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1 A PRÁTICA PEDAGÓGICA E A HISTÓRIA EM QUADRINHOS NO ENSINO DE CIÊNCIAS Camila Rocha Pergentino da Silva (Instituto de Biociências - UNESP Botucatu) Claudia Diniz Lopes de Oliveira (Instituto de Biociências - UNESP Botucatu) Raquel Sanzovo Pires de Campos (Faculdade de Ciências UNESP Bauru) RESUMO A história em quadrinhos (HQ) é um tipo de narrativa usado para facilitar o ensino de ciências. Torna-se cada vez mais evidente a relação entre HQ e educação como um importante instrumento no ensino. As atitudes proporcionadas pelo professor podem levar o aluno a refletir aspectos sociais, tecnológicos, políticos e econômicos. Por meio de relato de experiência este trabalho de intervenção e pesquisa, realizado em uma escola Pública situada no município de Botucatu, tem como objetivo discutir a prática pedagógica de duas professoras, apresentando quais ações didáticas possibilitaram, entre os alunos, a reflexão dos conceitos propostos (Meio ambiente, Reciclagem e Reutilzação) por meio da utilização de História em Quadrinho como estratégica didática no ensino de ciências. Palavras-chave: aluno; ensino de ciências; história em quadrinhos. 1090

2 A PRÁTICA PEDAGÓGICA E A HISTÓRIA EM QUADRINHOS NO ENSINO DE CIÊNCIAS Camila Rocha Pergentino da Silva (Instituto de Biociências - UNESP Botucatu) Claudia Diniz Lopes de Oliveira (Instituto de Biociências - UNESP Botucatu) Raquel Sanzovo Pires de Campos (Faculdade de Ciências UNESP Bauru INTRODUÇÃO A literatura mais recente aponta uma tendência de se incluir e valorizar o uso de narrativas como recurso didático em sala de aula, não apenas nas aulas de línguas. Essa tendência é importante para as disciplinas científicas, pois segundo Norris et al. (2005), Millar e Osborne (1998) e Doll Jr. (1997), as narrativas favorecem a apresentação de conteúdos científicos e de ideias sobre a Natureza da Ciência em um contexto social, histórico e cultural mais amplo. A narrativa é um dos veículos que permitem o diálogo entre vários conteúdos, por meio da linguagem, alcançando o objetivo proposto pelos Parâmetros Curriculares Nacionais/Ensino Médio (PCN/EM) e pelas Diretrizes Curriculares (BRASIL, 1998a, 1998b), que apontam para a valorização não apenas da linguagem mas, também, da interdisciplinaridade e da contextualização dos conteúdos como princípios pedagógicos que estruturam o currículo. Mais especificamente, no Ensino de Ciências, narrativas de episódios que estão relacionados a História da Ciência permitem resgatar um diálogo dificilmente abordado em atividades científicas, "[...] que pode ser de questionamento, de negação, de complementação, de ampliação, de iluminação de aspectos não distinguidos" (BRASIL, 1998, p. 25). É esse diálogo que estabelece as relações entre os diversos conteúdos, e que as narrativas permitem reconstruir. Nesse sentido a narrativa pode assumir um papel de articulação de um conhecimento mais específico com ideias mais gerais. Do mesmo modo, métodos que envolvem atividades de leitura são considerados atualmente como muito relevantes no ensino de Ciências considerando-se que um de seus objetivos é habilitar os alunos a usar diferentes linguagens e significados de maneiras apropriadas. A leitura e ensino de Ciências estão, assim, intrinsecamente ligados e os professores precisam atuar como formadores e mediadores de leitura no espaço escolar, constituindo e construindo sentidos e práticas de leitura (ANDRADE, MARTINS, 2004). 1091

