A Integração na Ásia-Pacífico: o Papel da ASEAN e os Objectivos da China

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1 Catarina Mendes Leal * 72 A Integração na Ásia-Pacífico: o Papel da ASEAN e os Objectivos da China Introdução NA DÉCADA DE 90 a globalização alterou a organização do sistema económico internacional: o comércio internacional impôs-se, verificou-se a liberalização gradual das trocas, as relações económicas internacionais passaram a ser disciplinadas pela OMC, as comunicações tornaram-se mais fáceis, mais rápidas e mais baratas, passou-se a viver na sociedade de informação, emergiram as empresas em rede, acelerou-se a liberdade de circulação, os transportes conheceram um rápido desenvolvimento. Consequentemente, assistiu-se e assiste-se à perda progressiva dos poderes dos Estados, ao aumento dos poderes supranacionais e ao aumento dos poderes das organizações regionais e locais. Neste contexto, verifica-se uma alteração das relações de força local, regional, nacional e internacional. Surgiram dois novos conceitos internacionais: o multilateralismo e o multiregionalismo, colocando-se a questão se estes dois movimentos serão (ou não) complementares. Tomando como ponto de partida o movimento de integração regional actual, este artigo centra-se sobre esta nova dinâmica no continente asiático, focalizando-se no movimento de integração regional que se está a desenvolver na região Ásia-Pacífico, chamando a atenção para o movimento da ASEAN e para o papel fulcral que a China está a desempenhar nesta dinâmica. Assim, analisa-se a ASEAN e o seu projecto de constituição rumo a um mercado comum para o Sudeste Asiático (até 2020), bem como a actuação dos membros da ASEAN no estabelecimento de acordos comerciais bilaterais, destacando-se Singapura. Seguidamente, face à emergência da China como potência regional, examina-se a proposta da China para a constituição de uma zona de livre trocas com a ASEAN. 1. ASEAN: uma experiência de cooperação regional A ASEAN foi criada em 1967, em Banguecoque, por Estados aliados dos EUA, nomeadamente, pela Indonésia, pela Malásia, pelas Filipinas, por Singapura e pela Tailândia. O Burnei tornou-se membro * Auditora do Curso de Política Externa Nacional. Doutoranda na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.Trabalha no Departamento de Prospectiva e Planeamento onde desempenha funções ligadas a Estudos de Prospectiva, elaborando artigos sobre Geopolítica Internacional.

2 em Com o final da Guerra Fria, a ASEAN alargou-se aos países socialistas em transição:vietname (1995), Laos (1997) e Camboja (1999), e ao regime totalitário da Birmânia (1997). Trata-se de uma associação sub-regional de pequenos e médios Estados, os quais assinaram um Pacto de não-interferência entre regimes autoritários. Paralelamente, a ASEAN tem 10 parceiros de diálogo, nomeadamente: Austrália, Canadá, China, União Europeia, Índia, Japão, Rússia, Nova Zelândia, Coreia do Sul e EUA. Os objectivos da organização visam, por um lado, acelerar o crescimento económico e o desenvolvimento social na região através de esforços conjuntos e de programas de cooperação e, por outro, visa a promoção da paz regional e a estabilidade através do respeito pela justiça, pela lei e servindo de fórum para resoluções intra-regionais. Em termos de cooperação política, os grandes objectivos são a paz e a estabilidade. Em 1994 foi criado o Fórum Regional da ASEAN (ARF), cuja finalidade é funcionar como um instrumento de diplomacia preventiva, de building-confidence e de resolução de conflitos. Este Fórum estabelece um diálogo multilateral de segurança regional, que junta mais dez países com presença ou interesses na Bacia do Pacífico 1. O grande objectivo da ASEAN é, sem dúvida, a integração económica. Em 1992, na Conferência de Singapura, foi adoptada uma zona de comércio livre (AFTA), o que representou uma tentativa de integração regional entre os membros da ASEAN, através da eliminação de tarifas aduaneiras entre os países do Sudeste Asiático, visando a integração das economias ASEAN, numa base de produção única e criando um mercado regional de 500 milhões de pessoas. Em 1995, foi adoptada a Agenda para a Grande Integração Económica, a qual estabeleceu redução de 15 para 10 anos da concretização final da AFTA. Em 1997, foi adoptada a Visão ASEAN 2020 que tem como objectivo o desenvolvimento de uma integração económica mais profunda dentro da região. No início do século XXI, a grande meta da ASEAN é a criação de um mercado comum do Sudeste Asiático até 2020, seguindo como paradigma a UE ASEAN + Parceiros de diálogo (Japão, Coreia do Sul,Austrália, Nova Zelândia, EUA, UE e Canadá) + Convidados (China, Rússia e Papuásia-Nova Guiné).

