AS DISCIPLINAS ESCOLARES NAS ESCOLAS ELEMENTARES DE MATO GROSSO ( ) RESUMO

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1 3869 AS DISCIPLINAS ESCOLARES NAS ESCOLAS ELEMENTARES DE MATO GROSSO ( ) Paula Regina Moraes Martins 1 Pascoal de Aguiar Gomes 1 Nicanor Palhares Sá 2 Universidade Federal de Mato Grosso RESUMO A presente comunicação é o resultado parcial de pesquisa em andamento: Ler e Escrever: a instrução pública primária e o ensino de primeiras letras no Estado de Mato Grosso ( ), desenvolvida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso. Este trabalho tem como tema primordial às disciplinas escolares, denominadas nesse período, de matérias ou conteúdos de ensino trabalhados nas escolas elementares. Pretende-se investigar as disciplinas escolares ensinadas na instrução primária na Província de Mato Grosso, no final do Império, a partir da relação entre a legislação em vigor e as práticas escolares. Assim, procurou-se comparar a maneira como estavam organizadas e distribuídas as disciplinas escolares no conjunto de leis com os relatórios dos inspetores da instrução pública. Foi possível perceber como essas disciplinas estavam sendo ensinadas nas escolas. O período escolhido para realizar esse estudo justifica-se por concordar com os argumentos de Sá e Siqueira (2000), segundo os quais, 1870 marca o fim da Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai e, com isso, o Estado redefine-se econômica, social e politicamente. Logo, essas mudanças certamente refletem no setor educacional. Para alcançar os objetivos propostos, foram consultados e confrontados documentos, que permitiram perceber, quais eram as disciplinas escolares regulamentadas em lei, aplicadas nas escolas elementares de Mato Grosso, e documentos avulsos que relatavam a realidade cotidiana das escolas e o real estado do ensino dessas disciplinas no período escolhido. Esses documentos foram gerados na Província de Mato Grosso entre os anos de 1873 e 1874: o Regulamento Orgânico da Instrução Pública de 1873; o Regimento Interno das Escolas Públicas de Instrução Primária do mesmo ano de 1873; e, por último, o relatório apresentado, à Presidência da Província, pelo Inspetor Geral das Aulas, no ano de 1874, aclarando as condições reais em que se encontrava o ensino público mato-grossense. A partir da leitura desse núcleo empírico, as informações referentes ao arranjo e ensino das disciplinas escolares, bem como dos conteúdos veiculados por cada uma delas, foram comparados entre o que se preconizava e aquilo que era realizado. Os resultados do cotejamento entre o arranjo legal e o formal, são analisados de acordo com os fundamentos teóricos da história cultural, seguindo as trilhas abertas pelos estudos referentes à história das disciplinas escolares, apresentadas por Chervel (1990), que interroga o quanto à sociedade influencia a escola no que concerne à escolha dos conteúdos ensinados. A partir do cotejo entre a disposição legal e a prática referente à forma como as disciplinas escolares foram organizadas no interior do Regulamento, do Regimento, chegando ao Relatório do Inspetor-Geral das Aulas de 1874, observou-se que o discurso dos dirigentes, fortemente presente nos relatórios e também na legislação relativa ao sistema de ensino público mato-grossense, eram prospectivos, pois, estavam além do alcance dos sujeitos escolares daquele período. Isto ocorreu por inúmeros motivos: falta de profissionais capacitados ao magistério e que tivessem domínio do método de ensino regulamentado; escassez de recursos da 1 Alunos do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso, na Área de Concentração: Educação, Cultura e Sociedade, pelo Grupo de Pesquisa Educação e Memória - GEM. 2 Professor Doutor em Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso, na Área de Concentração: Educação, Cultura e Sociedade, pelo Grupo de Pesquisa Educação e Memória - GEM.

