UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE CIÊNCIAS DEPARTAMENTO DE BIOLOGIA ANIMAL

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1 UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE CIÊNCIAS DEPARTAMENTO DE BIOLOGIA ANIMAL DADOS ECOLÓGICOS DE GORGÓNIAS (OCTOCORALLIA: ALCYONACEA) CONTRIBUTO PARA A CONSERVAÇÃO E GESTÃO DE ACTIVIDADES SUBAQUÁTICAS NO PARQUE MARINHO PROFESSOR LUIZ SALDANHA (PORTUGAL) Sandra Cláudia Matias Rodrigues MESTRADO EM ECOLOGIA E GESTÃO AMBIENTAL 2008

2 UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE CIÊNCIAS DEPARTAMENTO DE BIOLOGIA ANIMAL DADOS ECOLÓGICOS DE GORGÓNIAS (OCTOCORALLIA: ALCYONACEA) CONTRIBUTO PARA A CONSERVAÇÃO E GESTÃO DE ACTIVIDADES SUBAQUÁTICAS NO PARQUE MARINHO PROFESSOR LUIZ SALDANHA (PORTUGAL) Orientadores: Prof. Doutor Emanuel Gonçalves (UIEE-ISPA) Prof. Doutor Henrique Cabral (DBA-FCUL) Sandra Cláudia Matias Rodrigues MESTRADO EM ECOLOGIA E GESTÃO AMBIENTAL 2008

3 UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE CIÊNCIAS DEPARTAMENTO DE BIOLOGIA ANIMAL DADOS ECOLÓGICOS DE GORGÓNIAS (OCTOCORALLIA: ALCYONACEA) CONTRIBUTO PARA A CONSERVAÇÃO E GESTÃO DE ACTIVIDADES SUBAQUÁTICAS NO PARQUE MARINHO PROFESSOR LUIZ SALDANHA (PORTUGAL) Sandra Cláudia Matias Rodrigues MESTRADO EM ECOLOGIA E GESTÃO AMBIENTAL 2008

4 Resumo O Parque Marinho Professor Luiz Saldanha (PMLS) constitui a única Área de Protecção Marinha em Portugal com estatuto de Parque e com um Plano de Ordenamento implementado. Em termos ecológicos, representa um local de grande interesse por apresentar uma diversidade marinha invulgarmente elevada. No entanto, à medida que o interesse dos mergulhadores em explorar o mundo subaquático aumenta, os impactos desta actividade sobre os ecossistemas marinhos aumentam igualmente. As comunidades de gorgónias são consideradas como bons indicadores de degradação causada pelos mergulhadores, por serem organismos frágeis a estas actividades e pela sua falta de valor comercial. Adquirir dados de base sobre estas comunidades é muito valioso no sentido de que é possível determinar o impacto na comunidade bentónica, permitindo definir estratégias de preservação direccionadas a este tipo organismos. Neste sentido, o principal objectivo deste trabalho é a caracterização e avaliação da população de gorgónias do PMLS, contribuindo para a melhoria da gestão das actividades subaquáticas no Parque. Pretende-se fornecer aos gestores do Parque dados científicos sobre o actual estado da comunidade de gorgónias (com base na determinação de densidades, da estrutura populacional e da caracterização do estado ecológico), bem como determinar a eficácia das medidas actuais do Plano de Ordenamento, no que se refere à protecção destes organismos. Embora os dados não tenham sido satisfatórios relativamente à determinação da eficácia da AMP para a conservação das gorgónias, provavelmente devido ao curto espaço de tempo decorrido entre a implementação do Plano de Ordenamento e a realização deste estudo, constituem uma importante abordagem à comunidade de gorgónias e referência base do estado ecológico da população. Os dados revelam, no entanto, a existência de locais com populações de gorgónias bastante perturbadas e alertam para a necessidade de colocação de bóias de amarração dos operadores de mergulho nos locais com maior frequência de mergulhadores no sentido de diminuir o impacto desta actividade sobre estes organismos. Palavras-chave: Gorgónias; Octocorallia; Alcyonacea; estado ecológico; mergulho; Parque Marinho.

5 Abstract The Marine Protected Area Professor Luiz Saldanha (PMLS) consists of the only Portuguese MPA proclaimed as a Marine Park and with an operational management plan. In ecological terms, it represents an area of high interest because of its unusually high marine biodiversity. However, as the interest of divers in exploring the underwater world increases, so does their impact on sensitive marine organisms and communities. The gorgonian communities are considered as good indicators of benthic ecosystem s degradation caused by divers, because of their fragility to these activities and its lack of commercial value. Acquiring baseline scientific data of these communities is highly valuable, because it is possible to determine impacts on the benthic community, permitting to define conservation strategies directed at these organisms. Therefore, the main goal of this work is to characterize and evaluate the gorgonian population of the PMLS and contribute to the improvement of the Park s underwater activities management. The purpose is to supply the Park managers with scientific data about the actual condition of the gorgonian community (based on densities, population structure, and characterization of its ecological status), as well as to determine the efficiency of the actual measures of the Management Plan, in terms of gorgonian conservation. Although, the data collected did not provide satisfactory results in order to determine the efficiency of the MPA in terms of gorgonian conservation, they provide valuable baseline information on the populations ecological conditions. However, the data reveals diving spots with highly stressed gorgonian populations, thus alerting to the need for the implementation of anchoring buoys for diving operators in most dived spots in order to decrease the impacts of this activity. Key-words: Gorgonian; Octocorallia; Alcyonacea; ecological state; scuba diving, Marine Park.

