GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA

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1 GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Professora Me. Adriana Salvaterra Pasquini Professora Me. Marcia Maria Previato de Souza GRADUAÇÃO PEDAGOGIA MARINGÁ-PR 2012

2 Reitor: Wilson de Matos Silva Vice-Reitor: Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração: Wilson de Matos Silva Filho Presidente da Mantenedora: Cláudio Ferdinandi NEAD - Núcleo de Educação a Distância Diretoria do NEAD: Willian Victor Kendrick de Matos Silva Coordenação Pedagógica: Gislene Miotto Catolino Raymundo Coordenação de Marketing: Bruno Jorge Coordenação Comercial: Helder Machado Coordenação de Tecnologia: Fabrício Ricardo Lazilha Coordenação de Curso: Márcia Maria Previato de Souza Supervisora do Núcleo de Produção de Materiais: Nalva Aparecida da Rosa Moura Capa e Editoração: Daniel Fuverki Hey, Fernando Henrique Mendes, Luiz Fernando Rokubuiti, Renata Sguissardi e Thayla Daiany Guimarães Cripaldi Supervisão de Materiais: Nádila de Almeida Toledo Revisão Textual e Normas: Cristiane de Oliveira Alves, Gabriela Fonseca Tofanelo, Janaína Bicudo Kikuchi, Jaquelina Kutsunugi e Maria Fernanda Canova Vasconcelos Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central - CESUMAR C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a distância: Gestão escolar e organização do trabalho pedagógico na educação básica / Adriana Salvaterra Pasquini, Marcia Maria Previato de Souza- Maringá - PR, p. Graduação em Pedagogia - EaD. 1. Gestão escolar. 2. Educação básica. 3. Gestão escolar. 4.EaD. I.Título. CDD - 22 ed. 370 CIP - NBR AACR/2 As imagens utilizadas neste livro foram obtidas a partir dos sites PHOTOS.COM e SHUTTERSTOCK.COM. Av. Guedner, Jd. Aclimação - (44) CEP Maringá - Paraná - NEAD - Núcleo de Educação a Distância - bl. 4 sl. 1 e 2 - (44)

3 GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Professora Me. Adriana Salvaterra Pasquini Professora Me. Marcia Maria Previato de Souza

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5 APRESENTAÇÃO DO REITOR Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos os cidadãos. A busca por tecnologia, informação, conhecimento de qualidade, novas habilidades para liderança e solução de problemas com eficiência tornou-se uma questão de sobrevivência no mundo do trabalho. Cada um de nós tem uma grande responsabilidade: as escolhas que fizermos por nós e pelos nossos fará grande diferença no futuro. Com essa visão, o Cesumar Centro Universitário de Maringá assume o compromisso de democratizar o conhecimento por meio de alta tecnologia e contribuir para o futuro dos brasileiros. No cumprimento de sua missão promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária, o Cesumar busca a integração do ensino-pesquisa -extensão com as demandas institucionais e sociais; a realização de uma prática acadêmica que contribua para o desenvolvimento da consciência social e política e, por fim, a democratização do conhecimento acadêmico com a articulação e a integração com a sociedade. Diante disso, o Cesumar almeja ser reconhecido como uma instituição universitária de referência regional e nacional pela qualidade e compromisso do corpo docente; aquisição de competências institucionais para o desenvolvimento de linhas de pesquisa; consolidação da extensão universitária; qualidade da oferta dos ensinos presencial e a distância; bem -estar e satisfação da comunidade interna; qualidade da gestão acadêmica e administrativa; compromisso social de inclusão; processos de cooperação e parceria com o mundo do trabalho, como também pelo compromisso e relacionamento permanente com os egressos, incentivando a educação continuada. Professor Wilson de Matos Silva Reitor GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância 5

6 Caro aluno, ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção (FREIRE, 1996, p. 25). Tenho a certeza de que no Núcleo de Educação a Distância do Cesumar, você terá à sua disposição todas as condições para se fazer um competente profissional e, assim, colaborar efetivamente para o desenvolvimento da realidade social em que está inserido. Todas as atividades de estudo presentes neste material foram desenvolvidas para atender o seu processo de formação e contemplam as diretrizes curriculares dos cursos de graduação, determinadas pelo Ministério da Educação (MEC). Desta forma, buscando atender essas necessidades, dispomos de uma equipe de profissionais multidisciplinares para que, independente da distância geográfica que você esteja, possamos interagir e, assim, fazer-se presentes no seu processo de ensino-aprendizagem-conhecimento. Neste sentido, por meio de um modelo pedagógico interativo, possibilitamos que, efetivamente, você construa e amplie a sua rede de conhecimentos. Essa interatividade será vivenciada especialmente no ambiente virtual de aprendizagem AVA no qual disponibilizamos, além do material produzido em linguagem dialógica, aulas sobre os conteúdos abordados, atividades de estudo, enfim, um mundo de linguagens diferenciadas e ricas de possibilidades efetivas para a sua aprendizagem. Assim sendo, todas as atividades de ensino, disponibilizadas para o seu processo de formação, têm por intuito possibilitar o desenvolvimento de novas competências necessárias para que você se aproprie do conhecimento de forma colaborativa. Portanto, recomendo que durante a realização de seu curso, você procure interagir com os textos, fazer anotações, responder às atividades de autoestudo, participar ativamente dos fóruns, ver as indicações de leitura e realizar novas pesquisas sobre os assuntos tratados, pois tais atividades lhe possibilitarão organizar o seu processo educativo e, assim, superar os desafios na construção de conhecimentos. Para finalizar essa mensagem de boas-vindas, lhe estendo o convite para que caminhe conosco na Comunidade do Conhecimento e vivencie a oportunidade de constituir-se sujeito do seu processo de aprendizagem e membro de uma comunidade mais universal e igualitária. Um grande abraço e ótimos momentos de construção de aprendizagem! Professora Gislene Miotto Catolino Raymundo Coordenadora Pedagógica do NEAD- CESUMAR 6 GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância

