Assentamento Americana e Grupo Agroextrativista do Cerrado

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3 UNICOM Universidades e Comunidades no Cerrado Assentamento Americana e Grupo Agroextrativista do Cerrado Uma experiência agroecológica no Norte de Minas Brasília-DF/Grão Mogol-MG 2012

4 Realização: Grupo Agroextrativista do Cerrado (Grão Mogol-MG) Programa Unicom Universidades e Comunidades no Cerrado Projeto Florelos Elos Ecossociais entre as Florestas Brasileiras (ISPN/ União Europeia) ISPN - Instituto Sociedade, População e Natureza Organização, pesquisa, texto, fotos, figuras e ilustrações: Igor Simoni Homem de Carvalho Revisão: Aparecido Alves de Souza e Carlos Alberto Dayrell Diagramação: Fábio Carvalho Agradecimentos: Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM); Cooperativa Grande Sertão; Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP); Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em especial aos Professores Sonia Bergamasco e Mateus Batistella; Instituto de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes); Emater-MG; IEF-MG; Incra; famílias do Assentamento Americana; e toda a população do município de Grão Mogol. Contatos: Este documento é resultado do Projeto FLORELOS: Elos Ecossociais entre as Florestas Brasileiras: Modos de vida sustentáveis em paisagens produtivas, desenvolvido pelo Instituto Sociedade, População e Natureza ISPN e possui o apoio financeiro da União Europeia. Este documento é de responsabilidade do autor não podendo, em caso algum, considerar-se que reflete a posição de seus doadores. Carvalho, Igor Simoni Homem. Assentamento Americana e Grupo Agroextrativista do Cerrado: uma experiência agroecológica no Norte de Minas. Brasília/DF - Grão Mogol/MG. Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN)/Grupo Agroextrativista do Cerrado. Brasil, p. ISBN: Meio ambiente; 2.Cerrado; 3.Minas Gerais; 4.Assentamento; 5.Agroecologia; 6.Agroextrativismo; 7.Agrobiodiversidade; 8.Biodiversidade.

5 Sumário Siglas 7 Apresentação 9 Introdução Cerrado: gente e ambiente 15 Breve histórico da região Norte de Minas 18 Histórico da área do Assentamento Americana 21 O Assentamento Americana A concepção do Assentamento 29 Aspectos ambientais 32 Água no Assentamento 36 Estrutura do Assentamento 38 Quem são as famílias do Assentamento? 40 O Grupo Agroextrativista do Cerrado 42 Práticas agropecuárias e agrobiodiversidade no Assentamento Americana Agrobiodiversidade: o que é? 49 A agrobiodiversidade do Assentamento 50 Sistemas agroflorestais e plantios consorciados 55 Madeiras e lenha 59 Hortas e quintais 60 Adubos e defensivos 62 Práticas agrícolas gerais 63 Fotos e figuras 64 Criação de gado 81 Outras criações de animais 87

6 Espécies nativas 89 Frutas nativas 90 Plantas medicinais 97 Animais silvestres 98 Considerações finais 102 Referências bibliográficas 108 Anexos 1. Pesquisas no Assentamento Americana Tabela da agrobiodiversidade Lista de espécies arbóreas Lista de plantas medicinais Espécies de animais vertebrados Lista de aves Regimento Interno do Assentamento Americana 130

7 Siglas CAA-NM Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas AEFA CAA-NM Área de Experimentação e Formação em Agroecologia do CAA-NM AMDA Associação Mineira de Defesa do Ambiente AME Área de Manejo Extrativista APP Área de Preservação Permanente ATER Assistência Técnica e Extensão Rural CDS-UnB Centro de Desenvolvimento Sustentável CEBs Comunidades Eclesiais de Base Conab Companhia Nacional de Abastecimento CPT Comissão Pastoral da Terra Emater Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural Embrapa Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Fapesp Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo Fetaemg Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais GAC OSCIP Grupo Agroextrativista do Cerrado ICA - UFMG Instituto de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Minas Gerais IDENE Instituto de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas Gerais IEF Instituto Estadual de Florestas Incra Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária Nepam Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais OSCIP Organização da Sociedade Civil de Interesse Público P1MC Programa Um Milhão de Cisternas P1+2 Programa Uma Terra Duas Águas PAA Programa de Aquisição de Alimentos - Conab PDA Plano de Desenvolvimento do Assentamento PEGM Parque Estadual de Grão Mogol PNAE Programa Nacional de Alimentação Escolar - Conab RL Reserva Legal SENAR Serviço Nacional de Aprendizagem Rural STR Sindicato de Trabalhadores Rurais UC Unidade de Conservação UFMG Universidade Federal de Minas Gerais UnB Universidade de Brasília Unicamp Universidade Estadual de Campinas Unimontes Universidade Estadual de Montes Claros Uma experiência agroecológica no Norte de Minas

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9 Apresentação A humanidade está passando por um momento no qual devemos superar a destruição do meio ambiente e as injustiças sociais para estabelecer formas mais harmônicas de relação entre os seres humanos e destes com a natureza. Em todo o mundo, se discute sobre formas de produção de alimentos e outros bens que contribuam, ao mesmo tempo, para uma boa qualidade de vida e para a preservação ambiental. Esta publicação tem como objetivo mostrar e sistematizar o trabalho desenvolvido no Assentamento Americana, localizado no município de Grão Mogol-MG. Este Assentamento surgiu como uma proposta de ocupação sustentável no Cerrado, visando a produção em consonância com a preservação ambiental. O leitor encontrará aqui informações sobre: o contexto e o histórico de implantação do Assentamento; a experiência das famílias que passaram a viver no Assentamento, a partir de 2001; e sobre as ideias e concepções por detrás dessa proposta, que se baseia na agroecologia, no agroextrativismo e no modo de vida tradicional dos Geraizeiros. São apresentadas informações sobre as variedades agrícolas cultivadas no assentamento, e sobre como são estes cultivos: os consórcios, sistemas agroflorestais, ocupação dos diferentes ambientes. São apresentadas ainda informações sobre o uso e manejo de espécies nativas do Cerrado pequi, rufão, coquinho-azedo, plantas medicinais e sobre aspectos relevantes à conservação da biodiversidade no Assentamento e na região. Uma experiência agroecológica no Norte de Minas

