PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS

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1 Professora Me. Gescielly B. da Silva Tadei PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS GRADUAÇÃO PEDAGOGIA MARINGÁ-PR 2012

2 Reitor: Wilson de Matos Silva Vice-Reitor: Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração: Wilson de Matos Silva Filho Presidente da Mantenedora: Cláudio Ferdinandi NEAD - Núcleo de Educação a Distância Diretoria do NEAD: Willian Victor Kendrick de Matos Silva Coordenação Pedagógica: Gislene Miotto Catolino Raymundo Coordenação de Polos: Diego Figueiredo Dias Coordenação Comercial: Helder Machado Coordenação de Tecnologia: Fabrício Ricardo Lazilha Coordenação de Curso: Marcia Maria Previato de Souza Supervisora do Núcleo de Produção de Materiais: Nalva Aparecida da Rosa Moura Capa e Editoração: Daniel Fuverki Hey, Fernando Henrique Mendes, Luiz Fernando Rokubuiti e Renata Sguissardi Supervisão de Materiais: Nádila de Almeida Toledo Revisão Textual e Normas: Cristiane de Oliveira Alves, Janaína Bicudo Kikuchi, Jaquelina Kutsunugi e Maria Fernanda Canova Vasconcelos Av. Guedner, Jd. Aclimação - (44) CEP Maringá - Paraná - NEAD - Núcleo de Educação a Distância - bl. 4 sl. 1 e 2 - (44) Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central - CESUMAR CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a distância: C397 Psicologia das relações humanas / Gescielly B. da Silva Tadei Maringá, Pr, p. Graduação em Pedagogia - EaD. 1.Psicologia. 2.Relações humanas. 3. EaD. I. Título. CDD 22. ed As imagens utilizadas neste livro foram obtidas a partir do site PHOTOS.COM.

3 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Professora Me. Gescielly B. da Silva Tadei

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5 APRESENTAÇÃO Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos os cidadãos. A busca por tecnologia, informação, conhecimento de qualidade, novas habilidades para liderança e solução de problemas com eficiência tornou-se uma questão de sobrevivência no mundo do trabalho. Cada um de nós tem uma grande responsabilidade: as escolhas que fizermos por nós e pelos nossos fará grande diferença no futuro. Com essa visão, o Cesumar Centro Universitário de Maringá assume o compromisso de democratizar o conhecimento por meio de alta tecnologia e contribuir para o futuro dos brasileiros. No cumprimento de sua missão promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária, o Cesumar busca a integração do ensino-pesquisaextensão com as demandas institucionais e sociais; a realização de uma prática acadêmica que contribua para o desenvolvimento da consciência social e política e, por fim, a democratização do conhecimento acadêmico com a articulação e a integração com a sociedade. Diante disso, o Cesumar almeja ser reconhecido como uma instituição universitária de referência regional e nacional pela qualidade e compromisso do corpo docente; aquisição de competências institucionais para o desenvolvimento de linhas de pesquisa; consolidação da extensão universitária; qualidade da oferta dos ensinos presencial e a distância; bem-estar e satisfação da comunidade interna; qualidade da gestão acadêmica e administrativa; compromisso social de inclusão; processos de cooperação e parceria com o mundo do trabalho, como também pelo compromisso e relacionamento permanente com os egressos, incentivando a educação continuada. Professor Wilson de Matos Silva Reitor PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 5

6 Caro aluno, ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção (FREIRE, 1996, p. 25). Tenho a certeza de que no Núcleo de Educação a Distância do Cesumar, você terá à sua disposição todas as condições para se fazer um competente profissional e, assim, colaborar efetivamente para o desenvolvimento da realidade social em que está inserido. Todas as atividades de estudo presentes neste material foram desenvolvidas para atender o seu processo de formação e contemplam as diretrizes curriculares dos cursos de graduação, determinadas pelo Ministério da Educação (MEC). Desta forma, buscando atender essas necessidades, dispomos de uma equipe de profissionais multidisciplinares para que, independente da distância geográfica que você esteja, possamos interagir e, assim, fazer-se presentes no seu processo de ensino-aprendizagem-conhecimento. Neste sentido, por meio de um modelo pedagógico interativo, possibilitamos que, efetivamente, você construa e amplie a sua rede de conhecimentos. Essa interatividade será vivenciada especialmente no ambiente virtual de aprendizagem AVA no qual disponibilizamos, além do material produzido em linguagem dialógica, aulas sobre os conteúdos abordados, atividades de estudo, enfim, um mundo de linguagens diferenciadas e ricas de possibilidades efetivas para a sua aprendizagem. Assim sendo, todas as atividades de ensino, disponibilizadas para o seu processo de formação, têm por intuito possibilitar o desenvolvimento de novas competências necessárias para que você se aproprie do conhecimento de forma colaborativa. Portanto, recomendo que durante a realização de seu curso, você procure interagir com os textos, fazer anotações, responder às atividades de autoestudo, participar ativamente dos fóruns, ver as indicações de leitura e realizar novas pesquisas sobre os assuntos tratados, pois tais atividades lhe possibilitarão organizar o seu processo educativo e, assim, superar os desafios na construção de conhecimentos. Para finalizar essa mensagem de boas-vindas, lhe estendo o convite para que caminhe conosco na Comunidade do Conhecimento e vivencie a oportunidade de constituir-se sujeito do seu processo de aprendizagem e membro de uma comunidade mais universal e igualitária. Um grande abraço e ótimos momentos de construção de aprendizagem! Professora Gislene Miotto Catolino Raymundo Coordenadora Pedagógica do NEAD- CESUMAR 6 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

7 APRESENTAÇÃO Livro: PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Professora Me. Gescielly B. da Silva Tadei PREZADO ALUNO, Escrevemos este material com uma atenção cuidadosa para que a temática sobre a Psicologia das Relações Humanas no ambiente escolar, seja compreendida e assimilada por você durante nosso processo de estudos. Vale pontuar algumas dicas para que a apreensão dos conteúdos não aconteça de maneira sofrível, afinal, estudar é uma atividade prazerosa, que nos impulsiona para o saber, e quanto mais a gente busca conhecer, mais a gente quer buscar conhecimento. Tente seguir as dicas de estudos. Elas apenas sugerem uma forma de organização da sua rotina. Primeiro ponto: leia com atenção e grife as partes essenciais do texto, ou seja, os parágrafos que para a sua leitura são importantes para a compreensão da temática estudada. Segundo ponto: faça anotações com as suas próprias palavras acerca do conteúdo estudado, essa atitude faz com que a sua atenção seja trabalhada, assim como o seu processo de escrita e a sua fluência verbal. Terceiro ponto: discuta com os colegas sobre a temática, tire dúvidas, organize ideias. Caso esse contato com demais alunos seja difícil devido à distância, utilize o fórum. Esse local é propício para troca de experiências e fundamentações sobre a teoria ministrada pelo professor. Quarto ponto: participe das aulas. Muitas vezes as suas dúvidas podem ser esclarecidas pelo professor formador durante a transmissão da aula. Quinto ponto: leia os materiais complementares sugeridos para a disciplina, esses materiais vêm enriquecer nosso processo de estudos ampliando o horizonte teórico. Bem, agora que você está organizado para os estudos, vamos explicar como o nosso material encontra-se organizado. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 7

8 Observe a organização do material, note que haverá tempo para estudarmos todos os pontos Você sabe que toda a disciplina é sistematizada pelo Plano de Ensino. Esse Plano fica disponível para você na plataforma. Ao ler esse documento, você conseguirá observar que o nosso material o tem como norte, como referência às diretrizes abordadas pelo documento. No caso, estamos estudando as Relações Humanas no ambiente escolar sob à luz do referencial abordado pela Psicologia. Você já reparou que o tema relações humanas é muito abrangente? Ao ler este livro, poderá ser notado que a temática perpassa todas as unidades, até mesmo aquelas que você lerá o título e pensará: Nossa, nada a ver! na realidade, tem tudo a ver, pois nós educadores lidamos diariamente com seres humanos em contextos socialmente organizados, e onde temos dois seres humanos há aí uma relação. Na UNIDADE I, temos como foco de estudos: A PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS COMO DIMENSÃO DA PSICOLOGIA SOCIAL. Você perceberá que a psicologia tem um leque de áreas e subáreas de atuação. A Psicologia das Relações Humanas pode ser considerada uma subárea de estudos. Mas atenção, não confunda subárea como se esta fosse de menos valia ou de menor importância dentro da Psicologia. Na realidade essa é apenas uma divisão didática que foi realizada para a compreensão acerca de seu objeto de estudo. Na referida unidade de estudos pretendemos: compreender o histórico acerca da Psicologia das Relações Humanas; queremos, ainda, entender a relevância da temática para a atuação docente na rotina escolar; e, por fim, centraremos nossa discussão sobre o aspecto emocional da criança e as relações que ela estabelece com o meio buscando, para tanto, a fundamentação teórica para lidarmos com alguns pontos ligados à área emocional da população infantil. Na UNIDADE II, temos o intuito de estudar: OS PROCESSOS PSICOLÓGICOS E O CONTEXTO SOCIAL NA ESCOLA. Compreender o Desenvolvimento Humano sob ângulos diferenciados, assim como conhecer as concepções teóricas acerca do mesmo, verificando a postura de teóricos como: Sigmund Freud; Jean Piaget e Lev Seminovich Vigotsky, fazem parte da nossa meta. A observação de pontos acerca da Psicologia da Aprendizagem, área essa de fundamental importância para os educadores, assim como o trabalho da Psicologia da Educação, mostram a necessidade de conteúdo teórico para a sistematização de um bom 8 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

9 andamento da rotina escolar. Ao menos é isso que defendemos em todo o nosso processo de escrita. Já na UNIDADE III, intitulada: A INTERAÇÃO SOCIAL NA ESCOLA E SUA IMPORTÂNCIA NO DESENVOLVIMENTO PESSOAL DO ALUNO, temos como norte a necessidade de entender e conceber a importância na escola para a formação subjetiva da criança. Por isso, resgatamos os momentos essenciais da história da educação brasileira na busca de compreendermos a relação entre professor e aluno nos períodos históricos trabalhados no texto. Após isso, nosso passo foi o de demonstrar como atividades simples como jogos e brincadeiras podem fazer parte de um planejamento de aula do professor, desde que o mesmo conheça as etapas do desenvolvimento infantil e como deve ser feita a estimulação para cada fase. Para nós, educadores, a brincadeira é coisa séria! Na UNIDADE IV, O PROFESSOR COMO O OUTRO SIGNIFICATIVO PARA O DESENVOLVIMENTO SOCIAL E COGNITIVO DO ALUNO, a amplitude da mesma foi denotada para o fato de que buscamos trabalhar, também, alguns pontos referentes à instituição familiar e a importância da mesma para a formação da identidade da criança e também do adolescente, inclusive, nessa unidade, tivemos o cuidado de trabalhar um pouco sobre as transformações corpóreas sofridas na fase da adolescência, o luto sofrido pela perda do corpo infantil e o redimensionamento das relações sociais nessa faixa etária. A relação professor e aluno também foi abordada, notando aí a diferença na relação entre o docente e a criança, e o docente e o adolescente. Na UNIDADE V, FENÔMENO BULLYING, o contexto social, cultural e histórico são altamen-te relevantes para o entendimento desse tema que tem ganhado cada vez mais proporção nos dias atuais. A unidade, se atentou, também, para identificar o papel da família para a manutenção de comportamentos agressivos por parte de crianças e adolescentes. A necessidade de uma sustentável fundamentação teórica para lidar com essa questão é apontada, uma vez que a temática tem ganhado proporções cada vez maiores, o que tem preocupado família, escola e áreas governamentais. Observe que as Relações Humanas estão presentes em cada proposta de estudos das referidas unidades, o que denota a nossa busca por enxergar o ser humano como um todo, assim como as questões que o permeiam. E esse todo é de característica histórica, social e cultural. Ao final do material você encontrará um GLOSSÁRIO, nele há o significado de alguns termos PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 9

10 utilizados que são mais bem esclarecidos nesse espaço. Há, neste livro, quatro textos para futuras consultas a serem realizadas por você durante seu processo de pesquisa. Tais textos dividem-se em resumos, textos completos e reflexões críticas, apresentados em congressos, simpósios e encontros educacionais, locais propícios para discutirmos o ser humano na educação. Verifique as sugestões de leitura A primeira indicação de leitura tem o seguinte título: A formação de professores sob a ótica construtivista algumas reflexões cabíveis. É um resumo expandido (significa um resumo realizado de maneira mais ampla) apresentado no I SIHELE (Seminário Internacional sobre História do Ensino e Escrita) realizado na UNESP (Universidade Estadual de São Paulo) entre os dias 8 e 10 de setembro de Você deve ter observado que durante a disciplina estudaremos alguns autores que são referência para a compreensão do desenvolvimento infantil, com o foco direcionado ao processo relacional das crianças. Jean Piaget ( ) é um desses nomes e foi partindo das ideias e estudos realizados por ele, que o construtivismo ganhou força no Brasil. O referido texto a ser lido por você discute um pouco sobre a educação pautada no construtivismo, auxiliando a sua compreensão e o seu estudo naquilo que tange a relação entre o professor e o aluno dentro desse referencial. Como segunda indicação de leitura, temos o texto: A deficiência sob o prisma da teoria hitórico-cultural: uma análise crítica sobre o documentário as borboletas de Zagorsky. Este artigo foi escrito para a participação no II CONALI (Congresso Nacional de Linguagem em Interação) realizado na UEM (Universidade Estadual de Maringá) entre os dias 7 e 8 de outubro de A opção em colocar esse artigo para você parte do princípio de hoje a discussão sobre a inclusão estar bastante em voga, Zagorsky é uma escola dedicada ao estudo e intervenção de crianças e jovens surdos, cegos e surdocegos. Nesse trabalho, você se deparará com a maneira como os professores de Zagorsky acreditavam em seus alunos, crendo no potencial de crescimento e lidando com o aspecto saudável da vida dos mesmos. 10 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

11 Provavelmente, você, enquanto professor, passará por uma experiência parecida com essa, de ter que lidar com aspectos da inclusão, com crianças que necessitarão da sua ajuda para o processo de ensino e aprendizagem. A relação que você, docente, estabelecerá com ela fará toda a diferença para o ritmo de suas aulas e para o crescimento da criança enquanto ser humano. E claro, recomendamos que você assista o documentário para que possa se deparar com uma experiência única na área de inclusão educacional. A terceira indicação de leitura remete-se ao texto: A inserção do cego na escola algumas pontuações. O referido artigo foi apresentado no Congresso Nacional Diversidade, Ética e Direitos Humanos realizado na UESB (Universidade Estadual da Bahia) entre os dias 14 e 16 de julho de A finalidade de inserir esse artigo para futuras consultas pauta-se na ideia defendida no parágrafo anterior. Você, enquanto educador, necessita estar apto para o relacionamento entre professor e aluno em todas as esferas, inclusive ao ter que lecionar para alunos de inclusão. Mas o ponto central que destacamos aqui é: faça a sua leitura com a mentalidade centrada na relação entre professor e aluno. Essa é a vertente que defendemos a todo o momento. A quarta, e última, sugestão de leitura é uma reflexão crítica intitulada As Implicações da Psicologia Histórico-Crítica para a Educação a importância em se compreender as relações de trabalho produzidas historicamente. Esse texto foi apresentado no ENIEDUC (Encontro Interdisciplinar de Educação) realizado na FECILCAM (Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão). A partir da realização dessa leitura, gostaríamos que ficasse claro para você que as relações estabelecidas em dados contextos são determinadas pelo meio social, histórico e cultural. Nesse sentido, toda e qualquer intervenção realizada necessita ter esse olhar de amplitude para o objeto de pesquisa. Desse modo, ao notar um aluno com dificuldades de relacionamento em sala de aula, por exemplo, seja essa dificuldade voltada para os colegas ou para o próprio professor, sua necessidade é buscar informações mais amplas sobre a criança, a qual está em um contexto historicamente determinado. Bem, essas são as dicas de leitura que gostaríamos que você desfrutasse. O processo de conhecimento é muito proveitoso, é interessante, e quanto mais a gente aprende, mais liberdade e autonomia somos capazes de possuir. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 11

12 Agora, queremos fazer um convite a você. As relações de ensino não se estabelecem por si, elas necessitam ser cultivadas. Por isso, precisamos que você esteja presente, junto conosco, do início ao fim da disciplina. Então, precisamos que você faça uma reflexão sobre o seguinte caso ocorrido entre uma professora e uma aluna: Aluna Clara, 11 anos de idade, segunda série do Ensino Fundamental I. O acompanhamento à aluna começa da seguinte forma: a professora Rita, que leciona aulas para a segunda série do ensino fundamental no Colégio Estadual Souza Pacheco 1, chegou até a estagiária de pedagogia, Luiza, no horário de intervalo e pediu para que ela ajudasse a dar um jeito no caso da aluna Clara, pelo menos no período em que a estagiária estivesse na escola, pois Clara era uma menina lenta, desatenta, com dificuldades de aprendizagem e de relacionamento com os colegas e também para com ela, além disso, atrapalhava o rendimento da sala de aula. Após ouvir a queixa da professora, Luiza dirigiu-se até a sala da supervisora da escola e perguntou a mesma sobre a aluna Clara. A supervisora pôs-se então a comentar: [...] olha, o caso ali é a família mesmo, porque você sabe que a família conta muito na educação da criança. Até onde eu sei a Clara não tem mãe, ela é criada pela madrasta e tem mais uns 5 ou 6 irmãos, agora, eu não sei se esses irmãos são todos filhos dessa madrasta não, porque um é loiro, outro mais moreno... É uma família muito carente, o pai vende cachorro quente na feira de produtores. A Clara chegou de Tocantins e veio estudar aqui na escola, ela chegou na 4ª série, mas não sabia nada. Eu não tinha idéia da bomba que estávamos aceitando. Quando a gente viu que ela não sabia nada, voltamos ela para a primeira série, mas até agora acho que ela ainda não mostrou trabalho e você sabe, ela tem 11 anos de idade, junto com crianças de 8 anos... Ela vem com roupas curtas, as meninas usam, mas são pequenas, aí quando eu chamo a atenção dela ela chora, mas não tem cabimento né, uma menina grande assim querendo se comportar como uma pequenininha... Eu acho que o que falta ali também é limite. A partir do trecho acima, sugiro que você discuta sobre a importância da compreensão acerca das Relações Humanas na escola no que tange a dificuldade na relação entre professor e aluno. Mas calma! Essa tarefa não precisa ser realizada agora, pois você precisa de fundamentação teórica para realizar essa atividade, e isso ocorrerá durante todo o processo de leitura do material. Vamos lá, conto com uma avaliação sua a respeito do caso sugerido. Atenciosamente, Professora Gescielly Tadei 1 Os nomes de pessoas e instituições são fictícios. 12 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

13 SUMÁRIO UNIDADE I A PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS COMO DIMENSÃO DA PSICOLOGIA SOCIAL ENTÃO, FALANDO SOBRE O CENÁRIO NACIONAL, COMO POSSO DELIMITAR A CHEGADA DA PSICOLOGIA SOCIAL NO BRASIL?...20 VAMOS ADENTRAR O NOSSO TEMA DE ESTUDOS? RELAÇÕES HUMANAS...22 LIDANDO COM ASPECTOS EMOCIONAIS DA CRIANÇA...30 UNIDADE II PROCESSOS PSICOLÓGICOS E O CONTEXTO SOCIAL NA ESCOLA O DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM OLHAR PARA O SUJEITO...39 QUAL A RELEVÂNCIA DA TEORIA DE SIGMUND FREUD PARA A EDUCAÇÃO?...46 O RUSSO LEV SEMINOVICH VIGOTSKI E SUA IMPORTÂNCIA PARA O MEIO EDUCACIONAL...51 UNIDADE III A INTERAÇÃO SOCIAL NA ESCOLA E SUA IMPORTÂNCIA NO DESENVOLVIMENTO PESSOAL DO ALUNO POR QUE A ESCOLA É IMPORTANTE PARA O PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO HUMANO?...69 O JOGO E A BRINCADEIRA NO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA O EXERCÍCIO DA INTERAÇÃO HUMANA NA EDUCAÇÃO...79 O QUE É JOGO E BRINCADEIRA? A IMPORTÂNCIA DA LINGUAGEM PARA ESSE CONTEXTO...82 O BRINCAR E A EDUCAÇÃO INFANTIL...88

14 UNIDADE IV O PROFESOR COMO O OUTRO SIGNIFICATIVO PARA O DESENVOLVIMENTO SOCIAL E COGNITIVO DO ALUNO O PAPEL DA FAMÍLIA NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DO SUJEITO: A EDUCAÇÃO DOS FILHOS EM QUESTÃO...95 E, QUAL A DIFERENÇA DA EDUCAÇÃO DA CRIANÇA PARA A EDUCAÇÃO DO ADOLESCENTE? COMO JEAN PIAGET ENXERGA A ADOLESCÊNCIA O PROFESSOR UNIDADE V FENÔMENO BULLYNG HISTÓRICO SOBRE O BULLYNG ESCOLAR E SEU IMPACTO SOBRE A VÍTIMA O PAPEL DA FAMÍLIA E DA ESCOLA NO DESENCADEAMENTO E INTERVENÇÃO QUANTO AO BULLYING CONCLUSÃO REFERÊNCIAS ANEXOS...152

15 UNIDADE I A PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS COMO DIMENSÃO DA PSICOLOGIA SOCIAL Professora Me. Gescielly B. da Silva Tadei Objetivos de Aprendizagem Compreender a Psicologia das Relações Humanas como uma dimensão da Psicologia Social. Entender a relevância da temática para a atuação docente na rotina escolar. Buscar fundamentação para lidar com o aspecto emocional da criança. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: A Psicologia das Relações Humanas: delimitações históricas O que é Psicologia Social? Relações Humanas Lidando com Aspectos Emocionais da Criança

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17 INTRODUÇÃO Na presente unidade, nos ateremos ao estudo da Psicologia das Relações Humanas como uma dimensão da Psicologia Social, na tentativa de entendermos a relevância dessa temática para o contexto escolar, haja vista que a escola é uma instituição, e numa instituição temos que lidar com a hierarquia de valores e diferenciados pontos de vista. Afinal, onde temos duas ou mais pessoas, existe aí uma relação entre seres, uma relação humana. A partir desse aspecto, buscamos fundamentação para entendermos as relações voltadas para o contexto infantil, visto que grande parte daqueles que são graduados em Pedagogia acabam lidando com esse público. Compreender alguns pontos referentes à expressão da criança no contexto escolar, em especial no que tange a Educação Infantil e o Ensino Fundamental I, é a nossa preocupação. A área emocional expressa por meio da ação e do comportamento da população que frequenta esse nível de escolaridade, tende a ser mais expressiva que em níveis posteriores (Ensino Fundamental II e o Ensino Médio). Você, enquanto professor, já deve ter se questionado: o que eu faço com essa criança que só chora e bate nos colegas? Essa expressão é comumente dita por docentes, então, convido você a iniciar nossos estudos acerca da temática: Psicologia das Relações Humanas, você observará que há mais desse tema na sua prática docente do que você pode imaginar. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 17

18 A PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS COMO UMA DIMENSÃO DA PSICOLOGIA SOCIAL Você sabia que a palavra Psicologia é de origem grega? psique, alma, mente e lógos, palavra, razão ou estudo. Psicologia das relações humanas: delimitações históricas A preocupação da psicologia enquanto ciência é o estudo do comportamento do ser humano. Esse comportamento é objeto de explorações de várias linhas da psicologia, como o Behaviorismo, a Gestalt-terapia e a Psicanálise 2, por exemplo. No presente livro nosso foco de estudos é a Psicologia das Relações Humanas, mas antes de adentrar no nosso conteúdo, gostaría de ressaltar que assim como na medicina temos várias áreas de estudos e atuação como: a Pediatria, a Gerontologia, a Oftalmologia dentre outras. Na psicologia temos, também, algumas divisões para a intervenção profissional. Os três grandes pilares são: a Psicologia Clínica, a Psicologia Escolar e a Psicologia do Trabalho. Dentro dessas áreas temos subdivisões como: a Psicologia da Aprendizagem, a Psicologia do Esporte, a Psicologia Social, a Psicologia Hospitalar... e um leque de subáreas que derivam dos pilares essenciais mencionados. A Psicologia das Relações Humanas, nosso foco de estudos, encontra-se inserida à área da Psicologia Social. Lima (1990) reafirma essa colocação pontuando que os recortes realizados dentro da psicologia são necessários para um estudo e uma intervenção detalhada naquilo que tange o indivíduo, cabendo compreender o ser humano que se relaciona nos grupos à área da Psicologia Social. Por isso, estudaremos a Psicologia das Relações Humanas como uma dimensão da Psicologia Social. 2 As teorias do Behaviorismo e da Gestalt-terapia não serão abordadas em nosso estudo. 18 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

19 Fonte: PHOTOS.COM A Psicologia das Relações humanas é estudada como uma área da Psicologia Social. Mas, então, o que é Psicologia Social? Esclarecer a formação da Psicologia Social significa dizer quando, onde, de que modo e em quais circunstâncias surge esta ramificação do saber. Para Carvalho (2005), a Psicologia Social pode ser considerada como um dos ramos mais decisivos da ciência psicológica para o entendimento da realidade da sociedade. Gergen (1973) delimita melhor essa pontuação ao afirmar que a Psicologia Social é um ramo da psicologia que se atém ao estudo da interação humana. Mas, como ela foi fundamentada enquanto área de estudos pautados na cientificidade? Por trás das diversas ideias acerca da cronologia deve ser situada a formação da Psicologia Social, se oculta uma distinta concepção de suas origens e premissas, bem como de sua pertinência a tal, ou qual, ramo dos conhecimentos sociais. Ela teve início por meio de trabalhos pioneiros de W. Mc Dougall ( ) e de E. A. Ross ( ), um dos representantes do pragmatismo filosófico norte-americano. Destacam-se quatro estudiosos cujos trabalhos fundaram a Psicologia Social: Sigmund Freud, G.H. Mead, B.F. Skinner, e Kurt Lewin. Os referidos autores terão um aprofundamento maior de seus trabalhos na unidade que segue. Para clarificar essa afirmação, Araújo (2008, p. 2) ressalta que quanto à história da Psicologia Social e seus principais representantes, a mesma [...] aparece em 1908, com a publicação de Social Psychology, de Edward Ross e An Introduction to Social Psychology de William McDougall. Ross, de orientação sociológica, fazia referência a conceitos como mente coletiva, costumes sociais, opiniões sociais e conflitos. McDougall referia que as características sociais e o PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 19

20 comportamento se baseavam na natureza biológica, idéia em que a psicologia social se apoiou em seu desenvolvimento. Tal colocação nos auxilia na compreensão de onde surgiu a presente área científica estudada. Ressaltamos que esse breve resgate nos ajuda na compreensão de aspectos pertinentes a estudos da atualidade. Por isso, para entendermos a temática Psicologia das Relações Humanas, é necessário compreendermos que ela está em uma área maior, a Psicologia Social, e esta tem uma história tanto no cenário mundial quanto no cenário nacional. ENTÃO, FALANDO SOBRE O CENÁRIO NACIONAL, COMO POSSO DELIMITAR A CHEGADA DA PSICOLOGIA SOCIAL NO BRASIL? No nosso país, podemos ressaltar que o surgimento da Psicologia Social foi um processo diretamente relacionado com a formação do sistema universitário brasileiro, consolidando-se em meados do século XX (BOMFIM, 2004). A partir da introdução da Psicologia Social no referido meio, podemos afirmar que essa disciplina, no seu curso histórico, veio apresentar afinidades cada vez mais acentuadas com a Psicologia Social desenvolvida por autores norteamericanos. Na década de 1940, por exemplo, podemos, de acordo com Araújo (2008, p. 4), destacar a atuação de Pierre Weil que chegou ao país em 1948 para trabalhar em treinamentos do recémcriado Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC), no Rio de Janeiro. Entre suas obras, merece destaque Dinâmica de Grupo e Desenvolvimento em Relações Humanas (1967) e a partir dessa obra ele desenvolveu, com colegas, a técnica de Desenvolvimento das Relações Humanas (DRH). Tal apontamento já denota a íntima relação entre a Psicologia Social e a Psicologia das Relações humanas, pois com o crescimento de empresas e instituições no Brasil, práticas relacionadas a dinâmicas grupais e relações interpessoais foram destacadas (MINICUCCI, 1982). Uma importante etapa para a Psicologia Social no Brasil foi inaugurada com a regulamentação 20 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

21 da profissão de psicólogo no ano de 1962, pela Lei nº4. 119, de 27 de agosto do referido ano (PARIGUIM, 1972). Desse modo, ocorreu a implantação de cursos de graduação para a formação de profissionais, de maneira mais notória, a partir do ano de De acordo com Araújo (2008), houve o desenvolvimento da produção psicossocial nas faculdades de psicologia, com maior veemência a partir dessa data, em especial naquilo que tange disciplinas, como Dinâmica de Grupo e Relações Humanas, Seleção e Orientação Profissional e Psicologia da Indústria, além, é claro, da obrigatoriedade da Psicologia Social. Podemos inferir, ao nos pautar em Pariguim (1972), que a história da Psicologia Social é longa desde que sejam acolhidas como válidas todas as conjecturas e doutrinas a respeito da natureza social do homem, mas no percurso temporal, conforme o apresentado de ampassã, é breve. Conforme observado e destacado por Araújo (2008), a área das Relações Humanas acaba entrando na Psicologia Social tornando-se foco de discussões acerca do comportamento humano em instituições. Sendo assim, nos questionamos: ora, por qual motivo um pedagogo necessita compreender a referida temática?. Bem, partindo do pressuposto em que temos duas pessoas ou mais, estabelecemos aí uma relação. Podemos ampliar essa percepção ao imaginarmos o contexto escolar com toda a sua demanda de relações entre: Equipe pedagógica e corpo docente. Corpo docente e corpo docente. Corpo docente e corpo discente. Equipe pedagógica + corpo docente + corpo discente e funcionários. Equipe pedagógica + corpo docente + corpo discente + funcionários e prestadores de serviço. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 21

22 Tais relações mencionadas são: relações humanas estabelecidas dentro do ambiente de trabalho, local esse em que passamos cerca de oito horas/dia. Justifica-se aí, a necessidade de você, acadêmico do curso de pedagogia, entender e compreender um pouco acerca dessa temática no ambiente escolar. VAMOS ADENTRAR AO NOSSO TEMA DE ESTUDOS? RELAÇÕES HUMANAS... O autor que tomaremos como referência para a introdução sobre Relações Humanas é Minicucci. De acordo com Yamamoto (1998, p. 1), Minicucci é um dos nomes de maior ênfase na área da Psicologia no Brasil, pois [...] é um nome associado ao desenvolvimento da Psicologia no Brasil. Licenciado em Letras Neolatinas e em Pedagogia, é doutor em Educação e Livre-docente em Psicologia. Dedicado à docência desde o período em que desenvolveu um trabalho pioneiro na Escola Normal de Botucatu, lecionou e ocupou cargos administrativos em dezenas de instituições de ensino superior no Estado de São Paulo, além dos trabalhos de consultoria e supervisão aos profissionais nas suas atividades no campo da Psicologia do Trabalho e Clínica. Na sua vasta obra - que ultrapassa, entre livros e testes, a casa das cinco dezenas -, destacam-se alguns títulos que são obrigatórios nos cursos de Psicologia do Brasil, como são os casos de Dinâmica de Grupo - Teorias e Sistemas e Técnicas de Trabalho em Grupo, ambas da Editora Atlas. Agostinho Minicucci É o nome de referência ao estudarmos a Psicologia das Relações Humanas. Minicucci (1982) aponta a necessidade de olharmos para as interações grupais dentro das instituições. Para ele, o grupo determina o fluxo de vida do indivíduo, pois o comportamento deste depende do meio em que ele está, nesse sentido [...] os objetivos do grupo não precisam ser idênticos aos objetivos do indivíduo, mas as divergências entre o indivíduo e o grupo não podem ultrapassar determinados limites (Minicucci, 1982, p.45). O autor respalda-se na teoria de Kurt Lewin 3 para compreender melhor como se dá esse aspecto de interação grupal. Lewin traz a teoria de campo para o entendimento acerca das questões 22 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

23 referentes aos aspectos das constituições e relações grupais. Campo pode ser definido como o espaço da vida de uma pessoa. Ele aponta para a necessidade de entendermos que como se dá a formação do espaço de vida para a pessoa, o qual é constituído pelo meio psicológico + a forma como esse meio existe para o ser humano. A figura à esquerda explicita a formação do meio psicológico, já a figura da direita mostra como esse meio pode ser observado pelo indivíduo. Observamos, dessa maneira, que há uma série de fatores que implicam na percepção do ser humano acerca do meio que o permeia. Você, que está acompanhando a leitura, pode montar o seu próprio campo psicológico e deparar-se, a partir da sua própria percepção, o que é mais relevante ou menos relevante para a sua vida, assim como quais são os pontos centrais eleitos por você para o aspecto referente à vivência cotidiana. Monte seu campo psicológico e visualize o que é importante em sua vida. 3 Kurt Lewin nasceu em 1890 em Moligno na Prússia. Iniciou seus estudos na área da física. No ano de 1945 fundou o Centro de Pesquisas em Dinâmica de Grupo. Morreu em 1947 nos Estados Unidos. Tinha como interesse de estudos os micro-grupos, aos quais denominou de face-to-face. Afirmava a existência do sócio-grupo: voltado para a realização de algum tipo de tarefa; e o psicogrupo: composto por pessoas que se reuniam em função das suas atividades. Podemos citá-lo como um dos teóricos de uma linha da Psicologia denominada de Teoria da Gestalt (FEITOSA; Espedita de Castro, 2008). PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 23

24 Como somos educadores, apoiaremos nossa observação na figura campo para o indivíduo, na qual temos dois itens fundamentais para a nossa discussão: escola + trabalho, esses dois apontamentos que nos ajudam a delimitar nossa discussão dentro do aspecto do nosso trabalho na escola. As relações interpessoais dentro do ambiente escolar desenvolvem-se a partir do processo de interação. Dentro desse ambiente, podemos nos relacionar com as pessoas de maneira estritamente profissional ou pela empatia destinada para com as mesmas. Seja por relacionamento profissional ou por empatia, devemos priorizar o máximo possível a harmonia no local de trabalho, pois [...] a base concreta para um bom relacionamento é ter percepção dos nossos deveres e obrigações e dos limites e regras que fazem a relação social ser harmônica (TECNOENF, 2010). Em se tratando do contexto escolar, essa relação social harmônica é muito necessária, uma vez que o que está em jogo é o processo de ensino e aprendizagem da criança, a qual está inserida na escola e aprendendo a lidar com muitas variáveis, tal qual a forma de lidar com o professor, com os alunos em sala de aula e com os demais integrantes da equipe pedagógica. Acreditamos que a qualidade de serviços de uma instituição está ligada ao nível satisfatório das relações interpessoais entre seus membros. Por isso, pontuamos que, em especial, no que tange a relação professor e aluno, a mesma é direta e se realiza nos níveis: intelectual; afetivo; cognitivo; abrange o mundo imaginário e o aspecto das fantasias da criança. Essa relação será satisfatória à medida que aspectos relacionados ao processo de interação grupal forem mais bem explorados dentro do contexto institucional. 24 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