3 74 Através das relações externas, a ASEAN estabeleceu laços com os Estados da região Ásia-Pacifico. A cooperação com os países do Leste Asiático conduziu à aceleração do diálogo com a China, com o Japão e com a República da Coreia. Em Abril de 2003, a ASEAN e a UE propuseram a criação de um quadro regional designado Trans-Regional EU-ASEAN Trade Initiative (TREATI), com a finalidade de facilitar trocas comerciais nos campos de investimento e de assuntos reguladores entre a ASEAN e a UE. A UE aceitou que este quadro regional sirva de base, no futuro, para o estabelecimento de um acordo preferencial de trocas comerciais. Com os EUA, em Outubro de 2002, foi anunciada pelo Presidente dos EUA, George W. Bush, durante o encontro da APEC, a criação da Enterprise for ASEAN Initiative (EAI) e foi proposta a formulação de um Acordo-Quadro para o Comércio e o Investimento (TIFA), que será seguido por acordos bilaterais de comércio livre entre os Estados-membros da ASEAN interessados e os EUA. A estrutura da ASEAN encontra-se organizada da seguinte forma: uma Conferência anual entre os Chefes de Estado e de Governo dos Estados-membros; uma reunião ministerial anual; vários Comités de apoio; e, um Secretariado-Geral. Para terminar, a região ASEAN ocupa uma área de 4.5 km 2, onde são faladas 14 línguas oficiais e coexistem sete religiões. Em 2000, segundo os dados disponíveis pela própria organização, a população da ASEAN atingia os 497,56 milhões; o seu PIB era de US$ 737,48 biliões; e o total do seu comércio alcançava os US$ 720 biliões. Segundo o Banco mundial, a longo prazo, a perspectivas económicas são muito promissoras, esperando-se que a ASEAN venha a representar em 2030, entre 10 a 15% do PIB mundial. 2. A integração comercial da ASEAN como resposta à emergência da China. A posição de Singapura no seio da ASEAN O crescimento económico e político de que a China tem sido palco teve profundos impactos e implicações para o resto da Ásia.Todavia, afirmar que o crescimento chinês é realizado às custas do resto da Ásia é demasiado simplista. Se é verdade que a emergência da China cria ameaças, também é verdade que proporciona oportunidades para a área em análise. A região da Ásia tem respondido com um vigor crescente à emergência da China, quer a nível macro, quer micro. A nível macro, apesar da qualidade das respostas políticas variarem de país para país, têm sido largamente positivas. A nível micro, a reestruturação dos grupos (realizadas pelas empresas domésticas) tem ajudado a aumentar a competitividade numa certa extensão, apesar das empresas

4 asiáticas ainda terem pela frente um longo caminho a percorrer até atingirem a máxima eficiência. Sem dúvida, há que sublinhar que o resto da Ásia não se encontra numa atitude passiva em relação à recente emergência da China. De facto, o crescimento da China tem um impacto sobre a estrutura global e geopolítica regional. E o peso económico relativo da China na região vai aumentar. Este crescimento económico vai, naturalmente, potenciar um aumento nos gastos militares, o que faz com que a China tenha a possibilidade de se tornar muito mais poderosa relativamente ao Japão e aos outros países asiáticos. As ambições políticas e de segurança dominam as económicas, sendo a económica um meio para objectivos estratégicos mais amplos. No entanto, não é provável que a China provoque uma crise de segurança na Ásia. A emergência deste grande país como superpotência económica vai criar uma nova balança geostratégica no mundo: a divisão do trabalho no Continente vai ser alterada; as importações chinesas da Ásia estão a aumentar em alguns casos fortemente; as chegadas de turistas para o resto da Ásia também estão a crescer 2.A China está também a surgir como o maior investidor em outras partes da Ásia e a ser objecto de alterações estruturais, o que funcionará de maneira positiva no crescimento da procura chinesa por bens e serviços de outros países asiáticos. Neste quadro de desenvolvimento, os membros da ASEAN receiam que o facto de a China se ter tornado membro Organização Mundial de Comércio, possa prejudicar as suas economias.a China tornar-se-á mais atractiva para os investidores, podendo diluir a efectividade da AFTA (da ASEAN). É neste enquadramento que se pode compreender os passos que a ASEAN tem dado no sentido de tornar a região mais atractiva para o investimento e para o comércio. Na abertura do Encontro em Bali, realizado em Outubro de 2003, os líderes das nações da ASEAN acordaram em estabelecer uma comunidade económica da ASEAN. O projecto é criar até 2020 um mercado comum para o Sudeste Asiático (com liberdade de circulação de bens, de serviços, de investimentos e de capitais) que englobará 530 milhões de consumidores. Alguns sectores poderão ter uma aceleração mais rápida, até 2010, o que significará uma gigantesca área de livre comércio, seguindo o modelo da União Europeia As taxas de crescimento mais fortes são as da Malásia.

