, portanto, tem um papel fundamental na socialização das crianças na educação infantil. É preciso, no entanto, conhecer as características e a realidade do grupo de alunos levando em conta suas vivências e experiências - para intervir adequadamente, seja por meio do diálogo ou por meio de atividades ligadas a um planejamento conscientemente e consistentemente construído. Partindo dessa compreensão, apresento a seguir uma estratégia pedagógica que, acredito, contribui para o desenvolvimento da socialização. Trata-se da contação de histórias CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS Contar histórias, mas quais? De acordo com Zilberman (2003), a história da literatura infantil inicia-se no século XVIII, com o advento da Revolução Industrial, responsável por várias mudanças, alterando a estrutura social, entre elas, a das crianças. A partir das mudanças ocorridas, de acordo com Coelho (2000) a criança passa a ser vista não mais como um adulto em miniatura, mas um ser com necessidades e características distintas, e que deve receber uma educação especial para sua formação. Nas palavras de Regatieri (2008), durante muito tempo a escola foi moldada com o intuito de homogeneizar culturalmente uma nação, embora a literatura sirva também para a informação e a apreensão do conhecimento, sua função primordial é divertir e entreter com prazer. Além do prazer e do divertimento proporcionado pelas histórias, de acordo com Abramovich (2005), é importante para a formação da criança, ouvir muitas

26 26 histórias e escutá-las é o inicio da aprendizagem para ser um leitor, e um caminho de descoberta e compreensão do mundo. Para fazer essas descobertas e compreender o mundo, na fala de Zilberman (2003), a criança necessitará de um suporte fora de si que lhe sirva de auxiliar. Para a autora, este suporte é dado pela literatura infantil. No caso da educação infantil, então, quais histórias contar? Respaldado por Zilberman, apontamos as histórias presentes na literatura infantil, que podem ser lidas ou contadas. Ler para crianças é importante por que estimula o desenvolvimento intelectual, permitindo que resolvam de modo simbólico situações futuras ou passadas, pois criam para si um mundo que compensa as pressões vividas, sem limites da realidade. Ler histórias para crianças [...], poder ser um pouco cúmplice desse momento de humor, de brincadeira, de divertimento... É também suscitar o imaginário, é ter a curiosidade respondida em relação a tantas perguntas, é encontrar outras idéias para solucionar questões [...]. É uma possibilidade de descobrir um mundo imenso de conflitos, dos impasses, das soluções que todos vivemos e atravessamos [...], através dos problemas que vão sendo defrontados, enfrentados (ou não), resolvidos (ou não) pelas personagens de cada história (cada um a seu modo)... [...] e, assim esclarecer melhor as próprias dificuldades ou encontrar um caminho para a resolução delas... (ABRAMOVICH, 2005, pag. 17) seu mundo. É através da leitura, que a criança dará os primeiros passos para construir Se mergulhar neste universo é fascinante para nós, adultos, que esquecemos de nos inebriar com a magia, que dirá a criança, a qual constrói deliberadamente um mundo onde tudo é possível. Ao contar uma história para ela estaremos lhe oferecendo um alimento raro, pois iremos colaborar para que seu universo se amplie e seja mais rico. (BUSATTO, 2003, pag. 12) Segundo Coelho (2000), a literatura, e em especial a infantil, tem uma tarefa fundamental a cumprir nesta sociedade em transformação: a de servir como agente de formação, seja no espontâneo convívio leitor/livro, seja no diálogo leitor/texto estimulado pela escola Como contar histórias

27 27 Desde que nascemos e durante toda nossa vida, ouvimos histórias. Histórias contadas pelas mães, ao embalar o filho para dormir, um familiar que gostaria que alguém soubesse algo que aconteceu ou que poderia acontecer, enfim, é uma gama de informações, situações e acontecimentos que podem ser contados, sejam elas reais ou fantasiosas. Como já afirmou Regatieri (2008), a contação de histórias tem a função de divertir e entreter, no entanto, para Abramovich (2005), além dessas funções, a autora considera a contação de histórias importante para a formação da criança, é o inicio da aprendizagem para ser um leitor, e um caminho de descoberta e compreensão do mundo. De acordo com Abramovich (2005), é necessário saber contar histórias. [...] para a criança, não se pode fazer isso de qualquer jeito, pegando o primeiro volume que se vê na estante... E ai, no decorrer da leitura, demonstrar que não está familiarizado com uma ou outra palavra (ou com várias), empacar ao pronunciar o nome dum determinado personagem ou lugar, mostrar que não percebeu o jeito que o autor construiu suas frases e dando as pausas nos lugares errados, [...] Por isso, ler o livro antes, bem lido, sentir como nos pega, nos emociona ou nos irrita... Assim quando chegar o momento de narrar a história, que se passe e emoção verdadeira, aquela que vem lá de dentro, lá do fundinho, e que por isso, chega no ouvinte...(abramovich, 2005, pág ) Para se contar histórias, para que haja envolvimento de toda turma, pode-se além do livro, fazer uso do teatro, de sons. As histórias permitem as crianças, maior proximidade devido às situações de impasses que surgem durante os ensaios, escolha do personagem, onde se posicionar, enfim, a vontade de fazer bem feito no sentido que todos se divirtam, tenham satisfação com o realizado e também agradar quem assiste. Então cabe ao professor a tarefa de elaborar estratégias e técnicas, a escolha do material de acordo com a idade das crianças, o tom de voz, a postura, enfim, planejamento e conhecimento prévios para que atinja seus objetivos de forma a contribuir na formação destas crianças Por que contar histórias?