25 Pautadas em Alves (2000), afirmamos que as pessoas no contexto escolar participam de uma multiplicidade de redes de convivência, as quais acabam por refletir na atuação em sala de aula. Por falar em sala de aula, é nesse ambiente que a teoria se atualiza, algumas vezes sendo confirmada, outras vezes não dando conta do que acontece e provocando a busca e criação de novas explicações teóricas e de novas soluções para o que acontece entre sujeitos empenhados em ensinar e aprender, num processo de contínua interação grupal. De maneira mais específica, Minicucci (2001, pp.13-14) pontua que ao estudar o comportamento e as relações grupais intrínsecas a este, profissionais da Psicologia começam a se interessar por [...] problemas de aprendizagem: Como aprendemos a ler?; Como adquirimos bons hábitos de estudo?; [...] outros dedicam-se ao estudo das diferenças entre as pessoas: quais os níveis de inteligência dos indivíduos?; [...] quais os interesses profissionais dos adolescentes?; outros, ainda, se especializam no ajustamento das pessoas; [...] alguns estudam problemas de motivação [...]. Dessa maneira, compreendemos que ao afirmarmos que o estudo da Psicologia está pautado no comportamento humano, afirmamos que a referida ciência trabalha com aspectos pertinentes ao desenrolar da vida das pessoas no decorrer dos anos, ou seja, a preocupação está desde a aprendizagem escolar (e muitas vezes a psicologia estuda questões anteriores a isto, mas nos deteremos a esse aspecto para fins de estudo), até a motivação humana ao realizar determinado tipo de tarefa ou de trabalho. Esse leque de possibilidades está dentro das relações humanas, as quais abrangem o relacionamento entre pessoas (interpessoal), assim como a relação do ser humano consigo mesmo (intrapessoal). Por isso, Minicucci (2001, p. 25) define que: relações humanas = ciência do comportamento humano, conforme indicamos no início da nossa explanação. Assim, [...] as Relações humanas ou Interpessoais são eventos (acontecimentos) que se verificam no lar, na escola, na empresa. Quando há conflito no relacionamento interpessoal, diz-se que há problemas com a relação humana. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 25

26 Esses problemas englobam várias dimensões, ou seja, desde simples desentendimentos por questões cotidianas no trabalho, tais como as seguintes expressões: - Você se atrasou dez minutos!. - Seu uniforme está mal passado dentre outras. Até a antipatia e a recusa em participar de eventos e trabalhos grupais nos quais a pessoa X esteja. Nesse sentido, necessitamos estar atentos para a formação grupal e para os comportamentos expressos por dado grupo. Para Minicucci (2001), numa observação grupal que venhamos a realizar, os seguintes comportamentos podem ser notados: expressões fisionômicas de desprazer; pouco caso, formação de panelinhas, esnobismo etc. Fonte: PHOTOS.COM Em uma sala de aula, é possível, também, percebermos esses comportamentos, mas os mesmos diferenciam-se em cada faixa etária. As crianças, por exemplo, agem de uma forma infantilizada (dado o aspecto da idade) com ações como: deixar o colega de lado na hora do recreio, isolar o amigo na hora do esporte na aula de educação física rir do amigo que apresenta um trabalho em sala pela primeira vez etc. Se formos capazes de notar esses comportamentos, somos capazes, também, de notar a forma de conduta do grupo, e podemos, além disso, encontrar uma maneira adequada para 26 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

27 Fonte: PHOTOS.COM uma intervenção coerente. Tomemos como base uma sala de aula. Devemos estar atentos para os comportamentos expressos nesse local e buscar uma ação de maneira interventiva. Tá bom! Mas, como fazemos isso???? Imaginemos que nossa atuação será para com crianças que estudam na Educação Infantil, que comungam uma faixa etária de quatro anos de idade, aproximadamente. Uma excelente tática de trabalho grupal é a contação de histórias. Essa técnica pode auxiliar na melhoria de aspectos referentes ao grupo, em especial naquilo que tange a interação entre as crianças, questão esta que é diretamente ligada a nossa temática central de trabalho: Relações Humanas. É possível trabalhar um relacionamento mais eficiente para com os colegas por meio da história do Borba, o gato, por exemplo, de autoria de Ruth Rocha 4. Nessa história, Borba, o gato e Diogo, o cão, ensinam a todos uma grande lição: que cão e gato podem ser amigos e juntos enfrentar os perigos (BIBLIOTECA RUTH ROCHA, 2010). A partir de uma história como esta é possível trabalhar como a criança percebe o outro, o colega de sala de aula, auxiliando-a no processo de conscientização de sua ação frente à atitude de outra criança. Auxilia, ainda, no trabalho de como mostrar a convivência com as diferenças 4 Ruth Rocha é paulista, nasceu no ano de É graduada em Sociologia e Política pela Universidade de São Paulo e pós-graduada em Orientação Educacional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Já atuou como orientadora educacional. Começou a escrever em 1967, para a revista Cláudia, artigos sobre educação. Participou da criação da revista Recreio, da Editora Abril, onde teve suas primeiras histórias publicadas a partir de Romeu e Julieta, Meu Amigo Ventinho, Catapimba e Sua Turma, O Dono da Bola, Teresinha e Gabriela estão entre seus primeiros textos de ficção. Publicou seu primeiro livro, Palavras Muitas Palavras, em 1976, e desde então já teve mais de 130 títulos publicados, Ganhou os mais importantes prêmios brasileiros destinados à literatura infantil da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, da Câmara Brasileira do Livro, cinco Prêmios Jabuti. Seu livro mais conhecido é Marcelo, Marmelo, Martelo, que já vendeu mais de um milhão de cópias. É membro da Academia Paulista de Letras desde 25 de outubro de 2007, ocupando a cadeira 38 e membro do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta (AMIGOS DO LIVRO, 2010). PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 27

28 individuais expressas em dado meio. A partir disso, podemos realizar as mais diversas correlações entre a história e o meio no qual a criança está, buscando sempre demonstrar a necessidade da relação grupal para a formação individual, na tentativa de expressarmos o quanto necessitamos da figura do outro para nos estruturarmos enquanto seres humanos. Dessa maneira, trabalhamos de forma lúdica os estereótipos sociais com as crianças, os quais são definidos por Minicucci (2001, p. 45) como [...] os conhecimentos relativamente simples e sem análise de certos grupos sociais que cega o indivíduo que observa. Aprofundando essa questão de estereótipo, adentramos no item denominado comunicação. A comunicação é, de acordo com Satir (2010), um processo de dar e receber informação. A comunicação para a autora é um comportamento verbal e não verbal expressos dentro de um contexto social, que implicam a relação e a interação entre as pessoas que nele se encontram. Imaginemos o nosso trabalho com as crianças da Educação Infantil, é possível utilizarmos a série: Marcelo, Marmelo, Martelo, de autoria de Ruth Rocha, para exemplificarmos a necessidade de uma boa comunicação. Essa série se estende aos seguintes títulos: Marcelo, Marmelo, Martelo. Autora: Ruth Rocha Editora: Moderna Ano: 1999 O bairro de Marcelo. A rua de Marcelo. A escola de Marcelo. 28 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

29 A família de Marcelo. Por meio desses títulos, posso intervir com a criança a partir da forma pela qual a mesma se expressa. Será que somos claros quando falamos com alguém? ; Será que dizemos realmente o que gostaríamos de dizer?. Questões assim levam a criança a um processo de reflexão acerca de sua própria comunicação, fazendo-a se conscientizar sobre a importância da sua atitude em relação às demais crianças. Ao utilizarmos esses títulos, é possível trabalharmos, ainda, o aspecto da sensitividade, ou seja, a empatia, que nada mais é que a [...] habilidade de se colocar no lugar dos outros e assim compreender melhor o que as outras pessoas sentem e estão procurando dizer-nos (MINICUCCI, 2001, p. 60). Quando mostramos para as crianças que existe essa possibilidade de manifestação do aspecto sensitivo, adentramos no aspecto relacional da formação emocional do indivíduo, claro que faremos isso sempre no vocabulário infantil, daí a sugestão da contação de histórias. Trabalhar e saber compreender o aspecto emocional da formação do indivíduo faz parte da nossa atuação enquanto educadores, uma vez que ao estudarmos o desenvolvimento da criança, estudamos tanto a parte motora, psicológica e cognitiva, quanto a parte emocional de estruturação da personalidade humana. Saber observar as reações emocionais das crianças e interpretá-las para o bom andamento e interação grupal é fundamental. Durante nossa escrita, pontuamos que o olhar sobre o grupo é fundamental para notarmos o aspecto referente a Relações Humanas. Fiquemos agora com a parte da formação emocional, existe essa possibilidade de intervenção? Como lidar com o aspecto emocional da criança durante a intervenção grupal? PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 29

30 LIDANDO COM ASPECTOS EMOCIONAIS DA CRIANÇA... Primeiramente, temos que compreender que a parte emocional de uma criança é muito expressiva ao adentrar o ambiente escolar, em especial porque ela ainda não consegue compreender e lidar com toda a gama de sentimentos que ela possui. Para nos auxiliar na discussão dessa questão, Dalalibera (2001) afirma que na sociedade atual tem-se percebido que, de maneira geral, a vida em família não traz o sentimento de pertença e de segurança que a criança espera ao chegar ao seio familiar. Ao adentrarem a escola, essas carências as acompanham, mas Delalibera (2001, p. 165) ressalta que Isso não quer dizer que as escolas, sozinhas, possam substituir todas as instituições sociais que demasiadas vezes já estão ou se aproximam do colapso. Mas, como praticamente toda a criança vai à escola (pelo menos no início), ela oferece um lugar para chegar às crianças com lições básicas para viver que talvez eles não recebam nunca em outra parte. Alfabetização emocional implica um mandado ampliado para as escolas, entrando no lugar de famílias falhas na socialização das crianças. Notamos que afirmações como a mencionada mostram o potencial que a escola possui ao poder lidar com essas crianças na realidade. É bom perceber que ainda há uma instituição que possa se ocupar e se preocupar com as crianças no que diz respeito a sua totalidade. Para Delalibera (2001, p. 170) é plausível considerar evidente [...] que um lugar onde as crianças precisam passar tanto tempo deveria ser um lugar prazenteiro, um lugar para experenciar e aprender no sentido mais amplo. Parece que temos necessidade de forçar o desenvolvimento de aptidões da leitura, escrita e aritmética, mas prestamos muito pouca atenção ao fato de que, a menos que passemos a atender as necessidades psicológicas e emocionais das crianças, estamos ajudando a criar e a manter uma sociedade que não valoriza as pessoas. Oaklander (1980) afirma que uma vez que as crianças passam grande parte do tempo na escola parece lógico que todas as pessoas que trabalham com crianças fora do ambiente escolar devam dedicar tempo a descobrir como são as escolas atualmente para as crianças. 30 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

31 Nossas próprias experiências escolares, se não foram esquecidas, podem ter sido muito diferentes. É a preocupação com a formação emocional da criança. Não estamos aqui afirmando que o ensino erudito, com disciplinas sistematizadas deva ser menosprezado, pelo contrário, acreditamos que o mesmo deve ser melhor investido e melhor trabalhado em todas as escolas. O que buscamos mostrar é que a alfabetização emocional é de relevância para o trabalho, em especial com crianças. Essa alfabetização, a nosso ver, inicia-se em casa, na família. Alfabetizar emocionalmente um filho ou um aluno, abrange compreender também seus sentimentos auxiliando que ele também os compreenda. Entendemos que o adulto é a referência na relação com as crianças, é dele que vem a confiança para a execução de tarefas simples, ou ainda, é do adulto que vem a constituição do processo de confiança da criança em si mesma. Estudos mostram que a criança passa um tempo muito maior hoje na escola que há dez anos. Na verdade é comum os pais ou professores serem bastante amorosos e atenciosos e, no entanto, não conseguirem lidar de forma eficiente com as emoções negativas da criança (DELALIBERA, 2001, p 167). Podemos mencionar dois exemplos que inspiram dificuldades: a agressividade e a raiva. Isso ocorre, segundo Oaklander (1980, p. 87), porque os pais e os professores não estão acostumados a lidar com aspectos de agressividade e de raiva da criança, por exemplo. Sentimentos esses que, embora necessários para a sobrevivência humana, não são aceitos facilmente no contexto escolar e familiar. [...] geralmente na escola é onde a criança considerada agressiva é mais notada é aquela que põe pra fora, que bate nos colegas, que joga as coisas, numa atitude que visa atingir o meio ambiente, o mundo, em oposição ao que seria conter-se. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 31

32 Oaklander (1980, p. 87) continua sua explanação acerca da agressividade, afirmando que São as crianças chamadas de agressivas, rebeldes, rudes e desobedientes, mais por rótulos resultantes de julgamentos. São crianças que possuem sentimento profundo de ira, rejeição e insegurança, expressando uma identidade confusa. Não são suas dificuldades internas que perturbam, mas o meio ambiente onde vivem, pois não tem habilidade de lidar com esse ambiente que as deixam com raiva e medo (p. 87). Contudo, as crianças agressivas ainda mostram-se mais fácies de se trabalhar ao serem comparadas às inibidas, pois de imediato já sabemos o que sentem ou o que pensam sobre determinado tema. Para Oaklander (1980, p. 88), outro comportamento que as famílias e os professores manifestam dificuldades em lidar é com a raiva expressa pelas crianças, as quais apresentam [...] muita dificuldade em expressar a raiva, porque os comportamentos anti-sociais, aqueles que prejudicam a ordem social estabelecida, não são expressões diretas de sentimentos de raiva (falar diretamente na cara da professora, que ela é uma bruxa), mas uma forma de evitar esses verdadeiros sentimentos. Assim, os sentimentos de raiva são suprimidos, contidos e manifestos, muitas vezes, de forma prejudicial à criança como através de sintomas físicos, ou então, a criança tenta simplesmente dissipar essa energia batendo ou adotando atitudes rebeldes. Segundo a autora, os pais e também a escola, podem auxiliar a criança a compreender a raiva. O infante necessita compreender, de acordo com Oaklander (1980, p. 168), que ao sentir raiva precisa [...] estar consciente da mesma, deve ainda compreender que a raiva é um sentimento natural e normal; ser ajudada a escolher conscientemente como expressar a sua raiva, seja falando diretamente ou manifestando-a de uma outra maneira. Nesse sentido, os pais, preparadores emocionais, podem ajudar seus filhos a tornaremse adultos mais saudáveis ao auxiliá-los na compreensão de seus próprios sentimentos e sensações. Pensamos que a figura de pais e professores influencia diretamente no sucesso escolar do aluno. Conforme já afirmamos anteriormente, o adulto da relação auxilia no processo de 32 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

33 escolhas e de identificação do infante. Burow & Scherpp (1985, p. 59) complementam essa ideia de ser humano a ser valorizado enquanto um ser total dentro da escola, pontuando que [...] o organismo do ser humano forma uma unidade. Corpo, alma, mente estão numa situação de influências recíprocas e não são, por conseguinte, separáveis ou hierarquizáveis. De modo análogo a unidade corpo-alma-mente é possível se falar da unidade sentir-pensar-agir (ou fazer). Essa integração pode não ser fácil de ser observada à primeira vista. Mas defendemos que esse olhar para a totalidade humana necessita ser investido, tanto nas famílias quanto nas escolas, priorizando sempre a criança em processo de desenvolvimento e de assimilação da realidade externa a ela. Auxiliando a identificação da criança para a parte emocional, na identificação da raiva, do medo, da agressividade, dentre outras, estamos ajudando a criança a saber, o que sente, em que momento sente, e como agir a partir dessa sensação. Trabalhando dessa maneira, levamos a criança a ter uma boa conscientização sobre si mesma e sobre o meio que a circunda. Isso faz com que no processo de tomada de decisões, sabendo e tendo a condição de altruísmo internalizada, ela possa fazer uma boa análise do problema que a incomoda, da seguinte maneira: Problema Causa Reflexão Solução. O problema poderia ser traduzido como vontade de bater no amigo ; a causa ele não me deixa brincar no escorregador ; reflexão eu também nunca o deixei brincar comigo no parque ; solução vou convidá-lo uma vez para brincar para ver se ele me convida para o escorregador. Nosso trabalho é levar as crianças para a reflexão, esse é um dos principais fatores que levam para a melhoria das relações interpessoais no ambiente escolar, mais especificamente, no interior das relações de sala de aula. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 33

34 É possível trabalharmos nos demais setores de uma instituição escolar, nos mais diversos tipos de relações existentes, desde a sala de aula até a relação entre a instituição e os prestadores de serviço à mesma. O importante é relevarmos sempre o conteúdo emocional, afetivo e intelectual do meu público a ser especificado, considerando sempre a totalidade do indivíduo com o qual estou lidando. Precisamos ressaltar que nós, da área educacional, ao tratarmos dessa temática sobre relações humanas, precisamos conhecer o desenvolvimento humano, pelo menos em linhas gerais. Encaramos a vida como um processo de desenvolvimento, por isso, nosso próximo passo parte do seguinte princípio: desde o nascimento o homem é um ser relacional. Nossa próxima unidade centra-se nessa discussão, atendo-se, em primeira instância, à questão dos autores que trabalham o desenvolvimento humano e posteriormente, como esse processo atrela-se às relações humanas que ocorrem no contato entre os seres humanos. Os filmes são indicados para a melhoria e ampliação do conteúdo estudado. A indicação que segue, mostra a habilidade de um professor ao ter que lidar com um grupo de alunos em uma escola para meninos. A indicação vale para a visualização, em especial, do conteúdo emocional exposto em um ambiente escolar. Título: O Clube do Imperador Baseado no texto The Palace Thief, de Ethan Canin, O Clube do Imperador traz a história de William Hundert, docente dedicado e apaixonado pelo seu trabalho. William vê a sua vida pacata e controlada totalmente mudada quando Sedgewick Bell, um aluno, inicia seus estudos na escola. O que começa como uma terrível guerra de egos, entre aluno e professor, acaba se transformando em uma amizade entre ambos, a qual terá reflexos na vida dessas duas pessoas por longos anos (GAZOLA, 2010). 34 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

35 CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade, pudemos perceber que a temática Relações Humanas, permeia o ambiente escolar, em especial no que tange às relações entre professores e alunos e a relevância desse processo para o andamento das atividades docentes, assim como o movimento do contexto escolar. Esse caminho foi trilhado tendo como foco a discussão central de que o homem é um ser relacional, que tem a sua formação humana atrelada ao relacionamento entre os pares, num contexto social e cultural determinados historicamente. ATIVIDADE DE AUTOESTUDO 1) Alguns psicólogos defendem a ideia que a maioria dos problemas humanos de uma instituição, tome como base aqui a escola, requer conhecimentos sobre o comportamento. A partir dessa afirmação, elabore sozinho ou em grupo, os principais problemas que surgem no seu ambiente de trabalho. Após isso, escolha um dos problemas e tente apresentar algum tipo de solução para ele. 2) Segundo Arnold Toynbee, os componentes da sociedade não são os seres humanos, mas as relações que existem entre eles. Faça uma discussão em grupo (você pode utilizar o fórum para isso) sobre essa afirmação e pense acerca das relações humanas estabelecidas dentro da instituição escolar na qual você trabalha, e reflita: as relações humanas ocupam qual lugar na hierarquia de necessidades a serem trabalhadas? 3) O homem não é um ser isolado, ele depende das relações com os demais para auxiliar na formação de sua identidade, ponto esse que pode ser notado já nas crianças que frequentam a Educação Infantil. Discuta essa afirmação com os colegas e perceba os diferentes pontos de vista acerca da mesma. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 35

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37 UNIDADE II PROCESSOS PSICOLÓGICOS E O CONTEXTO SOCIAL NA ESCOLA Professora Me. Gescielly B. da Silva Tadei Objetivos de Aprendizagem Compreender o Desenvolvimento Humano. Conhecer as Concepções acerca do Desenvolvimento Humano. Observar pontos acerca da Psicologia da Aprendizagem. Adentrar o foco de trabalho da Psicologia da Educação. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: O Desenvolvimento Humano: um Olhar para o Sujeito Concepções acerca do Desenvolvimento Humano A Psicologia da Aprendizagem A Psicologia da Educação

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39 INTRODUÇÃO Entender o desenvolvimento humano a partir das concepções teóricas que compreendem o mesmo (teoria piagetiana; teoria psicanalítica; teoria vigotskyana) é o objetivo central da presente unidade. Percorrer e buscar a compreensão acerca da Psicologia da Aprendizagem, assim como a sua ênfase no processo educacional e a perspectiva de suas discussões teóricas centradas no processo de aprendizagem do aluno, faz parte dos anseios desse estudo. Contemplar os objetivos acerca das intervenções realizadas pela Psicologia da Educação é nosso intuito, também, nessa fase dos nossos estudos. O DESENVOLVIMENTO HUMANO: UM OLHAR PARA O SUJEITO Ao estudarmos o desenvolvimento humano para fins de compreensão e amplitude da temática sobre as relações humanas no ambiente escolar, precisamos entender que há diferentes concepções sobre esse item, o que interfere diretamente na nossa maneira de ver e conceber aspectos acerca do desenvolvimento do ser humano. Não há a possibilidade de afirmarmos qual a teoria ou qual o estudioso é correto ou não, pois não estamos aptos para realizar tal procedimento. Contudo, o que não podemos negar, é a possibilidade de observarmos, de maneira ampla, o que os principais autores e estudiosos pensam e defendem a respeito da temática. As opiniões e posicionamentos estabelecidos por eles afetaram, e ainda afetam as leis e diretrizes educacionais e o dia a dia em sala de aula. Nenhuma linha da Psicologia responde plenamente todas as questões referentes ao indivíduo, por isso não podemos menosprezar o conhecimento trazido por diferentes autores. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 39

40 Nesse sentido, ressaltamos que dentro da linha de estudos sobre o desenvolvimento humano, no que tange à educação, temos alguns autores que são considerados como os pilares para essa discussão. São eles: Jean Piaget ( ), de origem francesa; o austríaco Sigmund Freud ( ) e Lev Seminovich Vigotsky ( ), de origem russa. Mas, o que é desenvolvimento? ou, o que pode ser considerado desenvolvimento? No pleno sentido da palavra, desenvolvimento é relativo à ampliação, ao progresso, ao crescimento, à expansão, à propagação. Nesse sentido, quando uma criança nasce, ela começa a caminhar no sentido do crescimento, tanto na expansão de suas capacidades mentais, quanto ao seu crescimento orgânico. Cada faixa etária traz algumas características que lhe são próprias. Em cada período há uma maneira da criança perceber, compreender e atuar sobre o mundo. Nós educadores precisamos estar atentos quanto a esse fato, para que não designemos como um problema, algo que é particular da fase pela qual a criança está passando. Brotherhood e Gallo (2009) ressaltam que estudar o desenvolvimento é compreender o que é pertinente a cada faixa etária. Para esse entendimento existe a necessidade de conceber fatores de interação para com os mesmos, como: a hereditariedade, o crescimento orgânico; a maturação neurofisiológica; e a influência do meio sociocultural. Há algumas características pertinentes a cada faixa etária da criança, conhecê-las é fundamental para todo o educador. Dessa maneira, os referidos autores pontuam que o desenvolvimento humano abrange vários aspectos, como: Aspecto físico-motor: que abrange o crescimento orgânico. 40 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

41 Aspecto intelectual: o qual abrange a capacidade de pensamento e o raciocínio. Aspecto afetivo-emocional: que se refere a maneira como o indivíduo reage diante de situações que envolvem outras pessoas. Não há a possibilidade de estudar tais aspectos em separado, mas alguns estudiosos optam pelo aprofundamento em alguns pontos, deixando os outros como um estudo a ser realizado de forma ampassã. Verifiquemos, de maneira breve, como cada um dos autores mencionados compreende o desenvolvimento humano, mais especificamente a questão do desenvolvimento infantil. QUEM FOI JEAN PIAGET? QUAL A SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A COMPREEN- SÃO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO? Para mim a educação consiste em fazer criadores. Jean Piaget Jean Piaget era de origem suíça, muito inteligente, já aos sete anos demonstrava curiosidades na área científica, aos dez anos publicou um artigo sobre um Pardal Branco e aos 11 anos de idade tornou-se assessor do Museu de História Natural Local de sua cidade, Neuchâtel (SANDRO, 2005). Interessava-se muito pela área da Filosofia e da Psicologia, mas foi na área da Biologia que ele escolheu trilhar a sua formação acadêmica. Estudou um pouco de Psicologia e de Psicanálise, e no ano de 1919 foi convidado a trabalhar com testes de inteligência infantil. Piaget nunca quis estudar o comportamento da criança para a ampliação de questões referentes a este. Como biólogo buscava compreender o porquê de determinado comportamento e de PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 41

42 determinada ação em dado contexto. Seu olhar estava sempre pautado no aspecto maturação biológica do corpo humano. Em 1923 lançou seu primeiro livro: A linguagem do pensamento da criança. Em 1925 iniciouse como professor em Psicologia, aproximando-se cada vez mais das questões referentes ao processo de aprendizagem da criança, mas foi na década de 1930 que começou a escrever vários trabalhos sobre as fases de desenvolvimento, tomando como base de observação direta seus próprios filhos. Participou da constituição da UNESCO, e na década de 1950, publicou a obra Epistemologia Genética, sua primeira tese sobre teoria do conhecimento. Segundo Sandro (2005), foi no ano de 1955, na cidade de Genebra, que Piaget fundou o Centro Internacional de Epistemologia Genética, destinado a pesquisas interdisciplinares sobre a formação da inteligência. Em 1967, Piaget escreve Biologia e Conhecimento, considerada a sua principal obra após anos de pesquisas e intervenções. Segundo Fabril (2008, p. 11), Jean Piaget escreveu como autor e em co-autoria, mais de sessenta livros que registram o desenvolvimento de suas pesquisas e o conseqüente aprimoramento de sua teoria. Dentre seus escritos, apenas duas obras tratam de assuntos relacionados à educação: Psicologia e Pedagogia e Para onde vai a educação? Faleceu em 16 de setembro de 1980, na cidade de Genebra, deixando uma vasta obra e uma forma de pensamento que fundamentaria legiões de estudiosos na área do desenvolvimento humano. Sua teoria é conhecida como Teoria Construtivista, tendo como característica básica a biologia para a compreensão dos estágios do desenvolvimento e o processo de maturação da inteligência humana. Pautados na opinião de Sandro (2005, p. 49), compreendemos que Para Piaget, grande parte do conhecimento construído pelo homem é resultado do seu esforço em compreender e dar significado ao mundo. Nessa tentativa de interação e compreensão do meio, o homem desenvolve alguns equipamentos neurológicos herdados que facilitam o funcionamento intelectual. Para exemplificar sua colocação, ele cria um modelo biológico de interação entre homem e 42 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

43 ambiente, tendo como foco o desenvolvimento como um processo adaptativo, e partindo da premissa que o conhecimento é cumulativo. Piaget concebe a teoria do desenvolvimento humano disposta em períodos, os quais são: 1º período: Sensório-motor (0 a 2 anos); 2º período: Pré-operatório (2 a 7 anos); 3º período: Operações Concretas (7 a 11 ou 12 anos); 4º período: Operações formais (11 ou 12 anos em diante). No Período Sensório-motor 0 a 2 anos, ocorre a percepção e os movimentos da criança na exploração no meio que a circunda. É a fase do egocentrismo, ou seja, o próprio corpo do bebê é a referência única e constante que ele possui. Aos poucos os reflexos vão sendo consolidados, coordenados e organizados e o crescimento orgânico vai caminhando junto ao desenvolvimento intelectual. É uma fase de imitação, a linguagem, aqui, se apoia no sistema sensório-motor, ou seja, depende da maturação do mesmo para que seja sustentada. Fonte: PHOTOS.COM Fonte: PHOTOS.COM O Período Pré Operatório ou Simbólico 2 a 7 anos de idade, é configurado pelo desenvolvimento de uma linguagem afetiva, a qual só se torna comunicativa mais ou menos aos 2 anos de idade. Já há, nessa fase, a preocupação com o real (relação de causa e efeito). A linguagem encontrase mais desenvolvida. A criança tem a dificuldade de, diferenciar entre o real e o imaginário. Para Piaget, nessa fase, ainda não ocorre uma verdadeira socialização. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 43

44 Fonte: PHOTOS.COM As descrições cabíveis a cada período mencionado estão pautadas na obra de BROTHERHOOD e GALLO (2009). Como esse período é bastante abrangente, o estudioso o divide em um subperíodo, o intuitivo, no qual há um maior pelo real, assim como a busca do entendimento por meio da lógica. É a fase do porquê, e do início da saída do egocentrismo. Para Piaget, nesse período a criança já tem a consciência da existência do outro, seu pensamento é lógico, e já posso falar em um início de socialização. Segundo Brotherhood & Gallo (2009) o que vai diferenciar esse período da adolescência, é que nesse a criança estabelece todo o seu raciocínio lógico a partir de experiências vividas, concretas, sem a abstração de ideias. Período operatório-concreto entre 6 e 7 anos até 11 ou 12 anos de idade. Nessa fase, a criança busca sempre obter uma resposta objetiva do adulto, desse modo, o porquê é sempre no sentido de busca da causalidade. Há uma diferenciação maior entre a realidade e a fantasia, o que não significa dizer que a fantasia seja excluída das brincadeiras, a mesma apresenta-se apenas de maneira diferenciada da realidade, ou seja, a criança compreende o que é o faz de conta e o que é o real. O adulto é considerado como a fonte de todo o conhecimento que existe no mundo. O pensamento, aqui, já e voltado para a lógica, havendo esquemas e estruturas operatórias. O que vai diferenciar esse período da adolescência, é que nesse período a criança estabelece todo o seu raciocínio lógico a partir de experiências vividas, concretas. O Período Operatório Formal 11/12 anos a 15/16 anos, é caracterizado pela presença da lógica que ultrapassa as experiências vividas, é um período hipotético-dedutivo, ou seja, o adolescente é capaz de analisar questões propostas sem que essas estejam presas ao real. Há uma busca de relação entre os iguais, por isso é comum vê-los sempre em grupos. Nessa fase o ser humano já é capaz de lidar com conceitos como: liberdade e justiça, pois há Fonte: PHOTOS.COM 44 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

45 o domínio dos processos de abstração e de generalização. Na idade adulta, não surge nenhuma nova estrutura mental. O indivíduo caminha para então, segundo Brotherhood & Gallo (2009), um aumento do desenvolvimento cognitivo, o que possibilita maior compreensão acerca dos problemas e na forma de ser e estar no mundo enquanto um ser humano que estuda, trabalha e estabelece relações. A cada novo período iniciado, significa afirmar que houve uma acomodação de informações realizadas pelo sistema cognitivo do ser humano para a adaptação desses conhecimentos no processo de desenvolvimento. Ao nos pautarmos em Sandro (2005, p. 50) podemos compreender que para Piaget [...] a estrutura cognitiva vai construindo-se a aprimorandose paulatinamente e concomitantemente à construção de novos conhecimentos, através da busca natural do homem por adaptar-se ao meio ambiente. A partir desses conhecimentos deixados pelo estudioso, o sistema educacional foi se apropriando de suas ideias para organizar as teorias de aprendizagem e a forma de intervenção para com o aluno no meio escolar. No Brasil, por exemplo, em específico após a década de 1990, Nagle (2005) pontua que os documentos educacionais têm sido embasados na teoria piagetiana do desenvolvimento humano. Verificamos, então, que embora Piaget não tenha se dedicado exclusivamente à educação, seus estudos acabaram adentrando essa área. Observem alguns dos títulos do autor naquilo que tange o desenvolvimento e o processo educacional: PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 45

46 A noção de tempo na criança Autor: Jean Piaget Editora Record, A Representação do Mundo na Criança Autor: Jean Piaget Editora Record, Ensaio de Lógica Operatória Autor: Jean Piaget Editora: Globo/EDUSP, O Juízo Moral na Criança. Autor: Jean Piaget Editora: Summus, Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/sigmund_freud 3 - Seis Estudos de Psicologia Autor: Jean Piaget Editora: Forense, QUAL A RELEVÂNCIA DA TEORIA DE SIGMUND FREUD PARA A EDUCAÇÃO? Os judeus admiram mais o espírito do que o corpo. A escolher entre os dois, eu também colocaria em primeiro lugar a inteligência Sigmund Freud Freud era de origem austríaca, a partir de seus estudos e trabalhos realizados com pacientes neuróticos, formulou a sua teoria psicanalítica. Ele iniciou a sua carreira como neurologista no ano de 1883, especializou-se em psiquiatria e começou a trabalhar com pacientes acometidos de doenças dos nervos. 46 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

47 Sua contribuição para a ciência é tão ampla, que equivale às contribuições de Karl Marx na compreensão dos processos históricos e sociais. Freud pode ser considerado um investigador nato, e foi a sua investigação sistemática acerca dos problemas dos nervos, como eram designados na época, que o levou à criação da psicanálise. Segundo Bock Teixeira e Furtado (1999), a psicanálise é considerada um termo, uma teoria e, também, uma forma de intervenção. Sigmund Freud publicou uma extensa teoria e deixou um legado de seguidores após a sua morte no ano de Ele criou a sua primeira teoria sobre a Estrutura do Aparelho Psíquico: Inconsciente. Pré-consciente. Consciente. Para Bock, Teixeira e Furtado (1999), essas três instâncias podem ser rapidamente definidas da seguinte maneira: o Inconsciente: exprime o conjunto de conteúdos não presentes no campo visual da consciência. É constituído pelos conteúdos reprimidos, que não têm acesso aos sistemas pré-consciente/consciente, pela ação de censuras internas. Esses conteúdos podem ter sido conscientes em algum momento, e ter sidos reprimidos, isto é, foram para o inconsciente. O inconsciente é um sistema do aparelho psíquico regido por leis próprias de funcionamento. É atemporal: não existem noções de passado e presente. O Pré-consciente: refere-se ao sistema onde permanecem aqueles conteúdos acessíveis à consciência. É aquilo que não está na consciência naquele momento, mas no momento seguinte pode estar. E o Consciente: é o sistema do aparelho psíquico que recebe ao mesmo tempo, as informações do mundo exterior e do mundo interior. Na consciência, destaca-se o fenômeno da percepção, principalmente a percepção do mundo exterior, a atenção, o raciocínio. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 47

48 A segunda teoria do aparelho psíquico contempla, também, três sistemas da personalidade, sendo composta pelo Id; pelo ego; e pelo superego. Esta estrutura decorre, segundo Brotherhood e Gallo (2009), de um modelo topográfico de mente, no qual está dividida nessas três regiões específicas. A instância do Id (inconsciente) refere-se às pulsões de vida e de morte; as características atribuídas ao sistema inconsciente, na primeira teoria, são atribuídas ao Id, o qual é regido pelo princípio do prazer (BOCK; TEIXEIRA; FURTADO,1999). Ainda de acordo com os autores, apresentamos o Superego (pré-consciente) que se origina com o Complexo de Édipo, a partir das internalizações das proibições, dos limites e da autoridade. Seu conteúdo refere-se às exigências sociais e culturais. É ele que regula a ideia do sentimento de culpa, do medo da perda, assim como da internalização da autoridade ninguém mais precisa lhe dizer não, você enquanto ser humano sabe o que é possível realizar ou não em dado momento. Podemos ressaltar que a função da autoridade sobre o indivíduo será realizada permanentemente pelo superego. 48 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

49 Você sabia? O ego é como um executivo crítico, organizado, solucionador de problemas, é a sede de todo o processo intelectual? (BROTHERHOOD; GALLO, 2009) Já o Ego (consciente) é o sistema que tenta equilibrar as exigências do Id e as exigências do Superego, ele procura dar conta dos interesses da pessoa. É regido pelo princípio da realidade, que junto com o princípio do prazer, rege o funcionamento psíquico. Sendo assim, podemos afirmar que o Ego apresenta uma função reguladora, tendo como funções básicas a percepção, a memória, os sentimentos e os pensamentos (BOCK; TEIXEIRA; FURTADO,1999). As instâncias Id, Ego e Superego estão sempre correlacionadas, não há como compreendermos uma delas sem averiguarmos o todo da pessoa, sua forma de agir, a sua história pessoal, social e cultural, bem como sua maneira de compreender e estar no mundo. Contudo, para nós da área da educação, a maior contribuição que Freud nos deixou foi à descoberta da sexualidade infantil. A partir de suas investigações na prática clínica sobre causas e funcionamentos das neuroses, descobriu que a maioria dos pensamentos e desejos reprimidos referia-se a conflitos de ordem sexual, localizados nos primeiros anos de vida. Partindo desse pressuposto definiu que: 1- a função sexual existe desde o princípio da vida, logo após o nascimento; 2- o período do desenvolvimento da sexualidade é longo e complexo até chegar à idade adulta, onde as funções de reprodução e de obtenção do prazer podem estar associadas, tanto no homem quanto na mulher; 3- a libido: nas palavras de Freud, é a energia dos instintos sexuais e só deles (BOCK; TEIXEIRA; FURTADO,1999). Após essas três pontuações, Freud delimita em fases o desenvolvimento infantil, as quais são: Fase oral. Fase anal. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 49

