QUAL O LUGAR DAS TRAVESTIS NAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DO AMAPÁ? RESUMO

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1 QUAL O LUGAR DAS TRAVESTIS NAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DO AMAPÁ? Elioneide Cardoso Cruz 1 Leyse Monick França Nascimento 2 Leticia Calhau Freitas 3 RESUMO Este artigo trata da pesquisa em andamento, intitulada provisoriamente como Qual o lugar das Travestis nas políticas públicas de educação do Estado do Amapá? e trás como objetivo geral: compreender como a Secretaria de Educação do Estado do Amapá - SEED reconhece e contempla pessoas Travestis nos seus programas, projetos e/ou políticas públicas de ensino em consonância com as legislações nacionais. Mais especificamente, propõe-se a buscar identificar a concepção de gestoras/es da Secretaria de Educação, diretoras(es) escolares, serviço técnico pedagógico, professoras(es), Conselho Estadual de Educação e setores afins, a cerca da relevância do acesso, participação e permanência de pessoas Travestis nas escolas públicas do estado do Amapá. Como as políticas públicas estaduais de educação estão sendo implementadas e por fim, analisar os avanços e desafios dessas políticas em âmbito estadual. Palavras chave: Políticas Públicas. Educação. Travestis. Corpo. Violência. Introdução O presente artigo faz parte de uma pesquisa em andamento que está sendo desenvolvida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) pelo Programa de Pós- Graduação em Educação (PPGE) e orientada pelo Professor Dr. José Jairo Vieira. Nesta pesquisa hora em andamento, que busca investigar as políticas públicas de educação do estado do Amapá. Se suas implementações estão alinhadas com as legislações nacionais (C.F), (PCN s), (LDB), (PNE) bem como identificar a concepção de gestoras (es) da secretaria de educação, gestoras (es) escolares, professores e serviço técnico e setores afins. Seus avanços e desafios no que tange o acesso e permanência de pessoas Travestis na rede estadual de ensino. Decidimos por adotar nomenclaturas e não conceitos teóricos, utilizadas pelo movimento LGBT brasileiro quando nos referirmos às travestis e transfobia. Estas 1 Mestranda na Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ 2 Mestranda na Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ 3 Pesquisadora convidada do Laboratório de Pesquisas, Estudos e Apoio à Participação e à Diversidade em Educação LaPEADE UFRJ

2 nomenclaturas são utilizadas pelo Movimento LGBT brasileiro que decidiu por criar um Manual de Comunicação que é resultado do trabalho de militantes e que contou com a colaboração de jornalistas e de outros profissionais ligados de alguma forma ao segmento LGBT. Esse manual, além de explicar didaticamente a terminologia correta a ser usada para falar sobre homossexualidades, lesbianidades, bissexualidades, travestilidades e transexualidades, serve ainda para que profissionais de comunicação não corram o risco de sofrer ações de danos morais e cometer crimes de injúria, calúnia ou difamação (Manual de comunicação LGBT, p. O6 e 07) Diante da realidade brasileira que hora se apresenta nos resultados das 34 pesquisas já concluídas e que serviram de embasamento para o início deste trabalho, percebemos que estas não estão distribuídas de maneira representativa nas cinco regiões do Brasil, porém vêm tratando de vários enfoques que retratam a realidade das Travestis. Diante desses resultados já disponíveis a toda sociedade brasileira, ainda é latente o desafio de se construir políticas públicas que visem minimizar as questões de escolaridade e consequentemente de emprego e renda das Travestis (RONDAS, 2012). Diante desse levantamento podemos observar que a multiplicidade de discursos que marcaram e ainda marcam negativamente a história de pessoas Travestis nas literaturas não científicas, nos meios de comunicação escritos e televisivos, vêm sendo reproduzidos nas e pelas instituições sociais a exemplo das escolas públicas e das famílias. As décadas de ausência de interesses políticos em construir políticas públicas para o segmento LGBT no Brasil, ao mesmo tempo em que ganham repercussão por meio destes mesmos canais, passaram a despertar o interesse das Universidades, que os adotaram (gays, lésbicas, travestis e transexuais) como objeto de estudos acadêmicos, trouxeram, à luz da ciência, outro olhar em perspectiva desses atores sociais que desafiaram pesquisadoras/es de vários países e, mais especificamente no Brasil, há mais de trinta anos. Pessoas Travestis, ao longo de suas existências, foram (e ainda são) retratadas em jornais, revistas, e programas de humor como seres a quem são dispensados pouco ou nenhum respeito no que diz respeito à sua dignidade humana. São geralmente transformadas em motivos de piadas das mais desqualificadoras possíveis e retratadas em caricaturas que estigmatizam ainda mais esse grupo. Esses discursos, reproduzidos nas e pelas instituições sociais deixaram, por muitas décadas, as Travestis na invisibilidade, ocultando outras realidades, como, por