5 76 O então Primeiro-Ministro de Singapura, Goh Chok Tong, e o Primeiro- Ministro da Tailândia,Thaksin Shina Watra, defenderam que a formação do mercado comum do Sudeste Asiático é urgente para que a região possa negociar com a China numa posição de força. No entanto, Singapura e Tailândia não conseguiram persuadir os outros países a aceitarem antecipar a data de 2020, prevista para o fim da realização do mercado comum. Para além do que, parece improvável alcançar a integração completa de qualquer sector até Neste contexto, os dois líderes manifestaram a intenção de implementar medidas de liberalização que, por um lado, não necessitem da aprovação de todos os membros da ASEAN e, por outro, convidar cada membro a ir assinando algumas dessas medidas ( 2+X ). Esta postura não é inovadora. Trata-se de uma prática já adoptada na UE, em que uns países avançam mais depressa do que outros no processo de integração em algumas áreas (como foi ocaso do Acordo Schengen). Esta junção Singapura-Tailândia corresponde à imagem asiática do eixo Franco-Alemão. Todavia, existem receios de que esta abordagem não resulte: a Tailândia e Singapura são as economias mais desenvolvidas da ASEAN. Actualmente, os países mais pobres da organização beneficiam de períodos mais alargados na AFTA, tendo mais dificuldades em aceitar uma integração mais acelerada. A Indonésia e as Filipinas têm uma liderança que favorece a adopção de medidas proteccionistas. Outro aspecto a ter em conta é o de que em ambos os países a corrupção e a burocracia são obstáculos à integração. Para países como o Camboja e o Laos a sua resistência ao ritmo de integração está ligada à ajuda que os países mais desenvolvidos lhes oferecerem. E, finalmente, para este projecto ir para a frente será, também, necessário proceder a uma reformulação da estrutura institucional da ASEAN. Ainda na Cimeira de Bali, os membros da ASEAN assinaram um pacto designado Bali Concord II, com o objectivo de viver conjuntamente em paz com o mundo, no seio de um quadro justo, democrático e harmonioso. Este pacto tem três pilares: uma comunidade económica, uma comunidade de segurança e uma comunidade sociocultural. Não obstante, a ASEAN confronta-se com alguns problemas. Existem no seio da comunidade diferentes níveis de desenvolvimento: países ricos (como a Singapura), países que estão em rápido crescimento (Malásia e Tailândia) e países muito pobres (Laos). Acresce que, em termos de regimes políticos existem grandes diferenças (desde regimes comunistas, a democracias nascentes e inclusive uma ditadura