50 Fase fálica. Complexo de Édipo. Título: Três ensaios sobre teoria da sexualidade. In: Obras psicológicas completas. Autor: Sigmund Freud. Editora: Imago, Delimita dessa maneira por acreditar que o processo de desenvolvimento psicossexual tem uma função sexual ligada à sobrevivência humana. Na Fase oral, a zona de erotização é a boca, a criança descobre o mundo colocando objetos que encontra na boca, é como se ela estivesse experimentando o mundo. Na Fase anal: a zona de erotização é o ânus, a criança descobre o controle que possui ao regular seus próprios esfíncteres, as fezes são a primeira coisa que o bebê percebe que consegue fazer sozinho, sem a intervenção da mãe ou do cuidador. Na Fase fálica: a zona de erotização é o órgão sexual, a criança percebe que tocar os genitais é algo prazeroso, e começa a realizar essa ação sem perceber ou discriminar o local em que está, necessitando, então, da intervenção de um adulto; em seguida vem o período de latência que se prolonga até a puberdade. Há uma diminuição das atividades sexuais, um intervalo. Na puberdade temos a fase genital, quando o objeto de desejo não está mais no próprio corpo, mas sim em um objeto externo ao indivíduo, o outro. O Complexo de Édipo refere-se à estruturação da personalidade. Ocorre entre três e cinco anos, durante a fase fálica. Nesse complexo, a mãe é o objeto de desejo do menino, e o pai é o rival que impede seu acesso ao objeto desejado. O menino escolhe o pai como modelo de 50 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

51 comportamento, passando a internalizar as regras e normas sociais impostas pela autoridade paterna. Este processo ocorre também com as meninas, sendo invertidas as figuras de desejo e de identificação. Enquanto educadores, não utilizamos a teoria freudiana no interior da sala de aula, mas precisamos de seu conhecimento acerca da sexualidade infantil e da estrutura da personalidade para compreendermos e lidarmos com as crianças na rotina escolar. Nesse sentido, [...] a psicanálise serve ao professor enquanto indivíduo, de modo algum à Pedagogia como um todo (OLIVEIRA, p. 246, 2008). Complementando, a Psicanálise não pode ser considerada como uma linha pedagógica a ser aplicada, mas sim como uma teoria sobre o desenvolvimento humano a ser conhecida pelos docentes. Freud além da Alma (Freud EUA). Direção: John Huston. Gênero: drama biográfico. Idioma original: inglês. Título: Freud além da alma Freud Além da Alma mostra as descobertas de Sigmund Freud, o qual toma como base as suas próprias experiências psicanalíticas pessoais, como por exemplo, a teoria que desenvolveu sobre o Complexo de Édipo, fundamentando-se na própria relação o seu pai já falecido. O Diretor do filme, John Huston, lançando mão do roteiro escrito por Jean-Paul Charles Aymard Sartre ( ), mostra o conflito interior no qual viveu Freud enquanto tentava compreender o obscuro inconsciente de seus pacientes. O filme pode ser considerado como uma boa introdução para se compreender as etapas percorridas por Freud para a elaboração da sua teoria e chegar ao método de tratamento psicanalítico (ROSEMBERG, 2009). O RUSSO LEV SEMINOVICH VIGOTSKY E SUA IMPORTÂNCIA PARA O MEIO EDUCACIONAL A postura sócio-histórica-cultural é característica da Teoria Histórico-Cultural, que tem como expoente Lev Seminovich Vigotsky. O referido estudioso nasceu em Orsha Rússia era de origem judaica, seus pais eram intelectuais, o que acabou estimulando-o. Segundo Rego (1995), até os 15 anos, o estudioso foi educado em casa, era interessado, dedicado, tinha mais afinidade por arte e adorava ler, em casa ou na biblioteca pública, PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 51 Fonte: NABORFRANCA.SITES.UOL.COM.BR

52 o que possibilitou despertar o interesse e a curiosidade por diversos e variados assuntos, também tinha o domínio em várias línguas. Você sabia que muitos dos escritos de Vigotsky ainda não foram traduzidos nem mesmo para o idioma espanhol? Algumas vezes foi reconhecido com medalhas por seu empenho nos estudos. Cursou Direito, História e Filosofia. Segundo Luria (1988, p. 22), era possível identificar em Vigotsky sua [...] grande competência para realizar análises psicológicas, fruto das influências que recebeu dos estudiosos soviéticos interessados no efeito da linguagem sobre os processos de pensamento. Com o crescente interesse em aprofundar seus estudos no desenvolvimento psicológico humano, anormalidades físicas e mentais, iniciou seus estudos no Curso de Medicina, desta forma, Vigotsky já foi marcado pelo trabalho da interdisciplinaridade, era também eclético (REGO, 1995). Ainda de acordo com a autora, compreendemos que a carreira de Vigotsky foi consolidada aos 21 anos, com várias obras críticas literárias escritas, lecionou e administrou várias palestras sempre relacionando todo seu trabalho no desenvolvimento da literatura, ciência, psicologia, pedagogia, destacando os métodos de ensino da literatura nas escolas secundárias, fundou uma editora, uma revista e um laboratório de psicologia. A psicologia foi um dos caminhos mais trilhados por Vigotsky, autor esse que também se dedicou a estudar a formação docente, assim como compreender o processo de aprendizagem e de desenvolvimento em crianças cegas, surdocegas e com retardo mental. Tais estudos foram um estímulo para ajudar crianças com deficiência a buscar alternativas para que o processo de ensino e aprendizagem pudesse fluir. 52 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

53 Destacou-se em 1924, em sua carreira intelectual e profissional na psicologia, sobre o comportamento consciente humano. Fundou o I Instituto de Estudo das Deficiências e intensificou seus trabalhos com os deficientes (TULESKI, 2002). Vigotsky se dedicou intensamente aos estudos e trabalhos até os seus últimos dias de vida. Seguiu lecionando, escrevendo e trabalhando e desenvolveu suas pesquisas até os últimos dias de sua vida. No decorrer da leitura percebemos que o estudioso utiliza-se do Método Dialético em seus estudos e pesquisas. Por meio desse método ele questionou o comportamento humano e a relação desse comportamento com o social, tentando, dessa maneira, entender o papel da educação no desenvolvimento humano, em especial naquilo que diz respeito ao desenvolvimento infantil, destacando a pedologia (ciência da criança que integra as relações biológicas, psicológicas e antropológicas (REGO, 1995). Segundo Oliveira (1993, p. 20), [...] ele considerava esta disciplina como sendo a ciência básica do desenvolvimento humano, uma síntese das diferentes disciplinas que estudam a criança. O objetivo central da obra de Vigotsky consistiu em estudar os processos de transformação do desenvolvimento humano na sua dimensão filogenética, históricosocial e ontogenética. Centrou sua atenção no estudo dos mecanismos psicológicos mais sofisticados (funções psicológicas superiores 5 ), típicos da espécie humana (TULESKI, 2002). Usando o método dialético como premissa, procurou identificar as mudanças qualitativas do comportamento que ocorrem ao longo do desenvolvimento e sua relação com o contexto social, por isso, a infância era considerada como um fator para compreender o desenvolvimento infantil e o comportamento humano. De acordo com Facci (1998), todo o percurso acadêmico de Vigotsky estava relacionado ao seu contexto sociopolítico e também cultural, o que lhe favoreceu por ser russo e ter iniciado num período pós-revolucionário que contribuiu para a transformação da psicologia e da ciência. 5 São consideradas funções psicológicas superiores: controle consciente do comportamento, atenção e lembrança voluntária, memorização ativa, pensamento abstrato, raciocínio dedutivo, capacidade de planejamento (REGO, 1995). PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 53

54 Ele atribuía muita importância aos avanços científicos, pois achava que seria uma forma de auxiliar os problemas da sociedade, o que gerava diferentes e vários estudos sobre o desenvolvimento humano. Na educação buscava diminuir compreender o analfabetismo e formação dos cidadãos, e concluiu que a teoria psicológica está relacionada com os projetos sociais e políticos da sociedade. Observamos que a psicologia era o ponto central das pesquisas vigotskyanas para a compreensão do desenvolvimento. Quanto a isso, compreendemos que nas primeiras décadas do século XX, para Rego (1995), a psicologia estava dividida em duas tendências opostas: uma baseada nos pressupostos empiristas e outra nos princípios da filosofia idealista. O grupo que tinha como base a filosofia empirista observava a psicologia como uma ciência natural que devia se ater na descrição das formas exteriores de comportamento, compreendidas como habilidades mecanicamente construídas. O outro grupo entendia a psicologia como ciência mental, acreditando que a vida psíquica humana não poderia ser objeto de estudo da ciência objetiva, já que era manifestação do espírito. Você sabia que Vigotsky, Lúria e Leontiev eram conhecidos como a Troika? Para Vigotsky, nenhuma das tendências possuía fundamentação necessária para a construção de uma teoria consistente dos processos psicológicos tipicamente humanos (FACCI, 1998). Ele argumentava críticas às duas correntes e buscava a superação desta situação por meio da aplicação dos métodos e princípios do materialismo dialético. Ele acreditava que tendo como método essa abordagem seria possível descrever e explicar as funções psicológicas superiores. Pretendia, assim, construir uma teoria marxista do funcionamento intelectual humano. Vigotsky afirma que com o estudo psicológico é possível compreender a história do desenvolvimento do comportamento baseado no seu contexto social, no qual tinha Alexander Luria ( ) e Alexei Leontiev ( ) como seus colaboradores, com a meta de se estudar profundamente a psicologia humana. Hoje, seu trabalho é traduzido em diversas línguas e seus estudos estendem-se a diversas nações. Mesmo com todo o trabalho desenvolvido, Vigotsky recebeu críticas, após a sua morte, 54 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

55 de uma parcela da sociedade russa. No Brasil, suas obras receberam crédito a partir de 1984, por meio da publicação do livro A Formação Social da Mente e Pensamento e Linguagem. Sabemos que a obra desse autor é muito mais abrangente e que compreensões sobre a sua teoria ainda fazem-se necessárias. Ressaltamos, porém, que mesmo com essas pontuações, a obra de Vigotsky o faz um dos maiores psicólogos do mundo. Os estudos e a teoria vigotskyana fundamentam muitos trabalhos de estudiosos na atualidade. Podemos ressaltar que a compreensão do homem enquanto ser sócio-histórico-cultural é o centro de sua obra, a qual ainda está em processo de estudos, visto que muitos de seus trabalhos ainda não foram traduzidos. Título: Lev Vygotsky O documentário é narrado por Marta Kohl de Oliveira, e trata da preocupação de Vigotsky em entender o funcionamento psicológico do ser humano integrando aspectos biológicos e culturais. Lev Vygotsky ( Brasil) Gênero: Documentário. Idioma: Português. Observamos nesse resgate teórico, os principais estudiosos que contribuíram para a compreensão do ser humano em seu processo de desenvolvimento, o qual está intrinsecamente ligado ao contexto escolar da criança, visto que é na escola que ela passa uma parte considerável do seu dia. Falando em contexto escolar, há aí duas vertentes que necessitam ser ressaltadas, pois auxiliam na compreensão do desenvolvimento humano, mas em especial, no que tange o desenvolvimento infantil. Essas vertentes são: a Psicologia da Aprendizagem e a Psicologia PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 55

56 da Educação. Primeiramente, o que é APRENDIZAGEM? Podemos afirmar que o processo de aprendizagem é iniciado a partir do nascimento da criança, momento em que ela começa a estabelecer vínculos e trocas com o meio familiar, particularmente a figura materna e posteriormente com o meio escolar. Por isso, ao pensarmos em aprendizagem, necessitamos considerar a cultura, a sociedade, os costumes e os modos de vida, nos quais o ser humano está inserido. Caso essas considerações não sejam feitas, a análise será sempre estática. De maneira mais enfática, podemos ressaltar que a [...] aprendizagem é um processo de mudança de comportamento obtido por meio da experiência construída por fatores emocionais, neurológicos, relacionais e ambientais. Aprender é o resultado da interação entre estruturas mentais e o meio ambiente (HAMZE, 2010, p. 1). Nesse sentido, a aprendizagem é um processo conseguido tanto pela observação quanto pela prática. Por exemplo, não precisamos de uma técnica para saber como funciona uma bicicleta, não precisamos estudar física para entendermos sobre o equilíbrio necessário para pedalarmos esse meio de transporte. A aprendizagem é um esquema altamente complexo que favorece ao homem relações com o meio, ou seja, ocorre um ajustamento social. Ela é uma forma qualitativa de apreensão do conhecimento, caracterizando-se como um leque muito amplo, pois o conhecimento é algo persistente e contínuo e o ser humano aprende e apreende a todo o momento, em especial pelas contribuições dadas pelo processo de ensino e aprendizagem sistematizados no ambiente escolar. Uma das premissas mais importantes para o processo de aprendizagem é a aquisição da linguagem. 56 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

57 Você já reparou na alegria dos pais quando a criança começa seu processo de silabação? Por que isso ocorre? Falar é tão simples! Na verdade, quando a criança começa a falar, ela começa a se inteirar de um mundo social e cultural que para ela apresenta-se como diferente, a princípio sem sentido, mas ela vê a possibilidade de se inteirar do mesmo, observando que a forma a comunicação existente entre aqueles que a circundam. A fala ajuda a criança a tornar-se humana em um mundo tão complexo e cheio de significados. Você sabia que a intencionalidade da linguagem é essencialmente humana? A linguagem diferencia os homens dos demais animais pela intencionalidade da palavra, pela possibilidade de poder nomear os eventos que estão presentes no mundo material. Ao buscarmos a comparação com o mundo animal, podemos afirmar que os mesmos estão presos ao biológico, aos instintos, ao momento, já os homens conseguem se desvencilhar do biológico por meio de sua capacidade cognitiva, podendo, dessa forma, planejar, arquitetar seu mundo por meio de uma linguagem que é o veículo para a transmissão de conhecimentos de geração em geração. Nesse sentido, a linguagem teve a sua origem a partir da necessidade, necessidade essa que pode ser entendida como a busca pela cooperação entre os seres humanos, auxiliando, assim, na produção de meios de sobrevivência para estes, ou seja, o trabalho. De acordo com cada época e sociedade são criadas novas formas de relação com a vida material, surgindo, também, novas formas de sobrevivência, gerando relações sociais PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 57

58 responsáveis pela manutenção das relações de produção. Entendemos, assim, que a linguagem é a forma desenvolvida pelo homem para organizar e sustentar essas relações. Compreendemos, também, que a linguagem exerce relativa influência sobre o ser humano, tanto na maneira de ser, como de se expressar. Há a transmissão e a materialização dos sentimentos por meio da linguagem, visto que essa acompanha a humanidade desde tenros tempos, além disso, ela organiza a definição e a identidade dos sujeitos, é por meio dela que nós conseguimos especificar atributos ao outro, e a nós mesmos. Por isso, a linguagem tem, ainda, o atributo de ser reguladora e interacional, ela investiga a realidade, suprimindo tanto realidades físicas quanto psicológicas do meio no qual o indivíduo está inserido. Com o surgimento da linguagem, ocorrem, de acordo com Lamb (2003), mudanças essenciais na atividade consciente, como por exemplo: 1) Discriminação de objetos externos assim como o direcionamento da atenção para a conservação das figuras desses objetos na memória, ou seja, os objetos não precisam estar presentes para que saibamos da existência dos mesmos. 2) Garantia quanto aos processos de generalização e de abstração. 3) Penetração em todos os campos da capacidade consciente do indivíduo. 4) Possibilidade de direção arbitrária da atenção humana. 5) Organização dos processos mnemônicos e ampliação do volume de informação, permitindo, por exemplo, que retornemos a fatos ocorridos no passado. 6) Surgimento do processo imaginativo. 7) Possibilidade de atendermos a comandos e ordens dirigidas a nós. Você imaginava que a linguagem era a responsável por tantas funções que diariamente utilizamos? Não é incrível percebermos a amplitude desse subitem que estamos estudando? Mediante a tantas especificações, compreendemos o motivo pelo qual há a associação entre 58 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

59 a importância da linguagem para o desenvolvimento do ser humano, para o tornar-se humano dentro de um contexto social. Nesse sentido, a linguagem é a forma de comunicação mais efetiva do ser humano, mas ela não garante o completo êxito na tentativa de transmitir o pensamento. A prova mais simples para mostrarmos isso é na exemplificação da brincadeira do telefone sem fio. Recorde-se das vezes que você brincou, qual foi a informação dada no início da brincadeira? E qual a informação que chega ao final da brincadeira? Geralmente, finaliza-se com uma informação completamente diferente da proposta inicialmente. Faça o teste: a brincadeira do telefone sem fio isso auxiliará a sua compreensão dessa parte do conteúdo. Fonte: PHOTOS.COM Muitas vezes, no dia a dia, essa questão acaba ocorrendo, são as falhas na comunicação, as quais devem ser observadas atentamente e prontamente corrigidas, em especial nos ambientes de trabalho, como lá na escola na qual vocês trabalham, pois, às vezes, uma simples palavrinha pode se tornar um palavrão. Como já verificamos, a linguagem é de caráter social, pois facilita a troca de informações, assim como sentimentos entre os seres humanos de determinada cultura, visando, assim, o estímulo quanto ao aspecto da interação grupal. Por ser enxergada como um sistema, a linguagem necessita de uma organização e de uma ordem de sequencialização, para que possa haver uma transmissão de informações satisfatória. Por isso é que algumas regras da linguagem precisam ser respeitadas, a principal delas, é a impossibilidade de criarmos uma linguagem individual, podemos até usar algumas PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 59

60 gírias mas, a estrutura da linguagem é sempre coletiva, é o sujeito que incorpora a língua vernácula ao nascer e essa língua será sistematizada ao se adentrar o meio escolar. Greene (1976) define que a linguagem é um sistema e tem como função a interação humana, podendo ser qualificada como um sistema relacionado ao nosso comportamento. O autor afirma que embora a linguagem e o pensamento tenham raízes independentes, a partir do momento que os caminhos se cruzam, já não há mais a possibilidade de dissociar essas duas áreas. Faça o teste: tente imaginar algo que não remeta a utilização de palavras. Difícil não? Essa indissociação que o autor se refere ao tratar da linguagem e do pensamento, o qual é considerado como a internalização da linguagem. Faça o teste existe o pensamento sem a palavra? Verificamos até o momento o quão amplo é o tema Relações Humanas na escola. Observamos a quantidade de áreas que essa temática aborda, você já tinha parado para pensar a importância da linguagem para as relações interpessoais, por exemplo? Agora, chamo a sua atenção para outro ponto muito importante para a continuidade das discussões sobre nosso tema central: Relações Humanas. Você sabia que a Psicologia da Educação está intrinsecamente ligada a essa área? O que é PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO? O que essa temática está fazendo dentro da área que trata sobre as Relações Humanas na escola? 60 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

61 Calma, o objetivo não é confundir, mas sim auxiliar nesse processo de aprendizagem iniciado por vocês nessa disciplina, o qual é relevante para a continuidade da graduação em Pedagogia, assim como para a prática docente no ambiente escolar. A terminologia Psicologia da Educação remete-se a uma preocupação com o estudo da esfera educacional como um todo. Isso significa que tudo aquilo que está ligado à aprendizagem e ao desenvolvimento, assim como o saldo positivo referente às intervenções educativas realizadas e a aplicação da psicologia no ambiente de ensino, faz parte do interesse da Psicologia sobre a Educação. Como temos notado, durante nossas discussões, a psicologia atem-se ao desenvolvimento humano, assim como a tudo que está ligado direta ou indiretamente a ele. O processo de aprendizagem tem íntima relação com o desenvolvimento, assim como as relações estabelecidas pelo indivíduo com o seu grupo, o qual encontra na escola um meio para o seu firmamento e propagação. Você consegue observar como os temas estão entrelaçados? Bem, convido você a continuarmos nossa linha de raciocínio. Ao adentrarmos os textos e artigos que tratam sobre a Psicologia da Educação, compreendemos a afirmação de que a aprendizagem altera a forma de desenvolvimento humano, o que já havíamos notado anteriormente. A reafirmação de que a aprendizagem inicia-se antes do ingresso da criança ao ambiente escolar é enfatizada. Ao entrar no ambiente escolar, a criança traz alguns conhecimentos ditos senso comum Guaglia (2009) destaca que antes da iniciação ao período escolar, a criança já traz algumas hipóteses desenvolvidas no seio familiar, ou seja, ela já possui alguns conhecimentos ditos de senso comum acerca da realidade. Esses conhecimentos passarão, a partir da entrada na PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 61

62 escola, pelo crivo da cientificidade, do desenvolvimento do raciocínio lógico e formal. Todo esse movimento que ocorre na vida da criança é observado pela Psicologia da Educação. Antunes (1998) afirma que a Psicologia encontrou na Educação uma forma de propagar os conhecimentos psicológicos sistematizados, em especial no que tange o desenvolvimento infantil, e foi na Escola Normal Secundária 6 que a Psicologia encontrou um campo fértil para a propagação de seus estudos acerca do desenvolvimento humano, em especial pela utilização dos laboratórios utilizados pelas normalistas. Esses laboratórios foram criados com o intuito de, por meio de testes e experimentos laboratoriais, realizados pela Psicologia, buscar-se a compreensão das dificuldades e crescimentos relacionados, de maneira mais restrita à infância, mas abrangendo também o período da adolescência. A importância da Psicologia dentro da Educação pode então ser compreendida como uma busca pelo entendimento das limitações do sujeito. Destacamos que a Psicologia da Educação é mais uma ferramenta para a compreensão acerca da realidade na qual está inserida a escola, ambiente este constituído pelos mais diversos tipos de pessoas, oriundas das mais variadas localidades e banhadas em distintos estilos culturais. Por isso as informações trazidas até aqui auxiliam o entendimento de que nós, educadores, precisamos estar atentos ao nosso ambiente de trabalho e ao público que o compõe, primordialmente naquilo que tange a formação do nosso aluno. Nessa perspectiva, enquanto professores, e enquanto escola necessitamos nos dedicar a transmissão do conteúdo e a assimilação deste pelo aluno. Além disso, é preciso que olhemos atentamente para sujeito, para o discente, na tentativa de observar esse processo de interação estabelecido por ele e o conhecimento, e entre ele e o meio escolar. 6 A Escola Normal Secundária era a responsável pela formação do professorado até a o ano de 1971, período em que entrou em vigor a LDB 5692/71, que instituía a necessidade da graduação em Pedagogia para o exercício do magistério. 62 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

63 Nossas crianças e adolescentes precisam sentir a escola enquanto um ambiente seguro, apto a aceitá-los como eles são, estimulando-os no processo de aprendizagem e de conhecimento. Em todo esse percurso faz-se presente a parte emocional do sujeito, o qual busca respaldo e referência na figura do professor e do grupo. Ressaltamos, contudo, que essa não é uma tarefa simples de ser executada, porém é uma tarefa possível de ser colocada em prática. Para tanto, a exigência essencial é apenas uma: buscar aqueles que se sentem preocupados com a educação. Esse é o primeiro passo para que os docentes comecem a se preocupar e a demonstrar [...] interesse e atenção para pequenos progressos, sensibilidade para avaliar os esforços despendidos e, sobretudo, capacidade de elaborar formas produtivas de orientar o trabalho das crianças (GUAGLIA, 2009, p.19). Ainda de acordo com a referida autora, podemos compreender a importância da relação e a interação entre o professor e o aluno, sendo o professor a figura dominante desse processo. Nesse sentido, Guaglia (2009, p. 19) afirma que [...] cabe ao primeiro mediar e ajudar os mais jovens a se introduzirem no universo cultural da sua sociedade, confiando em sua competência para ensinar e naquela das crianças se apropriarem do conhecimento já elaborado. Esse processo de interação leva ao crescimento e ao desenvolvimento de um sujeito imerso em um contexto social, histórico e cultural, imbuído em uma capacidade de reflexão crítica estimulada pela figura do professor. Isso é alavancar o aluno para o seu ganho de autonomia. E participar desse processo não tem preço! Para continuarmos essa discussão, nosso próximo passo é compreender a seguinte questão: Por que a escola é importante para o processo de desenvolvimento humano? PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 63

64 Título: Ao mestre com carinho (To Sir, With Love EUA) Este é um filme que choca, nos mostrando a luta de um homem para mudar uma situação quase sem esperanças em um bairro pobre na Inglaterra dos anos Sidney Poitier é um engenheiro desempregado que encontra uma vaga como professor, ao chegar ao trabalho, descobre que enfrentará alunos indisciplinados e desordeiros (ARCA DO VELHO, 2010). Ao assistir esse filme, reflita e discuta sobre a função docente naquilo que tange o processo de ensino e a orientação dos alunos na rotina de uma escola. Ao mestre com carinho (To Sir, With Love EUA) Direção: James Clavell Gênero: Drama Produção: Columbia Pictures Idioma original: inglês CONSIDERAÇÕES FINAIS Estudamos nesta unidade alguns pontos relacionados ao processo de desenvolvimento humano, a partir de posturas teóricas destinadas a compreensão do mesmo, dentre essas posturas temos: a teoria de Piaget a teoria de Freud e a teoria de Vigotsky. Pontos voltados para a aprendizagem escolar e a Psicologia da Educação foram contemplados a fim de auxiliar nosso processo de ensino e aprendizagem, assim como conscientização sobre a importância de se compreender o desenrolar do processo de desenvolvimento do ser humano, particularmente no que tange a fase destinada à infância e adolescência, dentro de seus aspectos relacionais com os pares e com o meio que o circunda. 64 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

65 ATIVIDADE DE AUTOESTUDO 1) No pleno sentido da palavra, desenvolvimento é relativo à ampliação, ao progresso, ao crescimento, à expansão, à propagação. Nesse sentido, quando uma criança nasce, ela começa a caminhar no sentido do crescimento, tanto na expansão de suas capacidades mentais, quanto ao seu crescimento orgânico. Recorra ao texto e discorra sobre as áreas do desenvolvimento humano. 2) Enquanto educadores, não utilizamos a teoria freudiana no interior da sala de aula, mas precisamos de seu conhecimento acerca da sexualidade infantil e da estrutura da personalidade para compreendermos e lidarmos com as crianças na rotina escolar. Explique essa afirmação pautado nas informações trazidas no texto. 3) Como Vigotsky enxerga o sujeito e a educação? 4) Psicologia da Aprendizagem e Psicologia da Educação: por que estudar esses dois pontos na disciplina de Psicologia das Relações Humanas? PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 65

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67 UNIDADE III A INTERAÇÃO SOCIAL NA ESCOLA E SUA IMPORTÂN- CIA NO DESENVOLVIMENTO PESSOAL DO ALUNO Professora Me. Gescielly B. da Silva Tadei Objetivos de Aprendizagem Compreender a Importância da Escola para o Desenvolvimento Pessoal do Aluno. Entender a História da Educação Brasileira para o Estabelecimento das Relações Interpessoais (professor e aluno). Observar o Jogo e a Brincadeira como Fatores para a Interação Grupal na Escola. Notar a Relação Existente entre o Brincar e a Educação Infantil. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: Por que a escola é importante para o processo de desenvolvimento humano? O jogo e a brincadeira no desenvolvimento da criança o exercício da interação humana na educação infantil O que é jogo e brincadeira? a importância da linguagem para este contexto O brincar e a educação infantil

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69 INTRODUÇÃO Nosso foco de discussões nesta terceira unidade está em compreendermos a importância da Escola (enquanto instituição escolar de convívio estudantil) para o desenvolvimento pessoal do aluno. Para tanto, optamos pela busca no entendimento quanto à história da Educação Brasileira para se compreender como ocorreu o estabelecimento das relações interpessoais (professor e aluno), visto que em cada período histórico temos uma forma de relacionamento no que tange aspectos hierárquicos no contexto escolar. Escolhemos, como uma forma de exemplificação do conteúdo, explanarmos sobre o jogo e a brincadeira para tratarmos sobre a interação grupal da criança no ambiente escolar, ressaltando a relação existente entre a atividade do brincar e o processo de aprendizagem da Educação Infantil, pontos esses fundamentais para a compreensão do relacionamento humano, tanto na sala de aula, como nas dependências da escola. Para nós, educadores e estudiosos da área de desenvolvimento infantil, brincadeira é coisa séria! POR QUE A ESCOLA É IMPORTANTE PARA O PROCESSO DE DESENVOL- VIMENTO HUMANO? Tenha em mente que tudo que você aprende na escola é trabalho de muitas gerações. Receba essa herança, honre-a, acrescente a ela e, um dia, fielmente, deposite-a nas mãos de seus filhos Albert Einstein Nesta unidade, convidamos você a ater-se numa palavrinha chamada: historicidade, que é uma qualidade do que pertence à história, ou seja, dos fatos e dos acontecimentos de dada sociedade, assim como a própria história do ser humano enquanto espécie. Nesse sentido, PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 69

70 [...] todas as maneiras de pensar que destacam a importância do aspecto histórico do ser humano tanto a verdade como os valores são relativos ao tempo (GONÇALVES JUNIOR, 2009, p. 2). Por isso, necessitamos estar atentos para aspectos peculiares acerca da historicidade do ser humano. Gonçalves Júnior (2009, pp. 3-4) auxilia na compreensão de que [...] o historicismo: supõe a negação de um direito natural e de uma natureza humana inalterável no decorrer do tempo que possa servir-lhe de fundamento e que torne as verdades sobre o humano abstratas e universais [...] Só pode conhecer a realidade desde a perspectiva concreta de seu tempo. Nada existente é definitivo. O autor continua seu raciocínio ao afirmar que não existe a possibilidade de termos um conceito de homem supratemporal, pois é a existência no presente que mantém uma relação essencial tanto com o passado quanto com o futuro. Convido você, então, a pensar sobre essa historicidade naquilo que diz respeito à educação, ou melhor, ao processo educacional brasileiro. É possível? Claro que sim! Necessitamos compreender como se deu o desenrolar histórico da psicologia inserida à educação, buscando como foco a seguinte questão: relacionamento professor e aluno. Vamos lá? Para nosso entendimento, destacamos um artigo escrito por Amude e Silva-Tadei (2008) intitulado: O Movimento Educacional Brasileiro: uma análise a partir do modo de produção capitalista, na Semana de Pedagogia da FAFIMAN (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Mandaguari). Nesse trabalho, as autoras defendem que o processo educacional é imprescindível para o desenvolvimento do ser humano, ressaltando que o mesmo necessita ser observado sob a luz do movimento social e cultural de determinado meio. Nossa! Veja que é tudo o que estudamos até agora! 70 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

71 Para as autoras, educação escolar surgiu e subsiste a partir de condições sociais e históricas determinadas, ou seja, ela surgiu para atender necessidades objetivas. Compreendemos que a maneira como os homens se organizam, a sua estrutura social e o seu modo de produção não determinam apenas as ideias e as normas com as quais uma sociedade rege sua vida, mas também o papel que a educação tem nesta sociedade. Em função deste pressuposto é realizado um levantamento da trajetória histórica educação escolar, contextualizando-a aos modos de produção vigentes em cada fase histórica. Qual a importância de entendermos sobre a história da educação brasileira em uma disciplina de Psicologia das Relações Humanas? A História da Educação Brasileira e o Estabelecimento das Relações Interpessoais (professor e aluno) algumas pontuações possíveis Compreendemos que a maneira como as pessoas lidam umas com as outras, denota as relações estabelecidas historicamente. Nesse sentido, o contexto educacional atual e a maneira como os integrantes deste interagem, estão mergulhados em um movimento cultural e histórico determinados. Por isso a necessidade de apreendermos a historicidade da educação. Para entendermos o movimento da educação brasileira, recorremos a Patto (1987) autora que faz um levantamento histórico aproximando a história da psicologia no Brasil e a história do ensino escolar brasileiro, a partir de um quadro econômico respectivo a cada período delimitado por seu olhar acerca dos fatos ocorridos. A autora postula que para estudar os pontos acima delimitados, há a possibilidade de nos atermos a três momentos: o período de 1906 a 1930; o período de 1930 a 1960; e o período de 1964 a De 1906 a 1930, período esse que compreende a Primeira República, foi caracterizado pelo modelo econômico agroexportador. Neste momento, a população agrária começou a dirigir-se em massa para as cidades, o que é denominado de êxodo rural, causando uma crise PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 71

72 no referido modelo. O número de pessoas à procura de educação era bastante expressivo, a luta contra o analfabetismo começou a ser mais intensificada e a busca pela mão de obra qualificada para o sistema industrial que estava em início de ascensão aumentou. O ensino educacional se tornou uma questão nacional, pois era um requisito para o desenvolvimento do país, que estava com o mercado de trabalho em meados de expansão. No entanto, esse processo foi lento até o ano de 1930, porque frequentar a escola era considerado um privilégio de poucos. O resultado disso foi um índice de analfabetismo que, segundo Facci (1998), era bastante expressivo. A tendência pedagógica predominante neste momento era a Escola Tradicional (PATTO, 1987). Nessa tendência, o centro do ensino está pautado na figura do professor, ele é o detentor de todo o saber e determina a forma de ensino a ser designada para os alunos. A repetição de informações é uma das referências a esse modelo, o decorar a matéria a ser cobrada em uma prova era a forma que os alunos possuíam de aproximarem-se do conhecimento científico. Fonte: PHOTOS.COM Pense nessa relação professor e aluno, ou melhor, busque informações com os seus avós ou bisavós sobre o que eles se recordam sobre a escola, sobre a figura do professor. Na maioria das lembranças o professor era uma figura de extrema autoridade, muitas vezes temido pelos alunos. Você pode ouvir, ainda, os castigos ou repreensões que sofriam em aulas. Temos discutido a necessidade de uma boa relação entre professor e aluno para o andamento do processo de ensino e aprendizagem, da busca pelo conhecimento científico e sistematizado historicamente. Será que nesse período a visão predominante era essa? Acho que não. Esse exercício de pensar e refletir sobre dada questão é que movimenta as discussões acerca da educação. Mas veja, essa observação não deve ir para o julgamento, lembre-se que estamos 72 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

73 buscando a compreensão de determinado período histórico, e naquelas condições, esse era o modelo de ensino no qual se apostava para a continuidade do processo educacional brasileiro. O período posterior, segundo Amude e Silva-Tadei (2008) pautadas nos estudos de Patto (1987), é datado entre os anos de 1930 a 1960, é caracterizado pelo modelo econômico de substituição das importações, o qual exigia mão de obra especializada para sanar as necessidades industriais. Nesta fase, o Ministério da Educação, por meio de um projeto de lei da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), propôs uma extensão da rede escolar primária e secundária gratuita às crianças e aos jovens que não tinham acesso à escola. No entanto, esse projeto só foi aprovado no ano de 1961, ou seja, pela a primeira LDB brasileira que entrou em vigor em 20 de dezembro do referido ano. Que tal aprofundar seu conhecimento sobre a LDB? Acesse: <http://www.mec.gov.br>. Você percebe como nosso país demorou a instaurar uma lei de diretrizes na área educacional? Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/paulo_freire No governo de João Goulart houve uma tentativa de aproximação do sistema educacional às necessidades da sociedade menos favorecida economicamente. Ressaltamos o Método Paulo Freire de Alfabetização para Adultos, como método didático para o ensino de leitura e escrita. A técnica utilizada pelo Método Paulo Freire de alfabetização era pautada no diálogo, na escuta e no respeito ao Paulo Freire aprendiz como pessoa dotada de capacidade e de postura frente às questões que lhe circundavam. Destacamos, nesse período, o movimento da Escola Nova, o qual se baseava nos estudos PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 73