7 APRESENTAÇÃO Livro: GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Professora Me. Adriana Salvaterra Pasquini Professora Me. Marcia Maria Previato de Souza Caro(a) acadêmico(a), é com muito prazer que apresentamos a você o livro que fará parte da disciplina de Gestão Escolar e a Organização do Trabalho Pedagógico na Educação Básica. Somos as professoras Adriana Salvaterra Pasquini e professora Marcia Maria Previato de Souza e preparamos o presente material para que você conheça de modo crítico os caminhos da Gestão Escolar e sua importância na organização do trabalho pedagógico, a fim de que a educação básica se efetive com qualidade. Eu, Adriana, ao longo da minha atuação profissional, 19 anos na educação básica, trabalhei como professora nas modalidades da Educação Infantil, Educação Especial, anos iniciais do Ensino Fundamental e atuo há cinco anos como pedagoga da rede pública do estado do Paraná. Esta experiência profissional aliada a pesquisas em políticas públicas para a educação me possibilitam uma análise ampla da educação básica. Quanto a mim, professora Marcia, trabalhei na educação básica por mais de 10 anos e há 7 atuo no Ensino Superior trabalhando em cursos de graduação e pós-graduação da área da educação com disciplinas ligadas à alfabetização, metodologias, práticas de ensino e gestão escolar. Nosso objetivo, ao escrever este livro, não é o de apresentar um passo a passo acerca da gestão escolar e da organização da educação básica, e sim realizarmos algumas provocações por meio do conhecimento científico e, unindo teoria e prática, contribuir para que você avance na compreensão do contexto escolar na sua totalidade. Este livro foi organizado de modo especial para você que, no nosso entendimento, tem buscado com excelência compreender os desafios que a Gestão Escolar impõe a todo profissional da educação que pretende ratificar a articulação necessária entre teoria e prática. O conteúdo aqui apresentado é de suma importância não só para aqueles que ocupam ou que pretendem ocupar o cargo de diretores ou vice-diretores, mas para todos os profissionais da educação GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância 7

8 que assumem também o papel de conduzir na coletividade um Projeto Político-Pedagógico que vá além da dimensão burocrática. A consolidação do aprendizado requer muito estudo, aprofundamento nas leituras e esforço reflexivo. Para tanto, será necessário também, muito empenho de sua parte para a realização desse intenso trabalho. Por isso, antes de iniciar a leitura do presente livro, gostaríamos de apresentar a você uma proposta de estudo para auxiliá-lo na apropriação do conhecimento: Sistematize um plano de estudo e registre em uma agenda suas metas de estudo diário e prazos. Procure um ambiente adequado para sua leitura: sem barulhos ou demais interferências. Tenha sempre em mãos caderno e caneta para registrar suas impressões sobre o texto lido. Procure esclarecer as dúvidas em relação ao conteúdo ou algum termo desconhecido logo após as leituras. Se deixar para outro momento, a dúvida pode não ter mais sentido, e você acabará por não pesquisá-la. Finalmente, após concluída a leitura, escreva um parecer pessoal sobre o material estudado quanto: à relevância do tema e ao seu aprendizado. Este livro é composto por cinco unidades que darão sustentação à presente discussão. Cumpre destacar que, ao final de cada unidade, você encontrará propostas de atividades e sugestões de leitura que favorecerão a reflexão e a apropriação do conteúdo estudado. As unidades são intituladas da seguinte forma: A primeira unidade é intitulada Contextualização histórica da gestão escolar no Brasil, como o próprio título já diz, apresentamos a trajetória histórica da gestão escolar em nosso país. Esse contexto é de suma importância para que você conheça os caminhos e descaminhos da gestão escolar nas últimas décadas e a atuação do pedagogo em diferentes períodos históricos. Na segunda unidade, discutiremos os Fundamentos e instrumentos de consolidação da gestão democrática, nela discutiremos a consolidação da Gestão Democrática, esse que é o processo político por meio do qual todas as pessoas envolvidas no processo de ensino e aprendizagem discutem, deliberam, planejam, solucionam problemas, bem como o conjunto das ações voltadas ao desenvolvimento da própria escola. Para você, aluno de um curso de 8 GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância

9 formação de professores, esse é um assunto sobre o qual deve ter conhecimento para poder atuar de maneira consciente no espaço escolar. Chegando a terceira unidade, intitulada A construção coletiva do Projeto Político- Pedagógico, você terá a percepção do quão é importante a atuação da equipe diretiva no trabalho coletivo. Nessa unidade, poderá conhecer os Fundamentos Teóricos do Projeto Político-Pedagógico e os elementos que compõem o Projeto Político-Pedagógico de uma escola. Na quarta unidade, O Planejamento e trabalho coletivo, discutimos a função da escola na sociedade contemporânea e o planejamento escolar enquanto instrumento de ratificação do ensino e da aprendizagem e as dimensões do Planejamento Educacional. A quinta unidade, Gestão escolar e os processos de avaliação discute as relações existentes entre a qualidade educacional e o processo de avaliação enquanto instrumento de democratização do conhecimento científico. Nessa unidade ainda, tivemos a pretensão de apresentar a você as especificidades dos processos de avaliação: Sistema de Avaliação da Educação Básica SAEB e Avaliação Institucional, assunto sobre o qual você precisa ter conhecimento em função de sua profissão docente. A partir dos estudos e análise de cada unidade temos como objetivo geral levá-lo a compreensão do funcionamento da gestão e organização do trabalho pedagógico na educação básica. ATENÇÃO: toda estrutura organizacional e ações mediadas por tal estrutura não se constituem naturalmente, mas são historicamente instituídas. Assim, precisamos analisar as estruturas atuais de modo contextualizado e ter sempre a clareza de que a Educação forma o homem necessário para cada período histórico. Consideramos importante fazer tal constatação, tendo em vista que a Gestão Democrática tem sido um dos termos mais apresentados no contexto educacional. Esse tema ganhou espaço na educação brasileira a partir da Constituição Federal (CF) de 1988 e ganhou forma e organicidade com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação nº 9394/96, que transformou em letra de lei o princípio de Gestão Democrática da Escola Pública no Brasil. Como você pode perceber, a gestão escolar vai além da administração de recursos, ela consiste em uma ação política muito mais ampla do que parece. GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância 9