6 Agradecimentos Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Centro Português de Actividades Subaquáticas (CPAS) e todos os seus membros por me acolherem na sua instituição e pelo apoio prestado. Agradeço em especial à Margarida Farrajota, Presidente do CPAS, e ao Carlos Ricardo. Agradeço também ao Jorge Forte-Faria por ter disponibilizado todo o material subaquático sempre que necessário; e ao Paulo Vilarinho, pela contribuição no meu progresso como mergulhadora. Agradeço particularmente à equipa do Departamento de Ecologia Marinha, especialmente à Cristina Lebre: excelente orientadora, amiga e profissional, sem a qual este projecto não teria o suporte financeiro de que necessitou. Agradeço igualmente ao coordenador do Departamento, Henrique Lebre, por me ter cativado em tornar-me voluntária do Departamento, por todos os conselhos dados e que por toda a sua dedicação ao Departamento, tornando-o num óptimo local de trabalho, que eu tive oportunidade de experimentar. Agradeço aos mergulhadores, membros voluntários do Departamento e igualmente amigos, pelo acompanhamento nas minhas imersões em busca de gorgónias: ao Luís Goes, pela constante boa disposição durante os mergulhos e paciência demonstrada nas suas explicações informáticas; ao Miguel Miranda, pela dedicação das suas fotografias subaquáticas às gorgónias (especialmente quando havia um outro animal bem mais interessante de fotografar ao lado); ao Edgar Ferreira, Eduardo Guerreiro, Filipe Caldeira e Jorge Leonel. Aos ex-colegas e amigos da equipa do ISPA: Gustavo Franco, Henrique Folhas e Bárbara Costa, agradeço a companhia nos mergulhos, a constante boa disposição e ajuda. Agradeço ao Vasco Ferreira, colega de trabalho e amigo, pelo crescente interesse nas gorgónias, pela contribuição fotográfica e pelo contribuindo com comentários relevantes, na revisão deste trabalho. Pelas contribuições fotográficas no meu trabalho, agradeço aos fotógrafos: João Pedro Silva, também pelo material fotográfico e toda a paciência nos conselhos e dicas fotográficas a quem de fotografia pouco percebia; ao Carlos Paz e Pedro Amaral que gentilmente forneceram as suas fotografias. Agradeço aos centros de mergulho que prontamente aderiram a este projecto: ao Anthia Diving Center (Jori), Arrábida sub (Tómanel) e Odisseia azul (Armando Esteves, Joana Raimundo e Miguel Carvalho) agradeço por terem facilitado a realização do projecto, contribuindo de certo modo com um apoio financeiro sob forma de aplicação de preços especiais durante o desenvolvimento do trabalho de campo; ao Bestdive (Carlos Cruz); e ao Deepdive (Tó Zé), também pelo empréstimo do seu inconfundível fato seco, preciosamente indispensável durante a campanha de amostragem nos dias frios de inverno.

7 Agradeço também a todos os mergulhadores com que tive contacto e que demonstraram interesse no meu projecto e que certamente irão olhar para as gorgónias de uma forma diferente. Agradeço ao Miguel Henriques (ICNB) por ter facultado bibliografia importante para a realização deste projecto e também pela atenção prestada para a obtenção das devidas licenças para a realização do projecto. Agradeço ao Doutor Álvaro Altuna Prados, especialista em gorgónias do Atlântico, pelo seu interesse no projecto, prontidão das suas respostas e importantes comentários e sugestões. Agradeço aos Professores Doutores Emanuel Gonçalves e Henrique Cabral e respectivas instituições pelo apoio académico e disponibilidade prestada sempre que necessário. Agradeço aos meus amigos: Ana Rita Vieira, Joana Capela, Tânia Rei, Filipe Vilas-Boas, Mariana Campos, Luís Pacheco, Tiago Guerra, Francisco Pina, Pedro Pereira, Carina Silva, por me desafiarem para os importantes momentos de descontracção que são as noitadas de fim-de-semana e por todos os incentivos e apoio que me deram. Agradeço a toda a minha família, especialmente aos meus pais, que apesar do seu olhar crítico, sempre me apoiaram e até contribuíram nalgumas saídas de mar; ao meu irmão mais novo pela sua boa disposição e paciência; ao meu irmão mais velho, que apesar de distante me forneceu críticas e pontos de vista interessantes; e aos meus tios, avós e primos, que embora nem soubessem o que eram gorgónias, sempre se preocuparam pelo decorrer deste mestrado e com o meu bem-estar. Agradeço aos pais e irmã do meu namorado pela sua preocupação e apoio constante, e também pelos contributos financeiros para os mergulhos do projecto. Agradeço, por fim, ao Vitório Fidalgo, namorado, melhor amigo e buddy inseparável de mergulho, pelas incontáveis horas dedicadas a este trabalho; pela prontidão em contornar os obstáculos que se foram impondo à realização deste projecto; por não se ter queixado (e ter aturar as minhas) de todos os fins-de-semana perdidos em trabalho, e por sempre ter acreditado no sucesso deste projecto mesmo nas alturas mais frustrantes

8 Ao Vitório Fidalgo, porque sem ele este trabalho teria sido impossível

9 Índice de conteúdos 1. Introdução Gorgónias Biologia e ecologia Classificação e sistemática Corais preciosos e importância histórica das gorgónias em Portugal Importância ecológica e conservação Áreas Marinhas Protegidas Parque Marinho Professor Luiz Saldanha Enquadramento legal Plano de Ordenamento do Parque Natural da Arrábida Objectivos Metodologia Zona de estudo Localização Descrição da zona Amostragem e tratamento de dados Caracterização do turismo subaquático Caracterização das populações de gorgónias Eficácia da AMP para a protecção das gorgónias Resultados Caracterização do turismo subaquático Caracterização das populações Espécies Distribuição Densidades Estrutura populacional Cobertura por epibiontes Relações entre espécies e a profundidade, altura máxima e profundidade, e influência do tipo de exposição da colónia Eficácia da AMP para a protecção das gorgónias Discussão Caracterização do turismo subaquático Caracterização das populações Espécies i

10 Distribuição Densidades Estrutura populacional Cobertura por epibiontes Relações entre espécies e a profundidade, altura máxima e profundidade, e influência do tipo de exposição da colónia Eficácia da AMP para a protecção das gorgónias Considerações finais Bibliografia Anexos Anexo 1. Descrição dos locais de amostragem... A1 Anexo 2. Tabelas e gráficos acessórios... A10 Índice de Figuras Fig. 1. Representação esquematizada de um pólipo autozoóides e sifonozoóides Fig. 2. Microfotografias dos tecidos de Eunicella verrucosa mostrando a diferença entre um espécimen saudável (A) e com necrose (B)... 5 Fig. 3. Esquema de dois sistemas taxonómicos diferentes da Subclasse Octocorallia... 7 Fig. 4. Azulejos existentes no Palácio dos Marqueses de Fronteira (Lisboa) ilustrando a captura do coral por mergulhadores Fig. 5. Mapa de localização da área de estudo Parque Marinho Professor Luiz Saldanha Fig. 6. Divisão do Parque Marinho Professor Luiz Saldanha por sectores tendo em conta o tipo de habitats (adaptado de Gonçalves, et al. (2002)) Fig. 7. Distribuição espacial da temperatura média mensal do ar na região de Lisboa e península de Setúbal de Abril a Dezembro de Fig. 8. Localização das estações de amostragem no Parque Marinho Professor Luiz Saldanha. As linhas brancas identificam o respectivo zonamento Fig. 9. Mapa de localização dos pontos de mergulho do Parque Marinho Professor Luiz Saldanha com referência à percentagem de frequência de mergulhadores Fig. 10. Carga diária de mergulhadores: número de dias por classes de número de mergulhadores por dia nos locais mais frequentados Fig. 11. Sazonalidade do mergulho: número de mergulhadores por mês Fig. 12. Leptogorgia lusitanica Fig. 13. Leptogorgia sarmentosa ii