74 do construtivismo para a reestruturação da educação. Os educadores acreditavam que a escola poderia ser um instrumento fundamental para a criação de uma sociedade solidária e cooperativa, isto porque partiam do pressuposto de que a inovação pedagógica poderia ser uma arma contra o analfabetismo. Desta forma, a taxa de analfabetismo caiu quase que 39% até o ano de 1950, na medida em que a educação passou a ser considerada como um fator fundamental para o crescimento econômico. Nessa fase da tendência pedagógica do Escolanovismo, no qual o centro do processo de ensino é o aluno, já não estava mais em voga o ensinar, mas sim o aprender a aprender. O professor aqui é um facilitador da aprendizagem para o discente. As ideias do estudioso Jean Piaget, estudadas na unidade anterior, sustentaram as bases da Escola Nova. Pensem agora na relação estabelecida entre professor e aluno nesse período: o professor deixa de ser o centro do processo e o aluno assume esse posto. Como fica o papel do professor nessa relação? FACCI, Marilda Gonçalves Dias. Valorização ou esvaziamento do trabalho do professor? um estudo crítico-comparativo da teoria do professor reflexivo, do construtivismo e da psicologia vigotskyana. São Paulo: Autores Associados, Nesse livro, a autora aborda detalhadamente o percurso das linhas teóricas e o lugar atribuído ao professor no processo de ensino. Voltemos a nossa discussão, a fase seguinte destacada por Patto (1987) compreende os anos de 1964 a 1977, a sociedade e a escola passaram por várias transformações e na década de 1960 [...] a Escola Nova começa a apresentar sinais de crise [...] (SAVIANI, 1994, p.113). Destacamos o período da internacionalização do mercado interno e a escola é reestruturada para suprir as demandas materiais e ideológicas de uma nova ordem. 74 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

75 Houve a necessidade de uma reorganização civil, o Governo Militar passou a atribuir maior importância à educação. Devido à postura dos militares para o controle da liberdade de expressão, houve o cerceamento à liberdade de opinião e o banimento do Método Paulo Freire de ensino. A partir do ano de 1970 podemos destacar a entrada da Pedagogia Tecnicista como tônica do sistema de ensino. Essa corrente pedagógica detinha-se na formação de técnicos aptos para atuação nas indústrias. O Ensino Médio foi profissionalizado, o que facilitava o ingresso dos estudantes no mercado de trabalho. É o aprender a fazer, a ênfase aqui não está nem no professor e nem no aluno, a ênfase é dada à técnica. Pare e pense: para uma corrente pedagógica o centro é o professor, para outra o centro é o aluno, e agora, para o tecnicismo o centro é a técnica, é o aprender a fazer. Como fica a relação professor e aluno nessa fase? Fonte: PHOTOS.COM Parece que, de maneira geral, o lugar da valorização do ser humano foi cedido para a utilização de máquinas que ensinam a fazer e qualificam para o mercado de trabalho. Discuta isso com os colegas, qual era afinal o lugar do ser humano no processo educacional? Continuando essa retrospectiva, Saviani (1994) explica que até o momento em termos de tendências pedagógicas educacionais, havia apenas visões não críticas da educação, entendendo a escola como desvinculada da realidade histórica do país. No entanto, a partir do ano de 1970, segundo Facci (1998), uma classe de professores começou a buscar alternativas para a compreensão do cenário educacional presente até então, e partindo de uma concepção crítico-reprodutivista, postularam a impossibilidade de compreender a educação sem considerar os condicionantes sociais, além de acreditarem que a educação PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 75

76 era, essencialmente, reprodutora das relações dominantes de poder existentes na sociedade. Já pode ser considerado um avanço, não é mesmo? Saviani (1994) acrescenta que foi criado, nos meios educacionais, um clima de pessimismo e desânimo, o que levou os educadores a considerarem os seus esforços em prol da educação inúteis, pois além de não apresentarem nenhuma proposta pedagógica, combatiam qualquer projeto elaborado. Nesse momento, acreditava-se que para mudar a escola, a sociedade precisaria mudar, pois não a compreendia a escola como uma fonte de transformação da consciência das pessoas. Fonte: HISTEDBR.FAE.UNICAMP.BR A partir de 1979, em uma tentativa de superação, houve a busca pela compreensão das questões educacionais a partir das condicionantes sociais, surgindo, assim, a Pedagogia Histórico-crítica, que contextualizava a escola de maneira sócio-econômico-cultural e lhe dava um caráter dialético (FACCI, 1998). Dermeval Saviani Saviani (1994) explica que esta pedagogia de base marxista analisa a escola inserida em um contexto social determinado, estando em suas mãos a transformação ou a manutenção social. Assim, a escola é entendida como produto e produtora da sociedade, cabendo a ela trabalhar pela humanização dos indivíduos. A escola, nesta perspectiva, tem como função a transmissão-assimilação dos conhecimentos produzidos pela humanidade. Podemos nos apropriar desta contextualização sócio-histórica da escola feita por Saviani (1994) e estendê-la a educação escolar, o que nos levaria a afirmar que cabe a educação escolar humanizar o homem por meio da apropriação do conhecimento produzido historicamente, para que consiga enxergar a realidade e assim, transformá-la em função de suas necessidades, as quais se encontram em movimento constante. 76 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

77 A Pedagogia Histórico-crítica não tem uma ênfase maior no sistema de ensino porque desde 1990 o Construtivismo (Pedagogia da Escola Nova) tem fundamentado documentos oficiais que norteiam a educação brasileira (NAGEL, 2005). Esses documentos dão grande ênfase ao aprender a aprender, conceito criado por Newton Duarte, que representa para o Construtivismo a iniciativa pessoal, a autonomia intelectual, a liberdade de pensamento e de expressão, a supremacia do método em detrimento do conteúdo, o interesse e a necessidade do aluno e a formação de uma criatividade adaptativa, que capacite o indivíduo a manter-se no mercado de trabalho (DUARTE, 2001). Assim, é possível entender a configuração da educação escolar atual e o lugar que a escola tem ocupado socialmente. Nagel (2003, 2005) em suas reflexões acerca da educação atual, pontua que atualmente a escola passou a ser entendida por todos como um local onde se adquire algo para uso particular. Em outras palavras, a escola e o saber nela ministrados foram transformados em mercadorias, em função da ideologia de mercado que foi introjetada e operacionalizada pelos estudantes. Na realidade a escola deve ser observada e concebida como um local em que se socializa o conteúdo científico, o qual promove o crescimento intelectual humano, assim como a capacidade de socialização entre os seres. Saviani (1994) chama a nossa atenção para a impossibilidade de se ter uma educação sem escola (na atualidade), pois papéis que outrora eram delegados à família e à sociedade passaram a ser de responsabilidade da escola e esse caráter extingue da mesma sua importância primordial, a de transmitir um saber sistematizado e elaborado. Dessa maneira, compreendemos que a educação escolar surge para atender uma demanda social e histórica. Isso fica evidente quando fazemos uma retrospectiva correlacionando o momento em que surge cada tendência com as necessidades sociais e econômicas postas. Para tanto a atuação profissional na educação deve ocorrer a partir de um compromisso teórico e prático numa consistência teórica e crítica. Essa atitude tem sido adotada nos últimos anos por alguns dos profissionais, seja da área da pedagogia, da psicologia, ou melhor, de PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 77

78 todos aqueles ligados à educação, na tentativa de torná-la mais crítica, contextualizada e comprometida com a construção de uma sociedade mais justa (FACCI, 1998). No entanto, essa parcela ainda é um pouco restrita. Pode-se ressaltar que o papel do profissional escolar está em ter atenção especial para o movimento da sociedade, na busca da compreensão de que o ser humano é datado e constituído historicamente. Por isso a necessidade em se entender a estrutura capitalista vigente, entendendo, dessa forma, a função social do homem na sociedade regida pelo capital. É o exercício ao pensamento e à postura crítica. Em cada período mencionado, em cada corrente pedagógica em exercício temos uma forma de conceber e compreender o aluno e o processo de aprendizagem, assim como as relações que emergem desse meio. Acreditamos, assim, em um ser humano que se desenvolve a partir das condicionantes históricas, pois o movimento educacional está diretamente ligado a esse processo. Em cada período histórico as relações são modificadas. Nosso próximo passo é observar, de maneira mais direta, como ocorre o processo de interação da criança em seu meio sócio-histórico, tomando como base duas formas de intervenção que os professores da Educação Infantil conhecem bem: a brincadeira e o jogo. Mencionamos a Educação Infantil quanto a esses caracteres pela ênfase dada ao brincar e ao jogar nesse nível educacional. Nos demais seguimentos (Ensino Fundamental I e Ensino Fundamental II), essas estratégias também são utilizadas, porém sem o destaque dado na Educação Infantil. 78 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

79 Fonte: PHOTOS.COM O JOGO E A BRINCADEIRA NO DESENVOLVI- MENTO DA CRIANÇA O EXERCÍCIO DA INTE- RAÇÃO HUMANA NA EDUCAÇÃO INFANTIL Silva-Tadei e Pinheiro (2010) debruçam-se sobre a compreensão do brincar e da utilização de jogos na Educação Infantil a fim de verificarem o processo de interação humana a partir da execução dessas atividades na rotina de sala de aula. As referidas autoras destacam que no ano de 1996, com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96), a Educação Infantil passou a integrar a Educação Básica, juntamente com o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. A Educação Infantil é tratada numa seção específica da LDB 9394/96, seção II, do Capítulo II, que se refere à Educação Básica, tendo expresso nos seguintes artigos: Art. 29. A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até os seis anos de idade, em seus aspectos físicos, psicológicos, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. Art. 30. E educação infantil será fornecida em: I creches, ou entidades equivalentes para crianças de até três anos de idade; II pré-escolas, para as crianças de quatro à seis anos de idade; Art. 31. Na educação infantil avaliação far-se-à mediante acompanhamento e registro do seu desenvolvimento, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao Ensino Fundamental. Desta forma, a Educação Infantil conforme a LDB 9394/96, é a primeira etapa da Educação Básica, e resume-se à necessidade de promover o desenvolvimento integral da criança na faixa etária de zero a seis anos 7, sendo uma instância complementar à da família e à da 7 Na atualidade (2010), a Educação Infantil está restrita à faixa etária de zero a cinco anos. Nossa intenção, durante a escrita do texto, foi apenas a de demarcar historicamente o processo de inserção desse período letivo ao processo educacional. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 79

80 comunidade, tendo a responsabilidade de ampliar as experiências e o conhecimento da criança, assim como seu comportamento em sociedade. Diferente dos demais níveis da educação, a Educação Infantil não tem currículo formal, pois desde 1998 surgiu o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI,1998). Um documento equivalente aos Parâmetros Curriculares Nacionais que embasa os demais segmentos da Educação Básica. Cuidar, Brincar e Educar, esse é o papel da Educação Infantil. Segundo os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (RCNEI), o papel da educação infantil é o cuidar, o brincar (que está inserido no cuidar) e o educar. Cuidar da criança em espaço formal, contemplando a alimentação, a limpeza e o lazer (brincar). Também é seu papel educar, sempre respeitando o caráter lúdico das atividades, com ênfase no desenvolvimento integral da criança (RCNEI, 1998). Não é função da Educação Infantil a alfabetização da criança. O trabalho é educativo e diário no contesto escolar. De acordo com o RCNEI (1998), devem ser trabalhados os seguintes eixos com as crianças: Movimento, Música, Artes Visuais, Linguagem Oral e Escrita, Natureza e Sociedade e Matemática. Ao se trabalhar esses eixos, tem-se como objetivo o desenvolvimento de algumas capacidades, como: ampliar relações sociais na interação com outras crianças e adultos, conhecer seu próprio corpo, brincar e se expressar das mais variadas formas, utilizar diferentes linguagens com fins de comunicação com os demais. Podemos inferir que a Educação Infantil é considerada uma etapa do processo de aprendizagem, tendo como objetivo a estimulação de diferentes áreas de desenvolvimento da criança, para isso, o RCNEI (1998), garante em seus escritos que o trabalho na Educação Infantil não deve ser realizado apenas por meio das brincadeiras, mas por atividades pedagógicas e instrutivas, 80 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

81 o que garante o desenvolvimento e o trabalho do professor com os alunos. No que diz respeito às brincadeiras o RCNEI (1998), refere-se à brincadeira com uma fundamentação teórica baseada na psicologia, com ênfase nos pressupostos piagetianos e vigotskyanos. Como uma apropriação da obra piagetiana, há a classificação dos jogos a partir da evolução das estruturas mentais, caracterizando formas básicas de atividade lúdica, de acordo com as etapas do desenvolvimento: os jogos de exercício, os jogos simbólicos e os jogos de regras. Fonte: PHOTOS.COM Nessa perspectiva, é preciso alguns requisitos necessários para o desenvolvimento da brincadeira como, por exemplo, a linguagem simbólica, na qual estabelece uma relação desta com a imaginação e apresenta a brincadeira como uma linguagem simbólica e infantil que ocorre no plano da imaginação e depende, e muito, da realidade para fornecer-lhe conteúdo necessário para a sua realização. A importância da brincadeira no processo de aprendizagem e desenvolvimento é estabelecida pelo documento na medida em que este aponta-a como uma atividade que favorece a autoestima e ajuda as crianças a superarem suas aquisições de forma criativa e a transformarem os conhecimentos que já possuíam, antes de adentrar à escola, por exemplo, em conceitos gerais. O RCNEI (1998) caracteriza a brincadeira em o brincar de faz de conta, brincar com materiais de construção e brincar com regras apontando o professor como o responsável, no espaço da educação infantil, por possibilitar e ajudar a criança na estruturação dessa atividade, mas não explora estas formas de brincar, atribuindo assim, ao professor, o papel de observar a criança brincando e, a partir disso, possibilitar condições adequadas para atividades dessa PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 81

82 natureza. Destacamos a importância de o professor ter conhecimento sobre os documentos que embasam a Educação Infantil, assim como sobre o desenvolvimento da criança e o processo de aprendizagem da mesma, para que ao abordar a brincadeira no contexto escolar, que a mesma esteja contextualizada e haja uma intervenção produtiva e direcionada acerca do brincar. O QUE É JOGO E BRINCADEIRA? A IMPORTÂNCIA DA LINGUAGEM PARA ESTE CONTEXTO A infância atual é compreendida a partir de concepções psicológicas e pedagógicas, as quais reconhecem a importância do papel do brinquedo, das brincadeiras e dos jogos no desenvolvimento e no processo de assimilação conhecimento por parte do público infantil. De acordo com os estudos de Vigotsky (1984), as funções psicológicas superiores são de origem sociocultural resultante de processos psicológicos, biológicos e também da relação das crianças com as pessoas mais experientes. Para o estudioso, a interação e a maturação possibilita à criança o surgimento das funções mentais, inserindo assim as experiências sociais, pois é na constante troca de experiências com os adultos, que as crianças conseguem formar o seu próprio pensamento (REGO, 1995). Todo este processo segue algumas etapas, no qual inicialmente as crianças executam suas atividades de acordo com o seu próprio ambiente, gerando a comunicação, a fala. A partir disso, ela também consegue, e aprende controlar os impulsos e limitar seu espaço e seu tempo. Vigotsky caracteriza a aprendizagem como uma ação de natureza social e específica, adquirida de acordo com as experiências com os adultos e pessoas mais experientes, o que possibilita à criança mais praticidade, mais consciência, desenvolvimento da inteligência prática e abstrata, 82 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

83 a fala interior (o pensamento), e o comportamento voluntário (REGO, 1995). Ainda de acordo com a autora (1995, p. 69) O real se estrutura com todas estas experiências, assim a criança se aproxima mais das ações e das atividades reais. Vigotsky também relata a zona de desenvolvimento proximal que é a ideia de existência de uma área de desenvolvimento proximal cognitivo, definida como a distância que medeia entre o nível atual de desenvolvimento da criança, determinado pela sua atual capacidade de resolver problemas individualmente. Desta forma, para o autor, o desenvolvimento da aprendizagem consiste num processo do uso das ferramentas intelectuais, bem como da interação social com os mais experientes, esta ferramenta pode ser chamada de linguagem. Entender esse processo é importante para que compreendamos a dimensão que Vigotsky abrange ao discutir a questão do jogo no desenvolvimento infantil, partindo do pressuposto que para o referido estudioso, o jogo vai muito além de um processo prazeroso para a criança. Para Vigotsky (1979), o jogo está intrinsecamente ligado ao processo de desenvolvimento das funções cognitivas da criança. Quando se refere à temática dos jogos, Vigotsky (1979) afirma que a criança pequena é muito limitada, pois sua percepção não está separada das atividades motivacional e motora. No jogo as crianças começam a agir independente daquilo que conseguem ver, pois a ação acaba ensinando a criança a controlar seu comportamento. Suas ações são regidas pelas ideias e pensamentos assim, segundo Rego (1995, p. 33), Vigotsky afirma que a brincadeira fornece um estágio de transição em direção à representação, desde que um objeto pode ser um pivô da separação entre um significado e um objeto real, pois [...] os jogos nem sempre podem ser uma atividade prazerosa, porque existem muitas atividades que proporcionam à criança maiores experiências de prazer, como é o caso, muito concreto, de sugar uma teta ; em segundo lugar, porque entende que existem jogos em que a atividade não é prazerosa em si mesma, como é o caso dos jogos que PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 83

84 unicamente produzem prazer se a criança obtém um resultado interessante. Desta forma, é possível compreender que o avanço da criança está relacionado com uma profunda mudança em respeito aos estímulos, inclinações e incentivos, e que a criança satisfaz certas necessidades por meio dos jogos. O mundo ilusório e imaginário que surge na criança é o que se constitui jogo, já que a imaginação, como novo processo psicológico, não está presente na consciência das crianças pequenas e está totalmente ausente nos animais. Vigotsky (1984) em seus estudos enfatiza que ao estabelecer critérios para distinguir o jogo infantil de outras formas de atividades, é observar que no jogo a criança cria uma situação imaginária. Entretanto, e como ele mesmo afirma, esta ideia não é nova, pois as situações imaginárias no jogo sempre foram bem aceitas, ou melhor, a princípio se considerava unicamente como um exemplo de atividades lúdicas e eram tratadas como atributo das subcategorias específicas do jogo. A situação imaginária é uma característica definitiva do jogo geral. Segundo Vigotsky (1984), os movimentos são adquiridos pelos brinquedos, nos quais as crianças interagem por meio dos gestos e das falas, ele afirma que [...] os jogos assim como os desenhos infantis, unem os gestos e a linguagem escrita (1984, p. 122). Desta forma, pode-se considerar que a prática pedagógica adequada, depende tanto do educador do Ensino Regular, como do educador da Educação Infantil (Pré-Escola), que passará, segundo Palangana (1994), a não apenas por deixar as crianças brincar, mas ajudar as crianças a brincar e por brincar com as crianças, podendo, ainda, e por que não, ensinar as crianças a brincar. Observamos que o desenvolvimento infantil ocorre socialmente, em primeiro lugar, por meio da imitação do mundo adulto. Desse modo, jogos e brincadeiras têm um papel importante no desenvolvimento da criança, seja cognitivo, motor, sensorial, além do prazer, alegria as potencialidades, ou seja, as brincadeiras e os jogos contribuem muito para o processo de socialização das crianças, oferecendo-lhes oportunidades de realizar atividades coletivas 84 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

85 Fonte: PHOTOS.COM livremente, além de ter efeitos positivos para o processo de aprendizagem e estimular o desenvolvimento de habilidades básicas e a assimilação de conhecimentos. Uma das consequências do aparecimento do jogo e do brinquedo como fator do desenvolvimento infantil proporcionou um campo amplo de estudos e pesquisas que trabalham a importância do lúdico no campo dos infantes. O jogo em si pode ser caracterizado em diferentes significados e conceitos, mas que possui as suas próprias características, seus objetivos, em suas especificidades e habilidades. Os jogos também têm seus objetivos diferenciados quando são usados educativamente, ou apenas por prazer, bem como o significado e a forma de se brincar com alguns são diferentes em diversas culturas, considerado um fator social, mas também é possível serem classificados como um material lúdico ou jogo (KISHIMOTO, 2007). Para o estudioso, o jogo vincula-se ao sonho, à imaginação, ao pensamento e ao símbolo. De acordo com o referido autor, é preciso compreender qual a diferença existente entre os jogos e as brincadeiras, é preciso reconhecer a linguagem, a expressão, no qual a criança consegue jogar e brincar relacionando com ações diárias de sua realidade, em seguida qualquer jogo ou brincadeira possui regras, que devem ser seguidas. O autor relata que os brinquedos podem ser considerados uma relação mais íntima com a criança. Não possuem regras, estimula a representação, a expressão de imagens que se referem à realidade, proporciona reproduções (dia a dia, natureza e construções humanas, realidade social). O brinquedo tem como principal objetivo proporcionar a criança a substituição de objetos reais que possa manipulá-los. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 85

86 Nesse sentido, Palangana (1994, p. 39) considera naquilo que tange a brincadeira e os jogos na infância, como: [...] um período que pode ser de mudanças, renovação e de transformações sociais, de inocência, e que se caracteriza por valores e pelas percepções dos adultos que compõem sua memória, assim é possível percebermos que a infância expressa no brinquedo o mundo real, como seus valores, pensamentos, ações, a forma de agir e o imaginário, pois sempre há uma criança em todo o adulto, mesmo que seja através da imaginação e da memória. Vigotsky (1975) chama a atenção ao afirmar que independente de qual jogo for, todos têm semelhanças e parentesco, os jogos podem proporcionar prazer e às vezes desprazer, liberdade, limitações de tempo e de espaço, o jogo, se não for uma ação voluntária, deixa simplesmente de ser um jogo. O mesmo estudioso (1984, p. 85) pontua que nem sempre o jogo pode ser satisfatório, pois o mesmo necessita de esforço e do próprio desprazer na busca pelos seus objetivos, pois [...] o lúdico influencia enormemente o desenvolvimento da criança, é com os jogos que a criança aprende a agir, sua curiosidade é estimulada, adquire iniciativa e autoconfiança, proporciona o desenvolvimento da linguagem, do pensamento e da concentração. Kishimoto (2007) complementa essa ideia ao pontuar que os jogos possuem características importantes e fundamentais, nos quais podemos citar: a ação da própria realidade sobre o jogo, proporciona prazer, estimula os aspectos corporais, cognitivos, mentais e sociais, a criança muitas vezes brinca com naturalidade, liberdade e espontaneidade, não se preocupa com os resultados, apenas quer brincar e se divertir. Leal (2003, p. 49) nos auxilia na compreensão desse pensamento ao afirmar que: [...] a brincadeira possibilita a investigação e a aprendizagem sobre as pessoas e as coisas do mundo. Através do contato com seu próprio corpo, com as coisas do seu ambiente, com a interação com outras crianças e adultos, as crianças vão desenvolvendo a capacidade afetiva, a sensibilidade e a auto-estima, o raciocínio, o pensamento e a linguagem. 86 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

87 Kishimoto (2007) afirma que quando o docente faz uso do jogo, ele consegue estimular o aluno no desenvolvimento da sua aprendizagem, na construção do conhecimento, pois ele está sendo usado de forma lúdica e educativa, há o prazer, a diversão e a motivação, assim como a contribuição e estímulo ao processo de aprendizagem, pois, [...] o ambiente é a condição para a brincadeira e, por conseguinte, ele a condiciona, assim podemos concluir que a brincadeira é uma forma imaginária da criança descobrir outros mundos, direcionando-se a um universo inexistente (KISHIMOTO, 2007, p. 68). A brincadeira também possibilita a criança desenvolver um canal de comunicação, diálogo com o mundo dos adultos, intensificando a autoestima e a confiança, [...] onde o valor do brinquedo para criança pode ser medido pela intensidade do desafio que representa para ela (CUNHA, 2007, p. 33). De acordo com Vigotsky (1984, p. 78), o faz de conta é uma atividade importante para o desenvolvimento cognitivo da criança, pois exercita no plano da imaginação, a capacidade de planejar, imaginar situações lúdicas, os seus conteúdos e as regras inerentes a cada situação. [...] a situação imaginária de qualquer forma de brinquedo já contém regras de comportamento, embora possa não ser um jogo com regras formais estabelecidas a priori. A criança imagina-se como mãe da boneca e a boneca como criança e, dessa forma, deve obedecer às regras do comportamento maternal. Quando a criança brinca de faz de conta, ela não imita a realidade, mas é uma forma de sair dela, também possibilita a criança expressar os seus desejos, conflitos e suas frustrações, pois este tipo de brincadeira segundo Cunha (2007, p. 49), [...] é uma das formas de brincar mais fundamentais para um desenvolvimento infantil e saudável. A partir das brincadeiras a criança desenvolve a atenção, a memória, a autonomia, a capacidade de resolver problemas, se socializa, desperta a curiosidade e a imaginação de maneira prazerosa e como participante ativo do seu processo de aprendizagem. Quando a criança brinca sozinha ela mergulha na sua própria fantasia, possui mais PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 87

88 concentração, atenção, brinca mais concentrada por mais tempo, despertando na criança mais interesse na brincadeira, consegue adquirir hábitos favorecendo a qualidade da brincadeira (CUNHA, 2007). Mas quando brinca com outras crianças, ela aumenta seu estímulo e a sua forma de criticar, às vezes apenas estar do lado de outra criança, para ela já está brincando, [...] brincar com outras crianças faz com que ela aprenda a viver socialmente, respeitando regras, cumprindo normas, esperando a sua vez e interagindo de uma forma mais organizada (CUNHA, 2007, p.24). A brincadeira contribui para a socialização da criança. Desta forma, a brincadeira contribui para o processo de socialização das crianças, oferecendolhes oportunidades de realizar atividades coletivas livremente, além de ter efeitos positivos para o processo de aprendizagem e estimular o desenvolvimento de habilidades básicas e aquisição de novos conhecimentos (REGO, 1995). Essas atividades são consideradas simples fontes de estímulo ao desenvolvimento cognitivo, social e afetivo da criança, uma forma de se expressar socialmente e culturalmente dentro das vivências históricas da criança. O BRINCAR E A EDUCAÇÃO INFANTIL É importante destacarmos que o brincar para a Educação Infantil é essencial e importante para o trabalho escolar. O papel desse nível de ensino é colocar à disposição das crianças as regras, as normas, contemplando os aspectos pedagógicos de maneira lúdica e criativa (CÓRIA, 2004). 88 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

89 A brincadeira é vista como importante para o desenvolvimento social e emocional da criança, pois estão integrados aí, o desenvolvimento social, emocional, moral e intelectual que ocorrem pela intervenção do professor no processo lúdico. Por isso, é preciso que, de acordo com Kishimoto (1994), que os educadores que valorizam a socialização adotem o brincar livre, e os que visam à escolarização ou a aquisição de conteúdos escolares, o brincar dirigido e, também, os jogos educativos. Segundo Kishimoto (1994), a educação do jogo e da brincadeira, exige sempre que se incuta na criança a aspiração a um prazer mais integral, que eduque a imaginação e o impulso intelectual, num processo contínuo de construção e reconstrução. Desta forma, é importante destacarmos que quando a atividade lúdica é incorporada à vida da criança, possibilita a preparação para a vida, a liberdade de ação, prazer obtido, possibilidade de repetição das experiências e a realização simbólica dos desejos. Nesse sentido, é possível afirmar que é por meio dos jogos e das brincadeiras que a criança explora o meio em que ela vive e aprende sobre os aspectos da cultura humana. É, também, pelas brincadeiras que a criança internaliza regras e papéis sociais e passa a ter condições de viver em sociedade. Além disso, as brincadeiras possibilitam um salto qualitativo no desenvolvimento da psique infantil, pois é por meio das brincadeiras que as crianças têm a possibilidade de desenvolver as funções psicológicas superiores como a atenção, a memória e o controle da conduta, por exemplo (MUKHINA, 1996). Dentro da Educação Infantil, nas instituições pré-escolares, é importante ressaltar que o uso de atividades lúdicas é de muita importância, pois permitem mais do que observar o modo de ser da criança, mas poder determinar como ela reage diante das situações cotidianas e ocasionais, nesse sentido, Mukhina (1996, pp ) defende que: Na verdade, a autêntica atividade lúdica só ocorre quando a criança realiza uma ação subentendendo outra, e manuseia um objeto subentendendo outro. A atividade PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 89

90 lúdica tem um caráter semiótico (simbólico). No jogo revela-se a função semiótica em gestação na consciência infantil. Essa função se revela través do jogo e se reveste de algumas características especiais. O sentido lúdico de um objeto pode ter com esse uma semelhança muito menor do que a que tem um desenho com a realidade que representa. Mas o substituto lúdico oferece a possibilidade de ser manuseado tal como se fosse o objeto que ele substitui. É no ambiente da Educação Infantil que a criança consegue vivenciar mais as experiências de aprender e de conhecer, pois passa grande parte do tempo convivendo com o professor. A escola não deve pular as etapas do desenvolvimento, isso é extremamente prejudicial e trará consequências futuras para a criança nas áreas pedagógica, emocional ou social. Para ser alfabetizada, uma criança precisa estar madura, estar bem organizada em todos os sentidos, pois o processo de alfabetização apresenta novas etapas e a criança deve estar preparada para vencê-las. Esse amadurecimento necessita da brincadeira, dos jogos e da interação social. É na Educação Infantil que ocorre o início da formação da criança, é nesse local que ela vai ter o primeiro contato com o processo de aprendizagem, que será a base para todos os anos de escola que ela terá. Atenção!!! a) Os jogos devem ser adequados à faixa etária da criança. b) O professor necessita estar atento à motivação expressa pela criança na hora em que está jogando. c) As regras devem ser seguidas para que a criança perceba as suas ações e as ações do colega, num processo de interação grupal. d) A postura do professor é de extrema relevância para a execução de jogos e organização de brincadeiras, ele é o referencial externo, o adulto que guia a aprendizagem da criança. Nesse sentido, a organização das aulas pelo professor, sua forma de sistematizar o seu trabalho, elencando as atividades a serem trabalhadas com a criança, levando em conta a 90 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

91 faixa etária e o grupo social, faz-se o ponto mais importante da rotina a ser iniciada em uma sala de aula. Por isso destacamos que o professor precisa ter um bom planejamento de aula e uma boa preparação acadêmica, assim ele poderá realizar um bom trabalho com as atividades lúdicas na Educação Infantil. Para tanto, ele precisa, primeiramente gostar de lidar com crianças e entender seu processo de desenvolvimento. Título: A língua das mariposas (Lengua de las Mariposas Espanha) A língua das mariposas. Ir a escola pela primeira vez é um desafio para qualquer criança, independente de seu país ou de seu contexto histórico. Acompanhe a trajetória de Moncho, um menino que começa a ir para a escola e descobrir novas coisas, até que fatos marcantes ocorrem na sua vida (PLANETA EDUCAÇÃO, 2010). A língua das mariposas (Lengua de las Mariposas Espanha) Direção: José Luis Cuerda Gênero: Drama Idioma original: espanhol CONSIDERAÇÕES FINAIS Estudamos, nesta unidade, o papel da escola no convívio infantil e sua importância no desenvolvimento do aluno, especialmente no que tange à relação docente e discente. Compreender aspectos ligados à história educacional brasileira foi fundamental, haja vista que, em cada época, tem uma relação entre professor e aluno estabelecidas de uma maneira PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 91

92 diferenciada. Ter como exemplificação do conteúdo a explanação sobre o jogo e a brincadeira como fator de interação grupal da criança no ambiente escolar, auxiliou nosso entendimento para o quanto a atividade lúdica é importante para o desenvolvimento da criança, afinal, é pela brincadeira e pelos jogos que ela começa a estabelecer relações entre os pares. Realmente, para nós, educadores e estudiosos da área de desenvolvimento infantil, brincadeira só pode ser vista como uma coisa séria! ATIVIDADE DE AUTOESTUDO 1) A historicidade é uma qualidade do que pertence a história, ou seja, dos fatos e dos acontecimentos de dada sociedade, assim como a própria história do ser humano enquanto espécie. Como podemos enxergar a educação a partir dessa definição? 2) Qual a importância de entendermos sobre a história da educação brasileira em uma disciplina que trata sobre a Psicologia das Relações Humanas? 3) Qual a importância do jogo e da brincadeira para a interação grupal e para o desenvolvimento infantil? 4) Como o professor pode fazer uso do jogo e da brincadeira em suas aulas? Qual o propósito que ele deve ter ao planejar atividades ligadas a essas duas esferas? 92 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

93 UNIDADE IV O PROFESSOR COMO O OUTRO SIGNIFICATIVO PARA O DESENVOLVIMENTO SOCIAL E COGNITIVO DO ALUNO Professora Me. Gescielly B. da Silva Tadei Objetivos de Aprendizagem Compreender o papel da família na construção da identidade da criança. Entender o papel da família na construção da identidade do adolescente. Verificar a relação professor e aluno na rotina escolar. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: O papel da família no processo de construção da identidade do sujeito: a educação dos filhos em questão A diferença da educação da criança para a educação do adolescente A relevância da figura do professor para a constituição da identidade do aluno

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95 INTRODUÇÃO Na presente unidade temos como objetivo central a compreensão da importância da família para a construção da identidade da criança. Essa construção dá-se tanto no caráter biológico, quanto emocional e psicológico. Observar as relações de cuidado estabelecidas entre o cuidador e a criança são, para nós, pontos fundamentais a serem contemplados. Compreender características da formação da personalidade do adolescente com as alterações de padrões e de referências sofridas pelo mesmo, afinal o adolescente sofre alterações corpóreas, emocionais e psicológicas que redimensionarão sua forma de relações com o outro e com o meio, é também um dos pontos adotados por nós para a discussão e reflexão. Notar como se dá a relação professor e criança na escola, assim como a relação professor e adolescente neste mesmo ambiente, é um fator que mereceu destaque na organização do conteúdo sistematizado por nós, visto que há notórias diferenças entre as formas de relacionamentos citadas. Enfim, caro aluno, nosso trabalho gira em torno da seguinte pontuação: não há uma fórmula ou uma receita básica para se compreender as relações humanas na família e na escola, em especial no que tange a criança e o adolescente, mas há leituras e discussões sobre essa temática que auxiliam nossa atuação enquanto seres humanos e profissionais da área educacional. O PAPEL DA FAMÍLIA NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DO SUJEITO: A EDUCAÇÃO DOS FILHOS EM QUESTÃO Nas unidades anteriores nos detivemos aos aspectos pertinentes ao desenvolvimento infantil, nesta unidade, nosso foco é compreender as relações familiares para com as crianças e PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 95