10 Tendo como foco a Gestão Democrática enquanto ação política, queremos apresentar a você um desafio. É comum ouvirmos no dia a dia expressões, como: Eu não gosto de política, talvez até você já tenha dito isso. Por isso, analise o poema abaixo e faça suas próprias constatações acerca da importância da nossa atuação enquanto profissionais da educação. O Analfabeto Político Bertholt Brecht O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo. Eis o nosso desafio, releia o texto com atenção, pense e responda ao seguinte questionamento: em que medida a atuação do pedagogo na Gestão Escolar implica um ato político? Após concluir as leituras do livro temos a certeza que conseguirá responder a esse questionamento. Vamos lá! Inicie suas leituras e bons estudos!!!!! 10 GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância

11 SUMÁRIO UNIDADE I CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DA GESTÃO ESCOLAR NO BRASIL A ATUAÇÃO DO PEDAGOGO EM DIFERENTES PERÍODOS HISTÓRICOS 19 A INFLUÊNCIA NEOLIBERAL NA REFORMA DE ENSINO DA DÉCADA DE A GESTÃO DEMOCRÁTICA NO COTIDIANO ESCOLAR 26 UNIDADE II FUNDAMENTOS E INSTRUMENTOS DE CONSOLIDAÇÃO DA GESTÃO DEMOCRÁTICA FUNDAMENTOS TEÓRICOS E LEGAIS DA GESTÃO DEMOCRÁTICA 42 AS INSTÂNCIAS COLEGIADAS E SUA IMPORTÂNCIA NA GESTÃO DEMOCRÁTICA 49 CONSELHO ESCOLAR 50 CONSELHO DE CLASSE 54 ASSOCIAÇÃO DE PAIS, MESTRES E FUNCIONÁRIOS 56 GRÊMIO ESTUDANTIL 61 UNIDADE III A CONSTRUÇÃO COLETIVA DO PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO A ATUAÇÃO DA EQUIPE DIRETIVA FRENTE AO DESAFIO DO TRABALHO COLETIVO 70 FUNDAMENTOS TEÓRICOS DO PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO 75 PROJETO 76 POLÍTICO 77 PEDAGÓGICO 77

12 OS ELEMENTOS QUE COMPÕEM O PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO 78 A ELABORAÇÃO DO PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO 80 UNIDADE IV PLANEJAMENTO E TRABALHO COLETIVO A FUNÇÃO DA ESCOLA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA 98 O PLANEJAMENTO ESCOLAR ENQUANTO INSTRUMENTO DE RATIFICAÇÃO DO ENSINO E DA APRENDIZAGEM 103 AS DIMENSÕES DO PLANEJAMENTO EDUCACIONAL 112 UNIDADE V GESTÃO ESCOLAR E OS PROCESSOS DE AVALIAÇÃO AS RELAÇÕES EXISTENTES ENTRE A QUALIDADE EDUCACIONAL E O PROCESSO DE AVALIAÇÃO 130 AS ESPECIFICIDADES DO PROCESSO DE AVALIAÇÃO: SISTEMA DE AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO BÁSICA SAEB E AVALIAÇÃO 135 INSTITUCIONAL 135 O PROCESSO DE AVALIAÇÃO ENQUANTO INSTRUMENTO DE DEMOCRATIZAÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO 142 CONCLUSÃO 156 REFERÊNCIAS 160

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15 UNIDADE I CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DA GESTÃO ESCOLAR NO BRASIL Professora Me. Adriana Salvaterra Pasquini Professora Me. Marcia Maria Previato de Souza Objetivos de Aprendizagem Conhecer o percurso histórico da Gestão Escolar no Brasil. Compreender que as estruturas educacionais não são naturalmente postas, mas, historicamente construídas. Analisar o papel da Gestão Escolar no Brasil. Estabelecer relação entre o papel da escola e o mundo do trabalho. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: A atuação do pedagogo em diferentes períodos históricos A influência Neoliberal na Reforma de Ensino da década de 1990 A gestão democrática no cotidiano escolar

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17 INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), nesta primeira unidade você fará o estudo de um assunto que, em nosso entendimento, é fundamental para a compreensão do papel do gestor escolar na atualidade. É importante destacar que as relações postas no campo educacional na atualidade não surgiram do nada e nem sempre foram como são hoje. Por isso, o desafio proposto neste início de estudos é a compreensão histórica do papel da gestão escolar na educação brasileira. Não pretendemos discorrer aqui sobre a História da Educação no Brasil desde sua origem, por isso demarcamos como período de análise a década de 1960 que servirá para nós como ponto de partida da discussão. A partir do final da década de 1980, período marcado pela redemocratização do nosso país, a gestão democrática da educação e da escola pública tornou-se o centro do debate educacional. Esse período histórico que representou o fim de um regime militar de duas décadas foi marcado por um sentimento de esperança por um Brasil mais justo e desenvolvido, cuja principal bandeira era uma educação de qualidade para o povo brasileiro, por meio da qual o país alcançaria credibilidade e a inserção no mercado mundial. Porém, a história nos revela outra face não tão animadora. A educação não foi priorizada, o que vimos foi o sucateamento da escola pública e a desvalorização dos profissionais da educação. Foi neste contexto que a partir da Constituição Federal (CF) de 1988 que a gestão democrática foi eleita como tema fundamental para a melhoria na qualidade de ensino público. Neste sentido, consideramos de suma importância refletirmos a respeito da atuação do pedagogo enquanto gestor do âmbito escolar, ou seja, aquele que articula as condições históricas postas com a sua função por meio das práticas coletivas de planejamento institucional expressas no Projeto Político-Pedagógico, que direciona e organiza todo o contexto escolar. É importante destacarmos que a discussão aqui apresentada será pautada em duas considerações, primeiramente explicitaremos a função do pedagogo como gestor, diretamente GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância 17

