PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS Programa de Pós-Graduação em Geografia Tratamento da Informação Espacial. Andressa Virgínia de Faria

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1 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS Programa de Pós-Graduação em Geografia Tratamento da Informação Espacial Andressa Virgínia de Faria A DIÁSPORA HAITIANA PARA O BRASIL: o novo fluxo migratório ( ) Belo Horizonte 2012

2 Andressa Virgínia de Faria A DIÁSPORA HAITIANA PARA O BRASIL: o novo fluxo migratório ( ) Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Geografia Tratamento da Informação Espacial da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Geografia. Orientador: Dr. Duval Magalhães Fernandes Área de Concentração: Análise Espacial Belo Horizonte 2012

3 FICHA CATALOGRÁFICA Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais Faria, Andressa Virgínia de F224d A diáspora haitiana para o Brasil: o novo fluxo migratório ( ) / Andressa Virgínia de Faria. Belo Horizonte, f.: il. Orientador: Duval Magalhães Fernandes. Dissertação (Mestrado) Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Tratamento da Informação Espacial. 1. Diáspora haitiana. 2. Haitianos - Migração. 3. Imigrantes. I. Fernandes, Duval Magalhães. II. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Tratamento da Informação Espacial. III. Título. CDU: 325.2

4 Andressa Virgínia de Faria A DIASPORA HAITIANA PARA O BRASIL: o novo fluxo migratório ( ) Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Geografia Tratamento da Informação Espacial da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Geografia. Prof. Dr. Duval Magalhães Fernandes (Orientador PUC- Minas) Prof. Alexandre Magno Alves Diniz, PhD (PUC-Minas) Prof. Dr. Oswaldo Bueno Amorim Filho (PUC-Minas) Profª. Drª. Juliana Gonzaga Jayme (PUC-Minas / Ciências Sociais) Belo Horizonte, 08 de Novembro de 2012

5 Ao povo haitiano, pela incessante história de luta e persistência, bem como àqueles que os assistem neste itinerário muitas vezes inglório.

6 AGRADECIMENTOS Ao professor Duval Magalhães Fernandes, pela valiosa orientação, atenção, respeito e confiança, sempre solícito a rumar-me ao norte e em compartilhar seus conhecimentos. Sua valorosa experiência e sabedoria foram indispensáveis para a viabilização deste trabalho. Ao Conselho Nacional de Imigração - CNIg e à Pastoral do Migrante da Arquidiocese de Manaus (AM), pela disponibilização dos dados. À Irmã Rosita Milesi (MSCS), pela colaboração e atenção. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela concessão da bolsa de Mestrado. À Adriana Duarte Costa, pelo companheirismo, incentivo e alegria contagiante. Obrigada pela nobre convivência e até mesmo pelos embates água x fogo, que sempre se tornaram profícuos. A meus pais, Antônio Alves de Faria e Cleonice Maria de Faria, e às minhas irmãs, Márcia Bianc de Faria e Lilian Mara de Faria, pelo apoio incondicional e pela compreensão de minhas ausências. A certeza da concessão de refúgio, quando solicitada, é reconfortante! Aos professores do PPGG-TIE: José Flávio Morais Castro, Leônidas Conceição Barroso, Guilherme Taitson Bueno, Altino Barbosa Caldeira e Alexandre Magno Alves Diniz. Em especial, ao professor Oswaldo Bueno Amorim Filho, admirável Mestre, sempre prestimoso. Aos colegas mestrandos e doutorandos da turma 2010 : Adriana Duarte Costa, César Vinícius de Noronha, Conceição Aparecida de Castro, José Alves Ferreira Neto, Londesperge de Oliveira Ribeiro da Silva, Mariana da Silva Ferreira, Rose Lane Guimarães, Tércio de Sales Morais, Thiago Antônio da Silva Camini, Vívia Paula Diniz Abreu, Denise Horta Madsen, Emília Andrade Paiva, Érico Anderson de Oliveira e Geraldine Braga Rosas, por todas as discussões científicas e o agradável convívio. Ao estimado casal geográfico, Érico Anderson de Oliveira e Rosália Caldas Sanábio de Oliveira, sempre disposto a ajudar. Com vocês pude compreender a real tradução da palavra companheiro! Obrigada pela recepção, carinho e bem-querer. À Elisângela Lacerda, pela assessoria cartográfica e presteza!

7 Aos colegas do Grupo de Estudos de Distribuição Espacial da População (GEDEP), Silvana Andrade Pena Knup, Prof.ª Maria Consolação Gomes de Castro, Romerito Valeriano da Silva e Bruna Beatriz. Aos queridos professores do Departamento de Geografia do CEFET-MG, Vandeir Robson Matias, Flávia Machado da Cruz Pinheiro Barbosa, Matusalém de Brito Duarte, Arley Haley Faria, Daniel Moreira, Malena Nunes e José Alves, pela troca de experiências profissionais, acadêmica e pela amizade construída ao longo dos dois anos, cuja compreensão e colaboração estiveram sempre presentes. Com vocês, a troca diária de papéis na labuta professora-aluna fora bem mais serena. À Fátima Rosa Santos Nogueira, pela acolhida sempre afetuosa e tranquilizadora e pela boa vontade em seu atendimento na secretaria. À Cláudia Cristina Rios Caxias da Costa, pela assistência generosamente ofertada. Aos professores e alunos dos colégios Sant Ana, Educare, Escola Municipal Professora Celuta das Neves e Escola Estadual Padre Luiz Turkenburg. Obrigada pela força. Aos mestres e geógrafos Denise Drummond, Dinalva Freitas e Sebastião Afonso dos Santos Neto, pela sólida base de conhecimentos transmitida na seriedade de seus trabalhos e por fazerem da Geografia uma ciência alucinante. Vocês serão sempre uma importante referência profissional! À professora Neida Helena de Queiroz, pela fundamental colaboração no preparo para aprovação no processo seletivo. Ao grande amigo, irmão, Tiago Parreiras Lopes, pela cumplicidade, carinho, assistência e prestatividade. Em terras estrangeiras, a certeza de que sempre poderia contar com você, pedaço de minha terra natal, confortava-me! Às Pequenas Irmãs de Santa Terezinha do Menino Jesus, migrantes, em sua maioria, nas suas missões. Meu interesse pela Geografia, migrações e mundo, fora despertado na infância, quando tentava compreender a diversidade cultural desta pequena congregação, cujo respeito e admiração em mim permanecem ao longo dos anos. Agradeço a afeição e orações! A Deus, presente em cada uma dessas pessoas. Aequiparat factum nobile velle bonum!

8 (...) Soa o rumor fatídico dos ventos, Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos E ao longe soam trágicos fracassos De heróis, partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! (...) Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro!... A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa... O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-láctea existe. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! Fragmentos do poema A Ilha de Cipango, de Augusto dos Anjos (1912).

9 RESUMO Após o terremoto de janeiro de 2010, no Haiti, um fluxo crescente de haitianos começou a direcionar-se ao Brasil. Inicialmente algumas dezenas, que se converteram, no primeiro semestre de 2012, em números superiores a cinco mil migrantes. Esta pesquisa empreende um estudo sobre a migração dos haitianos para o Brasil a partir de 2010, sistematizando as informações sobre este novo fluxo. Aspectos preponderantes, tais como a rota migratória, o perfil dos imigrantes, o papel da sociedade civil no acolhimento destes, a política migratória brasileira aplicada e uma reflexão sobre os deslocamentos humanos por motivos ambientais foram aqui abordados. Foram utilizados os registros administrativos do Conselho Nacional de Imigração (CNIg) do Ministério do Trabalho e Emprego- TEM e dados da Pastoral do Migrante da Arquidiocese de Manaus (AM), bem como notícias veiculadas pela imprensa brasileira sobre o tema. Verifica-se que as rotas pelas quais os haitianos chegam ao Brasil são bem definidas, observando-se, na maioria dos casos, o ingresso através dos países limítrofes com a fronteira norte. O perfil dos imigrantes haitianos mostra particularidades que os colocam, em termos de instrução e atividade laboral, acima da média da população do Haiti. Primordial importância teve a sociedade civil, especialmente a Igreja Católica, que se empenhou em oferecer abrigo, alimentação e instrução a estes, evitando degradação humana, sobremaneira minimizando os impactos nos municípios de destino. Ressalta-se o desafio que este fluxo impõe ao governo brasileiro e as medidas adotadas pelo mesmo, como a decisão da observância do visto humanitário, mediante o pedido de refúgio feito pelos haitianos. Palavras-chave: Diáspora Haitiana. Migração Internacional. Perfil do Imigrante Haitiano. Refúgio. Deslocados Ambientais. Política migratória brasileira. Haiti-Brasil.

10 RÉSUMÉ Après le tremblement de terre de janvier 2010 au Haiti, un flux croissant des haitiens s est dirigé au Brésil. Au début quelques dizaines sont arrivées et au premier semestre de 2012, ces dizaines se sont devenues un nombre supérieur à cinq mille migrants. Cette recherche entreprend un étude sur la migration des haitiens au Brésil depuis 2010, en systematisant les renseignements sur le noveau flux. Des aspects prépondérants sont abordés dans la recherche comme : la route migratoire, le profil des immigrants, la rôle de la societé civil pour accueillir ces immigrants, la politique migratoire brasiliènne appliquée à ce cas et une réflexion sur les déplacements humains à cause des raisons de environnement. On a utilisé les enregistrements administratifs du Conseil National d Immigration (CNIg) du Ministère du Travail et de L Emploi MTE et des renseignements de la Pastoral du Migrant de L Arquidiocèse de Manaus (AM), ainsi comme les nouvelles propagées par la presse brasiliènne sur ce sujet. On vérifie que les routes por lesquelles les haitiens arrivent au Brésil sont bien définies et on peut rémarquer dans la majorité des cas l entrée à vers les pays voisins, à la frontière nord. Le profil des immigrants haitiens montre des particularités que les mettent, par rapport à l instruction et activités de travail, au-dessus de la population moyenne d Haiti. La societé civil a eu une importance primordial pour ça, en particulier, l Église Catholique, qui s est engagée a offrir abri, alimentation et instruction aux immigrants, en évitant la dégradation humaine, surtout pour diminuer les impacts sur les villes de destin. On peut souligner le défi que ce flux impose au gouvernement brésilien et les procedés adoptés, comme par example, la décision de la concession de la permission de séjour (le visa humanitaire) en accordance avec la demande de refuge. Mots-clés : Diaspora Haitienne. Migration International. Profil de l immigrant Haitien. Refugie. Les Déplacés d Ambiance. La Politique Migratoire Brasiliènne. Haiti-Brésil.

11 ABSTRACT After the January 2010 earthquake in Haiti, an increasing flow of Haitians started migration to Brazil. They were a few dozen initially, but in the first half of 2012, the number of Haitians was greater than five thousand. This research undertakes a study on the migration of Haitians to Brazil since 2010, systematizing information about this new flow. Preponderant aspects, such as the migration route, the immigrants profile, the role of civil society in hosting them, the Brazilian immigration policy applied and a reflection on the human displacements for environmental reasons have been discussed here. The data used were the administrative records of the National Immigration Council (CNIg) of the Ministry of Labor and Employment- MTE, the Migrant s Church Service data from the Archdiocese of Manaus (AM), as well as reports in the Brazilian press about the subject. It is observed that the routes by which Haitians arrive in Brazil are well defined, in most cases, the entries being through the countries in the northern border. The profile of Haitian immigrants shows characteristics that place them, in terms of education and labor activity, above average in relation to the population of Haiti. It was of primary importance the participation of civil society, especially the Catholic Church, in providing shelter, food and education to migrants, avoiding human degradation and greatly minimizing the impacts on the municipalities where they have arrived. It is emphasized the challenge that this flow imposes on the Brazilian government and the measures which have been taken, such as the decision of the observance of humanitarian visa, upon the request of refuge. Keywords: Haitian Diaspora. International Migration. The Haitian Immigrant Profile. Refuge. The Environmentally Displaced ones. Brazilian Migration Policy. Haiti Brazil.

12 LISTA DE MAPAS Mapa 1 - Haiti e Republica Dominicana América Central Mapa 2 - Haiti: divisão administrativa, Mapa 3 - Hipsometria do Haiti Mapa 4 - Densidade Demográfica do Haiti, Mapa 5 - Potencial de Erosão do Haiti, Mapa 6 - Capacidade de uso do solo do Haiti, Mapa 7 - Placas Tectônicas Mapa 8 - Sistema de falhas em Hispaniola Mapa 9 - Principais rotas migratórias dos haitianos para o Brasil Mapa 10 - Municípios de Naturalidade dos Imigrantes Haitianos com solicitação de visto submetida ao CNIg ( chegada ao Brasil até 27/02/2011) Mapa 11 - Municípios de Origem dos Imigrantes Haitianos no Brasil ( chegada 11/01/ /05/2011) Mapa 12 - Instituições da Rede Solidária para Migrantes e Refugiados no Brasil (articulada pelo Instituto Migrações e Direitos Humanos IMDH), por município Mapa 13 - Número de haitianos atendidos pelas Instituições da Rede Solidária para Migrantes e Refugiados no Brasil por município (2010 1º semestre de 2012) Mapa 14 - Contratações e Saldo de Contratações de Haitianos no Brasil, Mapa 15 - Contratações e Saldo de Contratações de Haitianos no Brasil,

13 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Emigrantes brasileiros segundo o continente de destino, Tabela 2 - Emigrantes brasileiros segundo o país de destino, Tabela 3 - Autorizações de trabalho concedidas a estrangeiros no Brasil, Tabela 4 - Refugiados por continente no Brasil Tabela 5 - Refugiados por nacionalidade no Brasil Tabela 6 - Ocorrências de Terremotos no Haiti com Magnitude igual ou superior a 6,5 (Escala Richter), Tabela 7 - Indicadores Sociais, Demográficos e Econômicos do Haiti e países selecionados Tabela 8 - Distribuição percentual dos haitianos por UF de entrada do pedido de refúgio, segundo o grupo de processos analisados pelo CNIg, Tabela 9 - Distribuição dos haitianos por setor da atividade Tabela 10 - Setor de ocupação dos imigrantes quando residentes no Haiti Tabela 11 - Nível de Escolaridade dos Imigrantes Haitianos

14 LISTA DE SIGLAS AC - Acre ACNUR - Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados AM - Amazonas CNIg Conselho Nacional de Imigração CONARE - Comitê Nacional para os Refugiados CPF Cadastro de Pessoa Física CTPS - Carteiras de Trabalho e Previdência Social (CTPS) EUROSTAT- Gabinete de Estatística da União Europeia. GEDEP Grupo de Estudos Distribuição Espacial da População IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IMDH - Instituto Migrações e Direitos Humanos MINUSTAH - Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti MRE- Ministério das Relações Exteriores MTE Ministério do Trabalho e Emprego OEA Organização dos Estados Americanos OIM Organização Internacional para as Migrações OIT- Organização Internacional do Trabalho ONU Organização das Nações Unidas PIB- Produto interno Bruto PNUD Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento SPM Serviço Pastoral dos Migrantes UF- Unidade Federativa USGS United States Geological Survey

15 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO BREVE DISCUSSÃO TEÓRICA SOBRE O FENÔMENO MIGRATÓRIO Os fatores Push-pull A Teoria Neoclássica Teoria da Nova Economia da Migração do Trabalho A Teoria do Mercado Dual de Trabalho A Teoria das Redes Sociais Teoria do Sistema Mundial Migrações e refúgio Os refugiados ambientais A MIGRAÇÃO INTERNACIONAL NO BRASIL: os movimentos recentes Aspectos históricos da migração internacional brasileira A intensificação da migração de retorno no início do século XXI O Brasil como um país de imigração A Anistia O Refúgio no Brasil A política de imigração A GÊNESE DA DIÁSPORA HAITIANA O castelo haitiano em pilares de açúcar: breve histórico ( ) Panorama Socioambiental do Haiti A Geografia Física Haitiana: um breve esboço A Instabilidade Geotectônica e o Terremoto de Indicadores sociais, demográficos e econômicos do Haiti OS HAITIANOS NO BRASIL O processo de chegada ao Brasil A política brasileira perante a migração haitiana a questão humanitária O perfil dos imigrantes haitianos Dados do CNIg O perfil dos Imigrantes Haitianos em Manaus A acolhida dos haitianos em território brasileiro: o importante papel da Igreja e sociedade civil A inserção dos haitianos no mercado de trabalho CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS ANEXOS

16 15 1 INTRODUÇÃO O Brasil é considerado, historicamente, como um país de imigração e configura sua sociedade como o resultado das inúmeras correntes migratórias advindas dos mais diversos países. Nas duas últimas décadas do século XX, portanto, passou a ser conhecido como um país de emigração, conforme algumas fontes 1 que indicam que milhões de brasileiros viviam fora no ano Com a crise econômica dos países centrais, muitos brasileiros tomaram a decisão de voltar ao seu país de origem e o Brasil passou a conhecer o movimento inverso, ou seja, o de refluxo de seus cidadãos. Face a esse cenário, concomitante com o retorno, outro movimento migratório começou a ser reproduzido: o aumento da imigração em direção ao Brasil. Nesse contexto, um novo fluxo, com caráter diferente, há não mais de dois anos começou a se direcionar ao país: a imigração de haitianos pela fronteira com os países da Amazônia Legal, impelidos, sobretudo, pelo terremoto que assolou o país no dia 12 de janeiro de 2010 e suas consequências, que perduram até os dias atuais. O movimento migratório de haitianos não é uma realidade recente. O geógrafo George Andrade, apud Louidor (2012), estabeleceu duas grandes ondas de migração de haitianos no século XX. A primeira, entre 1915 e 1935, durante a intervenção americana no Haiti e a segunda entre 1965 e 1985, quando vigorava a violenta ditadura de Duvalier, configurando as duas correntes como diáspora 2. De acordo com Louidor (2012), o terremoto que atingiu o Haiti gerou um grande fluxo de haitianos em direção à América Latina, configurando-se, muito provavelmente, em uma terceira onda de migração haitiana no século XXI. Desse modo, há décadas os haitianos partem para territórios estrangeiros, principalmente para os países vizinhos, buscando evadir-se da situação miserável de vida e da violência que acomete historicamente o seu país, agravada, sobremaneira, pelos desastres ambientais. 1 CABRAL, Maria Cláudia C. Anteprojeto da nova lei de estrangeiros in Rios Neto, Eduardo (org.) A População nas políticas públicas: gênero, geração e raça. CNPD; UNFPA Brasília Dispersão de um povo ou etnia por outras partes do mundo. O uso da expressão diáspora para o Brasil, diferentemente do uso formal que sempre emprega a expressão diáspora no, tem como intuito remeter ao processo migratório haitiano e seu direcionamento ao Brasil, uma vez que a diáspora em outros países já ocorre há mais tempo.

17 16 Embora a diáspora haitiana seja secular, seu direcionamento ao Brasil é recente. A princípio, chegaram ao país apenas algumas dezenas. No início de 2011, esse contingente superou a casa do milhar e em meados de 2012, o total de haitianos em território brasileiro superou imigrantes. Essas pessoas, de forma geral, buscam melhores condições de vida longe de seu país de origem, que é o mais pobre do continente americano e cuja situação social e econômica foi intensamente agravada pelo terremoto que criou um grande número de desabrigados e reduziu a escombros parcela importante da infraestrutura habitacional e governamental, agravando profundamente a situação humanitária desta nação. O Brasil entrou no mapa da diáspora haitiana! Esse fluxo apresenta-se peculiar ao governo brasileiro, bem como a tantos outros da América Latina, pela necessidade de se repensar a política migratória, tendo em vista a migração forçada causada pelos desastres ambientais. Pelo fato da migração ser temática cada vez mais colocada na pauta política ao longo das últimas décadas, justifica-se esta pesquisa sob a ótica dos estudos migratórios, afeitos às questões humanitárias que demandam urgência, ante as catástrofes de cunho natural e econômico. O novo fluxo migratório, com origem no Haiti aqui se insere, principalmente ante o fato do Brasil estar no imaginário da população haitiana, devido a sua participação como coordenador da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH), como também pelos resultados mais positivos de sua economia, quando comparado aos países do hemisfério norte, que serviriam como rota de fuga. A motivação que resultou neste trabalho dissertativo advém da curiosidade acadêmica, acerca dos fluxos significativos de mobilidade populacional, já que o fenômeno migratório, sobremaneira a imigração, impacta no social, no econômico e no cultural de um país. Os estudos sobre a dinâmica migratória buscam respostas, nem sempre oferecidas pelos governos, no trato com o estrangeiro, o imigrante. A situação de irregularidade na permanência de alguns grupos gera custos aos cofres públicos diante do aumento da população e, consequentemente, a demanda por serviços como hospitais, escolas, creches, além dos problemas como a exploração da mão de obra. Faz-se necessário abarcar esta temática no âmbito das políticas públicas de acolhimento, quase sempre baseadas no endurecimento na exigência de vistos,

18 17 aumento do controle nas fronteiras, estabelecimento de cotas, deportação e reenvio aos países de origem. O objetivo principal deste estudo é sistematizar as informações sobre o fluxo migratório de haitianos para o Brasil, enfocando aspectos como o perfil do imigrante, a rota migratória, o processo de entrada e a acolhida no território brasileiro, a inserção no mercado de trabalho e a política migratória aplicada pelo governo brasileiro mediante o pedido de refúgio e os deslocados ambientais. Assim, esperase contribuir para o conhecimento do processo migratório, com ênfase na diáspora haitiana, e possibilitar um aprofundamento sobre este fluxo, colaborando para os estudos atuais e futuros, acerca desta temática. A primeira etapa da pesquisa foi constituída de uma revisão bibliográfica. Como ponto de partida, buscou-se a leitura, o estudo e análise de livros, periódicos e artigos para construir um embasamento teórico significativo e necessário para uma visão mais ampla sobre a as migrações internacionais, a diáspora haitiana, as migrações internacionais para o Brasil, o refúgio e a política migratória brasileira. Visto que a presença de uma parte da diáspora haitiana no Brasil é um fato muito recente, há uma escassez de fontes científicas que abordam o tema. Assim, utilizou-se o maior número possível de fontes jornalísticas veiculadas pela imprensa brasileira, blogs e sites de instituições engajadas com a causa haitiana no Brasil. Para fazer o levantamento do perfil do haitiano no Brasil, utilizou-se duas bases de informações: a) do Conselho Nacional de Imigração (CNIg) estruturada com os dados obtidos junto aos processos encaminhados pelo Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), ao referido Conselho nos anos de 2010 e 2011, que reproduz as informações fornecidas pelos haitianos no momento da solicitação de refúgio. Estas informações foram coletadas pela Polícia Federal nos postos fronteiriços, com o intuito de instruir o processo de solicitação de refúgio para posterior apreciação e decisão do CONARE. São informações prestadas por escrito pelos solicitantes de refúgio no momento em que apresentam seus pedidos em formulários próprios, preenchidos perante a Polícia Federal (ANEXO I). Ressalta-se que algumas informações de certos tópicos dos formulários não foram disponibilizadas.

19 18 Os dados trabalhados referem-se ao conjunto de 714 processos enviados pelo CONARE. Estes processos foram encaminhados em três momentos distintos: o primeiro grupo, composto por 197 solicitações, cobrindo o período de entrada de processos que vai até novembro de 2010, foi analisado pelo Conselho em 16 de março de 2011 e tratava do primeiro grupo de haitianos a chegar ao país. O segundo grupo, com 237 solicitações, e o terceiro conjunto de 280 solicitações tratam de processos, na sua maioria, abertos de dezembro de 2010 até o final de fevereiro de 2011, foram discutidos nas reuniões de 21 de junho e 10 de agosto do mesmo ano, respectivamente. Considerando um universo de 6000 haitianos presentes no Brasil, os dados disponíveis (714) podem não ser representativos e devem ser considerados com cautela, pois referem-se aos primeiros grupos que chegaram ao Brasil e, portanto, podem ter características diversas da maioria daqueles que ingressaram no país. No entanto, por ser a única fonte disponível no momento, parece-nos importante a sua utilização para definir o perfil deste primeiro grupo; b) da Pastoral do Migrante da Arquidiocese de Manaus (AM) obtidos no momento do registro da acolhida ou passagem dos haitianos pela entidade em busca de assistência ou encaminhamento à outras instituições sociais. Esta fonte é um pouco mais reduzida em termos numéricos, mas apresenta particularidades quanto ao tipo de informações. Os dados são concernentes a 307 pessoas, tomadas aleatoriamente de um conjunto de mais de 1000 imigrantes haitianos, que em julho de 2011 estavam em Manaus e procuraram auxílio da Pastoral do Migrante. Destaca-se que as informações constantes nos registros, que serviram de base para este levantamento, são dados de interesse da própria Pastoral para a execução de suas atividades. Os dados de ambas as fontes foram tratados no software SPSS (Statistical Package for the Social Sciences), versão 17.0, e os resultados obtidos submetidos à análise. Usou-se também dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) para verificar a distribuição e empregabilidade dos haitianos no território brasileiro. Estes dados referem-se aqueles extraídos no momento em que foram feitas as Carteiras de Trabalho e Previdência Social (CTPS). Além destes, empregou-se os dados do Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH) sobre a acolhida e assistência a

20 19 estes em diversas instituições que integram a Rede Solidária para Migrantes e Refugiados no Brasil. A fim de possibilitar melhor visualização das informações e otimização dos dados, foram elaborados mapas temáticos, utilizando o software ArcGis Esta pesquisa contém, além desta introdução, quatro seções. No capítulo dois tem-se uma revisão das principais teorias sobre as migrações internacionais, refúgio e refugiados ambientais. No terceiro capítulo, procurou-se traçar um panorama das migrações internacionais para o Brasil, os movimentos recentes, o marco jurídico que rege a política migratória brasileira no que tange ao refúgio e o contexto no qual ocorre a diáspora haitiana para o país. No quarto capítulo, apresentam-se os fatores históricos, políticos, sociais e físicos que corroboram para a diáspora haitiana, incluindo-se aí uma explanação sobre o terremoto de 2010 e suas consequências para o Haiti. O capítulo cinco denota os resultados da pesquisa, como o perfil dos haitianos, a rota migratória, o mercado de trabalho, a entrada e acolhida no Brasil, as medidas adotadas pelo governo brasileiro e trabalho desenvolvido pela sociedade civil, principalmente o realizado pela Igreja Católica. Por fim, expõem-se as considerações finais que sintetizam os resultados e análises mais importantes da pesquisa.