96 adolescentes, assim como o papel do professor nessas esferas. Começaremos abordando a relação de pais com filhos pequenos, posteriormente trataremos sobre a adolescência e finalizamos com a relevância da figura do professor para o auxílio do desenvolvimento social, afetivo e cognitivo da criança e do adolescente. Compreendemos que a criança e o adolescente possuem modos particulares de se comportar, de agir e de sentir, e só podem ser compreendidos a partir da relação que é estabelecida entre eles e os adultos. De acordo com Salles (2005), essa interação é instituída [...] de acordo com as condições objetivas da cultura na qual se inserem. Condições históricas, políticas e culturais diferentes produzem transformações não só na representação social da criança e do adolescente, mas também na sua interioridade. Há uma correspondência entre a concepção de infância presente em uma sociedade, as trajetórias de desenvolvimento infantil, as estratégias dos pais para cuidar de seus filhos e a organização do ambiente familiar e escolar. Nos dias de hoje, ao lidar com a educação de filhos e com as questões de limites e atenção para com os mesmos, os pais têm sofrido a inquietude de um educador que não foi bem preparado para a sua missão. Quando limitar? Dizer não é saudável? O relacionamento que ele expressa na escola é reflexo daquilo que ele ouve em casa? Como lidar com esses questionamentos? Tais dúvidas têm permeado a rotina de pais que muitas vezes chegam, ao atender a um chamado da escola, dizendo não saber o que fazer para que ocorra uma mudança de comportamento, haja vista que, muitas vezes, nem mesmo têm a consciência sobre as relações que são estabelecidas no seio familiar. A educação de crianças difere da educação dada ao adolescente. Necessitamos ressaltar aqui que: a educação de crianças difere da educação dada ao adolescente. No decorrer da nossa escrita, entenderemos o porquê dessa afirmação. 96 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

97 Os pais que nasceram até a década de 1960, segundo Silva (1978), pertencem a uma geração denominada convencionalista, que cresceu com pouco ou sem diálogo, com uma liberdade mais restrita e muitas vezes com uma capacidade reduzida de escolher a sua própria carreira ou mesmo o seu próprio casamento. De repente, essa geração torna-se pai e mãe, e, na busca de poupar a prole da restrição vivida, acabaram escolhendo a opção por uma educação dita mais liberal, mais livre e voltada para o centro da família: a criança. A diferença entre gerações é uma das dificuldades encontradas no processo educativo familiar. Dada a mudança rápida de estilos familiares, de uma restrição de vida para uma liberdade mais extremada, a criança acaba sendo a base do relacionamento familiar, todas as regalias e tomadas de decisões são organizadas tendo como parâmetro o bem-estar da criança. Pontuamos, aqui, que a tarefa dos pais é realmente difícil, pois exige reflexão, dedicação, ponderação e, sobretudo, personalidade, pois os pais educadores devem, antes de qualquer coisa, ter em mente que são um modelo de referência para o filho, em especial, naquilo que tange a postura, o posicionamento e o comportamento. Você sabia que educar é uma ciência? De acordo com Silva (1978), educar é uma ciência, e como tal exige uma técnica. No entanto, grande parte dos pais acabam tentando repetir alguns pontos da educação que receberam, retirando as limitações que, para eles, poderia tolher a liberdade individual. Mas, a consciência sobre o aspecto de cultura e sociedade, que temos discutido nas unidades anteriores, não tem sido levado em consideração, e podemos afirmar isso a partir das queixas de pais e PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 97

98 professores que têm sido cada vez mais frequentes. Estudiosos apontam que a saída da mulher para o mercado formal de trabalho provocou um remanejamento no processo de cuidado e educação para com as crianças. Longe de apontar isso como um fator desfavorável, Pelt (1998) apenas indica que nessa reorganização familiar, as escolas acabaram absorvendo um número de crianças cada vez maior e cada vez mais cedo, pois algumas crianças já entram para a Educação Infantil aos seis meses de idade. O tempo mais curto para com os filhos denota a dificuldade que os pais têm em dizer não ou limitar a criança, pois o período em que estão juntos resume-se, muitas vezes, aos domingos, feriados e a parte da noite. A mulher trabalhar no mercado formal mostra uma conquista obtida após muita luta pela busca de uma igualdade mínima entre os sexos. Se a mãe trabalha é pela busca de realização pessoal e, também, para o auxílio no orçamento doméstico. Mas, essa dinâmica leva a pensar no papel social da mulher, onde a mãe é vista como dona de casa e profissional. Nas últimas três décadas a tradicional divisão de papéis entre homem e a mulher sofreu grandes transformações. Com isso, a clássica divisão de tarefas pai/provedor; mãe/rainha do lar foi modificada. Agora, a mãe é sócia do pai na tarefa de arcar com as despesas da família (TIBA, 1996). O sentimento de culpa não traz nenhum benefício para os pais. Mas, o maior problema relatado por essa parcela diz respeito ao cuidado dos filhos, muitas vezes mostrado pela culpa que sentem por não estarem próximas no processo de desenvolvimento da prole. Esse ponto pode ser observado pelo docente da escola na qual essas crianças 98 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

99 estudam. Ao chamarem os pais para uma conversa sobre um mau comportamento do aluno, por exemplo, as questões apontadas aqui aparecem na fala, em especial, da mãe. Colocando dessa forma parece que o professor é um empregado multifuncional! Na realidade não é isso, a única questão que pretendemos apontar é que o docente, ao lidar com a criança, particularmente da Educação Infantil, lida, por consequência, com a família. Visto que a idade da criança ainda é pouca, a dependência e os costumes a serem repetidos em sala de aula são inevitáveis. Tendo o conhecimento desse processo e dessa forma de relação humana estabelecida, é mais fácil lidar com as intempéries que possam surgir no contexto escolar. Não se adentra o núcleo familiar, mas ouvir e sugerir algum tipo de proposta é fundamental. Caso seja percebida a questão da culpa em mães que trabalham no mercado formal, é possível, por exemplo, que a escola proponha palestras, encontros ou pequenas reuniões, geralmente com duração de 40 minutos. Imagine que interessante se a sua escola propusesse uma vez ao mês encontros com o tema: DISCUTINDO SOBRE... poderia ser iniciado as pontuações sobre o papel da família na educação da criança a figura do pai na formação da identidade do filho, dentre outras temáticas... Fonte: sdomingos.com.br Numa intervenção acerca da importância da família, por exemplo, é possível sugerir para o público de pais a necessidade dos mesmos em pensar juntos em termos de cooperação e de responsabilidade compartilhada na vida familiar, na educação dos filhos, auxiliando a mulher (mãe, esposa) a considerar como prioridade máxima a ajuda do seu esposo nas tarefas domésticas e no cuidado dos filhos (PELT, 1998). Embora isso não pareça difícil, alguns homens demonstram dificuldade em compreender essas questões e precisam de um empurrãozinho e algumas instruções. Embora caiba à PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 99

100 mulher ensiná-lo como fazer as atividades que ela gostaria de compartilhar o cumprimento com ele, um observador externo pode ter melhores resultados ao propor isso. Dividir as tarefas além de gerar rapidez e eficácia, une ainda mais o casal, o que é imprescindível na educação dos filhos, pais unidos. Por falar em união, a criança necessita de poucas coisas durante a infância, sendo a principal delas a união dos pais e um ambiente saudável em que ela sinta que há o interesse por ela enquanto ser humano, assim, há a possibilidade de que ela cresça e se desenvolva dentro do esperado para cada faixa etária. Segundo Tiba (1996), os filhos se sentem amados pelo interesse que os pais demonstram mesmo não estando com eles o dia inteiro, e, também, seguros quando os pais tomam atitudes repreensivas ou aprovativas, porque nelas encontram referências. O pai precisa proporcionar segurança ao filho, demonstrando que está próximo e atento às ações que a criança toma. Nessa perspectiva, os pais que trabalham fora necessitam se informar bastante sobre tudo o que diz respeito à criança, porque esses acontecimentos é que vão contribuir para que ele formule uma ação. Assim, os pais não serão pegos de surpresa caso o filho adote uma posição que lhes pareça estranha, embora seja comum para ele. Essa posição pode ser decorrência de algo que a professora ou a empregada ensinou. Não é prejudicial que os pais se ausentem de casa, desde que estejam inteirados sobre tudo o que aconteceu (TIBA 1996, p. 72). Até os cinco anos de idade, os pais são os modelos prioritários que a criança quer e deseja seguir. É muito comum perguntar a um menino nessa idade: - João, o que você quer ser quando crescer? - Ah, eu vou ser igual ao papai! O pai é o herói, o ideal a ser alcançado. E justamente nessa fase é que o cuidado para com o processo educacional familiar da criança prospera. Alguns pontos podem ser trabalhados, há a necessidade, por exemplo, de: 1) conquistar e manter o respeito, pois o respeito que 100 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

101 Fonte: PHOTOS.COM uma criança mantém por seus pais está na proporção direta ao respeito que terá pelas leis do país, à polícia, às autoridades escolares e à sociedade em geral; 2) estabelecer limites. É preciso estabelecer fronteiras bem definidas, a criança precisa saber o que é permitido e o que é proibido; 3) ensinar o raciocínio e a obediência, o passo primordial dos pais é ensinar à criança a controlar seu próprio comportamento, a tomar decisões, a raciocinar claramente sobre as possibilidades de escolha; 4) falar uma vez e depois agir; 5) estabelecer um equilíbrio entre o amor e o controle, pois os extremos raramente funcionam (PELT, 1998). Esses passos são uma maneira de apontar a possibilidade de se trabalhar de maneira tranquila com a educação de filhos, trabalho esse que, de acordo com algumas linhas da psicologia como a Gestalt-terapia, é agir com a mente e a ação voltadas para aquilo que é óbvio, ou seja, é ressaltar as coisas bem feitas, ou o porquê do castigo a ser recebido; dar a oportunidade para que a criança se explique e fale as razões que a conduziram a um determinado comportamento; trabalhar com regras gerais de comportamento; ensinar a criança a fazer planos sobre as decisões que serão tomadas posteriormente. Você consegue perceber que a todo o momento a questão do limite a ser dado está implícita? Então, qual o motivo da dificuldade dos pais em lidarem com essa postura? Apontamos, no início da nossa discussão, questões relacionadas a mudanças de contextos culturais e históricos. Muitos pais se perdem no contexto referente à liberdade, pois, conforme Silva (1978), foram educados em uma época distinta da atual e marcada, ainda, por resquícios de repressão. A melhor disciplina é a regida pela liberdade, e essa liberdade é poder tanto material quanto psicológico, e só tem valor quando associada à responsabilidade, nesse sentido, a liberdade absoluta não existe, ela é sempre relativa a algo (TIBA, 1996). PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 101

102 O referido autor destaca que a liberdade encontra-se relacionada à sensação de satisfação, de se estar fazendo aquilo que se tem vontade. A liberdade individual é, dessa maneira, um conceito ou um estado de espírito que só se adquire após um autopreparo. Ela implica o reconhecimento dos seus próprios desejos e a capacidade de cumpri-los. É por isso que há a necessidade da imposição de limites por parte dos pais, os quais, na família, são os educadores. Mas, existe uma grande diferença entre os limites a serem colocados hoje e àqueles impostos há alguns anos atrás. No passado, podemos dizer que no Brasil, de maneira ampla, essa questão do limite até a década de 1970, aproximadamente, foi um limite castrador, pois o pai era uma figura distante, ameaçadora e punitiva. Cabia a ele a tarefa de dar castigo quando a criança desobedecesse à mãe. Como resultado esse tipo de educação gerou nos filhos uma revolta íntima e formou dentro deles um grande desejo, o de ser diferente quando se tornasse pai, e junto com esse desejo, havia o de sair de casa. Mas esses pais se tornaram antirrepressivos e tiveram dificuldade para impor limites a seus filhos, filhos esses que agora são pais e que sem conhecer limites manifestam ainda mais dificuldade em colocar anteparos no processo educacional de sua prole. E quando os pais se submetem aos caprichos do filho ele fica caprichoso também em relação às outras pessoas. Seu pensamento pode ser traduzido: Se até os meus pais que podem mandar em mim não mandam, quem são vocês para mandarem em mim? Sente-se então o poderoso da casa. No caso, por exemplo, de pais que trabalham fora, a criança tende a desrespeitar os limites impostos pela empregada ou pela avó ou a manipular esses limites fazendo ameaças. Assim, os filhos copiam o comportamento que os pais adotam em relação a essas pessoas. Quando estão insatisfeitos com uma doméstica, os pais a despedem. O comportamento e atitude dos pais são, assim, literalmente copiados pelos filhos (TIBA, 1996). A autoridade dos pais deve estar sempre presente no processo educativo (SILVA, 1978). Mas, 102 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

103 os pais acabam confundindo com rigidez, estupidez e acham que não ter autoridade é ser molão e carinhoso num sentido pejorativo. Ao colocar um limite, exercendo a sua autoridade, o pai não precisa abrir mão do carinho. Até mesmo um castigo muito duro pode ser imposto de forma carinhosa e respeitosa, sem abuso de poder. Tapa de mãe que o filho sabe merecer nunca machuca. Tapa de mãe que o filho sabe merecer e não vem deseduca (TIBA, 1996, p. 169). Assim sendo, disciplina e autoridade são peças fundamentais para uma boa educação dos filhos. Contudo, verificamos que essa não é a tônica nos dias de hoje, havendo aí a necessidade de auxílio para a compreensão dessa questão. E, QUAL A DIFERENÇA DA EDUCAÇÃO DA CRIANÇA PARA A EDUCAÇÃO DO ADOLESCENTE? (PONTUAÇÕES A PARTIR DE ABERASTURY, 1981) Percebemos que a distinção entre a criança e o adulto fez com que a adolescência começasse a ser percebida como um período à parte do desenvolvimento humano, Salles (2005, p. 35) afirma que: [...] gradualmente, a adolescência como uma fase da vida vai se consolidando e se torna um fenômeno universal, com repercussões pessoais e sociais inquestionáveis. A adolescência passa a ser caracterizada como um emaranhado de fatores de ordem individual, por estar associada à maturidade biológica, e de ordem histórica e social, por estar relacionada às condições específicas da cultura na qual o adolescente está inserido. Fonte: PHOTOS.COM Podemos afirmar que a chegada da adolescência é caracterizada por algumas alterações relativas ao corpo e ao convívio do sujeito. Segundo Aberastury (1981, p13), [...] a adolescência é uma fase de mudanças psicológicas, corporais e sociais. Essas mudanças são marcadas pelo PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 103

104 luto lento e doloroso pelo corpo de criança, pela identidade infantil e pela relação com os pais da infância. Dentre as mudanças psicológicas assinaladas pela autora, podemos assinalar a oscilação entre dependência e independência extremas, que dizem respeito ao desprendimento e ao medo da perda do conhecido. Devido a estas mudanças psicológicas caracterizadas por contradição, confusão, ambivalência e dor; mudanças sociais também são mobilizadas como atritos e questionamentos com o meio familiar e social. A adolescência se configura, então, como um período de experimentação de valores, de papéis sociais e de identidades e pela ambiguidade entre ser criança e ser adulto (SALLES, 2005, p.37). Tanto as modificações corporais incontroláveis como os imperativos do mundo externo, que exigem do adolescente novas pautas de convivência, são vividos no começo como uma invasão. Isto leva a reter, como defesa, muitas de suas conquistas infantis, ainda que também coexista o prazer e a ânsia de alcançar um novo status. Também o conduz a um refúgio em seu mundo interno para poder relacionar-se com seu passado e, a partir daí, enfrentar o futuro. Estas mudanças, nas quais perde a sua identidade de criança, implicam a busca de uma nova identidade, que vai se construindo num plano consciente e inconsciente. O adolescente não quer ser como determinados adultos, mas em troca, escolhe outros adultos como ideais (ABERASTURY, 1981). As flutuações de identidade se observam nas diferentes maneiras de se vestir, de se portar e de apresentar sua conduta frente aos pais. Aberastury (1981, p14) aponta que: [...] diante de todos esses processos, os pais têm dificuldade de aceitar o crescimento do filho, pois frente à genitalidade e à livre manifestação da personalidade surge o sentimento de rejeição e incompreensão nestes pais, que reagem, muitas vezes, com a concessão de uma excessiva liberdade, que o adolescente vivencia como abandono. O adolescente tende, então, a buscar a sua independência total. Segundo Aberastury (1981, p.15), num [...] primeiro momento, essa identidade de adulto é um sentir-se dolorosamente 104 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

105 afastado do meio familiar, e as mudanças em seu corpo obrigam-no também ao desprendimento de seu corpo infantil. A dor causada pelo abandono do mundo infantil e a consciência de que mais coisas incontroláveis vão se produzindo dentro de si impelem o adolescente a planejar a sua vida, controlar as mudanças, adaptando o mundo externo as suas necessidades. Assim, se explicam os anseios e necessidades de reformas sociais. Neste momento, há também um aumento da intelectualização, dessa forma o adolescente procura dar solução teórica de todos os problemas transcedentes e daqueles com os quais se depararão em curto prazo, como o amor, a liberdade, o matrimônio, a paternidade, a educação, a filosofia e a religião. A intensidade e gravidade desses conflitos serão direcionadas pela qualidade do desenvolvimento infantil, que segundo Aberastury (1981, p18), [...] é marcado pela estabilidade nos afetos, pela soma de gratificações e frustrações e pela adaptação gradativa às exigências ambientais. Aí está a importância dos limites e regras estabelecidos para a criança, assim como o direcionamento de suas ações para que se sinta segura. Esses passos auxiliam para a chegada de uma adolescência melhor vivenciada. A adolescência é uma fase caracterizada por conflitos. O adolescente precoce, por volta dos dez anos, sente uma grande necessidade de ser respeitado na busca desesperada de identidade, de ideologia, de vocação e de objetos de amor que irão nortear sua personalidade. Segue ainda, nessa fase, um período de profunda dependência, que segundo Aberastury (1981, p. 21), [...] precisam dos pais tanto ou mais do que quando eram bebês e essa necessidade de dependência pode ser seguida imediatamente de uma necessidade de independência. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 105

106 As exigências básicas do adolescente em relação à liberdade são: a liberdade nas saídas e horários, a liberdade de defender uma ideologia e a liberdade de viver um amor e um trabalho. Na busca dessa liberdade o adolescente apresenta desequilíbrios e instabilidades extremas, que Aberastury (1981, p. 29) denomina de [...] síndrome normal da adolescência, que é caracterizada pelos seguintes sintomas: a busca de si mesmo e de identidade; tendência grupal; necessidade de intelectualizar e fantasiar; crises religiosas; deslocação temporal; evolução sexual manifesta; atitude social reivindicatória; contradições sucessivas em todas as manifestações da conduta; separação progressiva dos pais; e constantes flutuações do humor e do estado de ânimo. Quanto à tendência grupal há um processo de superidentificação em massa, em que todos se identificam com cada um e dessa forma, vigoram as regras do grupo em relação a modas, vestimentas, costumes e preferências de todos os tipos. De acordo com a autora (1981, p. 37), [...] as atuações do grupo e dos seus integrantes, representam a oposição às figuras parentais [...] ; assim, se transfere ao grupo grande parte da dependência que anteriormente se mantinha com a estrutura familiar e com os pais especialmente. A necessidade de intelectualizar e fantasiar segue conforme descrito anteriormente, para superar a incapacidade de ação frente a tantas mudanças que vem sofrendo. Quanto às crises religiosas, o adolescente pode se apresentar como um ateu exacerbado ou como um místico muito fervoroso, um mesmo adolescente pode inclusive passar por períodos místicos ou pela descrença total. Assim, o adolescente especializa o tempo para poder manejá-lo como um objeto, para aos poucos percebê-lo e discriminá-lo melhor. Segundo a autora (1981, p.44), a busca da identidade adulta do adolescente está estreitamente vinculada com a capacidade de conceituar o tempo, uma vez que quando se reconhece um passado e formulam-se projetos de futuro com capacidade de espera e elaboração no presente, supera-se grande parte da problemática da adolescência. 106 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

107 No que diz respeito às contradições sucessivas em todas as manifestações da conduta, o adolescente não consegue manter uma linha de conduta rígida, permanente e absoluta, ainda que muitas vezes o pretenda ou procure, pois sua personalidade ainda está em formação. As constantes flutuações do humor e do estado de ânimo são típicas do adolescente, que buscam uma identidade própria, já que o mundo infantil teve que ser deixado para traz. Esta explanação sobre a síndrome normal da adolescência, visa localizar a personalidade com todas as suas características dinâmicas para uma melhor compreensão da mesma, pois somente quando o mundo adulto compreende adequadamente o adolescente e facilita a sua tarefa evolutiva, este poderá desempenhar-se correta e satisfatoriamente. Verificamos que a adolescência é uma fase de mudanças e de transições. É o momento da perda do corpo infantil, o qual evolui para o corpo adulto. É o momento das contestações. Nesse período, os pais sentem uma dificuldade um pouco mais acentuada em ter que lidar com o filho que já não é mais uma criança, mas que também é considerado como um sujeito adulto. O que vem sendo trabalhado acerca da educação de filhos ao longo do texto remete-se também aos adolescentes, entretanto, com esses as imposições e correções dos pais necessitam ser mais estruturadas e justificadas, visto que os adolescentes já têm o posicionamento voltado para a crítica e para a contestação de seus genitores. O adolescente julga tudo, critica e muitas vezes rejeita as correções de seus pais como se os mesmos estivessem invadindo a sua vida. González (2005) ressalta que os pais têm, e devem, corrigir seus filhos adolescentes quando necessário, mas a forma deve ser diferenciada, pois a crítica e a correção devem combinarse com o uso frequente de elogios, isso significa observar aquilo que o filho faz bem feito e reconhecer seu esforço; a crítica deve ser serena e bem ponderada, sem precipitações. Quando for corrigir o filho adolescente deve-se examinar previamente se você não é em parte responsável por aquilo que pretende corrigir. Quando alguém se esforça por reconhecer sua PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 107

108 própria culpa é mais fácil que o jovem veja em nosso conselho como sendo uma ajuda e não como uma acusação. Não se deve tentar atacar todos os defeitos de uma só vez. Será necessário corrigir pouco a pouco, e a sós, já que corrigir em público pode parecer uma humilhação. Sem fazer comparações com os irmãos, com os primos ou outras pessoas, pois ele é um sujeito único e também tem suas virtudes; deve-se ser prudente e não julgar sem escutar os argumentos do jovem. Como nas leis, o bem deve ser suposto e o mal deve ser provado; não há nada mais negativo do que usar frases do tipo "Você NUNCA me escuta", "SEMPRE está aborrecido", "NUNCA entende nada". Além de negativas, não são corretas. A correção deve ser específica e concreta: sem exageros, sem generalizações, sem mostrar uma "lista de defeitos" na primeira ocasião (GONZÁLES, 2005). Observa-se, desse modo, que os pais necessitam refletir e analisar o desenvolvimento de seus filhos e disporem de um tratamento que relacionado a cada fase da vida do mesmo, na adolescência há uma busca pela reconstrução de uma identidade perdida, por isso a instabilidade das relações parecem ser mais frequentes. COMO JEAN PIAGET ENXERGA A ADOLESCÊNCIA? Observamos, na unidade II, que Jean Piaget analisa o processo de desenvolvimento humano a partir de estágios. Destacamos aqui o quarto estágio, você se lembra do que se trata esse estágio? Estágio das Operações Formais, que ocorre entre os 11 ou 12 anos em diante. Retomando a explanação, entendemos que essa fase é caracterizada pela presença da lógica que ultrapassa as experiências vividas, é um período hipotético-dedutivo, ou seja, o adolescente é capaz de analisar questões propostas sem que essas estejam presas ao real. Há uma busca de relação entre os iguais, por isso é comum vê-los sempre em grupos. Nessa fase, o ser humano já é 108 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

109 capaz de lidar com conceitos como: liberdade e justiça, pois há o domínio dos processos de abstração e de generalização. É nesse período que há a concretização do processo de busca pela autonomia defendida pelo estudioso, é a capacidade expressa pelo adolescente de relacionar-se e compreender regras que são estabelecidas em comum acordo (SANDRO, 2005). Quanto ao processo de autonomia, Leone (2010, p. 2) auxilia nossa compreensão, pontuando que é possível admitir que, é na segunda fase do período da adolescência, em geral a partir dos 15 anos, [...] que o indivíduo atingiria as competências necessárias para o exercício de sua autonomia, competências estas que necessitariam apenas serem lapidadas ao longo das vivências e de uma maior experiência de vida. É, ainda, a fase de questionamentos sobre temas abrangentes e necessidade de buscas por mudanças, sejam essas mudanças no âmbito pessoal, familiar ou mundial. Para o estudioso Piaget, essa é a última fase de especificações quanto ao desenvolvimento humano. Título: A fantástica fábrica de chocolate (Charlie and the Chocolate Factory 2005 EUA) Nessa história algumas crianças são selecionadas para visitar uma famosa fábrica de chocolate, do proprietário Willy Wonka, que se encontrava fechada há anos para o público. Repare nas crianças selecionadas, o comportamento expresso pelas mesmas e a maneira que os pais encontravam para lidar com os filhos. Discuta em grupo as impressões que você teve a respeito. Direção: Tim Burton Gênero: Aventura Produção: Warner Bros Idioma original: Inglês Observamos a importância da mediação da família na fase da infância e da adolescência, mas, e a figura do professor, que relevância ela possui? O desenvolvimento humano só é possível de ser compreendido de modo essencialmente PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 109

110 histórico, isto porque o meio socialmente histórico faz o homem se desenvolver. Para Vigotski, o homem se desenvolve obrigatoriamente num processo educativo, aí se dá a constituição de sua subjetividade, sua humanização. O ensino, a apropriação do conhecimento, é o caminho para a ampliação da capacidade de estabelecer relações, de abstração, de ser no mundo com validez social (POSSIDÔNIO, 2007). Se, temos a informação de que é o processo de ensino que constitui a subjetividade do ser humano, quem está à frente desse processo? O PROFESSOR Você consegue observar o valor da figura docente? Notamos até agora a necessidade e as formas que as famílias necessitam possuir para regrar e disciplinar os seus filhos, de preferência esse processo deve ser iniciado antes que as crianças adentrem à escola. Mas, ao chegarmos à caracterização do professor, temos que ele é o responsável pela constituição da subjetividade humana, pautada na assimilação da historicidade da cultura e da sociedade. Fonte: PHOTOS.COM Para Saviani (2004, p. 41), [...] o indivíduo só pode se tornar um homem se assimilar e incorporar à sua própria vida, à sua própria atividade, as forças, formas de comportamento e ideias que foram criados pelos indivíduos que o precederam e que vivem ao seu redor. Nesse sentido, para fazer parte do gênero humano o homem necessita ser educado. O adolescente, para agir humanamente diante dos objetos de seu meio, deve desenvolver em si a faculdade de seu uso. E esta faculdade só pode acontecer a partir da mediação dos adultos, 110 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

111 da escola, da sociedade (POSSIDÔNIO, 2007). Vamos além ao ressaltar que a mediação da escola está implicitamente denotada a figura do docente. Segundo Facci (2007), a prática pedagógica é uma ação planejada e consciente que influencia o desenvolvimento psicológico do aluno. O professor cumpre o papel de mediador entre os conteúdos curriculares e o aluno, para suscitar-lhe o desenvolvimento das funções psicológicas superiores. A capacidade de abstrair, a memória lógica, o planejamento entre outras funções, são adquiridas por meio das relações sociais (FACCI, 2007, p. 147). A capacidade de crescimento humano está, dessa maneira, imbuída na ação docente. Verificamos que a formação da personalidade ocorre por meio da interação com o outro, na sala de aula esse outro é, essencialmente, o professor, que tem a possibilidade de fazer com que o aluno aprenda e apreenda com o conteúdo dado. Para que isso ocorra, ele precisa ter clareza do que ensina com metas e objetivos claros, observando sempre o contexto social e cultural de sua turma. Com uma visão mais abrangente sobre seu público, o professor pode incutir a necessidade de avanços para com a cientificidade e o compromisso com a realidade social que permeia o alunado. É necessário ressaltar que, da mesma maneira que existe a diferença para a família lidar com a criança e com o adolescente, para o professor essa dinâmica também é pertinente. Há uma diferença entre lecionar para crianças e lecionar para adolescentes: a forma de relacionamento entre professor e aluno. Ao lecionar para crianças, há um aspecto de docilidade maior, a autoridade é mais respeitada, e os questionamentos não são tão abrangentes. Ao ministrar aulas para adolescentes, os mesmos possuem uma postura questionadora, característica central de sua fase de desenvolvimento. Ele busca o porquê de determinado assunto, qual a necessidade de estudos PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 111

112 para com o mesmo e a busca de optar ou não pelo estudo do conteúdo (GUAGLIA, 2009). Se essa postura do adolescente for tomada como uma espécie de ofensa pessoal, o trabalho docente ficará estagnado. Porém, se houver a consciência de que o comportamento emitido é característico de uma passagem por dada faixa etária, as relações no contexto de sala de aula tendem a ser melhoradas. Essa tentativa deve ser posta em prática em nome da busca pelo bom andamento do processo de ensino e aprendizagem, assim como da constituição do ser humano em toda a sua plenitude formativa. Como educadores, podemos nos apropriar da opinião dada por Coimbra (2005) que afirma que a figura do educador tem uma importância tão grande que nem o melhor médico do mundo seria uma pessoa de sucesso se por trás dele não existisse a figura do professor. Mesmo não sendo a mais valorizada das profissões, o fato de termos interessados em segui-la já nos motiva a sempre seguir em frente. Título: Escritores da liberdade (Freedom Writers 2007 Alemanha, EUA) Esse filme mostra uma história envolvendo adolescentes, criados no meio de tiroteios e agressividade. A professora G, como é chamada pelos alunos, oferece o que eles mais precisam: uma voz própria. Em uma escola corrompida pela violência e tensão racial, a professora passa a combater um sistema deficiente, lutando para que a sala de aula faça a diferença na vida dos seus alunos. Vale a pena assistir e verificar a importância da ação docente na vida dos alunos e a possibilidade de mudança que a atuação de um professor pode trazer para um estudante. Direção: Richard La Gravenese Gênero: Drama Produção: Paramount Pictures Idioma original: Inglês 112 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

113 CONSIDERAÇÕES FINAIS Discussões acerca da importância da família para a construção da identidade da criança, observando as relações de cuidado estabelecidas entre o cuidador e a criança, foram um dos pontos contemplados na discussão realizada por nós nesta unidade. As características da formação da personalidade do adolescente, mencionando as transformações sofridas nessa fase de desenvolvimento, assim como o redimensionamento da forma deste se relacionar com o outro e com o meio, fizeram parte dos estudos realizados por nós. Mediante as explanações mencionadas, a preocupação para com a relação entre professor e aluno (criança) e professor e aluno (adolescente) também foi abordada. Enfim, nossa intenção nesta unidade, foi a de trabalhar a relevância da relação humana como constituição do processo de identidade, tanto da criança quanto do adolescente, constituição essa delimitada pelo ambiente familiar e pelo ambiente escolar. ATIVIDADE DE AUTOESTUDO 1) Qual a relevância dos limites e regras impostos à criança pelos pais? 2) Quais os pontos em que a educação dada à criança difere da educação para o adolescente? 3) Segundo Aberastury (1981, p13), [...] a adolescência é uma fase de mudanças psicológicas, corporais e sociais. Estas mudanças são marcadas pelo luto lento e doloroso pelo corpo de criança, pela identidade infantil e pela relação com os pais da infância. Comente a defesa da autora explicando o que é esse luto pela perda do corpo de criança. 4) Existe relevância da figura do professor em relação à formação da identidade do adolescente? Explique. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 113

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115 UNIDADE V FENÔMENO BULLYING Professora Me. Gescielly B. da Silva Tadei Objetivos de Aprendizagem Compreender o fenômeno do bullying num contexto social e cultural. Entender a relevância desse tema para a atuação docente nos dias atuais. Buscar a fundamentação teórica necessária para lidar com essa questão que tem preocupado família, escola e áreas governamentais. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: Histórico sobre o bullying escolar e seu impacto sobre a vítima O papel da família e da escola no desencadeamento e intervenção quanto ao bullying

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117 INTRODUÇÃO Até o momento temos discutido a importância das relações humanas para a formação da personalidade e da identidade do indivíduo, o quanto estas são produtivas e enriquecedoras para a nossa constituição enquanto sujeitos em um meio social determinado historicamente. Então, nos deparamos com uma temática que tem estado em voga na atualidade (embora sua ocorrência seja antiga), que é o fenômeno do bullying. Entender essa questão é a nossa principal meta nesta unidade, visto que nas escolas a proliferação da violência praticada pelos bullies tem sido mais evidenciada. O que é o bullying? Como identificar a vítima? Quais os tipos de vítima? Como saber quem são os agressores? Existem sequelas deixadas por essa ação para a vida adulta? Essas são algumas pontuações que serão abordadas no decorrer da nossa leitura para que teoricamente tenhamos a sustentação necessária para a nossa ação dentro do ambiente escolar. Fenômeno bullying Observamos a impossibilidade do ser humano viver sozinho, isolado, sem amigos. As relações humanas estabelecidas no contato social entre iguais auxiliam, não somente, no processo de desenvolvimento, mas também, na formação da personalidade do indivíduo. Por isso, a interação social ocorrida nas dependências da escola é importante para o crescimento pessoal do aluno (OHUSCHI; GUAGLIA, 2009). O homem é um ser sócio-histórico-cultural Quando pensamos em relações humanas, imaginamos indivíduos lidando num mesmo espaço e agindo diariamente com uma meta comum aos mesmos, ou seja, indivíduos que estão dentro de um contexto sociocultural historicamente determinado (FACCI, 1998). PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 117

118 Quanto a esse aspecto, já estudamos nas unidades anteriores que a teoria de Vigotsky, a Teoria Histórico-Cultural, defende que a compreensão do desenvolvimento humano deve ocorrer por meio de uma relação dialética entre o homem e a cultura; entre o homem e o contexto social, histórico e cultural. HISTÓRICO SOBRE O BULLYING ESCOLAR E SEU IMPACTO SOBRE A VÍTIMA Partindo do exposto, trazemos a temática para a discussão, o bullying na escola e a forte expressão denotada ao mesmo nos dias atuais e questionamos: será que essa é uma relação estabelecida somente entre os muros da escola? Ressaltamos que o bullying sempre existiu nas escolas, [...] porém há pouco mais de 30 anos é que começou a ser estudado com parâmetros científicos, como fenômeno psicossocial e recebeu um nome específico (FANTE; PEDRA, 2008). O termo bullying é de origem inglesa e tem sido utilizado para descrever atos de violência, física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticado por um indivíduo ou por um grupo de indivíduos, que tem por objetivo a agressão a um sujeito incapaz de se defender (DREYER, 2010). Dentre esses comportamentos Silva (2010, p. 21) destaca as agressões, os assédios e as ações desrespeitosas, que são sempre realizados de maneira recorrente por parte dos agressores. É fundamental explicitar que as atitudes tomadas por um ou mais agressores contra um ou alguns estudantes, geralmente não apresentam motivações específicas ou justificáveis. Isso significa dizer que, de forma quase natural, os mais fortes utilizam os mais frágeis como meros objetos de diversão, prazer e poder, com o intuito de maltratar, intimidar, humilhar e amedrontar suas vítimas. Essas ações perpetuam dor e sofrimento, e de maneira geral, a vítima ou as vítimas optam pelo silêncio, assim como os demais alunos que assistem ao cenário da violência praticada 118 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

119 com medo de não sofrerem as ações do bullying, tal qual a vítima que presenciam. Ao encontrarmos a definição em relação ao bullying dada pela ABRAPIA (Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência), verificamos uma complementação à ideia de Silva (2010). Para a ABRAPIA a definição do tema abrange [...] todas as formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder (ABRAPIA, 2010, p. 2, grifos nossos). Partindo dessa perspectiva, podemos considerar o bullying como um retrato de violência e de covardia estampadas diariamente na rotina escolar de adolescentes e jovens. Bullie é o agressor, é aquele que pratica o bullying. Nesse sentido, compreendemos que essa é uma questão abrangente, visto que: [...] a violência tem se tornado um tema muito comum entre pais, educadores e psicólogos. Muitas vezes, os comportamentos agressivos são expressos por meio de pequenos atos, atitudes de desrespeito e agressão à outra pessoa, que podem passar desapercebidos por quem observa (FARIA, 2009, p. 2). O bullying é um exemplo desse tipo de violência. O agressor ou bullie tende a agir de maneira tirana exibindo ações como: [...] colocar apelidos, ofender, zoar, gozar, encarnar, sacanear, humilhar, fazer sofrer, discriminar, excluir, isolar, ignorar, intimidar, perseguir, assediar, aterrorizar, amedrontar, tiranizar, dominar, agredir, bater, chutar, empurrar, ferir, roubar, quebrar pertences (ABRAPIA, 2010, p. 3). É necessário ressaltar que há duas categorias de bullying, as quais são definidas, segundo Dreyer (2010), da seguinte maneira: - Bullying direto mais comum entre os componentes do sexo masculino. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 119