18 relacionada com as exigências do processo de reestruturação produtiva do capitalismo. De acordo com Acácia Kuenzer (2002), as mudanças ocorridas no mundo do trabalho a partir da década de 1990, com a globalização da economia e com as novas formas de relação entre Estado e sociedade civil advindas do neoliberalismo, mudaram as demandas que o sistema capitalista faz à escola. Ao considerarmos que a escola forma o homem necessário a sua época, podemos então afirmar que o contexto supracitado influenciou de modo considerável na organização e gestão dos estabelecimentos de ensino. No segundo momento realizaremos a análise sobre a atuação do pedagogo como gestor de acordo com um processo de Gestão Democrática com todos os instrumentos dela decorrentes. Fonte: SHUTTERSTOCK.COM A escola forma o homem necessário a cada época. 18 GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância

19 A ATUAÇÃO DO PEDAGOGO EM DIFERENTES PERÍODOS HISTÓRICOS Para iniciarmos a discussão do primeiro ponto proposto que é compreendermos a relação entre as demandas atuais da atuação do pedagogo com as exigências decorrentes das transformações e reestruturação do capitalismo na atualidade, é preciso antes compreender que não podemos ignorar a influência das relações do trabalho e do mercado na formação do pedagogo. Foi no período posterior a 1964 que a formação do pedagogo ganhou destaque. Percebemos que foi nesse período de instalação do Regime Militar que se preceituou a hierarquização de funções como administração, supervisão, planejamento e inspeção escolar entre outras por meio da Lei 5540/68, que representou a reforma universitária. Sob a égide dessa lei as disciplinas profissionalizantes foram ampliadas pelo parecer CFE nº 252/69 e passaram a contar com as seguintes habilitações a serem oferecidas na graduação: Magistério das Disciplinas Pedagógicas do Segundo Grau, Orientação Educacional, Administração Escolar, Supervisão Escolar e Inspeção Escolar. A atuação do pedagogo tinha como foco a direção e o controle do processo escolar. Fonte: SHUTTERSTOCK.COM A escola foi eleita pelos militares como instrumento de manutenção da ordem no país. GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância 19

20 O referido contexto só é passível de compreensão se olharmos, mesmo que brevemente, para as condições históricas que o determinaram. Basta observarmos o modelo de produção taylorista/fordista característico do padrão de acumulação industrial, que é marcado pela divisão do trabalho, mecanização da produção, estrutura hierarquizada verticalmente e distinta em níveis operacionais de direção, planejamento, supervisão e execução. Tal organização do trabalho produziu a separação entre trabalho intelectual e braçal, planejamento e execução. Destacando o papel da gerência neste processo, aqui o papel do administrador é de fiscalizar o planejamento, controlar o trabalho alheio e cercear a vontade do trabalhador para que o mesmo execute com precisão e dinamicidade sua tarefa como assinala Vitor Paro (2006). Como você já sabe, as relações da escola não passam ilesas pelas relações que se dão no mundo do trabalho. Para dar conta da formação dos quadros profissionais para essa organização do trabalho, a educação escolar foi requerida como fundamento para o desenvolvimento econômico e assume as características do modelo produtivo taylorista/fordista, já que era preciso a qualificação em massa de trabalhadores. Conforme as contribuições de Shiroma; Moraes; Evangelista (2007) encontraremos eco em tal exigência na teoria do capital humano que passou a ser adotada como base para as políticas educacionais. Conforme elencamos anteriormente, a Reforma universitária de 1968 reflete que a dicotomia entre o planejar e o executar se efetivava na escola, onde o pedagogo-especialista era o responsável pelo planejamento, controle e avaliação. Fazendo uma relação com a fábrica, a sala de aula era considerada o chão de fábrica, lá os professores executavam as tarefas pré-estabelecidas. Assim, podemos afirmar que, ao incorporar a organização de trabalho taylorista-fordista, a escola assume uma função reprodutora da sociedade capitalista. 20 GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância

21 Fonte: SHUTTERSTOCK.COM A escola reproduziu A ESTRUTURA das fábricas. De acordo com as contribuições de Augusto Pinto (2007), com a crise de 1970, a estagnação da economia que afetou os países desenvolvidos, o baixo crescimento dos mercados, a sua instabilidade e a elevação da concorrência internacional impuseram entraves ao sistema taylorista-fordista. Desse modo, as transformações no setor produtivo, principalmente, o desenvolvimento do setor financeiro e o deslocamento para o setor de serviços acarretaram em mudanças substanciais ao modelo de produção. Desse modo, percebemos que o modelo de produção desenvolvido desde a década de 1950 no Japão denominado de toyotismo passa a ser difundido. A principal característica do toyotismo é o sistema just-in-time (produção por demanda), que diz respeito ao trabalho realizado em equipe e não mais individualizado como no modelo taylorista/fordista. Percebemos, então, a flexibilização da mão de obra, gestão participativa e controle de qualidade total como focos de ação. Esse padrão flexível de organização do trabalho implica mudanças para as funções desempenhadas pela gerência, que passa a GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância 21

