URBANIZAÇÃO BRASILEIRA: ALGUNS COMENTÁRIOS. Profa. Dra. Vera Lúcia Alves França

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1 URBANIZAÇÃO BRASILEIRA: ALGUNS COMENTÁRIOS Profa. Dra. Vera Lúcia Alves França A década de 1930 do século XX traz para a população brasileira um novo momento, quanto a sua distribuição. Até então, a população se concentrava no campo sendo que nas cidades predominavam as funções administrativas e comerciais, mas, havia uma intensidade de atividades no campo que contribuía para o predomínio de residência rural. A industrialização que se intensificou, a partir de então, teve como localização predominante as cidades, sobretudo no Estado de São Paulo que passou a atrair população. O êxodo rural se fortaleceu, sendo frequentes as levas de migrantes se deslocarem para as cidades. Várias outras razões também contribuíram para a saída do homem do campo para a cidade: a concentração da terra, a pecuarização, a modernização da agricultura liberadora de mão-deobra e, também, o Estatuto da Terra, promulgado em 1964, que trouxe para a cidade uma população que vivia nas propriedades e que foi liberada pelos proprietários de terra. Ao longo de quarenta anos a população brasileira passa a ter predomínio de população urbana, passando de 26,35%, em 1940 para 56,80% em 1970 e alcançando 84,36% em 2010 (Tabela 01). TABELA 01 POPULAÇÃO BRASILEIRA Anos População total População Urbana Índice de Urbanização , , , , , , , ,36 Fonte: IBGE, Censo Demográfico

2 Este crescimento crescente também ocorreu de forma concentrada, sobretudo nas capitais que ao longo dos anos receberam indústrias e investimentos em habitação, assim como também dinamizaram as suas atividades ligadas ao setor terciário da economia. Assim, algumas capitais, atualmente, formam grandes aglomerações urbanas abrangendo extensas áreas metropolitanas. A população que vive nos municípios das capitais estaduais forma um contingente de mais de 45 milhões de habitantes, o que corresponde a 28,25% da população urbana nacional (Tabela 02). Ao se considerar as áreas metropolitanas, em 13 dessas cidades este número se amplia significativamente, como no caso de São Paulo que atinge 20 milhões de habitantes. Ao lado das grandes cidades estão aquelas cidades médias que também apresentam dinamismo econômico e social significativo, sendo alvo de investimentos que atraem contingentes populacionais e acentuam o seu crescimento, proporcionando melhores condições de vida.

3 TABELA 02 BRASIL POPULAÇÃO DAS CAPITAIS 2010 Frutos da intensa concentração de renda e das desigualdades sociais, as cidades brasileiras apresentam problemas na sua estruturação e na ocupação do espaço, havendo significativa parte delas que se constitui em áreas de ocupação com assentamentos precários. Atualmente, uma das maiores carência da população brasileira é a moradia que passou a ser direito constitucional, a partir de CIDADES POPULAÇÃO 1 SÃO PAULO RIO DE JANEIRO SALVADOR BRASILIA FORTALEZA BELO HORIZONTE 7 MANAUS CURITIBA RECIFE PORTO ALEGRE BELEM GOIANIA SÃO LUIS MACEIO TERESINA NATAL CAMPO GRANDE JOÃO PESSOA ARACAJU CUIABA PORTO VELHO FLORIANOPOLIS MACAPA RIO BRANCO VITÓRIA BOA VISTA PALMAS TOTAL FONTE: IBGE, 2010

4 Além disso, a valorização das terras urbanas é outro problema que afeta grande parte da população que não dispõe de recursos para aquisição de imóvel. Assim essa população ocupa áreas inóspitas e áreas ambientalmente impróprias para a ocupação, a exemplo de margens de rios, mangues, encostas, entre outros. Nas grandes cidades proliferam grandes áreas ocupadas por uma população de baixa renda que acentua o déficit habitacional tanto em termos quantitativo quanto qualitativo. Participando do Estado brasileiro, Sergipe não fica de fora desse processo de crescimento urbano e também inverte a distribuição de sua população que em 1940 se concentrava no campo, com apenas 30,65% vivendo nas cidades enquanto, em 2010, essa participação se eleva para 73,51% (Tabela 03). Na última década a intensidade da urbanização foi mais lenta em decorrência dos programas voltados para a zona rural, especialmente aqueles ligados a terra. Tabela 03 SERGIPE POPULAÇÃO Anos Total Rural Urbana % da urbanização , , , , , , , ,51 Fonte: IBGE, Censo Demográfico Seguindo o modelo brasileiro, a população urbana sergipana também se distribui de forma irregular, com forte concentração na capital e sua área metropolitana, em 2010, corresponde a 40,41% da população total e 54,97% da população urbana estadual (Tabela 04 e Figura 01).