2 3870 Província; falta de material e local adequado para realizar as aulas; e, muitas vezes, insuficiência de alunos, fator que dificultava a abertura de novas escolas; foram problemas freqüentemente enfrentados pelos dirigentes provinciais na tarefa de construir o processo de instrução pública. No entanto, verificou-se que a idéia de se ter pelo menos normatizado um sistema de ensino em Mato Grosso, revelou-se como prioridade nas atenções dos Presidentes da Província. Inúmeras tentativas foram feitas, embora, às vezes, insuficientes, pois, em grande parte das ocasiões correspondiam somente a formulações de leis. Contudo, os estudos de Castanha (2005) nos indicam que o aparelho legislativo se revelou num instrumento necessário e eficiente para o processo de construção do sistema educativo público mato-grossense. O descompasso entre as condições oferecidas aos professores e alunos e o conjunto de leis revela o caráter não só antecipatório do discurso dos dirigentes, mas também, as dificuldades que até mesmo os professores, encontravam para realizá-lo, pois, muitas vezes, executavam seu trabalho pedagógico à revelia do corpo legal. TRABALHO COMPLETO A presente comunicação é resultado parcial da pesquisa em andamento: O ensino das primeiras letras em Mato Grosso ( ), desenvolvida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso. Este trabalho tem como objeto as disciplinas escolares trabalhadas nas escolas elementares. O período escolhido para realizar este estudo justifica-se por concordar com os argumentos de Sá e Siqueira (2000, p. 8-9), segundo os quais, 1870 marca o fim da Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai e, com isso, o Estado redefine-se econômica, social e politicamente. Logo, essas mudanças certamente refletiram no sistema educacional mato-grossense. Na presente comunicação propôs-se investigar, conhecer e analisar as disciplinas escolares ensinadas na instrução primária na Província de Mato Grosso, no final do Império, a partir da relação entre a legislação em vigor e as práticas escolares. É importante ressaltar que naquele período as disciplinas escolares eram denominadas de matérias ou conteúdos de ensino. De acordo com Chervel (1990, p. 177), no seu uso escolar, o termo disciplina e a expressão disciplina escolar não designaram até o final do século XIX mais do que a vigilância dos estabelecimentos e a coibição dos comportamentos prejudiciais à boa ordem dos alunos. A palavra disciplina, tal como se conhece hoje, é uma criação recente. É só após a 1ª Guerra Mundial que o termo disciplina vai perder a força que o caracterizava até então. Torna-se uma rubrica que classifica as matérias de ensino, fora de qualquer referência às exigências da formação do espírito. Para alcançar os objetivos propostos, foram consultados e confrontados documentos, que permitiram perceber, quais eram as disciplinas escolares, regulamentadas em lei, para serem aplicadas nas escolas elementares de Mato Grosso, e documentos avulsos que relatavam a realidade cotidiana das escolas e as condições em que essas disciplinas eram ensinadas nas escolas. Tais documentos foram elaborados na Província de Mato Grosso nos anos de 1873 e 1874, sendo: o Regulamento Orgânico da Instrução Pública da Província de Mato Grosso aprovado pela Lei Nº. 15 de 4 de julho de criada pelo então governador da Província José de Miranda da Silva Reis; o Regimento Interno das Escolas Públicas de Instrução Primária da Província de Mato Grosso, de 7 de setembro de 1873, organizado pelo Inspetor-Geral das Aulas, Protonotário Apostólico Ernesto Camilo Barreto, que no ano seguinte preparou o relatório assinalando as condições da instrução pública matogrossense à Presidência da Província. Ao escolher tais documentos, consideraram-se os argumentos de Correia e Silva (2004) sobre a utilização da legislação como fonte para o desenvolvimento de pesquisa. Para os autores:

3 3871 Um texto legal pode, em pouco tempo, sofrer transformações bastante significativas (transmutar-se), por alterações em artigos, parágrafos etc., publicadas separadamente. Ao fim de um período, alguns mais parecem um quebra-cabeças sendo difícil de reconhecer se o que foi ordenado no texto inicial permanece ou não em vigor. Há casos também de leis, decretos, ou similares que nunca foram colocados em prática, mas acabam sendo incorporados em reflexões posteriores como emblemáticos [...] (CORREIA e SILVA, 2004, p. 51). Assim, procurou-se eleger entre os documentos para análise, além da legislação (Regulamento e Regimento), o relatório feito pelo Inspetor Geral das Aulas em 1874, um documento em que a realidade cotidiana das escolas é relatada, o que evidencia o ensino das disciplinas escolares. De acordo com Castanha (2005, p. 1) não tem como negar a importância dos relatórios e inspetores de instrução pública para compreender o processo de organização da instrução pública na província de Mato Grosso, enquanto política do Estado. Esses relatórios constituem-se como fontes importantes de pesquisas para os historiadores da educação. Esses relatórios descrevem diversos aspectos da instrução pública, uns de maneira mais aprofundada, outros mais superficiais. Destacam-se os seguintes temas: inspetores paroquiais, criação de escolas, mobílias, funcionamento da escola, matrículas, freqüência, exames, alunos carentes, premiação dos melhores alunos, métodos de ensino, disciplina nas escolas, formação dos professores, concurso, salário, condições