11 Fig. 14. Mapa de localização de ocorrência de Leptogorgia sarmentosa segundo a base de dados GBIF Fig. 15. Eunicella verrucosa Fig. 16. Mapa de localização de ocorrência de Eunicella verrucosa segundo a base de dados GBIF Fig. 17. Eunicella gazella Fig. 18. Mapa de localização de ocorrência de Eunicella gazella segundo a base de dados GBIF Fig. 19. Eunicella labiata Fig. 20. Mapa de localização de ocorrência de Eunicella labiata segundo a base de dados GBIF Fig. 21. Paramuricea clavata Fig. 22. Mapa de localização de ocorrência de Paramuricea clavata segundo a base de dados GBIF Fig. 23. Proporção de espécies por local Fig. 25. Densidade média e erro padrão de gorgónias por local e respectivo erro padrão Fig. 25. Valor máximo, mínimo, média e erro padrão da Altura máxima das colónias por local e espécie Fig. 26. Estrutura populacional das gorgónias em termos de classes de Altura máxima das colónias por local Fig. 27. Caracterização da comunidade epífita das gorgónias Fig. 28. Caracterização da comunidade de epibiontes das gorgónias Fig. 29. Percentagem da População Coberta por Epibiontes (PPCE) por local e espécie Fig. 30. Média ( ) e erro padrão ( ) da Percentagem da Colónia Coberta por Epibiontes (PCCE) por local e espécie Fig. 31. Histograma das classes de Percentagem da Colónia Coberta por Epibiontes (PCCE) por local Fig. 32. Valores máximos, mínimos, média e erro padrão (Er.Pad.) da Profundidade por espécie Fig. 33. Frequência relativa de espécies por classe de profundidade Fig. 34. Média ( ) e erro padrão ( ) da Percentagem da Colónia Cobertura por Epibiontes (PCCE) por tipo de exposição da colónia Fig. 34. Análise de Componentes Principais das variáveis: Profundidade (Prof.), Altura (Alt.), tipo de Exposição (Exp.) e Percentagem da Colónia Coberta por Epibiontes (PCCE), agrupadas de acordo com a espécie Fig. 36. Localização no PMLS da estação de amostragem Arcanzil Fora... 1 Fig. 37. Localização no PMLS da estação de amostragem Pedra da Milú Fig. 38. Localização no PMLS da zona da estação de amostragem Baleeira iii

12 Fig. 39. Localização no PMLS da zona da estação de amostragem Pedra das Ancoras... 4 Fig. 40. Localização no PMLS da zona da estação de amostragem Pedra do Meio Fig. 41. Localização no PMLS da zona da estação de amostragem Baía da Armação Fig. 42. Localização no PMLS da zona da estação de amostragem Calhau do Risco Fig. 43. Leque de locais explorados no Parque Marinho Luiz Saldanha, por cada operador de mergulho Fig. 44. Análise multivariada da frequência de mergulhadores com as variáveis que caracterizam cada local: resguardo (resg), proximidade ao local de saída dos operadores (prox), interesse do fundo (inter) e atractividade única (atrac) Índice de Tabelas Tabela 1. Descrição dos factores e escala utilizados para caracterização dos locais de mergulho do PMLS Tabela 2. Número de transectos (réplicas) por estação de amostragem (Est.) considerados no tratamento de dados deste trabalho Tabela 3. Temperatura média mensal da água registada nos dias e locais de amostragem Tabela 4. Número de mergulhadores (Nº Merg) nos locais de mergulho do PMLS Tabela 5. Densidade média (D.med) de gorgónias por local e respectivo erro padrão (Er.Pad.) iv

13 Preâmbulo O presente projecto nasceu no seio do Departamento de Ecologia Marinha do CPAS, em parte, como resultado da continuação de um projecto iniciado em 2002, por membros anteriores deste departamento: o Projecto Gorgónias. As gorgónias, apesar de tão conhecidas por todos aqueles que mergulham (são uma constante em quase todos os mergulhos) ainda apresentam graves lacunas de informação a nível científico, o que cativou a atenção dos membros deste Departamento. O local de estudo o Parque Marinho Professor Luiz Saldanha, apresenta uma combinação de factores que o tornam um local propício à prática de mergulho e, também à realização de estudos científicos, e este estudo em particular: proximidade geográfica à capital e características abrigadas a que a maior parte da zona está sujeita. Deste conjunto de características resulta uma zona naturalmente exposta a maiores pressões antropogénicas, sendo palco de intensa actividade no meio marinho. O mergulho recreativo, com escafandro autónomo pode ocorrer praticamente ao longo de todo o ano, tornando-se esta zona, num dos locais de eleição para um grande número de centros e escolas de mergulho. Para fins científicos, esta zona é também preferencial pelo facto de ser uma área de protecção marinha, mas também por permitir um período de trabalho de campo alargado a todos os meses do ano, facilitando o plano de amostragem. O elevado número de centros e escolas de mergulho, foi uma condição necessária à realização deste projecto, uma vez que os meios náuticos utilizados para a realização das campanhas de amostragem foram, na maior parte das vezes, as embarcações dos centros. Esta forma de amostragem (a única possível face às condições logísticas e económicas disponíveis) apesar de ter algumas desvantagens, como por exemplo: nem sempre ser possível ir ao local pretendido na altura planeada e o período de amostragem ficar sujeito aos fins-de-semana. Por outro lado, apresenta algumas valias como o contacto directo com a comunidade de mergulhadores o que permitiu fazer sensibilização directamente junto destes actores, alertando para importância destes organismos e da sua fragilidade. O projecto contou com o apoio financeiro do CPAS, o apoio logístico do Departamento de Ecologia Marinha do CPAS e o apoio académico por parte do Professor Doutor Henrique Cabral (DBA-FCUL) e foi integrado nas linhas de acção da UIEE-ISPA através do Professor Doutor Emanuel Gonçalves (UIEE-ISPA). Igualmente importante para o sucesso deste projecto foi também o apoio por parte dos centros de mergulho Anthia Diving Center, Portinho divers e Odisseia azul, sob forma de aplicação de preços especiais nas saídas de mergulho do projecto.