21 20 2 BREVE DISCUSSÃO TEÓRICA SOBRE O FENÔMENO MIGRATÓRIO A migração é um problema demográfico: influencia a dimensão das populações na origem e no destino; é um problema econômico: muitas mudanças na população são devidas a desequilíbrios econômicos entre diferentes áreas; pode ser um problema político: tal é particularmente verdade nas migrações internacionais, onde restrições e condicionantes são aplicadas àqueles que pretendem atravessar uma fronteira política; envolve a psicologia social, no sentido em que o migrante está envolvido num processo de tomada de decisão antes da partida, e porque a sua personalidade pode desempenhar um papel importante no sucesso com que se integra na sociedade de acolhimento; e é também um problema sociológico, uma vez que a estrutura social e o sistema cultural, tanto dos lugares de origem como de destino, são afetados pela migração e, em contrapartida, afetam o migrante (JANSEN apud PEIXOTO, 2004, p.4). A migração é uma das atividades mais antigas, inerentes ao homem, e sempre esteve presente na história da humanidade. Apesar disso, apenas em época recente - meados do século XIX - passou a contar com aportes teóricos específicos. Várias são as teorias sobre as migrações encontradas no início do século XXI. Entretanto, são poucos os pontos de tangência entre elas. Apesar da importância que os fluxos migratórios assumiram, principalmente nos séculos XIX, XX e início do XXI, o tema é tratado de forma secundária e dissolvido entre as várias ciências. Massey et al (1990), atestam que esta fragmentação propicia um conhecimento teórico incompleto e incorreto sobre as migrações e que tal fragmentação decorre da divergência entre os pesquisadores do tema em relação a quatro dimensões básicas. A primeira dimensão deriva do conflito sobre a forma como o tema deve ser estudado, se de forma sincrônica ou em uma perspectiva histórica, ou seja, diacrônica. A segunda dimensão relaciona-se ao lócus da ação de migrar, que ora parte de uma análise estrutural e ora no âmbito do indivíduo. A terceira dimensão refere-se ao nível de análise, seja ela o indivíduo, domicílio, comunidade, região geográfica, ou outro. Por fim, a quarta dimensão trata do impasse em relação à ênfase colocada nas causas ou nos efeitos da migração. Desta forma, seria importante elaborar uma teoria sobre o fenômeno migratório que incorporasse, concomitantemente, vários níveis de análise contemplados em uma perspectiva processual. Segundo Arango (2003, p.1), o conhecimento sobre as migrações internacionais progrediram consideravelmente, bem como o número de teorias à

22 21 disposição dos investigadores, porém é duvidoso que o arsenal teórico existente esteja à altura das exigências de uma realidade tão multifacetada como dinâmica. A primeira manifestação do moderno pensamento científico-social sobre as migrações se deu com os textos publicados pelo geógrafo Ernest Georg Ravenstein 3, em 1885 e Ravenstein inaugurou uma linha de reflexão e indagação que se prolonga até os nossos dias: a busca de regularidades empíricas nos movimentos migratórios (ARANGO, 1985, p.7). O desafio que Ravenstein se colocou, estimulado por uma observação do epidemiologista William Farr, foi o de analisar e indicar leis que eram seguidas pela migração. Usando os dados do censo inglês de 1881, Ravenstein elaborou um conjunto de proposições, denominado As Leis da Migração. Posteriormente, ampliou sua análise a mais vinte países. Em síntese, o trabalho de Ravenstein, enuncia os seguintes princípios: 1. A principal causa da migração é a disparidade econômica e o motivo financeiro predomina entre as razões para migrar; 2. A maior parte das migrações é de curta distância; 3. Os migrantes que percorrem longas distâncias geralmente preferem os grandes centros comerciais e industriais; 4. As migrações se produzem escalonadamente, ou seja, os migrantes que seguem para os centros de absorção deixam vazios que são preenchidos por outros migrantes, vindos de regiões mais longínquas, criando um fluxo migratório que chega aos mais remotos rincões do reino; 5. O processo de dispersão é inverso ao processo de absorção e exibe características similares; 6. Cada corrente migratória produz uma contracorrente compensatória. 7. Os nativos de áreas urbanas tendem a emigrar menos que os nativos de áreas rurais; 8. Os imigrantes são, na sua maioria, adultos; 9. As mulheres predominam nas migrações de curta distância e os homens nas migrações de longas distâncias; 10. As grandes cidades crescem mais por imigração que por crescimento vegetativo; 3 E. G. RAVENSTEIN, The Laws of Migration, Journal of the Royal Statistical Society, 48, pt. 2 (jun. 1885), pp ; 52 (jun.1889), pp

23 As migrações mais importantes são aquelas que se direcionam das áreas rurais aos grandes centros comerciais e industriais; 12. As migrações tendem a aumentar com o desenvolvimento econômico e com o progresso da tecnologia e do transporte (RAVESNTEIN, apud ARANGO, 1985, p.7). Ravenstein reconhecia que as leis aplicadas à população, assim como as econômicas, não tinham o mesmo rigor das leis físicas, uma vez que são constantemente interferidas pela ação humana. Como ressalta Arango: Las «leyes» de Ravenstein han sido acertadamente definidas como «um conjunto de proposiciones empíricas generales, vagamente relacionadas entre sí, que describen relaciones migratorias entre orígenes y destinos. Desde luego, la denominación de «leyes» aplicada a tales regularidades empíricas debe tomarse simplemente en sentido figurado, no stricto sensu (ARANGO, 1985, p.7). Embora os estudos de Ravenstein possam ser considerados primários e sem a construção efetiva de uma teoria, seu caráter precursor é evidente, pois apresenta uma análise empírica pormenorizada dos fenômenos migratórios, em que utiliza muitos dos procedimentos metodológicos adotados ulteriormente. Também se distingue pelo anúncio de vários temas e conceitos que são posteriormente estudados, tais como classificações de migrantes (temporários, de curta e média distância, entre outros), migrações por etapas, regiões de atração e repulsão, efeito da distância, contracorrentes, ação de estímulos econômicos (PEIXOTO, 2004, p.5-6). O que mais se destaca no trabalho de Ravenstein é o pioneirismo no uso do marco analítico atração-repulsão, ou fatores push-pull, ao levar em conta que a decisão de emigrar pode ser adotada respondendo a fatores que operam no lugar de origem ou destino. O motor do deslocamento espacial seria, portanto, as diferenças regionais nos níveis de renda, emprego e a inadequada distribuição territorial da força de trabalho. Assim, um agente racional, ao ter conhecimento das condições do lugar onde reside e de outro local, decide pela permanência ou pela migração, considerando tais diferenças (ARANGO, 1985; PEIXOTO, 2004; LEÓN, 2005).

24 Os fatores Push-pull Everet Lee, num esforço em completar as Leis de Ravenstein, elaborou A Theory of Migration 4 (1965), o renomado modelo push-pull. Segundo este modelo, há uma série de fatores que impelem o indivíduo a deixar um lugar quando o compara com as condições mais vantajosas que existem em outros lugares. Os fatores positivos (pull) atraem os migrantes e os negativos (push) os repelem. Como fatores de expulsão pode-se citar a elevada pressão demográfica, baixos salários, desemprego, qualidade de vida baixa, falta de acesso a terra, falta de liberdade política e religiosa, violência generalizada e desastres ambientais. Os fatores de atração, associados ao lugar de destino, seriam contrários. A decisão e o processo de migração, portanto, são conduzidos pelos fatores associados à área de origem, fatores associados à área de destino, aos obstáculos intervenientes e aos fatores pessoais. Na área de origem e destino, observam-se questões de ordem econômica, como infraestrutura social. Entre os obstáculos intervenientes elementos que se colocam entre as duas áreas geográficas e que funcionam como barreiras a migração inclui-se a distância, custos do deslocamento, tamanho da família, leis migratórias, etc (PEIXOTO, 2004). Para LEE (1966, apud Santos et al, 2010), as migrações são sempre seletivas e os obstáculos intervenientes serviriam para peneirar alguns dos débeis e incapazes. Nos fatores pessoais, inclui-se aqueles que fazem com que as decisões variem individualmente, como a posição no ciclo de vida, as fontes de informação e os contatos (PEIXOTO, 2004). Segundo Leon (2005), as críticas feitas a este modelo direcionam-se à ausência de historicidade e ao individualismo, assim como o fato de não levar em conta o contexto social e político que limitam a ação dos sujeitos. Além disso, de acordo com este modelo, são as pessoas mais pobres, dos países menos desenvolvidos, que tendem a emigrar e a realidade mostra que não são os mais pobres que emigram, e sim as pessoas de classe média. O modelo push-pull não explica por que os migrantes escolhem alguns locais e não outros, e ignora que as migrações não são individuais, mas sociais. 4 LEE, Everett S. A theory on migration. Demography, 3(1): 47-57, 1966 (Population Studies Center, Series in Studies of Human Resources, 1).

25 24 Arango (2003) destaca que o famoso e influente modelo push-pull não constitui uma verdadeira teoria, mas sim um útil marco conceitual. A construção de teorias sobre a migração é um caso recente, da segunda metade do século XX. 2.2 A Teoria Neoclássica A teoria neoclássica da migração baseia-se nos pressupostos da escolha racional, maximização da utilidade esperada, na mobilidade dos fatores de produção e nas diferenças de oportunidades de emprego e salários. As migrações são, portanto, resultado da desigual distribuição do capital e do trabalho, que, assim como os outros mercados, regulam-se livremente pela lei da oferta e procura. O fenômeno migratório exerce uma pressão para a diminuição dos salários nos países de destino e uma pressão no aumento destes nos países de origem, até alcançar o equilíbrio entre as duas áreas. Com o aumento da disparidade salarial, a taxa de emigração se eleva, mas com a eliminação da diferença salarial, o fluxo migratório tenderia a cessar. A explicação neoclássica tem a vantagem de combinar a perspectiva micro, da adoção das decisões por parte dos indivíduos, com a perspectiva macro, dos determinantes estruturais (ARANGO, 2003). No plano macro, é uma teoria da redistribuição espacial dos fatores de produção em resposta a diferentes preços relativos (RANIS e FEI, 1961; TODARO, 1976, apud ARANGO, 2003). No plano micro, explica-se pela decisão voluntária e racional do indivíduo, que busca aumentar seu bem-estar ao transladar-se a lugares onde a recompensa por seu trabalho é maior do que a que obtém no local de origem, em uma medida suficientemente alta para compensar os custos que derivam do deslocamento (SJAASTAD, 1962, apud ARANGO). De acordo com Soares (2002) e Fazito (2005), a perspectiva macroteórica tem como principais expoentes LEWIS (1963), HARRIS e TODARO (1980) e a microteórica TODARO (1980), SJAASTAD (1980) e BORJAS (1996).

26 Teoria da Nova Economia da Migração do Trabalho A New economics of labor migration, desenvolvida principalmente por Oded Star (1991), emana da teoria neoclássica e atribui a decisão das migrações a um conjunto maior de pessoas e não ao indivíduo isolado. A análise passa a ter como foco o domicílio ou outra unidade de produção e consumo, culturalmente definida, e não mais o indivíduo (SANTOS et al, 2010). La migración es una estrategia familiar orientada no tanto a maximizar los ingresos como a diversificar sus fuentes, con el fin de reducir riesgos tales como el desempleo o la pérdida de ingresos o de cosechas y, a la vez, eliminar cuellos de botella, dadas las imperfecciones que, por lo general, gravan los mercados de crédito y de seguros en los países de origen. En la medida en que la finalidad de la emigración es maximizar los ingresos, no lo es, necesariamente, en términos absolutos cuanto en relación con otros hogares en su grupo de referencia, retomando de este modo la vieja noción de la privación relativa (Stark y Taylor, 1989). De aquí se puede inferir, que cuanto más desigual sea la distribución de ingresos en una comunidad determinada, más se sentirá la privación relativa y mayores serán los incentivos para la emigración. En este sentido, la nueva economía de las migraciones laborales es sensible a la distribución de los ingresos, a diferencia de la explicación neoclásica (ARANGO, 2003, p.12). Assim, a decisão de migrar é tomada coletivamente por um grupo de não migrantes, que dividirão os custos e os benefícios da mobilidade. O objetivo, além da ampliação dos ganhos, é o de reduzir os riscos de queda do padrão de vida. Como explicita ARANGO (2003), os maiores méritos desta teoria são: a atenção prestada às remessas, à informação e às complexas interdependências entre os migrantes e o contexto em que se produzem as migrações, bem como o reconhecimento do papel decisivo que as unidades familiares frequentemente desempenham nas estratégias migratórias. 2.4 A Teoria do Mercado Dual de Trabalho A Dual Labor Market Theory, idealizada por Michael PIORE (1979), a partir de uma perspectiva macro dos fatores estruturais determinantes, considera que as migrações internacionais são decorrentes da permanente demanda por mão de obra nos países desenvolvidos, processo inerente ao ordenamento econômico das sociedades contemporâneas avançadas.

27 26 Deste modo, os movimentos migratórios não têm como propulsor o desemprego nos países de origem, e sim a necessidade de mão de obra (migrante) dos países de destino. Os fatores de atração assumem a causalidade do movimento, em detrimento dos fatores de repulsão. Mediante a necessidade de mão de obra, os Estados estimulam ou barram o fluxo migratório, através de medidas como o recrutamento de estrangeiros, a exigência de vistos e/ou a deportação. ARANGO (2003, p. 14), atesta que o mérito desta teoria reside no fato de explicar, de forma técnica e sofisticada, cinco questões: 1. Por que nas economias avançadas existem trabalhos instáveis e de baixa produtividade; 2. Por que os trabalhadores autóctones refutam este tipo de trabalho; 3. Por que a resistência dos trabalhadores autóctones a ocupar postos de trabalho pouco atrativos, não pode ser solucionada através de mecanismos de mercado ordinário, tais como aumentar os salários correspondentes a estes postos; 4. Por que os trabalhadores estrangeiros, procedentes de países com baixos salários, estão dispostos a aceitar este tipo de trabalho; 5. Por que esta demanda estrutural de mão de obra já não pode ser atenuada como se fazia antes, com mulheres e adolescentes. O autor ainda evidencia que tal teoria destaca-se também pela refutação da ideia de que os trabalhadores imigrantes competem com os trabalhadores nativos e que a presença dos primeiros afeta o nível dos salários e as perspectivas de emprego destes últimos. Conforme ressalta Blanco (2000), três fatores demográficos tem interferido na demanda de trabalhadores estrangeiros por parte das economias receptoras: a participação das mulheres no mercado de trabalho e a pressão por direitos sociotrabalhistas mais igualitários; o aumento do número de divórcios, que por vezes impele a mulher a ingressar no mercado de trabalho para sustentar a família; e a diminuição das taxas de natalidade, que somada ao aumento dos anos de estudo, eliminam uma boa porção do trabalho juvenil.

28 A Teoria das Redes Sociais Segundo a Network Theory, a migração se efetiva através das redes de contatos sociais. Assim, as unidades efetivas de migração não são nem os indivíduos, nem famílias, mas sim o conjunto de pessoas ligadas por relações de amizade, de conhecimento, de parentesco e de trabalho. São os contatos nas comunidades de origem e destino que influenciam a decisão de emigrar, permanecer ou retornar. Quanto mais esta rede se expande, menores são os custos e riscos econômicos e sociais do deslocamento, o que aumenta a probabilidade de migrar, gerando um movimento adicional e ampliando ainda mais as próprias redes. Na sociedade receptora, o imigrante estabelece novas relações sociais e familiares, que serão valorizadas por aqueles que foram deixados em sua terra. Casar-se e ter filhos é um fator determinante para que a migração se converta em definitiva, entretanto, se a família se encontra na origem, poderá pressionar o retorno (LEÓN, 2005). As disparidades salariais não são condições sine qua non para que a migração internacional ocorra. Pessoas próximas podem ter fortes incentivos para diversificar riscos e/ou acumular capital através do movimento transnacional, mesmo na ausência de diferenças salariais (MASSEY et al, 1998). A decisão de emigrar ocorre porque outras pessoas relacionadas ao migrante o fizeram anteriormente, gerando assim um efeito multiplicador, implícito na noção de migração em cadeia (ARANGO, 2003). Segundo Massey et al (1998), as redes migratórias podem ser vistas como uma forma de capital social, na medida em que se trata de relações sociais que permitem o acesso a outros bens de importância econômica, tais como emprego ou melhores salários. Massey et al (1987), apud Fazito (2005), ao entender o processo social da migração como dinâmica, cumulativa e interconectada, apresenta seis princípios sobre o fenômeno migratório: 1. A migração deveria ocorrer segundo um desequilíbrio estrutural entre regiões de origem e destino; 2. Depois de iniciado, o processo de migração seria sustentado por um fluxo contínuo de trocas, garantido pela criação das redes sociais;

29 28 3. A consolidação das redes possibilitaria a diversificação das estratégias migratórias, fortalecendo as organizações familiares e domiciliares; 4. A migração tenderia a ser auto-sustentável; 5. Independente do tempo de duração dos fluxos migratórios e; 6. Reforçada periodicamente pela ação dos retornados. Assim, os mecanismos de migração vão além da individualidade dos migrantes. Afora as questões relacionadas as estruturas socioeconômicas e culturais dos locais de origem e destino, deve-se considerar os vínculos entre os migrantes e não migrantes, bem como o campo social no qual se inserem (FAZITO, 2005). Sob esta óptica, as instituições governamentais apresentam grande dificuldade em controlar os fluxos que iniciaram com o processo de formação das redes de contato. O desenvolvimento das redes sociais ajuda a explicar o caráter duradouro das correntes migratórias, com independência das causas que levaram ao deslocamento inicial (MASSEY et al, 1998). 2.6 Teoria do Sistema Mundial A Word System Theory sustenta que a migração decorre dos desequilíbrios gerados pela expansão do capitalismo aos países periféricos (MASSEY et al, 1993). Tal expansão provocou a quebra e transformação dos padrões capitalistas de organização social e econômica e neste processo de penetração do mercado, um grande contingente de pessoas, como agricultores, artesãos são deslocados de modos de vida seguros e tradicionais, o que cria uma população móvel, propensa a migrar tanto interna quanto externamente (LEÓN, 2003). Estes trabalhadores buscam a cidade em um primeiro momento, mas com a economia frágil dos hipercentros subdesenvolvidos, acabam por dirigir-se ao exterior. Assim, a migração é resultado principalmente da dominação dos países centrais sobre as regiões periféricas, em um contexto de estrutura de classes e conflito (ARANGO, 2003). Nos países centrais, os imigrantes encontram empregos em setores que necessitam de mão de obra barata, mantendo a lucratividade das empresas,

30 29 evidenciando as migrações como um sistema de oferta de mão de obra a nível mundial (SASSEN, 1988, apud ARANGO, 2003). As relações de exploração colonial do passado deram lugar ao neocolonialismo, onde as empresas dos países centrais, mediante o desejo de grande lucratividade, buscam matérias primas e mão de obra barata nos países periféricos, perpetuando o poder das elites (MASSEY,1998, apud LEÓN, 2003). A expansão do mercado às regiões subdesenvolvidas efetiva-se através de uma pequena quantidade de cidades globais, que manejam os processos de produção cada vez mais dispersos e descentralizados. Nos países pobres localizam-se as operações de trabalho, já que os salários são mais baixos. Nos países com altos salários encontram-se os processos intensivos de capital (LEON, 2003). As críticas a esta teoria decorrem da ênfase excessiva nas variáveis econômicas, da concepção do imigrante apenas como um sujeito passivo, do poder que atribui ao mercado e da atenção reducionista que dá aos processos sociais que impulsionam e reproduzem as migrações (LEÓN, 2003) 2.7 Migrações e refúgio O primeiro contato dos haitianos com as autoridades brasileiras traduziu-se na solicitação de refúgio - um amparo jurídico internacional. As justificativas apresentadas para tal sempre se referiam à necessidade de deslocar impulsionada pelo terremoto de janeiro de 2010 e suas consequências. Implicam-se aí alguns pontos que necessitam ser esclarecidos para que se compreenda o tratamento e desfecho da questão pelo governo brasileiro como a concepção jurídica do refúgio e a abordagem dos refugiados e deslocados ambientais. O refúgio sempre fez parte da história da humanidade. Ao longo dos séculos, milhões de pessoas tiveram que deixar seus países de origem por razões culturais, religiosas, étnicas, ideológicas e solicitar proteção em outros territórios. Como exemplo, podemos citar o refúgio dos judeus perseguidos pelos romanos após a queda de Jerusalém, no ano 70, e a sintomática perseguição aos cristãos que se estendeu do governo de Nero (54-68) ao governo de Diocleciano ( ). Tratase, portanto de um fenômeno presente em todos os períodos da história.

31 30 Apesar da antiguidade da busca por refúgio, foi somente no século XX que os refugiados ganharam a proteção da comunidade internacional, com a Sociedade das Nações. Isso porque o mundo assistiu a movimentos massivos de pessoas decorrentes da Primeira Guerra Mundial, da Revolução Russa e da queda do Império Otomano, o que evidenciou a necessidade de se pensar nos deslocamentos. Com a Segunda Guerra Mundial e o nazi-fascismo, o número de refugiados aumentou consideravelmente e no ano de 1943, os Aliados criaram a Administração de Socorro e Reabilitação das Nações Unidas (UNRRA 5 ) (FERREIRA BARRETO, p.14, 2010). A UNRRA tinha como um de seus propósitos fornecer à população local assistência e reabilitação para aliviar seus sofrimentos, assim como alimento, roupa, e alojamento, e auxílio para a prevenção de epidemias e para a restauração da saúde. Ainda no ano de 1943, foi realizada a Conferência das Bermudas que definiu como refugiados todas as pessoas de qualquer procedência que, como resultado de acontecimentos na Europa, tiveram que abandonar seus países de residência por terem em perigo suas vidas ou liberdade, devido a sua raça, religião ou crenças políticas. Surge o embrião do que viria a ser o conceito empregado nos dias atuais. Conforme ressalta Ferreira Barreto (2010), a Conferência das Bermudas trouxe duas inovações: o preâmbulo do princípio non-refoulement segundo o qual não se deve obrigar uma pessoa a retornar ao seu país de origem se houver receio fundado e o princípio de que um órgão internacional deveria ocupar-se da questão dos refugiados. Importante observar que o texto fazia referência exclusivamente à Europa, deixando de lado os outros países e etnias envolvidas no conflito. Em 1947, foi criada a Organização Internacional de Refugiados (OIR). O trabalho dessa instituição ainda era focado nas questões dos refugiados da Segunda Guerra Mundial, tratando a questão, portanto, exclusivamente no espaço europeu. No final de 1950, foi criado o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) - organização humanitária, apolítica e social cujos principais objetivos são o de proteger homens, mulheres e crianças refugiadas e buscar 5 Em inglês: United Nations Relief and Rehabilitation Administration -UNRRA

32 31 soluções duradouras para que possam reconstruir suas vidas em um ambiente normal. No ano seguinte, o ACNUR promoveu uma conferência em Genebra para regular o status legal dos refugiados e o tratamento internacional. Dessa conferência originou a Convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados, conhecida como Convenção de A Convenção de 1951 estabeleceu os preceitos internacionais referente aos refugiados, a proteção legal, os direitos e deveres destes. Estabeleceu que o termo refugiado aplica-se a pessoa que: devido a fundados temores de ser perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, por pertencer a determinado grupo social e por suas opiniões políticas, se encontre fora do país de sua nacionalidade e não possa ou, por causa dos ditos temores, não queira recorrer à proteção de tal país; ou que, carecendo de nacionalidade e estando, em consequência de tais acontecimentos, fora do país onde tivera sua residência habitual, não possa ou, por causa dos ditos temores, não queira a ele regressar ( Estatuto dos Refugiados, 1951). A perseguição fundamentada em qualquer outro motivo que não seja uma das cinco apontadas na Convenção dos Refugiados - raça, religião, nacionalidade, pertencimento a determinado grupo social ou opinião política não é contemplada. A Convenção de 1951 apresentava duas barreiras que tornavam difíceis a sua aplicação em alguns países: restringia o tempo aos acontecimentos ocorridos antes de 1º de janeiro de reserva temporal - e a outra, chamada de reserva geográfica, limitava aos acontecimentos na Europa. Tais restrições foram suprimidas pelo Protocolo de 1967(Protocolo sobre o Estatuto dos Refugiados), permitindo que os demais dispositivos continuassem a ter aplicação. A criação do ACNUR e a Convenção de 1951 deram início a uma nova etapa de assistência e proteção internacional aos refugiados. Atualmente, há 140 países signatários da Convenção de 1951 e do Protocolo de Ao longo dos anos, o ACNUR foi ocupando-se cada vez mais de pessoas que não se enquadravam na definição clássica de refugiado, mas que por situações diversas encontravam-se deslocadas e ameaçadas. Destarte, a organização intervém em benefício de outros grupos de pessoas. Conforme a classificação aplicada desde 1993, o ACNUR presta assistência aos: - Refugiados: pessoas que estão fora de seus países de origem e foram reconhecidas como refugiadas;

33 32 - Repatriados: refugiados que retornaram aos seus países de origem e que o ACNUR auxilia a reinstalar na sociedade. - Deslocados: pessoas que foram forçadas ou obrigadas a fugir ou deixar seu lugar ou sua residência habitual, (particularmente) como resultados ou para evitar os efeitos de um conflito armado, situação de violência generalizada, violação dos direitos humanos ou desastres naturais ou humanos e que não ultrapassaram a fronteira de um Estado internacionalmente reconhecido. - Requerentes de refúgio: pessoas que estão fora de seus países de origem, solicitaram o refúgio em outro país e esperam uma decisão sobre seus casos. - Apátridas: pessoas que não são consideradas por qualquer Estado, segundo a sua legislação, como seu nacional. De acordo com ACNUR, até janeiro de 2011, o número de pessoas auxiliadas pela organização somava ,500 (ANEXO C). Observa-se que o maior número de refugiados encontra-se no continente asiático, especialmente na subregião do Sudoeste Asiático. Já os requerentes de refúgio, destacam-se na América Latina e os deslocados internos, na América Latina, seguida pelo Leste e Chifre da África e África Central e Grandes Lagos. Apesar do grande avanço da humanidade, as guerras, perseguições, intolerâncias a determinados grupos sociais devido a suas origens, crenças ou ideologias, continuam muito intensas no mundo neoliberal. Segundo o ACNUR, a cada minuto, oito pessoas são obrigadas a deixar sua casa devido à guerra ou perseguições. Sobre isso, BAUMAN, aponta que: As guerras e os massacres tribais, a proliferação de exércitos de guerrilheiros ou gangues de criminosos e traficantes de drogas posando de defensores da liberdade, ocupados em dizimar as fileiras uns dos outros, mas absorvendo e, no devido tempo, aniquilando nesse processo o excedente populacional (principalmente os jovens, que não conseguem emprego e não têm perspectivas) essa é uma das quase soluções locais para problemas globais, distorcidas e perversas, a que os retardatários da modernidade são obrigados a recorrer, ou melhor, acabam recorrendo. Centenas de milhares de pessoas, às vezes milhões, são escorraçadas de seus lares, assassinadas ou forçadas a buscar a sobrevivência fora das fronteiras de seu país. Talvez a única indústria florescente nas terras dos retardatários (conhecidas pelo apelido, tortuoso e frequentemente enganoso, de países em desenvolvimento ) seja a produção em massa de refugiados (BAUMAN, Z., 2007). Segundo Bauman, tornar-se um refugiado significa perder os meios em que se baseia a existencia social, ou seja, um conjunto de coisas e pessoas comuns que

34 33 têm significados terra, casa, aldeia, cidade, país, posses, empregos e outros pontos de referência cotidianos. Os refugiados, à deriva e à espera, não têm coisa alguma, a não ser a vida. O alicerce da proteção ao refugiado, ainda hoje, é a Convenção de Nela, algumas alterações foram feitas ao longo das décadas e convenções regionais foram originadas à sua luz. Entretanto, como é possível verificar, os deslocamentos forçados decorrentes das questões ambientais não são levados em consideração para atribuir aos indivíduos a condição de refugiado. 2.8 Os refugiados ambientais Os movimentos forçados da população por causas ambientais, denominados deslocamentos ambientais ou desplazados ambientais, não é um fenômeno recente. Historicamente, inúmeras populações tiveram que deixar suas terras devido à intensa degradação e esgotamento do solo, seca prolongada, ou por causa de desastres naturais como terremotos e tsunamis. O que é recente é o potencial para grandes deslocamentos de população como resultado de uma combinação da exaustão de recursos, da destruição irreversível do meio ambiente e do crescimento da população, entre outros fatores (PENTINAT, 2011). A expressão Refugiados Ambientais ou Environmental Refugees originou-se na Conferência de Estocolmo (1972) na elaboração da Declaração de Estocolmo sobre o Ambiente Humano e criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA 6 ), mas passou a ser mais conhecida a partir da publicação dos estudos de Essan El Hinnawi, intitulados Environmental Refugees (1985). O termo designa: aquelas pessoas que foram forçadas a sair de seu habitat natural, temporária ou permanentemente, devido a uma ruptura ambiental marcante (natural e/ou provocada pela atividade humana) que ameaça suas existências e/ou afeta seriamente suas qualidades de vida. Por ruptura ambiental entende-se qualquer mudança física, química e/ou biológica no ecossistema (ou na base de recursos) que o faz, temporária ou permanentemente, insustentável para suportar a vida humana (EL- HINNAWI, 1985) 6 Em inglês United Nations Environment Programme.