6 militar). A verdade é que, se a ASEAN não se transformar, corre o risco de ser marginalizada na competição global. Para além do seu reforço interno, a ASEAN deseja reequilibrar politicamente a Ásia dotando-se de uma voz própria. Daí estar também a negociar acordos de comércio de livres trocas com a China, para o ano de 2010, a Índia para 2011, o Japão, para o ano de 2012, a Coreia do Sul para 2012 e a Austrália e a Nova-Zelândia para Ao mesmo tempo que esta organização asiática reforça a sua integração comercial, ela tenta ultrapassar obstáculos. Os acordos comerciais regionais têm-se desenvolvido de forma lenta devido à falta de vontade política em fazer os sacrifícios necessários de interesse nacional. Esta é uma das razões para a zona de comércio livre da ASEAN estar a demorar a arrancar. Por razões de soberania e históricas, as nações asiáticas estão desconfiadas da transformação da actual ASEAN num modelo de carácter supranacional do tipo UE. Concomitantemente, alguns países no seio da ASEAN estão a aperceber-se de que necessitam de cooperar mais para serem capazes de competir mais efectivamente. Por este motivo, a proliferação de esforços para conseguirem novos acordos comerciais não pode ser posta de lado. Muitos países estão a prosseguir acordos bilaterais de comércio livre com grandes economias. E dentro desta organização, Singapura lidera esta tendência. Desde finais dos anos 90, que Singapura tem vindo a desenvolver uma trajectória própria: concluiu 9 acordos bilaterais de comércio livre com a Nova Zelândia, a EFTA, o Japão, a Austrália, os EUA, Jordânia, Trans-Pacific SEP, Índia e Coreia do Sul, e encontra-se a negociar acordos bilaterais de comércio livre com o Canadá, México, Panamá, Sri-Lanka, Barém, Egipto, Peru, Kuweit, Qatar e Arábia Saudita. No âmbito da ASEAN está envolvida na criação da ASEAN Free Trade Area e encontra-se comprometida nos acordos comércio livre da ASEAN com as grandes economias regionais como a China, o Japão, Coreia, Austrália e Nova Zelândia e a Índia. Fora da região tem apoiado acordos de comércio livre e iniciativas de liberalização do comércio com os EUA e a UE. Esta teia de cruzamento de interesses económicos e estratégicos poderá contribuir para a estabilidade, prosperidade e segurança regional. Como resultado do sucesso de Singapura, outros países estão também agora a discutir o estabelecimento de zonas de comércio livre. A Tailândia e as Filipinas iniciaram negociações com o Japão sobre a criação de uma zona de comércio livre. Em suma, as nações da ASEAN tentam reforçar o seu poder na região actuando quer a nível interno, quer a nível externo. A nível interno, procuram aprofundar o seu processo de integração. A nível externo, estão a desenvolver uma série de 77

7 78 alianças com outros Estados da Ásia-Pacífico, esperando persuadir a Coreia do Sul e o Japão a seguirem a China em direcção a uma zona de livres trocas com a ASEAN. A Coreia do Sul e o Japão podem contrabalançar o aumento de influência chinês. 3. Proposta da China à ASEAN para a constituição de uma zona de livres trocas Actualmente, a China está a desenvolver uma postura mais sofisticada e reveladora de uma nova flexibilidade nas relações bilaterais, em organizações multilaterais e nos assuntos de segurança. Estas transformações reflectem o desejo de os líderes chineses terminarem o isolamento pós-tianamen, reconstruírem a sua imagem, protegerem e promoverem os seus interesses económicos, e aumentarem a sua segurança, o que demonstra também que tentam evitar a influência norte-americana sobre o mundo. Foi a partir dos anos 90 que Pequim começou a desenvolver os seus laços bilaterais. Entre , normalizou ou estabeleceu relações diplomáticas com 18 países, bem como com os Estados sucessores da União Soviética. Com base nestas novas relações, começou a estabelecer vários níveis de parceria para facilitar a coordenação económica e de segurança e para compensar o sistema de alianças regionais dos EUA. Os líderes chineses começaram a perceber que estas organizações poderiam auxiliar a China a promover os seus interesses comerciais e de segurança e a limitar o input Americano. É neste contexto que se tem verificado uma aproximação gradual da China à ASEAN. Durante a segunda metade dos anos 90, a China começou a celebrar compromissos com a ASEAN. Em 1997, Pequim impulsionou o desenvolvimento do Mecanismo ASEAN+3 uma série de encontros entre os 10 países da ASEAN com a China, a Coreia do Sul e o Japão. Posteriormente implementou-se o mecanismo ASEAN+1 traduzido em encontros anuais entre a ASEAN e a China. Pela primeira vez, a China emerge como actor no desenvolvimento da política económica regional, na defesa da criação de uma zona de livres trocas regional, que levaria à criação de um mercado de 1,7 biliões de pessoas, com um PIB nominal de $US 2 biliões. O interesse da China pela ASEAN tem por trás uma motivação política. Com efeito, em virtude das suas disputas territoriais históricas, o Império do Meio direcciona-se para uma zona de livres trocas com o objectivo de estabelecer um confidence-building político, para ambos os lados. Desta forma, a China começa a pôr em causa o papel do Japão como poder económico dominante na região.