22 ser denominada gestão e não mais como administração, e compreende a coordenação de competências, recursos materiais e, sobretudo, de informações. A partir da crise latente, a reestruturação produtiva se constitui em instrumento para a superação da mesma. Então, o sistema capitalista lança mão de um conjunto de valores próprios com conceitos e ideias que legitimem o novo padrão de acumulação. Aqui, percebemos os postulados do Neoliberalismo que denotam para a desregulação da economia, a liberalização do mercado, mínima intervenção estatal, a privatização de empresas estatais. Conforme as contribuições de Petras (1997), com o Neoliberalismo, após a década de 1990, se fazem necessárias as reformas do Estado a fim de que haja sustentação para as novas exigências postas. A INFLUÊNCIA NEOLIBERAL NA REFORMA DE ENSINO DA DÉCADA DE 1990 No Brasil, percebemos que desde a década de 1970, já havia resquícios do Neoliberalismo, porém foi com o governo de Fernando Henrique Cardoso que a Reforma do Estado passa a ser executada de modo efetivo, principalmente após a elaboração do Plano Nacional de Reforma do Aparelho do Estado em 1995, com o então ministro Bresser Pereira. Muitas ações foram adotadas para a Reforma do Estado, entre elas destacamos as políticas de descentralização e responsabilização da sociedade civil nas questões sociais, entre elas a educação. De acordo com Viriato (2004), a descentralização é uma estratégia do Estado para se eximir das responsabilidades sociais como saúde, moradia, segurança e educação, as quais são garantidas na Constituição de Como você pode observar, as reformas educacionais dos anos de 1990 não são especificidades do Brasil, mas de toda a América Latina, e foram elaboradas como atendimento às exigências neoliberais representadas principalmente nas recomendações de agências internacionais 22 GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância

23 como o Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial e Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). Sobre esse aspecto, vale ressaltar as discussões apresentadas por Shiroma; Moraes; Evangelista (2007) que argumentam que, a partir desse contexto, as agências multilaterais assumem a educação como fator decisivo para o desenvolvimento econômico dos países periféricos e elegem a necessidade de um sistema democrático que favoreça a participação da sociedade. Assim podemos afirmar que a gestão assimilou as características da administração científica de Taylor e Ford, cujas características diz respeito à aplicação de técnicas de planejamento, controle e autoridade centralizada. Nessa perspectiva, a gestão implica um caráter formativo e neste sentido o papel do gestor está permeado pela ação com foco na coletividade. Como você pode observar, essa concepção de gestão foi projetada para a instituição escolar, isto fica explícito na Constituição de 1988 que assinala a gestão democrática como um princípio na organização do sistema de ensino público e encontrou eco na Lei de Diretrizes e Bases da Educação número 9394/96. De acordo com esses princípios, muda o papel do pedagogo, ele deixa de ser um especialista em supervisão ou orientação escolar e assume a função de coordenar todo o trabalho de organização do trabalho pedagógico e também administrativo sem dissociar sua atuação do caráter formativo; a este novo profissional é atribuída a denominação de pedagogo unitário. Nessa dinâmica, é possível verificar que a organização flexível do trabalho exige indivíduos capazes de atuar em funções diferentes, é verificável também para a escola e é visivelmente observável nas novas atribuições do pedagogo como gestor. Desse modo, podemos afirmar que tais engendramentos só podem ser analisados e compreendidos se considerarmos a sociedade permeada pela materialidade histórica, nas transformações ocorridas no capitalismo. GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância 23

24 No contexto escolar, tais ações se concretizam por meio de práticas coletivas de planejamento da organização do trabalho pedagógico e da avaliação na instituição como reflexo das mudanças advindas. Gostaríamos aqui de explicitar de modo especial a importância do planejamento enquanto processo fundamental para o desenvolvimento de toda atividade, conforme explicita Vasconcellos (1995) ao afirmar que um planejamento crítico implica na ratificação de ações que almejam a transformação de uma realidade. Partimos de tal pressuposto apontado pelo autor supracitado para afirmar que o planejamento está intrinsecamente relacionado à análise da realidade. No contexto educacional brasileiro, especificamente a partir do regime militar, o planejamento foi amplamente difundido sob o foco de instrumento de controle e sistematização do sistema educativo. Esse modelo de organização técnica foi duramente criticado durante a década de 1980 e comparado com a necessidade de um planejamento que contemplasse todas as dimensões pedagógicas da escola: o ensino, a aprendizagem e o processo de avaliação (LIBÂNEO, 2004). Em relação a tais discussões, destacamos as contribuições de Oliveira (1997) ao destacar que o momento histórico da referida década estimulou a discussão sobre a necessidade de substituição de uma prática voltada para um planejamento centralizador por formas mais flexíveis e próximas da realidade educacional. Em concomitância com a disseminação de práticas com o foco na gestão participativa, consolida-se a ideia de que o planejamento deveria ser discutido enquanto instrumento que reflete as reais necessidades da comunidade escolar. Em meio ao movimento de redemocratização do Brasil e do movimento de luta por uma escola pública de qualidade, o planejamento participativo passa a ser considerado como o principal instrumento que favorece a prática da democracia e o desenvolvimento da consciência crítica (LIBÂNEO, 2004). 24 GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância

25 Fonte: SHUTTERSTOCK.COM A luta pela redemocratização da nação ecoou nas escolas. Nesse período, observamos que a nação brasileira se organizava em movimentos em prol da consolidação de uma sociedade de fato democrática, ao passo que as demandas impostas pela crise do capital se expressavam por meio da reestruturação produtiva da sociedade capitalista. Diante desse contexto, o Estado brasileiro, sob a égide das agências internacionais, se mobilizou para a elaboração de mecanismos que atendessem aos dois grupos. Foi assim que o discurso da defesa pela escola pública com qualidade, a gestão democrática, a autonomia, descentralização, entre outras foram ressignificadas para atender às necessidades advindas da nova fase do capitalismo marcadas pela acumulação flexível (VEIGA, 2005). Bem, sabemos que o planejamento coletivo só se efetiva por meio da gestão democrática. Entretanto, precisamos superar a visão ingênua e creditar nossa análise do discurso de defesa na participação da sociedade a qual está ligada aos processos de descentralização que estão em consonância com as orientações neoliberais para a reforma educacional. Desta forma o GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância 25

