CENTRALIDADE INTRAURBANA E MORFOLOGIA EM CIDADES MÉDIAS: TRANSFORMAÇÕES E PERMANÊNCIAS

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1 CENTRALIDADE INTRAURBANA E MORFOLOGIA EM CIDADES MÉDIAS: TRANSFORMAÇÕES E PERMANÊNCIAS Dr. Arthur Magon Whitacker Universidade Estadual Paulista UNESP - Brasil Apresentação Este texto retrata nossa participação em duas pesquisas que correm paralelamente, financiadas pelo Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, CNPq, que tratam de centralidade, morfologia e reestruturação urbanas no bojo das cidades médias. Trata-se de duas pesquisas em andamento às quais esperamos colher aportes e questões advindas da participação no XI Seminario Internacional RII y IV Taller de Editores RIER, junto ao Grupo temático 5: Ciudades intermedias: transformaciones y perspectivas. Traz elementos debatidos em duas ocasiões: o 53º Congresso Internacional de Americanistas, realizado em 2009, na Cidade do México; e o VII Workshop da Rede de Pesquisadores sobre Cidades Médias, realizado no Rio de Janeiro, no corrente ano. 1. Centro e centralidade Chamamos a atenção, preliminarmente, para as primeiras análises empreendidas sobre o centro das cidades que se propuseram como uma teoria explicativa para o espaço urbano, genericamente intituladas de ecologia urbana, em especial da Escola de Chicago. Sua interpretação da cidade e dos conflitos que nela se materializam é explicada pela disputa por territórios e pela acomodação e distanciamento de usos que se complementam e que se repelem. Alguns de seus conceitos básicos tiveram e têm grande influência para a análise da cidade, pois, com conteúdo diferente, ou não, passaram a compor os instrumentos de discussão e análise sobre a centralidade. Os principais conceitos são os de área central, centralização, descentralização e segregação. (CORREA, 1989, P.82.3). Não é por acaso que as principais elaborações teóricas concernentes a essa escola privilegiaram a análise do centro, inclusive com esse assumindo um papel determinante no processo de estruturação urbana. A leitura empreendida da cidade como um ente dotou a área central de uma função controladora do restante do organismo urbano. Fundamentalmente, as implicações sobre a análise das cidades são: o meio ambiente social assume uma forma que é manifestação dos processos de organização social; a organização social se acomoda a seu meio ambiente físico e se faz representada pela disposição espacial dos assentamentos urbanos (GOTTDIENER, 1992, P ). A Geografia Urbana tanto incorporou como se contrapôs a essa modelização. A Geografia Urbana Francesa, que representamos com George (1983) e Beaujeu-Garnier (1980), tem como linha de análise para o centro das cidades, a procura de um entendimento das formas atuais a partir da gênese da cidade em diferentes escalas, com o privilégio da região e do centro em relação a essa cidade. A forma da cidade é vista como uma paisagem com muitas marcas deixadas pela história. O centro é a materialização dessa história, como o espaço é compreendido como dela resultante. Com a Escola de Chicago, há uma prevalência das formas na organização da sociedade; na Geografia Francesa, a prevalência está na história, sendo o espaço, geralmente, o palco de ações resgatáveis através das formas.

2 Partindo das proposições de Castells (1983), e procurando contribuir para sua leitura crítica, consideramos que: esses diferentes conteúdos dados ao centro encontram-se distribuídos ou concentrados na cidade, sobrepostos ou não, tanto em sua dimensão territorial, quanto em sua dimensão espacial, de acordo com a constituição de cada cidade; que o recorte territorial não define a centralidade, mas o centro. A centralidade, definida pelos fluxos que dão conteúdo (inclusive o conteúdo identificado por Castells) ao(s) centro(s) é cambiante, à medida que não se define pela localização, mas pelo movimento e pela articulação das diferentes localizações. Essa centralidade não se define apenas no nível intraurbano, mas na articulação de diferentes níveis e escalas, sobretudo quando não se restringe a elaboração do modelo teórico à concepção de hierarquia urbana tradicional, mas sim se compreende a constituição de redes num padrão não necessariamente concêntrico e que possui articulações definidas por fluxos. Portanto, não apenas a definição da centralidade no tecido urbano se dá pelos fluxos e é dinâmica, mas também a centralidade pensada na escala da rede, ambas podendo, conforme características e tempos, sobreporem-se. Consideramos que parte significativa da produção de Castells sobre o tema, circunscrita, em especial na sua Questão Urbana e a poucos outros textos, tanto quanto a de Lefebvre (em especial a Revolução Urbana e a Produção do Espaço), que passaremos a discutir a seguir, não trazem uma distinção clara entre a centralidade intraurbana e a centralidade que se expressa no sistema de cidades, ou na rede urbana. O referencial empírico de ambos, em especial as metrópoles, parece ser responsável por este quadro, mais até que a tentativa de se empreender uma análise interescalar ou multiescalar. Uma outra possibilidade seria a de que a centralidade sempre fora encarada por estes autores como algo que se expressa além da cidade, resgatando seu conteúdo desde Lösch e Crhistaller. Com Lefebvre (1983) a centralidade ganha destaque como a essência do fenômeno urbano: A centralidade constitui para nós o essencial do fenômeno urbano, porém uma centralidade considerada junto com o movimento dialético que a constitui e a destrói, que a cria ou que a extingue, à medida que seria a forma primeira de organização urbana, através da concentração e da dispersão que comanda. Em nossa opinião, sua concepção não é una e abarca várias escalas e, sobretudo, a articulação destas, através de duas argumentações básicas: a cidade se organiza articulada em redes de produção e numa relação e articulação intraurbana e interurbana; a cidade possui estruturas morfológias e sociológicas e, nesse sentido, a centralidade também diz respeito a um lugar com conteúdo social, carregado de símbolos e representações. Essa concepção afirma que a centralidade é, em verdade, poli(multi)cêntrica e, com nuanças diferentes, é resgatada por Gottdiener (1992) e por Soja (1993). Para se compreender a constituição da centralidade os fluxos são os elementos determinantes. Fluxos que são incrementados pelas comunicações e telecomunicações que são traduzidas em trocas, decisões, gestão, controle e irradiação de valores. A dinâmica de concentração e dispersão cria e recria centralidades que irão ocupar e valorar diferentemente e diferencialmente territórios no tecido urbano e se traduzem em segregação socioespacial e na fragmentação urbana. Por isso, compreendemos o caráter processual da centralidade, em complementação ao centro, expressão territorial. A centralidade é expressão da dinâmica de definição/redefinição das áreas centrais e dos fluxos no interior da cidade. Tais processos são também responsáveis pela multiplicação das formas de constituição dos centros e pela reprodução da centralidade. Sposito afirma que: mesmo que a dimensão ou uma nova dinâmica da divisão territorial do trabalho provoque a emergência de outros centros, o principal e cada um deles desempenha um papel de concentricidade, ou seja, é