28 28 Estamos sempre em busca de algo. Queremos chegar a algum lugar, todos os dias somos bombardeados com novas informações e somos desafiados a ir à busca de mais. Assim acontece com as histórias. Contamos ou lemos em busca de saber algo. Utilizamos as histórias na tentativa de dar sentido a alguma coisa de maneira saudável. É importante que, primeiramente, se imagine tal coisa, se visualize, e deste imaginário, chegar às hipóteses e soluções possíveis, fazer comparações, perceber fatos. Como isso irá ocorrer? Esta questão merece atenção. Especialmente se estiver relacionado com a criança da educação infantil. Para isso, há que se levar em consideração os conhecimentos que a criança já possui ao desenvolver a construção de novos conhecimentos, sabendo quais os percursos que serão necessários para tanto (RCNEI). Ou seja, dar condições e elementos para que estas dificuldades, possam ser superadas e que a criança possa utilizar isso em beneficio próprio. Sendo assim, através da contação de histórias, o professor deve sempre instigar o aluno à reflexão, problematizar situações que façam a criança pensar, fazer descobertas e construir sua aprendizagem. O aprendizado desperta vários processos internos de desenvolvimento, que são capazes de operar somente quando a criança interage com pessoas em seu ambiente e quando em cooperação com seus companheiros. Uma vez internalizados, esses processos tornam-se parte das aquisições do desenvolvimento independente da criança (VYGOTSKY, 1999, p ) De acordo com a Vygotsky (1999), o processo do desenvolvimento não acontece concomitante com o processo da aprendizagem, deste espaço resulta a zona de desenvolvimento proximal, Ela é a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes. (...) A zona de desenvolvimento proximal define aquelas funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que amadurecerão, mas que estão presentemente em estado embrionário. Essas funções poderiam ser chamados de brotos ou flores do

29 29 desenvolvimento, ao invés de frutos do desenvolvimento. (VYGOTSKY, 1999, pág ) Na fala de Vygotsky (1999), a zona de desenvolvimento proximal é um divisor entre o desenvolvimento real, individual, já internalizado e o desenvolvimento potencial, o que está em processo de maturação, interpessoal. A criança ao ouvir histórias, se transporta a um mundo onde consegue resolver alguns de seus conflitos, decepções, soluções ou conquistas uma vez que consegue identificá-los comparando com a trajetória dos personagens com as suas próprias vivências. Dentre as várias respostas possíveis e cabíveis para a questão do por que contas histórias pode-se destacar, entre elas, o prazer que este ato proporciona para o contador e para o ouvinte, independente da idade. Além de proporcionar este deleite, a contação de histórias na educação infantil, pode ser vista como um instrumento facilitador para o desenvolvimento de inúmeros temas, situações, comportamentos e atitudes como já foi citado por Abramovich (2005). Assim, por meio das histórias e das reflexões que são feitas em torno delas o aluno reconstrói sua maneira de pensar, de ver a si mesmo e ao mundo e isso se reflete em suas atitudes. Aspectos como individualismo, segregação, desrespeito às diferenças e falta de solidariedade são atitudes presentes em diferentes grupos sociais. Na escola, esses comportamentos precisam ser discutidos, analisados a fim de que se possa ter um convívio mais harmonioso entre colegas e também como forma de ajudá-los a aprimorar sua capacidade de relação interpessoal. Para isto, a contação de histórias pode revelar-se uma estratégia de sucesso, pois, ao reunir ficção e realidade, abre espaço para o imaginário e, ao mesmo tempo, permite repensar o real. Dessa relação, mediada pela leitura, pelo diálogo, pela reflexão, o aluno reelabora suas certezas e, muitas vezes, modifica seu comportamento. Além do desenvolvimento da socialização, a contação de histórias pode contribuir para a construção do conhecimento e da aprendizagem. A aprendizagem se processa quando trocamos nosso conhecimento com alguém, através de estímulos recebidos a uma determinada situação e influenciado pela busca deste conhecimento seja ele causado por fatores internos ou externos ao seu cotidiano.