120 - Bullying indireto ou agressão social mais comum entre os componentes do sexo feminino e entre crianças pequenas. Silva (2010, pp ) ressalta que embora haja essa diferenciação, dificilmente a vítima recebe apenas um tipo de maus tratos. Ela complementa essa afirmação acrescentando que os agressores normalmente atacam em bando, pois a noção da atuação em grupo garante mais força no momento do ataque e da coação. A autora estabelece cinco eixos amplos para o ataque às vítimas: 1) verbal; 2) físico e material; 3) psicológico e moral; 4) sexual; e 5) virtual. Quanto ao eixo um, os ataques usualmente compreendem: insultar, ofender, xingar, fazer gozações, colocar apelidos pejorativos, fazer piadas ofensivas, zoar. O eixo dois abrange: bater, chutar, espancar, empurrar, ferir, beliscar, roubar, furtar ou destruir os pertences da vítima, atirar objetos contra a vítima. No eixo três, temos as ações de: irritar, humilhar e ridicularizar, excluir, isolar, ignorar, desprezar ou fazer pouco caso, discriminar, aterrorizar ou ameaçar, chantagear ou intimidar, tiranizar, dominar, perseguir, difamar, passar bilhetes entre os colegas de caráter ofensivo; fazer intrigas, fofocas ou mexericos (mais comum entre as meninas). Quanto ao eixo quatro, temos o abuso, a violência, o assédio e a insinuação. São comportamentos desprezíveis que ocorrem entre meninos com meninas e meninos com meninos. O quinto e último eixo, diz respeito ao bullying virtual, que ocorre pelos meios tecnológicos de comunicação (celular e internet), com a disseminação de calúnias e difamações, é o ciberbullying. Essas ações deixam sequelas que acompanham o ser humano por toda a sua vida. É muito comum ouvirmos depoimentos dolorosos de algumas pessoas sobre a fase em que frequentavam a escola. Dentre as sequelas temos a dor e a angústia vivenciadas pela vítima. 120 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

121 Tais atitudes de violência sofridas na infância, na adolescência, na fase da juventude deixam marcas e traumas na vida ser humano adulto, marcas essas que o mesmo apresenta dificuldades em lidar. Essa ação perversa contra o outro é definida por Baltazar (2009), como uma falta de responsabilidade para com o coletivo, para com o semelhante, para com o social. Dentre as sequelas deixadas Silva (2010) aponta para as consequências psíquicas e comportamentais provocadas pelo sofrimento quanto ao bullying. Os problemas mais comuns encontrados pela estudiosa são: os sintomas psicossomáticos, transtorno do pânico, fobia escolar; fobia social (transtorno de ansiedade social TAS), transtorno de ansiedade generalizada (TAG), depressão, anorexia e bulimia, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Há, também, os quadros menos frequentes, como a esquizofrenia, e o suicídio e homicídio. Vale ressaltar que os problemas relatados, em sua maioria, apresentam uma marcação genética considerável, ou seja, podem ser herdados dos pais ou de parentes próximos. No entanto, a vulnerabilidade de cada indivíduo, aliada ao ambiente externo, às pressões psicológicas e às situações de estresse prolongado, pode deflagrar transtornos graves que se encontravam, até então, adormecidos (SILVA, 2010, p. 32). Soma-se a isso, a falta de intervenções e compreensão a respeito da ação dos bullies, os quais devem ser encarados como portadores de uma ação inaceitável ao meio escolar e às práticas interpessoais. Quanto a dados referentes ao bullying ainda temos poucos estudos acerca do tema. No Brasil, por exemplo, ainda não há uma pesquisa de âmbito nacional que mostre dados relativos à temática, mas já existem pesquisas pioneiras que fornecem um norte sobre a questão, bem como a incidência alarmante e a necessidade de pesquisas e explorações sobre a temática. Fante e Pedra (2008) realizaram uma pesquisa com dois mil alunos de escolas públicas e privadas da região de São José do Rio Preto. Nessa pesquisa, constataram que 49% dos participantes estavam envolvidos no fenômeno, sendo que 22 % como vítimas e 12% como agressores. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 121

122 O ISME (Instituto SM para Educação), em pesquisa realizada em cinco países: Argentina, México, Brasil, Espanha e Chile, mostrou que o Brasil lidera a pesquisa como campeão em bullying (FANTE; PEDRA, 2008). Devido ao fato de pesquisas apontarem o crescimento dessa ação em todo o mundo, compreendemos a necessidade dos educadores buscarem informações e se conscientizarem sobre esse comportamento que tem crescido a cada ano. De acordo com o CEMEOBES (Centro Multidisciplinar de estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar), a média de estudantes brasileiros envolvidos com o bullying é de 45% acima dos índices mundiais. Você sabia que nas escolas públicas o bullying é mais comum entre os meninos? Pesquisas apontam ainda para o despreparo docente para lidar com a temática, optando, muitas vezes, pelo silêncio e pela não ação (BEAUDOIN; TAYLOR, 2006). Esse despreparo evidencia-se pela falta de conhecimento e possibilidades de intervenção quando da constatação do bullying. É preciso ressaltar que o bullying não ocorre somente na escola, mas em outros pontos de encontro e de convivência, em que se reúnem os alunos, como condomínios e shoppings, por exemplo. Nesse sentido, pensamos a questão do bullying como algo que está para além dos muros da escola. Essa agressão encontra-se entre vizinhos, no ambiente de trabalho, ou seja, encontra-se em locais em que existam relações humanas estabelecidas. 122 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

123 Você sabia que nas escolas particulares o bullying é mais comum entre as meninas? Assim sendo, concordamos com Saviani (1994) quando ele defende uma escola que recebe influências do meio social, mas que também atua e intervém nesse meio social. Por isso, pensamos que para compreender a temática proposta para nosso estudo, necessitamos compreender a dinâmica imposta pela sociedade e como essa dinâmica chega até a escola. Em uma sociedade individualista e violenta, que tipo de ser humano esperamos encontrar? Com que tipo de comportamento discente temos que lidar? Por isso, é crescente a preocupação de familiares e de educadores sobre essa temática, e o que chama mais a atenção é o fato de não se saber que atitude tomar frente à ação dos bullies (praticantes do bullying, o agressor) nas escolas, assim como as vítimas dos mesmos. Para auxiliar nossa compreensão, Silva (2010) traz dados sobre os protagonistas do bullying escolar. Organizamos essas informações em um quadro explicativo para a melhor visualização. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 123

124 Quadro 1 - Baseado nas informações de Silva (2010 pp ) `. Fonte: PHOTOS.COM Observamos o retraimento e o sofrimento das vítimas dos bullies. Pais e professores precisam estar atentos para mudanças bruscas de comportamentos, quanto mais cedo houver a identificação, mais rápida será a intervenção e menores as sequelas deixadas para a vida adulta do indivíduo. 124 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

125 Quadro 2 - Baseado nas informações de Silva (2010 pp ) ^ Fonte: PHOTOS.COM A forma de ação adotada pelos bullies mostra uma violência expressa ou velada que ocorre de maneira extremada. A atenção dos educadores para essa postura necessita ser redobrada, uma intervenção em casos assim, sugere a atuação de professores e equipe pedagógica, com um projeto de combate à violência de maneira planejada. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 125

126 Quadro 3 - Baseado nas informações de Silva (2010 pp ) ^ Notamos que os espectadores não costumam ter um comportamento muito marcante, o que não evidencia o que estão vivendo, tendendo a manterem-se calados sobre as agressões que presenciam. A tarefa essencial considerada para nós educadores seria a de conseguirmos identificar os agressores para então tentarmos implantar um plano de ação. Essa atividade é, contudo, muito difícil de ser desenvolvida, mas não é impossível de ser colocada em prática. Precisamos ter a consciência de que essa é uma situação crescente e alarmante, que se não controlada pode se tornar um problema ainda mais endêmico nas escolas de todo o mundo. O PAPEL DA FAMÍLIA E DA ESCOLA NO DESENCADEAMENTO E INTER- VENÇÃO QUANTO AO BULLYING As novas gerações encontram-se sem uma base sólida para estruturar a sua forma de ser e estar no mundo, vivemos um vácuo de valores Ana Beatriz Barbosa da Silva 126 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

127 Fonte: PHOTOS.COM Os aspectos socioculturais atuam profundamente no processo educativo, cabe à sociedade transmitir às novas gerações valores e modelos educacionais éticos e responsáveis. Mas vivemos em uma época de mudanças muito aceleradas. A referência de valores que guia comportamentos entra em crise, porque estão em crise os modelos sociais, culturais, econômicos e familiares que repetem esse sistema, um sistema deveras violento (SILVA, 2010). E são vários os fatores que desencadeiam o processo de violência infanto-juvenil, estes são caracterizados pelas mudanças sociais que alteram o modo de ser e de viver do indivíduo e do grupo. A Globalização, o incentivo ao consumismo exacerbado, os padrões de beleza ditados pela mídia, a crescente desigualdade social, a intolerância ética e religiosa dentre outros pontos são consideradas desencadeadoras do bullying. Além das características mencionadas acima, temos os modelos educativos familiares, considerados como os [...] formadores de atitudes nos filhos estudantes (FANTE; PEDRA, 2008, p. 97). A prática do bullying traz, de maneira explícita, a agressividade que é um instinto natural de todo o ser humano, responsável, inclusive, para a manutenção da nossa espécie. Contudo, o comportamento agressivo precisa do auxílio dos limites, numa forma de poder ser canalizado e orientado para ações autorrealizadoras para o sujeito, trazendo a manutenção e o desenvolvimento da sua própria vida. Mas, precisamos ressaltar que, com as transformações sociais, ocorreram, também, as transformações familiares. O núcleo familiar tem encontrado dificuldade para o estabelecimento da disciplina e dos limites para os filhos, o que tem sido decisivo para expressão da agressividade e da violência infanto-juvenil (FANTE; PEDRA, 2008). PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 127

128 Você se recorda que na unidade anterior nós discutimos sobre a dificuldade expressa pelos pais quanto à educação familiar de seus filhos, em especial no que tange a questão de regras e limites? Silva (2010) aponta que a referida dificuldade trouxe o excesso de permissividade na educação dos filhos. Isso ocorreu porque foi colocado como ideal de educação em primeiro plano as necessidades da criança e do adolescente, como uma forma de resposta à rigidez, conformismo e autoritarismo do passado, o que acabou ocorrendo foi uma inversão radical nas dinâmicas educacionais familiares. É a dificuldade em se estabelecer o período social no qual estamos imersos. Os pais acabam cometendo alguns tipos de exageros como, por exemplo, o excesso de tolerância para comportamentos transgressores, sempre sob a desculpa de não querer ferir a sensibilidade dos filhos, quando na realidade a omissão é muito mais perigosa para o desenvolvimento da criança. Alguns progenitores optam pelo excesso de tolerância como uma maneira de compensar o tempo que ficam longe de casa (recorde-se das discussões sobre a mãe que trabalha no mercado formal) numa forma de minimizar o sentimento de culpa por não poderem acompanhar a vida do filho como gostariam. O resultado dessa atitude é que desde cedo as crianças se habituam a fazer tudo o que querem e impõem de forma autoritária e tirana seus desejos e vontades (SILVA, 2010). É a tolerância a erros intoleráveis. Existem famílias que escolhem essa forma de relação sob o pensamento errôneo de que com o tempo tudo pode ser resolvido, a criança amadurecerá e perceberá que sua forma de agir não é considerada correta. Nesse caso, temos que alertar a seguinte questão: nenhuma criança aprenderá aquilo que não lhe foi ensinado. Se as suas birras e transgressões foram plenamente aceitas, sem nenhum tipo de direcionamento, ela aprenderá que é essa a maneira correta de lidar com o outro e com o meio social. 128 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

129 A autora Ana Beatriz, em seu livro: Mentes perigosas na escola: bullying pontua que os pais acabam se esquecendo que o embate crítico e o estabelecimento de regras é algo saudável para o desenvolvimento da criança. Eles preferem a omissão da educação familiar, o que denota que jovens desde cedo são o centro das atenções e não se preocupam com regras. Mas o caminho que aparentemente parece mais fácil, futuramente pode mostrar-se como o mais difícil. Quando os pequenos reis e rainhas, quando esses imperadores chegam ao meio escolar, o qual tem regras e limites a serem seguidos, horários estabelecidos e a necessidade de respeito ao grupo, o comportamento agressivo vem à tona, visto que é a vontade dos mesmos que, na mentalidade deles, precisa ser seguida. É o cúmulo da cultura individualista em vigor. Notamos aí a perspectiva e a influência social e cultural em questão. Mas, conforme afirma Saviani (1994) a escola reproduz a ideologia vigente, mas também é capaz de promover uma intervenção na sociedade e na cultura. Por isso, o que diz respeito ao bullying escolar, Silva (2010, p. 63) esclarece que: [...] as escolas mais sensíveis e atentas às mudanças globais de nosso tempo já estão procurando iniciar processos de inovação e reforma que poderão dar conta de novos desafios. É necessário modificar não somente a organização escolar, os conteúdos programáticos, os métodos de ensino e estudo, mas, sobretudo, a mentalidade da educação formal. Há o destaque para a necessidade de intervenções no campo das relações interpessoais, na valorização humana, na valorização do outro, na valorização dos sujeitos. É a tentativa da descentralização do individualismo para observação do todo. A autora continua ao afirmar que não são necessárias ideias mirabolantes, mas que também não existem receitas prontas, visto que cada instituição escolar é única. Por isso, a sugestão dada é quanto um projeto educativo que deve [...] seguir paradigmas simples e comuns, que sejam capazes de revelar o valor da paz e da tolerância, bem como do respeito ao outro e, sobretudo, à vida em suas diversas manifestações (SILVA, 2010, p. 60). PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 129

130 Você pode estar se questionando: nossa é uma questão muito ampla, as soluções são muito idealizadas, não há muito que fazer! Convido você a ler um texto de Elisa Lucinda: Só de Sacanagem Meu coração está aos pulos! Quantas vezes minha esperança será posta à prova? Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais. Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova? Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais? É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz. Meu coração está no escuro, à luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: Não roubarás, Devolva o lápis do coleguinha, Esse apontador não é seu, minha filha. Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar. Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar. Só de sacanagem! Dirão: Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba e vou dizer: Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau. Dirão: É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal. Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final! Frente a uma questão delicada como é o caso do bullying, o qual está relacionado a tantas condicionantes sociais, históricas e culturais, com certeza não podermos mudar o começo de 130 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

131 tudo o que aconteceu, mas certamente, com trabalho e dedicação e o mais importante, com o amor voltado para a educação, com certeza poderemos mudar os desfecho dessa história voltada para a violência que prejudicou e tem prejudicado tantas vidas. Título: Ponte para Terabítia (Bridge to Terabithia EUA) Jess Aarons (Josh Hutcherson) sente-se um estranho na escola e até mesmo em sua família. Durante todo o verão ele treinou para ser o garoto mais rápido da escola, mas seus planos são ameaçados por Leslie Burke (Anna Sophia Robb), que vence uma corrida que deveria ser apenas para garotos. Logo Jess e Leslie tornam-se grandes amigos e, juntos, criam o reino secreto de Terabítia, um lugar mágico onde apenas é possível chegar se pendurando em uma velha corda, que fica sobre um riacho perto de suas casas. Lá eles lutam contra Dark Master (Matt Gibbons) e suas criaturas, além de conspirar contra as brincadeiras de mau gosto que são feitas na escola (ADORO CINEMA, 2010). Direção: Gábor Csupó Gênero: Aventura Produção: Walt Disney Pictures Idioma original: Inglês CONSIDERAÇÕES FINAIS Lendo o material descrito nesta unidade, percebemos que os sinais demonstrados por uma criança ou por um adolescente que sofre o bullying são possíveis de serem identificados. Para tanto, nós, educadores, necessitamos estar atentos para perceber alguns desses sinais. A mudança brusca de comportamento é um dos pontos mais visíveis e mesmo assim, muitas PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 131

132 vezes passam despercebidos por nós. Realizar uma intervenção o mais breve possível em uma incidência de bullying na escola é essencial para a garantia de estabilidade emocional e psicológica para o futuro adulto. Essa intervenção é necessária uma vez que já estudamos a importância das relações humanas para a formação da personalidade e da identidade do indivíduo, essas relações, contudo, devem ser produtivas, não angariando sofrimento e traumas para o indivíduo. Buscamos, enquanto educadores, relacionamentos saudáveis para a constituição das crianças enquanto sujeitos em um meio social determinado historicamente, os quais encontram na escola uma maneira ampla para esse processo de socialização. ATIVIDADE DE AUTOESTUDO 1) O fenômeno bullying está restrito ao ambiente escolar? Justifique a sua resposta. 2) Silva (2010) estabelece cinco eixos amplos que dizem respeito à forma de ataque dos bullies às vítimas. Quais são esses eixos? Explique. 3) Atitudes de violência sofridas na infância, na adolescência ou na juventude deixam marcas e traumas na vida do ser humano adulto, marcas essas que o indivíduo mostra dificuldade em lidar (BALTAZAR, 2009). Silva (2010) menciona algumas sequelas deixadas pelo sofrimento do bullying, quais são? 4) Silva (2010) traz dados sobre os protagonistas do bullying escolar. Que dados são esses? 132 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

133 CONCLUSÃO Olá! Prezado aluno, nossas discussões sobre a temática Psicologia das Relações Humanas foi muito proveitosa, aprendemos e discutimos muito até aqui. Mas tenho a recordação de um pedido que fiz logo na parte introdutória do nosso material, você se lembra? Retomemos a queixa apresentada: aluna Clara, 11 anos de idade, segunda série do Ensino Fundamental I 8. O acompanhamento à aluna começa da seguinte forma: a professora Rita, que leciona aulas para a segunda série do ensino fundamental no Colégio Estadual Souza Pacheco, chegou até a estagiária de pedagogia Luiza no horário de intervalo e pediu para que ela ajudasse a dar um jeito no caso da aluna Clara, pelo menos no período em que a estagiária estivesse na escola, pois Clara era uma menina lenta, desatenta, com dificuldades de aprendizagem e, além disso, atrapalhava o rendimento da sala de aula. Após ouvir a queixa da professora, Luiza dirigiu-se até a sala da supervisora da escola e perguntou a mesma sobre a aluna Clara. A supervisora pôs-se então a comentar: [...] olha, o caso ali é a família mesmo, porque você sabe que a família conta muito na educação da criança. Até onde eu sei a Clara não tem mãe, ela é criada pela madrasta e tem mais uns 5 ou 6 irmãos, agora, eu não sei se esses irmãos são todos filhos dessa madrasta não, porque um é loiro, outro mais moreno... É uma família muito carente, o pai vende cachorro quente na feira de produtores. A Clara chegou de Tocantins e veio estudar aqui na escola, ela chegou na 4ª série, mas não sabia nada. Eu não tinha ideia da bomba que estávamos aceitando. Quando a gente viu que ela não sabia nada, voltamos ela para a primeira série, mas até agora acho que ela ainda não mostrou trabalho e você sabe, ela tem 11 anos de idade, junto com crianças de 8 anos... Ela vem com roupas curtas, às meninas usam, mas são pequenas, aí quando eu chamo a atenção dela ela chora, mas não tem cabimento né, uma menina grande assim querendo se comportar como uma pequenininha... Eu acho que o que falta ali também é limite. Como sou psicóloga e trabalho com a área educacional, farei aqui uma análise sobre a postura adequada para lidar com essa questão, partindo dos estudos e discussões realizadas até o momento. Ao refletir um pouco sobre a queixa pode-se inferir que a aluna não aprende e está atrapalhando a turma, então a professora não tem nada a fazer, a não ser pedir que a psicóloga possa 8 Reflexão baseada no trabalho intitulado: A EDUCAÇÃO COMO CONDIÇÃO SINE QUA NON PARA A HUMANIZAÇÃO escrito por Soraya Klug Possidônio e Gescielly Barbosa da Silva e apresentado no XIV ENDIPE Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino entre os dias 27 e 30/04/2008. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 133

134 atestar a saída da menina de sua sala. Como podemos averiguar esse relacionamento? Parece que o anseio dos profissionais da escola pautava-se na necessidade de a psicóloga apontar o que havia de errado com a criança. Na realidade, o que deveria ser proposto é a busca pela harmonização desse relacionamento e não a simples retirada da criança da sala. Gostaría de ressaltar que ao mencionarmos a atitude desses profissionais, não estamos condenando e nem mesmo julgando seu comportamento. O que buscamos é mostrar ao leitor o contexto em questão, o professor é a figura de referência para a criança. O educador, ao se apropriar do conhecimento historicamente acumulado, ser cônscio do movimento social para transmiti-lo efetivamente aos seus alunos, estará contribuindo para uma formação mais crítica acerca da realidade material vivida. Pois, para a THC, o conhecimento provoca a capacidade de indignação no ser humano, a qual possibilita a luta por formas de vida mais dignas. Rego (1995, pp ) afirma que a escola, por oferecer conteúdos e desenvolver modalidades de pensamentos específicos, tem um papel imprescindível e único na apropriação, pelo sujeito, do conhecimento e experiência culturalmente acumulados. Ela representa um elemento fundamental para [...] a realização plena do desenvolvimento dos indivíduos (que vivem em sociedades escolarizadas) já que promove um modo sofisticado de analisar e generalizar os elementos da realidade: o pensamento conceitual. Assim, podemos afirmar que há a possibilidade de redirecionamento da relação, dada a importância da figura docente. Esses profissionais da referida instituição, expressam as expectativas de seu momento e ao mesmo tempo contribuem para que o movimento social continue desse modo, isto é, que permaneça a manutenção das condições de relacionamento tal qual estão desarmônicas. A partir dessa queixa podemos realizar alguns apontamentos importantes como, por exemplo, a tendência de o psicólogo atender ao aluno de forma individual, chamando-o reservadamente à sala do colégio e aplicando alguns testes psicológicos que avaliam e classificam o aluno de acordo com o seu desempenho. Na realidade o psicólogo deve realizar seu trabalho em conjunto com a comunidade escolar. Nesse caso, professora, equipe pedagógica e aluna. Segundo Patto (1987), isso ocorre devido ao fato de a Psicologia ter surgido no Brasil no Período da Primeira República desenvolvendo-se em laboratórios anexos às escolas ou 134 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

135 instituições paraescolares voltadas à experimentação. Anos mais tarde a Psicologia atuou como uma espécie de oráculo destinando e selecionando os mais aptos na educação ou em atividades profissionais, utilizando-se basicamente de testes psicológicos. Ora, quando pedem que o psicólogo dê um jeito na criança pode significar que essa criança não está querendo aprender ou que tem algo impedindo essa aprendizagem ou o processo de relacionamento entre professor e aluno pode estar deficitário. De acordo com Machado (2000), parte daí a crença de que o psicólogo pode medir a capacidade individual das pessoas como se este fosse constituído fora das relações sociais. Geralmente, as queixas quanto às crianças e adolescentes pautam-se em ideias de anormalidade ou doença, além de especulações quanto à situação financeira da família. Devido a esse fato, Tanamachi e Meira (2003) defendem que o psicólogo deve agir junto à queixa escolar, como um mediador no processo de elaboração das condições necessárias para a superação desta, devendo estar atento, visto que a queixa é apenas a aparência e cabe ao psicólogo mediar a essência daquilo que foi apresentado como queixa. Machado (2000, p. 145) reforça essa ideia ao afirmar que [...] não existem causas individuais para os fenômenos da vida. Nesse sentido, a criança não pode ser caracterizada como desatenta ou com dificuldade de aprendizagem e com crises de relacionamento, sem que antes seja verificado o contexto de onde surgiu essa queixa. O objeto de trabalho do psicólogo estaria pautado, então, nas relações nas quais a criança estabelece. Essa relação é histórica, envolve o contato com o outro, assim como o conceito de mediação. Nessa perspectiva, Tanamachi e Meira (2003) afirmam que a atuação do psicólogo em qualquer instituição de ensino tem como objetivo o encontro entre sujeitos e educação e a finalidade central de seu trabalho deve ser a de contribuir para a construção de um processo educacional que seja capaz de socializar um conhecimento historicamente acumulado e de contribuir para a formação dos sujeitos. É por isso que acreditamos que é um dever do psicólogo conhecer o contexto da criança, saber acerca de seu desempenho escolar, mas, sobretudo, conceber que há possibilidade de avanço, desde que a finalidade da instituição de ensino seja a humanização do aluno por meio da transmissão do conhecimento científico no cotidiano escolar. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 135

136 No referido caso, quando o professor faz a queixa da aluna que é difícil em sala de aula e que não aprende prescrevendo a outra pessoa a um profissional da psicologia, por exemplo, a responsabilidade pela mudança, está transferindo seu papel a ela. Assim como o faz também com o próprio aluno, tendo implícita em sua fala os preceitos da teoria construtivista, que impõe principalmente ao aluno o maior papel. A teoria construtivista, que tem embasado o trabalho pedagógico nas escolas brasileiras, principalmente a partir da década de 1990, pode contribuir com a responsabilização do aluno pela sua aprendizagem, uma vez que retira do educador, conforme menciona Facci (2004) o seu papel de educar. O Construtivismo, [...] é uma abordagem pedagógica contemporânea fundamentada em uma ou mais teorias psicológicas da aprendizagem ou do desenvolvimento e orientada pelo princípio de que o aluno, mediante sua ação e auxiliado pelo professor deva ser o agente de seu próprio conhecimento (MIRANDA, 2000 apud FACCI, 2004, p. 81). Acerca da afirmativa de que o problema da não aprendizagem e de relacionamento do aluno é causado por problemas familiares outra queixa bastante comum nos espaços escolares observamos que Facci (2004, p.86) discorre sobre o que o autor Piaget postula: de que o objetivo máximo da educação é [...] aprender a aprender; é aprender a se desenvolver depois da escola. Então, a visão da aprendizagem do aluno e seu relacionamento escolar recai sobre suas possibilidades e habilidades, seu nível maturacional; não vemos a preocupação com a questão da mediação do ensino, com a marca existente nas e das relações sociais como propulsoras da aprendizagem e do desenvolvimento. Com isso, sobram espaços para dar não só ao aluno, mas à família dele um julgamento negativo. Temos ainda que [...] a grande ênfase na teoria de Piaget está no aspecto individual, na ação do sujeito sobre o meio (FACCI, 2004, p. 103). O desenvolvimento psíquico, para ele, acontece primeiramente intrapsiquicamente, para depois ser a nível interpsíquico. Essa teoria é gestada em uma sociedade onde predomina uma visão liberal do homem, na qual, esse homem, segundo Bock (2000), é visto como um ser cheio de capacidades e potencialidades que podem ser manifestadas no decorrer da vida. É a ideia de natureza humana, a qual traz a questão da essência, da semente de homem que desabrocha conforme é estimulada e adequada ao meio social. Nesse sentido, se o aluno não aprende ou tem dificuldade de se relacionar é porque alguma coisa está errada com ele e cabe ao psicólogo, por exemplo, desvendar esse mistério, afinal o mesmo está comprometendo o bom andamento 136 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

137 da turma! Enquanto estivermos guiados por um ideário liberal corremos o risco de culpar os indivíduos por todas as suas dificuldades dentro do contexto escolar. Quando vemos uma tentativa de responsabilizar a aluna pela sua não aprendizagem e pela dificuldade em se relacionar, em especial com a figura docente, nos questionamos: será que estava ocultado aí o desejo de que a aluna repetisse a incrível façanha do Barão de Münchausen 9, o qual se tornou conhecido por nós por meio da autora Bock (2000). Nesse momento, Luiza percebeu a onipotência com que sua profissão estava sendo encarada, ela podia decidir, colaborar para o possível trajeto a ser traçado na vida escolar desta aluna. Se o aluno não aprende, não se relaciona bem, geralmente a análise embasada em uma visão liberal de homem, de aluno, é aquela em que se afirma que alguma coisa deve estar errada com ele, cabendo a outro profissional desvendar esse mistério, afinal tal aluno pode comprometer o desempenho da classe e irritar a figura do professor. Isso mostra certa alienação o que impossibilita a análise crítica e fundamentada sobre o motivo que impede a não aprendizagem assim como a dificuldade de relacionar-se no meio escolar apresentada pelo aluno. Análise essa que pode ser rever conteúdos, métodos de ensino, pressupostos filosóficos e epistemológicos, e os condicionantes históricos das relações ensino, aprendizagem e relações humanas historicamente estabelecidas. O professor, desse modo, no momento em que culpabiliza a aluna pela dificuldade revela, ao mesmo tempo, sua onipotência, coerente com o processo de alienação que permeia os homens na sociedade capitalista. Isso significa dizer que o professor sabe de sua função mediadora, de seu papel social para o conhecimento ser apropriado pelo aluno, porém ao se deparar com a não aprendizagem ou com a dificuldade de relacionamento da mesma, delega a outros sua responsabilidade de origem. Isso ocorre justamente por se sentir sem saída frente ao insucesso de seu aluno; e este sentimento nada mais é que o produto dos fatos históricos. De acordo com Facci (2004), a transição do século XX para o século XXI evidenciou o momento em que a sociedade passou pelo processo de globalização, aumento do desemprego e mínimo investimento à educação. Essa crise da modernidade Saviani (1996) culpabilizou os professores por não estarem ajustados a essa nova situação de globalização no pós-modernismo. 9 História do Barão que ao cair em um brejo e afundar até o pescoço consegue, pela força de seu próprio braço, puxar-se pelos cabelos não somente a si, mas também a seu cavalo, o qual segurava fortemente entre os joelhos. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 137

138 Os ditos neoliberais estão incorporados em nossa sociedade e pregam explicações com enfoque individualizante para situações e questões que são sociais e históricas. Mesmo as teorias da Psicologia e da Pedagogia apresentam-se condicionadas ao que está em destaque na educação e excluem a preocupação com os fundamentos filosóficos e epistemológicos. Em consequência dessa estrutura e de outras produzidas pelo processo histórico, crises fazem-se presentes na escola e também na prática docente. Assim, a psicologia históricocultural e a pedagogia histórico-crítica tornam-se possibilidades de reflexão sobre o significado do processo educativo na humanização do indivíduo e sobre a contribuição do professor neste processo. Não adianta nada retirar a culpa do aluno e colocá-la sobre o professor, o que estamos tentando esboçar nesse artigo é que é necessária a compreensão do processo histórico e suas nuances. Aqui podemos fazer o destaque quanto à importância da figura do professor na vida do aluno, que tanto a Teoria Histórico-Cultural enaltece. Afirmamos que se há progresso no aprendizado e no desenvolvimento do aluno, é porque o professor é fator fundamental nesse processo. E a teoria que Vigotsky formulou defende que o professor é um personagem decisivo e, por que não, a condição primeira para o processo de apropriação do conhecimento de seus alunos. A sua função ensinar significa intervir para que ocorra a internalização dos conceitos científicos por parte do aluno. O objeto de trabalho do professor deve estar pautado nas relações nas quais o aluno estabelece, e esta relação é histórica, envolve o contato com o outro, assim como o conceito de mediação. Podemos dizer que a finalidade central de seu trabalho deve ser a de socializar o conhecimento historicamente acumulado. Daí a importância de se possuir uma teoria a ser seguida, neste caso, uma teoria que considere o contexto histórico-social do indivíduo, as relações sociais, ou seja, no caso de nossa postura teórica, uma Teoria Histórico-Cultural, que traz um método coerente com a mesma. Por meio da compreensão do homem como um ser social e histórico, a psicologia e a educação podem humanizar este homem, não o reduzindo a categorias individuais isoladas e negativas. Shuare (1990) nos diz que a compreensão de fatos e fenômenos que se fazem presentes na individualidade é de origem histórico-social da psique humana. Geralmente, há um incômodo do professor ao ter que lidar com um aluno de distinta faixa 138 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

139 etária que está procurando aprender o conteúdo sistematizado, pois o aluno destoa, retira a homogeneidade aparente da sala de aula. Segundo Machado (2003), [...] quando as classes são organizadas tendo a ilusão da homogeneidade, as professoras que participam dessa decisão acreditam que estão fazendo o melhor para as crianças (p. 149). Mas, segundo Vigotsky (apud FACCI, 2004), a formação das funções psicológicas superiores decorre do caráter mediatizado da atividade humana (trabalho, uso de instrumentos, linguagem), que ampliou as possibilidades de compreensão e intervenção dos homens sobre a realidade. Para Vigotsky, todas as funções superiores originam-se como relações entre os homens, no coletivo, sendo a estrutura social o que as constrói. Entende-se o desenvolvimento das formas superiores de comportamento como um processo vinculado ao desenvolvimento social e histórico e as mudanças se dão conforme as transformações históricas e sociais. A escola necessita oferecer aquilo que há de melhor para o aluno, ou seja, deve propor a transmissão do conhecimento sistematizado, acumulado historicamente. Pois no desenvolvimento cultural da criança, toda função, para Vigotsky, é primeiro interpsíquica (nas relações interpessoais) e, então, intrapsíquica (interiorizada). Nesse sentido, o primeiro ponto a ser trabalhado seria a dificuldade da professora em ter uma aluna mais velha em sua sala, destoando sua turma. Após isso, a conscientização de que para a aluna também está sendo difícil ser a diferente, daí as dificuldades quanto às questões de relacionamento na escola. A dica que fica aqui é: sempre parta da observação do ser humano como um todo, ou seja, nos aspectos históricos, culturais e sociais. Até a próxima! Professora Gescielly Tadei PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 139

140 REFERÊNCIAS ABERASTURY, Arminda. O adolescente e a liberdade. In: ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Maurício. Adolescência Normal: um enfoque psicanalítico. Porto Alegre: Artes Médicas, ABRAPIA. Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência. Programa de Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes, Disponível em: <http://www.bullying.com.br/bconceituacao21.htm>. Acesso em: 16 mar ADORO CINEMA. Ponte para Terabítia. Disponível em: <http://www.adorocinema.com/ filmes/ponte-para-terabitia>. Acesso em: 28 de out. de ALVES, N. A invenção da escola a cada dia. Rio de Janeiro: D.P.& A, AMUDE, Amanda Mendes; SILVA-TADEI, Gescielly Barbosa da. O Movimento Educacional Brasileiro: uma análise a partir do modo de produção capitalista - Semana de Pedagogia da FAFIMAN (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Mandaguari). Mandaguari, ANTUNES, Mitsuko Aparecida Makino. A psicologia no Brasil: leitura histórica sobre sua constituição. São Paulo: Unimarco, ARAÚJO, Márcia Antônio Piedade. A Psicologia Social no Brasil um pequeno resgate. VIII Encontro Humanístico Nacional. São Luís, ARCA DO VELHO. Ao mestre com carinho. Disponível em: <http://www.arcadovelho.com.br>. Acesso em: 25 de out. de BALTAZAR, José Antônio. Bullying na escola. XII Encontro Paranaense de Psicologia. Curitiba, jun, BEAUDOIN, Marie-Nathalie; TAYLOR, Maureen. Bullying e desrespeito: como acabar com essa cultura na escola. Porto Alegre, BIBLIOTECA RUTH ROCHA. Livros e ilustrações. Disponível em: <http://www.salamandra. com.br>. Acesso em: 10 de out. de BOCK, Ana Mercês Bahia; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi; FURTADO, Odair. Psicologias 140 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

