Língua portuguesa: ultrapassar fronteiras, juntar culturas

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1 A INFLUÊNCIA DO INGLÊS NO PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO (EM PORTUGAL E EM MOÇAMBIQUE) Edyta JABLONKA 1 RESUMO O presente estudo tem como objectivo principal a análise da língua portuguesa contemporânea, nomeadamente, a influência do inglês no léxico português actual. Tomaremos em consideração não somente a norma europeia, mas também o português de Moçambique. Com o desenvolvimento muito rápido das novas tecnologias e da informática, com o processo da globalização fica relacionado o processo da integração acelerada dos anglicismos. Na nossa opinião, é preciso investigar em que medida o inglês influenciou o português actual. Moçambique é um país que depois da independência aceitou o português como a língua oficial, mesmo que tivessem aparecido outras possibilidades, como a introdução do inglês. Dos dados encontrados acerca do ensino superior em Moçambique resulta que grande parte das aulas é realizada em inglês. Um dos exemplos constitui a Universidade Católica em que existe o bilinguismo: as aulas realizam-se em português e em inglês. É sobretudo o caso dos cursos tais como gestão, informática e marketing. Os cursos de pós-graduação são realizados em inglês na integridade. O conhecimento desta língua é exigido por razões económicas e políticas. O léxico será analisado a base das páginas da Internet e da imprensa actual. Escolhemos estes meios de comunicação por serem os mais actuais, pois reflectem o estado da língua no momento dado, as mudanças sociais e culturais. Nas análises aproveitaremos as teorias sobre a adaptação dos estrangeirismos e sobre a sua integração no léxico português. Sem dúvida, o inglês tem sido ultimamente a língua estrangeira mais influente, por isso deviase observar quais são os resultados desta influência no português contemporâneo e quais são os novos vocábulos que vão aparecendo em português europeu e moçambicano. PALAVRAS-CHAVE: anglicismo; estrangeirismo; lexicologia; Portugal; Moçambique 1 Universidade Maria Curie Sklodowska, Departamento dos Estudos Portugueses, Instituto de Filologia Românica, Pl. M. Curie-Sklodowskiej 4 a, Lublin, Polónia, 39

2 Ao longo dos últimos anos tem-se falado muito do papel da língua inglesa e até da sua hegemonia. Na imprensa actual repara-se em várias vozes em defesa da língua portuguesa. Como exemplo, podemos citar o artigo "Perigosa" hegemonia do inglês junta hoje em Lisboa Lusofonia, Francofonia e Hispanofonia publicado a 21 de Abril de 2008, 2 que trata do encontro dos membros do grupo Três Espaços Linguísticos (3L), que pretendem coordenar acções de promoção linguística perante o perigo de hegemonia do inglês. Por isso, decidimos ver qual é a influência desta língua no português em Portugal e em Moçambique. O nosso objectivo principal é tentar responder à pergunta se realmente existem razões para se preocupar e tratar o inglês como uma ameaça para a língua portuguesa. Antes de passarmos às descrições mais detalhadas, merece a pena lembrar algumas teorias acerca dos estrangeirismos e da sua integração no léxico da língua receptora. É indiscutível que os estrangeirismos ampliam o léxico de cada língua, é um processo que dura desde que existem as línguas. Como diz Langacker (1972: 185), as línguas vivas nunca ficam estacionárias [...] Em uma sociedade altamente técnica e complexa como a nossa, há uma necessidade constante de novas unidades lexicais. Porém, há defensores das línguas modernas como Aldo Rebelo (2004), para quem o uso de estrangeirismos degrada o idioma nacional e que tentam lutar contra a introdução dos anglicismos. 3 Se se trata da situação em Portugal, nas revistas e na Internet encontrámos as vozes bem críticas quanto ao Estado, que, segundo os jornalistas ou representantes de diferentes organizações, devia defender melhor a 2 3 Cf. Rebelo, Aldo. Projecto de lei n Brasília