de trabalho, currículos, inspeções de escolas, orçamento, ensino secundário, particular, escolas femininas, enfim, são documentos completos e amplos, que oferecem muitas possibilidades de estudos (CASTANHA, 2005, p. 1). A partir da leitura desse núcleo empírico, as informações referentes ao arranjo e ensino das disciplinas escolares, bem como dos conteúdos veiculados por cada uma delas, foram comparados entre o que se preconizava e aquilo que era realizado. Na tentativa de compreender a prática da sala de aula e como as disciplinas escolares estavam sendo ensinadas na prática pedagógica, procurou-se analisar os resultados do cotejo entre o arranjo legal e sua aplicabilidade no cotidiano escolar, de acordo com os fundamentos teóricos da história cultural, seguindo os referenciais teóricos dos estudos referentes à história das disciplinas escolares, apresentadas por Chervel (1990). Recentemente tem-se manifestado uma tendência entre os docentes, em favor de uma história de sua própria disciplina (CHERVEL, 1990, p. 177). De acordo com o autor (1990, p. 184), uma disciplina escolar comporta além das práticas docentes da sala de aula, as grandes finalidades que presidiram sua constituição e o fenômeno de aculturação de massa que ela determina, então a história das disciplinas escolares pode desempenhar um papel importante não somente na história da educação, mas na História Cultural [...]. O crescimento desse novo campo da pesquisa, ligado à história das disciplinas escolares, ocorreu entre 1970 e 1980 devido às transformações curriculares. A escola passou a ser pensada como espaço de produção de saber e não de reprodução de conhecimentos impostos externamente. Nessa nova produção, as disciplinas escolares são objetos importantes das pesquisas referentes às práticas cotidianas. (BITTENCOURT, 2003, p ). Deste modo, é necessário ressaltar que este trabalho possui como alicerce os estudos desenvolvidos sob a perspectiva das disciplinas escolares. Todavia, as expressões como matérias ou

4 3872 conteúdos de ensino serão mantidos, por fazerem parte do cotidiano escolar em estudo naquele momento na Província de Mato Grosso. A ORGANIZAÇÃO DO SISTEMA EDUCACIONAL DE MATO GROSSO NO INÍCIO DE 1870 Antes de realizar a análise dos documentos, buscou-se demonstrar primeiramente como era delicada a situação da Província de Mato Grosso naquele período, justamente por acreditar que alguns fatores e acontecimentos interferiram no processo de construção da instrução pública mato-grossense, e nas decisões e atitudes tomadas pelos dirigentes da província a partir de tais episódios. O processo de construção e organização da instrução pública mato-grossense passou por muitas dificuldades, inúmeras tentativas foram feitas, embora às vezes insuficientes, pois, na maior parte das ocasiões correspondiam somente a formulações de leis. Conforme Castanha (2005, p. 20), essas leis, decretos e regulamentos constituíram-se, ao longo do período, em instrumentos necessários e eficientes para dar um corpo organizacional a esse setor do serviço público. A situação tornou-se delicada, quando em conseqüência da Guerra Tríplice do Paraguai ( ), o território mato-grossense foi invadido pelas tropas inimigas. Conforme Marcílio (1963, p. 71), começam por se desconsertar os negócios públicos à medida que o avanço das forças invasoras se projeta para o interior da região sulina. Em conseqüência da guerra ficam sem exercício vários professores, pois as escolas encerraram suas atividades. Além dos problemas já deflagrados em conseqüência da guerra, a Província de Mato Grosso enfrentou um período de estagnação a partir da década de De acordo com Castanha (2005, p ), isso decorreu, sem dúvidas, devido às dificuldades enfrentadas pela população naquele período. A Guerra do Paraguai, a enchente do rio Cuiabá e a epidemia de varíola foram acontecimentos que marcaram definitivamente a história da Província, em todos os aspectos. Essa conjuntura pode ser confirmada pelo relatório da Inspetoria Geral dos Estudos de 28 de março de 1867, em que Joaquim Gaudie Ley descreveu que as escolas de [...] Corumbá, Albuquerque, Miranda e Santana do Paranaíba não funcionam desde o princípio do ano de 1865, as três primeiras em conseqüência da invasão paraguaia e a última por falecimento do respectivo professor Acontecimentos como esses, tiveram reflexo cruciforme no desenvolvimento da disposição da instrução pública, visto que o Inspetor Geral dos Estudos queixava-se da: [...] devastadora epidemia das bexigas que infelizmente assolou esta Província fez notavelmente sentir seus terríveis efeitos no quadro dos Inspetores dos Estudos, privando-o de bons servidores. [...] Bem sensíveis foram também às perdas que a mesma epidemia causou na classe dos professores. [...] Das 20 cadeiras criadas em toda a Província, quinze somente tiveram exercício no ano passado, sendo 10 no ano todo, e 5 em parte dele (MATO GROSSO, Inspetoria Geral dos Estudos, Relatório, 1869). A situação de atraso que indubitavelmente ficou a Província de Mato Grosso e as preocupações com os reflexos desanimadores destes acontecimentos nos negócios públicos e na instrução estavam estampados nos relatórios de Presidentes e Inspetores de Estudos à Assembléia Legislativa daquele período. Apesar da situação de insegurança econômica, política e social refletir no cenário educacional mato-grossense, era necessário tentar equacionar os problemas enfrentados pela instrução pública.