30 30 Para Vygotsky (1989) é pela interiorização de sistemas de signos 2, produzidos culturalmente, que se dá o desenvolvimento cognitivo. A contação de histórias proporciona a criança um entendimento do mundo, favorecendo seu desenvolvimento afetivo, cognitivo e social. Então, devemos contar histórias para as crianças na educação infantil, na intenção de promover nestas crianças, ideais e atitudes positivas que contemplem a formação de posturas e habilidades, colaborando significativamente para a sua formação pessoal, levando cada um a constituir um ser social. Nesse contexto, a próxima seção mostra os resultados obtidos referente à utilização da contação de histórias no desenvolvimento do ensino aprendizagem e sua contribuição no desenvolvimento pessoal e social da criança na educação infantil. 2 Signos é a relação que a criança faz para a construção da experiência externa que organiza o pensamento interno

31 31 4. RESULTADOS Este capítulo traz a análise dos resultados obtidos e aos diferentes aspectos de socialização observados durante as atividades de contação de histórias e delas derivadas durante o estágio docente. Durante o período de observação da turma de educação infantil, procurei fazer um planejamento utilizando como instrumento principal para as práticas pedagógicas a contação de histórias, levando em consideração os saberes adquiridos e a realidade dos alunos. O prazo para desenvolver o planejamento é previamente estabelecido, de modo que fiz uma seleção dos problemas apresentados pela turma, onde evidenciei características de dificuldade de socialização como o individualismo, a segregação, o desrespeito a diferença, a falta de solidariedade e consideração pelo outro. Diante dessas dificuldades destacadas, fica evidente a importância da socialização da criança na educação infantil perante os resultados obtidos. No planejamento das aulas e das atividades, para atingir os objetivos propostos me servi de cinco histórias como segue: A galinha Ruiva, O casamento da Dona Baratinha, Cinderela, Branca de Neve e os Sete Anões e Peter Pan. Por sugestão, empreguei uma técnica onde fiz uso de mídias como livros ilustrados de histórias infantis, revistas ou jornais, DVD s, CDs, arquivos de som. Cada história era utilizada durante duas semanas, variando as formas de apresentação. Em uma semana, por exemplo, utilizava o livro de histórias e na semana seguinte, a história era apresentada utilizando como recurso audiovisual equipamentos eletro-eletrônicos como reprodutor de DVD e CD, aparelho de som e CD player, projetor multimídia e de informática como notebook. Todos os dias após a contação das histórias eram realizados algumas atividades em que os alunos descreviam a história ou diversificando o planejamento, contávamos a história e os alunos representavam os personagens, sendo uma forma de contribuição para o desenvolvimento da oralidade e expressão corporal. Diante disso, faço referência a um dos objetivos gerais do projeto de estágio: vivenciar situações lúdicas que possibilitem a expressão do prazer, de conflito, de frustração, negociação e aprendizagem. Nesse objetivo, a contação da história da A Galinha Ruiva, foi de grande valia, pois as atitudes dos personagens, que não

32 32 valorizavam a amizade e também não tinham hábitos de solidariedade, influenciaram a mudança de comportamento dos alunos. O desenvolvimento das atividades realizadas baseadas na história A Galinha Ruiva, contribuíram para que os alunos praticassem atitudes de solidariedade entre os colegas (figura 1). Essa prática era realizada quando algum aluno estava ausente, pois na aula seguinte, os colegas informavam o que havia acontecido na aula anterior. Figura 1 - Contando a história para os colegas Estando reunidos, cada aluno contava uma parte da história que estava sendo utilizada na semana, conversaram entre si, questionando, pensando, avaliando e interferindo positivamente para que realizassem corretamente as atividades. Estes hábitos continuaram sendo praticados normalmente até o fim do estágio. Foram várias as mudanças ocorridas na turma em conseqüências das histórias contadas. As histórias contemplam uma série de atitudes, comportamentos, sentimentos presentes nas situações cotidianas. A história O casamento da Dona Baratinha, foi uma história marcante para os alunos e isso se evidencia nas constantes referências que eles faziam a essa história. Essa história motivou-os a observarem mais seu comportamento, nas mais simples atitudes da personagem: a barata compartilha fatos de sua vida com os amigos, valoriza a amizade, é solidária, respeita as diferenças e tem consideração pelos outros, tem decepções, tem conflitos e é necessário tomar decisões, entre tantas situações difíceis e que são possíveis a superação.

33 33 Na hora das brincadeiras, enquanto estavam no pátio brincando na casinha de plástico montado no pátio da escola, a história do Casamento da Dona Baratinha era a preferida (figura 2). Figura 2 Brincadeiras na casinha Os alunos imitavam os personagens da história, respeitando e aceitando qual o personagem que cada um queria representar (figura 3), caracterizando a interação, a amizade, a cooperação de forma lúdica. Figura 3 - Brincando na casinha O casamento da Dona Baratinha 4.1. A socialização da criança de 05 anos e a contação de história Antes do início das atividades diárias, de forma que pudéssemos nos conhecer, tanto eu como os alunos faziam relatos, onde eram descritos os acontecimentos da rotina diária. Esses relatos diários são importantes para a criança se sentir valorizada. O fato de ser questionada sobre sua rotina faz com que a

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