35 34 Na literatura específica há quem diferencie as pessoas que se deslocam dentro do próprio país daquelas que cruzam as fronteiras internacionais, denominando o primeiro grupo de deslocados internos 7 ou desplazados internos e o segundo como refugiados ambientais. A degradação ambiental não deve ser considerada como uma causa isolada, pois existe uma conexão entre os fatores socioeconômicos, culturais e políticos com o ambiente. Assim, a superposição das causas que originam a situação de refugiado ambiental determinam a indefinição do reconhecimento jurídico desta situação. O problema principal é identificar se estes processos são de tal gravidade que geram a migração e diferenciar os emigrantes econômicos dos refugiados ambientais (PENTINAT, 2011). Segundo Malta (2011), os refugiados ambientais diferenciam-se, sobretudo pela causa e, dessa, a intencionalidade, conforme demonstra o quadro abaixo. QUADRO 1 Tipos de Refugiados Ambientais a partir da categorização de Bates Subcateg oria Desastres Expropriações Deteriorações Um evento catastrófico não intencional causa migração humana Natural Tecnológico A destruição intencional do meio ambiente o torna desapropriado para a habitação humana Deterioração gradual do ambiente compele à migração ao dificultar a sobrevivência humana Eco-cídio Poluição Depleção Origem Natural Antropogênico Antropogênico Antropogênico Antropogênico Intenção Não intencional Não intencional Intencional Intencional Não intencional Desenvolvimento Antropogênico Não intencional Duração Abrupto Abrupto Abrupto Abrupto Gradual Gradual Prazo de Retorno Curto/ Médio Longo/- - Longo/- Médio/Longo Médio/ Longo Causalida de Uni/ Multicausal Uni/ Multicausal Unicausal Unicausal Multicausal Multicausal Exemplo Terremoto Acidente Nuclear Construção de Hidrelétrica Desfolhação Aquecimento Global Desflorestamento Exemplo Real Haiti Chernobyl Três Gargantas Vietnã Bangladesh Amazônia Equatorial Fonte: BATES, 2002, apud Malta, Além das causas ambientais, os deslocamentos forçados dentro do próprio país podem ser motivados por outros fatores como violência interna, luta armada, violação dos direitos humanos, incapacidade governamental em garantir segurança.

36 35 Tomando como base a escala e a categorização de Bates, verifica-se que à exceção das expropriações, os refúgios ambientais ocasionados por desastres e deteriorações não são intencionais. Os deslocamentos motivados por deteriorações ainda permitem uma permanência da população nas residências, dada alguma medida que minimize o efeito do impacto ou até mesmo à adaptação ao novo quadro. Entretanto, os refugiados ambientais de desastres constituem uma excepcionalidade. Mesmo que existam medidas de prevenção (centrais de monitoramento, estrutura resistente aos terremotos, furacões...) o desastre pode alcançar níveis inimagináveis e acima do planejamento. Para MALTA (2011) um importante fator a ser considerado quanto aos refúgios por desastres ambientais é a solução pós-evento. É preciso diferenciar a temporalidade dos impactos quanto ao retorno da população após o deslocamento. Há desastres que permitem o retorno da população a moradia original em curto ou médio prazo, como os furacões, entretanto, há aqueles que somente permitirão o retorno da população em longo prazo, como os desastres industriais (Chernobyl, por exemplo). De qualquer forma, independente da temporalidade, o fato é que a possibilidade de retorno é dependente da resolução do elemento fundamental que motivou a perseguição. Aos refugiados clássicos, esse elemento é condicionado pela ação humana: guerras, conflitos, disputas. Em outras palavras, a partir da resolução do conflito que foi o gatilho para o deslocamento populacional, esse pode começar a ser mitigado. O ponto de excepcionalidade dos refugiados ambientais é que, dependendo do tipo de evento-gatilho que os ocasionou, a solução independe da vontade humana (sucessivos terremotos, monções exageradas), exige um concerto tão global que a própria solução aparenta ser além do alcance (aumento do nível dos mares ocasionado pelas mudanças climáticas) ou tem um tempo de resolução tão longo que sucessivas gerações de refugiados podem nunca conhecer seu lar original (retrocesso em processo de desertificação, limpeza/decaimento da radiação) (MALTA, p.67, 2011). Outra diferença em relação aos refugiados clássicos é a base sem procedentes para a atuação. Apesar de ser historicamente recente, o processo de refugiado moderno assemelha-se a prática política de impérios antigos. Entretanto, os refugiados ambientais não contam com este aporte, uma vez que o tema nunca esteve tão em voga quanto na atualidade. De forma geral, pode-se afirmar que não há bases jurídicas no Direito Internacional relativas aos refugiados ambientais. Ante a esta lacuna, caberia a proteção destas pessoas pela aplicação dos Direitos Humanos e dos princípios do

37 36 Direito Internacional do Meio Ambiente. Observa-se, portanto, que é preciso, urgentemente, estabelecer o amparo jurídico, político e social em um contexto onde cada vez mais pessoas se veem forçadas a deslocar-se através de fronteira internacional devido a motivos ambientais.

38 37 3 A MIGRAÇÃO INTERNACIONAL NO BRASIL: OS MOVIMENTOS RECENTES (...)Todos os dias é um vai-e-vem A vida se repete na estação Tem gente que chega pra ficar Tem gente que vai pra nunca mais Tem gente que vem e quer voltar Tem gente que vai e quer ficar Tem gente que veio só olhar Tem gente a sorrir e a chorar E assim, chegar e partir São só dois lados Da mesma viagem O trem que chega É o mesmo trem da partida A hora do encontro É também de despedida A plataforma dessa estação É a vida desse meu lugar (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1985). A migração internacional, no contexto dinâmico da economia globalizada, aumentou consideravelmente nas últimas três décadas. Apesar de não se caracterizar por um volume muito elevado, os imigrantes somam aproximadamente 200 milhões em todo o mundo e um número crescente de países tem se configurado como locais de emigração, imigração e de trânsito, não mais podendo ser caracterizados unicamente como fornecedores ou receptores de migrantes. As facilidades de comunicação por diversos meios, inclusive a internet, aliada à facilidade de acesso aos meios de transporte intercontinentais, fazem com que a migração internacional de hoje apresente características diversas daquelas observadas até meados do século passado. Se no início do processo das grandes migrações na primeira metade do século XIX, o partir significava para muitos um afastamento definitivo do seu meio social e familiar, hoje é possível fixar residência a milhares de quilômetros e manter contato com o seu círculo social e familiar como se, e algumas vezes mais próximo, morasse na mesma cidade. Talvez, por esta razão, o tema tomou relevância e passou a ser discutido amplamente pela sociedade civil, meios de comunicação, instituições governamentais e internacionais, dadas as grandes implicações produzidas pelo fenômeno. Multiplicam-se as rotas migratórias e as complexidades dos movimentos exigem análises mais profundas, impondo o abandono da visão simplista que classifica um país exclusivamente como de emigração ou imigração.

39 Aspectos históricos da migração internacional brasileira O Brasil, que desde a década de 1980 definiu-se como um país de emigração, tem experimentado, como outrora, um fluxo crescente de imigrantes, configurando-se, concomitantemente, como um país de emigração, imigração e trânsito. A imigração internacional para o Brasil, historicamente implica a participação da mão de obra estrangeira na economia local, desde o início da colonização. Inicialmente, a imigração buscava atender aos interesses da corte portuguesa e assegurar a posse do território. Com o desenvolvimento da economia açucareira e, posteriormente, da mineradora, o fluxo de escravos foi estimulado, formando o mais numeroso conjunto de imigrantes no período. Foi no final do século XIX até o primeiro quarto do século XX, que o Brasil recebeu os maiores fluxos de imigrantes que vieram atender à demanda crescente por mão de obra na agricultura e indústria incipiente. Estima-se que, neste período, o Brasil recebeu cerca de 4,4 milhões de pessoas, provenientes, sobretudo de Portugal, Itália, Espanha, Japão e Alemanha. A crise econômica mundial de 1929 e, consequentemente, a crise do café, reduziram progressivamente os fluxos migratórios internacionais. Os conflitos internacionais de meados do século vieram reduzir ainda mais este fluxo e a partir de 1970, o Brasil apresentou uma população praticamente fechada à imigração, onde entradas e saídas se compensavam e tinham pequeno volume. No entanto, na década seguinte, pela primeira vez, apresentou saldo migratório 8 negativo. De acordo com Patarra (2005), o processo de deslocamento da população brasileira na década de oitenta refletiu as crescentes transformações econômicas, sociais, políticas, demográficas e culturais que ocorreram globalmente. Nesse contexto, situam-se as mudanças provenientes do processo de reestruturação produtiva, com a inserção de novas formas de mobilidade do capital e da população em diferentes partes do mundo. Um grande desafio sempre foi mensurar o volume desses imigrantes e várias fontes são empregadas com este fim. Os dados dos censos brasileiros, através de 8 Diferença entre o número de pessoas que entrou (imigrantes) e deixou (emigrantes) um determinado município, estado ou país.

40 39 da mensuração por métodos indiretos 9, permitem avaliar o volume das entradas e saídas de migrantes. Assim, no período compreendido entre os Censos de 1991 e 2000, o saldo migratório internacional ultrapassou o volume de 500 mil pessoas, indicando a saída de brasileiros. Também havia indicações de que crescia a imigração, principalmente a de retorno. Utilizando as informações de data fixa 10, pode-se estimar que aqueles imigrantes internacionais que escolheram o Brasil como destino, somaram pouco mais de 66 mil em Já no ano 2000, eles atingiram a casa de 144 mil um incremento de 117%. Na composição desses fluxos internacionais de entrada, os brasileiros natos que compõe a migração de retorno passaram a ocupar papel preponderante: enquanto a participação relativa deles subiu de 47% a 61%, de uma fase a outra, o percentual de estrangeiros sofreu contração, passando de 48% em 1991, para 34% em O Censo Demográfico de 2010, pela primeira vez, inseriu, no questionário do universo, questões sobre a emigração internacional. Nos domicílios, foi questionado se havia algum dos moradores residindo no exterior no dia 31 de julho de 2010 (data de referência da pesquisa), seu sexo e a data da última partida. As informações disponibilizadas, apresentadas nas Tabelas 1 e 2, demonstram que brasileiros estariam residindo no exterior, sendo Estados Unidos ( ), Portugal (65.969) e Espanha (46.330) os destinos mais importantes. 9 Sobre técnicas indiretas ver: CARVALHO, J. A. M. (O saldo dos fluxos migratórios internacionais do Brasil na década de 80: uma tentativa de estimação. In: Programa Interinstitucional de Avaliação e Acompanhamento das Migrações Internacionais no Brasil, 2, Migrações internacionais: herança XX, agenda XXI, p ) e CARVALHO, J. A. M. de; RIGOTTI, J. I. R. (Análise das metodologias de mensuração das migrações. In: Encontro Nacional Sobre Migração, 1998, Curitiba. Anais. Curitiba: IPARDES/FNUAP/ABEP, p ). 10 Os migrantes de data fixa, no caso brasileiro, são pessoas que em uma data fixada cinco anos antes do recenseamento, residiam em outro local (VASCONCELLOS,I.R.P. ; RIGOTTI, J. I. R ).

41 40 Tabela 1 - Emigrantes brasileiros segundo o continente de destino, 2010 Nº de Continente Emigrantes de destino Brasileiros Europa América do Norte Ásia América do Sul Oceania África América Central Sem declaração 646 Total Fonte: IBGE, Censo Demográfico de Tabela 2 - Emigrantes brasileiros segundo o país de destino, 2010 País de destino Nº de Emigrantes Brasileiros Estados Unidos Portugal Espanha Japão Itália Reino Unido França Alemanha Suíça Austrália Canadá Argentina Bolívia Irlanda Bélgica Outros países Total Fonte: IBGE, Censo Demográfico de Mesmo considerando as deficiências que estes dados podem apresentar, como parcela de não resposta e impossibilidade de captar aqueles domicílios onde todos emigraram, estes números permitem ter, pelo menos, uma ideia da dimensão

42 41 que poderia ser considerada como o volume mínimo de brasileiros vivendo no exterior. Outra fonte para se estimar o contingente de brasileiros residindo no exterior são os dados compilados pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE), construídos a partir de levantamentos realizados pelas unidades consulares nos diversos países. Estas informações retratam que o número de brasileiros vivendo no exterior no ano de 2010 era de (MRE, 2011). 3.2 A intensificação da migração de retorno no início do século XXI No início do século XXI - marcado pelos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos e posteriormente em Madri e Londres, no ano de 2004 e o mundo viu as políticas antimigratórias enrijecerem e os direitos já estabelecidos dos imigrantes se restringirem. A imigração passou a ser tratada por muitos países como questão de segurança e a guerra ao terror, vez ou outra, tornou-se enfrentamento ao imigrante, que passou a ser visto com desconfiança. A crise financeira mundial deflagrada a partir de 2008, e que ainda perdura, impactou ainda mais o cenário migratório. Muitas economias avançadas, que nas últimas décadas configuraram-se como maiores polos atrativos migratórios, ainda hoje buscam superar as dificuldades, e os problemas no mundo globalizado repercutem-se de forma geral. Ao final de 2011, a taxa de desemprego entre a população economicamente ativa atingiu índices de aproximadamente 9% nos Estados Unidos, 5% no Japão e 11% na zona do euro (Eurostat), com destaque para Espanha (22%) e Portugal (13%). Com a recessão global, governos de vários países começaram a pressionar ou a incentivar o retorno dos estrangeiros. Este cenário pode ser exemplificado pela política adotada pelo Japão, que em 2009, adotou medidas para incentivar o retorno voluntário, oferecendo uma ajuda financeira condicionada ao não retorno ao país por determinado período de tempo, bem como a iniciativa da Comunidade Europeia, em parceria com a Organização Internacional para as Migrações (OIM), em apoiar o retorno de emigrantes com ações que visavam contribuir para o desenvolvimento de empreendimentos no país de retorno.

43 42 O agravamento da crise econômica internacional, sobretudo nas economias avançadas, e os altos índices de desemprego, fizeram crescer a migração de retorno. Apesar de não haver dados suficientes que permitam quantificar este fenômeno, seus indícios são claros. Na Espanha, por exemplo, o Instituto Nacional de Estatística (INE) apontou que de forma diversa do que aconteceu nos últimos dez anos, nos nove primeiros meses de 2011, o saldo migratório foi negativo. Entraram no país pessoas e deixaram a Espanha. A guinada é significativa, visto que no boom da imigração, antes da crise, entraram em média por ano 750 mil pessoas, saindo 220 mil, o que gerava um saldo positivo de mais de 500 mil pessoas por ano. Este quadro fez com que, até 2008, os imigrantes representassem mais de 10% da população do país. Desde a crise, estima-se que 60 mil brasileiros retornaram do Japão. Cerca de 20 mil aproveitaram a ajuda do governo japonês, para dekasseguis desempregados que escolhessem deixar o país. Até 2008, aproximadamente 320 mil brasileiros viviam no Japão. Esta situação de retorno levou o Governo brasileiro a tomar medidas para auxiliar aqueles que aqui chegavam. Em 2008, foi firmado um convênio entre o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) para atender aos imigrantes dekasseguis que retornaram ao Brasil. O projeto, denominado Dekassegui Empreendedor, é voltado ao desenvolvimento da capacidade empreendedora dos dekasseguis brasileiros, além de proporcionar apoio educacional, técnico e gerencial na implantação de negócios por este público no Brasil. O projeto atende também dekasseguis que estão indo para o Japão e os que lá estão. Em 2009, a Casa do Trabalhador, mantida no Japão pelo MTE, criou um sitio 11 em português, disponibilizando toda a legislação japonesa para auxiliar os dekasseguis e ainda ajudar a recolocar no mercado os trabalhadores que foram demitidos após a crise econômica mundial. Se por um lado alguns países atraem menos estrangeiros, por outro há aqueles que experimentam fenômeno inverso, como o Brasil, que atualmente vem 11 Disponível em

44 43 recebendo contingentes cada vez maiores de imigrantes, seja o de retorno de brasileiros, seja o de estrangeiros. 3.3 O Brasil como um país de imigração O desenvolvimento progressivo da economia brasileira e sua inserção no mercado global, a criação de novos postos de trabalho em áreas que demandam mão de obra especializada, principalmente no setor petrolífero, a ampliação do mercado interno e posicionamento favorável da economia frente à crise global de 2008, tem atraído muitos estrangeiros motivados por tal conjuntura. Nesse cenário, além dos tradicionais imigrantes originários de países limítrofes - como paraguaios e bolivianos o país tem recebido estrangeiros de territórios ultramar, como africanos de nacionalidades diversas, asiáticos e até mesmo imigrantes dos Estados Unidos, países da Europa e Caribe. A internacionalização da economia brasileira e a projeção do Brasil na mídia internacional impulsionada pelo processo de estruturação para sediar grandes eventos como a Rio +20 (2012), Copa do Mundo da FIFA (2014), Jogos Olímpicos (2016) e o papel de protagonista em ações de âmbito internacional como a liderança das forças de paz no Haiti, ampliam as informações sobre o país e fazem com que esse entre no imaginário global, tornando-se alvo daqueles que têm o intento de emigrar. O cenário é atrativo aos estrangeiros que visualizam grandes chances de trabalho. O Ministério da Justiça indica que, até setembro de 2012, tinham permissão ativa 12 de residir no Brasil um total de estrangeiros, sendo em sua maioria portugueses ( ) seguidos por japoneses ( ), italianos (99.336), bolivianos (97.951) e espanhóis (83.926). Segundo o MTE, em 2010, as autorizações para estrangeiros trabalharem no Brasil cresceram 30% em relação a 2009, totalizando concessões, conforme mostra a Tabela Pessoas em situação regular de residência, residentes ou não no Brasil no momento do levantamento.

45 44 Tabela 3 - Autorizações de trabalho concedidas a estrangeiros no Brasil, Ano Nº de Estrangeiros Total Total ( ) Fonte: MTE, 2011 Entre as autorizações temporárias 13, o aumento foi de 32% e entre as permanentes, de 4,5%. Neste ano, os estados que mais receberam os estrangeiros foram São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Amazonas e Paraná. Quanto ao país de origem, os que mais solicitaram autorizações de trabalho são dos Estados Unidos (7.550), Filipinas (6.531), Reino Unido (3.809), Índia (3.237) e Alemanha (2.904). Dos países do MERCOSUL, os argentinos foram os que mais solicitaram autorização para trabalho (644), seguidos dos venezuelanos (562), chilenos (383), bolivianos (90), uruguaios (66) e paraguaios (28) (MTE, 2011). Em comparação ao ano de 2010, as autorizações concedidas em 2011 tiveram aumento de 26%. Naturalmente, o fluxo de imigrantes em situação irregular também aumentou. As estimativas sobre o volume destes fluxos, apesar de não muito fidedignas, variam bastante. Segundo o MTE, em 2008 havia 180 mil imigrantes irregulares. No mesmo ano, o Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM) indicou mais de 600 mil pessoas nesta 13 A migração temporária ocorre quando a pessoa migra por tempo determinado, ou seja, quando a migração é só durante um determinado período de tempo. A migração permanente ocorre quando a intenção é continuar residindo no local de destino; não há intenção de retorno ao local de origem.

46 45 situação. No entanto, no momento do processo da anistia de 2009, um total de apenas estrangeiros buscou regularizar a sua situação no país. Dentre os estrangeiros regulares, observa-se um movimento claro de profissionais oriundos de países desenvolvidos, como Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha. O momento não favorável nas economias desenvolvidas soma-se a carência de mão de obra qualificada no Brasil. Estes profissionais vêm preencher a lacuna da formação de mão de obra e suprir o mercado que, apesar de esforços governamentais e empresariais, demoraria muito a se formar no Brasil. A demanda por pessoal qualificado, como engenheiros, gerentes, executivos e técnicos das mais diversas áreas é crescente. O MTE apontou que dos estrangeiros autorizados a trabalhar no Brasil em 2010, o montante de 57,9% tinha nível superior e 38,6% havia cursado o Ensino Médio ou Técnico Profissionalizante. Os estados que mais receberam essa mão de obra coincidem com os polos de desenvolvimento industrial e econômico do país: São Paulo com 45,6%, Rio de Janeiro com 39,9% e Minas Gerais com 4,7% (MTE, 2011). O Censo 2010 também registrou um grande aumento no movimento de entrada de pessoas no país, em relação ao ano Pelo critério de data fixa, ou seja, considerando os indivíduos que declararam residir no Brasil na data de referência do Censo, mas que moravam no exterior cinco anos antes, contabilizouse 286,5 mil imigrantes. Esse número foi 86,7% maior do que em 2000 (143,6 mil). Os principais estados de destino desses imigrantes foram São Paulo, Paraná e Minas Gerais, que juntos receberam mais da metade dos imigrantes internacionais do período. Do total de entradas no país, os brasileiros retornados representaram 65% destes imigrantes internacionais levantados, o que corresponde a um montante de 174,6 mil pessoas. Em 2000, o contingente de imigrantes internacionais retornados foi de apenas 87,9 mil, correspondendo a 61,2% dos imigrantes do período, o que demonstra um grande crescimento do retorno na década. Os principais países de origem dos imigrantes brasileiros e retornados - foram os Estados Unidos (51,9 mil imigrantes), Japão (41,4 mil), Paraguai (24,7 mil), Portugal (21,4 mil) e Bolívia (15,8 mil), conforme mostra o Gráfico 1.

47 Gráfico 1 - Principais países de origem dos imigrantes no Brasil, Total de Imigrantes Brasileiros Retornados Fonte: IBGE, Censo Em 2000, os principais países de origem eram o Paraguai (35,5 mil), Japão (19,7 mil), Estados Unidos (16,7 mil), Argentina (7,8 mil) e Bolívia (6,0 mil). 3.4 A Anistia Como em outros países, o Governo brasileiro também recorreu ao processo de anistia 14 para a regularização do status migratório de estrangeiros. A partir da Lei 6815/80, foram realizados quatro processos de anistia no país, em 1981, 1988, 1998 e em Em julho de 2009, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº /2009, regulamentada pelo do Decreto nº 6.893/ a Lei da Anistia Migratória - que em sua primeira fase, estabeleceu a possibilidade de conceder residência provisória aos estrangeiros que ingressaram no território nacional até 1º de fevereiro de 2009, e nele permaneciam em situação migratória irregular. A lei permite ainda a transformação da residência provisória obtida, em permanente, depois de um período de dois anos, desde que os interessados atendam a todos os requisitos legais exigidos. Após quatro anos é possível solicitar a naturalização.