3 língua nacional. O português representa 1,39 por cento dos idiomas utilizados em sites e blogues, segundo o estudo das Línguas e Culturas na Web, e o inglês sempre é uma língua dominante. Este estudo analisou a presença do inglês, espanhol, francês, português, italiano, romeno e alemão na Internet e, pela primeira vez, o catalão, e foi o resultado de uma colaboração entre a Organização Intergovernamental União Latina e a Organização Não Governamental Funredes. 4 Segundo este estudo, a língua portuguesa, em 1998, contava 0,82 por cento das línguas mais utilizadas na Internet e ficava na sexta posição. Em 2007, continuava na mesma posição, portanto, com 1,39 por cento. A partir de 2003, a presença da língua portuguesa na Internet diminui constantemente, tal como a presença de outras línguas de origem latina o espanhol e o italiano. A língua inglesa pode ser considerada uma língua global e pertence à categoria de língua de comunicação mundial, é uma língua privilegiada. As pessoas em geral interessam-se pelo que vem dos Estados Unidos e por isso o inglês tem o acesso muito fácil a outras línguas. O grupo que prefere os anglicismos abundantes são com certeza os jovens. As palavras inglesas dominam também nas áreas tais como a economia, a informática, a ciência e a investigação, o jornalismo e a cultura. É conveniente que lembremos os conceitos de empréstimo e expliquemos o termo anglicismo. Podemos dizer que o anglicismo é uma palavra ou expressão proveniente da 4 Por: Redacção /JCS, , 41

4 língua inglesa, mas que é empregada em outras línguas. 5 É possível considerar o anglicismo como o fenómeno do empréstimo, que foi analisado por numerosos linguistas, entre os quais podemos destacar Haugen (1950), Guilbert (1975), Alves (1990, 1996), Lino (1990). Falando dos estrangeirismos, Alves (1990) explica que estas palavras passam por várias etapas até se integrarem à língua receptora e é possível falar da integração completa quando as palavras estrangeiras ficarem adaptadas na grafia, morfologia ou semântica. Pergnier (1989) distingue vários tipos de anglicismos: anglicismos ocasionais (que não são numerosos), anglicismos de uso frequente e habitual integrados no léxico da língua receptora, anglicismos que têm correspondentes na língua receptora e os decalques. 6 Os anglicismos importados para o português sofrem as adaptações fonéticas e ortográficas, integram-se também do ponto de vista semântico. A presença do inglês em vários aspectos é evidente, portanto, temos de reflectir se o seu uso não se tem tornado exagerado. A área típica para o uso do inglês é a linguagem relacionada com as novas tecnologias que se desenvolvem de maneira muito dinâmica. Os termos técnicos e da Internet em todas as línguas provêm da língua inglesa, o que prova que é mais fácil adaptar uma palavra estrangeira do que criar um termo correspondente. Por esta razão, para a primeira parte do nosso estudo escolhemos o artigo publicado numa revista 5 Almeida, Gladis de Barcellos, Os anglicismos e as linguagens de especialidade no português do Brasil, Universidade Federal de São Carlos, p. 2. (www.riterm.net/revista/n_2/barcellos_almeida.pdf) 6 Disponível em 42

5 portuguesa com o título significativo Eu surfo, tu digitas, eles... 7 O artigo trata das novas tecnologias e da posição dos portugueses célebres perante os novos fenómenos tecnológicos. A linguagem do artigo é muito específica e por isso decidimos analisá-lo. Em primeiro lugar, apresentaremos o vocabulário relacionado com os novos objectos. No artigo analisado, os portugueses famosos uma vocalista, os desportistas, os humoristas, uma modelo e uma escritora falam dos objectos técnicos que acompanham o seu dia-a-dia. Quase todas as pessoas mencionadas no texto falam do uso dos computadores, portanto, em geral é preferível a forma inglesa laptop à forma portuguesa computador portátil, ou simplesmente usa-se o nome da marca que substitui o nome do objecto, por isso no texto temos o meu Toshiba. A situação é bem parecida se se trata dos telemóveis porque normalmente foi usado o nome da marca, p.ex. o meu Nokia N95 ou o Nokia E95. Também o iphone se torna cada vez mais comum entre os portugueses famosos. Resumindo, podemos observar a influência das marcas mundialmente conhecidas, cujos nomes se tornaram tão populares que substituem o nome do objecto. Outros objectos relacionados com as novas tecnologias são o ipod Nano, um Blackberry, a Playstation, um LCD, a pen. Estas palavras adaptaram os artigos portugueses guardando a forma inglesa e parece-nos possível tratá-las como anglicismo ocasionais. São as palavras que entraram muito rapidamente no léxico português, mas, na nossa opinião, não são conhecidas por toda a população. As pessoas que não se interessam por novas tecnologias são 7 Revista Máxima, 43