3 para diferentes setores da cidade e para diferentes escalas de atuação/atração, uma área de interesse de convergência. (SPOSITO, 1990, p. 23) A leitura desse quadro permite a constatação de que existiriam duas tendências que podem ajudar à compreensão das novas formas urbanas e da suplantação de um modelo tradicional de rede: a) uma tendência à centralidade, através dos distintos modos de produção e as diferentes relações de produção; tendência que hoje penetra até o centro decisório, encarnação do Estado, com todos seus riscos. ; b) uma tendência à policentralidade, à oni-centralidade, à ruptura do centro, à desagregação, tendência orientável, seja através da constituição de diferentes centros (ainda que análogos, eventualmente complementares), seja até a dispersão e a segregação. (LEFEBVRE, 1983, p ) A expressão territorial dessa centralidade passa, cada vez mais, a se mostrar fragmentada na cidade e mesmo fora dela, pois os centros urbanos tendem a possuir especializações socioeconômicas e funcionais. Uma fragmentação engendrada por um processo duplo que parece não só criar novas formas como imputar novas funções a velhas formas, num processo de adequação e inadequação a novas dinâmicas impostas, com relativo abandono das formas tradicionais de uso, função e representação social do espaço. Em ambos os casos, há uma nova valoração. Novas e velhas formas convivem com novos e velhos usos, mas com certo descompasso entre a rigidez das formas e o uso cambiante. 2. Morfologia, estrutura, centro e centralidade Ao desenvolvermos pesquisas sobre a temática do espaço intraurbano em Presidente Prudente e São José do Rio Preto, cidades médias do Estado de São Paulo, privilegiamos o processo de constituição do centro da cidade e de suas transformações. Pudemos identificar uma estrutura composta por um centro que tendia a se multiplicar em várias outras áreas de concentração de atividades comerciais e de serviços (WHITACKER, 1990 e 1997). Esse processo de multiplicação de novas áreas centrais ocorria sem que o centro tradicional deixasse de existir, embora já se observasse mudanças em seus conteúdos, notadamente o paulatino processo de popularização destas áreas, ocorrido cerca de uma década após incremento do setor residencial nos centros tradicionais e em áreas de sua expansão, ou desdobramento, por meio da verticalização. Do ponto de vista da morfologia urbana, identificamos, naquele momento, um processo de expansão da área central tradicional, um processo de desdobramento desta área em novas áreas, contíguas ou não ao centro tradicional, e um incremento dos subcentros. Ao se analisar estes processos, observamos, também, mudanças no conteúdo das áreas ocupadas pelo centro tradicional, por sua expansão, pelos desdobramentos e pelos subcentros. As áreas centrais não se identificavam, grosso modo, apenas pela presença de atividades a ela características, como já definira a literatura atinente à Geografia do Comércio, em especial Berry (1967). Seus conteúdos eram distintos também por conta de que o processo de concentração/dispersão de atividades centrais ganhava componentes de cunho social, socioeconômico e funcional, num nível de complexidade que se distanciava, cada vez mais, de um padrão monocêntrico, ou radiocêntrico, até então característico de muitas cidades de porte médio e também de cidades médias. Mais recentemente (WHITACKER, 2003), pudemos observar que a esta mudança de conteúdo, somavam-se outros: de complexidade técnica e tecnológica presentes nas diferentes empresas; de complexidade de alcances máximos e mínimos dos mercados destas; de identificação, na estrutura da cidade, de empresas ligadas ao circuito superior e ao circuito inferior da economia. Estes processos, materializados nas empresas, possuem

4 uma lógica de localização cuja análise permite que às diversas áreas centrais se sobreponham diversos conteúdos. Se observamos várias áreas centrais numa mesma cidade, que podem possuir especializações funcionais, pensamos em estruturas urbanas policêntricas. Ao analisarmos que estas áreas são, também, distintas ou distinguíveis por conta de suas articulações escalares 1 que se dão em função dos fluxos que se estabelecem a partir destas áreas e partindo para estas áreas, portanto em vetores opostos, podemos pensar em um processo multicêntrico. Neste último caso, a distinção à monocentralidade não se dá apenas pela presença de muitas áreas centrais ou por distinções funcionais entre elas, mas pela capacidade de articular escalas e pela necessidade de se pensar de maneira interescalar para se compreender o conteúdo e a lógica locacional de muitas das áreas centrais. O processo multicêntrico também é observado em outras esferas. O circuito superior e o circuito inferior da economia urbana se materializam, também, numa lógica locacional que tende a distanciar as empresas de um circuito e de outro no plano da cidade. Assim, áreas centrais com conteúdo funcional semelhante podem diferir sob este aspecto. Talvez uma exceção ainda seja o setor financeiro, em especial os bancos comerciais, que tendem a manter agências em localizações tradicionais ainda em muitas cidades médias. A existência de estruturas urbanas complexas, não seriam, assim, exclusivas das grandes cidades e metrópoles. Há outros elementos da multicentralidade que não serão por nós debatidos: o conteúdo simbólico, lúdico, cultural dado à determinadas áreas da cidade, inclusive ao centro tradicional, mas também a áreas públicas ou de uso coletivo; os processos de segregação e fragmentação que, por vezes, só são identificados quando se articula à escala intraurbana a escala interurbana. 3. Reestruturação da cidade e reestruturação econômica Para Fischer (1999) as atividades de mando e outras atividades intelectuais relacionadas à produção industrial são compreendidas como atividades peri-produtivas. Há, hodiernamente, um incremento destas atividades por conta de um duplo processo: elas são tecnicamente possíveis e, ao mesmo tempo, necessárias, frente às crises de superprodução e a lei tendencial do declínio da taxa de lucros. Este processo, dentre outros elementos, seria comum ao sistema de acumulação flexível do capital. Do ponto de vista espacial, há a complexificação da separação da produção e da gestão, mais uma vez, possível tecnologicamente e necessária, do ponto de vista da reprodução do capital. Destas possibilidades e necessidades advêm as ações inovativas na organização da produção, nos processos produtivos e na relação destes com o território. O termo reestruturação vem sendo aplicado há vários anos para retratar momentos do processo de produção hegemônico, em seu sentido mais amplo, que congrega tanto a produção em si, quanto o consumo e a reprodução, que sejam marcados por rupturas, por mudanças profundas e pela constituição de paradigmas postos à análise científica. Nesse quadro de mudanças profundas e pontuais, na dimensão do tempo histórico, nota-se, marcadamente, o conjunto de transformações por que passa o sistema de produção hegemônico, o capitalismo. Trata-se de processos que identificamos com a tensa e complexa coexistência do sistema fordista de produção com o regime de acumulação flexível. Há, portanto, vinculação estreita desta expressão, a reestruturação, com a 1 Cujo exemplo primaz foi descrito por Christaller que, naquele caso, pensava a cidade como uma única entidade espacial, inserida na rede urbana. Ver: Chistaller, 1966.