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148 GLOSSÁRIO Esse glossário foi organizado com a finalidade de ajudá-lo na compreensão de algumas palavras que estão situadas no decorrer das discussões. Caso enrosque em alguma terminologia, aqui você encontra o significado. - A - Agressividade Disposição para o desencadeamento de condutas hostis, destrutivas, fixada e alimentada pelo acúmulo de experiências frustradoras (PORTAL DA PSIQUÊ). - B - Behaviorismo O behaviorismo é uma corrente fundamental da psicologia, que surgiu nos Estados Unidos da América por volta do ano de Seu fundador é J. B. Watson. Segundo essa concepção, o objeto da psicologia é o comportamento empiricamente observável e que é possível de ser medido em unidades físicas (DIETRICH; WALTER, 1972). - C - Cognição É a aquisição de um conhecimento por meio da percepção. É o conjunto dos processos mentais usados no pensamento e na percepção, também na classificação, reconhecimento e compreensão para o julgamento através do raciocínio para o aprendizado de determinados sistemas e soluções de problemas. De uma maneira mais simples, podemos dizer que cognição é a forma como o cérebro percebe, aprende, recorda e pensa sobre toda informação captada através dos cinco sentidos (CIÊNCIA E COGNIÇÃO, 2010). Consciência O conceito de consciência psicológica indica a presença atual de vivências, imediatamente perceptível nas relações do sujeito-objeto e que se relaciona com a totalidade do mundo fenomenal (concreto, vivido) (DIETRICH; WALTER, 1972). 148 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

149 - D - Delimitações Fixar os limites, demarcar. Circunscrever, restringir, limitar: delimitar um assunto (DICIONÁRIO ON-LINE, 2010). - E - Estereótipos Forma de pensar sobre determinado indivíduo ou coisa, influenciada pelo contexto amplo em que esse indivíduo ou essa coisa são percebidos. A percepção (ou o juízo) que temos de indivíduos é muito comumente calcada em maneiras de pensar que fazemos derivar do que seriam os traços tidos como gerais daquele grupo psico-sócio-econômico a que esses indivíduos pertencem (ou pensamos pertencerem); mas por outro lado, e ao mesmo tempo também podemos seguir em nosso raciocínio um caminho contrário, ou seja, fazemos com que essas características tendam a serem aquelas que pensamos devam ser as do grupo a que os indivíduos pertencem. Portanto, criamos em nossa mente uma ideia baseada e influenciada pelo que pensamos sobre as circunstâncias gerais que rodeiam o grupo no qual o indivíduo pertence: é uma forma estereotipada de pensar, já que o indivíduo isolado pode não apresentar aquelas características (PORTAL DA PSIQUÊ). Epistemologia A epistemologia é o ramo da filosofia que estuda a origem, a estrutura, os métodos e a validade do conhecimento (ESTUDOS SOBRE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, 2010). - F - Fictício Que é irreal, inverossímil, fabuloso: personagem fictícia. Simulado, aparente, ilusório (DICIONÁRIO ON-LINE, 2010). PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 149

150 - G - Gestalt-terapia É uma síntese de várias correntes filosóficas, metodológicas e terapêuticas, formando uma teoria existencial, uma forma particular de conceber as relações do ser vivo no mundo (D ACRI; LIMA; ORGLER, 2007). - I - Interpessoal Que se realiza entre duas pessoas (DICIONÁRIO ON-LINE, 2010). Infantilizada Tornar infantil. Dar feição infantil a (LEXICO, 2010). - M - Motivação Aquilo que leva a agir (LEXICO, 2010). Maturação Estado do que se acha amadurecido; ato de maturar (LEXICO, 2010). - P - Paulo Freire Paulo Reglus Neves Freire nasceu no Recife, em 19 de setembro de 1921 e faleceu em São Paulo, no dia 2 de maio de Educador dedicado a Alfabetização de Jovens e Adultos (CENTRO PAULO FREIRE, 2010). Permeado 150 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

151 Penetrar; atravessar. Fazer passar pelo meio; furar (DICIONÁRIO ON-LINE, 2010). - S - Sensitivo Que pertence ou diz respeito aos sentidos ou às sensações: a vida sensitiva. Que tem a faculdade de sentir: órgão sensitivo (DICIONÁRIO ON-LINE, 2010). PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 151

152 INDICAÇÕES DE LEITURAS E CONSULTAS Temos na sequência quatro trabalhos, entre resumos e textos completos, que podem ser úteis para o seu processo de pesquisa acadêmica ou mesmo para a sua curiosidade em conhecer mais sobre as temáticas discutidas na área educacional. São trabalhos apresentados em congressos e encontros educacionais, meios esses que são destinados à discussão sobre a teorias e a práticas educacionais. Não esqueça! Esses trabalhos são apenas pequenas amostras sobre os temas abordados, por isso, se você tiver maior interesse, pesquise, discuta, avalie, pois é dessa forma que se enriquece o caminho de ser educador. TEXTO 1: SILVA-TADEI, Gescielly Barbosa da; FERRO, Luciana Sousa. A formação de professores sob a ótica construtivista algumas reflexões cabíveis. In: Seminário Internacional sobre História do Ensino de Leitura e Escrita: A Constituição do campo da história da alfabetização no Brasil, 2010, Marília. Anais do I SIHELE. Marília: UNESP, CD-ROM A FORMAÇÃO DE PROFESSORES SOB A ÓTICA CONSTRUTIVISTA AL- GUMAS REFLEXÕES CABÍVEIS FERRO, Luciana Sousa PEDAGOGIA /FANP/ / PARANÁ/BR SILVA-TADEI, Gescielly Barbosa da PEDAGOGIA /FANP/ / PARANÁ/BR EIXO TEMÁTICO: Formação e profissão docentes RESUMO: O presente texto apresenta uma análise sobre a influência da abordagem construtivista na formação dos professores. Adotado desde a década de 1980 nas escolas como a principal corrente do sistema educacional brasileiro isto significa mais de vinte anos de práticas pedagógicas construtivistas. Nosso interesse volta-se para compreender a influência do construtivismo no processo educacional brasileiro, atentando-nos para a demanda social existente no período de sua propagação no país. Palavras-chave: Construtivismo. Formação de Professores. Teoria Histórico-Cultural. 152 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

153 ABSTRACT: The present work presents an analysis about the influence of the constructivist approach in teachers formation. Adopted since the 1980 s at schools as the mainstream of brazilian educational system it means more than twenty years of constructivist teaching practices. Our interest turns to understand the influence of constructivism in the brazilian educational process, considering them to the social demand exists in the period of its spread in the country. Key words: Construtivism. Teachers Formation. Cultural-Historical Theory. Nosso trabalho parte de discussões quinzenais realizadas em grupo, no qual nos colocamos a pensar sobre as questões educacionais que permeiam a nossa atuação profissional. As questões que nortearam a discussão pautam-se em compreender qual a influência da teoria construtivista na formação dos professores, e o qual o impacto dessa questão na educação. Para argumentarmos tais questionamentos é importante entender o que é construtivismo, em qual momento histórico foi implantado no Brasil e por quê. A busca dessa teoria pretendeu atender ao alarmante fracasso escolar que ocorria nas séries iniciais do ensino fundamental. Diante dessa realidade as autoridades educacionais viram na teoria de Emília Ferreiro a possibilidade de reverter este quadro. De acordo com Mortatti (2000, p. 260) Os altos índices de repetência e evasão na 1ª série passam, desse modo, a ser entendidos como produzidos pela escola reprodutora, caracterizando-se como indicadores da marginalização e/ ou expulsão dos diferentes, ou seja, dos que não se ajustavam às normas impostas pela ideologia dominante reproduzida e salvaguardada por esta instituição. Do ponto de vista de uma escola que se queria democrática, no entanto, o fracasso não deve ser imputado ao aluno mas à própria escola, que não consegue oferecer condições de permanência digna nem ensino de qualidade àqueles a quem oferece a oportunidade de nela entrar. Em busca de superar esses problemas denunciados, a autora informa que o Estado de São Paulo, fundamentado pela teoria construtivista, implanta em 1983 o projeto do Ciclo Básico, desencadeando mudanças administrativas e didático-pedagógicas em toda a rede pública de ensino. Adotada essa teoria, ela passa a ser divulgada amplamente nos cursos de capacitação dos professores da educação básica paulista, aumentando significativamente a adesão de outros Estados por essa nova proposta de ensino. Buscando ocupar o vazio metodológico que existia na ação pedagógica dos professores, o Ministério da Educação passa a incorporar a teoria construtivista como leitura obrigatória nos cursos de formação inicial dos professores. Além disso, inicia no país uma ampla produção PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 153

154 bibliográfica sobre a nova teoria e, também, debates em congressos, seminários e eventos educacionais. Como resultado de vários anos desse processo, em 1996 foi elaborado os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNS), como uma referência curricular nacional para a educação brasileira objetivando a [...] construção de uma educação básica voltada para a cidadania [...] (PCNS INTRODUÇÃO, 1998, p. 9). Este documento foi amplamente divulgado e imposto para todas as escolas, tanto para rede pública quanto para a rede privada. Esta imposição fez gerar todo um acervo de livros didáticos escritos especificamente de acordo com as orientações dos PCNS, ocorrendo, assim, um interesse mercadológico pela venda dos materiais que seriam submetidos à avaliação do MEC (Ministério da Educação e Cultura). Dessa forma, o corpo docente e equipes pedagógicas das redes de ensino, mesmo sem analisar criticamente o novo documento e fazer um estudo reflexivo sobre ele, passaram a serem usuários desse material didático que chegavam às escolas e começaram a colocar em prática, no dia a dia com o trabalho do professor em sala de aula. A partir daí, no ensino, o compromisso fundamental do professor construtivista passou a ser com a formação do cidadão e seus direitos de cidadania, democratizando o saber humano. Seguindo essa nova teoria, [...] o trabalho do professor consiste em averiguar o que é que o aluno já sabe e como raciocina, com a finalidade de formular a pergunta precisa, no momento exato, de modo que o aluno possa construir seu próprio conhecimento [...] (MATUI, apud KAMII e DEVRIES, p.184). O professor assume, então, o papel de mediador, ou seja, é o elo entre o sujeito e o objeto de aprendizagem, é um processo que possibilita a assimilação, acomodação e organização do sujeito. Segundo Rosa (1998, p ) Não é preciso, assim, grande genialidade para reencontrar ou re-conhecer o papel do professor que pretende assumir o construtivismo como referencial teórico de sua prática. Ora, se entendermos que o processo de aprendizagem se desencadeia a partir da necessidade, do conflito, da inquietação; ou para usarmos a terminologia de Piaget, a partir de situações de desequilíbrio, parece necessário concluir que o papel do professor é o de desestabilizador. Entendemos aqui que o papel do professor é o de encorajar ao aluno através de atividades que lhe causem desequilíbrio colocando-o em ação. O aluno constrói seu conhecimento e o professor entra como mediador dessa construção questionando, interrogando e fazendo o aluno pensar por comparação, seriação, classificação, etc. 154 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

155 Fazendo uma leitura crítica sobre a influência do construtivismo na educação brasileira, tomaremos como pressupostos autores que discutem a influência negativa desta teoria na formação dos professores contrapondo-os com autores, acima citados, que apontam esta mesma teoria como a solução dos problemas do ensino-aprendizagem. A teoria construtivista é uma referência teórica que tem influenciado a atuação dos professores na contemporaneidade, por isso, boa parte dos educadores considera-a como a salvação da educação e de todo processo educativo. Desse modo, ao discutir a formação de professores sob a ótica construtivista, Arce (2000, p ) toma-a como análise do movimento pós-moderno e das políticas neoliberais da educação. Nesse sentido é questionado o pretenso caráter progressista das proposições construtivistas no Brasil, bem como levantada a hipótese de que tais proposições constituiriam mais um retrocesso do que um avanço, pois a negação da importância da apropriação do conhecimento por parte do professor em seu processo formativo, contribuindo assim o construtivismo para a desqualificação e a desprofissionalização do professor. Para a autora a desprofissionalização do professor ocorre a partir do momento em que se desloca o eixo do trabalho do professor para o aluno. O conteúdo não é o mais significativo, pois a ação pedagógica deve estar voltada para os procedimentos e atitudes reforçando [...] seu caráter de significativo e utilitário para a vida do aluno [...]. (ARCE, 2000, p. 53). Nessa mesma lógica, Facci (2007, p. 144) preocupa-se com o trabalho do professor construtivista, destacando que o ato de ensinar não é a prioridade dessa concepção [...] Na abordagem piagetiana, é a criança quem constrói o seu conhecimento por meio da ação, e os processos educacionais têm como objetivo respeitar e criar situações que favoreçam as atividades dos alunos. A preocupação da autora é significativa se considerarmos que na teoria construtivista as crianças não precisam ser ensinadas porque são sujeitos ativos, que ao procurar compreender a linguagem à sua volta, [...] formula hipóteses, busca regularidades, coloca à prova suas antecipações e cria sua própria gramática (que não é simples cópia deformada do modelo adulto, mas sim criação original) [...] (FERREIRO, 1991, p. 22). Em função desse entendimento, a criança passa a ser considerada a construtora do seu próprio conhecimento a partir do que vê, sente e seleciona do que está à sua volta. O resultado disso é que a formação dos professores tem ocorrido de forma aligeirada, isolada do próprio processo histórico, voltada PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 155

156 para a educação utilitária que atenda às necessidades imediatas das políticas mercadológicas, isto é, que forme a mão de obra necessária para manter os interesses do capital. Para atender a esta demanda Duarte (2006, p. 7-10) denomina o lema aprender a aprender como o forte movimento educacional dos ideais pedagógicos contemporâneos. No entanto, o autor afirma que esse lema está carregado de quatro posicionamentos valorativos, que foram assim definidos: [...] O primeiro posicionamento valorativo que define o lema aprender a aprender pode ser assim formulado: são mais desejáveis as aprendizagens que o indivíduo realiza por si mesmo, nas quais está ausente a transmissão, por outros indivíduos, de conhecimentos e experiências [...] O segundo posicionamento: é mais importante o aluno desenvolver um método de aquisição, elaboração, descoberta, construção de conhecimentos, do que esse aluno aprender os conhecimentos que foram descobertos e elaborados por outras pessoas [...] O terceiro posicionamento valorativo seria o de que a atividade do aluno, para ser verdadeiramente educativa, deve ser impulsionada e dirigida pelos interesses e necessidades da própria criança [...] O quarto posicionamento valorativo é o de que a educação deve preparar os indivíduos para acompanharem a sociedade em acelerado processo de mudança Diante dessa análise existe uma desvalorização dos estudos teóricos e, hoje, o educador estuda a prática pela prática buscando, muitas vezes, receitas de ensino. O trabalho que os professores realizam não tem nada de teoria pedagógica e por, isso, justifica-se não discuti-las mais nas universidades. O argumento é de que elas não teriam impacto nas práticas cotidianas das escolas. Concorda-se que na prática o professor não realiza de forma pura uma teoria pedagógica, entretanto, não significa que a prática pedagógica realiza-se sem a influência das teorias. O professor pode não saber da influência, mas elas acontecem. Duarte (2006) analisa que a pedagogia do Aprender a aprender apresenta uma linguagem sedutora dificultando, desta forma, a leitura das entrelinhas, reforçando a formação do indivíduo com alta capacidade de adaptação e flexibilidade ao mercado de trabalho. Impossibilita a posição crítica dos alunos, anula qualquer projeto de crítica à sociedade capitalista. O trabalho docente perdeu, ao longo da história, as suas características gerando uma sensação de [...] mal-estar, de desânimo e mesmo de descontentamento com o próprio trabalho [...]. (FACCI, 2004, p.29). Esses sentimentos podem ser observados empiricamente no dia a dia das escolas, quando são diagnosticados os altos níveis estresse, depressão, apresentados nos resultados dos atestados de saúde que chegam diariamente às escolas. 156 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

157 Desta forma o professor, individualiza-se no seu trabalho, reduz seu potencial e torna-se um sujeito alienado; sente-se infeliz com o que faz e esgota suas energias físicas e mentais aborrecendo-se consigo mesmo e com o sistema educacional vigente. Isto torna seu trabalho uma obrigação, um sacrifício que muitas vezes o martiriza e o sufoca, provocando sentimentos de angústia e impotência. A sociedade vive em um momento histórico da negação da ciência, da prática sem a reflexão, enfatizando a competência e a espontaneidade que favorece o imediatismo, a subjetividade, perdendo, com isso, a capacidade de refletir. Precisa-se resgatar o conhecimento científico e os saberes elaborados historicamente, visando uma educação transformadora. Nesse contexto, o trabalho docente não pode estar alheio a estas dimensões, se devem ter mudanças, o professor tem que realizá-las dentro e fora da escola, no seu papel de educador e de revolucionário. Para isso, é necessário que haja um trabalho educativo que, para Saviani (1991b, p. 21), é [...] o ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens [...]. E uma ação pedagógica revolucionária implica conhecer os elementos repressivos implícitos nos espaços sociais, é romper com a ignorância do saber e lutar pela igualdade real entre os homens, tendo como ponto de partida a prática social. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 157

158 REFERÊNCIAS ARCE, Alessandra. A Formação de Professores sob a Ótica Construtivista: Primeiras Aproximações e Alguns Questionamentos. In: DUARTE, N. (org.). Sobre o Construtivismo: contribuições a uma análise crítica. Campinas, SP: Autores Associados, 2000, p BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: introdução. Brasília: MEC/ SEF, DUARTE, N. Sociedade do conhecimento ou sociedade das ilusões?: quatro ensaios crítico-dialéticos em filosofia da educação. Campinas, SP: Autores Associados, (Coleção polêmicas do nosso tempo, 86). FACCI, M. G. D. Professora, é verdade que ler e escrever é uma coisa fácil?- Reflexões em torno do processo ensino-aprendizagem na perspectiva vigotskiana. In: MEIRA, M.E. M; FACCI, M. G. D. (orgs.). Psicologia Histórico-Cultural: Contribuições para o encontro entre a subjetividade e a educação. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007, p Valorização ou esvaziamento do trabalho do professor?: um estudo críticocomparativo da teoria do professor reflexivo, do construtivismo e da psicologia vigotskiana. Campinas, SP: Autores Associados, (Coleção formação de professores) FERREIRO, E.; & TEBEROSKI, A. Psicogênese da língua escrita. 4ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas, MATUI, Jiron. Construtivismo: teoria construtivista sócio-histórica aplicada ao ensino. São Paulo: Moderna, MORTATTI, M. R. L. Os sentidos da alfabetização: (São Paulo/ ). São Paulo: UNESP: CONPED, ROSA, S. S. DA. Construtivismo e mudança: [prefácio de Antonio Joaquim Severino]. 6.ed. São Paulo, Cortez, Coleção Questões da Nossa Época; v. 29). SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. São Paulo: Cortez e Autores Associados, PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

159 TEXTO 2: AMUDE, Amanda Mendes; SILVA, Gescielly Barbosa da. A Deficiência sob o prisma da Teoria Histórico-Cultural: uma análise crítica sobre o documentário as borboletas de Zagorsky. In: II CONALI: Congresso Nacional de Linguagens em Interação, 2008, Maringá, Anais...Maringá: UEM, CD-ROM. A DEFICIÊNCIA SOB O PRISMA DA TEORIA HITÓRICO-CULTURAL: UMA ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O DOCUMENTÁRIO AS BORBOLETAS DE ZA- GORSKY. AMUDE, Amanda Mendes 10 SILVA, Gescielly Barbosa da 11 Me dá a mão e direi quem és. Frase dita por Natasha no documentário As Borboletas de Zagorsky. RESUMO: No presente trabalho abordamos a questão da deficiência sob o prisma da Teoria Histórico-Cultural, a partir do filme As Borboletas de Zagorsky. Em um primeiro momento trouxemos um breve histórico sobre a deficiência. Posteriormente elegemos um membro do filme, no caso, Natasha, para que pudéssemos recorrer a falas dessa participante para subsidiar nossa discussão. Por fim, entrelaçamos a história da deficiência ao caso de Natasha, para então analisarmos a deficiência sob o prisma da Teoria Histórico-Cultural. Uma de nossas principais preocupações, durante a escrita do artigo, foi mostrar a dedicação que o psicólogo russo Vigotski possuía ao lidar com o ser humano, abrangendo essa postura aos demais profissionais da área da psicologia, destacando a atuação daqueles que trabalham com a Psicologia Histórico-Cultural. As autoras que nortearam nossa discussão foram: Barroco (2006); Facci (2004) e Rego (1995); Fizeram-se presentes, também, em nosso texto: Amaral (1998); Carone (1998) e Pessoti (1984). Palavras-chave: Deficiência. Teoria Histórico-Cultural. Documentário As Borboletas de Zagorsky. 10 Psicóloga graduada pela Universidade Estadual de Maringá, aluna do Curso de Especialização em Teoria Histórico-Cultural e mestranda em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Maringá Psicóloga graduada pela Universidade Estadual de Maringá, Especialista em Teoria Histórico-Cultural e Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Maringá. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 159

160 1 INTRODUÇÃO Não há como compreender e auxiliar questões do presente sem recorrermos à história dos fatos passados. Por isso, na escrita de nosso artigo, buscamos autores que trabalham a história da deficiência humana desde os tempos mais remotos, até a atualidade. Assistir ao documentário As Borboletas de Zagorsky nos instigou a buscar a compreensão e atuação sobre o caso da deficiência. Para tanto, escolhemos o caso de Natasha, uma exaluna da escola de Zagorsky, que, com o auxílio dos professores da escola, conseguiu para uma relativa independência, apesar da surdo-cegueira. Ela conseguiu reorganizar seu mundo e redirecionar sua atuação no mesmo. Entrelaçar o histórico da deficiência ao caso de Natasha e a ação dos psicólogos, tendo como base a atuação e preocupações de Vigotski quanto ao ser humano, foi o nosso intuito na terceira parte do artigo. Mas, nossa principal preocupação durante o processo de escrita, foi mostrar a importância de se enxergar e conceber o homem como um todo, como um ser pleno. Enquanto psicólogas, atuantes na Teoria Histórico-Cultural, pensamos que essa é a postura adequada, pois se não agirmos dessa maneira estaremos tratando a deficiência, e não o ser humano que nos procura. 2 DEFICIÊNCIA: UM POUCO DE HISTÓRIA A deficiência é um termo relativamente antigo, é algo difícil de lidar e resulta muitas vezes no sentimento de indiferença ou na rejeição. Pessotti (1984) diz que o termo deficiência não é mencionado no período que antecede a Idade Média, até então os deficientes eram misturados com os doentes mentais. Mas, a partir do momento que os ideários cristãos entraram em voga, os deficientes passaram a ser mais bem acolhidos. Em Portugal, no ano de 1400 foi instituída a Casa de Misericórdia, um sistema rotatório que era conhecido como roda. Dentre os recém-nascidos muitos deficientes eram abandonados. Ainda no século XIII ocorreu a fundação da primeira instituição para deficientes. Anos mais tarde diferenciou-se os doentes mentais dos deficientes mentais. Que passaram a ser o foco de misericórdia, devido aos ideais cristãos de bondade sendo favorecidos por meio 160 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

161 da caridade. Mas, mesmo com tais ideias, termos como idiota, imbecil e cretino, foram usados por um longo período para se fazer menção aos deficientes. Na Rússia, o atendimento às pessoas com deficiência faz referência a Idade Média. Pela tradição da Igreja Ortodoxa Russa, que prestava seu atendimento a essas muitas pessoas, muitas vezes tinha-se o demente e o profundamente atrasado como joias de Cristo, as doçuras da Santa Rússia, ante a suposta abnegação que apresentavam (BARROCO, 2006, p. 02). No período da Inquisição (século XIV) as principais vítimas eram as mulheres, os pobres e os deficientes mentais, por suspeitas de possessão demoníaca. Além disso, a lei só favorecia os que tinham bens financeiros. No século XVII Calvino traz a condenação dos loucos e imbecis, ou seja, doentes e deficientes mentais. A partir de então se começou a tirar da religião as explicações para a deficiência mental procurando-se uma explicação pautada no organismo físico. O médico passa a ter o poder que antes era da Igreja e da Nobreza, dando o veredicto sobre o correto ou incorreto, sobre o saudável ou o não saudável. Acreditava-se que o deficiente era alguém incapacitado de dirigir sua afetividade aos demais. Carone (1998) ressalta que com a Revolução Francesa a questão da igualdade é posta em questão. O próprio Cristianismo trazia a igualdade perante Deus, que foi ao longo do tempo, aperfeiçoada e codificada como igualdade perante a lei, que afirma que todos os cidadãos são iguais, sem distinção de qualquer natureza, embora se afirme concomitantemente que as desigualdades sociais e regionais devem ser reduzidas pela ação do Estado, por meio da erradicação da pobreza e da marginalização. É o princípio da democracia. É nesse bojo que as questões relativas à deficiência vão ganhando espaço e voz. No final do século XIX começam a surgir escolas para os deficientes. Pessotti (1984) afirma que embora o indivíduo tenha algum tipo de deficiência existem nele potencialidades a serem descobertas, por isso é preciso que se trabalhe com a parte sadia do deficiente. Ao lermos Amaral (1998) entendemos que a autora chama a atenção para a necessidade de se trabalhar com o deficiente, tal como afirma Pessotti (1984), deve-se compreender a diferença significativa, desvio ou anormalidade. Para se compor, se eleger o diferente, é necessária a eleição de critérios, sejam eles estatísticos, de caráter estrutural/ funcional, ou de cunho psicossocial, como o tipo ideal. A autora afirma que devemos reconhecer que a anormalidade PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 161

162 e a normalidade existem, mas o que efetivamente interessa é problematizar os parâmetros que definem tanto uma quanto a outra. Dessa forma, podemos pensar a anormalidade como uma forma inovadora, não somente como uma patologia, mas como uma expressão da diversidade da natureza e da condição humana, seja qual for o critério utilizado. Compreendemos que o deficiente traz consigo um estigma, o tratamento para com ele é cheio de estereótipos e preconceitos, e muitas vezes ocorre a culpabilização do indivíduo, exigindo-se deste uma força e desenvoltura que ultrapassam a sua capacidade de apreensão. Com as leituras de Amaral (1998), entendemos que o preconceito é baseado em conteúdos emocionais como amor, atração, medo. Ele passa pela nossa visão de mundo e de homem e subjaz de informações tendenciosas prévias ou do desconhecimento. Nas relações humanas a concretização desse preconceito ocorre pela relação vivida com o estereótipo, e não com a pessoa. Nosso mundo está repleto de estereótipos, que nada mais são que a concretização do preconceito. Na deficiência existem também estereótipos quanto ao tipo de deficiência, como o deficiente físico ser o revoltado ou o gênio intelectual. Existe ainda o trio: herói, vítima e vilão. Carone (1998) esboça melhor essa tríade. A figura do herói seria a daquele vencedor, o triunfador que esconde sua dor. A vítima é o coitadinho, o pobrezinho, aquele que necessita de ajuda. A pessoa fica estacionada num papel passivo. O vilão traz a questão do respeito ganho devido ao medo que causa aos outros, geralmente é detestável. Sente que tem poder e que as pessoas o respeitam por isso. Essa tríade causa um efeito no outro e a consequência é o ganho secundário, que atua como um amenizador da deficiência e passa, muitas vezes, a tomar o lugar da mesma. Nesse sentido, entendemos que o psicólogo necessita se questionar sobre as potencialidades do indivíduo deficiente será que esse indivíduo realmente é incapacitado de se desenvolver e de aprender algo? Foi com esse olhar assistimos e analisamos o documentário As Borboletas de Zagorsky. 162 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

163 3 DOCUMENTÁRIO: AS BORBOLETAS DE ZAGORSKY Nesse documentário nos deparamos com uma instituição que cuida de pessoas com necessidades especiais, como a deficiência visual, a auditiva e a auditiva-visual, na ex-união Soviética. No documentário observamos algumas pessoas, uma delas é Natasha. Ela ficou cega e surda aos nove anos de idade, aos treze anos chegou a Zagorsky (escola montada no ano de 1963) e foi educada, a partir de então, pelo método do psicólogo russo Vigotski 12. Hoje ela é mãe, filósofa e psicóloga. Natasha e seu esposo propagam a teoria Vigotskiana por meio de seus estudos. Afirma que estudou para que pudesse ajudar outras crianças a não sofrerem as amarguras que ela sofreu. Segundo Natasha, sua percepção do mundo era confusa, pois mesmo cega e surda ela tentava enxergar com os olhos e ouvir com os ouvidos. Seu mundo ficou caótico. Mas, quando ela descobriu que poderia ver e ouvir com as mãos, seu mundo passou a ter uma ordem novamente. No início de seu estado de surdo-cegueira ela via imagens que não existiam e seu corpo a levava a lugares que ela não queria ir. Tudo o que ela tentava fazer dava errado. Em Zagorsky ela aprendeu a organizar seu mundo, ao utilizar suas mãos para se comunicar ela estava fazendo o uso de vias colaterais de aprendizagem para a reorganização de uma estrutura caótica. Com esse método os professores centram-se na zona de desenvolvimento proximal da criança em busca do desenvolvimento da mesma (REGO, 1995). Três questões chamaram nossa atenção durante o documentário, à avaliação era mediada; não se fazia julgamento final acerca da deficiência; e na avaliação o psicólogo corrigia os erros da criança. Vigotski achava que o deficiente deveria ser estimulado. As mais sérias dificuldades psicológicas podem ser compensadas com atividades físicas e intelectuais. Natasha acredita que se não tivesse sido ensinada estaria realizando um emprego sem sentido e sendo um peso para a sua família. Hoje ela sente-se livre, independente e realizada. Um dos mentores de Zagorsky foi Mescheryakoo, nessa escola uma das prioridades era o investimento no professor. Para montar a escola, a universidade de Moscou treinou os professores por dois anos. 12 Psicólogo russo que tinha como interesse central de seus estudos a gênese dos processos psicológicos tipicamente humanos em seu contexto histórico-cultural (REGO, 1995). PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 163

164 Para que houvesse uma relação entre a Escola e a Comunidade Universitária, os professores da universidade receberam quatro alunos surdo-cegos. Esses alunos tinham que fazer seminários, no início não eram compreendidos, mas receberam auxílio. Todos se formaram e tornaram-se especialistas. Eles retornaram a escola para devolver os conhecimentos recebidos ajudando os demais alunos. É uma educação cara, mas uma verdadeira educação inclusiva, podemos dizer que possui uma semente humanitária. Mas devido à falta de incentivo esse trabalho pode ser extinto, além disso, o instituto está perdendo os preceitos de Vigotski quando estuda mais a deficiência que a superação. No ocidente, por sua vez, esse trabalho ainda nem começou. No Brasil, por exemplo, temos o Instituto Benjamin Constant no Rio de Janeiro que estuda e apoia a surdo-cegueira, mas não pode ser comparado a Zagorsky. Observando o caso de Natasha, percebemos que é necessário um trabalho pautado nas vias colaterais de desenvolvimento. Acreditar no ser humano significa buscar sua compreensão de homem e de mundo e sua atitude no meio em que vive. Ajudar na educação do ser humano é auxiliá-lo para que se torne independente, assim como fizeram com Natasha. A partir da observação do referido caso, analisaremos o documentário sobre a forma de atuação dos profissionais que trabalhavam em Zagorsky. 4 ANÁLISE DO DOCUMENTÁRIO: AS BORBOLETAS DE ZAGORSKY. Iniciamos nosso trabalho trazendo autores que discutem sobre a questão da deficiência ao longo do tempo. Embora esses autores (Pessotti, Carone, Amaral) não comunguem do referencial histórico-crítico, ressaltamos que buscamos neles a historicidade dos fatos referentes ao tema deficiência. Percebemos as diferentes denominações e cogitações que essa condição humana teve durante os séculos e de como os seres humanos aprenderam a lidar com ela, seja por meio de estereótipos, do preconceito ou mesmo de uma aceitação aparente. No filme As Borboletas de Zagorsky, apreendemos algumas questões, uma delas é que não cabe a nós psicólogos fazermos julgamentos finais. Devemos prestar atenção em como a criança aprende, o que ela aprende, do que se esquece, do que se lembra... na realidade 164 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

165 devemos estar atentos à criança que chega até nós, de uma forma plena. Ao observarmos o filme, notamos que um dos pontos primordiais a serem ressaltados é a questão de se tornar o sujeito independente. Quando Natasha chegou à Zagorsky, seu mundo estava desorganizado ela estava perdida, na escola ensinaram Natasha a ser novamente humana, a se localizar no tempo e no espaço, a se comunicar com os demais. Essa tarefa foi árdua, e os professores lidavam diretamente com os alunos deficientes. Verificamos que a meta era tornar o aluno independente, fazer com que este fosse útil em sua vida social, pois mesmo deficiente ele atua sobre a natureza e também a transforma, não está alheio ao processo. Para tanto, a atuação estava pautada sobre a zona de desenvolvimento próximo, a qual compreende aquelas atividades que a pessoa não consegue realizar sozinha, mas que é capaz de desenvolver com a ajuda de um mediador (REGO, 1995). Vimos que, para Vigotski, a questão a ser trabalhada era sempre o homem em seu processo de humanização. Como Vigotski tinha a filosofia marxista para a fundamentação básica de sua teoria, temos que educar um ser humano é uma atividade social e política (BARROCO, 2006). Observamos o direcionamento do ensino, a coordenação do processo pelo professor. O saber científico a ser transmitido era o foco do trabalho em Zagorsky. Essa é a defesa de Vigotski, levar o aluno a apreensão do conhecimento científico elaborado e sistematizado historicamente, esse processo engloba tanto os alunos ditos normais quanto os alunos deficientes. Para Vigotski o homem é o fruto de múltiplas determinações. A educação, partindo desse ponto de vista, tem o [...] propósito da formação do homem cultural; que se vale de comportamentos instrumentais para estar no mundo; homem consciente e comprometido com uma nova sociedade e que, ante ela, se auto-regula e se auto-governa pelo pensamento verbal. Tanto quanto possível, a direção da educação é esta: levar as pessoas a apreender o mundo humanizado por alguma forma de linguagem, e por tal meio se humanizar e interferir sobre esse mundo (BARROCO, 2006, p.06). A ênfase de todo o processo está na formação do homem socialmente útil ao seu meio, e isso se estende em igual forma ao deficiente. A educação social é que pode operar milagres: fazer cegos enxergarem, surdos-mudos ouvirem e falarem, atrasados mentais abstraírem, cegos-surdos-mudos se comunicarem e pensarem, deixando de vegetar (BARROCO, 2006, p.07). Essa afirmação pode ser exemplificada ao observarmos Natasha, ela tinha tudo para ser alheia, para ser um ser não humano, contudo, o investimento em sua educação permitiu que PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 165

166 ela se socializasse, estudasse e tivesse uma vida sadia e equilibrada. Isso não significa afirmar que Natasha é completamente independente. Em um caso de severo surdo-cegueira como o dela, o outro é a referência, o outro será sempre a referência, por isso um surdo-cego nunca terá a independência plena. No caso de Natasha, seu esposo a guiava, a ajudava em sua locomoção em ambientes externos, enfim, ele era seu condutor. Enquanto ouvíamos o depoimento de Natasha e sua narrativa sobre seu processo de aprendizagem, vimos que a organização é externa ao indivíduo, por isso entendemos que o direcionamento do processo de aprendizagem é fator primordial, sendo assim, muito necessário. Facci (2004) já nos chamou a atenção para esse fato em seu livro: Valorização ou esvaziamento do trabalho do professor?: um estudo crítico-comparativo da teoria do professor reflexivo, do construtivismo e da psicologia vigotskiana. Nesse livro ela aborda o trabalho do docente sob a perspectiva da teoria Histórico-Cultural. Um dos pontos que complementou nossa leitura para esse trabalho foi o fato de que o direcionamento da ação docente é algo necessário, como o anteriormente exposto, e que dar as diretrizes para esse processo não é um crime, mas algo cabível e realizável. No documentário, vimos que é possível uma educação para deficientes. Com Vigotski, as leis que governam o desenvolvimento nas diferentes deficiências permitem que se entenda o desenvolvimento regular (BARROCO, 2006, p.07). Observar o deficiente é compreender a direção do desenvolvimento humano, desde o nascimento até a formação das funções psicológicas superiores que se instalam a partir da relação do homem com o meio social. Os órgãos biológicos são órgãos sociais e a vida particular está incrustada a vida da sociedade. Gostaríamos ainda de ressaltar que no caso de Natasha, ela precisou de vias colaterais para que seu processo de desenvolvimento continuasse. Isso significa que ela já não podia ouvir com seus ouvidos e enxergar com os seus olhos, pois se assim o fizesse seu mundo ficaria caótico. Mas, ela foi direcionada a utilizar as mãos para a sua comunicação com o mundo, para a sua aprendizagem e socialização. Essa atitude fez com que ela compensasse a ausência funcional de seus órgãos e fez com que ela retomasse sua relação com o mundo externo. A compensação pode levar a um processo de humanização e de socialização positivo ou não. Por meio dos escritos de Vigotski, a deficiência não explicita somente o negativo, o déficit, mas traz em si a força, o positivo elementos contraditórios dentro 166 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