48 47 O principal objetivo ao regularizar os estrangeiros foi proporcionar uma vida mais digna àqueles que aqui se encontram de forma irregular, à margem de seus direitos fundamentais. Ao beneficiado com a regularização migratória são outorgados os direitos civis equivalentes aos dos brasileiros, à exceção daqueles expressamente reservados aos nacionais, nos termos da Carta Política, permitindo o trabalho, o estudo, o acesso à justiça, a saúde, entre outros (Ministério da Justiça, 2011). A medida regularizou a situação migratória de estrangeiros e os principais beneficiados foram os bolivianos, chineses, peruanos, paraguaios e coreanos. Em janeiro de 2012, o Departamento de Estrangeiros do Ministério da Justiça declarou que dos 45 mil estrangeiros anistiados, 40% já obtiveram residência permanente no país. Os bolivianos são a maioria dos que solicitaram residência permanente, seguidos dos chineses e paraguaios. Do total, (44%) têm entre 19 e 30 anos e cerca de 11 mil (61%) são do sexo masculino. Mesmo com este avanço, ainda há muito o que fazer, pois apesar da anistia os problemas de ordem burocrática persistem e a regularização da situação dos estrangeiros residentes no Brasil torna-se um caminho sinuoso e lento. 3.5 O Refúgio no Brasil O Brasil trata juridicamente da matéria sobre os refugiados de acordo que foi estabelecido na Convenção de Genebra de 1951 e no Protocolo de Foi o primeiro país da América do Sul a ratificar os principais recursos internacionais de proteção e a regular a proteção aos refugiados. A lei brasileira que define os mecanismos para implementação do Estatuto dos Refugiados de 1951, dentre outros procedimentos, é a Lei nº 9.474, de 22 de julho de Conforme tal legislação, será reconhecido como refugiado todo indivíduo que: I - devido a fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas encontre-se fora de seu país de nacionalidade e não possa ou não queira acolher-se à proteção de tal país; II - não tendo nacionalidade e estando fora do país onde antes teve sua residência habitual, não possa ou não queira regressar a ele, em função das circunstâncias descritas no inciso anterior;

49 48 III - devido a grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outro país (Art. 1, lei 9.474,1997). Verifica-se que o terceiro parágrafo referente ao reconhecimento dos refugiados, vai além do que foi estabelecido na Convenção de 1951, o que demonstra aspecto proeminente e inovador do Brasil no que tange à matéria. Esta prenúncia baseia-se no que foi estabelecido na Convenção de Cartagena de 1984 legislação acerca do refúgio vigente no âmbito do MERCOSUL. De acordo com HAYUDU (2011), a Declaração de Cartagena é importante porque reconhece a complementaridade existente entre os três ramos da proteção internacional da pessoa humana, à luz de uma visão integral e convergente do direito humanitário, dos direitos humanos e do direito dos refugiados. A Lei nº 9.474/97 também criou o Comitê Nacional para os Refugiados CONARE, cujas principais finalidades são: analisar o pedido sobre o reconhecimento da condição de refugiado; deliberar quanto à cessação ex officio ou mediante requerimento das autoridades competentes, da condição de refugiado; declarar a perda da condição de refugiado; orientar e coordenar as ações necessárias à eficácia da proteção, assistência, integração local e apoio jurídico aos refugiados, com a participação dos Ministérios e instituições que compõem o Conare; e aprovar instruções normativas que possibilitem a execução da Lei nº 9.474/97. O CONARE é um órgão colegiado, vinculado ao Ministério da Justiça. Reúne segmentos representativos da área governamental, da Sociedade Civil e das Nações Unidas. O Comitê é composto por representantes dos seguintes órgãos: Ministério da Justiça, que o preside; Ministério das Relações Exteriores, que exerce a Vice-Presidência; Ministério do Trabalho e do Emprego; Ministério da Saúde; Ministério da Educação; Departamento da Polícia Federal; Organização não-governamental, que se dedica a atividade de assistência e de proteção aos refugiados no País Cáritas Arquidiocesana de São Paulo e Rio de Janeiro; e

50 49 Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados ACNUR, com direito a voz, sem voto (CONARE, 2012). Além da proteção física e legal, os refugiados no país têm direito à documentação e aos benefícios das políticas públicas de educação, saúde e habitação, entre outras. Para garantir a assistência humanitária e a integração dessa população, o ACNUR também trabalha com diversas ONGs no país. Entre os programas implementados estão o de integração local, que busca facilitar a inserção do refugiado na comunidade, e o de reassentamento, que recebe refugiados que continuam sofrendo ameaças e problemas de adaptação no primeiro país de refúgio (CONARE, 2012). De acordo com o CONARE, ao final de 2011 havia refugiados no Brasil. Destes, 4053 foram reconhecidos por vias tradicionais de elegibilidade e 424 reconhecidos pelo Programa de Reassentamento, ou seja, 90,5% tem o Brasil como o primeiro país de acolhida e apenas 9,5% como opção posterior. Do total de refugiados, 430 vieram de lugares diferentes do seu país de origem, e já tinham status de refugiados antes de chegarem ao Brasil. São os reassentados que, por questões de segurança ou integração, não podem permanecer no primeiro país de acolhida nem retornar ao de origem. Nesses casos, não há necessidade de nova solicitação de refúgio. Os outros foram reconhecidos em território brasileiro (Ministério da Justiça, 2011). O status de refugiado garante ao imigrante os mesmos direitos do cidadão brasileiro no tocante à moradia, trabalho e saúde, dentre outros. A maioria destes refugiados origina-se no continente africano, seguido do americano (Tabela 4). Neste universo, incluem-se nacionalidades de 77 países, com destaque de Angola, Colômbia e República Democrática do Congo (Tabela 5). Tabela 4 - Refugiados por continente no Brasil Continente Refugiados % África ,79 América ,08 Ásia ,85 Europa 97 2,17 Apátrida 5 0,11 Total Fonte: CONARE, 2011 Tabela 5 - Refugiados por nacionalidade no Brasil Nacionalidade Refugiados %

51 50 Angola ,66 Colômbia ,61 República Democrática do Congo ,5 Libéria 258 5,76 Iraque 207 4,62 Fonte: CONARE, 2011 Dos 654 refugiados colombianos, 374 foram reconhecidos por vias tradicionais de elegibilidade e 280 foram reassentados. O Brasil tem se destacado regionalmente frente à questão colombiana e a não adaptação dos refugiados colombianos no Equador e Costa Rica. Segundo MILESI e ANDRADE (2009), o Brasil é conhecido por ter um dos maiores índices de aprovação das solicitações de refúgio que recebe. Embora o governo brasileiro tenha uma política para os refugiados, ainda há muito que se fazer. É preciso ampliar os serviços prestados aos refugiados, principalmente no que tange à inserção no mercado de trabalho, habitação digna e inclusão social. Urge a aplicação medidas efetivas que permitam a real integração dos refugiados à sociedade brasileira. 3.5 A política de imigração Apesar dos percalços na política migratória brasileira, mesmo que lentamente, há avanços nas discussões sobre a condição do migrante. O processo de ampliação de acordos de residência, no qual engajou o Governo brasileiro, teve seguimento em 2011, quando em julho foi ampliado o Acordo sobre Residência para Nacionais dos Estados Parte do MERCOSUL, Bolívia e Chile com a inclusão do Peru, Colômbia e Equador este último não internalizado - e em breve a Venezuela devido à sua entrada no bloco (Decreto 6.975/09) que estabelece regras comuns para facilitar a obtenção de residência legal no território dos Estados Partes. A Lei de Estrangeiros (nº 6.815/1980) - referência jurídica nacional para o tratamento ao imigrante, concebida como um projeto de segurança nacional, retrógrada e inoperante para o perfil atual, deve ser substituída por uma nova proposta em Discussão no Congresso Nacional (PL 5.655/2009). O novo texto privilegia a visão dos direitos humanos dos imigrantes em detrimento do caráter da legislação atual, excessivamente voltada para a segurança nacional,

52 51 Ressalta-se também o documento intitulado Política Nacional de Imigração e Proteção ao(a) Trabalhador(a) Migrante elaborado a partir do seminário ocorrido em agosto de 2008 Diálogo Tripartite sobre Políticas Públicas de Migração para o Trabalho, organizado pelo Conselho Nacional de Imigração (CNIg) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). O texto apresenta contribuições à formulação de uma Política Nacional de Imigração e tem por finalidade estabelecer princípios, diretrizes, estratégias e ações em relação aos fluxos migratórios internacionais, com vistas a orientar as entidades e órgãos brasileiros na atuação vinculada ao fenômeno migratório, a contribuir para a promoção e proteção dos Direitos Humanos dos migrantes e a incrementar os vínculos das migrações com o Desenvolvimento (CNIg, 2010). Além da legislação, é preciso reaparelhar e dar eficiência ao sistema decisório, que é moroso e administrativamente ineficiente. O processo de legalização de entrada no país é visto como um dos mais custosos, dadas às exigências de uma série de documentos, lentidão na sua análise e burocracia. Somando os imigrantes regulares e irregulares residentes no Brasil, esse contingente corresponde a menos de 1% da população brasileira, e mesmo que o volume da imigração não possa ser considerado como uma ponta de um sistema consolidado, o fato não deixa de ser importante, pois permite à sociedade refletir sobre uma nova situação - a imigração internacional - buscando-se soluções e, o mais importante, procurando desenhar uma política pública adequada a essa realidade, que poderá ser condição estrutural no país, dado seu comportamento demográfico nas décadas vindouras. Fato importante a salientar, quando se trata de processos migratórios recentes, é o fluxo Haiti-Brasil. Embora o número de haitianos não represente um grande volume frente a outros contingentes migratórios, a maneira peculiar como este processo vem ocorrendo e o posicionamento do governo brasileiro ante este fluxo, merece atenção. O Brasil entrou na rota da diáspora haitiana e precisou dar respostas rápidas ao movimento que se intensificou a partir de 2010, e que em meados de 2012 estima-se ser de aproximadamente pessoas. 4 A GÊNESE DA DIÁSPORA HAITIANA

53 52 Quando vim da minha terra, se é que vim da minha terra (não estou morto por lá?), a correnteza do rio me sussurrou vagamente que eu havia de quedar lá donde me despedia. Os morros, empalidecidos no entrecerrar-se da tarde, pareciam me dizer que não se pode voltar, porque tudo é consequência de um certo nascer ali(...). (Andrade, C.D, 2002) Buscando evadir-se da situação calamitante de vida e da violência que acomete o país historicamente, há décadas, os haitianos partem para territórios estrangeiros, principalmente para os países vizinhos. O país que outrora fora conhecido como Pérola das Antilhas, chama a atenção pelo maior índice de pobreza das Américas, e dele um número elevado de cidadãos parte com destino a territórios onde acreditam obter melhores condições de vida. Para compreender a gênese da diáspora haitiana, é necessário ter uma visão global sobre a história do país, que sempre foi marcada pela disputa de poder, onde o bem estar e qualidade de vida da população constantemente foram relegados em detrimento de poucos. Este cenário, ao longo das décadas, vem forçando o deslocamento de milhares de haitianos que partem para outros países em busca de sobrevivência e, sobretudo, paz. As seções seguintes buscam recapitular a história do Haiti, do tempo colonial ao ano de 2010 e levantar alguns pontos que, a nosso ver, foram transformando a colônia mais rica das Américas em país mais pobre e, consequentemente, uma nação afeita à repulsão de migrantes. Tem-se ciência de que, certamente, os esforços aqui empreendidos deixarão lacunas nessa complexa narrativa, mas o que se segue, permitirá ao leitor uma síntese sobre os caminhos traçados pelos haitianos ao longo do tempo. Ao longo deste capítulo, também serão apresentadas algumas importantes questões ambientais que acentuam a pobreza e dificultam a permanência dos haitianos no seu território. Destas, umas são de cunho natural, como os terremotos e furacões, e outras que foram concebidas, insustentavelmente, ao longo da história,

54 53 tais como o desmatamento e a erosão dos solos. Afora o determinismo ambiental 15, infere-se que os problemas ambientais somente passam a ser um complicador, à medida que ações ou inações dos gestores, não fazem diferença para sua sociedade. Por fim, expõem-se alguns dados socioeconômicos que permitem, sobremaneira, compor o panorama desta nação. 4.1 O castelo haitiano em pilares de açúcar: breve histórico ( ) No ano de 1492, Cristóvão Colombo desembarcou na ilha caribenha Hispaniola, atual território do Haiti e República Dominicana, (vide Mapa 1) e na parte oeste estabeleceu a capitania Ayiti, que na língua dos nativos significa Terras Altas. Mapa 1 - Haiti e Republica Dominicana América Central Fonte: Elaborado pela autora 15 Friedrich Ratzel, apesar de não ser o expoente máximo da corrente de pensamento determinista, foi o organizador e divulgador da mesma, através, principalmente, da obra Antropogeografia: fundamentos da aplicação da Geografia à História (1882). Seus defensores afirmavam que, as condições naturais e/ou climáticas, determinavam o comportamento do homem, consequentemente o progresso da sociedade.

55 54 Inicialmente, os espanhóis buscaram minerais preciosos na ilha, à custa da escravidão e do uso compulsório da mão de obra indígena. Em pouco tempo, este processo dizimou a população nativa. O insucesso da atividade mineradora deu lugar, já no século XVI, à produção de cana-de-açúcar. Com a escassez da mão de obra na ilha, o tráfico de escravos africanos para trabalhar nas lavouras foi impulsionado. No final deste mesmo século, os franceses ocuparam o noroeste da ilha. A disputa entre estes e os espanhóis terminou somente em 1697, quando foi firmado o Tratado de Ryswick, que concedeu a oficialização do território ocupado aos franceses. Desta forma, a ilha foi dividida, ficando a porção oriental sob domínio espanhol - denominada Santo Domingo - e a porção ocidental sob domínio francês, designada Saint Domingue. A altíssima produção do açúcar, com base na monocultura, e a intensa utilização da mão de obra escrava fizeram da ilha a mais rica colônia do Novo Mundo. Seintenfus (1994) evidencia que conhecida como a Pérola das Antilhas, a mais rica colônia da monarquia francesa contava, na época, com sete mil e oitocentas propriedades agrícolas, onde se produziam café, algodão e, sobretudo açúcar. A metrópole francesa obtinha grandes vantagens com sua colônia, o que lhe permitiu até mesmo financiar a expansão militar napoleônica. De acordo com Willians (1970) apud Farmer (2006), a sociedade colonial haitiana podia ser dividida em cinco grupos: os brancos, proprietários e comerciantes de monoculturas; os funcionários da monarquia francesa; os brancos pobres - que tinham ofícios de baixa remuneração, como professores e artesãos; os mulatos - que eram cidadãos livres, mas sem os mesmos direitos dos brancos - e os negros escravos. Os brancos somavam aproximadamente 40 mil pessoas, os mulatos 28 mil e os negros 452 mil. Mediante tal estrutura social, não era incomum o desencadeamento de rebeliões, merecendo destaque a Rebelião de 1791, a Rebelião dos Escravos. A Revolução Francesa, em 1789, instituiu uma convenção na qual proclamava a libertação dos escravos nas suas colônias. A notícia chegou rapidamente a São Domingos e, incitados pelos mulatos, os escravos iniciaram a rebelião, destruíram plantações, engenhos e abandonaram seus postos.

56 55 Três anos mais tarde, o negro Toussaint Bréda, conhecido como Toussaint L Ouverture assumiu a liderança da rebelião. Ele tinha um grau de instrução bem acima dos outros negros, lia e falava o francês formal. Ganhou a confiança dos exescravos e de forma organizada combateu os exércitos franceses e espanhóis que visavam apropriar-se da parte francesa da ilha, e dos ingleses, que buscaram conter o movimento para impedir sua influência em suas próprias colônias. Em 1801, após uma relativa estabilidade na França, Napoleão Bonaparte, com o intuito de conter as revoltas na colônia e reestabelecer a escravidão, enviou um exército a São Domingos, com aproximadamente 25 mil homens, liderados pelo capitão-general Charles Leclerc, cunhado de Napoleão. Os conflitos geraram muita destruição e mortes. Segundo Galeano (1994), num só mês, setembro, duzentas plantações de cana foram tomadas pelas chamas; os incêndios e os combates sucederam-se sem trégua à medida que os escravos insurretos iam empurrando os exércitos franceses até o oceano. Em 1802, Toussaint foi capturado e enviado ao cárcere na França e após um ano, faleceu. A liderança do exército negro logo foi assumida por Jean-Jacques Dessalines. O exército francês obteve êxito em alguns combates, mas além da forte resistência do exército haitiano, as doenças tropicais - sobretudo a febre amarela - provocaram grandes baixas entre as tropas francesas. O próprio Leclerc morreu com a doença, em Os conflitos causaram grande devastação ao país, principalmente pelo hábito, de ambos os exércitos provocar incêndios. Em novembro de 1803, quase toda a colônia antigamente florescente, era um grande cemitério de cinzas e escombros, afirma Lepkowski (1968). A fragilidade na qual se encontrava a França, com as guerras napoleônicas, impediu o envio do reforço necessário para por fim a rebelião, até que em 1804, Dessalines e seu exército conseguiram expulsar os combatentes franceses e proclamaram a independência de Santo Domingo. A primeira colônia da América Latina a tornar-se independente passou a se chamar Haiti e seu primeiro chefe de estado foi Dessalines. O trabalho compulsório nas plantações de cana e nos engenhos logo foi substituído pela agricultura de subsistência. A potência produtora de açúcar retirouse do mercado mundial e abandonou o status de colônia mais produtiva, dando lugar a um país independente, mas bem menos rico.

57 56 De acordo com Pierre-Charles et al (2003), entre 1804 e 1820, o país passou pela fase fundacional. De 1820 a 1915, segunda fase da história nacional, a economia retornou ao sistema agroexportador, tendo como principal produto o café. O autoritarismo militar vai se tornando a base dos governos haitianos e o ideal de uma sociedade justa e igualitária, aos poucos é abandonada. Conforme Diamond (2005), dos 22 presidentes do Haiti, de 1843 a 1915, 21 foram assassinados ou depostos. Nicholls (1996) relata que a estrutura social do Haiti, em pouco fora mudada. Inicialmente, os mulatos assumiram a governança do país e formaram uma nova classe elitista, mantendo os negros no trabalho agrícola. A divergência entre os interesses desses dois grupos deu origem às disputas internas pelo poder, que se tornaram uma constante até Para combater o colonizador, negros e escravos uniram-se. Alcançado o objetivo, passaram a uma luta incessante pelo poder. A oposição entre os dois grupos: levou a cada um, quando ocupou o governo, preferir intervenções externas em assuntos domésticos a permitir que o grupo rival tomasse o poder. Frequentemente, observamos que os políticos haitianos solicitaram assistência estrangeira militar em troca de benefícios (...) (NICHOLLS, 1996). As constantes solicitações dos governos haitianos para que sobreviessem intervenções externas em assuntos internos abriram precedentes para a presença de várias nações no país, interessadas, sobretudo em manter o Haiti sob o domínio político e econômico com o respaldo de proteger seus cidadãos. Ressalta-se que o Haiti era o único país caribenho sem domínio britânico ou espanhol e que sua posição geográfica nas ilhas caribenhas excelente para apoiar os navios mercantes com destino a outros países americanos o tornava alvo de disputas. Em 1915, sob o pretexto de estabelecer a democracia no Haiti, os Estados Unidos intervieram militarmente no país. O corpo de fuzileiros navais americanos, conhecidos como Marines, mantiveram os mulatos no comando, mas tinham poder de veto sobre todas as deliberações governamentais. Com o intuito de dominar as revoltas populares foi criada uma força militar composta por americanos e haitianos,

58 57 denominada Gendarmerie d Haïti. O comando e treinamento eram feitos pelo grupamento militar, em questão. No final do século XIX e início do século XX, a indústria açucareira do Caribe tomou novo fôlego. Cuba e República Dominicana destacaram-se pela disponibilidade de grandes porções de terras planas e férteis e chuvas abundantes. Entretanto, não tinham mão de obra suficiente para a produção intensiva, o que foi obtida fora, principalmente com trabalhadores haitianos (WOODING; MOSELEY- WILLIAM, 2004). Estima-se que a cada ano, entre 1913 e 1931, emigraram para a província Leste de Cuba entre e trabalhadores haitianos. A República Dominicana, cuja produção açucareira era menor do que de Cuba, também recebeu um número representativo de haitianos, até que em 1919, o governo militar americano introduziu o sistema de contratos, regulamentados para a importação de trabalhadores. Embora não exista um número exato de trabalhadores empregados, estima-se que nas duas décadas, após 1919, tenham sido contratados haitianos por ano. O fluxo de haitianos para Cuba foi interrompido somente após a Segunda Guerra Mundial e os principais destinos para estes emigrantes tornaram-se a República Dominicana, territórios francófonos do Caribe (Guadalupe, Martinica, Guiana Francesa e Saint. Martin), Estados Unidos, França e Canadá (WOODING; MOSELEY-WILLIAM, 2004). A intervenção norte-americana estendeu-se até Segundo Haggerty, apud Matijascic (2010), o ponto negativo da interferência dos Estados Unidos no Haiti consistiu no fracasso da solidificação da estabilidade política, enquanto o ponto positivo, além do treinamento militar - que modificara a força militar haitiana apresentou-se na melhoria da infraestrutura do país, como estradas, hospitais, saneamento básico, pontes, sistema de telefonia. Tal estrutura permitiu o desenvolvimento de atividades comerciais, beneficiando, sobretudo, a elite mulata. (...) essas melhorias na infraestrutura trouxeram, em longo prazo, a concentração de riquezas na cidade de Porto Príncipe, pois todas as estradas das províncias conectaram-se à capital. Essa concentração trouxe vantagens para a elite mulata, pois facilitou o desenvolvimento das atividades comerciais. Assim, ao sair do país, os Estados Unidos firmaram não somente as famílias mulatas como elite política, mas também favoreceram para que as mesmas se consolidassem como elite econômica atrelada à preservação dos interesses norte-americanos no país (MATIJASCIC, 2010).

59 58 O período de foi marcado pela instabilidade política. Stenio Vincent, último presidente do período da ocupação norte americana, implantou medidas autoritárias, centralizou o poder e estendeu seu governo até Não bastasse a desordem interna, em 1937, o ditador chefe da República Dominicana, Rafael Trujillo ( ) mandou matar todos os estrangeiros, isto é haitianos, que não pudessem comprovar o status de dominicanos nas províncias fronteiriças. Estima-se que o exército tenha matado de a haitianos ao longo de seis dias, a partir da noite de 02 até 08 de outubro. Com o intuito de disfarçar o envolvimento do exército, os militares usaram facões, ao invés de armas de fogo. O massacre, conhecido como El Corte, injustificado e sem precedentes mostrou-se claramente racista e anti-haitiano. As ações de Stenio Vicent desagradaram o alto comando da Gendarmerie d Haïti. Vincent foi desaconselhado a uma terceira eleição pelo governo dos Estados Unidos e transferiu o poder a Eli Lescot, cujo mandato perdurou de 1941 a Eli Lescot tornou-se impopular pela perseguição à oposição política, censura à imprensa e inabilidade de lidar com a Gendarmerie d Haïti. Greves e protestos marcaram seu mandato que se tornou insustentável e o fez renunciar no ano de A Gendarmerie d Haïti assumiu o poder até as eleições que elegeram Dumarsais Estimé, candidato que contava com apoio dos militares. Dumarsais Estimé não foi muito popular entre os mulatos e acabou deposto em A Gendarmerie d Haïti novamente assumiu o poder e com as primeiras eleições diretas realizadas no país elegeu o major Paul E. Magloire ( ), cujo mandato foi marcado pela forte corrupção. Em setembro de 1957, foi eleito o médico sanitarista François Duvalier ( ). Como candidato teve o apoio dos militares e da Igreja Católica; soube lidar com a elite mulata e se utilizou de discursos de tom popular para chegar ao poder. Duvalier, que ficou conhecido como Papa Doc (papai médico), foi extremamente autoritário e repressor. Os agentes de segurança de seu governo os Voluntários da Segurança Nacional (VSN), conhecidos como Tontons Macoutes (bichos papões, em português), atuavam com violência indiscriminada para garantir a inexistência de opositores ao regime. Dentre as práticas de terror usava-se apedrejar e queimar pessoas vivas, além da exposição de corpos pendurados em

60 59 árvores como forma de intimidação. Fala-se até mesmo de tráfico de órgãos no período. Desde que foi criada, a Tontons Macoutes teve total liberdade para agir, desconsiderando quaisquer direitos civis e éticos dos cidadãos. Não havia qualquer tribunal que os julgassem, apenas o seu líder Papa Doc. Segundo Ferguson (1987), estimativas apontam que dezenas de milhares de haitianos foram assassinados pelo Estado e outros milhares foram obrigados a se exilar nesse período. Coha (2010) relata que estes assassinos impiedosos mataram mais de haitianos e muitos mais foram forçados a abandonar suas casas. Consequentemente, o Haiti sofreu uma fuga de cérebros inigualável e incapacitante que roubou o pequeno país de muitos de seus cidadãos mais capacitados. De acordo com Loesche e Scanlan (1984), apud Matijascic (2010), grande parte da classe média migrou para a costa leste dos Estados Unidos alguns anos depois que François Duvalier assumiu a presidência. A ditadura Duvalier perseguiu a Igreja Católica e expulsou todos os seus representantes do país. Manteve a hierarquia da estrutura social e os privilégios dos grupos que obtiveram poder político e econômico (mulatos). Outro fato que auxiliou sua permanência no poder foi o alinhamento com os EUA no contexto bipolar mundial, pois afastava a ameaça do comunismo no Haiti. O apogeu das medidas centralizadoras de Duvalier foi a dissolução, em 1964, da Assembleia Nacional e, em seguida, a redação de uma nova constituição que tornava vitalício o mandato de presidente. Porém, seu estado de saúde permitiu que ele ficasse no poder somente até Com sua morte, seu filho Jean-Claude Duvalier - o Baby Doc - assumiu o poder. Embora tivesse a mesma essência do governo de seu pai, Jean Claude Duvalier permitiu uma tímida liberalização do regime e foi afastando os Tontons Macoutes. Grupos políticos opositores foram se reestruturando e a imprensa experimentou uma relativa liberdade. Em 1984, uma grande onda de violência popular alastrou-se pelo país. Incapaz de conter o movimento e pressionado pelo governo norte-americano, Baby Doc abandonou o cargo e estabeleceu-se na França, deixando um país com a proporção de trinta e cinco prisões para cada escola secundária (FERFUSON, 1987, p.90), o que retrata seu legado de violência e opressão. Os quase trinta anos da ditadura dos Duvalier foi provavelmente o período mais doloroso e sangrento da história do Haiti.