5 dimensão econômica dos processos que moldam nossa vida, tanto quanto o que se chama de pós-modernidade ganhou uma dimensão, pelo conjunto de obras e reflexões, que vincula este termo a uma determinação cultural, a mudanças na construção das identidades individuais e coletivas e na tensão dialética entre estes dois níveis ontológicos. Esta transformação no modo de produção não é linear e combina, em cada formação socioespacial, elementos do sistema fordista e do sistema flexível, assim como se configuraram arranjos que combinam elementos fordistas e pré-fordistas. Assim, para a construção de quadros analíticos não se pode deixar de compreender a heterogeneidade de combinações que resultam na produção hegemônica. A dimensão espacial, uma dimensão da existência do Homem, não se descola deste quadro. A reestruturação econômica implica em novas espacialidades e territorialidades, tanto quanto destas depende. Compreendendo a produção do espaço como processo constituinte e constituído da produção social e, portanto, econômica, a reestruturação é, ao mesmo tempo em que possui, uma dimensão espacial. Assim, a reestruturação econômica, as mudanças profundas e pontuais na maneira como se organiza e reorganiza a produção (mais uma vez, em seu sentido mais amplo) hegemônica, é acompanhada por uma reestruturação do espaço. A reestruturação do espaço engloba os espaços de produção (agora em um sentido mais restrito), os espaços de consumo e circulação, tanto quanto os espaços da reprodução. Há, assim, relação entre a reestruturação econômica e a reestruturação que se opera nos espaços intraurbanos e interurbanos. Estabelece-se distinção entre a reestruturação do espaço que se observa na escala da cidade e aquela que se observa na escala da rede urbana (SPOSITO, 2004 e 2007b). Em determinadas redes urbanas, a observação empírica permite que se distingua uma cidade da outra, em outras não: observa-se um continuum constituindo conurbações e aglomerações urbanas de diversos matizes. Na descrição de dados e indicadores, a leitura da escala intraurbana e da rede urbana é tanto mais fácil, quanto mais desagregados estão aqueles. Os diferentes organismos, estatais ou não, responsáveis pela produção da informação que se vai utilizar privilegiam a escala do município, ou da cidade, o que implica em um grande direcionamento àqueles que deles se utilizam para compor análises e, mesmo, descrições. Mesmo os dados produzidos para recortes territoriais oficialmente entendidos como aglomerações urbanas e regiões metropolitanas, por exemplo, possuem limitações consideráveis: limitam-se a idéia da contiguidade territorial como elemento primordial para a definição do recorte. A distinção feita entre reestruturação da cidade e reestruturação urbana (a escala da rede urbana e das interações entre as cidades) é o reconhecimento da necessidade conceitual de se compreender escalas analíticas, tanto quanto de combiná-las. É certo que há processos que só se observam na escala da rede urbana e outros que se materializam na escala intraurbana. Porém, há rebatimentos importantes entre estas escalas. A questão da escala é nodal para a análise da reestruturação econômica por que há processos numa e noutra escala e por que há processos que não são apreensíveis tomando-se a escala cartográfica como elemento definidor, delimitador. A escala seria a geográfica, aquela que permite a apreensão de um fenômeno ou processo geográfico que é composto tanto pela contiguidade territorial, quanto pela continuidade espacial (SPOSITO, 2004) e cujo conhecimento é tanto tácito, quanto tático e estratégico. A separação no plano analítico das escalas geográficas (a da cidade e a da rede) é um exercício teórico tão complexo quanto, paradoxalmente, sua análise conjunta o é. Esta complexidade advém do fato de nos depararmos com um processo geográfico que perpassa a escala cartográfica e a delimitação formal da cidade, da região e da rede urbana. Obviamente, a constatação desta

6 relação biunívoca não é nova. Podemos apreender a combinação da dimensão da cidade e de sua hinterlândia e daquela com a rede urbana desde a Teoria das Localidades Centrais. Talvez devamos levar em conta que as relações de manutenção ou mudança da posição de uma cidade na rede urbana (basicamente os conceitos de alcance espacial máximo e de alcance espacial mínimo) nunca foram tão fluídas. O conteúdo da cidade e sua condição de continente são dados na escala da rede geográfica que, mais que superposição de redes e escalas, é formada pela coexistência de escalas e redes. Assim, o processo de reestruturação econômica opera no território (e o território) tanto se localizando e espraiando-se segundo uma lógica de contigüidade, quanto numa lógica de continuidade espacial. Isso faz com que a reestruturação dos espaços intraurbanos não seja analiticamente decomposta na análise da escala cartográfica da cidade, mas nas interações desta com e em outras escalas. Compreendendo que se verifica uma reestruturação em curso em nosso país que é abrangente e seletiva, do ponto de vista da dinâmica territorial, e de rupturas e continuidades, do ponto de vista do modelo econômico, e que as cidades médias são recortes territoriais sobre e com os quais esta reestruturação se materializa. Seu debate acadêmico e sua discussão científica podem estabelecer ou evidenciar conexões entre mudanças na dimensão econômica, por exemplo, na organização e tecnificação das firmas, e mudanças profundas na estrutura das cidades. Do ponto de vista da organização das firmas, merece destaque o incremento da disjunção, no plano territorial: da gestão, controle, armazenamento e comercialização; da gestão, controle, criação, marketing e produção; enfim, das atividades peri-produtivas, a jusante e a montante, como definira FISCHÉR (1999), e das atividades relacionadas à circulação e consumo, estas historicamente já separadas. A disjunção no plano do território só é possível por conta de um conjunto, historicamente produzido, de inovações que se traduzem em infra-estruturas, meios, processos produtivos e de gestão. Isso acarreta, implica e se alimenta de transformações na estrutura das cidades e das redes urbanas. Há um conjunto de transformações em que é, do ponto de vista do intervalo de tempo em que ocorre e do ponto de vista de sua profundidade, marcadamente, um momento de inflexão, que tem transformado, tanto a morfologia da cidade, quanto seus conteúdos, assim como a noção daquilo que compreendemos na Geografia por aglomerações urbanas. Haveria uma relação intrínseca entre a reestruturação produtiva e a reestruturação da cidade. Para a análise destas suas escalas devem ser analiticamente combinadas e sistematicamente decompostas. Como afirmou Santos Os componentes do espaço são os mesmos em todo o mundo e formam um continuum no tempo, mas variam quantitativa e qualitativamente segundo o lugar, do mesmo modo que variam as combinações entre eles e seu processo de fusão. Daí vem a diferença entre espaços. (1979). A produção, em seu sentido mais amplo, compreende um continuum, pois a produção hegemônica, ao subverter direta ou indiretamente lógicas não hegemônicas garante um espaço para a reprodução do capital. Este continuum não é, no entanto, contíguo, tampouco resulta em um espaço homogêneo. Isso resulta das e nas diversas combinações entre o novo e o velho, o luminoso e o opaco, o fluido e o rugoso. É certo que este quadro redunda e resulta de combinações heterogêneas de condições gerais de produção, tanto quanto de condições gerais de circulação, como apontam os estudos de Lencioni (LENCIONI, 2007, 2003a, 2003b). Tem-se, assim, um espaço por vezes reticulado, por vezes descontínuo, decorrente de particularizações do processo geral de produção que são dadas pelas

7 condições históricas pretéritas de formação de cada subespaço. O continuum se faz pela contigüidade (presente na rede christalleriana, por exemplo), tanto quanto pela continuidade (a rede geográfica, que articula escalas e se materializa na combinação de escalas). No estudo das cidades médias coexistem combinações entre o endógemo e o exógeno, que se materializam nas atividades industriais e terciárias. São exemplos, em se tratando de cidades médias: Marília, no Estado de São Paulo, se pensarmos no setor industrial; Uberlândia (MG) e São José do Rio Preto (SP), se pensarmos nas atividades chamadas terciárias. Em síntese, este processo combina a dispersão e a concentração seletiva da atividade produtiva e das atividades de reprodução e circulação como um todo, compondo o meio, no sentido proposto por Santos (1994). 4. Reestruturação da cidade e morfologia O conceito de estrutura urbana congrega duas acepções que, no âmbito da pesquisa urbana na geografia, no urbanismo e na economia espacial, dentre outras ciências, podem ser consideradas mais corriqueiras. Em ambos os casos, a estrutura urbana não é tomada como objeto de análise em si, mas é, ora, resultado de um arranjo natural, ora tomada como modelo apreendido e matematizado, ora como simples desdobramento da estrutura social. (TOPALOV, 1988 e GOTTDIENER, 1992). A estrutura urbana é o produto da investigação (o arranjo registrado, o modelo produzido), ou, simplesmente, o princípio da investigação, já que seria a estrutura urbana tomada como um rebatimento da estrutura social, esta sim, o foco analítico. A primeira acepção que mencionamos tem a ecologia urbana da Escola de Chicago como principal expoente. Lindeira em seu foco de análise, embora pudesse estabelecer uma cronologia que a colocaria após a chamada primeira fase da Escola de Chicago, ter-se-ia os estudos quantitativos, identificados com a segunda fase desta escola e, na geografia, com a chamada New Geography, também chamada no Brasil de Geografia Teorética. Há proximidade nas análises ecológicas e nas análises quantitativas, pois ambas se caracterizam por um estudo tipológico e empírico da configuração formal da utilização do espaço urbano. A segunda fase da Escola de Chicago é a síntese de ambas. Na primeira fase da Escola de Chicago, a estrutura era resultante da composição de usos que se beneficiariam, ou não, da proximidade. Na segunda fase, a estrutura urbana deveria ser representada detalhadamente para a análise fatorial do arranjo de usos do solo (GOTTDIENER, 1992), por exemplo, as análises estatística, de localização, densidade e freqüência,. A descrição da cidade baseia-se numa descrição funcional e topológica do que é visível na cidade e em tentativas de teorização baseadas neste visível (ecológico) e naquilo que é mensurável do empírico/visível (quantitativo). A segunda acepção diz respeito às leituras estruturalistas, em especial do marxismo estruturalista. Neste caso, o espaço é, via de regra, tomado como palco das manifestações da sociedade e a estrutura urbana nada mais seria que o rebatimento nesta dimensão da realidade da dimensão social. Ou seja, a estrutura urbana seria um rebatimento da estrutura social, ambas afeitas à superestrutura. Não por acaso, são os agentes sociais, os movimentos sociais e a atuação do Estado o principal foco de análise da pesquisa urbana que se produz sob o viés do estruturalismo marxista. Tanto na Escola de Chicago quanto no âmbito da pesquisa urbana de inspiração estruturalista, que possuem matrizes diferentes, o termo estrutura aparece como esse arranjo entre forma e função. A estrutura urbana seria, assim, um retrato da sociedade no espaço. Também se compreendia a estrutura urbana como uma interpretação, devidamente