3 Um tipo de narrativa usado para facilitar o ensino de ciências é a História em Quadrinhos. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais, as HQ s são materiais que podem e devem ser usados nas escolas (BRASIL, 1998b). Recentemente, os quadrinhos parecem estar ganhando um novo impulso como instrumento didático no Brasil. De fato, as Histórias em Quadrinhos constituem uma linguagem altamente dinâmica e podem ser utilizadas como instrumento de incentivo à leitura e de formação educacional (GUSMAN, 2001). Para Giesta (2002) as HQ s podem ser usadas facilmente como material didático - pedagógico, pois são um tipo de leitura que agrada ao público infanto -juvenil. Outra vantagem é a de que, por serem bastante dinâmicas, podem abranger a cada história, um novo tema (GIESTA, 2002). Mas, mais do que isso, o trabalho com o texto pode viabilizar a formação de um cidadão mais critico, uma vez que algumas atitudes proporcionadas pelo professor podem levar o aluno a refletir aspectos sociais, tecnológicos, políticos e econômicos (BENJAMIN; TEIXEIRA, 2001). Entretanto, algumas falhas são apontadas na maneira como os professores utilizam o texto em sala de aula. Em seu estudo, que teve como objetivo investigar o uso de textos de diferentes naturezas em aulas de Ciências, Gambarini e Bastos (2006) identificaram que os professores não se preocuparam em levantar os conhecimentos prévios dos alunos para iniciar um assunto ou uma leitura e apontam que foram pouco frequentes as intervenções deles para desenvolver nos alunos as estratégias de compreensão. Destacamos que um recurso, seja ele qual for, somente é útil quando empregado por alguém que conhece bem a ferramenta e sabe fazer bom uso do instrumento (SELBACH; 2010). Frente ao apresentado, o referido trabalho de intervenção e pesquisa tem como objetivo discutir a prática pedagógica de duas professoras, apresentando quais ações didáticas possibilitaram, entre os alunos, a reflexão dos conceitos propostos (Meio ambiente, Reciclagem e Reutilzação) por meio da utilização de História em Quadrinho como estratégia didática no ensino de ciências. METODOLOGIA Este trabalho trata-se do relato de experiência da prática pedagógica de duas professoras, relacionadas ao uso das histórias em quadrinhos no ensino de Ciências. Ele foi 1092

4 realizado na Escola Estadual Professor Francisco Guedelha, situada no município de Botucatu SP, com alunos de três turmas, que continham um total de 46 alunos do sexto ano do ensino fundamental. A Unidade didática em questão teve como proposta central utilizar a história em quadrinho como instrumento para introduzir conceitos relacionados à reciclagem e reutilização, mostrando a importância de ambos por meio de situações cotidianas. A história tem início com os personagens em sala de aula, onde a personagem que representa uma professora explica o que é reciclagem e reutilização, diferenciando-as. Logo após, o personagem principal, que representa um aluno, vai para casa e conversa com sua mãe sobre o que aprendeu e pede para que, daquele momento em diante, ela separe os lixos em recicláveis e não recicláveis. No primeiro momento o objetivo do quadrinho é de explorar os conteúdos conceituais e no segundo momento, é de explorar os conteúdos atitudinais (Apêndice1). A história em quadrinhos foi construída pelas professoras e para confecção do material utilizou-se folha sulfite A3, para que o mesmo ficasse mais visível e organizado, melhorando assim a compreensão dos alunos. Para a realização da arte uma terceira pessoa prestou auxílio, João Theodoro do Marco. As atividades com os alunos se dividiram em dois momentos. No primeiro momento, aplicou-se um questionário, o qual continha três questões sobre o tema (1- O que é reciclagem? 2- O que devemos fazer com produtos recicláveis? 3- Qual a importância da reciclagem?), com a finalidade de levantamento dos conhecimentos prévios dos alunos. A segunda aula, foi dividida em duas partes: na primeira o assunto foi introduzido e conceituado de forma expositiva. Em sequência, a sala foi dividida em duplas e para cada dupla foi entregue uma história em quadrinhos, acompanhada de uma caixa de lápis de cor ou giz de cera. Então, a HQ foi lida em voz alta e logo após discutida, para que os alunos pudessem interagir expressando suas opiniões, para ressaltar a importância desse tema e também para se ter certeza da compreensão de todos. Para finalizar o trabalho, pediu-se para que as duplas pintassem os desenhos, que seriam expostos na feira de ciências da escola. RESULTADOS A leitura e ensino de Ciências estão intrinsecamente ligados e os professores precisam atuar como formadores e mediadores de leitura no espaço escolar, constituindo e construindo sentidos e práticas de leitura (ANDRADE; MARTINS, 2004). Partimos do princípio que neste processo de mediação entre o aluno e o objeto do conhecimento, o professor deve atuar, intencionalmente, como agente cultural externo, 1093

5 possibilitando aos alunos o contato com a realidade científica. Sobretudo nos momentos de leitura o trabalho do professor consiste em ações intencionais que conduzem os alunos à reflexão sobre os conceitos que estão sendo propostos (GASPARIN, 2005). Este foi o caminho que seguimos. Nos quadrinhos, conceitos situações cotidianas foram exploradas ao máximo. O levantamento dos conhecimentos prévios, anterior ao trabalho com as histórias em quadrinhos se mostrou significativo para a confecção da aula, pois direcionou como os assuntos deveriam ser abordados, mostrando quais deles deveriam ser aprofundados e quais não, para que a aula se tornasse interessante e não fosse cansativa. Com a correção do questionário pôde-se perceber que a grande maioria dos alunos tinha um conhecimento alternativo sobre o tema. Algumas das respostas que demonstram isso são: reciclagem é transformar coisas poluentes em coisas não poluentes reciclagem é recolher os lixos das ruas reciclagem é latinha, papelão reciclagem é o lixo reutilizável devemos guardar os produtos recicláveis Com a correção dos questionários pôde-se notar que existiam muitas falhas na escrita e alguns relatos foram impossíveis de serem compreendidos. Porém, mesmo com essa dificuldade, os alunos foram capazes de compreender a história de maneira bastante acelerada, o que deixa claro que a ilustração foi fundamental para isso. Foi possível notar a superação de tais deficiências e a consequente compreensão mais ampliada dos alunos perante o tema, observada pela participação ativa dos alunos nos momento de discussão. Por meio da participação dos alunos na discussão notou-se que os objetivos de introduzir conceitos relacionados à reciclagem e reutilização, além de mostrar a importância de ambos por meio de situações cotidianas, foi alcançado, pois os alunos foram capazes de dar diversos exemplos, definindo assim, cada uma das situações. CONSIDERAÇÕES FINAIS A leitura e a escrita no ensino de Ciências Nigro e Trivelato (2007) são elementos constitutivos da atividade científica uma vez que possibilitam que os seres humanos resolvam problemas, produzam criações, atuem intelectualmente, entre outras atitudes. 1094