3 exemplo, o fato de que pessoas Travestis que encontraram estratégias próprias para permanecerem nas instituições escolares, suportando violências de toda ordem, concluíram alguma etapa da educação básica e tiveram suas realidades modificadas consideravelmente. Ademais, essas pessoas buscaram (e seguem buscando) ingresso no mercado de trabalho formal e informal, o que, muitas vezes, resulta em garantia de renda. Contudo, em outros casos, na sua maioria, elas não conseguem emprego pela equivocada compreensão de que Travestis estariam relegadas apenas a serviços ligados a prostituição. Segundo Rondas (2012): No caso das travestis, além do reconhecimento e valorização no mercado de trabalho, a valorização profissional é também uma forma de reconhecimento e aceitação do seu modo subjetivo e diverso de ser pela sociedade (p. 15). No Brasil as Travestis com pouca escolaridade são destinadas a trabalhos com baixa remuneração, mas já é possível encontrarmos registros narrativos de Travestis ocupando funções no serviço público, tais como nas Universidades. Entretanto, isso não significa que, nestes lugares e nesta função, elas estejam livres de assédios e transfobia 4. As políticas públicas educacionais destinadas a esse grupo no Brasil são pautas prioritária nas agendas dos movimentos sociais organizados por Travestis e Transexuais, o que recentemente resultou no primeiro projeto destinado exclusivamente a elas, no estado de São Paulo, intitulado Projeto Trans-cidadania 5. Uma breve contextualização de um Brasil reconhecidamente diverso e politicamente controverso De um Brasil colonizado, catequizado, cristão, miscigenado, monárquico, republicano, ditatorial, redemocratizado a um Brasil reconhecido mundialmente pelo seu mito da brasilidade, tal como afirma Jessé de Souza (2009) em sua obra intitulada Ralé Brasileira: quem é e como vive, foi é ainda é hoje o Brasil das negligências de seus próprios processos políticos e educacionais e que nas últimas décadas reivindica nada mais nada menos do que direitos humanos para uma grande parcela de sua população: mulheres, negros, indígenas, pobres, idosos, jovens, crianças, deficientes, lésbicas, gays, 4 Termo criado para representar a rejeição e/ou aversão às transexuais, relacionado às ações políticas diferenciadas do movimento LGBT, 5 Disponível em: 0

4 transexuais e travestis. Diante disso, o Estado brasileiro é chamado a prestar conta dos postergados direitos históricos à educação para todas e todos. O Brasil vem construindo, ao longo da história de suas legislações educacionais e de suas políticas públicas, um cenário notório de segregação, no que diz respeito a vários grupos de minorias e, dentre eles, aqueles considerados diferentes, transgressores da moral e relegados ao lugar da escuridão : as Travestis. As políticas, as legislações educacionais brasileiras e a moralidade frente aos direitos inalienáveis (como o direito à vida, por exemplo) travam uma batalha histórica que nos convida a todas/os a refletir: qual o legado político-social-educacional que os agentes públicos do século XXI têm por desafio contribuir, na segunda década deste século? visto que este acúmulo segregador é histórico, cultural e indiscutivelmente estrutural. que: Diante deste questionamento, Shiroma, Moraes e Evangelista (2007) observam Compreender o sentido de uma política pública reclamaria transcender sua esfera específica e entender o significado do projeto social do Estado como um todo e as contradições gerais do momento histórico em questão[...] Temos a convicção de que as políticas educacionais, mesmo sob semblante muitas vezes humanitário e benfeitor, expressam sempre as contradições suprarreferidas. Não por mera causalidade. Ao longo da história, a educação redefine seu perfil reprodutor/inovador da sociabilidade humana. Adapta-se aos modos de formação técnica e comportamental adequados à produção e a reprodução das formas particulares de organização do trabalho e da vida. O processo educativo forma as aptidões e comportamentos que lhes são necessários, e a escola é um dos seus loci privilegiados (SHIROMA, MORAES e EVANGELISTA, 2007). O Brasil que carrega o título de possuir as maiores riquezas naturais e as mais cobiçadas do planeta, mas que contrário a isso, acumula a triste estatística de ser um dos países mais violentos do mundo, o que certamente transforma o cenário brasileiro em um lugar reconhecidamente diverso e politicamente controverso, no qual iremos mergulhar pontualmente nesta pesquisa, tendo como referência o Estado do Amapá. Embora no Brasil não existam estatísticas oficiais organizadas pelas secretarias de segurança pública a respeito de violência contra o público LGBT e, mais especificamente, com o foco nas Travestis, o que em si já é um grande problema, sabemos que a homofobia - aversão a gays, lésbicas, travestis e a transexuais é pratica cotidiana no Brasil, seja em casa, na rua, no trabalho, nos meios de comunicação ou em todas as instituições, inclusive (e principalmente) nas escolas. Podemos constatar por meio de dados coletados da pesquisa Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil, realizada pela Fundação Perseu Abramo- (FPA) em