10 Grande parte das informações aqui apresentadas foram recolhidas do Plano de Desenvolvimento do Assentamento Americana (PDA), que foi coordenado, em 2002, pelo Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM) e pelo antigo Núcleo de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), hoje Instituto de Ciências Agrárias (ICA). O PDA resultou do trabalho de agricultores e agricultoras do Assentamento, de técnicos, estudantes e professores do CAA- NM, da UFMG e de entidades parceiras (STR de Grão Mogol, CPT, Unimontes, Incra). O PDA é a base desta publicação. Informações de outras pesquisas, algumas concluídas e outras em andamento, são também apresentadas neste trabalho. Após trabalhar, por dois anos, como técnico do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) em Brasília-DF, conheci o Assentamento Americana em visitas de campo do mestrado (Carvalho, 2007). Por mais dois anos, mantive relações de trabalho e pesquisa com o Grupo Agroextrativista do Cerrado, com o CAA-NM e com a Cooperativa Grande Sertão. Em 2009, ingressei no doutorado 1, elegendo o Assentamento Americana como foco central de minha pesquisa. A maior parte das informações aqui apresentadas foi levantada ao longo de sete anos de pesquisa e trabalho no Assentamento Americana. Foram muitas visitas, entrevistas e participação em reuniões e outras atividades. Seria impossível listar todas as pessoas que contribuíram respondendo a questionários, fornecendo informações, indicando caminhos. 1 Doutorado Interdisciplinar em Ambiente e Sociedade, Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 10 Assentamento Americana e Grupo Agroextrativista do Cerrado

11 Deixo aqui meu profundo agradecimento a todas elas. É importante destacar também o apoio do ISPN, pelo programa Unicom (Universidades e Comunidades no Cerrado) e pelo projeto Florelos (Elos Ecossociais entre as Florestas Brasileiras). Sem este apoio, não teria sido possível a realização deste trabalho. Este trabalho é voltado a todos os públicos, mas, em especial, para aqueles que se interessam pela natureza e pela produção no Cerrado. Esperamos que sua leitura estimule reflexões e práticas que contribuam à conservação dos ecossistemas do Cerrado e a formas de produção e manejo que beneficiem toda a sociedade. Boa leitura! Igor S.H. de Carvalho Uma experiência agroecológica no Norte de Minas 11

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13 Introdução

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15 Cerrado: gente e ambiente O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul: sua área original corresponde aproximadamente a dois milhões de hectares no Brasil, e pequenos territórios na Bolívia e Paraguai. Por detrás de sua vegetação incomum árvores tortas, troncos de casca grossa e folhas espessas está uma riqueza inestimável. Estudos apontam para a existência, no Cerrado, de um total de espécies de vertebrados terrestres (mamíferos, aves, répteis e anfíbios), sendo 117 endêmicas, ou seja, espécies que não ocorrem em nenhum outro lugar do mundo; e cerca de 10 mil espécies de plantas vasculares, sendo endêmicas. Isso sem contar as milhares de espécies de insetos, peixes, fungos, vegetais nãovasculares e microorganismos... (Alho, 2005). Não à toa, o Cerrado é considerado a savana mais biodiversa do planeta. O Cerrado é chamado também de o berço das águas, pois é nele que nasce grande parte dos rios das principais bacias da América do Sul: do São Francisco, do Prata (incluindo toda água do Pantanal) e grande parte da amazônica (Tocantins, Araguaia, Xingu, Tapajós). Além disso, a vegetação do bioma PARA SABER MAIS: Existem muitos estudos e textos que falam sobre o Cerrado suas riquezas (biodiversidade, água, comunidades e culturas) e a degradação que vem sofrendo. Listamos aqui duas publicações que contêm diversos artigos escritos por alguns dos principais pesquisadores do Cerrado, e que fornecem uma visão ampla sobre o bioma: SANO, Sueli. M.; ALMEIDA, Semíramis P (orgs). Cerrado: ambiente e flora. Planaltina-DF: Embrapa Cerrados, SCARIOT, Aldicir; SOUSA-SILVA, José C.; FELFILI, Jeanine M (orgs). Cerrado: ecologia, biodiversidade e conservação. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, Uma experiência agroecológica no Norte de Minas 15

16 cumpre importante papel na absorção e retenção de CO 2. A maior parte do carbono se acumula sob o solo, especialmente nas raízes das árvores do Cerrado, que muitas vezes possuem biomassa duas vezes superior que a da parte aérea (tronco, galhos, folhas e frutos). Por isso, muitas vezes o Cerrado é conhecido como uma floresta de cabeça pra baixo. Mas as riquezas do Cerrado não se resumem aos importantes serviços ambientais que ele promove: água, biodiversidade e carbono. O Cerrado também abriga grande riqueza cultural: das diversas etnias indígenas que habitam o bioma há milênios, como os Xavante, os Timbira e os Xacriabá; e das populações tradicionais seculares Quilombolas, Caipiras, Vazanteiros, Geraizeiros. Estes povos, devido ao relativo isolamento e à necessidade de sobrevivência a partir dos recursos locais, aprenderam a conviver com os ecossistemas do Cerrado, praticando uma agricultura de pequena escala, complementada pela criação de animais e pelo extrativismo 2. São muitos os produtos do extrativismo no Cerrado. Dentre os frutos, temos, por exemplo, o pequi (Caryocar brasiliense), o buriti (Mauritia flexuosa), o baru (Dypterix alata) e o babaçu (Orbignya phalerata). Temos ainda inúmeras plantas medicinais, como a sucupira, o barbatimão, o pacari e a arnica. Outras plantas são usadas para a confecção de artesanato e utilitários, como o capimdourado e outras plantas da família das sempre-vivas. Além disso, temos o extrativismo de madeiras, usadas, por exemplo, na 2 Extrativismo é a coleta de produtos diretamente da natureza, produtos estes que não foram cultivados por nenhum ser humano. O extrativismo pode ser predatório, quando a coleta é superior à capacidade de recuperação natural; ou sustentável, quando a quantidade coletada é inferior à capacidade de regeneração do recurso explorado. 16 Assentamento Americana e Grupo Agroextrativista do Cerrado