8 conceitualizada, da cidade à luz da tríade capital trabalho Estado. Em que pesem as diferenças basais entre o marxismo estruturalista e o keynesianismo, acreditamos que na cidade analisada sob estes dois vieses a concepção de espaço adotada, assumidamente, ou não, é euclidiana. Ao se compreender o espaço como uma dimensão da existência do Homem, e não apenas como um palco desta existência, a estrutura urbana pode ser avaliada sob um viés distinto do que descrevemos acima. Esta constatação é importante, pois nos permite compreender que a estrutura (relação entre forma, função e retrato momentâneo do processo) é um produto social e, justamente por ser produto social, é dotada de capacidade de determinação, ainda que limitada. Também é dotada de historicidade, o que nos permite compreender sua dimensão temporal e sua transitoriedade. Isso distingue esta concepção de estrutura urbana das duas acepções postas no início. A temporalidade, compreendendoa como a confluência e convivência de tempos distintos, de dinâmicas distintas, mas também complementares, apontam para a possibilidade de se conceber a estruturação. Se a estrutura for a relação entre forma, função e retrato do processo. Estruturação seria a compreensão e validação da dimensão processual desta relação. Relação está que não é de simples causalidade: forma e função. Mas é de superação da causalidade, uma vez que deve a concepção de estruturação dar conta de que a relação forma e função é continuamente transformada pelo processo, que é sociopespacial. Assim, a estrutura é retrato, mas é retrato instantâneo. Se for retrato, qual a validade de se tomar a estrutura como elemento de análise? Seria, sempre, uma análise datada? Já suplantada? Não. Como dimensão da existência do Homem, o espaço possui o que foi e o vir a ser. É condicionado e é condicionante. Assim, a estrutura urbana detém tempo social e condiciona, em certo grau, as ações futuras. É, assim, processo (estruturação) e fenômeno (estrutura). Sposito compreende a dinâmica do arranjo e rearranjo dos usos do solo e adota o termo estruturação. A autora propõe que se entenda que a estruturação reflete a dinâmica dos usos e que se distinga estruturação urbana e estruturação da cidade (SPOSITO, 2004), pois seria mais apropriado adotarmos a adjetivação urbana para uma dimensão que transcenda a escala intraurbana, para a qual seria mais apropriado o uso da adjetivação da cidade. Sendo assim, seria adequado refletir sobre a necessidade de se tomar estes dois conceitos, estruturação urbana e da cidade, como elementos de nosso processo investigatório combinando-os, uma vez que os processos de estruturação se dão na cidade (um momento analítico) e possuem relação com outras escalas de análise (outro momento analítico). O ponto de partida, a cidade ou articulações escalares necessárias para a compreensão de um fenômeno ou processo em investigação, será tanto ditado pelos procedimentos investigativos, quanto pela dinâmica primeiramente identificada. O que nos faz pensar na complementaridade, do ponto de vista do processo investigativo, de dois conceitos que passamos a descrever. A análise da estruturação parte da leitura de um mosaico, composto por distintas combinações e sobreposições de dinâmicas que combinam forma e função. As frações da cidade são analisadas em si e, relacionalmente, com o restante da cidade. A análise da morfologia parte da capacidade de se ler a cidade a partir de um determinado ponto de vista (recorte escalar) que privilegie não mais as frações, ainda que de forma relacional, mas o tecido urbano e sua combinação com o tecido de outras cidades e/ou de seu entorno como ponto de partida. Sendo assim, são análises complementares. Sposito (2004) também propõe o termo reestruturação. Para esta, momentos que implicam em profunda mudança na estrutura e que ocorram em períodos relativamente curtos devem assim ser caracterizados. Há concordância e/ou confluência de opiniões sobre esta questão,

9 por exemplo, quando observamos as contribuições de Soja (1993). A reestruturação, tanto da cidade, quanto a urbana, vem, via de regra, acompanhada por uma reestruturação econômica e, muitas vezes, produtiva (SPOSITO, 2007b). Estas são, também, determinantes e determinadas por dois processos que se entrelaçam em nossa sociedade: as transformações, rupturas, distensões e recriações porque passam o processo de produção e reprodução do capital e o que Santos chamou de meio técnico-científico informacional (SANTOS, 1994). Compreendemos que a reestruturação é imputada pelas transformações do capital, ao mesmo tempo em que novas possibilidades técnicas e tecnológicas permitem que este se recrie. A Cidade, assim, passa por reestruturação tanto porque é tecnicamente possível, quanto porque é, do ponto de vista da produção e reprodução do capital, necessária. Grosso modo, pode-se identificar alguns elementos no processo de estruturação da cidade que predominam em determinados recortes temporais, que passaremos a detalhar a seguir. 5.1 A proximidade e o distanciamento A proximidade e o distanciamento, formando um par dialético, preponderam na morfologia da cidade num primeiro período. A proximidade e as possibilidades de distanciamento são, dentre outros elementos, ditadas pela capacidade técnica e tecnológica de determinada sociedade. Buscando referência na produção sobre a cidade contemporânea, os estudos da Escola de Chicago retrataram estes processos, com suas matrizes teóricas já apresentadas neste texto. Em um segundo período, o processo de estruturação predominante poderia ser retratado não apenas por um conjunto de anéis ou de ondas concêntricas, característico de um processo de expansão, obviamente limitado por características funcionais, de sítio urbano e de controle, via propriedade privada ou determinação jurídica, da terra urbana, morfologia esta associada ao recorte temporal primeiramente esboçado. O que preponderaria, neste segundo recorte, seria a contraposição de usos e formas de uso, de consumo e formas de consumo, materializadas tanto em concentração quanto em dispersão do tecido urbano. O

10 elemento primordial é a acessibilidade, que é determinada pela capacidade de mobilidade dos diferentes segmentos sociais. Há, nesse período, novas possibilidades técnicas que se massificam, como o automóvel e a distribuição de infra-estruturas pela cidade. A segmentação, segregação e fragmentação são incrementadas pelo fator distância, possível tecnicamente e, muitas vezes, desejada. Ao par dialético proximidade-distanciamento juntam-se esses novos elementos e o desenho da cidade é mais disperso, com muitos centros e ligados por eixos. Tais eixos concentram usos e consumos que atendem a populações distintas, ou com demandas distintas. Num terceiro período, identificamos como um novo elemento inovador a materialização da informação no território da cidade. Esse elemento pode exacerbar a segregação, a fragmentação, a multicentralidade e a policentralidade (SPOSITO, 1999b), e ser o indutor de um processo de reestruturação bastante profundo.