61 60 Mediante o caos, a Gendarmerie d Haïti mais uma vez assumiu o poder executivo e buscou reestabelecer a ordem interna. Nos quatro anos seguintes, dois presidentes interinos regeram o país: General Henri Namphy e General Prosper Avril. Contudo, foi um período marcado por uma série de golpes armados e revoltas populares de difícil coibição. Muitos dos que compunham a Tonton formaram grupos paramilitares e a violência era generalizada. A tentativa de preparar as eleições durante o ano de 1987 foi duramente reprimida pelos militares. Entretanto, a grave e incontrolável situação interna dessa vez observada pela comunidade internacional induziu o governo das Forças Armada do Haiti (FADH) a solicitar às Nações Unidas uma missão especial para auxiliar as eleições no final do ano de Sob a observação eleitoral da ONU, denominada United Nations Observer Group for the Verification of the Elections in Haiti (ONUVEH), em dezembro de 1990 o pleito se efetivou. O ex-padre salesiano Jean-Bertrand Aristide, adepto à Teologia da Libertação, vitorioso, foi o primeiro presidente democraticamente eleito do Haiti. Assumiu o cargo em 1991, mas em outubro do mesmo ano foi deposto por um sangrento golpe militar, que apoderou o general Raoul Cedras. Desse momento em diante, as organizações internacionais começaram a atuar, buscando reestabelecer o governo de Aristide, modernizar o exército e instituir a polícia civil haitiana. A Organização dos Estados Americanos (OEA), a Organização das Nações Unidas (ONU) e os EUA aplicaram sanções econômicas ao país no período de1991 a 1994, e enviaram tropas de manutenção de paz ao Haiti. As sanções econômicas pioraram ainda mais a difícil vida do povo haitiano. Câmara (1998) retrata que as medidas implantadas não alcançaram o alvo desejado: as lideranças militares e econômicas do Haiti. Antagonicamente, as elites se beneficiaram, recorrendo ao contrabando. A importação embargada de cimento garantiu altos lucros a uma das grandes famílias da elite haitiana. Os líderes militares, responsáveis pela comercialização de petróleo e outros produtos de consumo a preços extorsivos, continuaram a beneficiar-se, garantindo a entrada destes insumos no país, pela fronteira terrestre da República Dominicana. Dentre os danos causados à população civil, Gibbons e Garfield (1999) apud Machiavelli et al (2008) apontam:

62 61 a redução de postos de trabalho nos setores eletrônico, desportivo, de brinquedos e vestuário; a perda de empregos formais, afetando mais de um milhão de pessoas (dependentes), o que corresponde a 15% da população haitiana; o aumento do preço de alimentos básicos, tais como o arroz (em 137%) e o milho (em 184%), acarretando a diminuição de refeições diárias do haitiano (de duas, em 1990, para uma, em 1995); a diminuição da renda per capta em 30%; a elevação das taxas de inflação em 138%. (...) No que concerne à saúde pública, o corte do acesso a bens como a água e o petróleo também causaria prejuízos desproporcionais à população civil. Em 1995, apenas 35% dos haitianos detinham acesso à água potável, enquanto em 1990, este índice chegava a 53%. O embargo ao petróleo não apenas aumentou o preço de medicamentos, mas fez com que ambulâncias não pudessem conduzir doentes a postos de atendimento, resultando em mortes. Ainda, a diminuição do querosene provocaria o colapso do sistema de refrigeração de vacinas que, combinado com o fechamento de inúmeros postos de saúde pública, conduziu a uma considerável redução do alcance de cobertura da imunização de crianças (passando de 40%, em 1990, para menos de 12% em 1993). Esta queda, associada à vedação da entrada de um montante de vacinas em solo haitiano, contribuiria para uma epidemia de sarampo, na qual 15% dos casos revelaram-se fatais. Segundo Corrêa (s/d), entre 1991 e 1994 mais de 69 mil pessoas deixaram o Haiti na tentativa de chegar aos Estados Unidos. Grande parte terminou na base de Guantánamo, em Cuba. Por outro lado, os conflitos internos tinham deslocado mais de 300 mil pessoas para fora de suas cidades de origem e 30 mil se encontravam na República Dominicana. O embargo econômico, que objetivava desestabilizar o governo militar, acabou desestruturando ainda mais a parca e frágil economia do país, com reflexos desastrosos sobre a população. Este instrumento legítimo de pressão internacional parece ter violado ainda mais os direitos humanos fundamentais da população haitiana, ocasionado, por sua vez, reflexos estruturais sobre o país. Desta forma, Aristide foi restituído ao poder em 1994, sob a tutela de militares, integrantes de tropas multinacionais. No término de seu mandato, em 1995, governante convocou a realização de novas eleições presidenciais, contando com o auxílio das organizações internacionais. René Préval, aliado de Aristide no momento, foi então eleito o novo presidente e governou de 1996 a Durante o mandato de René Préval, o país recebeu quatro Missões da ONU. Ainda assim, o crônico ciclo de corrupção, violência e miséria não foi rompido. Em 2000, Aristide novamente se reelegeu presidente e na oportunidade, os resultados

63 62 das eleições foram amplamente questionados devido às suspeitas de fraude, desencadeando um movimento contra o governo que se alastrou pelo país. Em 2003, os protestos contra o governo se intensificaram. Forças paramilitares avançaram rapidamente, da fronteira com a República Dominicana até Porto-Príncipe, acarretando várias mortes. O cerco à capital, bem como a ausência de apoio internacional no momento obrigaram Aristide a renunciar e fugir para a África. Imediatamente, a Força Interina Multinacional (MIF), formada por estadunidenses, chilenos e canadenses, chegou ao Haiti com o propósito de reestabelecer a paz e a democracia. O Conselho de Segurança da ONU, observando a gravidade dos problemas no país, aprovou uma operação de estabilização multinacional, que deu origem à Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (MINUSTAH). Diferentemente das outras operações, esta força passou a ter o comando de países em desenvolvimento, tais como Brasil e Chile, respectivamente com os comandos militar e civil. A intervenção contou ainda com o apoio de tropas provenientes da Argentina, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Croácia, Equador, Estados Unidos, França, Filipinas, Guatemala, Jordânia, Nepal, Paraguai, Peru, Sri Lanka, e Uruguai. Em janeiro de 2006, depois de várias tentativas fracassadas, foi realizada nova eleição no país. René Prevál foi eleito governou até Em 2010, Michel Martelly assumiu a presidência. Apesar da presença das forças de paz, a violência generalizada permaneceu no país e os haitianos continuaram a sustentar o título de população mais pobre das Américas. Um considerável contingente populacional não tem emprego, e sofre cotidianamente a ameaça da violência. O que restou da economia é parcamente sustentado por ajudas internacionais esporádicas e remessas de dinheiro dos haitianos que conseguiram emigrar, sobretudo para os Estados Unidos. Lamentavelmente a MINUSTAH não se mostrou menos violenta que operações militares anteriores. Correia (2009, p. 90) aponta que: A atuação militar brasileira cumpriu parte de seus propósitos como a pacificação de algumas áreas e o suporte para a realização de eleições. No entanto, a proposta de ter uma atuação mais eficiente, mais próxima da população local, também mostrou-se ineficaz, pois além de não ser capaz de trazer melhores resultados do que aqueles já alcançados por outras

64 63 intervenções, algumas atuações brasileiras não cumpriram os objetivos previstos no mandato da MINUSTAH como o apoio, a proteção e o monitoramento dos direitos humanos no Haiti, que de acordo com relatórios de reconhecidas organizações internacionais, foram violados. Percebemos que a suposta índole pacifista dos brasileiros não se mostrou consistente nas ações que buscavam tomar o controle de áreas dominadas por forças adversas, demonstrando que violência e imposição nas ações de combate não são características exclusivas de tropas de países desenvolvidos. Para agravar ainda mais a caótica situação haitiana, a crônica dependência econômica e o cenário de miséria, em janeiro de 2010 um terremoto de magnitude 7.0 (escala Richter), com epicentro próximo da capital Porto Príncipe, praticamente destruiu a cidade, matando aproximadamente 250 mil pessoas e deixando um sem número de desabrigados. As condições de saneamento e saúde, que antes do tremor já eram precárias, entraram em colapso e no final de 2010, o país foi assolado por uma epidemia de cólera que matou mais de pessoas. Este quadro dantesco de destruição do tecido social-político e da infraestrutura é ponto indubitável de capital importância para ampliar a já conhecida diáspora haitiana. O conjunto das situações adversas tem servido de estímulo para que expressiva parcela da população abandone o país em busca de melhores condições de vida. O Banco Mundial (2011) estima que, aproximadamente, 10% da população do país tenha emigrado (cerca de 1,0 milhão de pessoas), mas outras fontes indicam que a diáspora haitiana já tenha ultrapassado a casa de 3.0 milhões de pessoas (Haitian Diáspora). Vários são os destinos escolhidos, todavia a mais numerosa comunidade encontra-se nos Estados Unidos, seguida pela República Dominicana. Outros países da América e Caribe também recebem um grande contingente de haitianos com destaque para o Canadá, Cuba e Venezuela. Na Europa, o país de maior afluência é a França. As remessas enviadas pelos migrantes representam, aproximadamente, 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e são estimadas em 1,5 bilhões de dólares (Banco Mundial, 2011). Apesar dos recursos que aporta ao Haiti, a emigração tem também seu lado nefasto. Em 2010, 85% daqueles que receberam educação superior no país encontravam-se no exterior. No caso dos médicos formados no país, 36,5% estariam, já em 2000, fora do Haiti (Banco Mundial, 2011).

65 Panorama Socioambiental do Haiti O quadro ambiental haitiano é também um estímulo à diáspora verificada em seus domínios. Aliado ao descaso das instituições governamentais, a paisagem erodida e desarborizada faz do Haiti um país muito mais vulnerável aos impactos dos desastres naturais, tais como os furacões, tormentas tropicais, terremotos e outros, agravados sobremaneira pela ação antrópica. A revisão da literatura denota que o Haiti sempre foi um enigma passível de ser estudado. Ostentando a posição de segundo lócus americano a conseguir sua independência e o primeiro a ser criado por ex-escravos. Vale ressaltar que o Haiti é hoje considerado a nação mais pobre das Américas. Situa-se no Caribe, América Central, e ocupa aproximadamente 1/3 da parte ocidental da ilha Hispaniola, cuja parte oriental é a República Dominicana. Possui uma área total de km², sendo que a área continental corresponde a km 2 e a área marítima de 190 km 2 a noroeste. O país é ainda separado de Cuba pela Passagem de Windward, com aproximadamente 80 km de largura. A parte continental do Haiti pode ser dividida em três regiões: a região norte, que inclui a península do norte, a região central e a região sul, que inclui a península do sul. Além disso, o país domina várias ilhas próximas, sendo a de tamanho mais notável a Ilha de Gonave, a noroeste de Porto Príncipe. Administrativamente, o território está dividido em 10 departamentos, 42 distritos (arrondissements) e 140 municípios (communes), subdivididos em 570 seções comunais, como demonstra o Mapa 2. A capital, Porto Príncipe, localiza-se a sudoeste do país, no Golfo de Gonaives. É a maior cidade haitiana e concentra aproximadamente 10% de sua população. A população está distribuída de forma desigual em todo o país. Na esfera departamental, há predominância no Departamento Oeste, onde a presença da região metropolitana de Porto Príncipe constitui um elemento importante da distribuição espacial da população, com todas as suas consequências econômicas, políticas e sociais. Em 2003, este departamento absorvia 23% da população do país e 56% do total da população urbana (IHSI, 2009). O contingente populacional do departamento Oeste e da área metropolitana de Porto Príncipe cresceu rapidamente, tanto de forma natural, quanto pela imigração de haitianos de outros departamentos, principalmente de jovens. Segundo

66 65 o censo de , havia de habitantes neste departamento. Destes, o total de morava na região metropolitana de Porto Príncipe. No mesmo ano, o país apresentava uma população de 8,4 milhões de habitantes (IHSI, 2009). 16 A contagem populacional no Haiti foi realizada em diferentes intervalos, o que compromete a análise temporal das informações disponibilizadas. Anteriormente ao censo de 2003, foram realizados três outros: 1950, 1971 e 1982.

67 64 Mapa 2 - Haiti: divisão administrativa, 2012 Fonte: Elaborado pela autora

68 65 O crescimento populacional de Porto Príncipe é em grande parte alimentado pela migração de habitantes de comunidades rurais, especialmente de outras partes do departamento ocidental e outras cidades. O total de 9,4% da população residente no Haiti declarou ter nascido em localidade diferente daquela onde residia, o que correspondeu a migrantes internos. Esses migrantes são divididos em dois grupos: os que nasceram no departamento onde residiam (40,1% do total da população migrante) e os nascidos em outro departamento onde não estavam domiciliados (57,8% do total da população migrante). Expressivos 80% dos migrantes internos ( ) migraram para a região metropolitana de Porto- Príncipe (IHSI, 2009). Considerando os departamentos de destino de migrantes, observa-se que o Departamento Oeste absorve 90% dos migrantes internos. Dos migrantes que residem no departamento do Oeste, com exceção da Região Metropolitana de Porto Príncipe, 31,9% nasceram no próprio departamento. O principal tipo de migração interna é a rural-urbana, que corresponde a 49% da população de migrantes internos, seguida da migração interurbana, com 43%. Um total de migrantes rurais (com base no local de nascimento) residem na Região Metropolitana de Porto Príncipe e representam 54,9% das pessoas que imigraram para esta área (IHSI, 2009). O departamento Oeste concentra a maior parte das atividades econômicas, incluindo empreendimentos não agrícolas, o maior número de empregos formais, e grande parte da infraestrutura física e social. A capital desempenha um papel importante na atividade econômica e oferta de serviços básicos, como educação e saúde (IHSI, 2009). 4.3 A Geografia Física Haitiana: um breve esboço O relevo haitiano é montanhoso e mais de ¾ do país encontram-se acima de 200m de altitude, como mostra o Mapa 3 da hipsometria 17 do Haiti. 17 Representação da elevação de um terreno através de um sistema de graduação de cores, sendo estas utilizadas mediante a uma equivalência com a elevação do terreno mapeado.

69 66 Mapa 3 - Hipsometria do Haiti Fonte: Elaborado pela autora

70 67 O relevo é formado principalmente de montanhas escarpadas 18, com pequenas planícies costeiras e vales fluviais. Os vales encontram-se encaixados e intercalados entre as cadeias montanhosas, o que gera grandes contrastes de elevações em todo território. A curtas distâncias retilíneas é possível passar da altitude zero a outras representativas, como a 1000 metros. As declividades podem chegar a mais de 40% de inclinação. Ao sul do país, encontra-se o ponto culminante, o Pico La Selle, com 2.680m de altitude. A hidrografia é marcada pela presença de 33 bacias hidrográficas. Durante a estação chuvosa, os rios torrenciais carreiam grandes fluxos das áreas montanhosas para as planícies, sujeitas às inundações. Na região sul do país, no extremo leste da Planície de Cul-De-Sac, encontra-se o corpo d água mais proeminente do país, o lago Saumatre Etang, de água salgada, que apresenta 20 km de comprimento e 6 a 14 km de largura. O clima do Haiti é tropical e caracteriza-se pela pequena amplitude térmica anual. Nas montanhas do leste há uma incidência do tropical semiárido. Nas colinas e nas planícies a temperatura varia de 21ºC a 35ºC e nas regiões montanhosas de 10 C a 24 C. As precipitações são concentradas durante a primavera e o outono e variam de mm, no extremo oeste da parte sul, a 600 mm na costa sudoeste da parte norte (DOLISCA et al, 2008). As chuvas torrenciais que afetam o país anualmente e o baixo nível de preparação para a estação chuvosa provocam inundações e destruição por todo território, não raro, altos números de mortos e desabrigados. Também afetam intensamente o processo de erosão e deposição de sedimentos. A posição do país, próximo à área de formação de furacões do Atlântico, ainda o coloca na rota das temporadas de furacões, que causam devastações generalizadas, perdas de vidas, inundações e deslizamentos de terras catastróficos (como no caso do furacão Georges, em 1998, Jeanne, em 2004 e Hanna, em 2008). A vegetação do Haiti originalmente era de Floresta Estacional Caducifólia 19 (caracterizado por duas estações, uma seca e outra chuvosa). Esta cobertura vegetal começou a ser degradada na colonização, mediante processo de retirada para o uso 18 Formações geomorfológicas, geralmente resultantes da erosão diferencial em rochas sedimentares ou pelo movimento vertical da crosta terrestre, ao longo de uma falha geológica. A escarpa é uma zona de transição entre diferentes províncias fisiogeográficas, que envolve uma elevação aguda (superior a 45º), caracterizada pela formação de um penhasco ou uma encosta íngreme. 19 Floresta similar a Mata Atlântica brasileira.

71 68 intensivo do solo, visando o plantio da cana-de-açúcar, estendendo-se até os dias atuais. O surto de riqueza agrícola no Haiti veio à custa de seu capital ambiental de florestas e solo" (DIAMOND, 2005). A exploração intensiva da madeira e a necessidade de terras para o cultivo e agricultura de subsistência, principal atividade econômica do país, reduziram consideravelmente as áreas de florestas naturais. Silva e Morokawa (2007) retratam que as florestas haitianas estão reduzidas a menos de 3% de sua área original, sendo que destas, apenas 0,5% é considerada como floresta natural. Tal desmatamento é consequência da agricultura de subsistência, presente em mais de 70% do território, competindo em espaço com as florestas naturais. Aproximadamente 90% das terras agrícolas do Haiti são usadas para o cultivo de milho, mandioca, feijão, batata, repolho, sisal e cana de açúcar e as pastagens contribuem com menos de 5% de utilização das terras. Soma-se a expansão da fronteira agrícola, o fato de 70% da energia consumida advir da exploração madeireira, que também alimenta a construção civil e o uso doméstico. Diamond (2005), ao explanar sobre as diferenças entre os dois países de Hispaniola, destaca: (...) Vista de avião, a fronteira parece uma linha abrupta e serrilhada, cortada arbitrariamente através da ilha com uma faca: de um lado, a leste da linha, uma paisagem mais escura, mais verde (o lado dominicano); de outro, a oeste da linha, uma paisagem mais pálida e mais marrom (o lado haitiano). Em muitos lugares na fronteira é possível olhar para leste e se deparar com florestas de pinheiros e, então, voltar-se para oeste e nada ver além de campos quase desprovidos de árvores. (...). Ambos os países perderam florestas, mas o Haiti perdeu muito mais a ponto de agora possuir apenas sete trechos substancialmente arborizados, dos quais apenas dois são protegidos como parques florestais, ambos, sujeitos à atividade madeireira ilegal. O desmatamento e a perda da biodiversidade, agravados pelas queimadas, intensificam o processo de erosão, o assoreamento 20 dos rios e consequentemente à perda de fertilidade dos solos, o abandono do cultivo e a procura por novas áreas. O histórico uso e o estado atual observado na paisagem haitiana indicam que os solos, em geral, têm sido utilizados em sistemas de produção incompatíveis com a aptidão das áreas, levando à degradação (CHAVES, 2010). 20 Obstrução, por sedimentos, areia ou detritos de qualquer curso d água, podendo mudar drasticamente seu rumo e ou a redução de sua profundidade.

72 69 Torna ainda mais agravante a situação, o fato do Haiti ser um país intensamente povoado. Com apenas um terço da ilha e uma população de aproximadamente 10,1 milhões de habitantes (2011), a densidade demográfica média é de 366,5 habitantes por Km². Embora a população esteja concentrada nas grandes cidades como Porto Príncipe, Cap. Haitien, Carrefour e Delmas, apresentando verdadeiros formigueiros humanos, não há vazios demográficos observados em seu território, como mostra o Mapa 4. Esta grande concentração humana, verificada em um espaço relativamente pequeno e usado pela maioria das pessoas para agricultura de subsistência, de forma pouco cuidadosa ao longo dos séculos, intensifica a exaustão dos solos e diminui o tempo de permanência e cultivo nestes. Segundo Swartley e Toussaint (2006) apud Chaves (2010), os solos haitianos são relativamente jovens e férteis. Em todo país encontram-se bolsões de basalto (rocha ígnea 21 ), dando origem a solos mais intemperizados, de menor fertilidade e mais susceptíveis a erosão, encontrados principalmente em altitudes maiores de 1.000m. A erosão de encostas desmatadas provoca deslizamentos de terra, colocando em risco de vida a população, prejudicando atividades econômicas tais como a agricultura e a pesca, como também os processos intempéricos que envolvem o assoreamento dos corpos dágua, consequentemente a produção de energia hidrelétrica, afetando sobremaneira os habitats naturais. Todos os anos, cerca de 20 mil toneladas de terra arável são perdidos para o mar, devido a processos naturais e antrópicos tais com a erosão e o desmatamento. Esta situação é agravada pela produção de carvão vegetal por todo país (apenas 3% de mata nativa preservada) e forte pressão agrícola em encostas íngremes (OPAS apud BORDIN e MISOCZKY, 2011). Os mapas 5 e 6, referentes ao potencial de erosão do solo e capacidade de uso do solo do Haiti, respectivamente, permitem verificar que há uma combinação de fatores que tornam partes do território haitiano impróprias para a ocupação humana e uso pedológico intensivo, devido às condições naturais adversas. 21 Também conhecidas como rochas magmáticas, são aquelas formadas pela solidificação (cristalização) do magma, entendido aqui como material que se movimenta por convecção térmica (700 a 1200ºC) do interior da Terra.

73 70 O cenário natural do território haitiano, somado ao uso intensivo do solo ao longo dos séculos, bem como à frágil instituição política-administrativa podem ser considerados fatores de repulsão da população. O potencial para as catástrofes de grandes proporções e de grandes efeitos destrutivos sobre os cidadãos haitianos é excessivo.

74 71 Mapa 4 - Densidade Demográfica do Haiti, 2008 Fonte: Elaborado pela autora

75 72 Mapa 5 - Potencial de Erosão do Haiti, 2008 Fonte: Elaborado pela autora

76 73 Mapa 6 - Capacidade de uso do solo do Haiti, 1998 Fonte: Elaborado pela autora

77 A Instabilidade Geotectônica e o Terremoto de 2010 Uma imensa diversidade de regimes tectônicos 22 caracteriza o perímetro da Placa do Caribe, pois esta é envolvida por quatro placas 23 adjacentes maiores: Placa Norte Americana, de Cocos, Nazca e Sul Americana, como mostra o Mapa 7. Mapa 7 - Placas Tectônicas Fonte: Elaborado pela autora A ilha Hispaniola situa-se em um ponto de contato das Placas Norte Americana e do Caribe (Caraíbas). Enquanto a Placa Norte Americana se move na direção leste-oeste, a Placa do Caribe se move em direção oposta, ou seja, oesteleste. Este movimento transcorrente faz do Caribe, uma região de alta atividade sísmica. 22 Resultados do stress aplicados nas bordas das placas: divergente, convergente e direcional. 23 Blocos que compõem a litosfera, sustentando os continentes e os oceanos, impulsionados pelo movimento convectivo do magma, no interior da Terra.

78 75 O encontro dessas placas tectônicas proporcionou, tanto ao norte quanto ao sul de Hispaniola, a existência de um sistema de falhas, regiões em que os tremores ocorrem com mais frequência. O Haiti é bastante vulnerável a terremotos potentes, pois além da convergência das macroplacas, encontra-se sobre a microplaca de Gonave cujo limite mais ao sul é a zona de Falha Enriquillo-Plantain Garden (EPGFZ em inglês). A falha de Enriquillo estende-se da porção central de Hispaniola até a Jamaica. Ao norte de Hispaniola, encontra-se a Falha Setentrional (Mapa 8). O sistema de falhas vai acumulando tensão ao longo do tempo, o que faz com que os tremores sejam mais frequentes. Mapa 8 - Sistema de falhas em Hispaniola Fonte: USGS, 2003 No dia 12 de janeiro de 2010, um terremoto de magnitude 7.0 (escala Richter 24 ), manifestou-se no Haiti. O epicentro 25 do tremor foi a aproximadamente Escala padrão usada para medir a magnitude dos terremotos. Trata-se de uma escala logarítmica, o que significa que os números na escala medem fatores de 10, como por exemplo: um terremoto que mede 4.0 na escala Richter é 10 vezes maior de um que mede 3.0.

79 76 km sudoeste da capital Porto Príncipe e seu hipocentro 26 ( N, W) foi registrado a apenas 13 km de profundidade na crosta terrestre. O tremor, considerado superficial, manifestou-se em forma de ondas de superfície, que propagam diretamente a partir do centro do terremoto e se deslocam causando grandes danos às estruturas existentes. De acordo com o United States Geological Survey (USGS, 2010), o terremoto foi seguido de 33 réplicas sismológicas, 14 das quais apresentaram magnitude que variaram de 5.0 a 5.9. O terremoto originou-se na Falha Enriquillo-Pantain Garden e surpreendeu os cientistas pelo fato de gerar movimentos verticais, já que devido à configuração tectônica da placa, eram esperados movimentos laterais na região da falha. Tais movimentos justificam a capacidade de geração de um terremoto tão intenso, com uma ruptura relativamente pequena. A peculiaridade do movimento levou a comunidade cientifica a questionar-se sobre a existência de um sistema de falhas desconhecido e há pesquisas que avançam nesta direção. Em décadas recentes, o sistema de Falhas de Enriquillo não produziu eventos tectônicos de efeitos catastróficos. Entretanto, é a fonte provável dos grandes terremotos ao longo da história do Haiti, como os verificados nos anos de 1751, 1770, 1860, tendo os dois primeiros forte impacto destruidor sobre a capital Porto Príncipe (USGS, 2010). Segundo o USGS (2010), os registros mostram que de 1902 a 1992, ocorreram no Haiti, 22 tremores de magnitude, maior ou igual a 6.5 na escala Richter, como apresentados na Tabela 6. Embora o poder de destruição de um terremoto não esteja relacionado apenas à sua magnitude - pois é preciso considerar a profundidade do hipocentro, a distância entre este e o epicentro, as condições geológicas e a engenharia da estrutura habitacional - um sismo de maior magnitude será sempre mais destrutivo que um de menor magnitude. Pela Escala Richter, em locais habitados, os tremores de 6,1 a 6,9 graus podem causar destruição em áreas de até 100 quilômetros de raio. Os tremores muitas vezes são acompanhados por tsunamis que acabam acentuando as catástrofes. Os tsunamis mais representativos que atingiram o Haiti ocorreram em 1770 e 1842 (USGS, 2010). 25 Ponto da superfície terrestre diretamente acima do foco de um terremoto. 26 Ponto no interior da crosta terrestre onde se origina o terremoto.

80 77 Tabela 6 - Ocorrências de Terremotos no Haiti com Magnitude igual ou superior a 6,5 (Escala Richter), Ano Mês Dia Horário Latitude Longitude Profundidade Magnitude : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : Fonte: United States Geological Survey (USGS), 2003 O terremoto ocorrido em janeiro de 2010 afetou gravemente Porto-Príncipe. Em pouco mais de um minuto, a cidade foi devastada e tomada por uma onda gigantesca de poeira, dando lugar ao caos, visto que o município sentiu severamente o tremor (ANEXO C). Estima-se que o evento deixou mortos, feridos, 1,3 milhão de deslocados, casas destruídas e danificadas na área de Porto Príncipe e em grande parte do sul do Haiti. Outras estimativas sugerem que o número de vítimas foi substancialmente mais baixo, contabilizando números menores que pessoas. Entre as vítimas, incluem-se pelo menos quatro pessoas mortas por um tsunami local na área Paradis Petit perto de Leogane. Ondas do tsunami também foram relatadas em Jacmel, Les Cayes, Petit Goave, Leogane, Luly e Anse à Galets (USGS, 2010). Os abalos transformaram Porto Príncipe em pilhas de concreto, fazendo ruir o Palácio do Governo, os edifícios dos Ministérios, a sede das Nações Unidas, a Catedral, a Université d Etat, hospitais, escolas, e a ínfima infraestrutura existente. O

81 78 aeroporto fora parcialmente destruído, dificultando ainda mais a chegada da ajuda internacional ao país. A população ficou sem acesso à água potável e energia por dias, além de sofrer com escassez de alimentos. A capital tornou-se uma cidade arrasada e também um grande cemitério. Nas calçadas que cercavam a grande praça, havia corpos cobertos a espera de serem recolhidos. Alguns corpos tinham uma placa dizendo nome e procedência, na esperança de que alguém avisasse a família. Vimos uma fileira de cadáveres infantis, os pequenos corpos embrulhados em plástico. O único caminhão que passou recolhendo os corpos, capaz de dar conta de uma fração mínima dos cadáveres, era da prefeitura de Porto Príncipe. Os corpos foram dispostos, os vivos esperavam. Nos edifícios caídos vimos corpos pendurados, mutilados. Sobre uma escola de meninas, vimos dezenas de corpos, todas com seu uniforme. Como tirar os corpos lá de cima? Jovens caminhavam para cima e para baixo com o rosto coberto por um lenço, trabalhando nos escombros, sem luvas, sem nada uma cena que se repetiria nas semanas seguintes. Para além do cheiro nauseabundo de morte, o que se respirava não era violência e desordem, mas resignação e civismo. (...) No quarto dia, observávamos as mesmas cenas, a mesma ausência da ajuda internacional. Não víamos nada. Por quanto tempo aguentarão? Os corpos continuavam espalhados, de forma mais ordenada, cobertos. Mas nas ruas. Os jovens continuavam trabalhando sem escavadeiras, e nos pediam luvas e tratores. Falava-se de valas comuns. Em alguns cemitérios, começaram a esvaziar as tumbas de ossadas antigas e não tão antigas. Nas portas dos cemitérios os corpos se acumulavam, e por vezes a difícil decisão de queima-los foi tomada. Também soubemos de corpos enterrados nos jardins das casas. Falava- se em mais de 150 mil vitimas. Hoje a cifra já chega a 250 mil, mas o mais provável é que nunca saibamos o número exato de mortos. Daqueles que morreram vítimas do terremoto, e daqueles que morreram vítimas do abandono e da falta de meios da população haitiana (THOMAZ, 2010). As condições de saneamento e saúde, que antes do tremor já eram precárias, entraram em colapso e no final de 2010, o país foi assolado por um surto de cólera que matou mais de pessoas. O ambiente adverso favoreceu a contaminação de forma rápida e epidêmica. De acordo com Bidegain (2010), o tremor, além de causar vasta destruição na região mais populosa do Haiti, fez com que 3 em cada 10 residentes da Região Metropolitana de Porto Príncipe emigrasse, partindo para outras áreas do país, aumentando a situação de vulnerabilidade na região de acolhida, fazendo com que os efeitos deste desastre natural se espalhasse por todo território haitiano. A grande concentração de pessoas, em áreas de forte sismicidade, somada a falta de infraestrutura adequada, fazem do Haiti um país extremamente vulnerável aos abalos sísmicos.