26 governo lança mão de planos que se vinculam ao discurso da gestão democrática tais como o Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), o Programa Nacional de Fortalecimento de Conselhos Escolares, Plano de Mobilização Social pela Educação, entre outros que expressam o discurso da responsabilidade da sociedade civil na consolidação de uma escola pública de qualidade. A GESTÃO DEMOCRÁTICA NO COTIDIANO ESCOLAR De acordo com as contribuições de Vitor Paro (2006), gestão democrática favorece a participação da comunidade e esta não deve se restringir à eleição de diretores, mas ao acompanhamento efetivo de todas as ações pedagógicas. Neste processo, o Projeto Político- Pedagógico (PPP) se constitui em um importante instrumento que favorece a ratificação do processo democrático. O envolvimento da comunidade escolar nas discussões pertinentes ao contexto educacional por meio do Projeto Político-Pedagógico deve refletir o compromisso e a corresponsabilidade nas metas e objetivos. É importante destacar as contribuições do professor Libâneo (2004) que enfatiza que o PPP se constitui em um importante instrumento que contribui para a superação de um modelo tecnicista e a concretização de uma prática progressista que explicite a participação de sujeitos críticos com competência de atuar criticamente na escola e na comunidade. Queremos aqui explicitar a atuação do pedagogo como gestor, cujo papel privilegia a participação de professores, funcionários, alunos e pais que discutem e propõem o trabalho pedagógico que supere os conflitos e autoritárias e que, sobretudo, promovam a mudança de uma estrutura escolar fundamentada na fragmentação. Neste contexto, percebemos que a atuação do pedagogo como gestor nas práticas coletivas de planejamento, na organização do trabalho pedagógico e na avaliação favorece a consolidação de uma escola comprometida com o papel político e social. 26 GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância

27 Fonte: SHUTTERSTOCK.COM O trabalho coletivo e o envolvimento de todos é fundamental para a consolidação da Gestão democrática. Deste modo, prezado(a) aluno(a), podemos concluir que o papel do gestor precisa ser ressignificado a fim de superar a visão fragmentada entre administrativo e pedagógico. Acerca dessa questão, o pedagogo como gestor tem um papel importante na superação da reprodução das relações capitalistas e no favorecimento do debate e da reflexão. Podemos nos valer da contribuição de Jamil Cury (2005, p.21) e respondermos que o que já existe legalmente em matéria de Gestão Democrática é uma substância necessária para sua efetivação, contudo ainda não é suficiente. É necessário exercitar a cidadania e extrapolar a exigência meramente burocrática, romper a visão ingênua, acrítica e legalista, afinal tais leis demonstram claramente a não neutralidade da educação. GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância 27

28 Finalmente, ressaltamos a amplitude do nosso papel frente ao desafio de consolidar uma educação de qualidade, capaz de pensar criticamente o conhecimento científico e, consequentemente, as relações sociais postas. Eis nossa grande missão, consolidar uma educação capaz de formar cidadãos críticos capazes de atuarem na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. CONSIDERAÇÕES FINAIS Prezado(a) aluno(a), você deve ter observado que as reflexões desta primeira unidade apresentaram um resgate histórico da atuação do pedagogo no Brasil que sofreu e sofre influência direta do modo de organização das relações do mundo do trabalho. Outro ponto importante destacado diz respeito às especificidades do papel do pedagogo frente ao desafio de organizar o trabalho docente na perspectiva da Gestão Democrática. Assim, concluímos que o modelo atual de gestão foi construído ao longo da história e que o modo de produção vigente e as relações de trabalho interferem de modo significativo na forma de organização do contexto educacional. As exigências atuais trazem o foco da Gestão Democrática como principal instrumento de Gestão Escolar, eis nosso desafio, compreender todos os aspectos da Gestão democrática a fim de que a organização do trabalho escolar aconteça de modo crítico e coerente. 28 GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância

29 Indicação de leitura: KUENZER, A. Z. As mudanças no mundo do trabalho e a educação: novos desafi os para a gestão. In: FERREIRA, N. S. C. (org.). Gestão democrática da educação: atuais tendências, novos desafi os. São Paulo: Cortez, 2001, pp Este livro contribui nas investigações do âmbito da gestão democrática da educação. Visa participar do debate sobre as questões candentes da educação na contemporaneidade, prioritariamente das políticas de formação, reunindo as contribuições mais atuais que inquietam os educadores. Disponível em: <http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/ /gestao-democratica-da-educacao-atuais-tendencias-novos-desafi os-7-ed-2011/?pac_id=23736>. Acesso em: 4 de abr A gestão democrática da educação não se tornará efetiva somente pela afi rmação de princípios e mudanças de normas. A nova prática precisa estar fundamentada num novo paradigma de educação, já tão proclamado por educadores como Anisio Teixeira, Paulo Freire, entre tantos outros: o da educação emancipadora. E aqui está o grande desafi o: a democracia, que é exercício efetivo da cidadania, pressupõe a autonomia das pessoas e das instituições. Educação emancipadora e gestão democrática são indissociáveis, sem o que estaríamos trabalhando numa contradição intrínseca. Escolas, profi ssionais da educação e estudantes privados de autonomia não terão a condição essencial para exercer uma gestão democrática, de promover uma educação cidadã. A abordagem da gestão democrática da educação pública passa pela sala de aula, pelo projeto político-pedagógico, pela autonomia da escola. Genuíno Bordignon GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância 29