6 capazes de ignorar o que é um ipod Nano ou um Blackberry. Encontrámos também uma expressão que podia provocar algum problema aos leitores que desconhecem a nova terminologia: ouvir música em modo shuffle. Uma pessoa que não costuma ouvir música no MP3 nem tem uma playlist (esta palavra também aparece no texto), é capaz de não perceber esta expressão. Vale a pena mencionar que alguns nomes técnicos podem causar algumas dificuldades também aos leitores não-portugueses. O artigo foi analisado nas aulas de português com duas turmas diferentes como o exemplo de um texto contemporâneo. A turma avançada de estudantes de filologia ibérica não teve dificuldades em compreender o texto, mas desconhecia o termo PDA Neo. A seguir, o artigo foi lido por uma turma composta de estudantes trabalhadores e que têm um conhecimento de inglês e de informática bastante avançado, mas também desconheciam o significado deste termo. 8 Na nossa opinião, o facto de colocar muitas palavras técnicas de proveniência inglesa até pode dificultar a leitura do texto e faz com que o artigo se torna mais monótono. Aqui apresenta-se uma questão: por que razão se usam os termos cujo significado podia ser difícil para o leitor? É antes uma moda e não uma necessidade. Ao ler este artigo nota-se a influência bem forte da língua inglesa. Esta situação é visível também no Brasil, por isso podemos citar Alves (1988) que diz: Qualquer estrangeiro recém-chegado ao Brasil, por exemplo, perceberia claramente nossa condição de colónia cultural dos Estados Unidos. Reparemos que uma situação muito parecida existe na Polónia, onde se nota o emprego excessivo de anglicismos desde há vinte anos. 8 Após a pesquisa na net verificámos que era um tipo de computador, tipo palmtop. 44

7 Na imprensa portuguesa podemos encontrar vozes bem críticas quanto à política do estado português em relação à língua, como p.ex. as palavras de Alcindo Augusto Costa, Presidente do Elos Internacional: E quanto a defesa da cultura e da língua portuguesa nos países da denominada Comunidade de Povos de Língua Portuguesa, especialmente nos africanos, as tarefas que o Estado Português vem desempenhando, são praticamente nulas e ineficazes, sendo de todos conhecida a aceitação que têm as línguas, francesa em Angola e na Guiné e a inglesa em Moçambique, em manifesto detrimento e marginalização da nossa língua e da nossa cultura. 9 A situação em Moçambique parece-nos um pouco diferente. O inglês não vai substituir o português em Portugal ou no Brasil, portanto, a questão linguística em Moçambique apresenta-se da maneira bastante distinta. Moçambique está sempre em contacto com a língua inglesa, através das fronteiras (África do Sul, Swazilândia, Zimbabwe, Tanzânia). Por isso, decidimos ver qual é a situação linguística e a posição do português neste país. A questão linguística é muito importante para os moçambicanos. Desde que foram abertas as minas de Transvaal, as relações entre o Moçambique e a África do Sul tornaram-se prioritárias, o que também se reflectiu na língua 10 os trabalhadores contratados em Moçambique tinham de comunicar em inglês. Os migrantes levaram a língua inglesa para as 9 O ELOS é uma entidade que visa difundir e defender a Língua Portuguesa e promover a integração dos países que a falam. Defendendo artes e cutura, divulgam e incentivam poetas, músicos, pintores, escultores, escritores, cineastas, folcloristas e teatrólogos portugueses (www.elosinternacional.com.br). 10 Bouene, Felizardo, Santos, Maciel, O Modus Vivendi entre Moçambique e o Transvaal ( ). Um caso de imperialismo ferroviário. Disponível em formato electrónico (www.ler.letras.up.pt/site/default.aspx?qry=id04id1183id2216&sum=sim) 45