17 construção de casas e cercas; e de lenha, produto indispensável na zona rural. Até mesmo os capins nativos, comidos pelo gado que é criado solto em áreas de Cerrado, podem ser considerados produtos do extrativismo vegetal no bioma. Apesar dessa grande riqueza, nas últimas décadas o Cerrado vem sendo devastado em um ritmo talvez nunca antes visto em outros biomas do planeta. A partir da década de 1970, a vegetação de árvores tortas passa a ser substituída por grandes monoculturas de soja, milho, eucalipto, cana, algodão, capim. A expansão urbana e de obras de infra-estrutura, como estradas e barragens, também contribuem significativamente para a degradação do Cerrado. E as populações camponesas e indígenas passam a ser expropriadas de suas terras, agravando a pobreza e aumentando o êxodo rural. As consequências deste processo são drásticas: secamento de córregos e nascentes, assoreamento de rios, degradação dos solos, perda de biodiversidade, perda do conhecimento associado aos ecossistemas, aumento das desigualdades sociais e econômicas (Mazzetto-Silva, 2009). Tal modelo de produção responde às demandas do mercado global e à agenda política do crescimento econômico a qualquer custo. No entanto, é cada vez mais evidente sua insustentabilidade. Então, qual seria a alternativa a este modelo? É possível produzir e preservar ao mesmo tempo? É possível gerar benefícios sociais e econômicos para as populações do Cerrado e para a sociedade em geral, enquanto sua biodiversidade e seus recursos naturais sejam conservados? Este material visa contribuir para responder essa questão, apresentando a experiência do Assentamento Americana e do Grupo Agroextrativista do Cerrado, em curso no município de Grão Mogol-MG, meso-região Norte de Minas. Uma experiência agroecológica no Norte de Minas 17

18 Breve histórico da região Norte de Minas As populações camponesas do Norte de Minas têm origem na mistura dos indígenas, que já habitavam a região há milênios, com negros e brancos que começaram a chegar na região a partir do século XVII, inseridos no processo de colonização estimulado pela busca por metais preciosos bandeirantes que vinham de São Paulo e pela ocupação das extensas pastagens nativas por criadores de gado vindos do nordeste do Brasil. Ao longo de três séculos, estas populações ocuparam os diversos ecossistemas da região, desenvolvendo modos de vida marcados pelo uso comum dos recursos naturais, pelo aproveitamento da biodiversidade nativa, pela criação de gado na solta e pelo cultivo em sistema de pousio (rotativo), que permitia a recuperação dos solos por até 10 anos. Às populações que ocupam as áreas de Cerrado, ou seja, os Gerais, dá-se o nome de Geraizeiras, ou também Geralistas. Estas populações não viviam totalmente isoladas: comercializavam excedentes nas feiras das cidades e povoados mais próximos, e dependiam de alguns recursos que não podiam produzir, como o sal. Por outro lado, aprenderam a produzir e extrair da natureza a maior parte daquilo que necessitavam, utilizando tecnologias simples e conhecimentos sobre o ambiente que habitavam, muitos deles herdados dos indígenas. Valiam-se também de relações de solidariedade e reciprocidade, estabelecidas nos laços de parentesco e compadrio e nas trocas de alimentos, sementes e dias de trabalho. A partir da década de 1960, porém, a realidade do Norte de Minas começa a mudar. Grandes empresas, incentivadas por políticas governamentais, passam a ocupar terras para implantação de grandes projetos econômicos. Muitas destas terras, apesar de já serem ocupadas e utilizadas pelos camponeses locais, não eram tituladas, e foram expropriadas de seus verdadeiros donos a favor das empresas, em nome do progresso. As 18 Assentamento Americana e Grupo Agroextrativista do Cerrado

19 áreas de Cerrado, as extensas chapadas dos Gerais, passaram a ser ocupadas, principalmente, por grandes monoculturas de eucalipto, destinadas à produção de carvão para a atividade siderúrgica de Minas Gerais. As consequências mais visíveis deste processo são a perda da biodiversidade e o secamento de córregos e nascentes, com impactos diretos na reprodução sócioeconômica das populações rurais da região, aprofundando as desigualdades sociais e o êxodo rural (Mazzetto-Silva, 1999; Luz & Dayrell, 2000; Nogueira, 2009). Com o fim da ditadura militar, retoma-se na região a organização política do campesinato, liderada por organizações progressistas da igreja católica Pastorais e Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) culminando na fundação de associações comunitárias, Sindicatos de Trabalhadores Rurais (STRs) e do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA- NM). Desde meados da década de 1980, o CAA-NM atua em prol dos camponeses norte-mineiros, incluindo: assessoria técnica e formação em agroecologia; valorização de suas culturas tradicionais; estímulo à sua participação política; e apoio à luta pela (re)conquista do acesso à terra, água e biodiversidade. PARA SABER MAIS: O termo agroecologia vem da união das palavras agricultura + ecologia, mas hoje significa mais do que simplesmente uma agricultura ecológica, podendo significar também uma ciência e um movimento social, abrangendo questões políticas, sociais e econômicas, e uma crítica severa ao modelo de desenvolvimento capitalista. Alguns autores que escrevem sobre a Agroecologia são Eduardo Sevilla-Guzmán, Miguel Altieri e Francisco Roberto Caporal. No Brasil, diversas organizações trabalham com práticas, movimentos e pesquisas agroecológicas, e se agrupam por meio da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). Mais detalhes em www. agroecologia.org.br. A partir do trabalho do CAA-NM, que também busca alternativas econômicas para os camponeses, foi fundada, em 2003, a Cooperativa dos Agricultores Familiares e Agroextrativistas Grande Sertão Ltda., ou, simplesmente, Cooperativa Grande Sertão, que envolve cerca de 200 comunidades do Norte de Minas, dentre elas, o Assentamento Americana, localizado no município de Grão Mogol (Figura 1, pag. 20). Uma experiência agroecológica no Norte de Minas 1