167 de um mesmo fenômeno que lutam entre si (BARROCO, 2006, p. 08). Por isso, não achamos cabível a tríade que mencionamos no início do texto, aquela que traduz o deficiente como: herói, vítima ou vilão. Entendemos que o homem é um ser passível de desenvolvimento. Na obra de Vigotski encontramos explanações sobre o desenvolvimento do homem em sua totalidade, normal ou deficiente, observamos que se investirmos no processo educacional do indivíduo seu desenvolvimento será possível. O caso de Natasha complementa e ilustra nossa colocação. Natasha afirma gostar de sua experiência e admirar o investimento feito em sua pessoa, afirma que se isso não tivesse sido feito ela provavelmente seria um peso para sua família ou estaria executando um trabalho medíocre. Não negar a deficiência é outro grande passo. Vimos que ao se enxergar a deficiência e não se fazer um prognóstico da mesma é um ponto importantíssimo [...] não negando estas, mas buscando nelas explicações para a constituição do psiquismo do homem comum a exceção ajuda a explicar a regra (BARROCO, 2006, p. 09). Compreendemos que essa seria a verdadeira inclusão, um convívio respeitável com a diferença deveria ser contemplado em nossas relações com o social, nossa convivência entre seres humanos seria enriquecida e acrescida. No momento em que assistimos ao documentário, percebemos o quanto Vigotski se preocupava com o ser humano, com a condição humana, e o quanto ele acreditava no homem e em sua capacidade física, emocional, mental e psicológica. Queremos colocar também o quanto Vigotski valorizava as teorias e métodos existentes. Em Zagorsky eram utilizadas as técnicas do behaviorismo, mas com o conhecimento profundo da teoria. Utilizavam a técnica, mas o olhar com que a interpretavam era diferente, era um olhar e uma interpretação de forma ampliada, buscando a totalidade do sujeito. Os testes, por exemplo, eram mediados. Vigotski nos mostra que é a preocupação na compreensão do homem em seu contexto histórico e social que auxilia no processo de tratamento do mesmo. Ele não contraria teorias psicológicas, pelo contrário, ele as supera, mostra sua utilização e vai além das mesmas, uma vez que sua concepção de homem é ampla e baseada no marxismo. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 167

168 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Pensamos que é a preocupação de Vigotski que precisa nortear o trabalho psicológico realizado por nós, uma vez que quem chega até o psicólogo é um ser humano pleno, e não a deficiência em si. Era o que os professores faziam em Zagorsky, recebiam o aluno e tratavamno como um todo, para além da deficiência apresentada pelo mesmo. Observamos que é uma forma de atuação que dá resultado, afinal, Natasha conseguiu reorganizar seu mundo, e ao invés de olhos para enxergar e ouvidos para ouvir, ela passou a ver e ouvir com as mãos... e isso lhe deu a autonomia necessária para que pudesse viver e sobreviver diariamente às questões impostas a sua vida. Todas essas informações nos fizeram pensar a respeito de nosso trabalho enquanto psicólogas. Acreditamos que o psicólogo deve agir com compaixão, pois se não agir assim poderá cair no julgamento da pessoa com deficiência, podendo até mesmo classificá-la como herói, vítima ou vilão, ou mesmo adotando um discurso já pronto acerca da inclusão. Profissionais sem a clareza de seu papel pautam-se em dizer o que se deve ou não deve fazer, ao invés de refletir filosoficamente sobre o desenvolvimento e estrutura do ser humano que é histórico e social. 168 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

169 REFERÊNCIAS AMARAL, Lígia Assumpção. Sobre Crocodilos e Avestruzes: falando de diferenças físicas, preconceitos e sua superação. In: AQUINO, Júlio Groppa. Diferenças e preconceitos na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo, Summus, BARROCO, Sônia Mari Shima. Vigotski, a educação especial soviética e a defectologia: a formação de um novo homem com deficiência. In: Anais do III Simpósio A Educação que se Faz Especial. Maringá: UEM, CARONE, Iray. Igualdade versus diferença: um tema do século. In: AQUINO, Júlio Groppa. Diferenças e preconceitos na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo, Summus, FACCI, Marilda Gonçalves Dias. Valorização ou esvaziamento do trabalho do professor?: um estudo crítico-comparativo da teoria do professor reflexivo, do construtivismo e da psicologia vigotskiana. Campinas: Autores Associados, PESSOTTI, Isaías. Deficiência Mental: da superstição á ciência. Edusp: São Paulo, REGO, Tereza Cristina. Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da Educação. Petrópolis: Vozes, TEXTO 3: AMUDE, Amanda Mendes; FERRO, Luciana Sousa; SILVA-TADEI, Gescielly Barbosa da. A inserção do cego na escola algumas pontuações. In:I Congresso Nacional Diversidade, Ética e Direitos Humanos. 2010, Itapetinga/BA. Anais... Itapetinga: UESB, CD-ROM Eixo Temático: Formação de Professores, Diversidade e Inclusão Escolar. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 169

170 A INSERÇÃO DO CEGO NA ESCOLA ALGUMAS PONTUAÇÕES FERRO, Luciana Sousa FANP 13 AMUDE, Amanda Mendes UEM 14 SILVA-TADEI, Gescielly Barbosa da FANP 15 RESUMO: o presente artigo objetiva a discussão acerca do aluno cego que ingressa no ensino escolar regular. É uma pesquisa bibliográfica pautada no referencial teórico da Teoria Histórico- Cultural (THC). A divisão do trabalho está disponibilizada da seguinte maneira: Introdução; posteriormente trazemos discussões sobre a inclusão na atualidade, em especial o caso do Brasil; num terceiro momento focalizamos a educação da criança cega numa perspectiva sócio-histórica vigotskyana; e finalizamos o texto com as considerações finais. Os principais autores utilizados foram: BRUNO (2007); FACCI (1998); TESSARO (2004); VIGOTSKY ( ); WALTER, SILVA (2006). Palavras- chave: Teoria Histórico-Cultural. Visão Sócio-Histórica. Cegueira. para contato: 1 INTRODUÇÃO Este trabalho possui o objetivo de pontuar a possibilidade de inclusão da criança cega no ensino regular, verificando como esse fator tem se consolidado na prática escolar, na medida em que observamos o surgimento de leis que tem apoiado iniciativas como essas. Trata-se de um trabalho de caráter bibliográfico, no qual foi utilizado como referencial teórico-metodológico a teoria histórico-cultural. Dessa maneira, buscamos a dialética para a investigação e explicação do tema proposto, levando sempre em conta a vinculação e a interdependência dos fenômenos levantados e sua não o processo linear dos mesmos. Apoiamos-nos em Luckács (apud FACCI, 1998) para justificarmos que a contradição foi eleita como categoria fundamental, enquanto expressão da inter-relação entre o particular e 13 Pedagoga. Especialista em Teoria Histórico-Cultural. Psicopedagoga. Professora Universitária na FANP (Faculdade Norte Paranaense) Psicóloga, especialista em Teoria Histórico-Cultural e Mestre em Educação pelo PPE/UEM. com. 15 Psicóloga, especialista em Teoria Histórico-Cultural e Mestre em Educação pelo PPE/UEM. Professora Universitária na FANP (Faculdade Norte Paranaense) PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

171 o universal. Partindo dos postulados vigotskyanos, compreendemos que o desenvolvimento da criança deficiente é igual ao desenvolvimento de todas as outras crianças. Partindo dessa colocação, podemos entender que para educar a criança cega é imprescindível conhecer o seu processo de desenvolvimento, dessa forma, não priorizamos a deficiência e a insuficiência em si, mas sim o ser humano que é portador da deficiência. A teoria vigotskyana defende a ideia de interação entre o organismo e o meio, e entende a aquisição de conhecimento como um processo construído pelo indivíduo durante toda a sua vida. Desta forma, crianças cegas devem ser educadas em ambientes que lhes proporcionem maior interação, ao invés de apenas terem contato com crianças na mesma situação, pois se a criança cega for educada de maneira isolada das crianças videntes, seu desenvolvimento ocorrerá de maneira mais restrita (VIGOTSKY, 1997). É por esta base teórica que o Paradigma da Inclusão se alicerça para promover a inserção social da pessoa deficiente no ensino regular. Mas, o que é inclusão? Por que essa discussão em épocas atuais? O Sistema educacional Brasileiro está realmente focado em discussões práticas a respeito da criança deficiente, seja ela cega, surda ou deficiente física? Vamos discutir um pouco acerca desses pontos no texto que segue. 2 A INCLUSÃO NA ATUALIDADE o caso do Brasil O discurso acerca da Inclusão surgiu por volta da década de 1960, mas foi somente na década de 1980 que o conceito de sociedade inclusiva e diversidade ganharam maior visibilidade, alcançando uma proporção maior de posicionamentos e opiniões a respeito do tema. Após a promulgação da Constituição no ano de 1988, os governos sucessores tiveram como meta a implantação de um projeto político-econômico vinculado aos interesses do capital internacional. Não nos esqueçamos de que estamos em uma sociedade globalizada regida pelos interesses neoliberais. É nesse contexto que podemos discutir a questão da inclusão da deficiência no cenário educacional. Entendemos que a educação é percebida como uma formadora do capital humano. Patto (1987), a partir de uma leitura crítica sobre homem e sociedade, enxerga a escola, em especial, PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 171

172 a partir da década de 1960 como uma promotora do desenvolvimento para o país. Esse período, segundo a autora, é a fase da internacionalização do mercado interno e a técnica passa a ser enfatizada para a preparação de trabalhadores para as indústrias. Por isso a ênfase à escola técnica e a justificativa do estudo para o emprego, por isso a atuação do Estado sobre os métodos educacionais sob a prerrogativa de que é pelo estudo que há novas chances de emprego, e com o emprego o crescimento do país com vistas a maior circulação monetária. Questionamos então como fica o deficiente nesse contexto? E o seu acesso à escola?. De acordo com a Declaração de Salamanca (1994), a educação deve ser para todos, os deficientes devem ter acesso à escola regular, a qual deve acomodá-los dentro de uma Pedagogia centrada na criança, e capaz de satisfazer as necessidades apresentadas. Nessa conferência, segundo Caiado (2006), fizeram-se presentes 92 governos e 25 organizações internacionais. O governo brasileiro não esteve presente, mas a Coordenadoria Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE), vinculada à Secretaria dos Direitos Humanos, do Ministério da Justiça, manifestou apoio e publicou e divulgou amplamente o documento aprovado (CAIADO, 2006, p. 19). Notamos a aderência nacional aos postulados decretados pela Declaração de Salamanca. O Brasil, mesmo não tendo mandado nenhum representante, vem tentando colocá-la em prática, embora no papel seja mais efetivo do que na prática. Isso ocorre em função do pouco investimento, não apenas no processo de inclusão escolar da pessoa deficiente, mas no sistema educacional como um todo (TESSARO, 2004). Apesar das escolas serem obrigadas a acolher todas as crianças que se apresentem para matrícula, em função da legislação, muitas instituições não redimensionaram a forma de atendimento e a prática pedagógica, não se estruturaram e nem se organizaram para as novas demandas sociais, impedindo que o aluno com deficiência tenha condições efetivas de realizar integralmente suas potencialidades no ambiente escolar (BRUNO, 1999). Como, então, um país que não tem uma estrutura educacional que atinja a população com um ensino de qualidade pode auxiliar na promoção do desenvolvimento do aluno deficiente sem ter preparado os docentes e nem mesmo o espaço físico para que isso ocorra? Isso é lutar pela inclusão? 172 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

173 Sabemos que a educação inclusiva não será concretizada de maneira repentina e muito menos por meio da boa vontade ou por apelos realizados pelos meios de comunicação, pois além de apresentar de maneira complexa, é necessário que haja a aceitação prévia da diversidade, assim como o reconhecimento político da diferença. Afirmamos isso porque pensamos que negar a diferença não auxilia no crescimento educacional do indivíduo. Acreditamos que, se houver a aceitação da existência do diferente, da deficiência, o progresso para com essa questão tem a chance da concretização e da melhora do quadro educacional para com a mesma (MARCHESI, 2004 apud LIMA, 2006). Além disso, é necessário desenvolver programas, serviços sociais e a comunidade, isso porque a inclusão não implica desconsiderar a diversidade, pelo contrário, significa aceitar e reconhecê-la na vida e na sociedade. Isto é aceitar que cada indivíduo é único, com suas necessidades, desejos e peculiaridades próprias, e que essas necessidades estão em um contexto social e cultural historicamente determinado (WALBER; SILVA, 2006). O ensino inclusivo não significa a aglomeração de crianças num mesmo espaço físico, mas sim atender as necessidades e dificuldades, com recursos metodológicos que propiciem o desenvolvimento de alunos deficientes e alunos não deficientes (MIRANDA, 2001 apud TESSARO, 2006). Pois as mudanças exigidas pela educação inclusiva exigem investimentos contínuos, mudança legislativa, projetos político-pedagógicos coerentes, para que seja uma educação de qualidade e não estar baseada na solidariedade aos alunos deficientes (BAPTISTA, 2003 apud WALBER; SILVA, 2006). Desta forma, a integração escolar do aluno com deficiência, de acordo com Levine, Hummel, Salzer (1982 apud TESSARO, 2004), apesar de ter sido estabelecida pela legislação, não é algo simples e envolve questões complexas, além de não ser um conceito muito claro entre os educadores de forma geral, que apresentam grandes contradições nos seus discursos necessitando de uma melhor formação. Compreendemos, pautadas em Mrech (2001 apud TESSARO, 2004), os cuidados a serem tomados ao se incluir uma criança deficiente a uma classe do ensino regular, o aluno com deficiência necessita receber um atendimento diferenciado de acordo com a necessidade apresentada, pois só olhando para a diversidade, e aceitando-a é que se pode almejar a inclusão. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 173

174 Observamos, dessa maneira, que falar de inclusão requer falarmos de sociedade, e que falarmos de sociedade leva a falarmos sobre seres humanos. Afirmar que a aceitação da deficiência no meio escolar é um processo fácil ou pacífico seria trazer afirmar uma verdade infundada. A partir do momento que entendemos a vida em uma sociedade neoliberal capitalista com olhos voltados para o rentável e para o individualismo, notamos que a escola, nesse meio, repetirá esse processo, mas também intervirá no mesmo a partir da formação atribuída aos seus alunos. No caso de um estudante deficiente, ele será formado dentro desse contexto para o mercado de trabalho. A questão é formação de ser humano a partir dos preceitos educacionais, e não na aceitação do ser humano deficiente para o enquadramento e melhoramento do aspecto social. É compreender o desenvolvimento a partir de seu processo de desenvolvimento e não a partir da deficiência acarretada sobre o mesmo. Trataremos com mais detalhes a deficiência visual a partir do tópico que segue. 3 A EDUCAÇÃO DA CRIANÇA DEFICIENTE NA PERSPECTIVA SÓCIO- HISTÓRICA a criança cega Os estudos de Vigotsky, na década de 1920, sobre os processos psicológicos do aluno cego revolucionaram os conceitos de Educação Especial, contestando as teorias que tratavam da cegueira apenas do ponto de vista orgânico e médico, sem tratá-la ou compreendê-la como um problema social. Vigotsky (1991; 1997) apontou que o desenvolvimento da criança deficiente é igual ao de todas as outras crianças, desta forma as funções psicológicas desenvolvem-se nas inter-relações da criança com os diferentes contextos culturais e históricos. O significado socialmente construído e todas as funções aparecem duas vezes: primeiro no nível interpsicológico e, depois, no nível intrapsicológico. Dessa maneira, o desenvolvimento de uma criança não pode ser analisado unicamente sob a perspectiva biológica ou como resultado de influências externas, mas resultante da interação da criança com a realidade e com outros sujeitos sociais. Isso por que a coletividade é a fonte do desenvolvimento destas funções. 174 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

175 Partindo dessa colocação é preciso enfatizar que para educar a criança cega é imprescindível conhecer o processo de desenvolvimento da criança, não priorizando a deficiência e a insuficiência em si, mas priorizando a reação que aparece na personalidade da criança durante o processo de desenvolvimento, em resposta a sua dificuldade (VIGOTSKY, 1997). De acordo com Vigotsky (1997), a cegueira não é, apenas, a falta de visão, ou seja, não se restringe ao defeito de um órgão particular, mas é algo que provoca grande reorganização de todas as forças de seu organismo e personalidade, o que faz dela não só uma deficiência, mas também um estímulo para superação por meio da compensação. A compensação da deficiência visual, assim como de qualquer deficiência, não é biológica, é social. A cegueira priva a criança de um estímulo físico, mas não fecha as janelas para o mundo, na medida em que pode experienciá-lo por outras vias. Ao buscar internalizar o mundo pelos sentidos táteis, auditivos e sinestésicos, a pessoa cega desenvolve suas particularidades na maneira de explorar e manipular objetos e de se mover no espaço. Sendo assim, estes sentidos exercem papéis compensatórios na construção das representações mentais dos objetos e eventos, que se desenvolvem por meio dos canais alternativos à visão. No que diz respeito à alfabetização, entendemos que o cego consegue ler com as mãos, da mesma forma como o vidente pode ler uma folha impressa com os olhos. Desse modo, o processo de leitura e escrita do cego é análogo ao processo de leitura e escrita dos videntes, bem como os aspectos psicológicos envolvidos (Vigotsky, 1997). Segundo a pedagogia infantil, tem como lei norteadora o processo de formação do reflexo condicionado de Pavlov e Béjterev, sendo assim, o processo educativo da criança cega é igual ao da criança normal, a diferença reside no fato de que no caso das crianças cegas o papel de um órgão de percepção é suprido por outro, no caso, o tato por exemplo. Desta forma, a educação da criança cega não distingue essencialmente em nada da educação da criança vidente, por isso, a Educação Especial deve estar subordinada a educação regular, isso quer dizer que, não se nega o ensino especial às crianças deficientes, pelo contrário, acredita-se na necessidade de técnicas pedagógicas especiais, bem como recursos e métodos especiais, mas sempre lembrando, antes de qualquer coisa, que a criança cega é uma criança (VIGOTSKY, 1997). O que defendemos, então, é a preparação do docente e da estrutura de ensino para a recepção de crianças acometidas por uma deficiência como a cegueira. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 175

176 Ainda de acordo com o estudioso, é possível observar que o cego pode e deve ser avaliado com o mesmo padrão usado com as crianças normais. Isso porque o enfoque precisa estar centrado nas suas potencialidades, independente do problema orgânico. Até mesmo porque a deficiência, segundo Vigotsky (1997), como fator psicológico, só se converte em desgraça pelo prisma social. Em outras palavras, a deficiência é um estado normal para criança cega, e não um estado patológico, ela só a percebe como patológico de forma secundária, como resultado de sua experiência social. Ao lermos Vigotsky observamos que o mesmo pontua que uma escola especial para os cegos, enquanto instituição segregadora, cria uma ruptura sistemática do contato com o ambiente normal, situando o cego num mundo a parte. E na medida em que o deficiente só interage com outros deficientes, a deficiência não é superada, mas ao contrário, acentua-se, atrofiando cada vez mais a inserção deste indivíduo no convívio social. Ressaltamos que as instituições escolares do ensino normal precisam aceitar sim essas crianças, mas antes de tudo, precisam estar preparadas para essa função, com profissionais capacitados para o auxílio no processo de formação e desenvolvimento de um ser humano crítico, observado a partir de sua esfera histórica e cultural. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Compreendemos, a partir das leituras realizadas que a criança cega se assemelha às crianças videntes, suas necessidades afetivas, intelectuais e físicas coincidem até onde sua deficiência não interfere. O processo de desenvolvimento da criança cega é igual ao de todas as outras, isso se focarmos suas potencialidades e não a deficiência em si. O que afirmamos é que o foco precisa estar na construção das funções psicológicas superiores, pois o núcleo orgânico não pode ser alterado pela ação da educação e as funções elementares são sintomas da deficiência, enquanto que o funcionamento das funções superiores está secundariamente ligado ao fator orgânico e dependem primariamente das possibilidades de compensação concretizadas pelo grupo social, sendo, então, mais suscetíveis a ação da educação. Deste modo, a educação da pessoa cega não pode ser orientada pela falta de visão, mas 176 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

177 para o processo de desenvolvimento das funções humanas complexas e para isso há a necessidade de caminhos alternativos e recursos especiais que facilitem este processo. Nos dias de hoje, por exemplo, além do método braile, a tecnologia tem possibilitado outros recursos que facilitam a aquisição da cultura e dos conhecimentos socialmente produzidos ao longo da história, como é o caso dos programas de leitura nos computadores. Mediante ao que foi posto, a Educação Especial necessita estar subordinada à educação regular, ou seja, não se nega o ensino especial das crianças deficientes, pelo contrário, acredita-se na necessidade de técnicas, recursos e métodos pedagógicos especiais que as capacitem a criar independência e facilitem sua comunicação. Ressaltando, desta forma, a possibilidade da convivência, necessária, entre o cego e o vidente, gerada pelo convívio no ambiente escolar, por meio da inclusão. No que se refere à legislação, tanto a Constituição Federal como as Leis de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), que norteiam a Política Nacional de Educação em todos estes anos, tem tentado avançar no que diz respeito ao processo de inclusão. Contudo, não podemos ter a ilusão na crença de que o problema está resolvido, pois muitos portadores de deficiência continuam fora das escolas, excluídos do processo educacional de apropriação do conhecimento e da cultura. Outros se encontram nas instituições escolares, mas estão nesses locais porque as escolas são obrigadas a acolher todas as crianças que se apresentam para matrícula, mas infelizmente não são assistidos da forma como deveriam, demarcando um acolhimento meramente formal, o que legitima a dificuldade de se colocar em prática os direitos assegurados pela legislação. As consequências são para esse processo mal articulado são: um processo inclusivo insatisfatório mediante a falta de aceitação e preparação, descriminação social e dificuldades no processo ensino-aprendizagem decorrentes destas falhas. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 177

178 Desta forma, apesar das leis terem progredido, ainda apresentam brechas. Muitas conquistas ainda devem ser alcançadas no campo da inclusão, na medida em que não bastam papéis, documentos e decretos, mas uma mudança de postura, uma mudança de comportamento das pessoas com relação ao tema. REFERÊNCIAS BRUNO, M.M.G. O significado da deficiência visual na vida cotidiana: análise das representações dos pais-alunos-professores. Tese de mestrado. Universidade Católica Dom Bosco, Campo Grande-MS, Disponível em: Acesso dia 15/08/2007. CAIADO, Kátia Regina Moreno. Algumas considerações sobre a inclusão do aluno deficiente. São Paulo: Autores Associados, DECLARAÇÃO DE SALAMANCA: sobre princípios, políticas e práticas na área das necessidades educativas especiais. Disponível em: <http://www.portal.mec.br>. Acesso em: 10 de fev. de FACCI, M. G. D. O psicólogo nas escolas municipais de Maringá: a história de um trabalho e a análise de seus fundamentos teóricos f. Dissertação (Mestrado em Educação) Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista (UNESP), Marília. p e LIMA, P. A. Educação Inclusiva e igualdade social. São Paulo: Avercamp, PATTO, Maria Helena Souza. Psicologia e ideologia: uma introdução crítica à psicologia escolar. São Paulo: T. A Queiroz, TESSARO, N. S. (2004). Inclusão Escolar: Concepções de Professores e Alunos da Educação Regular e Especial. Tese de Doutorado - Pontifícia Universidade Católica de Campinas, - SP. VIGOTSKY, L.S. Fundamentos de Defectologia. Obras Escogidas. Tomo V. Madrid: Moscú, Aprendizagem e Desenvolvimento Intelectual na Idade Escolar. In: LURIA, LEONTIEV, VIGOTSKY e outros. Psicologia e Pedagogia: Bases Psicológicas da Aprendizagem e do Desenvolvimento. São Paulo: Moraes Ltda, PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

179 WALTER, V. B. e SILVA, N. das. As práticas de cuidado e a questão da deficiência: integração ou inclusão? In: Estudos de Psicologia. Campinas, nº 23. Janeiro a março, p TEXTO 4: AMUDE, Amanda Mendes; SILVA-TADEI, Gescielly Barbosa da. Reflexão Crítica: as implicações da psicologia histórico-crítica para a educação a importância em se compreender as relações de trabalho produzidas historicamente. In: II ENIEDUC Encontro Interdisciplinar de Educação: O papel da pesquisa na formação de professores, 2008, Campo Mourão. Anais...Campo Mourão: FECILCAM, CD-ROM. Reflexão Crítica: As Implicações da Psicologia Histórico-Crítica para a Educação a importância em se compreender as relações de trabalho produzidas historicamente. SILVA, Gescielly Barbosa da 16 AMUDE, Amanda Mendes 17 RESUMO: O presente artigo busca mostrar a relação existente entre a teoria Marxista e a área educacional brasileira. Para tanto, iniciamos o trabalho esboçando brevemente os postulados de Marx quanto à divisão do trabalho, e posteriormente atrelamos essa interpretação ao meio educacional vigente, destacando o posicionamento do psicólogo escolar que segue a Teoria Histórico-Cultural como norte em seu trabalho, auxiliando, dessa maneira a atuação dos pedagogos e componentes da área educacional. Palavras-Chave: Teoria Marxista; Psicologia Histórico-Cultural; Atuação do Pedagogo. 1 REFLEXÃO CRÍTICA O tempo é medido pela quantidade de atividades que se tem, e pela rapidez exigida pela máquina criada pelo próprio homem. Marx (1985) afirma que com a divisão do trabalho originada após a manufatura o processo do trabalho é decomposto por inteiro. O artesão que outrora possuía a dimensão plena de seu trabalho passa a ser a parte de seu corpo 16 Comunicação Oral. Psicóloga, especialista em Teoria Histórico-Cultural e Mestre em Educação Psicóloga, aluna do Curso de Especialização em Teoria Histórico-Cultural e mestranda em Educação pela UEM. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 179

180 utilizada para a ação. É a figura do especialista. Nesse processo, passa-se da necessidade de sobreviver por meio do trabalho para comercializar o excedente. O homem passa a depender das ferramentas que ele mesmo criou, passa a ser um instrumento da máquina, perdendo a objetividade na execução de algo material. Para Marx (1985) essa divisão, e não consciência do trabalho como um todo, é uma necessidade do Capitalismo, afinal, por que o homem precisa ser um todo, se dele é exigido apenas uma parte para seu trabalho? Assim sendo, qual o homem necessário? É aquele que raciocina, instiga, questiona? Não! Quem pensa incomoda! Como a manufatura avançou fortemente e progrediu em grande escala, esta serviu como base para a maquinofatura. Marx (1984) defende que a maquinaria é o meio para se produzir a mais valia. O homem, ao mudar a natureza para a sua subsistência modifica a sua própria vida. Além do mais, ele concede à própria máquina que ele criou o direito de produzir outras máquinas, que podem tomar o lugar do próprio homem. A máquina maneja os próprios instrumentos, não é mais nem a natureza e nem a força humana. O homem já não depende de si, depende da máquina, da velocidade dessa máquina (MARX, 1984, p. 471). Nesse sentido, o instrumento condiciona a forma de pensar, tem-se como exemplo os computadores com acesso a internet, o mundo virtual relacionando-se intimamente ao mundo material. Compras via internet, informações via , transações bancárias sem a necessidade da presença humana, aulas on-line, sem a presença física de um professor, sem a necessidade de uma sala de aula... são exemplos claros de que a máquina ocupa o mundo, e que a criação desses instrumentos gera, cada vez mais, um maior número de assalariados. O que para o capitalismo é bom, visto que este necessita da mão de obra excedente. É nesse contexto que temos a instituição escolar de hoje, com a polivalência exigida aos professores devido às muitas especificidades, mudanças e alterações que ocorrem no mercado. Isso exige que o ser humano faça além daquilo que compete seu trabalho. Qual o professor que após lecionar durante todo o dia vai para casa e além da correção de provas e trabalhos, prepara palestras, seminários de pesquisa, reserva uma passagem aérea de madrugada, acorda repentinamente e recorda-se da necessidade de enviar um para determinada pessoa... é essa a polivalência, é isso que Marx já chamava atenção em seu período, e é isso que Harvey (2003) destaca em seus estudos. É o acúmulo de funções para determinado grupo, o qual sente-se na obrigação em cumprir a todas as especificidades, 180 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

181 inclusive àquelas que vão além de seu trabalho central. Partindo do referencial histórico-crítico, entendemos que a Psicologia Histórico-Crítica, busca a compreensão do sujeito a partir das relações estabelecidas no meio social, concebendo um ser humano constituído historicamente. De acordo com Saviani (1994). o homem não nasce humano, ele se torna humano. Assim, nosso papel enquanto psicólogas e estudiosas da área educacional está em auxiliar o encontro entre o sujeito humano e a educação. Nesse sentido o compromisso social da Psicologia Escolar está em contribuir para que a escola cumpra de fato seu papel de socialização do saber e de formação crítica. O psicólogo escolar pode assim ajudar a escola a remover os obstáculos que se interpõem entre os sujeitos e o conhecimento, favorecendo processos de humanização e desenvolvimento do pensamento crítico (MEIRA, 2003, p.58). Contudo, sabe-se que esse não tem sido ao menos de forma geral, a atuação dos psicólogos escolares. Tal fato deve-se a premissa de que a Psicologia, por ter se firmado como ciência em laboratório no ano de 1879, com a criação do laboratório de Psicologia em Leipzig por Wundt, adquiriu um caráter pautado na ordem e no controle comprometendo-se... com um projeto social burguês e com regras sociais advindas do capitalismo (FACCI, 1998, p.35), ou seja, preparava crianças e jovens para o desempenho de papéis socialmente ajustados, a fim de garantir a harmonia no funcionamento social, e uma grande aliada para tal processo seria a escola. A Psicologia, com fundamentos adaptacionistas buscava a harmonia social em uma sociedade dividida em classes. Em termos de Brasil, a Psicologia surge atrelada ao curso de Medicina. Pode-se destacar uma Psicologia desenvolvida em laboratórios,... anexos às escolas, não atingindo, diretamente, a população escolar (FACCI, 1998, p.37). Somente a partir da década de 1970 é que a Psicologia passa a ser praticada nas escolas de modo mais ofensivo, atingindo de maneira mais direta uma proporção maior e mais significativa da população escolar do primeiro grau. Após a década de 1980 passou-se a criticar o modelo clínico de atuação do psicólogo dentro da escola. Era defendido que a intervenção do psicólogo necessitava ter uma função preventiva, com um trabalho conjunto com os membros da escola, e também uma função remediativa, onde poderiam ser focados aspectos de adaptação dos alunos à escola e aos problemas de aprendizagem. PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 181

182 Seguindo esses dados históricos, pode-se compreender que a Psicologia esteve ligada à medicina e a estudos laboratoriais e clínicos. Nesse sentido, é possível entender o enfoque clínico utilizado no trabalho de uma considerável parte dos psicólogos escolares. Este enfoque clínico poderia ainda expressar os resultados de uma formação universitária não crítica e que não estabelece uma íntima relação entre teoria e prática (MEIRA, 2003). Entende-se que o enfoque clínico contribuiu, e contribui, para a manutenção de uma ideologia dominante onde o indivíduo é o responsável pelo seu sucesso ou pelo seu fracasso. Esse modelo sustenta... os processos de culpabilização dos alunos pela via da psicologização dos problemas educacionais (MEIRA, 2003, p.22). Por essa circunstância destaca-se a necessidade do rompimento com o modelo clínico de atuação profissional voltada para o diagnóstico e tratamento de problemas que se supõem serem de alunos. Ao se romper com esse modelo tem-se um redimensionamento do olhar da Psicologia Escolar para os processos educacionais. É por meio desse redimensionamento do olhar que o profissional psicólogo pode vir a observar e compreender o fracasso escolar... a partir de uma análise aprofundada do fenômeno educacional como síntese de múltiplas determinações e que se situa em um contexto histórico concreto (SAVIANI, 1994, p.27). Ao se partir dessa visão, a culpa já não está mais situada no indivíduo, este já não é mais o responsável único por sua atuação. O fracasso é então um processo desenvolvido nas condições sociais, nas relações, e é a partir da compreensão desse processo é que se pode vislumbrar possibilidades de desenvolvimento de todos os envolvidos, e é dessa forma que poderão emergir possíveis caminhos a serem trilhados. Ao pensarmos dessa maneira, compreendemos que as proposições inferidas por Marx são necessárias para entendermos as relações sociais e educacionais, e que partindo disso temos uma Psicologia voltada para o aspecto humano em sua abrangência social, histórica e, também, cultural. Tendo uma atitude baseada em tal enfoque o psicólogo estará atuando dentro da educação com um compromisso teórico e prático e com uma consistência teórica e crítica no que diz respeito a sua atuação. Essa atitude tem sido adotada nos últimos anos por alguns dos profissionais da Psicologia Educacional numa tentativa de torná-la mais crítica, contextualizada e comprometida com a construção de uma sociedade mais justa (FACCI, 1998). No entanto 182 PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

183 essa parcela ainda é um pouco restrita. Pode-se ressaltar que o papel do psicólogo escolar, principalmente daquele embasado na Psicologia Histórico-crítica, está em ter atenção especial para o movimento da sociedade, na busca da compreensão de que o ser humano é datado e constituído historicamente. Por isso, entender a função social do homem na sociedade capitalista é primordial. É necessário que a escola forme um aluno crítico e pensante? Obviamente a resposta é não, pois para que um sujeito pensante se este vai apenas mover alavancas ou seguir determinado contingente de ordens? PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância 183

184 REFERÊNCIAS FACCI, Marilda Gonçalves Dias. O Psicólogo nas Escolas Municipais de Maringá: a história de um trabalho e a análise de seus fundamentos teóricos f. Dissertação (Mestrado em Educação)- Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista (UNESP), Marília. P e HARVEY, Harry. Do Fordismo à acumulação Flexível. In: Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, MARX, Karl. Divisão do Trabalho e Manufatura. In: O Capital. São Paulo: Difel, MARX, Karl. A Maquinaria e a Indústria Moderna. In: O Capital. São Paulo: Difel, MEIRA, Marisa Eugênia Mallilo. Construindo uma concepção crítica da Psicologia Escolar: contribuições da Pedagogia Histórico-crítica e da Psicologia Sócio-Histórica. In: MEIRA, Marisa Eugênia Mellilo e ANTUNES, Mitsuko Aparecida Makiko. Psicologia Escolar: teorias críticas. São Paulo: Casa do Psicólogo, P SAVIAVI, Demerval. Pedagogia Histórico-crítica: primeiras aproximações. 4. ed. Campinas: Cortez - Autores Associados, P e PSICOLOGIA DAS RELAÇÕES HUMANAS Educação a Distância

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