8 Na primeira metade de 2003, o comércio bilateral entre a China e o Sudeste Asiático cresceu 55%. Para a China, a ASEAN é o seu quinto parceiro comercial depois dos EUA, do Japão, da UE, e de Hong Kong.A aproximação da China tem sido feita de forma subtil, utilizando a diplomacia económica para construir uma estrutura multilateral benigna na forma de acordo de livre comércio com a ASEAN. Uma zona de comércio livre entre a China e a ASEAN constituirá um grande passo no reforço do seu papel com novo líder da zona, superando a fraca situação económica do Japão, o que poderá levar o país nipónico a uma corajosa e astuta liberalização do comércio. Se um acordo de livre trocas com a China puder obrigar a ASEAN a avançar na liberalização das suas economias e a avançar para um espaço económico unificado, poderá tornar-se numa fonte de crescimento e de novo investimento em casa, em manufacturas e em recursos primários 3. Em Outubro de 2003, a China estipulou a assinatura de três documentos com o grupo ASEAN: um Tratado de Amizade, mediante o qual a China e os países da ASEAN se comprometem em manter um código de bom comportamento mútuo; um Acordo Early Harvest através do qual a China irá conceder a alguns países da ASEAN um tratamento favorável em alguns produtos, sobretudo agrícolas e uma Parceria Estratégica China- -ASEAN, visando o reforço de uma cooperação de segurança mais estreita, ao mesmo tempo que dilui a influência americana na região. Esta parceria foi feita em termos de não-alinhada, não-militar e não-exclusiva. Neste encontro, o Primeiro-Ministro Chinês, Wen Jiabao, sugeriu que em 2005 o comércio chinês com os 10 Estados da ASEAN poderia aproximar-se ou até ultrapassar o comércio entre os EUA e o Sudeste Asiático. Nas palavras de Wen Jiabao, uma zona de comércio livre China-ASEAN é um acordo win-win. 79 Aparências e Factos A proposta de zona de comércio livre China-ASEAN visa, do ponto de vista da China, proporcionar uma ajuda nas exportações para o mercado chinês dos vizinhos do Sudeste Asiático, oferecendo-lhes uma maior liberalização comercial do aquela que a China se comprometeu pelo acordo de adesão à OMC. A zona de comércio livre China-ASEAN poderá trazer benefícios ao nível do regime global de comércio, 3 Anderson da UBS, in Michael Vatikiotis e Murray Hiebert, How China is Building an Empire in Far Eastern Economic Review, (Hong Kong: Dow Jones & Company, 20 de Novembro de 2003), p. 31.

9 80 pois poderá acelerar as negociações comerciais globais. Esta proposta pode, por um lado, representar, segundo alguns analistas, um passo corajoso de Pequim para reduzir a confiança nos balbuciantes mercados norte-americanos e da UE, cultivando laços estreitos com os vizinhos cautelosos; mas pode, por outro, ser uma estratégia chinesa para amarrar os Estados vizinhos a uma dependência económica a qual, enquanto preserva a independência formal de cada nação, os liga a todos à China. Esta estratégia foi aplicada com sucesso a Hong Kong, nos anos 80; está agora a ser aplicada a Taiwan e no futuro poderá ir mais além. Na verdade, tudo parece apontar no sentido de que a China ganhará bastante com esta parceria.até ao momento, grandes montantes de investimento já voaram para a China em detrimento de outros países da ASEAN. O valor acrescentado em baixo custo da China para estes investimentos é elevado e irá continuar a sê-lo. Este acordo poderá significar uma séria ameaça económica da China para o Sudeste Asiático e originar a deslocalização de indústrias da Ásia para locais mais próximos do grande mercado chinês. Na realidade, a China está a tentar apanhar o Japão e a Coreia do Sul como um exportador de alta tecnologia, ao mesmo tempo que produz produtos de baixo custo. Em Taiwan as empresas estão a transferir rapidamente as suas produções de alta tecnologia e de produtos com baixa tecnologia para a mainland. A crescente aceitação do papel diplomático da China está relacionado com o facto de a decisão de Pequim participar no processo de desenvolvimento da ASEAN. Quaisquer avanços futuros nas relações da China com a ASEAN irão continuar confinadas a esta abordagem. Incluindo na matéria relativa à Coreia do Norte, Pequim está a trabalhar no âmbito de uma estrutura multilateral favorecida pelos EUA. Se a China continuar a trabalhar no âmbito de uma estrutura multilateral no Leste Asiático, poderá contribuir de forma significativa para um cenário de estabilidade na Ásia. O envolvimento da China em termos multilaterais no Sudeste Asiático é visto por Washington como bastante positivo, pois poderá ajudar a enredar a China numa estrutura de constrangimento regional. 4. O mais grandioso dos projectos chineses a comunidade da Ásia Oriental uma proposta de exclusão dos EUA da Ásia-Pacífico A China é um dos centros de crescimento da economia mundial e irá, provavelmente, tornar-se no epicentro da integração económica regional na Ásia Oriental. Graças ao controlo cambial, a China foi poupada aos efeitos directos da crise, tendo-se tornado desde o final dos anos 90 no epicentro das