11 Estes três momentos, mas, sobretudo, o último, são indicadores do processo de reestruturação da cidade vinculado à reestruturação econômica. A leitura deste processo, embora possa partir da cidade, requer instrumentos teóricos que permitam a construção de um objeto de pesquisa que é, em essência, interescalar, porquanto geográfico. Primordial nesta construção analítica são os fluxos e as redes, elementos constituidores do território e possibilidade de fazer simultâneas diversas escalas de tempo, como afirma Arroyo (2007 e 2008). Faz-se necessário compreender que haveria, como escrevemos, preponderância de um modelo em determinado período, porém, não há exclusividade. Isso se deve, dentre outros motivos, pelas combinações singulares do processo de reestruturação eocnômica, por condições mais ou menos limitadoras do sítio e da legislação ou pela distribuição mais ou

12 menos dispersa de infra-estruturas. Há, assim, a possibilidade de identificação desses três modelos numa mesma formação socioespacial. Empiricamente, pensando nos trabalhos que desenvolvemos junto à Rede de Pesquisadores sobre Cidades Médias em torno do recorte temático Morfologia e Centralidade e na agenda atual desses trabalhos, identificamos, no primeiro período e com graus variados de incorporação de elementos do segundo, à título de exemplo: Campina Grande (PB); Mossoró (RN); Passo Fundo (RS); Teófilo Otoni (MG) no Brasil. No segundo período, estariam: Dourados (MS), Itajaí (SC com a importante ressalva de que sua centralidade intraurbana só se explica na escala da aglomeração Balneário Camboriú, Camboriú e Itajaí, o que demandará, ainda, esforços de compreensão); Marabá (PA por conseqüência da formação de três núcleos urbanos distintos, complementares e concorrentes, o que será investigado, ainda), no Brasil, Chillán e Los Angeles, no Chile e Tandil, na Argentina. No terceiro período, com matizes diferentes: Londrina (PR); Marília, São José do Rio Preto (SP); Resende (RJ); Uberlândia (MG). Nosso próximo passo no processo de investigação será a produção de material cartográfico e analítico sobre estas. 5. A centralidade, o interurbano e o intraurbano: é possível uma síntese? A tentativa de se empreender generalizações acerca de um determinado fenômeno, como as mudanças na morfologia urbana, na constituição da centralidade e a análise articulada de escalas pode levar a tentativas de modelização da realidade, o que limita consideravelmente seu entendimento. Complementarmente, o relativismo que se opera ao se compreender fenômenos em escalas de ocorrência diferentes como idênticos pode levar a um grande nível de imprecisão. Há, então, a necessidade de que, entre a excessiva particularização (analisar as escalas intraurbana e interurbana, a da rede e a dos espaços urbanos separadamente) e a generalização empobrecedora (reduzir todas as manifestações do fenômeno urbano, toda a morfologia urbana a um único indutor, como as formas atuais assumidas pelo modo capitalista de produção), questionemos se os processos característicos de grandes cidades se dão, também, nas chamadas cidades médias pelo rápido processo de urbanização que se dissemina, segundo novas nuanças nas economias periféricas, como uma das características do que alguns economistas denominam como fordismo periférico. Da mesma forma, pode-se analisar o processo de constituição de novas formas urbanas que possuem generalizações identificáveis em várias escalas de análise. Os determinantes desse processo estão não apenas num nível intraurbano e interurbano, como também desenvolvem nesses dois níveis suas determinações. Constituem-se e são constituídos pelos níveis local, nacional e mundial, à medida que se homogeneízam e se fragmentam, tanto o espaço, quanto o território. Um dos elementos da chamada acumulação flexível do capital é a mobilidade das empresas e um crescimento das chamadas atividades terciárias. A mobilidade possui uma dupla escala de ação: a global e a local. No caso da local, podemos considerar o processo de constituição de novas centralidades na cidade, como apresentamos, como uma de suas principais características verificáveis empiricamente. Mas nessa mesma escala, local e intraurbana, também se manifesta a reorganização global por meio de empresas com capital de origem nacional e internacional. Pudemos verificar que nas cidades médias analisadas a presença dessas empresas, no setor terciário, corrobora essa articulação entre escalas, mas também permite se verificar o crescimento do consumo, tanto quanto permite que se verifique a constituição de novas áreas centrais dotadas de conteúdos distintos, onde a presença destas empresas é mais notada. Isso ocorre em paralelo ao reforço, em alguns casos, das áreas centrais tradicionais. Porém, o tipo de empresa e seu público-alvo são, geralmente, distintos. Por

13 exemplo: as redes de lojas e magazines, os hotéis de redes tendem a se localizar em shopping centers e novas áreas centrais periféricas e/ou em eixos, contíguos, ou não ao centro tradicional, ancoradas, ou não, por hipermercados. A exceção: as redes populares que ainda buscam o centro tradicional. Há, grosso modo, dois tipos de exceção a este quadro, analisando-se cidades médias: cidades nas quais o centro tradicional ainda possui forte centralidade em vários níveis e para parcelas consideráveis da população, com segmentos distintos. Estas cidades possuem, ainda, uma estrutura monocêntrica, ou, no máximo radiocêntrica. Seriam exemplos: Campina Grande (PB), Passo Fundo (RS) e Guarapuava (PR); cidades nas quais as funções exercidas por um centro tradicional ainda são fortes e diversificadas, atendendo a vários públicos-alvo. O outro caso seria de cidades médias que possuem suas funções e sua centralidade intraurbana compartilhada, como é o caso de Itajaí, se pensada juntamente com Balneário Camboriu (SC) (ANJOS, 2007 e 2007a). Neste exemplo, há distinção entre os dois centros tradicionais e seus desdobramentos e novas áreas centrais, que são compartilhados de maneira segmentada pela população de ambos os municípios. De maneira geral, identificamos na análise dos dados referentes às cidades médias em estudo por esta Rede, a presença preponderante de empresas terciárias locais e regionais no centro tradicional, mantendo-se uma estrutura monocêntrica, e uma estrutura preponderantemente policêntrica, ao se mapear as empresas de origem nacional e internacional. O quadro acima descrito, de sobreposição de um modelo monocêntrico à um policêntrico, conforme o indicador tomado (no caso, a classificação das empresas por sua origem de capital, como mencionamos), nos faz compreender que estas áreas centrais (as tradicionais, identificadas com o centro tradicional, e novas áreas centrais, identificadas por seus desdobramentos e pelas novas áreas, remete a discussão à multicentralidade. Este conjunto de áreas centrais possuem conteúdos distintos e, ao mesmo tempo que se observa a concentração (em áreas centrais), esta se materializa conjuntamente com a dispersão (as áreas centrais estão se dispersando pela cidade, facilitadas pelas infraestruturas e pelo transporte individual, tanto quanto são possibilitadas pela segregação e fragmentação. Nesse contexto, a análise da relação entre centralidade e dispersão, ou, como apresenta Sposito (1999b), sobre centro-periferia, seria caracterizada por três dinâmicas principais. Primeiramente, trata-se da dinâmica imposta pelas novas lógicas de comportamento espacial das empresas industriais., caracterizadas a) pela maior mobilidade das plantas industriais graças à redução dos custos de transporte, o que permite que as empresas deixem os grandes centros; b) pelo aumento do consumo, o que faz com que haja um aumento do número de empresas industriais; c) pela relativização do modelo de produção local para um consumo local, migrando-se para modelos de produção para mercados distantes; d) pela diminuição de plantas industriais que permite uma flexibilização dos usos dos espaços. ; e) pela separação territorial da gestão e da produção, desde que necessidades infra-estruturais de circulação e comunicação estejam atendidas, o que permitiria a localização não metropolitana e mesmo em áreas externas ao tecido urbano, redefinindo-se não apenas o tecido interno das aglomerações urbanas, mas também a rede de fluxos entre aglomerações de diferentes portes. (SPOSITO, 1999b, P ). A articulação dispersa da produção e da produção e gestão é acompanhada por concentrações com novas características: Paralelamente aos fluxos que se estabelecem entre diferentes unidades da mesma empresa e entre empresas controladas sob o mesmo capital, observa-se um interesse de maior articulação entre as unidades de gestão de uma