30 Fonte: <http://tvbrasil.org.br/fotos/salto/series/151253gestaodemocratica.pdf>. Acesso em 4 abr Entrevista: leia com atenção a entrevista realizada com o pesquisador e professor Luiz Dourado, realizada em 2 de julho de Atuação: Professor titular da Universidade Federal de Goiás Obras: Políticas e gestão da educação superior a distância: novos marcos regulatórios? Educação e Sociedade, v. 29, pp , 2008; Políticas e gestão da educação básica no Brasil: limites e perspectivas. Educação e Sociedade, v. 28, pp , 2007; Conselho Escolar, gestão democrática da educação e escolha do diretor. Brasília-DF: MEC/SEB, Grandes Temas da Educação Nacional Salto Quais são os grandes temas da educação brasileira hoje? Luiz Dourado Historicamente, e também atualmente, os grandes temas estão diretamente ligados à questão da qualidade da educação, à universalização da educação, à gratuidade do ensino. E, ainda, temas ligados à formação e à valorização dos profi ssionais da educação, ao fi nanciamento e à gestão democrática. Ou seja, são temas atuais e históricos que não têm sido muito bem trabalhados ao longo da história da educação do Brasil. Salto Desde que se pensa educação no Brasil estes temas estão em pauta e continuam sendo um desafi o para quem atua nesse campo? Luiz Dourado São desafi os porque, na verdade, para se pensar a educação temos que pensar na sua qualidade, no seu fi nanciamento e na extensão: é uma educação para todos? É educação para uma parcela da população? Vamos garantir educação básica e superior ou somente educação básica? Esses temas se colocam historicamente como desafi os para a educação nacional. Salto É importante que a sociedade se mobilize para discutir o financiamento da educação e os modelos de gestão escolar? Luiz Dourado De fato, pensar a educação nacional implica tornar essa questão uma questão nacional, uma questão de toda a sociedade, envolvendo toda a sociedade na discussão da educação, da qualidade e do fi nanciamento. Quer dizer, quais os limites que se colocam para isso? Porque há uma discussão ainda pequena, mas já se avançou na questão da qualidade, e as outras temáticas quase não fazem parte dessa agenda. Para se pensar a qualidade, nós precisamos pensar fi nanciamento, precisamos ampliar os recursos da educação, precisamos melhorar as formas de gestão. E o envolvimento da sociedade com essas temáticas é fundamental. 30 GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância

31 Salto No caso da gestão escolar, também é a mesma coisa? Luiz Dourado Gestão, certamente. Pensar processos que contem com a participação de professores, de estudantes, de pais, de funcionários é crucial. É necessário pensar as dinâmicas, as formas de organização e gestão da escola, contando com processos de participação direta dos envolvidos na própria escola e seu entorno. Salto É possível que falte para a sociedade a percepção de que estes temas estão diretamente direcionados à ideia de qualidade? Luiz Dourado Na verdade, o que há é uma necessidade de se ampliar a agenda da discussão da educação nacional. Discutir a melhoria da escola pública implica discutir a melhoria do financiamento, as formas de organização e gestão dessa escola. Este envolvimento de pais, de estudantes, de funcionários e de professores é vital. Mas é necessário que essa temática seja uma temática de toda a sociedade brasileira, que ela ultrapasse o horizonte das escolas públicas, que seja pensada enquanto dinâmica para toda a educação nacional. Salto O Brasil ainda não possui um sistema nacional de educação e essa é uma discussão também bem atual. Quais seriam os principais benefícios que a implementação desse sistema poderia trazer? Luiz Dourado A primeira questão a mencionar é que o Brasil tem uma forma de organização descentralizada, mas ainda marcada por dinâmicas de centralização. Um sistema nacional articulado a uma regulamentação do regime de colaboração entre os entes federados, ou seja, entre União, estados, Distrito Federal e municípios, garantiria o estabelecimento de diretrizes comuns, e essa seria uma atividade básica do sistema nacional, que possibilitaria a elaboração de subsistemas, envolvendo avaliação; financiamento; formação e valorização docente; gestão democrática. Daí as condições para se efetivar no Brasil uma descentralização com um nível de articulação nacional. Eu acho que esse é o esforço e isso certamente resultaria numa melhoria dos próprios processos de organização e gestão das instituições educativas, dos próprios sistemas, e terá um impacto na qualidade educacional e, portanto, no aprendizado e no sucesso dos estudantes, o que é a função básica de uma instituição educativa e desejo de toda sociedade. Salto Você disse que o Brasil tem a lógica de uma gestão descentralizada dos sistemas, mas ainda marcada por ações de centralização, por exemplo? Luiz Dourado Isso tem a ver com a natureza patrimonial do próprio Estado brasileiro: temos um sistema descentralizado, mas não temos a regulamentação do regime de colaboração que daria as bases para a ação de União, estados, Distrito Federal e municípios. Isso acontece quer ao sabor do momento político, quer ao sabor do conjunto de interesses. Se nós tivéssemos um sistema, isso seria objeto de uma deliberação coletiva, mas certamente possibilitaria uma estrutura de desconcentração. O que é a desconcentração? É você repassar um conjunto de atribuições e, necessariamente, não garantir um financiamento. Um exemplo que eu poderia citar foi o da municipalização, que no Brasil se caracterizou muito mais como prefeiturização, os municípios tendo que assumir um conjunto de novos encargos, não só do Ensino Fundamental, que já era seu encargo, mas também a educação GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância 31