5 parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo Stilfung - (FRL) nos anos de 2008 e 2009, que sinaliza para o desafio cada vez mais central nas escolas brasileiras, o da violência homofóbica. A descriminação contra o grupo LGBT e, principalmente, contra o grupo das Travestis no Brasil é grave, reproduzindo grande parte dos estigmas que motivam as ações, ora de violência, ora de segregação total desse grupo, culminando, segundo as próprias, na evasão escolar, por muitas vezes de forma definitiva. Levando isso em consideração, Oliveira (2014) destaca que: Ao longo das últimas décadas a sociedade brasileira vem convivendo com o aumento da violência e da criminalidade e, nesse contexto, surgiu um elemento novo, o assassinato de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros (LGBT). Indivíduos pertencentes a um seguimento social estigmatizado passaram a figurar entre vítimas de crimes brutais e recorrentes. (Oliveira, 2012, pag.15). Destacamos, ainda, que, apesar das visíveis mudanças no comportamento social da população brasileira nas últimas décadas, e com grande parte destas conquistas atribuída aos movimentos sociais, a escola ainda hoje é um ambiente conservador, tradicional e hostil à permanência das Travestis. No entanto, já podemos considerar que, no Brasil, algumas Travestis que encontraram estratégias de permanência nos ambientes escolares, concluíram o ensino fundamental e médio, chegaram ao ensino superior e protagonizam em outros cenários públicos ações de destaque. Isso comprova que essa realidade invisibilizada pelo discurso de inferiorização, aponta para o desafio de que, embora considerada um ambiente hostil, a escola e outras instituições podem e devem (re)significar suas culturas, políticas e práticas, como sugere Santos (2008), canalizando para si, por meio de políticas de Estado, parte da responsabilidade que é sua por definição e dos demais componentes dos sistemas educacionais, sistemas correlatos e parceiros, tal como afirma Torres (2013). No que diz respeito à educação, são várias as instâncias que contribuem para definir o que se pode admitir para que a escola torne-se mais democrática. Os Conselhos de Educação, os movimentos sociais, os grupos religiosos, as ciências e, por fim, o Estado, este, como um grande mediador e regulador, é representado pelas Secretarias de Educação dos estados e dos municípios e pelo Ministério da Educação. Contudo, os consensos entre essas instâncias geralmente são bastante frágeis e de curta duração. Novas demandas na área das sexualidades sempre aquecem os debates, como por exemplo, o uso do nome social de travestis e transexuais no diário de classe. Em várias localidades as Secretarias de