14 empresa ou grupo e outras empresas e/ou instituições, de diferentes portes, para a compra de serviços de diferentes naturezas (do desenvolvimento tecnológico à limpeza e manutenção do maquinário) (SPOSITO, 1999b, p ). Observa-se que essa é uma nova tendência de concentração, ao mesmo tempo em que a produção, de maneira geral, desconcentra-se ou se reconcentra em outras áreas dotadas do aparato técnico e tecnológico necessário. As atividades industriais apresentam sua maior concentração relativa em setores afastados do centro, sobretudo graças à presença de vários minidistritos industriais localizados nas proximidades de bairros populares e/ou de eixos de circulação rodoviários. A atividade industrial de origem nacional e internacional parece possuir lógica de localização ditada mais pela proximidade de modais de transporte adequados e pela disponibilidade de lotes a preços competitivos e pelos planos oficiais (locais, ou não) de isenção e/ou incentivos. Não nos debruçaremos à análise deste ramo de atividade neste texto, embora estejamos trabalhando com tais elementos em outro projeto (SPOSITO, 2007a). A segunda dinâmica diz respeito aos espaço de habitação, marcadamente, exemplos de segregação socioespacial. À medida que se proliferam os habitats auto-segregados, em especial áreas periferias ricas, surgem novas áreas centrais. Em São José do Rio Preto (SP), Marília (SP) e Uberlândia (MG) há grande coincidência de áreas com presença de loteamentos e condomínios fechados, shopping centers, hipermercados, universidades particulares, ligadas entre si, ou a outras áreas da cidade por eixos especializados funcionalmente, mas, sobretudo, socioeconômicamente. A terceira dinâmica apresentada refere-se aos espaços destinados à troca, ao consumo tanto de bens quanto de serviços, ao que incluiríamos os espaços destinados ao lazer. Ao nosso ver, suas estratégias de localização se dão primordialmente pela incorporação de novas áreas ao tecido urbano ou pela localização nas franjas e periferias, notadamente em nós de circulação, muitas vezes atendendo a vários municípios. Outro padrão locacional dessas atividades, em cidades mais antigas, e em metrópoles diz respeito à ocupação de grandes áreas outrora destinadas a outros usos (equipamentos industriais, portos) onde a inadequação a novos usos rentáveis colocam-nas a disposição, geralmente a um relativo baixo custo para o capital especulativo, mas não raro exigindo pesados investimentos públicos para sua revitalização ou readequação. Processos semelhantes são observados nos velhos centros tradicionais. De uma maneira ou de outra, há interesses estruturais, como já mencionamos, em se promover o aumento do consumo, mas também interesses de natureza fundiária e imobiliária, com a valorização de novas áreas ou das áreas revitalizadas e de suas proximidades. Essas três dinâmicas operam, a nosso ver, em várias escalas diferentes e, muitas vezes, só por meio da articulação entre escalas se tornam identificáveis ou desmistificáveis, o que revela a importância da compreensão dessas duas realidades para se compreender a estruturação interna das cidades. Complementarmente, devemos compreender que a relação em dimensões e níveis diferentes na constituição da rede de cidades e entre redes, as formas de circulação materiais e os meios de transporte são complementados pelas circulações imateriais. O que implica em se compreender que ao conjunto de usos se sobreponha e se contraponha, por vezes, a dinâmica dos fluxos. A Geografia estudou as relações entre as cidades, com a análise de hierarquia urbana, mas as formas de produção e consumo que definem essa hierarquização das cidades no interior de uma rede estão sendo superadas, inclusive, porque há múltiplas possibilidades de circulação das informações. (SPOSITOb, 1999, p. 93). A cooperação entre empresas, instituições e cidades supera a competição e a organização hierárquica da rede urbana, compondo o que se chamou de redes de cooperação.

15 Cooperação que, no entanto, não pressupõe a ausência de competição. Storper (1990), ao analisar a produção calcada no controle do conhecimento e do aprendizado técnico e tecnológico (learn production), pôde exemplificar a constituição dessas redes. Redes que também criam centralidades e que são dotadas de diferentes combinações e sobreposições, redes de redes, como escreveu Sposito, apoiada em Roberto Camagni, ao afirmar: Atualmente, há possibilidades múltiplas [em oposição a modelos concêntricos próprios às representações de redes urbanas hierárquicas] de relações entre cidades de diferentes padrões, sem que, necessariamente, elas se estabeleçam hierarquicamente (SPOSITO, 1999b, p. 93),o mesmo se dando, ao nosso ver, com cidades grandes e médias, e, por meio da formação de redes que não têm, necessariamente, contigüidade territorial. No âmbito dos esforços de se trazer à discussão a temática da centralidade nas cidades médias e de sua articulação com as redes, verifica-se que tal processo assume nuanças diversas, mas já não se pode falar num único centro para elas, como nos fazem crer os diversos momentos e análises, que demonstram a existência e manutenção de um centro tradicional que tem suas ocupações e usos se transformando e, sobretudo, a existência de desdobramentos desse centro tradicional que encontra determinantes além do nível intraurbano. Em diferentes concepções e menções ao centro urbano há, quase que automaticamente, uma identificação com convergência e/ou divergência. Ou seja, o centro organiza os deslocamentos e é ponto de articulação entre seus usos e os demais espaços da cidade. Os movimentos dos veículos e das pessoas convergem para ele, em determinados momentos do dia, e de lá partem, ordenando um movimento pendular que dota essa área de conteúdos diferentes no decorrer de um único dia e lhe dá uma dupla característica de integração e dispersão. Essa identificação é reforçada pelo desenho do plano viário, que tanto pode determinar a localização do centro, quanto ser por ele influenciado, numa relação dialética. O duplo movimento de atração e dispersão se materializa através desse plano, tendo no trânsito de pedestres e de veículos (coletivos e individuais) sua identificação mais direta, e, num nível menos evidente, por meio dos fluxos imateriais de informações. Segundo VILLAÇA (1998, p ), a partir da segunda metade do século XIX, as cidades brasileiras e sua área central passaram por um processo de estruturação do que viriam a ser seus centros principais, por duas dinâmicas iniciais: a implantação de serviços urbanos, antes realizados no interior das casas (hospedagem, atendimento médico, ensino) e a especialização dos estabelecimentos de comércio varejista. Os centros das metrópoles brasileiras teriam como característica a constituição de áreas complexas, com especializações no setor terciário. Em cidades médias, a especialização interna dessa área só parece ocorrer com seu processo de expansão, compreendido como o espraiamento de atividades tidas como centrais para áreas contíguas ao centro, que, num segundo momento, dão origem a desdobramentos desse centro original, estes dotados de especialização socioespacial e/ou funcional. (WHITACKER, 1997) Os desdobramentos do centro tradicional se diferenciam de novas áreas centrais, dispostas em eixos, ou não, embora a primeira seja mais comum nas cidades médias atuais, por conta de sua gênese. O desdobramento do centro se caracteriza pela concentração de empresas que se localizavam anteriormente no centro tradicional. Há um deslocamento destas empresas para novas áreas, em busca de espaços exclusivos, clientela, facilidades de estacionamento, proximidade de alguma atividade nucleadora etc. Novas áreas centrais podem se originar sem que tenha havido um desdobramento do centro. Neste caso, as empresas têm, majoritariamente, sua primeira localização nestas áreas novas.