5 3873 Em 1873, foi criado pelo então Governador da Província José de Miranda da Silva Reis, o Regulamento Orgânico da Instrução Pública da Província de Mato Grosso. Este Regulamento previa, no Capítulo 21 parágrafo 12, a elaboração do Regimento Interno das Escolas Públicas de Instrução Primária da Província de Mato Grosso pelo Inspetor Geral das Aulas, cargo que naquele momento era ocupado pelo Pe. Ernesto Camilo Barreto. De acordo com Castanha (2005, p ) [...] Mato Grosso obteve a partir do Ato Adicional de 1834, o direito de legislar sobre a instrução pública. Esta prerrogativa possibilitou o encaminhamento e produção de alguns regulamentos, leis e decretos que tiveram como fim um ordenamento da instrução.. Dentre todos os regulamentos produzidos, o autor considera como basilar para a consolidação desse processo, a Lei provincial Nº 15, de 4 de julho de 1873, pois apresenta as funções definidas de cada segmento envolvido, bem como os objetivos pedagógicos, administrativos e políticos, além dos mecanismos de controle dos setores que compunham o quadro da instrução pública provincial (CASTANHA, 2005, p. 20). Conforme o Art. 1º do Regulamento Orgânico da Instrução, a instrução pública dividia-se em primária e secundária. Em parágrafo único acrescentou-se que a instrução primária seria dada em escolas de um só grau, para um e outro sexo, devendo essa legislação abranger escolas públicas e privadas. No que concerne à organização e arranjo das disciplinas escolares que deveriam ser ministradas, o capítulo 2º da Instrução Primária Pública - Instrução Elementar, em seu artigo 9º regulamentou que: O ensino primário elementar compor-se-á 1º - De instrução Primária e Religiosa. 2º - De Leitura e Escrita. 3º - De elementos de Gramática da Língua Nacional. 4º - De elementos de Aritmética até proporções. 5º - De generalidades de Geografia e História universal, principalmente na parte referente à Geografia e História do Brasil. 6º - Do estudo do sistema de pesos e medidas do Império. 7º - De trabalhos de agulha, e outros análogos, para o sexo feminino (SÁ e SIQUEIRA, 2000, p. 31). Ao analisar a organização das disciplinas escolares no Regulamento de 1873, é possível notar que, além das disciplinas tidas nesse momento como fundamentais ao ensino primário do século XIX, como é o caso da leitura e da escrita, da aritmética e da instrução religiosa, surgem novas disciplinas escolares como a geografia e a história universal e do Brasil, além do estudo do sistema de pesos e medidas do Império (XAVIER, 2005, p. 41). Em Mato Grosso, segundo Castanha (1999, p. 84): A introdução de novos conteúdos vem demonstrar a preocupação com a construção da soberania Imperial ao valorizar a história e a geografia nacional, bem como ao sistema de pesos e de medidas do Império. A educação estava a serviço da construção do Estado Nacional. Mato Grosso, na década de 1870, acabava de sair de uma guerra, e lutava para tornar irrisórias as conseqüências da Guerra do Paraguai para seu território, desta forma destaca-se a importância da introdução de tais disciplinas, como uma tentativa de reforçar e resguardar as fronteiras de suas terras a partir do ensino.