6 No entanto, ao se privilegiar esta relação, também necessário reavaliar a atuação do próprio professor. Algumas atitudes proporcionadas pelas professoras se mostraram úteis na proposta de formação de um cidadão mais crítico, como por exemplo, a discussão prévia dos conceitos a serem trabalhados e a utilização posterior de questões dissertativas, levando o aluno a refletir aspectos sociais, tecnológicos, políticos e econômicos levantados pela história em quadrinho como propuseram Benjamin e Teixeira (2001). Ressaltamos, no entanto, que não há uma única proposta metodológica para formar cidadãos críticos, autônomos e participativos, e que o ponto de partida para propostas metodológicas que visem essa formação é a leitura crítica da realidade mais ampla (SANTOS 2011; GASPARIN, 2009), não apenas da sala de aula ou da escola. Entre as demais propostas metodológicas, as histórias em quadrinhos se mostraram uma importante ferramenta para o Ensino em Ciências uma vez que favoreceram a organização dos conteúdos a serem apresentados, facilitaram a compreensão do temas, aumentaram o interesse dos alunos e, principalmente, pois, assim como apontam a literatura da área (NORRIS et al, 2005; MILLAR, OSBORNE, 1998; DOLL JR., 1997), favorecem a apresentação e discussão de conteúdos científicos em um contexto social, histórico e cultural mais amplo. REFERÊNCIAS ANDRADE, I. B.; MARTINS, I. Discursos de Professores de CiênciassobreLeitura. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA, , Jaboticatubas, MG. Disponívelem: <http://www.sbf1.sbfisica.org.br/eventos/epef/ix /sys/resumos/t pdf>. BENJAMIN, A. A. TEIXEIRA, O. P. B. A leitura de um textoparadidáticosobreenergia e meioambiente: análise de umapesquisa. In: NARDI, R. Educaçãoemciências: da pesquisa à práticadocente São Paulo: Escrituras. p BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Parecer CEB n. 15/98, aprovado em 1º de junho de Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 2 de jun. 1998, p. 1-45, 1998a. 1095

7 BRASIL, Ministério da Educação PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS. CIÊNCIAS NATURAIS. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998b. DOLL JR., W. E. Currículo: uma perspectiva pós moderna. Porto Alegre: Artes Médicas, GAMBARINI, C.; BASTOS, F.Autilização do textoescritoporprofessores e alunosnasaulas de ciências. In: NARDI, R.; ALMEIDA, M. J. P. M. (Eds). Analogias, Leituras,Modelos no Ensino de Ciência; a sala de aula emestudo. São Paulo: Escrituras, p GASPARIN, J. L.; Uma didáticapara a PedagogiaHistórico-Crítica. 5. ed. Campinas: AutoresAssociados p. GUSMAN, S. Os quadrinhos a serviço da (boa) educação Disponível em: Acesso em: 18 nov MILLAR, R.; OSBORNE, J. Beyond. 2000: science for the future. London: King'sCollege NIGRO, R. G. TRIVELATO, S. L. F. Uma Avaliação da Aprendizagem de Conhecimentosassociada à Leitura de Textos de Ciências de DiferentesGêneros. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS (ENPEC), VI, 2007, Florianópolis. Anaiseletrônicos... Disponívelem: <http://www.fae.ufmg.br/ abrapec/viempec/>. Acessoem: 11 jan NORRIS, S. et al.a theoretical framework for narrativeexplanation in science. Science Education, v. 89, n. 4, p , RIBEIRO, R. M. L.; MARTINS I. O potencial das narrativas como recurso para o ensino de ciências: uma análise em livros didáticos de Física. Ciênc. educ. (Bauru) vol.13 no.3, Bauru Disponível em: Acesso em: 21 Nov SELBACH, S. (Cood.).Arte e didática.petrópolis: Vozes,

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