16 O centro urbano, dessa forma, desempenha papel principal decorrente da concentração de atividades, pessoas e fluxos dos mais diversos e, também, da dispersão e da irradiação que a partir dele se realiza. Esse processo compreende tanto a estruturação dos espaços de produção, quanto dos espaços de troca e engloba, também, portanto, a apropriação e o uso. O entendimento da constituição desse centro implica em se compreender que há uma relação dialética entre o espaço preexistente, cristalizado nas formas, na paisagem e pelos usos e apropriações, e o espaço futuro. Ou seja, uma realidade preexistente condiciona essas novas formas urbanas e os usos e ocupações do solo ao mesmo tempo em que estes últimos irão interagir dialeticamente com as primeiras. Acreditamos que isso deva desmistificar tanto a noção de espaço-palco (notada em Pierre George) quanto a de espaço com conteúdo preconcebido (como no urbanismo modernista), quando A presença da cidade foi (...) substituída por idéia sua. (CHOAY, 1979, p. 50) A partir dessa relação dialética, o centro, entidade espacial, é condição ao mesmo tempo em que é condicionado pelos processos de estruturação e reestruturação urbanas. Compreendemos também que o centro se constitua, dessa maneira, como uma área dotada de um conteúdo social e simbólico e não apenas funcional, embora nossa tônica, na pesquisa empírica, não tenha sido dada aos dois primeiros 2. Os novos conteúdos que caracterizarão o que é central, com a complexidão de dinâmicas de reestruturação da cidade e na cidade, podem estar deslocados em relação ao centro tradicional. O processo que cria novas centralidades muda o conteúdo do centro, ao mesmo tempo em que não o reproduz tal como já constituído, mas de forma especializada. Esse processo não causa uma anulação da centralidade, mas a reconfigura no âmbito do tecido urbano. O gradativo incremento da acessibilidade ao centro e a partir do centro contribuiu para que características de diferenciação e de segmentação socioespacial se constituam e deixem heranças, a partir dos usos do solo pretéritos na cidade. Tanto no processo de expansão da área central, quanto, notadamente, nos processos de desdobramento e de constituição de novas áreas centrais, há a especialização funcional e, também a diferenciação, do ponto de vista do consumo, de áreas caracterizadas pela segregação. No centro tradicional, o conteúdo também se altera. A gradual saída do centro de uma população de maior poder aquisitivo carrega consigo, em direção às a reas que serão por esta população habitada, o comércio e os serviços de mais alto padrão. Os espaços de habitação constituídos nas periferias das cidades, tanto de baixa quanto de alta renda, são extremamente dependentes de eixos de ligação. Esses eixos podem ser preexistentes aos novos espaços, organizando-os e permitindo sua existência, ou serem corolários deles. Esses eixos, na estruturação e reestruturação dos espaços intraurbanos, orientam uma descentralização especializada, na maior parte das vezes, e geram subcentros em outras. Nas cidades médias já se nota a expansão do tecido urbano caracterizando-a boa parte delas como cidades dispersas. Em São José do Rio Preto, para se chegar aos condomínios fechados, as alternativas de trajetos são escassas, mesmo para uma cidade média. Em Uberlândia, há proporcionalmente, um número considerável de vazios urbanos que limitam os acessos às periferias ricas, dependentes de grandes eixos de circulação. Para as periferias mais pobres e com grande concentração de pessoas, como os conjuntos habitacionais, isso também ocorre, tal como se pode observar, por exemplo, em 2 As dimensões próprias à apropriação e ao uso, portanto constituintes de representações, não foram tratadas neste trabalho, embora reconheçamos sua importância. Observar Whitacker, 2001.

17 Presidente Prudente.. Tal estrutura só muda com a efetiva incorporação desses espaços ao tecido urbano e com a multiplicação de acessos a eles. Esses eixos tanto organizam a concentração, quanto o vazio 3. Esse reflexo também se observa na estruturação dos espaços interurbanos e nos espaços intrametropolitanos. No nível intraurbano, isso se materializa no paulatino abandono, por algumas atividades, do centro tradicional da cidade, na concentração de atividades em novas centralidades, em modos hierárquicos de organização social (acompanhados por segregação socioespacial e fragmentação do território), no incremento das telecomunicações e na troca maciça e diária de população entre extremos da cidade e entre cidades. Pode-se observar, paulatinamente, um abandono do comércio de mais alto padrão da área central para espaços mais exclusivos, que são, em geral, vetores que ligam áreas bem dotadas de infraestrutura e relativa fluidez por transporte individual com espaços de moradia de auto-segregação. A porção abandonada pelas camadas de mais alta renda são identificadas em Singer (1977) como áreas cinzentas. Ao que SPOSITO afirma: Entendemos que a existência e a dimensão de áreas momentaneamentes deterioradas em volta do centro, à espera de um processo de integração/valorização terá relação direta com a dinâmica dos processos de promoção imobiliária, que vão tomar em consideração para decidir sobre o aproveitamento destas áreas, fatores tais como: preço destes terrenos/localizações, disponibilidade/acesso a outros terrenos/localizações que possam cumprir os mesmos papéis a preços menores - possibilidade de que o Estado venha a realizar o investimento para superar a obsolescência das construções (física ou moral), e, a capacidade do mercado de pagar e remunerar este investimento realizado. (1990, p. 14) Segundo VILLAÇA (1998, p. 277), a partir dos anos 1960, nas metrópoles passa-se a observar o surgimento de sub-regiões urbanas, voltadas àquelas camadas mais ricas, com comércio e serviços especialmente direcionados, e que viriam a ser conhecidas como centros novos. A partir de 1970, inclusive a construção de shopping centers, de prédios e os investimentos públicos passaram a ocorrer nesses centros novos. Nas cidades médias observa-se desde a década de 1980 esse processo de decadência dos centros tradicionais e o desdobramento do centro tradicional de maneira especializada também socioeconômicamente (o que Villaça chamou de sub-regiões urbanas). Tal processo de decadência e deterioração seria caracterizado, nas cidades médias e nas metrópoles, por um abandono do centro tradicional pelas camadas de mais alta renda e pela sua tomada pelas de baixa renda. A abrangência do fenômeno de esvaziamento e decadência do centro principal seria decorrência de seu abandono pelas camadas de mais alta renda, facilitada pelo automóvel e, talvez, tenha sido incrementado pela suposta baixa carga simbólica desses espaços que não os tornava culturalmente atrativos e ideologicamente identificados com essas camadas. Se, como já apontara VILLAÇA (1998, p ), os centros se expandidos em direção às camadas mais ricas, em investimentos em áreas contíguas a eles, na década de 1970, se passaria a observar novo fenômeno: novos centros surgiram afastados dos primeiros e, muitas vezes, com especilizações e/ou em tamanho menor. A mobilidade permitida pelo automóvel colaboraria muito com esse processo, assim como os interesses imobiliários de promoção de novas áreas (VILLAÇA, 1998, p ). De qualquer forma, o abandono do centro tradicional e o crescimento do comércio popular são 3 Não podemos nos esquecer que os vazios são, também, áreas destinadas em muitos casos à futura especulação imobiliária.