10 tendências integradoras regionais. Este fenómeno mostra a perda de velocidade do Japão e o dinamismo da economia chinesa: o crescimento do PIB de 7,8% em 2002, para os 8%-9% em 2003, apesar da SRAS 4. Em 2002, a China tornou-se no primeiro país de recepção dos investimentos directos estrangeiros ($US 52,7 milhões). A China tem a intenção geopolítica de conquistar nas próximas décadas uma posição central na Ásia Oriental. Em 2001, as autoridades chinesas lançaram a ideia de estabelecer até 2010 zonas de comércio livre regional com o Sudeste e o Nordeste Asiático. Ao mesmo tempo que o comércio mundial está em baixa, as trocas comerciais e os investimentos entre a China e o resto da Ásia encontram-se em forte progressão. As exportações das nações do Sudeste Asiático (ASEAN) para a China aumentaram 55% no primeiro semestre de 2003, atingindo $US 20 mil milhões num total de $US 70 mil milhões. Na realidade, as trocas comerciais da região com a China aumentaram a um ritmo muito mais forte do que as trocas asiáticas com os EUA. No Japão, as importações chinesas ultrapassaram já as importações americanas, aumentando regularmente as exportações nipónicas para a China. Verifica-se a mesma tendência no que respeita às trocas bilaterais com a Coreia do Sul, a Tailândia, a Malásia e Singapura. Estes fenómenos reflectem as primeiras fases de construção de uma economia política regional chinesa. Para o Governo de Pequim esta perspectiva apresenta muitas vantagens reduzindo a dependência do país em relação ao mercado norte-americano e, por conseguinte, a sua vulnerabilidade às pressões e aos choques externos. As redes de interdependência estabelecidas com o resto da Ásia agirão como uma espécie de tampão entre a China e os EUA. Para a restante região asiática, as consequências deste desenvolvimento são mais ambíguas. O Japão, que é de longe o país mais avançado, disputa com Pequim o controlo da região, mesmo que as suas multinacionais invistam cada vez mais na China. Esta competição será benéfica para os países do Sudeste Asiático, que não têm vontade nenhuma de trocar uma dependência estratégica (norte-americana) por outra (chinesa). Além disso, tendo em conta o perfil produtivo dos países em desenvolvimento da região e a sua especialização em sectores de baixo valor acrescentado (electrónica, têxtil, etc.), a China representa para eles um desafio muito importante no plano da concorrência SRAS: Epidemia de Síndroma Respiratória Aguda Severa.