6 Educação sancionaram portarias permitindo o uso do nome social, uma decisão que geralmente advém de diálogos com conselhos de Educação e movimentos sociais, entre outros (TORRES, 2013, p.11). Na tentativa de minimizar todos os tipos de exclusões, governos de 164 países reuniram-se no ano de 2000 em Dacar, Senegal, para avaliar os progressos realizados desde a Conferência Mundial de Educação para Todos, organizada pela Organização Mundial das Nações Unidas para a Educação, a ciência e a cultura UNESCO, em Jomitien, entre cinco e dezenove de março de Nesta conferência foi reafirmado o direito de todos à educação e à aprendizagem ao longo de toda a vida no campo das Políticas e Práticas da Educação. O Relatório de Monitoramento de Educação para Todos do ano de 2008, no tocante a questões de gênero, além da paridade de participação na educação, também se espera igualdade de tratamento e de condições para homens e mulheres no ambiente educacional. O destaque atribuído ao tema gênero neste documento aponta um avanço nas questões de igualdade entre homens e mulheres, porém não ficou explícito que este tratamento seria extensivo a todas as orientações sexuais, o que nos remete imediatamente a uma reflexão a respeito da dificuldade que as sociedades apresentam quando se trata da população aqui pesquisada, as Travestis. É verificada, assim, a não preocupação e o não reconhecimento explícito da diversidade sexual que está presente em todas as sociedades e em todas as instituições Educacionais, retificando a heteronormatividade no documento e a invisibilidade de sujeitos com orientação sexual diversa. É com o intuito de (des)construção e (re)elaboração de novos discursos políticos-institucional e de (des)construção dos estereótipos que cercam a vida das Travestis que nos propusemos a investigar as políticas educacionais existentes no campo administrativo da Secretaria Estadual de Educação do Amapá voltadas para a erradicação dos estigmas deixados pelo surgimento da AIDS. Dessa forma, Andrade (2002) apud Freitas (2010) relata que nós todos intuíamos que não havia apenas uma epidemia, havia uma ou outra trabalhando em conjunto [...]. Era uma epidemia discursiva, um recrudescimento dos preconceitos e das discriminações contra gays (p. 19), passando a nos desafiar cotidianamente no campo das subjetividades e das pesquisas científicas.

7 Travestis e pesquisa científica em contexto nacional Ao nos debruçarmos num prévio levantamento de pesquisas já concluídas no Brasil, obtivemos como resultado um total de trinta e quatro (34) trabalhos, entre dissertações e teses, nos anos de 2004 a Neste levantamento, foi possível observar que em todos os resultados, independente da área do conhecimento, pessoas Travestis aparecem em condições desumanas, com baixa escolaridade, a maioria sem concluir o ensino fundamental (SHIMURA.2012). Moram em grupos, com quase ou nenhum direito garantido, inclusive o de vida. Ademais, elas geralmente são mortas de forma violenta, possuem uma expectativa de vida abaixo dos 36 anos, revelando que o Brasil é o primeiro no ranking mundial com o maior número de assassinato de Travestis. Neste recorte temporal, inicialmente, também foi possível observar que as pesquisas encontradas no contexto das políticas públicas, ainda não estão distribuídas numericamente de maneira representativa em todas as cinco regiões brasileiras (Norte, Nordeste, Centro-oeste, Sudeste e Sul). A região Sudeste aparece com o maior número de produções científicas num total de vinte e uma (21), seguida pela região Sul, Nordeste, Centro-Oeste. Em último lugar aparece à região Norte, com apenas duas pesquisa realizada no estado do Pará, sendo estas duas dissertações de mestrado (JUNIOR, 2011 e SOUZA, 2012), o que nos desafiou a pensar em uma pesquisa voltada para o estado do Amapá, no intento de contribuir com os dados já existentes que retratam a vida de pessoas Travestis de norte a sul do país, bem como buscar conhecer os desdobramentos das políticas públicas de educação, com foco específico nas pessoas Travestis, suas implementações, avanços e desafios. A tabela a seguir representa a distribuição das 34 pesquisas levantadas com o intuito de descobrir o que já existia na literatura acerca de políticas públicas entre 2004 a 2014: Tabela 01: Pesquisa por região brasileira Regiões Teses Dissertações Norte 0 2 Nordeste 1 5

