Manifesto da Frente Independente pela Memória, Verdade e Justiça-MG. 7 de novembro de 2012

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1 Manifesto da Frente Independente pela Memória, Verdade e Justiça-MG 7 de novembro de 2012 Nós, da Frente Independente pela Verdade, Memória e Justiça-MG, viemos a público manifestar nossa concepção sobre uma efetiva busca da Verdade, Memória e Justiça na perspectiva daqueles que combateram e foram vítimas do terror de Estado perpetrado pela ditadura militar. Explicitamos também nossa posição crítica à concepção da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que fundamenta encaminhamentos que consideramos insatisfatórios, oportunistas e antidemocráticos. Abordaremos questões que constituem algumas das nossas exigências. Enquanto militantes e combatentes estamos convencidos que é a partir da explicitação do dissenso e da luta independente da classe trabalhadora e do movimento popular que faremos jus ao legado das companheiras e companheiros que combateram a ditadura militar e tombaram por ousar acreditar no sonho de uma sociedade igualitária, sem opressores e oprimidos. Esclarecemos que esta Frente Independente pela Verdade, Memória e Justiça-MG se formou a partir de atividades - manifestações, debates, intervenções, reuniões - realizadas com a participação de ex-presos políticos, familiares de mortos e desaparecidos, militantes, apoiadores, entidades e movimentos populares, sociais e políticos. O que nos une é o entendimento de que Verdade e Justiça são irredutíveis, e que verdade e reconciliação, ao contrário, são termos excludentes: repudiamos, portanto, esse binômio. Constatamos com indignação, que o Estado brasileiro continua a deter gigantesco arsenal para o exercício da violência, acumulado em processo histórico de longa duração e consolidado nos vinte e um anos de ditadura militar sangrenta. O aparelho repressivo tentacular, então montado, segue operando e tem sido aperfeiçoado nestes 27 anos de transição conservadora: o Estado Penal vigente é o sucedâneo do Estado de Segurança Nacional - implantado pela ditadura militar. É esse o terrível legado da ditadura que institucionalizou a tortura, transformando-a em política de Estado. Institucionalizou também a cultura do sigilo, a fabricação do esquecimento, a mentira organizada, a destruição

2 continuada do espaço público e a criminalização do dissenso. Tal legado continua em vigor, como mostram as seguintes evidências: a permanência da tortura e do aparato repressivo; a proibição do acesso aos arquivos da repressão; a não solução da questão dos mortos e desaparecidos políticos; a impunidade dos torturadores e assassinos de presos políticos e daqueles que cometem os mesmos crimes nos dias de hoje; a guerra generalizada contra os pobres; o genocídio institucionalizado contra pobres, negros e indígenas; a criminalização dos movimentos populares; a mais aberrante política de encarceramento em massa. Permanecendo no poder - legislativo, executivo, judiciário e na burocracia universitária - muitos daqueles que articularam o golpe e foram protagonistas da ditadura militar. Continuam em vigor as estruturas de dominação próprias de um Estado de exceção permanente, potencializadas pelo totalitarismo de mercado. Ainda não conquistamos o direito à verdade, à memória e à história, o que passa necessariamente, reiteramos, luta independente da classe trabalhadora e do movimento popular. Consideramos inaceitável a Comissão Nacional da Verdade que exclui a Justiça, cuja efetividade foi comprometida desde o Projeto de Lei 7.376, de 20 de maio de A Comissão da Verdade sem Justiça, instaurada pela lei , de 18 de novembro de 2011, expressa o caráter de classe exploradora do governo, de sua base aliada e do conjunto dos parlamentares. Trata-se de interdição do debate público e de fidelidade ao compromisso imposto pelas forças armadas e pela burguesia - empresários, banqueiros, latifundiários, todos sob o mando do imperialismo estadunidense - que articularam e sustentaram a ditadura militar: a sua essência é constituída pela manutenção da impunidade - ou melhor, da inimputabilidade - dos torturadores e assassinos de opositores e pela consolidação de uma cultura da conciliação. A tortura e a estratégia do esquecimento se mantêm, assim, como duas das instituições mais sólidas do país. A seguir, nossos questionamentos mais pontuais relativos à CNV e as nossas propostas de luta: A CNV tem passado ao largo daqueles que foram diretamente atingidos pela repressão - as audiências não são amplamente divulgadas. São