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15 1. Introdução 1. Introdução Gorgónias Biologia e ecologia A designação de gorgónia é associada a um conjunto de organismos marinhos pertencentes ao Filo Cnidaria, Classe Anthozoa e Subclasse Octocorallia. O indivíduo do grupo Octocorallia é designado de pólipo e é invariavelmente colonial. Geralmente são pequenos e estruturalmente uniformes e simples, quando em comparação com pólipos da outra Subclasse da Classe Anthozoa: Hexacorallia (Manuel, 1988). Pólipos, células e tecidos Os pólipos na colónia estão ligados por um tecido designado cenênquima, que consiste numa camada de material gelatinoso (mesogleia) contido entre a epiderme do pólipo e a gastroderme. O cenênquima contém fibras, células amebóides (amebócitos) e células esclerobásticas, juntamente com espículas calcárias. Encontra-se perfurado por uma rede de tubos gastrodérmicos estreitos (solenia) que interligam as cavidades gastrodérmicas dos pólipos (Barnes, 1980; Fabricius & Alderslade, 2001). Os amebócitos segregam material esquelético que suporta a colónia e, no caso específico das gorgónias, o esqueleto interno é composto por uma substancia orgânica designada gorgonina (proteínas e mucopolissacarídeos) (Barnes, 1980). A epiderme do pólipo contém numerosas células produtoras de muco, células sensoriais, microvilli e várias células urticantes. Sendo as gorgónias pertencentes ao Filo Cnidaria, possuem um conjunto de células urticantes, designadas cnidócitos, encontradas em menor número que nos restantes organismos deste grupo. Estas células possuem a particularidade de reagir a estímulos externos, físicos ou químicos, libertando uma pequena cápsula, designada de nematocisto (ou cnida), que solta um filamento que irá entrar em contacto com o agente estimulador e efectuar a libertação de compostos orgânicos com a capacidade de paralisar a presa ou repelir o agente agressor (Fabricius & Alderslade, 2001). Os pólipos dos octocorais são formados por duas partes principais (Fig. 1): o antocódio, que consiste na parte superior do corpo que contém a boca e os tentáculos e que tem capacidade de se contrair completamente e estender; e a antostela, que consiste na parte inferior do pólipo e que contém todo o canal gastrodérmico. Nalgumas espécies, a parte superior da antostela estende-se acima da camada superficial da colónia, no interior de uma protuberância designada de cálice (Fabricius & Alderslade, 2001). 1

16 1. Introduçãoo As gorgónias são animais diploblásticos e podem ser monomórficas (um só tipo de pólipo) ou dimórficas, apresentando dois tipos de pólipos: os autozoóides e os sifonozoóides (Pérez-Farfantepólipos de aparência comum, enquanto que 1972). Os autozoóides são os sifonozoóides são pólipos especializados na reprodução. A sua aparência exterior difere no tamanho, sendo estes pólipos de dimensões inferiores aos primeiros e em menor número (Fabricius & Alderslade, 2001). Antostela Antocódio Sifonozoóide Autozoóide Forma das colónias e coloração Fig. 1. Representação esquematizada de um pólipo Embora a forma dos pólipos seja autozoóides e sifonozoóidess (modificado de Hyman, 1940). Legenda: (1) faringe; (2) sifonoglifo; (3) extremamente constante em todos os mesentério; (4) músculo retractor do septo; (5) fibras transversais do mesentério; (6) epiderme; (7) octocorais, a forma e tamanho das colónias mesogleia; (8) solenia; (9) mesentério assulcal; (10) gastroderme; (11) gónadas; (12) filamentos do pode variar grandemente de espécie para mesentério. espéciee e entre espécies, em função das condições ambientais, como por exemplo a luminosidade e hidrodinamismo. As formas das colónias estão divididas por categorias, em que as mais comuns são: arborescente, em forma- de-leque, não-ramificada e forma-de-chicote (zonas terminais mais finas que o ramo) (Fabricius & Alderslade, 2001). A coloração das gorgónias depende de diversos factores, como os pigmentos existentes na espécie, pigmentos das algas simbióticas intracelulares e pigmentos presentes também nas espículas que formam o esqueleto da gorgónia. No entanto, as características do local podem influenciar os dois últimos factores (Bayer, 1961). Nutrição e crescimento Algumas gorgónias, tal como os corais, contêm zooxantelas (algas simbiontes que pertencem ao grupo dos dinoflagelados) de modo a complementarem as suas necessidades energéticas. Estas encontram-se embebidas em células gastrodérmicas ou em vacúolos membranososs dentro da cavidade gastrovascular e libertam os açúcares produzidos fotossinteticamente paraa os pólipos e absorvem nutrientes e dióxido de carbono do mesmo (Fabricius & Alderslade, 2001). Existem, no entanto, algumas espécies de gorgónias que não contém zooxantelas nos seus tecidos (designados de octocorais assimbióticos) e que asseguram todas as suass necessidades energéticas apenas através de nutrição por meios heterotróficos (Mistri & 2

17 1. Introdução Ceccherelli, 1994). Devido à baixa quantidade de nematocistos (Mariscal & Bigger, 1977) e reduzida habilidade de captura (Kinzie, 1970; Lasker, 1981), consequência de possuírem pólipos pequenos e simples (Mariscal & Bigger, 1977; Schmidt & Moraw, 1982), as gorgónias actuam como filtradores de partículas em suspensão (Coffroth, 1984; Fabricius & Alderslade, 2001), filtrando pequenas partículas da água (< 20 micrómetros), tais como células de fitoplâncton, microzooplâncton e outros cilíados de baixa mobilidade e ainda bacterioplâncton (Fabricius et al., 1995a; Fabricius et al., 1995b; Ribes et al., 1998; Fabricius & Dommisse, 2000). Por outro lado, a epiderme dos pólipos está densamente coberta com células ciliadas (Mariscal & Bigger, 1977), o que indica uma dieta baseada também na absorção de matéria orgânica dissolvida (Schlichter, 1982). Em termos de valores nutricionais mais específicos e do contributo das diversas fontes de alimento para a dieta dos octocorais, um estudo realizado no Mediterrâneo utilizando câmaras incubadoras in situ (campânulas hemisféricas de plexiglas transparente para os UV) revelou que o octocoral assimbiótico Leptogorgia sarmentosa se alimenta maioritariamente de zooplâncton (61%), POC (Particulate Organic Carbon) detrítico (30 %), carbono vivo <100 μm (ou seja, pico e nanoplâncton, dinoflagelados, diatomáceas e ciliados) (9 %), com uma taxa de ingestão total de 8,7 11,0 mg C g ash-free dry mass (AFDM) 1 dia 1 (Ribes et al., 2003). O mesmo tipo de padrão é observado na dieta de Paramuricea clavata, um octocoral também assimbiótico, onde o microzooplâncton também é o maior contribuidor para a sua dieta (48%), seguido de POC detrítico (48%) e de carbono vivo <100 μm (4%), com uma taxa de ingestão total de biomassa de 2 mg C g AFDM -1 dia -1 (Ribes et al., 1999). Ribes, et al., (2003) salientam a importância das variações sazonais da abundância de POC detrítico e da velocidade da corrente no consumo energético das espécies, no investimento em produção secundária (crescimento e reprodução) e no comportamento dos octocorais de regiões temperadas. Desta forma é explicado o padrão de dormência de verão (estivação) e do baixo investimento em produção secundária observada durante o verão na maioria dos taxa que se alimentam de POC detrítico e microplâncton, no Mediterrâneo (Coma et al., 2000; Coma & Ribes, 2003). As gorgónias são organismos de crescimento lento e com ratios de Produção/Biomassa (P/B) baixos (ex. 0,13 para P. clavata; Mistri & Cecherelli, 1994), resultando em períodos de turnover baixos. No caso específico de Lophogorgia ceratophyta (actualmente aceite como sinónimo de Leptogorgia sarmentosa; segundo Ribes et al., 2003), foram registados crescimentos médios de 24 mm ano -1 (Weinberg & Weinberg, 1979) a 26 mm ano -1 (Mistri & Ceccherelli, 1994), consoante diferentes locais no Mediterrâneo. À semelhança destes valores, P. clavata apresenta um crescimento médio de 27 mm ano -1, segundo o estudo de Mistri & Ceccherelli (1994), mas que segundo Weinberg & Weinberg (1979) é de 18 mm ano -1. Esta divergência de valores é explicada pela diferença de velocidade das correntes entre os locais de estudo, ambos localizados no Mediterrâneo, uma vez que Velimirov (1976) apresenta registos de que o tamanho dos octocorais aumenta com o aumento da velocidade da corrente. Existe também 3