8 Centro-oeste 0 4 Sudeste 4 17 Sul 1 6 Total 6 34 Com base nesse levantamento, é seguro afirmar nesta etapa do desenvolvimento de nossa pesquisa é que os estudos já concluídos nos apontam que a situação para a maioria das travestis brasileiras é a mesma, a de abandono por parte do Estado brasileiro e desprovimento dos benefícios e direitos constitucionais, o que as obriga a viverem em grupos para se auto-protegerem (KULICK, 2008) de ameaças de toda ordem, e, principalmente, de espancamentos, que chegam à subtração de suas vidas. Isso acontece pelo fato de serem travestis, por fundamentalismo religioso, pela negação das diferenças e pelo que se julga entender por homem e mulher, sexualidade, natural, pecado, crime e outras justificativas que segregam as travestis há décadas no nosso país. Ademais, isso é reforçado pela negligência do Estado brasileiro em se empenhar em construir políticas públicas universalistas que desconsideram as minorias desiguais. De acordo com Melo, Brito e Maroja (2008), contudo, [...] é necessário reconhecer que políticas universalistas são fundamentais, mas não suficientes para evitar que a homofobia institucional exclua a população LGBT dos serviços de assistência oferecidos pelos diferentes órgãos governamentais, nas esferas municipal, estadual e federal, particularmente quando essas pessoas não correspondem aos fenótipos de gênero convencionais, a exemplo de travestis, transexuais, homens efeminados e mulheres masculinizadas, o que muitas vezes gera situações de vulnerabilidade social no âmbito de instâncias fundamentais da vida social, como família, trabalho e serviços de educação, saúde e segurança, como destacaram várias ativistas entrevistadas. (p.421) No começo de 1995, duas casas da rua São Francisco eram habitadas exclusivamente por travestis. Havia outras duas casas, onde travestis ocupavam apenas o primeiro pavimento. Os outros eram ocupados por famílias ou pessoas sozinhas. Foi em uma dessas duas casas que eu residi durante parte da pesquisa. Tudo somado, havia sempre em torno de 35 travestis vivendo na rua São Francisco.O que significava que a rua era o local de maior concentração[de residências] de travestis na cidade. [...] apesar das condições de vida quase insalubres, os preços do aluguel dessa casa, assim como de outros imóveis, no entorno da rua São Francisco eram altos[...] (p. 41). Trilhar um caminho que consideramos pouco explorado, a vida escolar das travestis no estado do Amapá, certamente não deverá ser algo muito fácil, visto que aproximar-se desse grupo na cidade de Macapá não foi, até o presente momento, algo explorado cientificamente. Dessa forma, o que podemos nos aproximar, com base nas

9 teses e dissertações aqui levantadas, é que as Travestis deixam o convívio de suas famílias e das escolas, em uma idade ainda bastante prematura, se considerarmos que outros adolescentes (na faixa etária entre 13 e 17 anos) ainda se encontram cursando a educação básica e que muitos ainda residem com suas famílias. Para as Travestis essa separação acontece mais cedo e, na maioria das vezes, se dá por expulsão de seus pais, sendo, pois, em poucos casos pela decisão das próprias de abandonar seus lares. Nos dois casos essa separação é motivada pela ideia de que seus pais jamais compreenderiam suas orientações sexuais e identidades de gênero, levando-as, prematuramente, a uma enorme e incontestável vulnerabilidade social. Esses e outros fatores as colocam numa situação ainda mais preocupante, no que se refere às doenças, condições de existência precária (em todos os sentidos) e, principalmente, no que se refere à escolaridade e mercado de trabalho. De acordo com uma pesquisa realizada por Shimura (2012) no estado do Paraná, a qual nos trouxe grandes contribuições, pode-se dizer que: [...] objetivou com sua pesquisa compreender como travestis vivenciaram o período escolar, seus anseios, preferências, sonhos e fragilidades, a família, as amizades, o trabalho e experiências. Embora o Período escolar e a comunidade escolar seja parte essencial desta pesquisa, no processo de resgatar as memórias desse período da vida se misturam com o tempo presente, ou seja, as entrevistadas ao rememorarem o passado, tornaram-no próximo do presente, pois suas identidades sociais, de gênero e a orientação sexual estavam em construção (introdução). Ainda sobre a realidade de vida escolar e mercado de trabalho de Travestis, reveladas por outras pesquisas em outras regiões brasileiras, podemos notar várias mostras de que suas condições socioeconômicas não diferem muito de uma região para outra. (Re) ações negativas, oriundas de indivíduos das mais diferentes classes sociais, fazem da existência das Travestis uma verdadeira batalha cotidiana. Primeiramente, isso acontece na luta pela manutenção da vida, pela sobrevivência alimentar, de lazer, saúde, moradia, trabalho e educação. Tudo ao mesmo tempo e sem necessariamente compreender a uma ordem, o que não significa que todas as travestis, indistintamente, no Brasil, necessitem igualmente de tais assistências e recursos, pois temos relatos e exemplos de pessoas Travestis que encontraram diversas formas de garantir renda e que estão tanto no mercado formal como informal, porém a maioria, muito raramente, consegue conciliar trabalho e vida escolar.