20 Figura 1. Localização da meso-região Norte de Minas e do município de Grão Mogol em relação ao Brasil e América do Sul. PARA SABER MAIS: O município de Grão Mogol pertence à meso-região Norte de Minas, mas faz parte da bacia hidrográfica do rio Jequitinhonha, abrigando um de seus principais afluentes: o rio Itacambiruçu. O relevo é formado por um trecho da Cadeia do Espinhaço (conhecido localmente como Serra da Bocaina ou Serra Geral), margeado por extensos chapadões. Grão Mogol é conhecido como o diamante do sertão norte-mineiro, devido às suas riquezas históricas e naturais. O local começou a ser ocupado no século XVIII, por meio do garimpo de diamante, e hoje conta com cerca de 15 mil habitantes, sendo a maioria residente na zona rural. Destaca-se como um dos principais pólos turísticos do Norte de Minas, sendo seus principais atrativos: as belas construções de pedra (foto 1), suas cachoeiras (foto 2), e sua rica biodiversidade, que inclui a espécie de cacto endêmica Discocactus horstii. Mais informações sobre a história e a natureza de Grão Mogol podem ser encontradas, por exemplo, nas seguintes publicações: Parrela, Ivana D. O teatro das desordens: garimpo, contrabando e violência no sertão diamantino São Paulo: Annablume; Belo Horizonte: Fapemig, 2009, 178p. Pirani, J.R.; Mello-Silva, R.; Giulietti, A.M. Flora de Grão-Mogol, Minas Gerais, Brasil. Boletim de Botânica da Universidade de São Paulo, v.21(1), 2003, p E também no vídeo-documentário: De Grão em Grão. Vídeo-documentário, Brasil, Grão Mogol-MG, Digital, 60 min. Direção e roteiro: Frederico Borges; Produção: Deleni Arruda, Kátia Oliveira e Terezinha Paulino; Edição: Daniel Roscoe; Trilha sonora: Luciano Paco. (pedidos pelo uol.com.br) 20 Assentamento Americana e Grupo Agroextrativista do Cerrado

21 Histórico da área do Assentamento Americana Inserida no contexto de formação social, econômica e cultural do Norte de Minas, a área hoje ocupada pelo Assentamento Americana abrigou a formação de diversas comunidades rurais, como o Sossego, o Miguel e a Boa Vista. Até hoje, a maioria das localidades recebe seus antigos nomes. As famílias que aí viviam plantavam roça, criavam gado, e aproveitavam as frutas nativas. Existiam também grandes fazendas, mas grande parte da terra era de uso comum, sem um controle rígido por parte de seus proprietários. Daí se usa a expressão criar gado na solta, ou na larga, que significa que o gado pastava livremente pelos campos e cerrados naturais, sendo depois campeado por seus donos e por vaqueiros. Nessa área, existiam também inúmeras lagoas, e a vegetação era mais vigorosa do que é hoje. Em meados da década de 1970, a empresa Florestas Rio Doce, extinta subsidiária da antiga empresa estatal Vale do Rio Doce, passou a comprar terras em toda a região, com o objetivo de produzir carvão para as siderúrgicas de Minas Gerais. Em muitas fazendas adquiridas pela empresa, iniciou-se o plantio em larga escala do eucalipto e do Pinus. Em poucos anos, tais monoculturas dominaram extensas áreas do município (Figura 7, pág. 68), excluindo os pequenos proprietários e desestruturando as estratégias produtivas camponesas. Na elaboração do PDA do Assentamento Americana, foram recolhidos depoimentos de moradores antigos da região, que relatam os prejuízos da restrição do acesso às terras de Uma experiência agroecológica no Norte de Minas 21

22 chapada para a criação do gado na solta, para o extrativismo e para a caça: O prejuízo maior nosso foi na pecuária. Quando pai comprou o terreno, em 1964, só em 1972 é que pai veio morar. Nós saía de lá e ia até o Pulo, via mais de 200 criação na chapada. Hoje não vê nada. Quando tinha o pequizeiro, tinha o Jadir que fazia a vida dele no piqui. Acabou tudo. A madeira, quando a chapada era dos do lugar, podia pegar à vontade. Hoje num pode tirar mais. E onde é das firma, num pode porque elas mudou de plantação. E onde num mudou, num pode tirar. Com o desmatamento ficou tudo muito difícil, até para os bichinhos do mato. (...) Tinha várias caças, mas hoje, com este desmatamento, com este eucalipto, já ficou mais difícil, já fracassou muitos bichos (...) O que arrasou mesmo foi o desmatamento. Na Fazenda Americana, não houve um plantio massivo de eucalipto, mas foi realizada a extração de madeira nativa para a produção de carvão, com machados e motosserras, e o plantio de capim em algumas áreas. Um dos assentados conta que, em 1982, 26 operadores de motosserra atuavam simultaneamente na Fazenda. A exploração chegou a ter regime de manejo aprovado pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), em Entretanto, a fiscalização era precária, e somente entre 20 e 30% das árvores foram poupadas do corte. 22 Assentamento Americana e Grupo Agroextrativista do Cerrado

23 A partir do início da exploração madeireira na região, começou um intenso processo de diminuição da disponibilidade de água no local: muitas lagoas secaram, e as chuvas diminuíram. A Sra. Maria Gonçalves Pereira dos Santos, nascida em 1932 e antiga moradora da comunidade Canivete, relata um pouco do processo: De 1975 pra cá, que deu uma crise horrorosa, mudou muitas coisas... (...) Tinha (mais chuva). (...) Essas cabeceiras aqui era tudo pindaíba, tudo era lagoa. (...) agora (está) tudo seca. Era tudo de peixe! Mas o povo botou fogo, botou fogo... (...) Elas (as árvores) eram mais verdes. Mais conservada. Porque a natureza não era cultivada desse jeito que está agora não... Tudo era beleza, tudo guardava umidade. As coisas dava mais. Dava mais milho, mais feijão, dava mandioca, dava cana, bastante. Foi o fogo! O que acabou com a água foi o fogo! Punha o fogo lá, o fogo descia. (...) deixa tudo no pó! Ali onde era umas roça, ali ficou trinta dias queimando o chão, que se a gente pisasse atolava a perna e queimava ainda. Uma menina lá de perto de casa queimou, enfiou a perna e queimou o pé dela tudo. O fogo é apontado, por diversos moradores e trabalhadores antigos da região, como fator crucial na diminuição das águas e na destruição ambiental. Um morador antigo do lugar, hoje assentado, também dá o seu relato: O maior estrago (na área do Assentamento) quem fez foi a Vale do Rio Doce desmate e fogo. Onde firma mexe, acontece tudo de ruim. Antes o fogo não subia como hoje. Aqui era escuro Uma experiência agroecológica no Norte de Minas 23