5 TABELA 04 GRANDE ARACAJU EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO Municípios Aracaju Barra dos Coqueiros Nossa Senhora do Socorro São Cristóvão Total SERGIPE % SOBRE SERGIPE 29,29 35,53 36,04 40,41 FONTE: IBGE, CENSO DEMOGRÁFICO Ao longo de trinta anos a Grande Aracaju apresentou um crescimento populacional de 146,63%, enquanto o Estado cresceu apenas 78,79%. Isto significa concentração acentuada de população nessa área. Por outro lado, em 2010, apenas sete cidades contam com população superior a habitantes: Itabaiana (67.709), Estância (54.760), Lagarto (48.867), Tobias Barreto (32.228) Propriá (24.390), Nossa Senhora da Glória (21.617), Laranjeiras (21.257) e Simão Dias (20.426).

6 SERGIPE POPULAÇÃO URBANA 2010 HABITANTES A A A A N W E S FONTE: IBGE, CENSO DEMOGRÁFICO, 2010 ELABORAÇÃO: VERA FRANÇA Nas cidades sergipanas também se constata uma situação de desigualdade, com acentuada concentração de renda e baixos níveis de escolaridade da população e problemas decorrentes do desemprego, da violência e também da carência de infraestrutura, especialmente o saneamento básico. Aracaju concentra as funções mais especializadas assim como a população de escolaridade mais alta e, conseqüentemente, de salários mais elevados, isto se reflete na presença de funções mais especializadas. Além disso, o sistema de rodovias radiais e as de boas condições

7 de acessibilidade facilitam os deslocamentos, contribuindo para o fortalecimento do comércio e dos serviços, esvaziando a possibilidade de desenvolvimento das cidades menores, cuja população migra para adquirir bens e serviços a capital. Assim, cada dia se acentua a primazia de Aracaju que amplia o seu raio de influência que extrapola os limites estaduais e alcança municípios limítrofes da Bahia e Alagoas, atingindo 93 municípios. Outro ponto que contribui para o fortalecimento das funções urbanas de Aracaju é a transferência de renda de outros municípios para a cidade, em decorrência da migração de profissionais mais qualificados, a exemplo de médicos, dentistas, enfermeiros, administradores, engenheiros, professores, entre outros residentes na capital, onde realizam o seu consumo. Nestes últimos setenta anos a dinâmica urbana sergipana tem sido muito intensa e a partir das questões econômicas, políticas e sociais tem havido intenso movimento na posição das maiores cidades. Ao longo de todo o período apenas Aracaju se mantém na primeira posição indicando a forte primazia que a cidade mantém no sistema urbano por ela comandado (Quadro 01). Estância mantém a segunda posição até 1980 sendo substituída por Nossa Senhora do Socorro que não participava do ranking, fruto de políticas públicas habitacionais e da inserção metropolitana. Em 2010, Estância ocupa a 5ª. Posição. Na terceira posição aparecia Propriá que se manteve até 1970, mas, motivada por crises econômicas foi substituída por Itabaiana, em 1980 e em Na quarta posição, no início do período, se destacava Neópolis, que deixa de integrar o conjunto em Em 2010, a quarta posição é alcançada por São Cristóvão também integrante da área metropolitana de Aracaju. Maruim ocupava a quinta posição em 1940, mas na década seguinte sai do ranking assim como Cedro de São João na nona posição.