8 suas terras. 11 Devemos ter em conta também a política linguística da FRELIMO desde 1962 até A Frente de Libertaçăo de Moçambique, com a excepção de poucos combatentes que tinham um contacto intensivo com a língua inglesa nos países vizinhos, defendia desde o princípio, o português como laço unificador - língua da unidade nacional - para não fazer surgir uma mentalidade tribal. 12 Com a independência política de Moçambique, o objectivo pretendido pela FRELIMO, era a redução do número de analfabetos. Portanto, como a maioria da população vive no campo e a rede escolar não é ainda bem desenvolvida, número de analfabetos entre os adultos é especialmente grande. Segundo a pesquisas de Fátima Helena Azevedo de Oliveira (UFRJ), em Moçambique, de acordo com os dados do Recenseamento Geral da População (1997), as línguas maternas da maior parte da população pertencem à família do grupo banto, sendo praticamente inexistentes os locutores nativos de português. Este é, assim, tipicamente uma língua segunda e constitui a língua primeira apenas para 1,2% dos cerca de 25% de falantes que, segundo a mesma fonte, conhecem o Português Andrade, Manuel Correia de Oliveira, As raízes do separatismo no Brasil, p.29, disponível em +Oliveira,+As+raízes+do+separatismo+no+Brasil&source=bl&ots=J6O9YVKq5w&sig=aQ1JKiHNtlYuM7apYdGLau Lf2XU&hl=ptPT&ei=4ZjySqrjMMuksAaFm8HgAQ&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=7&ved=0CBkQ6AE wbg#v=onepage&q=&f=false Oliveira, Fátima Helena de Azevedo, A terminologia e a fixação da língua portuguesa em Moçambique. Disponível em 46

9 Se se trata do estado actual, no livro Cultura acústica e letramento em Moçambique da autoria de José de Sousa Miguel Lopes podemos ler que os estrangeiros no território moçambicano exigem a documentação tal como relatórios, inquéritos ou informes sempre em inglês. 14 O autor diz também que, segundo José Craveirinha, no Parlamento moçambicano chegou a ser apresentada uma proposta no sentido de que, nas províncias que têm fronteiras com países de língua inglesa, o português fosse substituído pelo inglês. 15 A proposta não foi aceite, mas parece inquietante o facto de esta proposta ter aparecido. Ao contrário, Mia Couto considera a situação não perigosa por o português ser a língua materna para muitos moçambicanos. Para darmos um exemplo, vejamos o caso do blog do sociólogo Carlos Serra da Universidade Eduardo Mondlane em Maputo 16, onde ele faz a pergunta sobre o futuro do país e uma das primeiras questões abordadas por ele é a questão da língua. É interessante o facto de esta pergunta ter suscitado mais interesse e mais emoções do que os assuntos económicos ou culturais mencionados pelo sociólogo, que pergunta: Como será o nosso país daqui a 30 anos? - A língua portuguesa será residual, penumbrada pela língua inglesa, tornada esta língua veicular por excelência nos meios urbanos. A língua portuguesa será especialmente uma 14 Disponível em 15 Ibid. 16 O blogue de Carlos Serra ganhou o prémio do melhor weblog em português (559 concorrentes) em 2007 e em 2008 como um dos 11 melhores (400 concorrentes). Obteve o terceiro lugar em 2007 e o segundo em 2008 na votação do público. 47