24 (devido à vegetação alta). Gado era só na solta. Capim era verde sequiságua (na época da seca e na época das chuvas). Não precisava de adubo, chovia muito. O corte de árvores na Fazenda Americana durou até meados de A partir do início da década de 1990, a Fazenda Americana foi praticamente abandonada: os fornos foram desativados e os equipamentos foram desmontados. Informalmente, a Fazenda passou a ser utilizada como pasto para o gado de vizinhos. A partir de 1997, com a privatização da Vale do Rio Doce, a empresa passa a leiloar várias de suas fazendas na região só no município de Grão Mogol eram 17, dentre elas, a Fazenda Americana. Assim que a notícia foi divulgada, em 1998, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Grão Mogol solicita a orientação da Fetaemg (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais) sobre como reivindicar a criação de um assentamento no local. Após a realização de uma assembléia com quase 400 participantes e a produção de um extenso abaixo-assinado, o STR de Grão Mogol encaminha a solicitação ao Incra. Houve também, neste momento, uma articulação da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (AMDA), junto ao IEF (Instituto Estadual de Florestas), para incorporar a área da Fazenda no recém-criado Parque Estadual de Grão Mogol, porém sem sucesso. O primeiro laudo do Incra foi desfavorável à criação do Assentamento, alegando baixa qualidade do solo. Além disso, a Prefeitura de Grão Mogol emitiu ao Incra, nesse momento, uma declaração alegando não existirem sem-terras na região. O STR acionou então o apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e 24 Assentamento Americana e Grupo Agroextrativista do Cerrado

25 do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA- NM). A CPT e o CAA-NM já estavam envolvidos, desde a década de 1980, na luta camponesa pela terra, e no reconhecimento e valorização dos povos tradicionais do Norte de Minas. Merece destaque a luta geraizeira e agroextrativista pela implantação, no município vizinho de Riacho dos Machados, do Assentamento Tapera, importante fonte de conhecimento e inspiração para o Assentamento Americana. O CAA-NM e o Incra fizeram então nova vistoria no local, procurando identificar os modos de produção dos moradores antigos e atuais do local. Foi emitido um novo laudo, desta vez recomendando a implantação do assentamento, referenciado no modo de vida Geraizeiro e nos princípios do agroextrativismo e da agroecologia. Em 2001, estava criado o Assentamento Americana, e no início de 2002 foram legitimadas as primeiras famílias em seus lotes. No dia 21 de abril de 2002, foi fundada a Associação dos Assentados da Fazenda Americana, que é a instituição que representa as famílias assentadas perante os órgãos públicos e a sociedade civil. Uma experiência agroecológica no Norte de Minas 25

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27 O Assentamento Americana

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29 A concepção do Assentamento Americana O Assentamento Americana abriga uma proposta diferenciada de assentamento rural, na qual a viabilidade econômica e ambiental passa pelo agroextrativismo, ou seja, pela complementaridade entre atividades agro-pastoris e o uso da biodiversidade nativa. Dessa forma, de seus hectares, 24% é destinado à Reserva Legal, 34% aos lotes e os outros 42% correspondem à Área de Manejo Extrativista (AME), de uso coletivo (Figura 2). São 76 lotes, com tamanhos que variam entre 47 e 164 hectares, sendo a média de 78 hectares. O Assentamento engloba localidades conhecidas por diferentes nomes, usados há muitas décadas pelos moradores da região: Sapé, Miguel, Barreiro, Garça, Boa Vista, Branca, Sossego, Largo. Figura 2: Planta básica do Assentamento Americana, mostrando as áreas destinadas aos lotes, manejo extrativista e Reserva Legal. São mostrados também os nomes das diferentes localidades do Assentamento. Uma experiência agroecológica no Norte de Minas 29

30 A proposta do Assentamento Americana está detalhada no Plano de Desenvolvimento do Assentamento (PDA), que foi elaborado em 2002 pelo CAA-NM junto ao Núcleo de Ciências Agrárias da UFMG, e contou com a participação direta de assentados que já ocupavam a área nessa época e com o apoio de diferentes organizações: CPT, STR de Grão Mogol, Incra, Unimontes. Tal proposta tomou como base o modo de vida Geraizeiro, investigando o uso da terra historicamente praticado na área do Assentamento e suas redondezas, e identificando as diferentes potencialidades de cada ambiente, dos tipos de solo e da biodiversidade nativa. PARA SABER MAIS: O Plano de Desenvolvimento do Assentamento (PDA) reúne os elementos essenciais para o desenvolvimento dos Projetos de Assentamentos de Reforma Agrária, em estrita observância à diversidade de casos compreendida pelos diferentes biomas existentes, com destaque para os seus aspectos fisiográficos, sociais, econômicos, culturais e ambientais, sendo instrumento básico à formulação de projetos técnicos e todas as atividades a serem planejadas e executadas nas áreas de assentamento (Resolução Conama Nº 387, de 27 de Dezembro de 2006). A normatização das recomendações do PDA está no Regimento Interno do Assentamento Americana (Anexo 7, pág. 130), aprovado em assembleias da Associação realizadas em outubro de 2002 e junho de O Regimento regula a gestão, uso e ocupação dos lotes familiares, das áreas coletivas de manejo extrativista e Reserva Legal, instituindo normas para o trabalho nos lotes, tais quais: obedecer critérios de conservação dos solos e curvas de nível; não usar o fogo (exceto em queimadas controladas quando necessárias); não utilizar adubos químicos nem agrotóxicos; não realizar gradagens ou arações em áreas como 30 Assentamento Americana e Grupo Agroextrativista do Cerrado

31 brejos ou nascentes; produzir carvão somente no aproveitamento da lenha oriunda das roças e pastos. A Reserva Legal coletiva do Assentamento foi estabelecida em áreas de nascentes e com boa representatividade da flora local. Somente em 2012 sua averbação foi concluída junto ao IEF. O Regimento recomenda deixar ainda faixas de vegetação nativa em todos os lotes, equivalendo a cerca de 30% da área de cada um, permitindo assim o deslocamento de espécies da fauna pelos lotes. Para as Áreas de Manejo Extrativista, o Regimento Interno estabelece a proibição da produção de carvão e da caça, apontando que elas se destinam a: criação de gado, obedecendo a capacidade de suporte; coleta de frutos, plantas medicinais e lenha seca, e captura de abelhas para criação; e extração seletiva de madeira, sob a supervisão da diretoria da Associação, e somente para uso interno. O Regimento Interno visa contribuir para uma exploração mais racional e adequada dos lotes e das Áreas de Manejo Extrativista, visando a maior sustentabilidade econômica e ambiental do Assentamento. A implantação destas normas deve ser feita com apoio do órgão de Assistência Técnica e Extensão Rural 3 (ATER), mas depende também da compreensão e do comprometimento de cada família. Espera-se que, com o desenvolvimento da produção no Assentamento, seja revelada a utilidade destas normas, e sua adoção seja consolidada em todos os lotes. 3 Até março de 2012, a ATER oficialmente do Assentamento Americana era responsabilidade da Emater, sendo assumida então pelo CAA-NM. Uma experiência agroecológica no Norte de Minas 31