82 79 Sabe-se que existe a possibilidade de que um novo tremor, de proporções similares ao que ocorreu em 2010, possa ocorrer novamente nos próximos 20 ou 30 anos sob Porto Príncipe. A localização geográfica do Haiti induz a uma situação de grande instabilidade geotectônica, ou seja, considerando o tempo cronológico, o país estará sempre susceptível a este tipo de fenômeno. O quadro ambiental haitiano, por fatores naturais ou antrópicos, expõe a sua população a um perigo constante. O impacto exponencial de catástrofes neste país, institucionalmente frágil, revela um quadro desolador. A pergunta que todo visitante do Haiti se faz é se há alguma esperança para aquele país; e a resposta mais comum é não. (...) E quanto ao futuro do Haiti? O mais pobre e um dos mais superlotados países do Novo Mundo, ele torna-se cada vez mais pobre e superpovoado, com uma taxa de crescimento populacional de cerca de 3% ao ano. O Haiti é tão pobre, e tão deficiente em recursos naturais e em recursos humanos treinados ou educados, que realmente é difícil saber como melhorar alguma coisa. Se, por outro lado, olharmos para o exterior em busca de ajuda externa de governos, iniciativas de ONGs, ou esforços privados, o Haiti também não tem capacidade de utilizar a ajuda externa de modo eficiente.(...) Todas as pessoas que conhecem o Haiti a quem perguntei sobre as perspectivas do país usaram as palavras "sem esperança" em suas respostas. A maioria respondeu simplesmente que não tem nenhuma (DIAMOND, 2005). A degradação ambiental, conectada aos fatores naturais, socioeconômicos, culturais e políticos, sem dúvida, são causas dos movimentos forçados da população haitiana, cuja sobrevivência depende diretamente dos recursos naturais. Um dos primeiros e talvez maior teórico sobre a migração, Ravenstein, já preconizava em seu famoso texto The Laws of Migration (1889) a importância da questão climática na produção de correntes migratórias. No entanto, como assinalam Pécoud e Guchteneire (2010), mesmo que a preocupação de Ravenstein tenha sido acompanhada pela de outros autores do século XIX, no século XX esta relação migração e meio ambiente foi relegada a um segundo plano até a última década do século passado, quando o tema voltou a receber alguma atenção. Entretanto, não se tornou um ponto central dos debates, já que o paradigma teórico na atualidade ainda privilegie a relação entre migração e questões de cunho econômico, social e político (FERNANDES et al, 2011). Quando os impactos dos eventos naturais são avaliados, os dados disponíveis não permitem criar uma relação direta de causa e efeito entre desastres

83 80 naturais e a migração internacional. A literatura disponível, (PÉCOUD e GUCHTENEIRE, 2010) mostra que, salvo nos casos do efeito da elevação do nível do mar, a população atingida por circunstâncias extremas, tendem a se deslocar temporariamente e, quando possível, retornam à região que habitavam. Se tais eventos são acompanhados de conflitos armados ou mesmo da impossibilidade de se desenvolver uma atividade econômica, o processo migratório ocorre, mas neste caso as condicionantes políticas, ligadas ao conflito, ou econômicas, ligadas à pobreza instalada, é que atuam como responsáveis pelos deslocamentos. Por outro lado, há a constatação de que as catástrofes naturais, quando não acompanhadas de conflitos, não necessariamente levam a situações de migração internacional forçada (PIGUET e PIECOUD, 2010, apud FERNANDES et al, 2011). 4.5 Indicadores sociais, demográficos e econômicos do Haiti O processo histórico de instabilidade política, somado aos catastróficos efeitos do quadro ambiental, conduziu o Haiti ao status de mais pobre das Américas e um dos mais pobres do mundo. Esta situação cristaliza-se nos indicadores retratados na Tabela, que para efeito de comparação, serão acompanhados dos indicadores do Brasil, Estados Unidos, República Dominicana e América Latina e Caribe: Tabela 7 - Indicadores Sociais, Demográficos e Econômicos do Haiti e países selecionados Indicadores Haiti Brasil EUA República Dominicana Am. Latina e Caribe População total em milhões, ,1 196,7 313,1 10,1 591,4 População em milhões masculino -feminino Taxa de crescimento da população (%), ,0-5,1 96,7-99,9 154,6 158,5 5,0-5,0 292,1-299,3 1,3 0,8 0,9 1,2 1,1 População urbana (%), Taxa de fecundidade total, por mulher entre anos, Expectativa de vida no nascimento, , Masculino/feminino População utilizando instalações sanitárias com melhorias (%),2000/2008 População vivendo com menos de US$1,25 (PPP) por dia (%), 1992/2008 Taxa de mortalidade até 5 anos para cada nascidos vivos, ,2 1,8 2,1 2,5 2, ,7 20,6 7,8 31,9 22,4

84 81 Indicadores Haiti Brasil EUA República Dominicana Am. Latina e Caribe Razão de mortalidade materna para cada nascidos vivos, Taxa de partos entre adolescentes por mulheres- 15 a 19 anos, /2008 Partos atendidos por pessoal qualificado em saúde (%) Matrícula no ensino fundamental - % líquido de crianças em idade escolar /2009- masculino -feminino Matrícula no ensino médio - % líquido de crianças em idade escolar /2009- N/D* Masculino - feminino Taxa de alfabetização, população anos (%),1991/ N/D* N/D masculino - feminino Taxa de prevalência de contraceptivos entre mulheres anos, qualquer método, 1990/2010 Taxa de prevalência de contraceptivos entre mulheres anos, métodos modernos, 1990/2010 Necessidade não atendida de planejamento familiar (%), 1992/ População com conhecimento abrangente e correto sobre HIV/Aids (%) N/D* N/D* /2008, masculino- feminino Taxa de prevalência do HIV/AIDS população anos (%), ,6-1,3 N/D* 0,3-0,2 0,3-0,7 0,3-0,2 masculino - feminino N/D* - Não divulgado Fonte: UNFPA, Fundo de População das Nações Unidas. Relatório sobre a Situação da População Mundial Nova York, 2011 A análise desta tabela denota que os indicadores do Haiti estão muito aquém dos países aos quais foi comparado, seja na saúde, educação e infraestrutura em geral. Aliada as estas variáveis, pôde-se elaborar um apanhado demográfico, a partir das informações extraídas do Censo de 2003 (IHSI, 2009), que retrata o cenário de carências extremas do país. Em relação ao quadro urbano, verificou-se que nas cidades, 68,5% dos domicílios utilizam carvão vegetal para cozinhar, enquanto que nas áreas rurais, 90,9% dos domicílios utilizam a madeira e a palha para os mesmos fins. Uma pequena parte da população tem acesso aos serviços de distribuição de água e eletricidade. Apenas 8,5% das residências estão conectadas a um serviço de distribuição de água e deste percentual, 80,7% está em áreas urbanas. No país, 82,3% das famílias usam a lâmpada a gás (querosene) como principal fonte de iluminação. Quanto ao descarte de resíduos sólidos, 36% destes são depositados em terrenos baldios e barrancos e 25,8% queimados periodicamente.

85 82 A agricultura continua sendo o principal ramo de absorção da força de trabalho, apesar da forte regressão de seu peso em 2003, quando comparado aos censos anteriores. Ela emprega 45,5% da força ativa do país, seguida do comércio (atacado e varejo) com 25,3%, e das atividades de fabricação com 6,7%. O setor educacional mostra-se deficitário, quanto aos seus índices. Apenas 59% das pessoas com 15 anos de idade ou mais relataram saber ler e escrever. A taxa de alfabetização no meio urbano (79,5%) é 1,85 vezes superior a encontrada nas zonas rurais (42,1%). Menos de 50% dos indivíduos de 6 a 24 anos frequentaram uma escola ou universidade no ano letivo de Apenas 2,7% dos indivíduos de 10 a 59 anos, declararam graduação em um centro de formação técnica e profissional e ínfimos 1,05% da população com mais de 5 anos, o que corresponde a pessoas, declarou o nível de estudos universitário. A taxa de frequência escolar das mulheres (45,26%) é ligeiramente inferior a dos homens (46,57%). Com referência a chefia domiciliar, 38,5% correspondeu às mulheres chefes de família. No meio urbano, este índice é de 45,7% e no meio rural de 33,8%. A distribuição dos chefes de família pelo nível de estudos indica que 60,6% de chefes de família mulheres não tem nenhum nível de escolaridade, contra 51,6% dos seus pares. Nas zonas rurais, o índice de mulheres chefes de família que não tem nenhum nível de escolaridade chega a 80%, e no ambiente urbano, 40%. Um traço cultural notável do Haiti diz respeito à religião e crenças praticadas. O contingente de 55% dos haitianos declarou-se católico, 28% evangélico, 10,2% sem religião e apenas 2,10% adeptos ao Vodu 27. Embora mais de 80% da população tenha declarado crenças cristãs, sabe-se que no país o sincretismo religioso determina a prática conjunta dos demais credos com o vodu, o que explica o sub-registro referente a esta crença. Destaca-se também o crescimento considerável dos cultos protestantes em relação ao censo de 1982, principalmente nas áreas urbanas. Os protestantes chegam a um terço da população urbana e a um quarto da população rural. 27 Religião que cultua os antepassados e entidades conhecidas como loas. O vodu é parecido com o candomblé e seus rituais são marcados pela música, a dança e muita comida. Tem origem na África e foi trazido pelos escravos, incorporando elementos da cultura dos dominadores, como o batismo católico.

86 83 Dois anos após o terremoto de 2010, há ainda um contingente estimado de 500 a 600 mil pessoas vivendo sob tendas nos acampamentos, em condições extremamente precárias, sem água corrente e saneamento (HUMAN RIGHTS WATCH, 2012). Há anos, o Haiti é assolado por altos níveis de crimes violentos, mas as Nações Unidas observaram que desde o terremoto, as tendências demonstram um aumento nas principais categorias de crimes, incluindo assassinato, estupro e sequestro (HUMAN RIGHTS WATCH, 2012). A segurança precária e a situação econômica após o terremoto deixaram as mulheres e meninas ainda mais vulneráveis à violência sexual, que já apresentava altos índices antes da tragédia. Muitas mulheres perderam suas casas e meios de subsistência no terremoto e passaram a viver nos acampamentos ou a depender de outras famílias para o abrigo. A taxa de gravidez nos acampamentos é três vezes maior que aquela registrada em meio urbano antes do terremoto. As vítimas de abuso tem dificuldade de acesso aos serviços médicos pós-estupro, impossibilitando a gravidez indesejada. Grande parte das que engravidam não tem conhecimento sobre a existência de serviços pré-natal. Muitas dão a luz nas tendas e algumas na rua, a caminho para o hospital, por causa das dificuldades de transporte. A falta de acesso aos recursos econômicos leva muitas mulheres a se prostituírem por comida ou outras necessidades, sem usar métodos contraceptivos, agravando o impacto da falta de acesso aos serviços de saúde reprodutiva, da gravidez indesejada e doenças (HUMAN RIGHTS WATCH, 2012). Antes do terremoto, apenas cerca de metade das crianças haitianas em idade escolar frequentavam a escola primária. O Fundo das Nações Unidas estima que o terremoto danificou ou destruiu quase escolas e que 2,5 milhões de crianças experimentaram uma interrupção prolongada na sua educação. As escolas retomaram suas atividades meses depois, no entanto, muitas delas experimentaram queda acentuada no número de matrículas (HUMAN RIGHTS WATCH, 2012). O emprego de crianças nos trabalhos domésticos, conhecidas como restaveks, continua usual. Restaveks são crianças de famílias de baixa renda enviadas para viver com outras famílias, na esperança de que sejam cuidadas em troca da realização de tarefas domésticas mais simples. Estas crianças, 80% das quais são meninas, na maioria das vezes não são remuneradas, não tem acesso a educação e são vítimas de abusos físicos e sexuais. A ONU alerta que grande

87 84 número de menores que ainda vivem nos acampamentos estão vulneráveis a esta forma de trabalho forçado ou ao tráfico humano (HUMAN RIGHTS WATCH, 2012). Verifica-se, portanto, que a diáspora haitiana tem origens remotas e relacionase com o quadro político, social e ambiental deste país e que após o terremoto de 2010, grande número de cidadãos tem buscado partir a procura de melhores condições de vida, ou mesmo sobrevivência, incluindo o Brasil como país de destino.

88 85 5 OS HAITIANOS NO BRASIL (...) Novas coisas, sucedendo-se, iludem a nossa fome de primitivo alimento. As descobertas são máscaras do mais obscuro real, essa ferida alastrada na pele de nossas almas. Quando vim da minha terra, não vim, perdi-me no espaço, na ilusão de ter saído. Ai de mim, nunca saí Andrade,C.D, 2002). O fluxo de haitianos para a América Latina começou a ampliar consideravelmente a partir do terremoto de janeiro de Chile e Equador, principais portas de entrada dos caribenhos à região, que no ano de 2009 registraram a entrada de 477 e 1258 haitianos respectivamente, no ano de 2010, receberam um número bastante superior, com registros de 820 e 1687 (LOUIDOR et al, 2011). Embora não seja um dos destinos de maior afluência, na verdade é um dos menores, a presença dos haitianos no Brasil também começou a ampliar a partir de janeiro de No ano anterior, em 2009, registros do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) retratam que foram concedidas apenas seis autorizações para entradas de haitianos no país. A partir de janeiro de 2010, número de autorizações foi aumentando consideravelmente, passando de 15 naquele ano para 720 em 2011 e até meados de 2012, as autorizações já chegaram a (MTE, 2012). Se avaliada por meio da concessão da carteira de trabalho, de janeiro de 2010 a 31 de maio de 2012, o MTE entregou Carteiras de Trabalho e Previdência Social a haitianos, sendo somente nas Superintendências dos estados do Acre e Amazonas. Frente a outros contingentes populacionais que chegam ao país, o número de haitianos não representa um grande volume. Entretanto, a simples razão de se ter um fluxo quase constante de imigrantes de um país do hemisfério norte, por si só é digno de nota. Soma-se a esta situação, a forma como esta migração vem se dando e tem-se um quadro no mínimo inusitado. As razões que deram início a este fluxo migratório são imprecisas. Algumas hipóteses levantam que a participação do Brasil na força de paz no Haiti, através da

89 86 MINUSTAH, tenha despertado o interesse pelo país. Outra hipótese é de que ante o fechamento da fronteira da Guiana Francesa - destino privilegiado dos haitianos na América do Sul - os mesmos foram impelidos a dirigir-se ao Brasil, onde esperam encontrar mais oportunidades de trabalho, dado seu crescimento econômico, às obras de infraestrutura com vistas à Copa do Mundo de 2014 e às Olimpíadas de 2016, à construção de hidrelétricas e ainda à repercussão midiática que vem adquirindo nos últimos anos. Face ao entrave na possessão francesa, a Bolívia impediu a passagem para seu território; na Colômbia há um conflito armado e no Peru há poucas oportunidades de emprego, o que faz do Brasil um destino mais viável (LOUIDOR et al, 2011). Há ainda a proposição de que o Brasil seja apenas um país de trânsito na rota rumo a Guiana Francesa. Louidor et al (2011) atentam para a existência de pelo menos duas redes de tráfico que recrutam cidadãos no Haiti, principalmente no Oeste e Norte do país. Estas redes prometem trabalho e estudos em países da América Latina e até mesmo nos Estados Unidos e Europa; utilizam Cuba e a República Dominicana como países de trânsito e dirigem os imigrantes ao Equador, onde abandonam suas vítimas. É possível que a imigração para o Brasil também esteja atrelada a esta rede, uma vez que a maioria dos haitianos não permanece no Equador. Se tais hipóteses são passíveis ou não de comprovação empírica, o fato é que mais de 6000 haitianos ingressaram no Brasil desde o início de Este fluxo, embora pequeno quando comparado a outras entradas no país, traz uma nova situação ao governo e a sociedade brasileira e coloca desafios para a sua governança em termos de migração internacional em direção ao país. 5.1 O processo de chegada ao Brasil A trajetória mais comum que os haitianos percorrem para chegar ao Brasil é a seguinte: por via aérea, partem de Porto Príncipe e fazem escalas nas cidades de São Domingo (República Dominicana) e Cidade do Panamá (Panamá). Da Cidade do Panamá, alguns partem para Quito (Equador) e outros partem diretamente para Lima (Peru). Como estes países não exigem vistos para haitianos, estes não encontram dificuldades na entrada 28. De Quito ou Lima, por trajeto terrestre ou 28 O Peru passou a exigir o visto para haitianos somente em 2012.

90 87 fluvial, chegam à fronteira do Brasil em diferentes pontos. Tabatinga (AM), Assis Brasil (AC) e Brasiléia (AC) são os mais frequentes, como demonstra o Mapa 9. Em alguns casos, a chegada ao território brasileiro se dá através da fronteira com a Bolívia. A entrada, neste ínterim, ocorre principalmente pelos municípios de Epitaciolândia (AC) e Corumbá (MS). Acredita-se que a maioria dos haitianos que percorre esta rota provém do Chile.

91 88 Mapa 9 - Principais rotas migratórias dos haitianos para o Brasil Fonte: Elaborado pela autora

92 89 Com o aumento da fiscalização em pontos das rotas já conhecidas, os coiotes 29 acabam buscando alternativas para promover o ingresso dos haitianos no país. Já se tem relatos de dois novos trajetos para adentrar o território brasileiro. Em uma, por via aérea, os haitianos vão até a República Dominicana e deste para Bolívia, no município de Ibéria. De Ibéria caminham por aproximadamente oito quilômetros na Floresta Amazônica até chegarem ao município de Cobija, e deste fronteiriço município boliviano, cruzam uma das duas pontes sobre o Rio Acre, chegando a Brasiléia. Na outra rota, faz-se um deslocamento aéreo até São Domingo e daí para Quito. De Quito, através de ônibus, dirigem-se a Letícia, na Colômbia, e deste município para Tabatinga (AM). As escolhas das rotas dependem das facilidades de transporte, possibilidade de entrar no território brasileiro e, ordinariamente, dos interesses dos coiotes que já atuam neste trajeto. A ação dos coiotes inicia-se com a venda da ideia de que a crise econômica não afetou o Brasil, de que há carência de mão de obra e empregabilidade instantânea no país, cujos salários podem chegar a R$ O acesso ao Eldorado Brasileiro tem um custo que pode variar de U$1.000 a U$ , dependendo do serviço pretendido ou persuasão dos coiotes. No entanto, é difícil se ter uma precisão quanto a este montante, pois por se tratar de uma atividade ilícita, iniciada fora da fronteira do Brasil, não há como apurar os valores pagos. Tais recursos, na maioria das vezes, são adquiridos por empréstimos, e não raramente são frutos de um projeto familiar que soma esforços para enviar um membro da família, e este, ao chegar ao destino almejado, oferecer melhores condições de vida aos entes no país de origem ou até mesmo gerenciar sua emigração posteriormente. Assim, são comuns relatos como: A motivação de Lovensky em vir para o Brasil é típica dessa nova onda migratória. Depois de perder a casa no terremoto na vila em que morava, perto da capital, Porto Príncipe, ele deixou os três filhos com uma tia, reuniu todas as economias e resolveu partir. Com a ajuda de um amigo que mora nos Estados Unidos, conseguiu US$ para a viagem. Hoje, a maioria das pessoas no Haiti deseja sair de lá e morar em outro lugar, mas elas não têm dinheiro. O Haiti já não era bom antes do terremoto. Depois, acabou qualquer esperança de construir uma vida boa. (...) No Haiti, era motorista e mecânico. Espero trabalhar com isso aqui. Se não conseguir, faço qualquer coisa. O plano é juntar dinheiro para trazer os filhos ( O que fazer 29 Pessoas que aliciam e transportam imigrantes através das fronteiras de países mediante pagamento. Atividade esta muito comum na fronteira entre os Estados Unidos e México.

93 90 com os imigrantes do Haiti? Leonel Rocha e Ana Aranha - Revista Época - 04/02/11). A mulher sempre tem medo de se arriscar, mas eu sou muito forte e corajosa. No meu caso, não tenho marido. Tenho três filhos pequenos e preciso sustentar meus pais. No Haiti, eu vendia roupas na rua e também trabalhava na lavoura de tabaco. Perdi tudo no terremoto e vim porque preciso ajudar meus parentes que ficaram lá, diz. Eliane Floreius, em entrevista( Haitianos vivem rotina de fome, falta de espaço e desilusão na Amazônia, Luciana Rosseto - G1-14/02/11) "Não foi fácil chegar até aqui", diz o professor de inglês Lucien Geln, de Gonaives, uma das cinco maiores cidades do Haiti. Lucien e seu irmão Benjamin tiveram, inicialmente, de economizar US$ para a travessia até o Brasil, conhecido por todos eles como o país do futebol. "Trabalhando como professor no Haiti, não conseguia sobreviver e ter excedentes para viagem. Foi preciso uma ação entre todos os membros da família para recolher o dinheiro necessário." (A parte brasileira da diáspora haitiana, Fernando Gabeira - O Estado de São Paulo - 17/04/11). Sentados na calçada junto a Venel estão Michelet Pierre, de 26 anos, Jen Japarodel, de 32, e Volmy Celina, de 26. Os três já se conheciam no Haiti e decidiram pedir dinheiro emprestado para amigos para vir ao país. Eles também contrataram uma agência na República Dominicana, que cobrou US$ 2,4 mil de cada um. Com a agência conseguimos os documentos e o passaporte. É bem difícil sem a ajuda deles. Quando a gente ganhar dinheiro, nós vamos pagar esse empréstimo. Nossa família e amigos estão contando com a gente aqui, afirmou Pierre, que deixou a mãe e sete irmãos no Haiti. Outros cinco morreram no terremoto ( Haitianos viajam de avião, ônibus e barco por emprego na Amazônia, Luciana Rosseto - G1-14/02/1)). Marvens Raymond deixou a mulher e os quatro filhos no Haiti para tentar a sorte no Brasil. (...) Não sei quando vou receber meus documentos, mas vou voltar todo dia para pedir. Meus filhos passam fome no Haiti e contam com meu dinheiro para sobreviver lá, diz( Suspensão do pedido de visto surpreende haitianos em Tabatinga, Luciana Rosseto - G1-15/02/11). Mediante o endividamento, seja ele financeiro ou social, o maior medo que estes imigrantes apresentam é o de serem deportados 30 e não recuperar o dinheiro que gastaram no trajeto. Lamentavelmente, alguns grupos de haitianos que adentraram a mata amazônica conduzidos por coiotes relataram casos de roubo, estupro, extorsão, agressão e abandono nos territórios da Bolívia e Peru (CARVALHO, 2012). 30 No Brasil, a deportação será aplicada nas hipóteses de entrada ou estada irregular de estrangeiros no território nacional. É de providência imediata do Departamento de Polícia Federal e consiste na retirada do estrangeiro que desatender à notificação prévia de deixar o País. A deportação não impede o retorno do estrangeiro no território nacional, desde que o Tesouro Nacional seja ressarcido das despesas efetuadas com a medida, satisfeita, ainda, o recolhimento de eventual multa imposta (MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, s/d).

94 91 O processo de entrada através da Região Norte aparenta ocorrer apenas pela possibilidade ofertada pelos atravessadores e por nenhuma outra especificidade. Aos haitianos, o importante é adentrar ao Brasil, independente da porta de entrada, e seguir caminho rumo os grandes centros econômicos. Inexiste, na maioria dos casos, a noção de distâncias desse país de dimensões continentais, aproximadamente 300 vezes maior que a pequena porção insular caribenha. Não sabem que São Paulo e Rio de Janeiro estão bem distantes de Manaus ou Brasiléia. Ao chegarem ao território brasileiro, o contato dos haitianos com as autoridades brasileiras resume-se à solicitação de refúgio, justificada pelas situações adversas provocadas pelo terremoto de janeiro de A sistemática se repete em todos os casos. Ao chegar à fronteira do Brasil com o Peru, por exemplo, o imigrante apresenta junto a Polícia Federal, no posto fronteiriço, a solicitação de refúgio. Após alguns dias aguardando na cidade, lhe é fornecido um protocolo confirmando que a sua solicitação será analisada pelas autoridades brasileiras e, no máximo em seis meses, a decisão será conhecida. De posse deste documento os haitianos se deslocam para outra cidade (FERNANDES et al, 2011). Aqueles que entram por Tabatinga (AM) percorrem km, por transporte fluvial, até Manaus, num translado que perdura quatro dias, a custo aproximado de R$170,00. Uma vez na capital do estado, buscam auxílio junto à Pastoral do Imigrante e são orientados no sentido de providenciar uma documentação provisória (Carteira de Trabalho e CPF) que lhes é permitida obter com o documento emitido pela Polícia Federal. Desta forma os imigrantes podem acessar o mercado laboral de forma regular e utilizar os serviços bancários para, por exemplo, fazer remessas. Ao mesmo tempo, têm acesso aos serviços de educação e saúde. De Manaus, uma parte desloca-se para as outras regiões do país, principalmente para a centro-sul, por apresentar maior perspectiva de empregos e renda. No Acre, os que entram por Assis Brasil e Epitaciolância geralmente dirigem-se para Brasiléia e, após a emissão da documentação provisória, vão para Rio Branco, buscando, posteriormente, centros econômicos mais promissores. 31 O capítulo 6 traz mais esclarecimentos sobre o tema e a forma como o refúgio é aplicado no Brasil, bem como o posicionamento do governo brasileiro frente a estas solicitações.