10 Vivian está poderosa no tubinho preto. Ao encontrar com Tiago Duque, se mostra contente, pois não se viam desde que ele havia encerrado seu campo anterior ali no Sucão. E aí, mona?. Ela conta que largou a escola, não conseguiu conciliar com o trabalho; neste, segue firme, de carteira assinada. Por isso só tem se montado nos finais de semana, e aproveita para perambular pela Praça antes de ir para a Avenida Aquidaban, ponto tradicional de prostituição travesti em Campinas. É uma adrenalina que coloquei na minha vida, comenta referindo-se ao fato de fazer pista 23 eventualmente. Conhecendo um pouco Macapá, capital do estado do Amapá Macapá é a capital do estado do Amapá. Nosso estado possui uma área territorial de km² e está localizado na região norte do Brasil. Macapá é conhecida como Pérola da Amazônia por ser a única capital brasileira banhada pelo imenso rio amazonas. Com a então elevação do território Federal do Amapá a estado em 1988, a dinâmica social dessa capital passou a se modificar gradativamente com o fenômeno das migrações. Segundo o censo demográfico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2010, a cidade de Macapá possui uma população de habitantes. Diante das mudanças geopolíticas, o estado do Amapá já acumula graves problemas sociais como os de qualquer estado brasileiro, o que trouxe desafios para todos os setores da administração pública e, principalmente, para a educação. Para mantermos o foco na questão a que esta pesquisa se propõe, passaremos a descrever o lugar onde o primeiro grupo de Travestis apareceu pela primeira vez, há aproximadamente uma década, na capital Macapá, a fim de obtermos um melhor entendimento acerca sobre onde devemos manter o olhar sobre o que nos levou a formular a questão problema. Situaremos as Secretarias de Educação, Segurança Pública, a Assembleia Legislativa do Estado e algumas escolas de ensino médio em seu entorno, na tentativa de aproximar a leitora/or do cenário simbólico onde se encontram o grupos de Travestis. O centro administrativo da capital Macapá fica localizado na principal avenida que divide a cidade ao meio nas zonas norte e sul, de nome Avenida FAB, fazendo referência à Força Aérea Brasileira. No seu lado esquerdo, sentido continente-rio amazonas, se encontra a Secretaria de Estado da Educação SEED, onde estará concentrada parte de nossa pesquisa. Do outro lado da mesma avenida e no mesmo quarteirão, sentido diagonal a Secretaria de Educação, está a Assembleia legislativa do estado, esquina com a Rua Leopoldo Machado, primeiro local onde passamos a

11 observar o aparecimento de grupos de Travestis, apenas no horário noturno, supostamente em atividade de prostituição. Fenômeno este que já se espalhou para outras esquinas de outros bairros da capital Macapá. Nesta mesma Avenida FAB, encontram-se várias escolas de ensino fundamental e médio e, noutra Avenida paralela a ela, a Avenida Procópio Rola, está localizada a Secretaria Estadual de Segurança Pública e outras secretarias que formam o centro administrativo do Estado do Amapá. É neste cenário simbólico, somado à observação empírica de que é bastante incomum encontrar Travestis frequentando escolas da rede pública de ensino do estado, foi que passamos a questionar esse lugar no qual se encontram as Travestis e se há políticas públicas de educação que as contemplem. Buscaremos, deste modo, encontrar respostas que nos revelem se existem ou não ações de políticas públicas, alinhadas com legislações nacionais, destinadas a esse grupo e quais são os avanços e desafios dessas ações educacionais. Assim, partimos da hipótese de que as escolas públicas do Amapá revelam-se ambientes hostis à permanência de Travestis e que praticas de violência são perpetuadas por ausência de políticas públicas que possam garantir suas permanências até a conclusão de alguma etapa da educação básica. Desta forma, buscaremos evidências que comprovem (ou não) se existe alguma relação entre as narrativas (ainda) extraoficiais de violência sofrida por Travestis no ambiente escolar com a, até então, ausência de ações de políticas públicas e o aparecimento desse grupo, no período noturno, fora das escolas e no entorno da Secretaria de Educação e da Assembleia Legislativa. Neste contexto, é provável que suas presenças nos arredores da Assembleia Legislativa e das Secretarias de Educação ainda não tenham sido motivo de questionamentos pelos agentes públicos ou que suas ausências do ambiente escolar também ainda não tenham sido problematizadas, pelo simples fato de se tratarem de sujeitos com corpos excêntricos, avessos à norma, denominadas socialmente de Travestis. Considerações finais Com o meu constante contato com pessoas Travestis, por conta de minha trajetória pessoal e da militância no movimento LGBT brasileiro, foi que passei a me dar conta da realidade empírica das inúmeras narrativas de que todas as Travestis, as