32 Aspectos ambientais A área do Assentamento Americana fica ao norte do município de Grão Mogol, próximo ao município de Riacho dos Machados (Figura 3), inserido em um extenso chapadão que margeia a Serra da Bocaina pelo seu lado oeste. Grande parte do espigão desta Serra está inserida, desde 1998, no Parque Estadual de Grão Mogol (PEGM), de 28,4 mil hectares. Figura 3. Localização do município de Grão Mogol em relação à meso-região Norte de Minas, com destaque para as áreas do Assentamento Americana e do Parque Estadual de Grão Mogol (PEGM). 32 Assentamento Americana e Grupo Agroextrativista do Cerrado

33 A maior parte do Assentamento está coberta por vegetação nativa, sendo 85% de vegetação de Cerrado: cerrado sensu strictu (predominante), campo sujo, campo limpo, cerradão e algumas áreas de mata ciliar, brejos e várzeas (Foto 4, pág. 67, e Figura 8, pág. 69). Há ainda algumas áreas de transição para a Caatinga, com presença de carrascos, e cerca de 8% de mata seca (floresta caducifólia), presente exclusivamente em áreas do Largo e do Sossego. Nas áreas mais antropizadas, tem-se a presença de pastos plantados com capins exóticos e ainda 7ha de plantação de Pinus sp. (CAA-NM & UFMG, 2002; Maciel & Carvalho, 2009). Cada lote do Assentamento possui diferentes ambientes, de forma a contemplar todos os usos previstos em sua concepção. As três unidades ambientais básicas são: baixada, tabuleiro e chapada (Figura 4). A chapada é utilizada mais para solta de gado e extrativismo. É no tabuleiro e na baixada que se plantam os cultivos alguns deles estão melhor adaptados a um ou ao outro ambiente, mas muitos podem ser cultivados nos dois. Chapada: extrativismo, gado Tabuleiro: casa, quintal, pomar, pequenas criações, horta, SAFs, abacaxi Baixada: cana, milho, mandioca, banana, araçá, SAFs Figura 4: Visualização, em perfil, dos três principais ambientes presentes em cada lote do Assentamento Americana. Esta figura é meramente ilustrativa, e não obedece às proporções reais. A baixada, chamada também de baixa ou vazante, possui solo mais fértil (organossolo mésico e gleissolo melânico), que Uma experiência agroecológica no Norte de Minas 33

34 viabiliza a produção de culturas mais exigentes, como milho, cana e capins de corte (capineiras). Aí também se planta mandioca, feijão, banana e abacaxi. Em alguns lotes, onde as áreas de baixada são mais úmidas ou encharcadas, algumas famílias cultivam arroz, mas vêm tendo dificuldades por causa do ataque de passarinhos e capivaras, e pela degradação causada aos brejos. Mesmo assim, pode ser viável a produção de variedades de arroz de sequeiro em alguns lotes. Nas baixadas se encontra espécies nativas como o araçá, o maracujá-nativo, a pindaíba e a aroeirinha. Brejos, várzeas, córregos e matas de galeria são também encontradas nas áreas de baixada de alguns lotes. Utiliza-se também a denominação de vereda para estas áreas. O manejo agrícola nas baixadas deve ser especialmente cuidadoso, evitando-se o uso de máquinas pesadas e mesmo a solta do gado. Além das APPs (faixas de 30m de vegetação nas margens de nascentes, brejos, córregos e lagoas), o Regimento Interno recomenda deixar faixas de 30 a 50m de largura entre a baixada e o tabuleiro. O tabuleiro é a encosta que liga a baixada à chapada, com Relevo Suave Ondulado (declividade geralmente menor que 10%). É onde se instalam a casa, o quintal, o pomar, a horta, as criações de pequenos animais (galinha, porco, cabras) e o curral. Os solos do tabuleiro (latossolos vermelho-amarelo distrófico de textura média) são apropriados para muitos cultivos: abacaxi, andu, urucum, mandioca, feijão etc. Espécies nativas comumente encontradas aí são angico, pequi, sucupira e embiruçu. A chapada corresponde à maior parte de cada lote. É a parte alta do terreno, sendo em geral plana ou com declive muito suave. 34 Assentamento Americana e Grupo Agroextrativista do Cerrado

35 Os solos da chapada, apesar de também serem classificados como latossolos vermelho-amarelo, são diferenciados dos tabuleiros no uso agrícola. Os Geraizeiros, tradicionalmente, usam a chapada para o extrativismo de frutas, plantas medicinais, lenha e madeira e para a solta do gado, que aí aproveita sua forragem nativa. Os solos são considerados fracos, e pouco aptos para o plantio da maioria dos cultivos, mas adequados ao plantio de capins como braquiária. Em alguns lotes, há áreas de declive acentuado com presença marcante de cascalho, onde também sobrevivem diversas espécies do Cerrado, inclusive capins. A chapada é considerada também a caixa d água do Cerrado, pois é nela que infiltra a maior parte da água das chuvas, contribuindo para a manutenção e recuperação do lençol freático, de nascentes, rios, córregos e lagoas. As áreas de chapada correspondem à maior parte do Assentamento Americana, sendo cobertas principalmente por cerrado sensu stricto, campo sujo e cerradão. Nela se encontram diversas espécies nativas: barbatimão, cagaita, jatobá, pau-santo, pequi, rufão, tingui, vinhático. O Regimento Interno recomenda deixar, nas áreas de chapada dos lotes, faixas de vegetação nativa de 10m de largura em curvas de nível nas áreas de chapada, a cada 70 ou 100m, além de faixas de 50m na divisa de um lote com o outro (estas englobam também trechos de tabuleiro e baixada). Estas faixas formam corredores ecológicos, permitindo o fluxo genético de espécies nativas e contribuindo à conservação da biodiversidade e ao equilíbrio dos ecossistemas. Uma experiência agroecológica no Norte de Minas 35