11 82 É provável que a China se venha a tornar num hub 5 com peso político suficiente. O crescente protagonismo chinês propondo o mais grandioso dos projectos chineses a Comunidade Oriental visa a exclusão dos EUA da Ásia-Pacífico, o que naturalmente preocupa Washington. Paradoxalmente, segundo alguns analistas, se a China é, presentemente e no futuro próximo, a maior ameaça para os EUA, é também o seu maior mercado. A China estabeleceu um road map que prevê um acordo de livre comércio para o Nordeste Asiático, incluindo o Japão e a Coreia, e uma área de livre comércio pan-regional no Leste Asiático. Segundo analistas chineses (que reflectem o pensamento oficial) está prevista, em cinco anos, a criação de uma comunidade económica e de segurança do Leste Asiático com instituições do tipo do Fundo Monetário da Ásia e uma Organização de Cooperação do Leste Asiático. A curto prazo isto significará pouco mais do que laços estreitos comerciais, no entanto, a longo prazo os laços económicos com a China (com uma economia de crescimento sustentado) poderão levar à recriação de uma espécie de centralidade estratégica de que a China já gozou aquando da era imperial, quando os Estados asiáticos pagavam um tributo a Pequim e reconheciam a sua preeminência favorável para os termos de comércio. Para os EUA, que reclamam um papel estratégico no Leste Asiático, a curto prazo o impacto na lista de acordos bilaterais comerciais e de defesa que tem com os Estados asiáticos Tailândia, Singapura e Japão dificilmente irão ser notados. Mas a longo prazo, uma vez que Washington fique menos preocupado com os acontecimentos no Médio Oriente e com a Guerra contra o Terrorismo, irá descobrir que a sua margem de manobra na Ásia se tem de tornar, do ponto de vista económico e político, mais realinhada com a China. De acordo com Sheng Lijun, um investigador chinês, a China deseja criar uma comunidade do Leste Asiático que dê a todos os Estados uma voz colectiva, o que tornará mais difícil para os EUA serem os primeiros entre iguais. 5 Tendo em conta a definição de Wonnacot ( Trade and Investment in a Hub-and-Spoke System versus a Free Trade Area, in The World Economy, vol. 19, n.º 3, Reino Unido: Blackwell Publishers Ltd., 1996, pp ), um hub existe quando um país é membro de dois ACR s distintos. Um hub pode ser um único país (por exemplo: EUA ou Singapura) ou um grupo de países (hub plurilateral, por exemplo: ASEAN). Um único país hub pode surgir de várias maneiras. Assim, hub pode ser um pais membro de um ACR preexistente e que forma um novo acordo bilateral com outro país exterior ao ACR de origem. Ou, um hub pode surgir quando um país negoceia, praticamente em simultâneo, acordos bilaterais com vários países (por exemplo, o Chile), ou quando um país se torna membro de dois ACR s multi-membros (por exemplo, os casos do México ou da Rússia).

12 Para James Steinberg, um analista de política externa do Instituto Brookings, a Administração Bush vê os passos da China na região como um jogo de soma-zero, isto é se o poder chinês é maior, o do EUA diminui. Se os Estados do Sudeste Asiático têm relações com a China, irão ajudar menos os EUA. Ao mesmo tempo que desenvolve uma operação de charme ofensiva, a China está a aprender como jogar o jogo internacional: participa activamente em fóruns e os seus líderes fazem discursos que já não apresentam um cariz ideológico rígido. A China está a construir laços comerciais e de investimento estreitos com países que estavam mais ligados ao Japão. Esta situação está a colocar o Japão nervoso pois não quer ser posto de lado. Os preços dos produtos chineses são metade dos japoneses, esta situação ameaça o comércio japonês. Para finalizar, a Ásia Oriental tem uma grande importância pois dispõe de um enorme potencial humano, de dimensão, de crescimento económico e de um bom posicionamento geográfico. A progressão da Ásia Oriental nas trocas comerciais é impressionante. Essa progressão foi apenas interrompida pela crise de O comércio no interior da zona asiática, dominado pelo Japão, representa quase 50% das trocas comerciais dos países desta zona. No entanto, mais do que uma modernização profunda, o regionalismo japonês engendrou uma industrialização superficial no Sudeste Asiático. Em virtude das grandes diferenças que separam os países desenvolvidos (Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura) dos países menos desenvolvidos (Malásia, Tailândia, Vietname, Indonésia, etc.), bem como por causa das rivalidades regionais, um sistema regional asiático coerente só será estabelecido daqui a muito tempo. Mas nem por isso as tendências a longo prazo deixam de ter esse rumo. A respeito de muitos aspectos, este fenómeno estrutural é comparável ao que levou os EUA a tornarem-se numa potência económica hegemónica, processo que a depressão da década de 1930 interrompeu, mas não fez parar. No Encontro em Bali da ASEAN (Outubro de 2003), segundo Ernest Bower, Presidente do US-ASEAN Business Council, está a ser construída uma Doutrina Monroe Chinesa na região. Da forma como os chineses se estão a juntar e a jogar ao nível mundial, esta região é a primeira de uma série de círculos concêntricos. No mesmo Encontro, o Presidente da Coreia do Sul, Sr. Roh Moo Hyun, afirmou que se unirmos forças, a Coreia e os membros da ASEAN e por extensão toda a Ásia Oriental, converter-se-á no motor do crescimento da economia mundial e o século XXI será o da era Oriental. 83