6 3874 Referente às matérias de ensino, o Regimento Interno das Escolas Públicas de Instrução Primária, de 7 de dezembro de 1873, declarou em seu Art. 1º, que o ensino primário de um e outro sexo, na província de Mato Grosso [...] abrangerá a instrução elementar, literária e religiosa, dadas em escolas públicas de um só grau pelo método simultâneo. O regimento mencionado conta com uma riqueza de detalhes, pois nele é possível notar, além das disciplinas escolares, os conteúdos que deveriam ser trabalhados em cada uma delas. A disposição das oito disciplinas escolares que deveriam ser trabalhadas nas escolas de instrução pública primária, mencionadas no Art. 2º, denominadas naquele ato de seções, foram assim descritas: Leitura, de Escrita, de Aritmética, de Doutrina, de Gramática, de Geografia, de História Universal especialmente na parte relativa ao Brasil, de Estudos de pesos e medidas em uso no Império. (SÁ e SIQUEIRA, 2000). Consta ainda que em concordância com o parágrafo 7º do Art. 9º do Regulamento Orgânico, o Art. 3º do Regimento Interno reza que nas escolas públicas do sexo feminino deveria adicionar mais uma seção sob o título de seção de trabalhos de prendas Diante da riqueza de detalhes referentes às disciplinas e aos conteúdos que deveriam ser trabalhados em cada uma das disciplinas escolares, desde a Leitura até os trabalhos de prendas para o sexo feminino, que constam tanto no Regulamento Orgânico quanto no Regimento Interno, pode-se dizer que são precisos e ideais. Entretanto, quando confrontados aos documentos que relatam o cotidiano escolar nota-se que tais legislações não passaram de pretensões. Tal comparação é importante, pois, enquanto os primeiros regiam sobre o que deveria ser ensinado, o relatório descrevia como e o que era ensinado nas escolas de instrução pública primária. Este último documento, elaborado em 1874, pelo Inspetor Geral dos Estudos, Pe. Ernesto Camilo Barreto, é caracterizado por tamanho volume e minúcias de informações. Siqueira (2000) destaca que o relatório: [...] traçou as diretrizes e os rumos da instrução na província, pois discutiu não somente alguns pontos teóricos como a questão da obrigatoriedade do ensino, do racional aproveitamento do tempo, estabelecendo um novo calendário escolar, mas, descortinou de forma concreta as imperfeições dos estabelecimentos escolares no tocante ao mobiliário, às condições de higiene, revelando, sobretudo, a inexistência de métodos e técnicas de ensino, fatores que, em seu ponto de vista, colaboravam para espantar a população pobre dos estabelecimentos escolares (SIQUEIRA, 2000, p ). Pe. Ernesto Camilo Barreto, evidencia que a falta de informações com que trabalhava, dificultava e atrasava o cumprimento de suas responsabilidades como Inspetor Geral dos Estudos. Para tanto afirmou que: [...] não limitando-se a esta Capital os trabalhos da repartição e o movimento da instrução pública e particular, sem auxílio das informações dos inspetores paroquiais me era impossível preparar o trabalho, que devia oferecer a consideração de V. Exª, até o último dia do ano passado; tanto mais, quanto urgia a necessidade de organizar o Regimento Interno das escolas, a fim de fazêlas entrar no ano seguinte no método estabelecido pelo Regulamento orgânico (MATO GROSSO, Inspetoria Geral dos Estudos, Relatório, 1874).