10 língua douta, falada em círculos alfarrábicos, amparada por mestiçagens linguísticas docemente malandras em zona savaneira. A proposta de Carlos Serra provocou vários comentários e reacções dos internautas moçambicanos. Uma das primeiras respostas foi: Será que Moçambique precisa da língua portuguesa para avançar? Eis a questão que parece de grande importância. Moçambique, depois de se ter tornado independente aceitou o português como língua oficial, mesmo que houvesse também a possibilidade de escolher o inglês. Portanto, actualmente, por razões económicas, o papel do inglês torna-se cada vez mais importante. Repara-se que nas universidades e nas escolas superiores a metade das aulas é realizada em inglês, sobretudo nos cursos tais como a informática ou a economia. Algumas escolas superiores propõem os cursos de licenciatura e de pós-graduação apenas em inglês. Apresentemos alguns exemplos destes cursos. A Universidade São Tomás de Moçambique (USTM), de 1 a 18 de Abril de 2009, abriu as pré-inscrições para os cursos ministrados em Língua Inglesa: Filosofia, Direito, Gestão, Contabilidade e Auditoria, Tecnologias e Sistemas de Informação, Economia Agrária, Desenvolvimento Rural, Extensão Rural e Sociologia. Na página oficial da Universidade podemos ler a informação seguinte: A USTM, em paralelo com o programa em Português, pretende introduzir cursos em Língua Inglesa que honram o princípio bilingue da Universidade e em resposta a globalização, demanda nacional e regional. O sistema de educação bilingue da USTM vai oferecer oportunidade aos nacionais e residentes de Moçambique o acesso ao Mercado global. À semelhança do actual Curso de Preparação Universitária em Língua Portuguesa, vai oferecer 48

11 também um Curso de Preparação Universitária em Língua Inglesa que decorrerá de Agosto a Novembro do corrente ano. 17 A Universidade Católica de Moçambique oferece os seguintes cursos em português e inglês: Bacharelato em Administração Públicas, Licenciatura em Economia e Gestão Geral, Licenciatura em Administração, Mestrado em Economia e Gestão, Mestrado em Gestão e Administração de Empresa, Licenciatura em Planeamento Regional, Distrital e Urbano, Pós-graduação em Ciências e Sistemas de Informação Geográfica, Bacharelato em Ciências Agrárias, Bacharelato em Tecnologia de Informação, Licenciatura em Tecnologia de Informação. Alguns cursos são realizados na integridade em inglês, como: Mestrado em Planeamento e Desenvolvimento Regional com Enfoque nos Distritos, Bacharelato em Ciências Agrárias e Gestão Florestal, Licenciatura em Ciências Agrárias e Gestão Florestal, Mestrado em Gestão de Turismo, Mestrado em Ciências Agrárias Disponível em formato PDF na página 49

12 Podemos considerar que os estudos realizados em inglês e o conhecimento avançado desta língua permitem aos finalistas dos cursos encontrar emprego mais facilmente. No blogue de Carlos Serra aparecem as vozes em defesa do português tal como as vozes um pouco críticas: É com português que falamos aqui. Ou também: Nada tenho contra a língua portuguesa, pelo contrário, é a língua em que melhor me expresso. Mas sinceramente, tenho sérias dúvidas da sua utilidade prática, olhando para o contexto do nosso país! Depois da leitura das opiniões parece que o inglês se torna importante sobretudo por razões económicas: Carlos Serra diz que era bom saber que havia muitos pontos de vista sobre a questão da língua e propõe o inglês como a segunda língua em Moçambique para o país ficar mais próximo da África do Sul e desenvolver-se mais rapidamente. Outros participantes na discussão também apresentam as suas ideias quanto ao futuro da língua inglesa em Moçambique, e tratam a sua hegemonia como algo natural, sobretudo pela sua dominância na Internet. Dizem que são uma ilha de língua oficial portuguesa num mar de língua oficial inglesa. Assim, vemos a importância da política e da economia, os domínios onde o inglês desempenha um papel de grande importância. Muitos jovens moçambicanos estudam o inglês para obter bolsas ou encontrar emprego mais facilmente, também no estrangeiro. Nas páginas da Internet repara-se no bilinguismo, pois encontrámos vários textos que apresentam uma mistura de inglês e de português. Vejamos o exemplo da página que oferece o MBA em turismo (E-learning / ensino à distância). Logo vemos a informação que se propõe o Mestrado em Tourism Development, com o suporte académico: workshops, por telefone, fax, , Internet, assim como full 50