13 84 Conclusão No limiar do século XXI, a emergência de novos movimentos e de dinâmicas permite concluir que está em desenvolvimento, desde os anos 90, uma nova vaga de Acordos Comerciais Regionais (ACRs), à escala mundial. No contexto de um quadro de liberalização competitiva, coloca-se a questão de saber se regionalismo e multilateralismo serão compatíveis? Até ao momento, e desde que os acordos regionais sejam abertos em relação a terceiros, o regionalismo não parece estar a ameaçar o sistema multilateral de comércio, tanto mais que a formação de ACRs não tem abrandado a liberalização multilateral. Desde Outubro de 2003, dos 146 membros da OMC, com excepção da Mongólia, todos estão actualmente a participar ou a negociar activamente ACRs. São razões de ordem política, económica e de segurança que levam os países a optarem pela estratégia dos ACRs. Na área Ásia-Pacífico está-se a seguir este modelo em outras zonas. No momento actual, em que a China emerge como uma potência regional, cada vez mais forte, o seu crescimento tem um impacto sobre a estrutura global e geopolítica regional. A China tem a intenção geopolítica de conquistar nas próximas décadas uma posição central na Ásia Oriental, sendo provável que a China se venha a tornar num hub com peso político suficiente. Daí que, na ASEAN, já com uma larga experiência de cooperação regional, se verifique que os seus membros estão a desenvolver mecanismos de aprofundamento da sua integração económica, tendo como projecto a criação de um mercado comum para o Sudeste Asiático, até 2020.Tal projecto não é mais do que uma defesa em relação ao facto de a China se ter tornado num pólo de atracção crescente para os investidores, podendo diluir a efectividade da AFTA (da ASEAN). Porém, a falta de vontade política em fazer os sacrifícios necessários de interesse nacional leva a que os ACRs nesta área tenham tido um desenvolvimento lento. A integração mais próxima e o aumento de autoridade está a ser conduzida pela China, como foco da economia regional, em substituição do Japão e daí este último estar a tentar reagir com uma proposta de estabelecimento de uma zona de comércio livre com a ASEAN. Paralelamente, Pequim,Tóquio e Seul estão a cooperar num estudo sobre a possibilidade de formarem uma comunidade económica do Nordeste Asiático para rivalizar com a UE e a NAFTA. Se por um lado, a integração económica da Ásia se vai reforçando graças a uma aproximação de conjunturas favoráveis ao crescimento rápido das trocas comerciais intra-regionais e ao montante de investimentos efectuados, sobretudo pelo Japão,

14 pela Coreia do Sul e por Taiwan sendo que a multiplicação das independências é acompanhada das tensões exteriores, nomeadamente tendo em conta as relações comerciais entre os EUA e a UE, bem como as responsabilidades internacionais, cada vez maiores do Japão por outro lado, sob o plano estratégico ou diplomático nenhuma organização regional desta região é competente para tratar de crises, de aspectos ligados ao desarmamento ou de dar origem a uma organização política no futuro, envolvendo a área Ásia-Pacífico. Uma das grandes diferenças entre a Ásia e a Europa é a ausência de uma vontade política comum entre os grandes Estados da região, nomeadamente do Japão, da China e da Coreia do Sul. As organizações regionais desta área estão pouco desenvolvidas e as que existem privilegiam a dimensão do Pacífico sob a égide americana em relação à dimensão asiática que não tem liderança, consequentemente, a integração económica realiza-se a um nível mais informal do que institucional. Em conclusão, tendo em conta que o Sudeste Asiático representa actualmente metade do PNB mundial, 40% do comércio global, engloba a maior parte do crescimento mundial e detém um mercado de exportações avaliado num milhão de dólares, não é difícil de acreditar que no século XXI a Ásia, sobretudo o Extremo Oriente, desempenhará um papel fundamental. Com efeito se o crescimento que tem vindo a registar-se naquela zona se mantiver ao mesmo ritmo, dentro de uma década a Ásia terá uma classe média com um elevadíssimo poder de compra, ao mesmo tempo que é um potencial mercado para as produções mais desenvolvidas. No entanto, o crescimento económico em Estados como a Tailândia, a Coreia do Sul e Taiwan está desenvolver uma classe média poderosa que exigirá cada vez mais dos poderes autoritários, até agora em funções, podendo mergulhar a Ásia em tempos conturbados.ne 85 BIBLIOGRAFIA Atlas da Globalização, Lisboa: Campo da Comunicação, BAIER, Scott L. e BERGSTRAND, Jeffrey H., Do Free Trade Agreements Actually Increase Members International Trade, Working Paper , Working Paper Series, Atlanta: Federal Reserve Bank of Atlanta, Fevereiro 2005.

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