95 A política brasileira perante a migração haitiana a questão humanitária Mediante a falta de amparo júridico que rege a questão dos refugiados ambientais, o CNIg deu passo histórico ao aprovar, por unanimidade dos seus conselheiros,voto que concedia, por razões humanitárias, visto de permanência a um grande número de haitianos. O Conselho Nacional de Imigração CNIg é órgão vinculado ao Ministério do Trabalho e tem nos termos do Decreto n. 840/93, dentre suas atribuições: formular a política de imigração, coordenar e orientar as atividades de imigração e solucionar casos omissos no que diz respeito a imigrantes. A exposição de motivos preparada pelo Conselho para tal voto, ilustra o momento impar vivido pela sociedade brasileira na sua relação com os imigrantes o que pode abrir espaços para uma nova visão da governança do processo migratório no País. As políticas migratórias estabelecidas pelo CNIg se pautam pelo respeito aos direitos humanos e sociais dos migrantes, de forma a que sejam tratados com dignidade e em igualdade de condições com os brasileiros. Esta política está firmemente assentada na Constituição Federal, que consagra dentre os objetivos fundamentais da Repúbica Federativa do Brasil a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Mais além, a prevalência dos direitos humanos é um dos princípios que regem as relações internacionais do Brasil. Tais assertivas refletem-se no caput do art. 5º da Carta Magna que assevera que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residente no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes (relacionados nos incisos que seguem). Tal política tem se materializado por meio de Resoluções, Normativas e Recomendadas, adotadas por consenso entre os integrante deste Conselho. No que diz respeito aos casos omissos em relação a imigrantes, as decisões são tomadas com base na Resolução Normativa N. 27, de 25 e novembro de 1998, que disciplina a avaliação de situações especiais e casos omissos pelo Conselho Nacional de Imigração. Essa Resolução considera como situações especiais aquelas que, embora não estejam expressamente definidas nas Resoluções do CNIg, possuam elementos que permitam considerá-las satisfatórias para a obtenção do visto ou permanência; e, como casos omissos, as hipóteses não prevsitas em Resoluções do CNIg. Na aplicação da RN n. 27/98, o CNIg tem considerado as políticas migratórias estabelecidas para considerar como especiais os casos que sejam humanitários, isto é, aqueles em que a saída compulsória do migrante do território nacional possa implicar claros prejuízos à proteção de seus direitos humanos e sociais fundamentais ( Extrato do voto aprovado pelo CNIg em reunião de 13/03/2011).

96 93 Como tentativa de ordenar o fluxo dos haitianos para o Brasil e coibir ação de atravessadores ( coiotes que na maioria das vezes submetem os imigrantes a situações de risco e degradantes), em janeiro de 2012, os governos do Brasil e do Peru estabeleceram novas regras para entrada de haitianos. Os dois países fecharam as fronteiras e decretaram a obrigatoriedade de visto. O Conselho Nacional de Imigração- CNIg, no dia 12 de janeiro de 2012 anunciou a Resolução nº 97/2012. Tal resolução dispõe sobre a concessão do visto permanente a nacionais do Haiti, e assim resolve: Art. 1º Ao nacional do Haiti poderá ser concedido o visto permanente previsto no art. 16 da Lei nº 6.815, de 19 de agosto de 1980, por razões humanitárias, condicionado ao prazo de 5 (cinco) anos, nos termos do art. 18 da mesma Lei, circunstância que constará da Cédula de Identidade do Estrangeiro. Parágrafo único. Consideram-se razões humanitárias, para efeito desta Resolução Normativa, aquelas resultantes do agravamento das condições de vida da população haitiana em decorrência do terremoto ocorrido naquele país em 12 de janeiro de Art. 2º O visto disciplinado por esta Resolução Normativa tem caráter especial e será concedido pelo Ministério das Relações Exteriores, por intermédio da Embaixada do Brasil em Porto Príncipe. Parágrafo único. Poderão ser concedidos até (mil e duzentos) vistos por ano, correspondendo a uma média de 100 (cem) concessões por mês, sem prejuízo das demais modalidades de vistos previstas nas disposições legais do País. (...) (CNIg, 2012). Tal medida impactou diretamente um grupo de aproximadamente 250 haitianos que estavam no vilarejo de Inãpari, Peru, fronteira com Assis Brasil (Acre), a caminho do Brasil. Quando as mudanças sobre a exigência do visto foram anunciadas, o grupo estava em trânsito. Ao saírem do Haiti, as fronteiras ainda estavam abertas, entretanto, a partir do dia 18 de janeiro, conforme a Resolução 97/2012, os haitianos sem vistos passaram a ser barrados. Pelotões da Força Nacional e da Polícia Federal foram instalados em Assis Brasil, para reforçar a fiscalização. Com a proibição, o grupo se instalou na praça pública e ruas de Inãpari, na expectativa de que o governo brasileiro o acolhesse. Com o decorrer do tempo, a situação desses haitianos foi se agravando, visto que os parcos recursos que estes traziam foram se esgotando. A alimentação só ocorria graças às doações feitas por associações brasileiras. Além das condições precárias pelas quais passaram o

97 94 grupo, as condições dos familiares deixados no Haiti também foram afetadas, uma vez que muitos aguardavam ajuda dos que se dispuseram a emigrar. Impedidos de retornar ao país de origem por falta de recursos e impedidos de prosseguirem rumo ao Brasil, a solução para estes haitianos - extremamente reivindicada pela sociedade civil, procuradores, organizações de direitos humanos, Igreja, etc foi pronunciada no dia 10 de abril de Após três meses, o governo brasileiro permitiu a entrada dos haitianos e garantiu o processo de regularização dos mesmos. Tal medida também contemplou um outro grupo de aproximadamente 350 haitianos que estava chegando a Tabatinga (AM) quando a Resolução 97/2012 foi anunciada, portanto, considerados irregulares e sem perspectivas de obtenção do visto humanitário em território brasileiro, dada a nova exigência de requerer o visto em Porto Príncipe. O governo brasileiro procurou combater a forma precária da imigração haitiana para o Brasil, entretanto é preciso analisar a efetividade da resolução implantada já que o cumprimento de todas as etapas do processo para obtenção do visto é um processo difícil para maioria dos cidadãos haitianos. Para se candidatar à permissão, o postulante deve ter passaporte em dia, ser residente no Haiti (o que deve ser comprovado por atestado de residência) e apresentar atestado de bons antecedentes. Com todos os documentos em mãos, deve ainda pagar US$ 200 para a emissão do visto. Segundo dados da Embaixada brasileira em Porto Príncipe, em fevereiro de 2012 foram concedidos apenas 30% dos 100 vistos mensais permitidos pela resolução. As exigências burocráticas barram uma maior concessão de permissões. Entretanto, com o passar dos meses e com a divulgação da medida estabelecida pelo governo brasileiro, o número de pedidos foi aumentando e acredita-se que ao final de 2012, os 1200 vistos anuais determinados sejam concedidos. Em visita ao Haiti no dia 02 de fevereiro, a presidente Dilma Rousseff enfatizou as medidas adotadas pelo governo brasileiro para concessão de vistos e repressão ao tráfico de pessoas vindas do Haiti. Devemos combater esses criminosos, que se aproveitam das vulnerabilidades das famílias, expondo-as a situações desumanas durante a travessia, além de explorá-las, cobrando taxas escorchantes. (...). Reafirmo o duplo propósito das políticas de visto: garantir o acesso em condições de segurança e de dignidade e, ao mesmo tempo, combater o tráfico de

98 95 pessoas, o que temos feito em cooperação com países vizinhos (ROUSSEFF, D., 2012) Segundo o Ministério da Justiça (2012), já foram emitidos 3384 vistos permanentes (3321 para principais e 63 vistos para de dependentes). Estão em análise processos na Polícia Federal, 945 vistos em análise no CNIg, totalizando vistos. Ao considerarmos os 815 vistos fornecidos pela embaixada brasileira no Haiti, tem-se e agregando os 400 processos dos haitianos que chegaram a Brasiléia e Manaus após a RN 97/2012, estima-se um quantitativo de vistos ou pedidos de visto. Projeta-se que ao final de 2012 encontre-se mais de 7000 haitianos no Brasil. 5.3 O perfil dos imigrantes haitianos Por tratar-se de um fenômeno recente, as fontes de informações sobre os haitianos no Brasil são escassas e precárias e os dados disponíveis são baseados em registros administrativos, cujos objetivos são distintos daqueles para se fazer uma análise do perfil do imigrante. Para esta seção, serão utilizadas duas bases de informações: a) do Conselho Nacional de Imigração- CNIg estruturada com os dados obtidos junto aos processos encaminhados pelo CONARE ao referido Conselho nos anos de 2010 e 2011, que reproduz as informações fornecidas pelos imigrantes no momento da solicitação de refúgio. Estas informações foram coletadas pela Polícia Federal nos postos fronteiriços com o intuito de instruir o processo de solicitação de refúgio para posterior apreciação e decisão do CONARE. São informações prestadas por escrito pelos solicitantes de refúgio no momento em que apresentam seus pedidos em formulários próprios, preenchidos perante a Polícia Federal (ANEXO A). Ressalta-se que algumas informações de certos tópicos dos formulários não foram disponibilizadas. Os dados referem-se ao conjunto de 714 processos enviados pelo CONARE. Estes processos foram encaminhados em três momentos distintos: o primeiro grupo composto por 197 solicitações, cobrindo o período de entrada de processos que vai até novembro de 2010, foi analisado pelo Conselho em 16 de março de 2011 e tratava do primeiro grupo de haitianos a chegar ao país. O segundo grupo, com 237 solicitações, e o terceiro conjunto de 280 solicitações tratam de processos, na sua

99 96 maioria abertos em dezembro de 2010 até o final de fevereiro de 2011, foram discutidos nas reuniões de 21 de junho e 10 de agosto de 2011, respectivamente. b) da Pastoral do Migrante da Arquidiocese de Manaus obtidos no momento do registro da acolhida ou passagem dos haitianos pela entidade em busca de assistência ou encaminhamento à outras instituições sociais. Esta fonte é um pouco mais reduzida em termos numéricos, mas apresenta particularidades quanto ao tipo de informações. Os dados são concernentes a 307 pessoas, tomadas aleatoriamente de um conjunto de mais de 1000 imigrantes haitianos, que em julho de 2011 estariam morando em Manaus. Destaca-se que as informações constantes nos registros que serviram de base para este levantamento são os dados de interesse da própria Pastoral para a execução de suas atividades e não incluem aqueles imigrantes que não procuraram o atendimento. Os dados de ambas as fontes foram tratados no programa SPSS (Statistical Package for the Social Sciences), versão para análise Dados do CNIg Os haitianos têm como ponto de entrada no Brasil a Região Norte que totaliza 96,6% dos pedidos de solicitação de refúgio. Destes, 62,6% dos demandantes deram entrada no Amazonas e 34% no Acre, conforme mostra a Tabela 8. Percebe-se que há uma variação espacial da chegada, conforme a data de entrada, uma vez que a maioria do primeiro e do terceiro grupo 32 adentrou o país via estado do Amazonas, enquanto o segundo, pelo Acre. 32 Grupo 1: 197 processos analisados pelo CNIg em 16 de março de 2011; Grupo 2: 237 processos analisados pelo CNIg em 21 de junho de 2011; Grupo 3: 280 processos analisados pelo CNIg em 10 de agosto de 2011.

100 97 Tabela 8 - Distribuição percentual dos haitianos por UF de entrada do pedido de refúgio, segundo o grupo de processos analisados pelo CNIg, UF Grupos TOTAL (%) Acre 8,1 60,3 30,0 34,0 Amazonas 85,3 35,0 70,0 62,6 Outras 6,6 4,7-3,4 Total Fonte: CNIg, 2011 O tempo para chegar ao Brasil, a partir do Haiti, varia de menos de uma semana a 26 meses, indicando a passagem em países de trânsito, como já mencionado em seção anterior. Em relação à data de saída do Haiti, vale notar que 8,5% dos que solicitaram refúgio no Brasil tinham deixado o país antes do grande terremoto. Do total de demandantes de refúgio, 73% deixaram o Haiti após o mês de agosto de 2010, sendo que quase a metade do total fez a viagem para o Brasil no período compreendido entre outubro de 2010 e janeiro de Estes dados indicam que o movimento recente se ampliou no final de 2010 e na primeira metade de 2011, quando, provavelmente, a notícia da possibilidade de conseguir visto no Brasil foi transmitida via redes familiares e sociais dos próprios imigrantes. Importante observar que quando se compara o primeiro grupo de solicitações encaminhada pelo CONARE ao CNIg - composto por haitianos que apresentaram o pedido até novembro de observa-se que o tempo gasto entre a saída do Haiti e chegada ao Brasil era mais longo e concentrado entre 1 ou 2 meses de viagem (45,9%). Para aqueles que em sua maioria chegaram ao Brasil no final de 2010 e inicio de 2011, o terceiro grupo considerado, 41% deles gastaram menos de um mês entre a saída do Haiti e chegada ao Brasil, mostrando que o trajeto entre os dois países já está mais bem assinalado. A idade dos haitianos varia de 0 a 62 anos e a idade média é de 31,6 anos, o que demonstra uma população relativamente jovem. Do total, 80% concentram-se entre as idades de 24 a 40 anos, como demonstra o Gráfico 2.

101 Grupo Etário 98 Gráfico 2 - Faixa Etária dos Imigrantes Haitianos* ,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 30,0 35,0 % *Casos válidos: 708 Fonte: Conselho Nacional de Imigração (CNIg), 2011 Quando ao nível de escolaridade, verifica-se que menos de 1% declarou-se analfabeto e que 59,8% dos que declararam nível de instrução completaram pelo menos o Ensino Fundamental. É interessante notar a presença de pessoas que concluíram o Ensino Superior, índice correspondente a 4,2%, como demonstra o Gráfico 3. Gráfico 3 - Escolaridade dos Imigrantes Haitianos 3,1% 4,2% 0,8% ANALFABETO 13,1% 30,6% 39,5% ENSINO FUNDAMENTAL INCOMPLETO ENSINO FUNDAMENTAL COMPLETO ENSINO MÉDIO INCOMPLETO ENSINO MÉDIO COMPLETO 8,7% ENSINO SUPERIOR INCOMPLETO ENSINO SUPERIOR COMPLETO Casos válidos: 641 Fonte: Conselho Nacional de Imigração - CNIg, 2011

102 99 Estes indicativos são bastante expressivos, pois, como citado anteriormente, dados do Censo 2003 apontaram que 41% dos haitianos, com 15 anos de idade ou mais, não sabem ler e escrever e que apenas 1,05% da população daquele país tinha o Ensino Superior. Ressalta-se que a frequência no Ensino Médio retratada inclui ainda os que frequentaram um centro de formação técnica profissional. Tal quadro indica para o Haiti uma situação de fuga de cérebros 33 e essa perda de capital humano afasta ainda mais as possibilidades de mudanças socioeconômicas e desenvolvimento do país. Ao se comparar os três grupos, observa-se que, dentre os que declararam o nível de instrução, o primeiro grupo apresentava maior escolaridade, sendo que 67,4% deles teriam chegado ao Ensino Médio, situação encontrada em 42,4% dos que compõem o segundo grupo e 45,3% do terceiro. Em relação à ocupação, os dados coletados pela Polícia Federal permitem conhecer a situação laboral dos haitianos antes da partida rumo ao Brasil. No entanto, é importante observar que a informação disponibilizada diz respeito única e exclusivamente à atividade exercida, sem indicação da condição de trabalho. Considerando os que indicaram a ocupação exercida, ou seja, 97,6% do total, observa-se, conforme demonstra a Tabela 9, que a construção civil era o setor onde 38,4% dos imigrantes exerciam a sua atividade laboral. A supremacia deste setor se mantém independente do momento de chegada ao Brasil. No entanto, mostra-se mais significativo no último grupo, pois 43,9% deles declararam atuar neste setor. Seguem, em ordem de importância, o setor de serviços e o de comércio. O conjunto destes três setores corresponde a 73,8% das atividades de trabalho declaradas pelos haitianos. 33 A literatura específica utiliza-se da expressão em língua inglesa Brain Drain para referir-se a perda de cérebros, bem como Brain Gain para ganho de cérebros.

103 100 Tabela 9 - Distribuição dos haitianos por setor da atividade Grupos Total Setor V abs % V abs % V abs % V abs % Agricultura 8 4,1 11 4,7 15 5,5 24 4,9 Indústria 2 1,0 4 1,7 8 2,9 14 2,0 Construção civil 63 32, , , ,4 Comércio 24 12, ,6 26 9, ,0 Serviços 52 26, , , ,4 Educação 14 7,3 15 6,4 11 4,0 40 5,7 Estudante 10 5,2 9 3,8 16 5,8 35 5,0 Outros 20 10,4 18 7,7 22 8,1 60 8,6 Total , , , ,0 Fonte: CNIg, 2011 Tais dados chamam a atenção pelo fato de que no Haiti a agricultura ainda é a atividade que mais absorve a força de trabalho. É passível de questionamento, se as atividades laborais distintas do setor primário tem relação direta com a escolaridade - que se mostra bastante acima da média do país - ou ainda se há uma relação com a emigração a partir do meio urbano ou rural. As informações disponibilizadas pelo CONARE indicam também o município de nascimento dos imigrantes. Entretanto, não indicam a residência anterior ao momento da partida. Como indicado no Mapa 10, a maior concentração de demandas de refúgio é de naturais da região de Porto Príncipe - local do epicentro do terremoto - e de Gonaives, um pouco mais afastada da área do sismo. Entretanto, de forma geral, há imigrantes naturais das diversas regiões do país. Sabe-se que é para o Departamento Oeste, onde se encontra a capital Porto Príncipe, que se destina grande parte dos imigrantes internos do Haiti. Por se tratar de uma informação sobre a naturalidade, não é possível saber se houve uma migração prévia ao momento da partida ou se ainda, de fato, estas pessoas tiveram origem na região afetada pelo sismo e são imigrantes internos advindos de outras regiões do país.

104 101 Mapa 10 - Municípios de Naturalidade dos Imigrantes Haitianos com solicitação de visto submetida ao CNIg ( chegada ao Brasil até 27/02/2011) Fonte: Elaborado pela autora

105 O perfil dos Imigrantes Haitianos em Manaus No grupo analisado, composto por 307 pessoas, 87% são do sexo masculino. Em relação ao estado civil, 63% declaram-se solteiros. A idade dos haitianos varia de 13 a 53 anos, com média etária de 29 anos, o que demonstra uma população relativamente jovem. Do total, 86% concentram-se entre as idades de 22 a 40 anos, como demonstra pirâmide etária abaixo (Gráfico 4). Gráfico 4 - Pirâmide Etária dos Imigrantes Haitianos V.Abs. Homens Mulheres Fonte: Pastoral do Imigrante da Arquidiocese de Manaus Em relação ao nível de instrução, observa-se que, aproximadamente, 60% dos que compõem este conjunto de 307 pessoas, informa ter completado o Ensino Fundamental, 17,7% o Ensino Médio e 1% o curso superior. O total de 3,3% declarou Ensino Superior Incompleto. Aqueles que se declararam sem instrução são poucos, apenas 1% do total, conforme mostrado no Gráfico 5. Quando se compara o nível de instrução entre mulheres e homens, não há uma diferença marcante entre estes grupos, salvo no caso do Ensino Superior completo, onde 2,5% das mulheres declararam ter finalizado os estudos, enquanto os homens somam apenas 0,8%. Por outro lado, na categoria Ensino Fundamental incompleto, as mulheres representam 42,5% e os homens 35,8%.

106 103 Gráfico 5 - Escolaridade dos Imigrantes Haitianos 3,3% 1,0% 3,9% Analfabeto 0,7% 13,4% Ensino Fundamental Incompleto 33,2% 36,8% Ensino Fundamental Completo Ensino Médio Incompleto 7,8% Ensino Médio Completo Ensino Superior Incompleto Ensino Superior Completo Não informado Fonte: Pastoral do Imigrante da Arquidiocese de Manaus Com referência a inserção no mercado de trabalho, as questões versaram sobre qual o setor da atividade exercida no Haiti, bem como a atividade na qual o imigrante gostaria de trabalhar no Brasil. Faz-se necessário frisar que, de forma diversa às informações levantadas pelo CONARE, no caso da Pastoral foi permitido ao entrevistado listar mais de uma atividade exercida no Haiti como também a possibilidade de indicar mais de uma atividade que gostaria de exercer no Brasil. Para apresentar o resultado deste levantamento nas duas situações, elaborou-se a Tabela 10, referindo-se, não apenas ao setor de trabalho/ocupação no Haiti, como também a sua relação com a atividade que os entrevistados pretenderiam exercer no Brasil. Considerando a questão da ocupação no Haiti, mais de 60% dos registrados exerciam uma atividade ligada aos setores da construção civil, de serviços e do comércio. É importante notar que, mesmo não sendo um contingente expressivo, 9,4% dos que exerciam alguma atividade informaram atuar em dois setores ao mesmo tempo, o que poderia indicar certo grau de informalidade laboral. Em relação ao trabalho que poderiam exercer no Brasil, chama a atenção o elevado percentual daqueles que aceitariam qualquer tipo de emprego caso não encontrassem trabalho no setor desejado (64,8%). Destaca-se a concentração nos setores da construção civil e do comércio.

107 104 Tabela 10 - Setor de ocupação dos imigrantes quando residentes no Haiti Setor de Ocupação Ocupação no Haiti Trabalho desejado no Brasil V.abs % V.abs % Construção Civil 84 27, ,03 Comércio 45 14,66 3 0,98 Serviços 62 20, ,75 Educação 9 2, Agricultura 20 6,51 5 1,63 Indústria 1 0,33 4 1,30 Estudante 6 1,95 - Outros 15 4,89 4 1,30 Serviços e Construção 14 4,56 2 0,65 Agricultura e Construção 3 0,98 1 0,33 Comércio e Serviços 5 1,63 1 0,33 Educação e Construção 1 0, Educação e Serviços 2 0, Agricultura e Comércio 4 1, O que encontrar ,97 Construção Civil ou o que encontrar ,73 Comércio ou o que encontrar ,65 Serviços ou o que encontrar ,84 Agricultura ou o que encontrar ,33 Indústria ou o que encontrar ,98 Serviços, construção ou o que encontrar ,33 Não informado 36 11, ,89 Total , ,00 Fonte: Pastoral do Imigrante da Arquidiocese de Manaus, Fazendo-se uma correlação do tipo de trabalho desejado no Brasil com o índice de escolaridade, verifica-se que muitos dos que possuem o Ensino Médio Completo, e até mesmo o Superior, declaram desejo de trabalhar no setor da construção civil. Infere-se que os imigrantes haitianos não nutrem expectativa de trabalhar nas mesmas áreas em que atuavam no Haiti. Outro aspecto perceptível é que, por conta da pouca formalidade nas relações de trabalho na região de origem, ao chegarem ao Brasil, buscam, acima de tudo, garantir o seu sustento. A maior perspectiva é conseguir trabalho, e assim, obter o meio para subsistência e logo começar a ajudar os familiares que estão no país de origem.

108 105 O Mapa 11 assinala as regiões de residência dos haitianos antes da partida para o Brasil. É interessante notar que, além de Porto Príncipe, três outros municípios se destacam como principais pontos de origem: Ganthiers, Croix-de- Bouquets e Gonaives, este último, situado aproximadamente a 150 km da capital, em área que sentiu muito levemente os efeitos imediatos do terremoto de 2010, conforme demonstra o Anexo C. Observa-se, ao comparar o mapa dos municípios de origem com o mapa de nível de exposição da população afetada pelo terremoto, que aproximadamente 40 % do grupo tem origem em municípios pouco afetados. Os locais de procedência em regiões dispersas indicam situações distintas no processo migratório, tanto nas causas da migração independentes do terremoto quanto nas consequências deste em âmbito nacional e em populações indiretamente afetadas. A distribuição espacial apresentada no mapa a seguir muito se aproxima daquela observada quando se tratava do local de nascimento dos imigrantes no Haiti, retratados no Mapa 10. Como não foi questionado o tempo de residência nestes municípios antes da imigração para o Brasil, não se sabe se esta dispersão está relacionada: a) à migração interna no Haiti após o ocorrido; b) à causas independentes do sismo ou; c) aos efeitos indiretos destes, uma vez que, após o fenômeno, um número considerável da população de Porto Príncipe e proximidades precisou deslocarse em busca de sobrevivência, intensificando a pressão socioeconômica em outros meios. Em síntese, os dados disponibilizados pelo CNIg e pela Pastoral do Migrante mostram particularidades que colocam os imigrantes haitianos - em termos de instrução e atividade laboral - acima da média da população do Haiti e, em alguns casos, acima até mesmo da média da região de destino. Verifica-se que os que partem rumo ao Brasil são os que estão em condições um pouco melhor do que aqueles que permaneceram no país.

109 106 Mapa 11 - Municípios de Origem dos Imigrantes Haitianos no Brasil (chegada 11/01/ /05/2011) Fonte: Elaborado pela autora

110 A acolhida dos haitianos em território brasileiro: o importante papel da Igreja e sociedade civil "Amareis o estrangeiro, pois fostes estrangeiro na terra do Egito" (Deuteronômio10:19). Ao chegarem ao Brasil, os haitianos já esgotaram praticamente todo o recurso econômico que dispunham. Deste modo, necessitam com urgência de alimentação, abrigo e os documentos que lhes permitam trabalhar legalmente e deslocar-se no interior do país. Como o procedimento mais comum é a entrada e a solicitação de refúgio junto à Polícia Federal (PF) - principalmente pelos municípios de Tabatinga (AM) e Brasiléia (AC) - os imigrantes ficam aguardando atendimento da PF e a emissão do protocolo do pedido de refúgio. Com esse protocolo é possível obter o CPF, a carteira de trabalho e transitar legalmente pelo país, até que o pedido de refúgio seja julgado pelo CONARE. Com um contingente pequeno de policiais efetivos para atender as demandas dos haitianos, somado às dificuldades com o idioma - que fazem com o que o tempo de atendimento e preenchimento dos formulários seja maior e, consequentemente, menor o número de pessoas recebidas diariamente - os haitianos precisam aguardar dias nestes municípios até que consigam protocolar o pedido de refúgio. A ampliação deste prazo reflete nos custos com a permanência deles, além de impossibilitá-los de sair imediatamente à procura de trabalho no país. Tabatinga e Brasiléia são municípios pequenos, cuja população em 2010 totalizou e habitantes (IBGE, 2010), respectivamente. Apresentam economia frágil, altos índices de pobreza e infraestrutura insuficiente para acolher um contingente intenso de pessoas em um curto espaço de tempo e menos ainda inseri-las no mercado de trabalho. Além destes pormenores, Tabatinga encontra-se na rota do narcotráfico, onde cartéis brasileiros, colombianos e peruanos disputam o lucrativo negócio das drogas. Enquanto o protocolo não era emitido, centenas de haitianos passaram a se aglomerar nos espaços públicos destas pequenas cidades, principalmente nas praças. Em dado momento, Brasiléia chegou a ter aproximadamente haitianos aguardando a emissão do protocolo pela PF. Considerando que este número corresponde a 5,8% da população do município e 8,7% da população urbana, verifica-se a dimensão do impacto social em Brasiléia.