36 Água no Assentamento Americana A área do Assentamento Americana é marcada pela presença de lagoas e brejos, que são afloramentos do lençol freático e se configuram em nascentes, que: vertem para o norte, abastecendo o rio Vacaria, que deságua no rio Jequitinhonha; e que vertem para o sul, formando o córrego Extrema, que deságua no rio Itacambiruçu, outro tributário do Jequitinhonha. Até os anos 1970, estas lagoas do Miguel, das Pedras, Americana, Mutuca, Marruaz, Branca, Boa Vista, dos Porcos, Garça e Nova (foto 3) eram perenes, e atraiam moradores de toda a região para a pesca, segundo diversos relatos. Progressivamente, muitas dessas lagoas e brejos foram secando, ou se tornando intermitentes. Em alguns casos, foram construídas barragens para segurar a água por mais tempo. Atualmente, há pouca disponibilidade de água superficial no Assentamento, e todo cuidado deve ser tomado para evitar o secamento das nascentes, lagoas e córregos remanescentes. Felizmente, o Assentamento conta com boa quantidade de água subterrânea. Foram implantados quatro poços artesianos (poços tubulares profundos), com vazão suficiente para uso doméstico das famílias. A água destes poços é lançada para caixas d água e distribuída às casas por encanamento. Contudo, o valor do litro d água cobrado é considerado muito alto pelas famílias assentadas, impedindo a utilização desta água na irrigação de cultivos. Além disso, é importante que o uso da água subterrânea seja menor que a capacidade de recarga do lençol freático, para que 36 Assentamento Americana e Grupo Agroextrativista do Cerrado

37 seja sustentável. Alguns assentados mantêm ainda, em seus lotes, cisternas perfuradas nas áreas de baixada, para uso complementar. A alternativa mais sustentável para complementação da disponibilidade hídrica tem sido a captação e armazenamento da água da chuva, por meio de cisternas de placas de cimento e estrutura de ferro, construídas por meio dos programas P1MC e P1+2 Programas 1 milhão de cisternas e uma terra e duas águas 4. As cisternas caseiras, de 16 mil litros, captam água do telhado para ser usada na cozinha (Foto 18, pág. 76). Já as cisternas calçadão (Foto 19, pág. 76) armazenam até 52 mil litros de água, que é usada para irrigação de hortas e dessedentação de animais. O calçadão é uma área cimentada de 200m², por onde é captada a água. É possível encher uma cisterna dessas com apenas 350mm de chuvas. Como na região do Assentamento Americana incidem de 800 a 1000mm de chuvas anuais, as cisternas calçadão podem promover uma disponibilidade de mais de cem mil litros de água por família/ano. Além disso, os calçadões podem ser usados para secagem de produtos agrícolas no período da seca. Todos os membros do Grupo Agroextrativista já contam com suas cisternas de placas. Boa parte dos outros assentados também já tem as suas, sendo que alguns dispõem de cisternas de plástico. Alguns assentados trabalham ainda como pedreiros e mobilizadores dos programas P1MC e P1+2. O cuidado com os recursos hídricos do Assentamento Americana é um grande desafio, exigindo o esforço de todos, principalmente através da preservação e recuperação da 4 Mais detalhes na página da ASA Articulação do Semi-Árido: Uma experiência agroecológica no Norte de Minas 37

38 cobertura vegetal. Caso sejam seguidas as recomendações do PDA e do Regimento Interno, no sentido de manter a vegetação nativa das chapadas e deixar faixas de vegetação nos lotes e nas margens de corpos d água, espera-se um aumento da disponibilidade de água superficial e de umidade nos solos do Assentamento. Alguns assentados são confiantes quanto a essa possibilidade, e um deles diz: Você sabe que é possível voltar a água. Não passa mais a roçadeira naquela manga na área da sede, não deixa o fogo pegar mais faz um trabalho desse, deixando faixas, deixando o que tem e introduzindo mais. Estrutura do Assentamento Americana O Assentamento Americana é cortado pela BR 251, rodovia de intenso movimento de carretas, e umas das principais ligações entre o Sudeste e o Nordeste do Brasil. A rodovia MG-120, principal acesso a Riacho dos Machados, atravessa um pequeno trecho do Assentamento. Passam pelo Assentamento também três estradas com revestimento primário que ligam à sede do município de Grão Mogol. Uma rede interna de estradas sem revestimento dá acesso a todos os lotes. A maior parte delas está em bom estado de conservação, principalmente pelo fato do relevo predominante ser plano, e por não serem estradas de movimento muito intenso. Nos trechos com declividades acentuadas, há risco ou incidência de erosões, sendo importante a implantação de barraginhas 38 Assentamento Americana e Grupo Agroextrativista do Cerrado

39 nas laterais da estrada. Estes tanques de retenção de água, além de evitarem enxurradas, contribuem para a recarga do lençol freático e para a recuperação de córregos e nascentes. Entretanto, uma das principais carências do Assentamento é relativa ao transporte. As linhas de ônibus municipais operam poucos dias por semana, e passam longe de muitos lotes, assim como os ônibus escolares. O deslocamento interno no Assentamento é penoso: alguns assentados chegam a ter que pedalar por duas horas para chegar à sede do Assentamento e participar das reuniões da Associação. Uma melhoria nos transportes é uma das principais reivindicações dos assentados para melhorar a estrutura do Assentamento. Outra reivindicação é por escolas dentro do Assentamento: as crianças, jovens e adultos têm que freqüentar escolas de outras comunidades, da sede de Grão Mogol ou de municípios vizinhos. É importante também que as escolas ofereçam ensino de qualidade, com materiais e metodologias adequadas à realidade da região, como a Escola Geraizeira 5, proposta que já operou no Assentamento Tapera. O crédito habitação, que deveria ser liberado pelo Incra no primeiro ano do Assentamento, para construção de casas para as famílias assentadas, só foi liberado em 2011 e Até então, muitas famílias viviam em construções precárias. Por outro lado, 5 Detalhes sobre a Escola Geraizeira estão no documento: Associação dos Assentados Nossa Senhora das Oliveiras do Assentamento Tapera; Prefeitura Municipal de Riacho dos Machados. Escola Rural Geraizeira: histórico e projeto político-pedagógico. Riacho dos Machados-MG, Julho de Uma experiência agroecológica no Norte de Minas 39