13 accreditation pela SAQA (South African Qualifications Authority). Parece-nos que mais uma vez podia ser o exemplo de emprego de anglicismos ocasionais (workshops, full accreditation). Como exemplo seguinte vejamos o plano encontrado na página da Universidade São Tomás de Moçambique, preparado em português, mas com a palavra inglesa repetida (hours). No quadro a palavra foi destacada por nós. Cursos Bacharelato (3 anos) Carga Horária em Sala de Aulas Profissionalização (Opcional) Licenciatura (4 anos) Filosofia 1605 hours hours 2085 hours Gestão 1788 hours hours Contabilidade e Auditoria 2160 hours hours Tecnologias e Sistemas de Informação 2016 hours 960 hours 2496 hours Plano Curricular 19 Nas páginas das Universidades encontramos muitas palavras em inglês, por exemplo na oferta para os estudantes aparece a expressão o teu job. Foi interessante também o exemplo seguinte: a frase Clique para baixar (download), onde o verbo português baixar

14 é explicado para as pessoas que conhecem melhor este termo em inglês, então, acompanhado pela palavra inglesa download. Esta frase prova que os termos ingleses são mais populares e mais usadas. Não nos esqueçamos que são informações destinadas para os futuros estudantes, os jovens, que se habituaram à terminologia inglesa no vocabulário relacionado com a informática. Podemos ver então que a língua portuguesa continua sendo uma das línguas mais faladas no mundo, portanto, não se pode ignorar a influência cada vez mais forte do inglês. No mundo contemporâneo, na época da Internet, dos blogues e dos chats, a comunicação é mais rápida e a adaptação das palavras inglesas resulta desta rapidez. Na nossa opinião, o uso dos anglicismos muitas vezes não é necessário. O seu número nas revistas e jornais podia ser mais reduzido. Não se pode evitar o acesso de estrangeirismos, pois enriquecem o léxico da língua receptora e contribuem para o desenvolvimento das línguas. No entanto, parece-nos imprescindível cuidar de todos os idiomas e não negligenciar o papel do inglês. A língua de Camões não desaparacerá, mas no caso de Moçambique, tem um concorrente forte a língua de Shakespeare. 52

15 Referências bibliográficas AGUALUSA, José Eduardo. A Língua Portuguesa e o seu futuro em África. Disponível em ALMEIDA, Gladis de Barcellos. Os anglicismos e as linguagens de especialidade no português do Brasil. Universidade Federal de São Carlos. Disponível em formato pdf (www.riterm.net/revista/n_2/barcellos_almeida.pdf) ALVES, Ieda Maria. Neologismo criação lexical. São Paulo: Ática, ALVES, Ieda Maria. Um projeto de política neológica para o português do Brasil. Revista Internacional de Língua Portuguesa, 15, 1996, p Disponível em ANDRADE, Manuel Correia de Oliveira. As raízes do separatismo no Brasil. Disponível em O9YVKq5w&sig=aQ1JKiHNtlYuM7apYdGLauLf2XU&hl=ptPT&ei=4ZjySqrjMMuksAaF m8hgaq&sa=x&oi=book_result&ct=result&resnum=7&ved=0cbkq6aewbg#v=onepage &q=&f=false BOUENE, Felizardo, SANTOS, Maciel. O Modus Vivendi entre Moçambique e o Transvaal ( ). Um caso de imperialismo ferroviário. Disponível em BRITO, Regina Helena Pires de, MARTINS, Moisés de Lemos. Moçambique e Timor-Leste: onde também se fala o português. Disponível em FIRMINO, Gregório. Processo de transformação do Português no contexto pós - colonial de Moçambique. Disponível em GUILBERT, Louis. La creativité lexicale. Paris: Librairie Larousse, HAUGEN, Einar. The analysis of linguistic borrowing. Language 26, 2, 1950, pp LANGACKER, Ronald W. A linguagem e a sua estrutura. Trad. Gilda Maria Corrêa de Azevedo. Petrópolis: Vozes, LOPES, José de Sousa Miguel. Cultura acústica e letramento em Moçambique. Disponível em NEVES, Maria Helena de Moura. A realidade da incorporação de anglicismos no português do Brasil vista no contexto das atuais contendas sobre o tema. Ilha do Desterro, Florianópolis, n 47, pp PERGNIER, Maurice. Les anglicismes. Paris: PUF, REBELO, Aldo. Projecto de lei n 1676, Brasília Páginas Web

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