111 108 O auxílio das esferas governamentais veio tardiamente e sempre foi insuficiente para garantir adequadamente alimentação, abrigo e saúde aos haitianos. Muitas vezes, a assistência foi protelada e justificada com discursos como o do prefeito de Tabatinga, Saul Nunes: 20% da população de Tabatinga está abaixo da linha da pobreza. Então, se eu tenho que priorizar aqui, eu vou priorizar as pessoas nativas de Tabatinga (S/A Jornal Nacional, 10/01/2012). No Acre, o governo alugou o Hotel Brasiléia para abrigar os imigrantes. Com estrutura medíocre para abrigar não mais que 200 pessoas, este espaço chegou a comportar mil haitianos, alojados até nos banheiros e corredores. Muitos também foram abrigados nas salas da catequese cedidas pela Igreja, e na quadra poliesportiva do município. Em Tabatinga, os haitianos passaram a ser recebidos por representantes da Igreja Católica. Além dos dias de espera pelo atendimento da PF, muitos permaneceram na cidade por não ter dinheiro para seguir para Manaus. Além de abrigá-los, a Igreja promoveu eventos - como jogos e leilões de camisas de futebol e obras de artistas locais - para arrecadar alimentos e angariar recursos. Também orientou os haitianos no sentido de não serem cooptados para o tráfico de drogas, um dos maiores problemas da região da fronteira. Em Manaus, a Igreja passou a alugar casas, galpões e disponibilizar os espaços das paróquias para acolher os imigrantes. Os recursos foram adquiridos via doações da comunidade e promoção de eventos. Com o passar do tempo, assim que os haitianos chegavam a Manaus, já procuravam o auxílio da Igreja, visto que a informação de acolhida passou a circular entre eles. Por iniciativa dos Jesuítas da Amazônia, com sede na cidade de Manaus, foi criado o Serviço Voluntário Pró Haiti, missão criada para agregar força e ajudar os imigrantes haitianos na Região da Amazônia. Os trabalhos são desenvolvidos em parceria com a Pastoral dos Migrantes, Cáritas da Arquidiocese de Manaus, Grupo Misgionario Duomo Montecchio Magg e de Carpenedolo (Itália), Associação do Serviço de Ação, Reflexão e Educação Social (SARES/Manaus), Centro dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Manaus (CDH), voluntários internacionais e nacionais e os Médicos sem Fronteiras. Tem como colaboradores o Governo Federal, as irmãs e padres Scalabrinianos de Manaus, os Capuchinhos, a Ordem

112 109 dos Advogados do Amazonas, a Rede de Advogados voluntários, pastores, empresários e outras congregações religiosas (WLETER, s/d) são: Assim, ressalta-se que os principais serviços prestados pela missão pró-haiti Auxílio na documentação, como Novo Passaporte Haitiano, Registro Consular e envio de documentos via Sedex. Em Manaus não tem representação consular do Haiti e por isto trabalha-se em parceria com o Consulado do Haiti em Brasília. Assistência Jurídica Gratuita: aconselhamento, acompanhamento, processos trabalhistas e encaminhamento para os advogados em Manaus e outras partes do Brasil. Visitas às empresas e busca de solução para as relações de trabalho em conflito; Preenchimento de formulários e guias para a residência permanente no Brasil, junto a Polícia Federal; Orientações para o acesso aos Programas da Saúde Pública, Educação, Emprego e Justiça e sobre os direitos e deveres dos haitianos no Brasil; Aulas de português; Auxilio no trato com o trabalho legalizado; Atendimento nos idiomas: português, espanhol, francês, inglês e crioulo; Atendimento psicológico e encaminhamento para profissionais; Acesso gratuito a internet; Fotocópias gratuitas dos documentos para autenticação em cartório; Orientação para encontrarem tradutores oficiais de sua documentação; Oferta de um espaço para partilhar a vida, conquistas e um lugar de encontro para os haitianos imigrantes na cidade de Manaus (WLETER, s/d). Primordial foi o desempenho da Rede Solidária para Migrantes e Refugiados, que prestou assistência à maioria dos haitianos que ingressou no país. Esta rede, articulada pelo Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), com o apoio do ACNUR, integra um conjunto de instituições da sociedade civil, tanto de caráter confessional quanto laico, com a finalidade de atuar na área da mobilidade humana, direitos humanos e refúgio. Seu principal objetivo é:

113 110 (...) estabelecer uma interconexão, física ou virtual, entre as entidades que a integram e sensibilizar sobre os fluxos migratórios e os direitos dos migrantes e refugiados, assim como monitorar, desenvolver e incentivar programas de acolhida e de reassentamento de refugiados, e atuar na prevenção das situações de risco e violações de direitos, com particular atenção aos casos de maior vulnerabilidade. Quer atuar, igualmente, na demanda de políticas públicas específicas, quando for o caso e na inclusão do seu público nas políticas existentes (MILESI R.; CABRERA, M, 2010) Conforme demonstra o Mapa 12, a Rede Solidária está presente em todas as regiões do país, e reúne um significativo número de instituições em 19 unidades federativas. Segundo Milesi e Cabrera (2010), as instituições participantes têm autonomia e formas de atuação diferenciadas. Entretanto, estão unidas no propósito da defesa dos direitos humanos, reassentamento, assistência e integração de refugiados, na ação social e assistência jurídica aos migrantes, na incidência político-social e na demanda de políticas públicas a favor desta causa. As principais áreas de ação da Rede são: Observar periodicamente as regiões de fronteira para identificar pessoas que requerem proteção internacional e para prevenir devoluções; Submeter os casos identificados para as autoridades nacionais competentes e para o ACNUR, a fim de garantir acesso ao processo de determinação da condição de refugiado; Fornecer aconselhamento e apoio legal às pessoas que necessitam de proteção internacional; Garantir tratamento humanitário pelas autoridades nacionais, incluindo assistência de emergência, aos grupos de pessoas que chegam às fronteiras do País em busca de proteção; Contribuir na preparação para emergências e na elaboração de planos de contenção em casos de fluxos massivos de pessoas; Fortalecer o intercâmbio de informações com ONG s nacionais e internacionais e outros setores da sociedade civil; Promover a adoção de regulamentos e políticas nacionais condizentes com as regras e princípios internacionais relativos ao asilo e aos direitos humanos, levando em consideração as diferentes necessidades de homens, mulheres e crianças; Fortalecer institucionalmente ONG s e outros setores da sociedade civil na proteção e assistência de solicitantes de asilo. Isto inclui o treinamento de ONG s, oficiais do governo e outros setores relevantes envolvidos; Apoiar soluções para os casos de refúgio que têm caráter duradouro e uma perspectiva de gênero, particularmente através da integração local; Sensibilizar a opinião pública sobre os problemas que os refugiados enfrentam; Disseminar informações sobre as Legislações Internacionais e Nacionais de Refúgio a fim de alcançar setores mais amplos da sociedade.

114 111 Desta forma, a atuação da Rede Solidária teve primordial importância para evitar maior degradação dos haitianos que adentravam o território brasileiro. Prestando assistência em vários municípios brasileiros, além daqueles de entrada, os haitianos receberam abrigo, alimentação, orientações sobre a política migratória brasileira, mercado e legislação trabalhista, dentre outros. Como apresentado no Mapa 13, algumas instituições foram muito solicitadas e chegaram a atender dezenas de centenas de haitianos. Aos haitianos que buscam o visto na embaixada brasileira no Haiti são repassadas informações sobre a REDE e seus serviços. Assim, ao chegarem ao Brasil já sabem onde procurar auxílio.

115 112 Mapa 12 - Instituições da Rede Solidária para Migrantes e Refugiados no Brasil (articulada pelo Instituto Migrações e Direitos Humanos IMDH), por município Fonte: Elaborado pela autora

116 113 Mapa 13 - Número de haitianos atendidos pelas Instituições da Rede Solidária para Migrantes e Refugiados no Brasil por município (2010 1º semestre de 2012) Fonte: Elaborado pela autora

117 A inserção dos haitianos no mercado de trabalho De janeiro de 2010 a 31 de maio de 2012, o MTE concedeu Carteiras de Trabalho e Previdência Social (CTPS) a haitianos, sendo somente nas Superintendências do Acre e Amazonas (MTE, 2012). A emissão deste documento é de fundamental importância para que se evite a exploração da mão de obra dos imigrantes e a submissão destes a trabalhos degradantes ou análogos a escravidão, visto que tem os mesmos direitos, deveres e benefícios trabalhistas que qualquer cidadão brasileiro e assim podem acionar a justiça, caso necessitem. Embora 95% das CTPS tenham sido emitidas no Acre e Amazonas, houve uma diluição dos trabalhadores haitianos pelo território brasileiro, conforme demonstram os Mapas 14 e 15 sobre as contratações nas unidades federativas. Observa-se que é grande o número de haitianos que ingressou no mercado de trabalho das regiões Sudeste e Sul, além do fluxo tradicional na Norte. O saldo de contratações, de 2010 a julho de 2012, indica o Paraná (427), Amazonas (422), São Paulo (361), Rondônia (345) e Rio Grande do Sul (298) como estados que apresentaram maior contingente contratado. Quanto às regiões, o saldo das contratações indicam 39% na região Sul, 31% na Norte e 24% na Sudeste. De forma geral, estes imigrantes executam atividades que não exigem grande qualificação e que não demandam o domínio imediato do português. A atividade econômica que mais tem empregado é a construção, cujas ocupações principais são de servente de obras e pedreiro. Destacam-se ainda empregos em atividades como o abate de aves, locação de mão de obra temporária, transporte rodoviário de carga e comércio varejista Os dados do MTE indicam que os haitianos empregados no Brasil, de janeiro a maio de 2012, foram contratados para as seguintes ocupações: abatedor, ajudante de motorista, alimentador de linha de produção, almoxarife, auxiliar nos serviços de alimentação, carregador (armazém e veículos de transportes terrestres), coletor de lixo domiciliar, faxineiro, pedreiro, repositor de mercadorias, servente de obras, técnico em plástico, trabalhador na elaboração de concreto armado, zelador de edifícios, instalador de redes telefônicas, trabalhador da avicultura de postura.

118 115 Mapa 14 - Contratações e Saldo de Contratações de Haitianos no Brasil, Fonte: Elaborado pela autora

119 116 Mapa 15 - Contratações e Saldo de Contratações de Haitianos no Brasil, Fonte: Elaborado pela autora

120 117 Os dados do MTE ainda permitem verificar que, num universo de imigrantes, 83% são do sexo masculino e que 87,5% destes possuem idade entre 21 a 40 anos, conforme demonstra a pirâmide etária (Gráfico 6). Gráfico 6 - Pirâmide Etária dos Imigrantes Haitianos, _ Homens Mulheres Fonte: MTE, 2012 O nível de escolaridade deste grupo é similar à amostra do CNIg. Conforme apresenta a Tabela 11, o total de 8% dos imigrantes declarou ter frequentado o Ensino Superior, 28% concluiu o Ensino Médio e 67% completou o Ensino Fundamental. Tabela 11 - Nível de Escolaridade dos Imigrantes Haitianos Nº abs. % Ensino Fundamental Incompleto Ensino Fundamental Completo Ensino Médio Incompleto Ensino Médio completo Ensino Superior Incompleto Ensino Superior Completo Outros 72 1 Total Fonte: MTE, 2012

121 118 Segundo Giffoni (2012), empresas de vários estados foram ao Acre e Rondônia para recrutar trabalhadores haitianos. A grande procura levou a Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh) do Acre a criar um cadastro de empresas interessadas na mão de obra imigrante. Esta secretaria exige que as empresas apresentem as condições de trabalho oferecidas e faz uma avaliação sobre a compatibilidade do perfil dos trabalhadores com as vagas. Os empregadores dirigem-se ao Acre e entram em contato direto com os imigrantes, esclarecendo pontos como o tipo trabalho, salários, condições de habitação; também providenciam o envio de passagens e conduzem os haitianos até o local de trabalho. A Sejudh notifica o MTE sobre as contratações realizadas e, muitas vezes, os próprios estados buscam informações sobre estas contratações e empresas para verificar se não há exploração dos trabalhadores nos locais de destino. Em Manaus, a Pastoral do Imigrante buscou orientar os haitianos sobre o mercado de trabalho, direitos e deveres. Um destaque todo especial merece a questão da inserção no mundo do trabalho. Os meios de comunicação, jornais, rádios, televisão estiveram muito presentes todos os dias. Foi feitos (sic) apelos aos empregadores pequenas e grandes. A resposta foi muito grande. Acho que só num dia apareceram uns 20 empregadores, desde empresas maiores como familiares. A construção civil é a que mais está empregando. Cuidamos para não entregar os imigrantes nas mãos de exploradores. Há muitos pedidos de domésticas, caseiros, zeladores de sítios e de chácaras, criação de animais, pisciculturas, hortas Evitamos por enquanto de empregar pessoas distantes da cidade e em lugares isolados (COSTA, 2011). A contratação de trabalhadores haitianos em Manaus se dá através dos Padres Scalabrinianos e voluntários da Pastoral do Imigrante. As empresas entram em contato com um membro da Pastoral, apresentam o tipo de ocupação, salário, benefícios, número e sexo dos trabalhadores que pretendem recrutar. Posteriormente, os empregadores dirigem-se até Manaus para entrevistar e selecionar os candidatos, além de esclarecerem informações (WELTER, s/d) Welter salienta que os empregadores também assumem a responsabilidade junto a Polícia Federal de mudar o endereço dos haitianos para o novo endereço de residência na cidade onde vão trabalhar - ponto importante para a regularização definitiva - como também garantem proporcionar o tempo aos imigrantes para tratar da sua documentação, e igualmente auxilia-los no encaminhamento para a Fixação de Residência Permanente no Brasil.

122 119 A maioria das empresas que contratam os haitianos busca oferecer alojamento, aulas de português e algum treinamento. Embora sejam muito embrionárias as informações sobre a inserção dos haitianos no mercado de trabalho, este panorama refuta a visão, muitas vezes xenófoba, de que estes imigrantes vêm ocupar postos de trabalho que deveriam ser de brasileiros. É inegável a carência de mão de obra que o Brasil apresenta, seja ela qualificada ou não, além disso, é preciso pensar o importante papel que estas pessoas vêm realizar num país de economia crescente, cuja tendência nas próximas décadas é o declínio da taxa de natalidade e aumento da população idosa.

123 CONSIDERAÇÕES FINAIS A diáspora haitiana tem origens em décadas distantes da atual. O Haiti revela-se como um microcosmo de todos os males da sociedade, uma vez que no ventre dessa nação parecem endêmicas a violência armada, o desemprego, o analfabetismo, a corrupção, a subnutrição, a mortalidade infantil, a privação dos serviços públicos, dentre outros. Corroborando com este cenário, um quadro físico que, aliado ao uso incorreto do solo, agrava a questão social pelo esgotamento da cobertura vegetal, erosão e exaustão pedológica, além de estar numa zona favorável a catástrofes naturais como os terremotos e tempestades tropicais. Assim, no âmbito deste estudo, configurou-se o Haiti, como uma anomalia geográfico-histórica cuja população movimenta-se ao exterior, a procura de melhores condições de vida. A partir do terremoto de grande magnitude, registrado em 12 de janeiro de 2010, o Brasil entrou na rota da diáspora haitiana. Embora seja um número relativamente pequeno, totalizando aproximadamente 6000 pessoas em meados de 2012, quando comparado ao contingente populacional brasileiro e a outros fluxos que ingressaram no país, a maneira como a entrada ocorreu na forma e dimensão têmporo-espacial exigiu das autoridades brasileiras um posicionamento emergencial. Porém, refuta-se o uso de expressões onda migratória, avalanche migratória, invasão haitiana tão disseminadas ao tratar a temática, visto que, o impacto quantitativo da presença haitiana em terras brasileiras é diminuta, em termos proporcionais. A entrada de haitianos no território brasileiro se deu através dos países da Amazônia Legal, com ingresso principalmente nos municípios fronteiriços Brasiléia (AC) e Tabatinga (AM). Ao adentrar o território, os imigrantes dirigiam-se ao posto da Polícia Federal e requeriam o refúgio. Como o Brasil não acata juridicamente o refúgio motivado por catástrofes ambientais, os haitianos tiveram suas solicitações indeferidas. Entretanto, com vistas à observância dos direitos humanos, o governo brasileiro concedeu o visto humanitário a eles. Posteriormente, passou a exigir o visto aos nacionais do Haiti, como condição de ingresso no território. Verifica-se a necessidade do Brasil, que ora ostenta o título de sexta economia do mundo, preparar-se para sustentar este título no que ser refere às

124 121 migrações. Com o aumento da projeção internacional, o país torna-se cobiçado para aqueles que tencionam migrar, bem como para refugiados e deslocados ambientais. Apesar de muitas críticas às exigências da retirada do visto em Porto Príncipe e da limitação destes a por ano, percebe-se o impacto inibidor que tal política impõe ao círculo migratório que beneficia os coiotes e sujeita sobremaneira os haitianos à exploração e maus tratos. Busca-se assim evitar situações de extrema degradação humana já vivenciados pelos brasileiros em terras longínquas, evitando que se faça o mesmo com os estrangeiros, ao ingressarem no Brasil. O perfil dos imigrantes haitianos mostra particularidades que os colocam, em termos de instrução e atividade laboral, acima da média da população do Haiti. Tal fato pode indicar que a migração estaria contribuindo para reduzir no país o número de pessoas que, pelo tipo de habilitação e qualificação, seria de grande importância na reconstrução do país. Por outro lado, sabe-se da importância que as remessas têm para os que ficaram no país de origem, visto que as condições de sobrevivência e emprego são precárias e que os recursos da cooperação internacional quase sempre não são alocados adequadamente, seja por corrupção ou trabalhos muito específicos das ONGs. A recepção dispensada aos imigrantes em território brasileiro, também constitui uma forma importante de ajudar o Haiti no seu processo de reconstrução, visto que, efetivamente, as remessas chegam até as famílias, minimizando a situação de pobreza e miséria em que estas se encontram. É importante ressaltar o desempenho que a sociedade civil teve no acolhimento e promoção de condições mínimas de sobrevivência dos haitianos no território brasileiro, especialmente a Rede Solidária para Migrantes e Refugiados, que apresentou uma articulação impressionante para evitar maiores sofrimentos a estes. Acredita-se que sem a atuação desta instituição, muitos haitianos poderiam submeter-se a atividades ilícitas para garantir a sobrevivência no país e assim alavancar o sentimento de xenofobia em relação a esta nacionalidade. De outra forma, muitos também estariam vulneráveis a situações laborais degradantes e/ou análogas a escravidão. Embora esta pesquisa seja calcada em eventos muito recentes sobre a migração haitiana para o Brasil, acredita-se que foi possível agrupar um importante número de informações sobre a mesma, permitindo uma visão holística deste processo.

125 122 O ineditismo da pesquisa, somado à dificuldade de obtenção de informações precisas sobre o Haiti, à escassez de fontes acadêmicas sobre este novo fluxo, bem como o fato de grande parte da literatura disponível sobre a diáspora haitiana encontrar-se nos idiomas inglês e francês, demandando mais cuidado com a leitura, tradução e redação de termos não usuais em língua portuguesa, impuseram-se como elementos dificultadores para construção do trabalho. Aliado a estes pormenores, o tempo institucional limitado, mediante um processo dinâmico e mutante, apresentou-se também, como ente limitante. Impôs-se também como desafio, a necessidade de ponderação sobre o que constituía sensacionalismo ou veracidade veiculada pela imprensa nacional ao abordar o tema. Assinala-se, portanto, a necessidade de estudos mais aprofundados sobre a integração dos haitianos na sociedade brasileira, a inserção destes no mercado de trabalho e a continuidade ou não deste fluxo, bem como a da perpetuação das redes de coiotes na porosa fronteira brasileira. Também é instigante e digna de nota, a importância e dimensão da Rede Solidária para Migrantes e Refugiados. Suas ações em um país de dimensões continentais, bem como o trabalho desenvolvido, junto não somente aos haitianos, mas imigrantes de origem diversas, faz merecer uma análise mais minuciosa e científica acerca do seu papel social. Acredita-se também que seja possível, em algum momento, acessar a totalidade do universo amostral ou população deste estudo, a partir das instituições governamentais que tratam a temática haitiana. Deste modo, o perfil construído teria bases mais sólidas, verificaria a suficiência amostral deste estudo, além de permitir novas conclusões mediante outras informações disponibilizadas. Por fim, observa-se a necessidade cada vez maior do Brasil em tratar as migrações vinculadas aos direitos humanos e não ao direito penal. O país, que tem se projetado mundialmente em outras esferas, precisa repensar como tratará a questão migratória a nível mundial, incluindo-se aí aquela motivada por catástrofes ambientais.

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132 129 ANEXOS ANEXO A Resolução Normativa Nº 002, De 27 de outubro de 1998 (*) Adota o modelo de questionário para a solicitação de refúgio. O COMITÊ NACIONAL PARA OS REFUGIADOS CONARE, instituído pela Lei n o 9.474, de 22 de julho de 1997, no uso de suas atribuições, objetivando implementar o disposto no artigo 19 do referido diploma legal, RESOLVE: Artigo 1 o Adotar o modelo de formulário de solicitação do reconhecimento da condição de refugiado constante do Anexo I desta Resolução. Artigo 2º O referido questionário será preenchido pelo solicitante de refúgio na sede da respectiva Cáritas Arquidiocesana, e posteriormente encaminhado à Coordenadoria-Geral do CONARE para os procedimentos pertinentes. Parágrafo único. Nas circunscrições onde não houver sede da Cáritas Arquidiocesana, o preenchimento deverá ser feito no Departamento de Polícia Federal e encaminhado juntamente com o termo de Declarações de que trata a Resolução Normativa nº 1, de 27 de outubro de Artigo 3º Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação. Artigo 4º Revogam-se as disposições em contrário. (*) Republicada de acordo com o Artigo 1º da Resolução Normativa Nº 09/2002. Luiz Paulo Teles Ferreira Barreto Presidente do CONARE

133 130 I IDENTIFICAÇÃO QUESTIONÁRIO PARA SOLICITAÇÃO DE REFÚGIO Nome completo:... Sexo: masculino ( ) feminino ( ) Estado civil:... Nome do pai... Nome da mãe:... País de origem / nacionalidade:... Data de nascimento:... Ocupação:... Profissão:... Escolaridade:... Endereço em seu país de origem:... Endereço atual:... Documentos de viagem ou Identificação (anexar cópia do documento e dados pertinentes. Se isto não for possível indicar a razão no verso). Passaporte nº:...cart. de Identidade nº... Outros:... Grupo familiar que o(a) acompanha no Brasil (esposo(a), filhos(as), pais e outros) : Nome completo:... Data de nascimento:... Relação de parentesco:... Escolaridade:...

134 131 Familiares que permaneceram no país de origem (esposo(a), filhos(as), pais e outros) : Nome completo:... Filiação:... Data de nascimento:... Relação de parentesco:... Escolaridade:... II-CIRCUNSTÂNCIAS DE SOLICITAÇÃO 01. Cidade e data de saída do país de origem: Meio de transporte: aéreo ( ) marítimo ( ) terrestre ( ) 02. Com quais documentos saiu de seu país de origem? Especifique-os Indique os lugares onde fez escalas antes de sua chegada ao Brasil. Especifique o período de permanência em cada localidade Cidade e data de chegada ao Brasil Forma de ingresso: Legal ( ) Ilegal ( ) 05. Já solicitou refúgio no Brasil ou em outro país? Sim ( ) Não ( ) 06. Já foi reconhecido(a) como refugiado(a) no Brasil ou em outro país? Sim ( ) Não ( ) 07. Já esteve sob a proteção ou assistência de algum organismo internacional? Sim ( ) Não ( ) Em caso afirmativo, indicar:

135 132 Data:.../.../... País(es):... Organismo internacional:... Detalhar as razões (anexar cópias dos documentos): Você ou algum membro de sua família ou pertenceu a alguma organização ou grupo político, religioso, militar, étnico ou social em seu país de origem? Sim ( ) Não ( ) Em caso afirmativo, esclarecer: (a) participação: Pessoal ( ) membro da família ( ) (grau de parentesco) (b) indicar a organização :... (c) descrever quais as atividades desempenhadas por você ou por membro de sua família na organização acima citada, especificando o período correspondente. 09. Esteve envolvido(a) em incidente que resultaram em violência física? Em caso afirmativo, descrever a espécie do incidente e a forma de sua participação: 10. Alguma vez foi detido(a) ou preso(a)? Sim ( ) Não ( ) Em caso afirmativo, indique o(s) motivo(s), a(s) data(s) e o lugar(es) onde tal fato ocorreu: Deseja voltar a seu país de origem? Sim ( ) Não ( ) Em caso negativo, indique as razões: as autoridades de seu país de origem permitiriam o seu ingresso? Por quê? Sim ( ) Não ( ) o que aconteceria se regressasse a seu país de origem?

136 133 Teme sofrer alguma ameaça a sua integridade física caso regresse? Sim ( ) Não ( ) Em caso afirmativo, indique as razões: Por que saiu de seu país de origem? Dê explicações detalhadas, descrevendo também qualquer acontecimento ou experiência pessoal especial ou as medidas adotadas contra você ou membros de sua família que o(a) levaram a abandonar seu país de origem. (se possuir prova, favor anexá-la. Se necessitar de mais espaço, utilize o verso e outras folhas) Declaro formalmente que as informações por mim emitidas são completas e verídicas.

137 134 ANEXO B: Número de pessoas amparadas pela ACNUR em 2011, por sub-região Subregião Refugiados Requerrentes Refúgio Total de refugiados Assistidos pelo ACNUR Requerentes de Asilo Repatriados Deslocados Internos Protegidos/assistidos pelo ACNUR Deslocados Internos retornados Outras pessoas Vários Total população auxiliada África Central e Grandes Lagos Leste e Chifre da África África Ocidental Sul da África Norte da África Oriente Médio Sudoeste Ásiático Ásia Central Sul da Ásia Sudeste Asiático Leste da Ásia e do Pacífico Europa Oriental Sudeste da Europa Europa Central

138 135 Subregião Refugiados Requerentes d Refúgio Total de refugiados Assistidos pelo ACNUR Requerentes de Asilo Repatriados Deslocados Internos Protegidos/assistidos pelo ACNUR Deslocados Internos retornados Outras pessoas Vários Total população auxiliada Norte, Oeste e Sul da Europa América do Norte e Caribe América Latina Total Fonte: UNHCR, Traduzido pela autora.

139 ANEXO C 136

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