18 1. Introdução uma relação entre o crescimento dos corais moles e a ocorrência de upwelling de nutrientes, em que estes crescem mais em áreas expostas a upwelling do que em áreas não afectadas por este fenómeno (Reed, 1983; Sebens, 1984). Reprodução As gorgónias reproduzem-se tanto de forma sexuada, como assexuadamente. Esta dualidade reprodutora fornece-lhes flexibilidade de desenvolver uma grande variedade de estratégias ecológicas (Jackson, 1977). A reprodução assexuada começa por ser um processo utilizado por todas as gorgónias para poderem incrementar o número de pólipos e crescerem em tamanho. Existem também várias estratégias deste tipo de reprodução, utilizadas por estes organismos: através de um canal de ligação mãe-filha; fragmentação da colónia e gemulação. Relativamente à reprodução sexuada, podem ocorrer três estratégias de reprodução: libertação de gâmetas femininos e masculinos em eventos sincronizados, desenvolvimento larvar no interior do pólipo fêmea, e desenvolvimento larvar na superfície da colónia mãe (Benayahu, 1991; Coma et al., 1995). A maior parte dos octocorais apresentam as estruturas reprodutivas em colónias macho e fêmea separadas. Este tipo de reprodução é designado de gonocórica (Fabricius & Alderslade, 2001). No entanto, no caso de P. clavata, embora a maior parte da população seja gonocórica, existem casos de hermafrodismo, em que a mesma colónia apresenta pólipos macho e fêmea (Coma et al., 1995). Segundo Coma et al. (1995), em gorgónias tropicais, a estratégia de reprodução tende para ser externa, enquanto que nas regiões temperadas, as espécies tendem a optar por fertilização interna, como forma de adaptação a ambientes mais agressivos (Giese et al., 1987). Predação Para sua defesa as gorgónias produzem compostos orgânicos tóxicos que levam a que possíveis predadores se afastem. No entanto, existem animais capazes de suportar esse tipo de toxinas, como é o caso de algumas espécies de moluscos gastrópodes (p.e. Neosimnia spelta; Russo & Carrada, 2006), nudibrânquios (p.e. Tritonia nilsodhneri; obs. pess.), peixes (p. e. Chaetodon capistratus; Lasker, 1985) e poliquetas (p. e. Hermodice carunculata; Mistri & Ceccherelli, 1994). Estrutura populacional Estudos demográficos têm sido uma ferramenta valiosa para determinar o estado das populações de octocorais (p. e. Grigg, 1977; Weinbauer & Velimirov, 1996). A distribuição da idade/tamanhos reflecte os efeitos combinados da mortalidade, recrutamento, crescimento e 4

19 1. Introdução outros processos que afectam a população, reflectindo a história de vida da população, especialmente no caso de organismos sésseis de grande longevidade tais como as gorgónias. Neste sentido, uma grande falta de indivíduos mais velhos/maiores é um indicador de elevada mortalidade e estes factores manifestam-se como um desvio da estrutura da idade/tamanhos no sentido das colónias mais jovens (Santangelo et al., 1993). Epibiontes Uma vez danificadas, as gorgónias têm que lidar com os organismos epibiontes que competem por espaço vital com os pólipos das colónias. Estes organismos atacam zonas com necrose (zonas sem cenênquima) da colónia e colonizam-nas. A presença de uma camada grossa de algas é especialmente prejudicial por comprometer a relação entre os pólipos das colónias com a coluna de água, afectando o suplemento normal de alimento (Giuliani et al., 2005). Segundo Hall-Spencer et al. (2007), o cenênquima normal de uma colónia saudável do Género Eunicella, apresenta uma camada superficial fina de espículas do tipo baloon-clubs muito compactadas, formando um forte revestimento sobreposto a uma zona com grandes concentrações de amebócitos. Por baixo encontra-se uma camada grossa de mesogleia e amebócitos suportada por espículas do tipo spindle (Fig. 2. A). Por outro lado, numa zona da colónia que apresente necrose, o cenênquima encontra-se fragilizado e desestruturado, com as espículas do tipo baloon-clubs pouco compactadas ou ausentes e com os amebócitos granulares contidos numa camada reduzida de mesogleia (Fig. 2. B). A redução da mesogleia provoca uma diminuição do espaço entre espículas do tipo spindle dando um aspecto negro à medida que o eixo esquelético preto de gorgonina se vai tornando visível através da fina camada de cenênquima. Fig. 2. Microfotografias dos tecidos de Eunicella verrucosa mostrando a diferença entre um espécimen saudável (A) e com necrose (B). Legenda: (a) amebócitos granulares; (m) mesogleia; (g) gorgonina do esqueleto interno (eixo); (vb) espaços deixados por espículas do tipo ballon-clubs descalcificadas; (vn) espaços deixados por espículas do tipo spindle. Barras de escala = 50 μm (Hall-Spencer et al., 2007). 5