7 3875 No relatório apresentado ao Presidente da Província, José de Miranda Reis em 1874, o Inspetor mostra-se indignado com a situação do ensino. Seus sentimentos são expressos no início do texto, em que diz: Direi a verdade toda inteira, exporei o enfermo com todas as suas chagas, a fim de que a cura, em vez de proveitosa, não lhe seja nociva. É lamentável, Exm o Sr., o estado deste ramo do serviço público entre nós qualquer que seja o lado pelo qual o encaremos (MATO GROSSO, Inspetoria Geral dos Estudos, Relatório, 1874). Conforme Siqueira (2000), esse trabalho cuidadoso só pode ser realizado pelo Inspetor, em virtude de seus conhecimentos da realidade escolar existente da província, tendo em vista ser ele o autor do primeiro Regimento Interno das Escolas Primárias em Em relação ao ensino dos conteúdos previstos em cada disciplina escolar o relatório do Pe. Ernesto Camillo Barreto é bastante desanimador. O Regulamento e o Regimento de 1873 não mudaram a ordem da aplicabilidade dos conteúdos lingüísticos presentes, no ensino de ler e escrever. afirmou: Um ano após a promulgação do Regimento de 1873, o Inspetor Geral dos Estudos, Não obstante o Regulamento, que reformou as escolas entre nós, elas continuaram a ter na prática o sistema antigo. Limitaram-se à leitura, a escrita, contas e catecismo; mas a uma leitura imperfeita na forma e na compreensão, a uma escrita incorreta, quanto à gramática e ortografia, a papaguear o catecismo sem consciência da beleza moral de seus preceitos, e a simples prática das quatro primeiras operações de aritmética, sem dar a conhecer, ao menos, os usos e aplicações das mesmas operações. Os princípios de gramática, os de história, de geografia, as noções de aritmética, sua prática, até as proporções, e o sistema de pesos e medidas, ainda não passam do preceito regulamentar ao ensino (MATO GROSSO, Inspetoria Geral dos Estudos, Relatório, 1874). Um ano após o acréscimo do número de disciplinas escolares pelo regulamento de 1873, o Pe. Ernesto Camilo Barreto afirma no relatório que tal ampliação não obteve de imediato a aceitação na Província. Diante do desconforto o Inspetor declara Contra este acréscimo nas matérias do ensino, grande celeuma tem levantado os amigos da escola histórica e uma barreira surda se tem pretendido colocar diante da escola do progresso. O posicionamento de Pe Ernesto Camilo Barreto (1874) contrário a essa resistência é claro, ao afirmar que as escolas primárias não deveriam restringir-se ao ensino da leitura, escrita, doutrina e das quatro operações básicas de aritmética, tendo em vista que para ele o progresso estava vinculado aos princípios sedimentares da escola pública moderna. As críticas são ainda mais contundentes quando o Inspetor diz que representar o que é pelo que não é, e vice versa, em matéria de instrução, é prejudicar ao indivíduo a quem se dá, com uma bula falsa, o diploma de capacidade, e a sociedade que o acredita em virtude desse título. Para o Pe. Ernesto Camillo Barreto se o ensino deve ser um sacerdócio, o julgamento de capacidade deve ser uma verdade. A mentira, que nunca foi uma virtude, cumpre que seja banida especialmente da educação e da instrução (MATO GROSSO, Inspetoria Geral dos Estudos, Relatório, 1874). Argumenta ainda, que ao ter aceitado o cargo de Inspetor tratou de percorrer as escolas da Capital a fim de examinar os alunos delas e conhecer o estado de instrução de cada um. Em suas constatações diz que nenhum aluno ou aluna foi encontrado provecto, ainda mesmo nas matérias exigidas pelo antigo Regulamento (Regulamento de 1854). Pelo contrário, a comissão examinadora mandou voltar à 1ª classe de aritmética e doutrina alunos que se diziam de 4ª classe [grifo nosso]. A partir do cotejo entre a disposição legal e a prática referente à forma como as disciplinas escolares foram organizadas pelo Regulamento e Regimento, até a análise do Relatório do Inspetor-Geral