40 os assentados consideram falho o projeto padrão de casa de alvenaria, exigido pelo Incra. Reivindicam, assim, a possibilidade de uso de materiais alternativos por exemplo, tijolos de adobe e que o projeto contemple construções adicionais, especialmente fogão de lenha na cozinha e áreas externas cobertas (como varanda e área de serviço). Felizmente, todos os lotes com moradores já contam com energia elétrica. Quem são as famílias do Assentamento Americana? Os assentados são oriundos da própria região, alguns do próprio município de Grão Mogol, e outros de municípios vizinhos: Porteirinha, Riacho dos Machados, Montes Claros. Alguns deles são nascidos e criados no Gerais, e se autoidentificam como Geraizeiros. Outros vêm de localidades cujo ambiente predominante é de Caatinga ou Mata Seca, mas também compartilham conhecimentos sobre a agrobiodiversidade da região. O Assentamento Americana abriga, atualmente, cerca de 250 moradores, sendo metade adultos e a outra metade, jovens e crianças. Com a ocupação permanente dos 76 lotes, prevê-se uma população futura de aproximadamente 400 pessoas no Assentamento. A baixa densidade populacional no Americana associa-se à baixa disponibilidade de solos férteis ( terra de cultura ) e à grande extensão de solos ácidos (chapadas), 40 Assentamento Americana e Grupo Agroextrativista do Cerrado

41 impróprios para cultivos anuais básicos, como feijão, milho e cana, mas apropriados para usos menos intensivos dos recursos (extrativismo, solta de gado). A maior parte das famílias do Assentamento Americana tem, como atividade principal, o trabalho em seus lotes: cultivos, criações e serviços domésticos. Geralmente, o objetivo central desse trabalho é a auto-suficiência, ou seja, evitar pagar por aquilo que se pode produzir e fazer. De 37 famílias entrevistadas, a produção no lote é a principal atividade de sustento familiar para 16, e está entre as três mais importantes para 28 famílias. Todas as famílias buscam, também, formas de obter renda. A prestação de serviços remunerados é a fonte de renda mais importante para 13 famílias, e está entre as três mais significativas para, ao menos, outras 20. São mais freqüentes os serviços prestados no próprio Assentamento e seu entorno, em obras civis ou em trabalhos de roça. Em menor proporção estão os assentados que trabalham em firmas de eucalipto e outros que recebem ajuda de custo em trabalhos institucionais. Benefícios do governo, como Bolsa Família e aposentadorias, estão entre as três fontes de renda mais importantes para, pelo menos, 20 famílias. Ao menos 18 famílias têm, na comercialização de produtos agropecuários, uma das atividades econômicas principais. A venda é feita, na maioria das vezes, de maneira informal, em feiras livres ou diretamente ao consumidor. Muitas famílias têm ainda o costume de trocar dias de serviço, e em situações específicas, trabalhar em mutirão. Estas relações de trabalho reforçam os laços de solidariedade entre as famílias, e impactam de maneira positiva na produção e nas economias domésticas. Uma experiência agroecológica no Norte de Minas 41

42 Para 11 famílias, a produção e venda de carvão é uma das três principais fontes de renda. Alguns assentados relatam que esta atividade não tem sido vantajosa, pois o preço do carvão tem caído muito. Além disso, o trabalho nos fornos é fatigante e insalubre. Dessa forma, é importante que as roças e criações, o extrativismo e a comercialização de produtos agropecuários sejam reconhecidos como atividades economicamente mais vantajosas do que a produção de carvão. A diversidade de situações vivenciada por cada família, nas diferentes localidades dentro do Assentamento, muitas vezes dificulta a convergência de interesses e ações. Contudo, existe um progressivo amadurecimento da organização dos Assentados, tanto em torno da Associação quanto no nível das relações de vizinhança nas diferentes localidades. Somente por meio das relações de diálogo e de cooperação é que as famílias assentadas conquistarão avanços sociais, econômicos e políticos. O Grupo Agroextrativista do Cerrado Buscando uma maior autonomia para atuar em torno da agroecologia, um grupo de famílias do Assentamento Americana decidiu fundar, em julho de 2006, uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) chamada Grupo Agroextrativista do Cerrado 6. O Grupo é composto, em sua 6 Identificado informalmente como Oscip ou Grupo pelos seus próprios membros, passou a ser identificado como Grupo da Boa Vista por pessoas de fora, relacionando-o à localidade conhecida por este nome. Assim, o Grupo incorporou o nome Boa Vista em sua logomarca. Contudo, nem todos os membros do Grupo vivem na Boa Vista, e nem todos moradores da Boa Vista fazem parte do Grupo. 42 Assentamento Americana e Grupo Agroextrativista do Cerrado

43 maioria, por famílias que já atuavam junto ao CAA-NM desde antes de existir o Assentamento, e que já estavam vinculadas à agroecologia, ao agroextrativismo e aos movimentos sociais, por meio dos STR locais, e por meio também das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e da CPT (Comissão Pastoral da Terra). Algumas famílias do Grupo, por terem nascido e passado toda sua vida em ambiente de Gerais, detém um profundo conhecimento sobre a agricultura geraizeira e o manejo dos ecossistemas do Cerrado. O conhecimento destas famílias contribuiu (e vem contribuindo) para o desenvolvimento do próprio trabalho do CAA-NM e da Cooperativa Grande Sertão. O Grupo está composto hoje por famílias moradoras de onze 7 lotes do Assentamento. O trabalho agroecológico e agroextrativista desenvolvido por estas famílias vem se tornando uma referência nacional e até mesmo internacional, recebendo visitas de profissionais, pesquisadores e ativistas de diferentes partes do Brasil e do mundo. O trabalho dos Geraizeiros do Grupo já chamou a atenção até de veículos da grande mídia, resultando, por exemplo, em reportagens do Globo Rural 8. Os membros do Grupo estão passando pela análise das certificadoras Insitituto Biodinâmico (para produtores orgânicos) e da FLO- CERT (para produtores do Comércio Justo), por meio do processo de certificação da Cooperativa Grande Sertão, da qual são cooperados. 7 O número de famílias associadas ao Grupo Agroextrativista do Cerrado pode variar ao longo do tempo, pois famílias associadas podem se desligar, enquanto outras de fora podem se associar. O Grupo também está aberto para a associação de famílias que vivem no entorno do Assentamento. 8 Globo Rural, reportagens Mudas de araticum (08/04/2007), Frutas do cerrado (30/04/2006) e Geraizeiros de Córregos (ano 2000). Uma experiência agroecológica no Norte de Minas 43

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