12 quais conheci e/ou mantive algum contato, indistintamente, declararam que tiveram seus corpos violentados dentro das escolas, o que por muitas vezes, segundo elas, ocasionou suas evasões escolares. Diante desses relatos por nós socializados, nos ocorreram os seguintes questionamentos: Se encontramos poucas Travesti matriculada nas escolas públicas da rede estadual de ensino do Amapá, o que, consequentemente, as impede de ingressar no ensino superior, onde estariam as Travestis nas ações de políticas públicas educacionais no estado do Amapá? Além disso, constatamos que, no período noturno, um fenômeno aparece com a existência de Travestis expondo seus corpos nos arredores da Secretaria de Educação e, mais precisamente, no entorno da Assembleia Legislativa do Estado do Amapá, supostamente em atividade de prostituição. Logo outro questionamento se deu. Por quê é mais comum que a sociedade brasileira e, no caso do presente artigo, a amapaense, tome conhecimento da existência das Travestis por nota de falecimento ou em matérias jornalísticas, como vítimas de crimes de ódio, do que como candidatas nas listas de aprovações no ENEM 6? É com essa motivação investigativa que nos propusemos à realização desse artigo, baseado nesta pesquisa, partindo da hipótese de que as Travestis, na sua maioria, não suportam o violento cotidiano escolar pela ausência sistemática de políticas públicas educacionais que combatam a violência e que oportunizem a toda comunidade escolar participar de uma (re) elaboração coletiva de seus projetos políticos e, consequentemente, de seus currículos, de modo que modifiquem suas culturas, suas políticas, (re)significando, assim suas práticas e evitando a reprodução de um ambiente que não admite e nem reconhecem as Travestis como sujeitos de um direito constitucional e universal que é a Educação. Referências BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de São Paulo: Saraiva, Lei de Diretrizes e Bases de Educação Nacional, nº 9.394/96.. Plano Nacional de Educação - PNE. Brasília - DF: reimpressão, Exame Nacional do Ensino Médio

13 FREITAS, J. G. de O. No quadro: o tema diversidade sexual na escola com foco na homossexualidade. Nas carteiras escolares: os professores. Tese de Doutorado, Rio de Janeiro: UFRJ, MARTINS, H. H. T. de S. Metodologia qualitativa de pesquisa. Universidade de São Paulo. Educação e Pesquisa, São Paulo, v.30, n.2, p , maio/ago, SOUZA, J. Ralé Brasileira: como é e como vive. Belo Horizonte: Editora UFMG, PRODANOV, C. C.; FREITAS, E. C. de. Metodologia do Trabalho Científico: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. 2ª Ed. Novo Hamburgo: Feevale, RONDAS, Lincoln de Oliveira. Valorização profissional de travestis: das estratégias pessoais às políticas de inclusão. Dissertação de mestrado, Belo Horizonte: UNA, SANTOS, M. P. dos; PAULINO, M. M. Inclusão em Educação: culturas, políticas e práticas. 2ª ed. São Paulo: Cortez, TORRES, M. A. A diversidade sexual na educação e os direitos de cidadania LGBT na Escola. 2ª Ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora; Ouro Preto, MG: UFOP, (Série Cadernos da Diversidade).

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