3 flagrantes hierarquização, institucionalização e elitização. Privilegiam-se os chamados especialistas - academia, instituições, corporações profissionais - em detrimento da abertura de interlocução com os familiares de mortos e desaparecidos políticos, os ex-presos políticos, a militância e os movimentos populares, que têm sido alijados do processo. Predominam na CNV, a cultura do sigilo, as reuniões fechadas, a falta de transparência e de clareza quanto aos critérios de escolha dos temas e da implementação dos trabalhos. Privilegia-se também, interlocução com as Forças Armadas, que constituem o mais evidente réu nesse processo. Não há, por parte da CNV, cobrança da abertura dos arquivos da repressão. Menos ainda iniciativas no sentido da convocação daqueles que já foram nomeados e responsabilizados por crimes de lesa humanidade a partir de luta realizada em mais de quatro décadas pelos familiares, e movimentos que lutaram contra a ditadura e mantiveram essa bandeira hasteada. Esse formato da CNV inviabiliza até mesmo o início da discussão de questões que consideramos candentes para as quais a Frente Independente pela Verdade, Memória e Justiça-MG envidará todos os seus esforços: Solução da questão dos mortos e desaparecidos políticos; Localização dos cemitérios clandestinos mineiros; Responsabilização e punição dos sobejamente conhecidos torturadores e assassinos dos opositores: no Projeto Brasil Nunca Mais, por exemplo, há uma lista de 444 nomes - não exaustiva - realizada a partir das denúncias em juízo, na esfera do Superior Tribunal Militar (STM), feitas pelos presos políticos; há também os documentos elaborados pelos presos políticos nos porões da ditadura, retirados clandestinamente e divulgados no Brasil e no mundo - esses se constituíram importantíssimos instrumentos de denúncia dos crimes da ditadura militar brasileira; Necessidade de acrescentar à lista dos mortos e desaparecidos políticos os nomes dos trabalhadores do campo e indígenas massacrados pelo latifúndio e o Estado neste período; aprofundamento da denúncia do papel da Policia Militar de Minas Gerais no monitoramento e repressão às comunidades indígenas; localização do Reformatório Krenak (Resplendor-MG) e da Fazenda

4 Guarani (Carmésia-MG), pertencente à PMMG, que se tornaram verdadeiros campos de concentração étnicos durante a ditadura militar; Retirada dos obstáculos interpostos ao acesso aos arquivos da repressão, todos eles - do Exército, Marinha, Aeronáutica, Polícia Federal, SNI, Itamarati, Assessorias Especiais de Segurança Interna/AESIs das instituições, 2º Setor da PMMG/P2; Superação das limitações e lacunas inaceitáveis quanto aos arquivos do DOPS, que já estão sob a guarda do Arquivo Público Mineiro; resgate do material que ainda não foi repassado ao Arquivo Público Mineiro; Transformação dos centros de tortura -com destaque para o antigo DOPS - em lugares de memória, na perspectiva daqueles que combateram e foram vítimas do terror de Estado; Mudança dos nomes dos logradouros públicos que homenageam ditadores, torturadores, assassinos, patrocinadores e colaboradores da ditadura militar; defendemos que estes espaços sejam rebatizados com os nomes daqueles que foram mortos nos porões da ditadura e daqueles que lutaram contra o terror de Estado; Problematização do questionável Memorial da Anistia, articulado na cúpula do poder executivo e da burocracia universitária. Reiteramos que temos como questão de princípio a responsabilização e punição de todos aqueles que cometeram crimes contra a humanidade. O Estado brasileiro foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, em 14 de dezembro de 2010, exatamente pela prática destes crimes, tendo sido considerado culpado pelo extermínio dos guerrilheiros do Araguaia. A Corte Interamericana dos Direitos Humanos determinou que os restos mortais destes companheiros sejam devolvidos às famílias e que os responsáveis sejam punidos, assim como todos que praticaram crimes semelhantes durante a ditadura. Determinou também que os arquivos da ditadura sejam abertos, que sejam removidos todos os obstáculos para a punição dos responsáveis pelas torturas, mortes e desaparecimentos e que a sociedade brasileira tenha, finalmente, acesso à sua própria história. Até agora, nada foi feito no que se refere ao cumprimento da sentença.

5 Sabemos que somente o combate da classe trabalhadora e do movimento popular terá condições de erradicar de vez estas iniquidades do Estado brasileiro. A única maneira de reverter esta situação de barbárie é o fortalecimento da nossa luta com independência aos governos e à institucionalidade, com radicalidade, unidade, democracia e horizontalidade. Pelo direito à Verdade, Memória e Justiça! Pela luta independente em relação aos governos e à institucionalidade! Abaixo a farsa da CNV! Todo apoio às iniciativas dos trabalhadores e movimento popular de construção de comissões independentes de memória, verdade e justiça! Pelo cumprimento da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos que condenou o Estado brasileiro a resolver a questão dos mortos e desaparecidos políticos! Pela abertura irrestrita dos arquivos da repressão! Pela punição dos torturadores e assassinos de opositores durante a ditadura militar! Pela erradicação da tortura e pelo desmantelamento do aparato repressivo! Abaixo a repressão no campo e na cidade! Abaixo as UPPs e invasões policiais e militares dos morros, universidades, ocupações e favelas! Abaixo o latifúndio! Terra para quem nela trabalha! Pelo fim do genocídio dos jovens, negros, indígenas e pobres! Pelo fim da criminalização dos pobres, dos movimentos populares e da luta política!

6 Ass.: Frente Independente pela Memória, Verdade, e Justiça-MG Conselho Regional de Serviço Social de Minas Gerais (CRESS-MG) Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania (IHG) Juventude às Ruas Liga Estratégia Revolucionária - Quarta Internacional (LER-QI-BH) Liga Operária Movimento Feminino Popular (MOVIMENTO FEMININO POPULAR) Partido Comunista Brasileiro (PCB) Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) Sindicato de Advogados do Estado de Minas Gerais Ex-presos políticos Familiares de mortos e desaparecidos políticos

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