20 1. Introdução Classificação e sistemática Apesar da sua aparência vegetal, as gorgónias estão entre os organismos mais evoluídos do Filo Cnidaria (Coelenterata). Os que integram este Filo agrupam-se de acordo com as suas características morfológicas e desenvolvimento evolutivo nas Classes Hydrozoa, Scyphozoa e Anthozoa. A Classe Anthozoa (anthos = flor + zoon = animal) é a maior classe do Filo Cnidaria (Wallace et al., 1989) e divide-se em duas subclasses: Hexacorallia (Zoantharia), na qual se agrupam os antozoários com pólipos providos de tentáculos simples em número de 6 ou múltiplos deste, e Octocorallia (Alcyonaria) onde se encontram os celenterados com pólipos de 8 tentáculos ocos e com pínulas (séries de extensões em forma de dedo em cada lado dos tentáculos) (Fabricius & Alderslade, 2001) (ver Fig. 15. b). Corais moles e leques-do-mar são nomes comuns para espécies de animais agrupados sob o nome científico Alcyonacea. Uma grande causa de confusão associada à designação destes organismos reside no facto do termo coral mole adoptar significados diferentes consoante diferentes locais do mundo. O uso mais comum deste termo refere-se unicamente aos organismos de Octocorallia que não possuem um esqueleto massivo ou eixo interno, mas muitas vezes também inclui os leques-do-mar, sendo ocasionalmente usado para referir todo o grupo Octocorallia (Fabricius & Alderslade, 2001). O termo leque-do-mar, por sua vez, é normalmente utilizado como alternativo de gorgónia, que são os octocorais, exceptuando as penas-do-mar, que emergem do substrato com o suporte de um eixo interno. No entanto, há quem considere leques-do-mar apenas as colónias com morfologia em forma de leque, em contraste com a forma arbustiva. Outra grande causa de confusão relacionada com os corais moles e gorgónias deve-se à classificação antiga ainda hoje utilizada por alguns taxonomistas. Há cerca de 20 anos atrás, os diferentes tipos de octocorais mencionados foram colocados em grupos diferentes, mas com o progresso de estudos sobre a sua morfologia e crescimento, os grupos foram fundidos e classificados dentro de um único grupo a Ordem Alcyonacea, proposta por Bayer (1981) (Fig. 3. a). Este tipo de classificação tem sido adoptado pela maior parte dos taxonomistas actuais (seguido pelo Integrated Taxonomic Information System - ITIS) e tem permitido incluir na ordem Alcyonacea todas as formas intermediárias que não permitiam criar limites concretos entre os grupos definidos na classificação anterior. No entanto, a Ordem Alcyonacea ainda contém descontinuidades entre os seus grupos, e, portanto, muitos estão ainda sujeitos a reagrupamentos constantes e a diferentes níveis de classificação, tornando inconsistente a divisão da ordem Alcyonacea em subordens. Actualmente, existe apenas um consenso geral em relação a duas subordens: Holaxonia e Calcaxonia (Fabricius & Alderslade, 2001). 6

21 1. Introdução a) ( ) Subclasse Octocorallia (ou Alcyonaria) Ordem Helioporacea (corais azuis) Ordem Pennatulacea (penas-do-mar) Ordem Alcyonacea (corais moles e leques-do-mar) Subordem Holaxonia Subordem Calcaxonia ( ) Subclasse Hexacorallia (ou Zoantharia) b) ( ) Ordem Gorgonacea (leques-do-mar) Subordem Holaxonia Subordem Calcaxonia ( ) Ordem Alcyonacea (corais moles) ( ) Ordem Actiniaria (anémonas-do-mar) Ordem Scleractinia (corais duros) ( ) Subclasse Ceriantipatharia Ordem Antipatharia (corais negros) ( ) Fig. 3. Esquema de dois sistemas taxonómicos diferentes da Subclasse Octocorallia: a) sistema de classificação dos octocorais seguida pela maior parte dos taxonomistas e também a seguida neste trabalho (adaptado de Fabricius & Alderslade (2001)); b) detalhe do antigo sistema taxonómico que o diferencia do mais actual: a ordem Alcyonacea em a) é resultado da fusão da ordem Alcyonacea com a ordem Gorgonacea em b). Este sistema é considerado por Fabricius & Alderslade (2001) como desactualizado, embora ainda seja utilizado por alguns Apesar dos esforços efectuados em resolver confusões sobre a classificação destes organismos, as relações evolutivas entre taxa permanecem largamente desconhecidas, pelo que o arranjo dos géneros dentro das famílias deve-se à semelhança entre caracteres Corais preciosos e importância histórica das gorgónias em Portugal Os chamados corais preciosos constituem um grupo de organismos que pertencem maioritariamente a 3 grupos de antozoários: Alcyonacea, Zoanthidae e Anthipatharia (respectivamente das Subclasses Octocorallia, Hexacorallia e Ceriantipatharia). Os mais valiosos pertencem ao género Corallium (Alcyonacea), como por exemplo, o coral vermelho (Corallium rubrum). São valiosos como matéria-prima usada para bijutaria e como objectos de arte, desde os tempos do paleolítico. Como exemplos podem referir-se as contas de coral vermelho perfuradas descobertas na Alemanha juntamente com restos humanos e outros artefactos, datados do Período Aurignaciano, cerca de 25,000 anos a. C. (Tescione, 1965). Segundo Lopes (1841), houve tempos em que o coral foi objecto de consideração na costa do Algarve. A pesca deste recurso era praticada muito antes da sua exploração nas Ilhas de Cabo 7