32 infantil, sem uma correspondência de recursos. Uma política nacional como foi o FUNDEB, que é um fundo contábil para a educação básica, de certa forma já estabelece novas relações nisso que eu chamo de processo de efetiva descentralização. Um FUNDEB articulado ao sistema nacional certamente criaria uma outra condição política de ação entre os entes federados. Para melhorar a educação nacional não basta a ação da União, não basta a ação de estados e Distrito Federal e municípios, tem que ser o projeto nacional integrado. Salto Hoje a responsabilidade pela oferta da educação básica é compartilhada, é dividida por estes três níveis, essas três esferas governamentais (União, estados e Distrito Federal e municípios). Como é que funciona essa articulação? Luiz Dourado Concretamente compete a estados e municípios, ao município particularmente, a oferta do ensino fundamental. Compete a estados e municípios o ensino médio, a complementação do ensino fundamental e a educação infantil nesse contexto, o que compõe as etapas da educação básica. Nós diríamos que essa é uma prerrogativa de estados e municípios no tocante à oferta, mas quando pensamos a educação nacional, nós temos que pensar a oferta e seu financiamento. Nós temos também uma ação da União sobre o ensino, sobretudo a partir do FUNDEB, que foi esse fundo de natureza contábil, que leva a uma repartição desses recursos, a União entra com a complementação de recursos. O que nós precisamos é, na verdade, avançar no tocante aos percentuais da educação nacional e ter uma melhor distribuição desses recursos, ou seja, um aprimoramento cotidiano do FUNDEB, já que este fundo cria uma possibilidade de contribuir com a superação das desigualdades educacionais no país. Salto E o que mudaria na articulação dessas três esferas governamentais com um sistema nacional de educação? Luiz Dourado Acredito que se cria uma possibilidade histórica nova, no fato de nós termos o sistema nacional lidando com as normas que seriam comuns às vinte e sete unidades federativas e se desdobrando nos mais de cinco mil, quinhentos e sessenta municípios. E as possibilidades concretas de articulação desse sistema nacional com sistemas próprios, com sistemas estaduais e municipais, onde houver. De modo que nós tivéssemos, no caso brasileiro, de maneira mais orgânica, a articulação da educação nacional sem prejuízo de questões físicas, quer seja de estados, quer seja de municípios. O sistema nacional congregaria e permitiria, a meu ver, na verdade, a construção de uma outra possibilidade, no sentido de haver realmente colaboração entre os entes federados, além da definição dessas diretrizes nacionais e, ainda, seus desdobramentos nas diretrizes específicas de cada estado e município, que teriam um avanço nos processos de organização e gestão da educação nacional. Salto No Salto para o Futuro já fizemos algumas séries discutindo a temática da gestão democrática das escolas. Como você analisa essa questão? E por que parece tão desafiador para as escolas brasileiras implementar práticas e processos democráticos? Luiz Dourado Essa é uma questão crucial: como pensar uma escola que seja pública, uma escola que de fato partilha coletivamente da sua construção? Se nós considerarmos os textos legais - a própria Constituição Federal, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, o Plano Nacional - todos 32 GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância

33 eles têm uma convergência, a defesa do princípio da gestão democrática. Compete aos sistemas de ensino, aos respectivos sistemas de ensino, regulamentar a gestão democrática. Isso tem implicações das mais diferenciadas, mas a questão crucial, central, é garantir uma efetiva participação de pais, estudantes, professores e funcionários na construção do destino dessa própria unidade escolar. Isso implica discutir questões como avaliação, questões como a limpeza da unidade de escolar, como organização dos horários, quer dizer, um conjunto de questões diretamente vinculado à tradição ou à lógica organizativa da escola. Mas implica, também, vivenciar mecanismos de efetiva participação como colegiados, conselhos escolares, grêmios estudantis, espaço de participação dos estudantes, modalidades de escolha de dirigentes, como a eleição direta para diretores, que tem sido implementada em vários estabelecimentos. E, mais recentemente, aqui no Rio de Janeiro nós temos essa vivência no Instituto de Educação, uma instituição histórica, uma instituição de grande prestígio na área educacional e que agora começa a vivenciar também processos democráticos, como a escolha de dirigentes. A gestão democrática é fundamental na medida em que ela contribui para ampliar os processos de participação, saindo de uma participação tutelada, restrita e funcional para uma efetiva participação. Só teremos uma escola que contribua para a formação de sujeitos críticos, criativos, se nós tivermos a participação desde a educação infantil. Salto Vamos falar sobre o Plano Nacional de Educação. O Plano completa dez anos em 2010, e um novo plano deve começar a ser elaborado ao longo do próximo ano, para que entre em vigor no início de As metas previstas no atual PNE foram atingidas? Luiz Dourado É importante chamar a atenção para o fato de que o Plano Nacional de Educação foi objeto de embates na sua consolidação e, logo após a implementação do plano, ou seja, na sua aprovação, numa perspectiva de implementação, ele sofreu sérios cortes e esses cortes se deram nos vetos do Governo Federal, na época, todos eles diretamente ligados a uma perspectiva de expansão e, portanto, ao financiamento. O Plano Nacional já nasceu com limites estruturais no tocante ao seu financiamento e isso iria repercutir no cumprimento das metas. Mas, além disso, ele apresenta limites na própria estruturação de metas, que são extremamente amplas, que são pouco factíveis de acompanhamento no tocante à sua avaliação. Salto Amplas no sentido de ambiciosas, é isso? Luiz Dourado Não, amplas na própria formulação. Mas nós temos também metas que são metas ambiciosas, e isso é importante em termos de um Plano de Estado. No fato de estabelecer marcos para se garantir, por exemplo, a expansão educativa, o Plano Nacional avança ao sinalizar, por exemplo, a ampliação ao atendimento à educação infantil, à universalização do ensino fundamental, à ampliação progressiva do ensino médio, bem como a expansão da educação no ensino superior. Mas, como fiz referência, os vetos cortaram alguns desses projetos ambiciosos, ou dessas metas ambiciosas, por exemplo, a relativa expansão do ensino superior público foi um item vetado. Eu acompanho e coordeno um grupo que avalia o Plano Nacional de Educação e foi possível evidenciar que nós tivemos alguns avanços, inclusive no tocante a políticas federais implementadas, sobretudo, a partir de 2003, com a tentativa de se buscar ações mais articuladas. Agora, a ação do plano tem muito a ver com ações de estados e municípios, sobretudo no tocante à educação básica, porque são estes dois entes responsáveis, hegemonicamente, pela oferta da educação básica articulada ao setor privado e a uma GESTÃO ESCOLAR E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educação a Distância 33

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