8 3876 das Aulas de 1874, observou-se que o discurso dos dirigentes, fortemente presente nos relatórios e também na legislação relativa ao sistema de ensino público mato-grossense, eram prospectivos, pois, estavam além do alcance dos sujeitos escolares daquele período. Tudo isso ocorreu por inúmeros motivos: o problema da falta de pessoas capacitadas que exercessem o magistério, e que tivessem o domínio do método de ensino regulamentado em lei para que se instruísse a mocidade; a escassez de recursos da Província; a falta de materiais e locais adequados para a realização das aulas; e muitas vezes, a insuficiência de alunos que dificultava a abertura de novas escolas. Tais dificuldades contribuíram para que as leis, decretos e regulamentos, referentes à organização da instrução pública mato-grossense, não se efetivassem de forma concreta. No entanto, não é correto afirmar que no período colonial e imperial a instrução pública não tenha dado seus passos rumo ao processo de consolidação desse serviço do setor público. Verificou-se que a idéia de se ter pelo menos normatizado um sistema de ensino em Mato Grosso ocupou amplo lugar nas atenções dos Presidentes. Os estudos de Castanha (2005) também nos indicam que o aparelho legislativo se revelou como um instrumento necessário e eficiente para o processo de construção do sistema educativo público mato-grossense. O descompasso entre as condições oferecidas aos professores e alunos e o conjunto de leis, revela o caráter não só antecipatório do discurso dos dirigentes, mas também, as dificuldades que até mesmo os professores, encontravam para realizá-lo, pois, muitas vezes, executavam seu trabalho pedagógico à revelia do corpo legal. REFERÊNCIAS ALVES, Gilberto Luiz. Educação e História em Mato Grosso: ed., Campo Grande-MS: Editora UFMS, BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Disciplinas Escolares: História e pesquisa. In: OLIVEIRA, Marcus Aurélio Taborda de.; RANZI, Serlei Maria Fischer. (Orgs.). História das Disciplinas Escolares no Brasil: contribuições para o debate. Bragança Paulista: EDUSF, p CASTANHA, Paulo André. Pedagogia da Moralidade: o Estado e a Organização da Instrução Pública na Província de Mato Grosso ( ). Dissertação (Mestrado) Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, A Organização da Instrução Pública na Província de Mato Grosso ( ). In: SÀ, Nicanor Palhares, SIQUIERA, Elizabeth Madureira, REIS, Rosinete Maria. (Orgs.). Instantes & Memórias da Educação. Cuiabá, MT p (No Prelo). CHARTIER, Roger. A História Cultural: Entre práticas e representações. Lisboa: Difel; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.

9 3877 CHERVEL, André. História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa. Revista Teoria & Educação. Porto Alegre-RS, n. 2, MARCÍLIO, Humberto. História do ensino em Mato Grosso. Cuiabá: Secretaria de Educação, Cultura e Saúde do Estado, MATO GROSSO. Relatório: O Inspetor Geral dos Estudos, Joaquim Gaudie Ley, apresentava relatório ao Presidente da Província, Dr. José Vieira Couto Magalhães. Cuiabá 28 mar APMT Livro n Relatório: O Inspetor Geral dos Estudos, Joaquim Gaudie Ley, apresentava relatório, referente aos anos de 1867 e 1868, ao Presidente da Província, General Barão de Melgaço. Cuiabá 31 jul APMT Caixa Inspetoria Geral dos Estudos. Relatório O Inspetor Geral dos Estudos, Pe. Ernesto Camillo Barreto, apresenta relatório ao Presidente da Província, José de Miranda Reis. Cuiabá 14 abr In:. Governo. Relatório Relatório apresentado pelo Presidente da Província à Assembléia Legislativa Provincial no dia 3 de maio de Cuiabá: Typ. da "Situação" de Souza Neves & C.a, [n.d.]. Anexo 3. Disponível em: APMT Microfilme Relatório: O Inspetor Geral dos Estudos, Pe. Ernesto Camillo Barreto, apresentava relatório ao Presidente da Província, Hermes Ernesto da Fonseca. Cuiabá 13 abr Disponível em APMT Microfilme, rolo OLIVEIRA, Marcus Aurélio Taborda de.; RANZI, Serlei Maria Fischer. (Orgs.). História das Disciplinas Escolares no Brasil: contribuições para o debate. Bragança Paulista: EDUSF, SÁ, Nicanor Palhares.; SIQUEIRA, Elizabeth Madureira. (Orgs.). Leis e Regulamentos da Instrução Pública do Império em Mato Grosso. Campinas: Editores Associados; SBHE; INEP, SÀ, Nicanor Palhares, SIQUIERA, Elizabeth Madureira, REIS, Rosinete Maria. (Orgs.). Instantes & Memórias da Educação. Cuiabá, MT (No Prelo). SIQUEIRA, Elizabeth Madureira. Luzes e Sombras: modernidadee educação pública em Mato Grosso ( ). Tese (Doutorado) Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, Luzes e Sombras: modernidadee educação pública em Mato Grosso ( ). Cuiabá, INEP; COMPED; EDUFMT, 2000.

10 3878 VIDAL, Diana Gonçalves; HILSDORF, Maria Lúcia Spedo. (Orgs.). Brasil 500 Anos: tópicas em história da educação. São Paulo: Edusp, XAVIER, Ana Paula da Silva. A Leitura e a Escrita na Cultura Escolar Primária de Mato Grosso ( ). Dissertação (Mestrado) Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, 2005.

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