22 1. Introdução Verde, tendo, no entanto, caído no esquecimento após meados do século XIX (Zibrowius et al., 1984), e permanecido conhecido como uma espécie tipicamente mediterrânica (Rocha, 1910). É nos trabalhos de História e da Economia que existem indicações sobre a pesca de C. rubrum em Portugal, entre os séculos XIV e XVIII, aproximadamente (Zibrowius et al., 1984). Rocha (1910) afirma que a pesca do coral foi introduzida nos mares Portugueses em 1443, com a autorização do Infante D. Pedro a dois espanhóis de Marselha residentes em Lisboa. Na carta de privilégio que lhes foi concedida, vem a declaração de que eles eram os verdadeiros inauguradores desta empresa, inteiramente Fig. 4. Azulejos existentes no Palácio dos Marqueses de Fronteira (Lisboa) ilustrando a captura do coral por mergulhadores. Fotografia de capa do Boletim do nova entre nós (Rocha, CPAS (n.º 8 de 1964) onde foi publicado um artigo sobre a possível prática de 1910). As indicações de actividades de pesca de coral em Portugal. pesca de coral prosseguem na história de Portugal, através de documentos de concessão de licenças de pesca, recomendações e cartas de privilégios (ver Rocha, 1910). Outro tipo de documentação que realça a importância deste tipo de actividade em Portugal é a existência de azulejos no Palácio dos Marqueses de Fronteira, em Lisboa, ilustrando a captura do coral por mergulhadores (Fig. 4). O desaparecimento do coral vermelho da plataforma continental algarvia está provavelmente relacionado com o incremento de pesca com arrasto bentónico a partir do século XVIII (Marques, 1987). A exploração actual de coral vermelho foi, no entanto, proposta ao governo português pelo menos duas vezes: em 1983, um grupo de mergulhadores italianos pediu autorização de exploração que foi recusada pelo Instituto Nacional de Investigação e Pescas (INIP) (ver Zibrowius et al., 1984); e também em 1980 pelo CPAS Centro Português de Actividades Subaquáticas, não tendo sido obtido resposta por parte da entidade reguladora das actividades de pesca da altura (Farrajota, com. pess.) Importância ecológica e conservação As gorgónias são elementos característicos e conspícuos em muitas comunidades bentónicas de ecossistemas tropicais, temperados e polares (p. e. Kinzie, 1973; Coma et al., 1995; Arntz et al., 1999). Podem formar zonas de elevada densidade e apresentam um papel ecológico importante (Ribes et al., 2003), por aumentarem a complexidade estrutural do habitat 8

23 1. Introdução bentónico, contribuindo fortemente para o aumento de biodiversidade (Dayton et al., 1974; Jones et al., 1994), tal como acontece nos recifes de corais tropicais (Roberts et al., 2006). Ocupam um papel importante no processo de transferência de energia entre os ambientes pelágicos e bênticos (Kimmerer et al., 1994; Riisgård et al., 1998; Arntz et al., 1999), servindo de habitat e refúgio a muitas espécies (Wendt et al., 1985). Ameaças actuais às comunidades de corais incluem pesca por arrasto (Hall-Spencer et al., 2002), alterações na química dos oceanos devido às alterações climáticas (Guinotte et al., 2006), doenças provocadas por agentes patogénicos (Hall-Spencer et al., 2007) e impactos relacionados com o mergulho e actividades náuticas (Davis, 1977). Do ponto de vista da biomedicina, assumem uma crescente relevância conservacionista, uma vez que têm sido encontradas muitas substâncias bioactivas nas gorgónias, devido à natureza tóxica dos compostos segregados, com função de causar efeitos nefastos nos seus predadores. Diversas aplicações farmacológicas de grande utilidade para a medicina e veterinária têm sido descobertas em laboratório de vários países, como por exemplo: aplicações anti-inflamatórias (ex. extractos de Leptogorgia sarmentosa; Herencia et al., 1998), antivirais (p. e. Eunicella cavolini; Cimino et al., 1984), antibacterianas e anti-tumorais. É de esperar, então, que danos físicos causados a estes organismos tenham vindo a tornar-se um aspecto preocupante na gestão dos espaços marinhos e uma prioridade na gestão dos parques marinhos, tal como estudos em várias partes do mundo o demonstram (ver Kellerher, 1981; Tilman, 1987; Rouphael & Inglis, 1997; Jameson et al., 1999; Tartalos & Austin, 2001; Milazzo et al., 2002; Zakai & Chadwick-Furman, 2002; Coma et al., 2004; Lloret et al., 2006). Em comparação com estudos no mediterrâneo e em recifes tropicais, os estudos em costas rochosas temperadas têm progredido a um passo muito menor, devido grandemente ao ambiente mais agressivo destas zonas e mais estudos a estas latitudes são necessários. Isto aplica-se especialmente a estudos de longo termo, em que tais informações são fundamentais para determinar flutuações em habitats que sejam facilmente afectados tanto pelos efeitos das alterações climáticas, como pelos efeitos de actividades antropogénicas que possam originar degradação dos habitats Áreas Marinhas Protegidas A importância de proteger e conservar a Natureza e a biodiversidade tem sido reconhecida aos mais elevados níveis, sendo hoje em dia um assunto de relevo na agenda Europeia e do Mundo. Parar a perda da biodiversidade e assegurar o desenvolvimento sustentável são objectivos referidos em eventos e estratégias importantes como a Cimeira Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (World Summit on Sustainable Development - WSSD) (Joanesburgo, 2002), a Convenção sobre a Diversidade Biológica (Convention on Biological Diversity - CBD) (1992) e a Estratégia para o Desenvolvimento Sustentável (Sustainable 9

24 1. Introdução Development Strategy - SDS), aprovada no Conselho Europeu de Gotemburgo (Göteburg European Council) em Em termos dos ideais de conservação e protecção dos ambientes marinhos, nos últimos 20 anos ocorreu uma mudança no sentido da conservação dos espaços (p. e. reservas marinhas), quando, inicialmente, os esforços no sentido de proteger os ambientes marinhos eram focados na conservação das espécies (p. e. pescarias, baleias, etc). As reservas marinhas têm vindo a ser largamente utilizadas como ferramentas de gestão, direccionadas para atingir objectivos tanto a nível da protecção da biodiversidade como das pescarias (Halpern, 2003). As Áreas Marinhas Protegidas (AMP) podem incluir diferentes conceitos, desde o multiuso, onde diferentes actividades são geridas de forma integrada, ao uso dedicado (p. e. para prática de mergulho ou propósitos arqueológicos), e ao conceito de no-take e/ou no-go, onde não existem actividades extractivas e/ou onde não é permitida a presença humana (Reservas Marinhas). Este último conceito é importante no sentido em que ao proibir a pesca em áreas particulares irá eliminar-se a mortalidade directa causada pela pesca e impedir a destruição de habitats causada pelas artes de pesca (Collie et al., 2000). O estabelecimento de AMP é um dos poucos mecanismos actualmente disponíveis que permite a recuperação de habitats e a manutenção de ecossistemas marinhos saudáveis. Muitas AMP constituem áreas de grande atracção turística, em particular, para o turismo subaquático (Dixon et al., 1993; Fenton et al., 1998). À medida que o interesse dos mergulhadores em explorar o mundo subaquático aumenta, os impactos desta actividade sobre os ecossistemas marinhos aumentam igualmente e os efeitos potenciais têm que ser avaliados sob moldes científicos (Lloret et al., 2006) no sentido de permitir uma gestão adequada e, consequentemente, a conservação do ecossistema. As comunidades de gorgónias são consideradas como bons indicadores de degradação causada pelos mergulhadores, por serem organismos frágeis e pela sua falta de valor comercial (Sala et al., 1996). Lloret et al., (2006) propõem que o primeiro passo para a gestão de actividades subaquáticas deve ser a caracterização de comunidade bentónicas que suportam a actividade e avaliar a sua vulnerabilidade. A identificação e avaliação das comunidades de gorgónias, juntamente com a delimitação dos seus limites, permite propor medidas para o controlo do potencial impacto da actividade de mergulho e também para a avaliação destas medidas, reduzindo a degradação da comunidade bentónica, beneficiando o turismo subaquático e permitindo um uso mais sustentado dos recursos (Lloret et al., 2006). Os barcos de recreio e turismo e os próprios mergulhadores podem provocar danos consideráveis nos fundos marinhos através do fundear das embarcações (Davis, 1977) e do contacto físico com os organismos (Jameson et al., 1999; Tartalos & Austin, 2001), que além de tornarem o local menos atractivo, poderão por em risco a integridade do ecossistema. Segundo Coma, et al., (2004), valores elevados de actividades recreativas de mergulho podem 10