8 ARACAJU 1. ARACAJU 1. ARACAJU 1. ARACAJU 1. ARACAJU 1. ARACAJU 1. ARACAJU 1. ARACAJU 2. ESTANCIA 2. ESTANCIA 2. ESTANCIA 2. ESTANCIA 2. ESTANCIA 2. NOSSA SENHORA DO SOCORRO 2. NOSSA SENHORA DO SOCORRO 2. NOSSA SENHORA DO SOCORRO 3. PROPRIA 3. PROPRIA 3. PROPRIA 3. PROPRIA 3. ITABAIANA 3. ESTÂNCIA 3. SÃO 3. ITABAIANA CRISTÓVÃO 4. NEÓPOLIS. 4. SÃO CRISTOVÃO 4. ITABAIANA 4. ITABAIANA 4. LAGARTO 4. SÃO CRSITÓVÃO 4. ITABAIANA 4. SÃO CRISTÓVÃO 5. MARUIM 5. NEÓPOLIS 5. SÃO 5. LAGARTO 5. PROPRIA 5. ITABAIANA 5. ESTANCIA 5. ESTANCIA CRISTÓVÃO 6. CAPELA 6. ITABAIANA 6. NEÓPOLIS 6. SÃO 6. TOBIAS 6. LAGARTO 6. LAGARTO 6. LAGARTO CRISTÓVÃO BARRETO 7. ITABAIANA 7. MARUIM 7. LAGARTO 7. NEÓPOLIS 7. SÃO CRISTÓVÃO 7. PROPRIA 7. TOBIAS BARRETO 7. TOBIAS BARRETO 8. SAO 8. CAPELA 8. CAPELA 8. CAPELA 8. CAPELA 8. TOBIAS 8. PROPRIÁ 8. PROPRIÁ CRISTÓVÃO BARRETO 9. CEDRO DE SÃO JOÃO 9. LAGARTO 9. SIMÃO DIAS 9. TOBIAS BRRETO 9. BOQUIM 9. LARANJEIRAS 9. LARANJEIRAS 9. LARANJEIRAS 10. LARANJEIRAS 10. SIMÃO DIAS Fonte: Diniz, 1987 e IBGE, Censo Demográfico Elaborado por Vera França. 10. MARUIM 10. SIMÃO DIAS 10. SIMÃO DIAS 10. CAPELA 10. NOSSA SENHORA DA GLORIA 10. NOSSA SENHORA DA GLORIA

9 Nas cidades sergipanas também se constata uma situação de desigualdade, com acentuada concentração de renda e baixos níveis de escolaridade da população. Aracaju concentra as funções mais especializadas assim como a população de escolaridade mais alta e, conseqüentemente, de salários mais elevados. Além disso, o sistema de rodovias radiais e as de boas condições de acessibilidade facilitam os deslocamentos, contribuindo para o fortalecimento do comércio e dos serviços, esvaziando a possibilidade de desenvolvimento das cidades menores, cuja população migra para adquirir bens e serviços a capital. Outro ponto que contribui para o fortalecimento das funções urbanas de Aracaju é a transferência de renda de outros municípios para a cidade, em decorrência da migração de profissionais mais qualificados, a exemplo de médicos, dentistas, enfermeiros, administradores, engenheiros, professores, entre outros residentes na capital, onde realizam o seu consumo. CONSIDERAÇÕES FINAIS A urbanização brasileira ocorreu de forma muito intensa num curto período da história do país, sem que houvesse um planejamento capaz de estruturar as cidades e dotá-las de infraestrutura capaz de oferecer condições dignas de vida á população. A forte especulação imobiliária imposta pelo capital reduz as possibilidades de acesso a terra e à moradia para um grande contingente da população de baixa renda que ocupa áreas inóspitas e vive em condições de precariedade. Embora a Constituição defina que na cidade a terra tem uma função social, torna-se necessário que a população através dos movimentos sociais urbanos lute para fazer valer o princípio constitucional que define que a moradia é um direito do cidadão. Para que isso ocorra é necessário um novo ordenamento em que a ocupação e o uso do solo sejam planejados e o ordenamento territorial contemple estratégias que atendam os diversos segmentos sociais, conforme define o Estatuto da Cidade. BIBLIOGRAFIA DINIZ. J, Alexandre Felizola. O Subsistema Urbano- Regional de Aracaju. Recife: SUDENE, FRANÇA, Vera Lucia A Aracaju, Estado e Metropolização. São Cristóvão: Editora da UFS, 1999.

10 FRANÇA, Vera Lucia A. e FALCON, M. L. de O. Aracaju: 150 Anos de Vida Urbana. Aracaju: PMA, IBGE. Censo Demográficos. Rio de Janeiro: IBGE. Acessado SANTOS, Milton. Urbanização Brasileira. São Paulo. HUCITEC SANTOS, Paulo. Formação de Cidades no Brasil Colônia, Ed. UFRJ, Rio de Janeiro, 2001.

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