25 1. Introdução aumentar até 3 vezes a mortalidade natural das espécies de gorgónias. Os autores alertam, também, para o facto de que um pequeno aumento na taxa de mortalidade das colónias maiores podem produzir um efeito insustentável a longo termo na população, caso mantido durante um longo período de tempo Parque Marinho Professor Luiz Saldanha O Parque Marinho Professor Luiz Saldanha (PMLS) está integrado no Parque Natural da Arrábida (PNA) e constitui a única área de protecção marinha em Portugal com estatuto de Parque e com um Plano de Ordenamento implementado. Em termos ecológicos representa um local de grande interesse por apresentar uma diversidade marinha invulgarmente elevada, o que está relacionado com características físicas e oceanográficas particulares da zona. Por outro lado, este local é alvo de uma grande pressão antropogénica por se localizar perto de duas grandes zonas metropolitanas, Setúbal (contígua ao PMLS) e Lisboa (cerca de 50 km), sendo palco de um grande número de actividades de natureza náutica e económica. A nível da actividade de mergulho com escafandro autónomo, o PMLS é explorado por várias escolas e centros de mergulho (pelo menos 12) resultando num turismo subaquático activo e ao longo de todos os meses do ano. A publicação científica mais importante sobre a zona é talvez o de Saldanha (1974), pela sua abrangência a diversos grupos de espécies sendo o único que envolve a comunidade de gorgónias. Actualmente decorre no PMLS um projecto de conservação, o Projecto BIOMARES (LIFE06/NAT/P/000192), financiado pelo programa LIFE/Natureza da Comissão Europeia, que tem como objectivos principais estudos de apoio à gestão, como por exemplo: estudos de caracterização (ex. frota pesqueira do PMLS; batimetria e granulometria do fundo) e de monitorização dos efeitos das medidas implementadas pelo Plano de Ordenamento do Parque; e acções de gestão directas no terreno, como a recuperação das pradarias de ervas marinhas, um habitat que outrora existia na zona do Portinho da Arrábida, e a instalação de amarrações especiais para embarcações de recreio. Apesar dos estudos que actualmente decorrem no PMLS, é necessário prover os gestores desta AMP com dados científicos sobre outros organismos, tais como as gorgónias, sobre as quais continua a existir uma grande lacuna de informação científica sobre a distribuição, ecologia e impactos antropogénicos sobre as populações de gorgónias, não só no PMLS, como a nível Nacional e Europeu Enquadramento legal O PNA foi criado em 1976, pelo Decreto-Lei n.º 622/76, de 28 de Julho, e é gerido pelo Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB). Foi reclassificado pelo Decreto Regulamentar n.º 23/98, de 14 de Outubro, através do qual foram estabelecidos novos limites 11

26 1. Introdução e, com objectivo abranger a área marinha, foi criado o Parque Marinho Professor Luiz Saldanha. Em 2003 foi novamente reclassificado através do Decreto Regulamentar n.º 11/2003, que adequou os seus limites às novas realidades, permanecendo deste modo até à actualidade. Em 2005 foi aprovado o regulamento do Plano de Ordenamento do Parque Natural da Arrábida (POPNA), através da Resolução de Conselho de Ministros n.º 141/2005, de 23 de Agosto. Além do reconhecimento nacional de Área Protegida, este parque faz também parte da rede Europeia de conservação, estando incluído na lista de sítios da Rede Natura 2000 Sítio Arrábida-Espichel (PTCON00010), aprovada na Resolução do Conselho de Ministros n.º 142/ Plano de Ordenamento do Parque Natural da Arrábida Um conjunto de actividades foram condicionadas ou interditas na área marinha de intervenção do POPNA. Destacam-se, entre as actividades interditas, a pesca submarina e a circulação de motas de água (excepto nas áreas de acesso ao Porto de Sesimbra); e entre as actividades condicionadas: a pesca comercial (que está sujeita a um regime transitório por questões de adaptação sócio-económica, entrando apenas em pleno vigor em 2009), a pesca lúdica e as actividades recreativas organizadas, como por ex. o mergulho. De acordo com este Plano de Ordenamento, as actividades condicionadas estão sujeitas a um zonamento que integra áreas com diferentes níveis de protecção (Fig. 5. b) e de uso, definidos de acordo com a importância dos valores biofísicos presentes e respectiva sensibilidade ecológica. Deste modo, o Parque apresenta o seguinte zonamento: Protecção Total (PT): na zona central do Parque, entre os cabos Lagosteiros e Ponta de S. Pedro, na base da Serra do Risco, encontra-se a única área de PT (aproximadamente 4 km 2 ). Nesta área não é permitida a presença humana, excepto por razões de investigação científica, monitorização ambiental e a passagem inofensiva de embarcações a uma distância superior a um quarto de milha da costa. Esta zona compreende espaços onde predominam sistemas, valores naturais e paisagísticos de reconhecido valor e interesse, com elevado grau de naturalidade e elevada sensibilidade ecológica. Protecção Parcial (PP): de cada lado da área de Protecção Total, dispostos de forma contígua, encontram-se duas áreas de PP (PP 2 e PP 3 ), compreendidas entre a praia de Alpertuche e a ribeira da Meia Velha; e duas outras áreas nos extremos dos limites do Parque: na zona do Cabo Espichel (PP 1 ), entre a ponta dos Bobaleiros e a praia dos Lagosteiros, e na zona do Portinho da Arrábida (PP 4 ), comprometendo as baías da praia do Portinho da Arrábida e a Figueirinha (área total de PP de aproximadamente 21 km 2 ). Estas zonas compreendem espaços que contêm valores naturais e paisagísticos cujo significado e importância se assumem como relevantes ou excepcionais, com sensibilidade elevada ou moderada. Nesta área está interdita a fundeação de embarcações a menos de 12

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