18 as tônicas observadas. Segundo Villaça, por volta da década de 1970 [...], os centros já estavam bastante abandonados, principalmente como local de compras, diversões e escritórios de profissionais liberais e na década de 1980, os centros principais já estavam quase totalmente tomados pelas camadas populares. Nesse sentido, o surgimento de novas centralidades na cidade parece diminuir o interesse de novos investimentos na área central até um determinado momento no qual surjam elementos que tornem a inversão nestas áreas novamente lucrativo, ou quando se observam iniciativas promovidas pelo Estado, quando, de forma geral, como corolário também se note o aumento de preços dos imóveis e terrenos ainda não edificados Na análise de cidades médias, observamos que muitas vezes o centro tradicional sofre um declínio mais rápido que outras áreas da cidade e não se encontram respostas fáceis a esse fato. No caso, por exemplo, de Presidente Prudente, também cidade média, investimentos em outras áreas (tanto públicos quanto privados) redefiniram seu centro, levando a uma fragmentação profunda, se observada naquela escala. Noutras, como Maringá (PR) o centro, menos compacto que dessa última cidade, abriga consumo destinado à vários segmentos, porém com setores distintos. Em São José do Rio Preto, o processo não foi tão marcante, embora a constituição de novas centralidades e o tipo de novas áreas centrais que se desdobram do centro sejam semelhantes, como ao de muitas outras cidades médias que passaram pela implantação de shopping centers. Outro processo que pode ser analisado com relação à mudança no padrão do centro, é que a constituição de shopping centers cria também novas centralidades que, paulatinamente, mudam o padrão de uso daquelas áreas. Os shopping centers e os hipermercados são responsáveis por grandes impactos na estruturação urbana, por criarem, rapidamente, grande atração para determinados pontos, com problemas viários e de tráfego. Estamos empreendendo pesquisa recente sobre uma área recém erigida e em fase de ocupação, denominada Terceiro Pólo Comercial que será emblemática. VILLAÇA (1998, p. 307) afirma que, em comparação aos subcentros, os shoppings ainda não teriam um impacto significativo sobre nossas estruturas metropolitanas, em face da hegemonia dos subcentros tradicionais, embora tivessem grande participação no prosseguimento do esvaziamento dos centros principais. Por outro lado, devemos considerar que isso se dê de maneira diferente nas cidades médias, onde há, geralmente, um sistema de subcentros (ou um único subcentro) incipientes. Quando se constitui uma nova centralidade ou novas centralidades que irão competir com o centro tradicional, esse processo de substituição de usos e de ocupações que irá mudar o conteúdo do centro tradicional tem início. Quando o processo é muito rápido, não apenas uma mudança quanto ao uso e ocupação do solo se observa (a mais comum, em médias ou grandes cidades, é a popularização do comércio central), mas também o incremento das chamadas áreas degradadas, pois não há, efetivamente, uma refuncionalização daquele centro tradicional. Esse é o caso de Presidente Prudente que, num curto interregno de tempo, viu o surgimento de dois shopping centers, com clientelas diferenciadas, causando uma rápida deterioração do comércio central (MONTESSORO, 1999). Tal fato não parece ter ocorrido com o mesmo grau e igual rapidez em Londrina e Maringá, cidades médias do Norte paranaense. O processo de transformação do centro e de constituição de novas centralidades guarda especificidades que se evidenciam na convivência de vários padrões de ocupação e de várias formas urbanas, num desenho verificável na paisagem do centro e em seus usos. Dessa forma, não podemos concordar totalmente com VILLAÇA (1998, p. 237) ao afirmar a existência de um, e apenas um centro principal. Isso porque, embora o centro principal não

19 seja reproduzido integralmente nas novas configurações da centralidade na cidade, ele o é, desdobrando-se pela cidade e tem seu conteúdo original profundamente alterado, tanto em grandes, quanto em médias cidades e sua característica primaz é diluída e recomposta em novas centralidades. Essa dinâmica de usos e apropriações diferentes do centro e no centro e a sua característica de concentração e dispersão foi bastante estudada pela chamada Escola de Chicago, que via no arranjo complexo, uma construção orgânica de atração e retração entre tais usos. De certa maneira, esse princípio esteve na base também do que CHOAY (1979) chamou de urbanismo progressista, pois o arranjo de usos exclusivos às diferentes áreas da cidade é organizado e, embora, com outra matriz (o industrialismo), há resultados semelhantes. A diferença principal talvez seja a de no urbanismo progressista, as propostas eram de intervenção na cidade, enquanto que na chamada Escola de Chicago, se procurava principalmente uma interpretação da cidade. Tanto uma corrente como outra relativizaram o caráter segregativo desse processo e o papel da propriedade privada na determinação de usos e não usos da cidade. Na Escola de Chicago, a concorrência orgânica pelo espaço parece substituir a luta de classes. Não se põe a questão de que a uma divisão técnica e social do trabalho corresponde uma divisão técnica e social do espaço (SINGER, 1980). A centralidade, como expressão do processo, é também reflexo de divisões técnicas e sociais do trabalho. Seu processo de constituição compreende também a sobreposição de temporalidades diferentes que se materializaram em formas urbanas e que passam a assumir novos usos e funções, determinando novos conteúdos àquelas formas pretéritas. O que SANTOS (1996) chama de rugosidades compreende a influência de formas naturais e construídas e sua relação com os usos e representações atuais. Uma vez que a centralidade se articula à divisão técnica e social do trabalho, os centros (no nível da forma urbana) e essa centralidade (enquanto processo) refletem, também, uma articulação desses com o modo de produção. A cidade industrial não a cidade com função industrial, mas a cidade criada sob um racionalismo industrial organizou a racionalidade da cidade à luz da racionalidade da produção. Essa racionalidade, com o incremento da acumulação flexível do capital em detrimento do sistema fordista de produção, traz novas características à centralidade. A correlação entre desenvolvimento técnico e desenvolvimento das formas urbanas e da centralidade também é possível de ser apreendida.

20 Referências ANJOS, F. A. Dispersão urbana no litoral de Santa Catarina: turismo e desconcentração industrial no centro-norte. In: REIS, N. G.; TANAKA, M. S. (org.). Brasil: estudos sobre dispersão Urbana. São Paulo: FAU-USP, 2007, p ANJOS, F. A. O sistema urbano multi-polarizado de Santa Catarina. In: SPOSITO, M. E. B. (org.). Cidades Médias: espaços em transição. São Paulo: Expressão Popular, 2007a, p ARROYO, M. M. Uso del territorio, comercio internacional y dinámica industrial en el Estado de San Pablo, Brasil. In: X Seminario Internacional de la Red Iberoamericana de Investigadores en Globalización y Territorio, 2008, Santiago de Queretaro. X Seminario Internacional de la Red Iberoamericana de Investigadores en Globalización y Territorio. Santiago de Queretaro, Mexico: RII, p ARROYO, M. M. Fluxos e Redes. In: UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA. O Mapa da Indústria no Início do Século XXI: diferentes paradigmas para a leitura territorial e a dinâmica econômica no estado de São Paulo. (Projeto Temático). Grupo de Pesquisa Produção do Espaço e Redefinições Regionais (GAsPERR). Primeiro Relatório Parcial. Presidente Prudente, BEAUJEU-GARNIER, J. Geografia Urbana. São Paulo: Nacional, BERRY, B. J. Geography of Market Centers and Detail Distribution. Englewood Cliffs: Prentice Hall, CASTELLS, M. A questão urbana. Rio de Janeiro: Paz e Terra, CHOAY, F. O urbanismo. São Paulo: Perspectiva, CHRISTALLER, W. Central Places in Southern Germany. New Jersey, Englewood Cliffs: Prentice-Hall, CORREA, R. L. O espaço urbano. São Paulo: Ática, FISCHÉR, A. Développement Regional (NOTAS DE AULA). Presidente Prudente: FCT/UNESP, (NÃO PUBLICADO). GEORGE, P. Geografia Urbana. São Paulo: DIFEL, GOTTDIENER, M. A produção social do espaço urbano. São Paulo: Edusp, LEFEBVRE, H. La revolución urbana. Madrid: Alianza, LEFEBVRE, H. The production of space. Oxford: Blackwell, LENCIONI, S. Condições gerais de produção: um conceito a ser recuperado para a compreensão das desigualdades de desenvolvimento regional. In: Universidade Estadual Paulista. O Mapa da Indústria no Início do Século XXI: diferentes paradigmas para a leitura territorial e a dinâmica econômica no estado de São Paulo Primeiro Relatório Parcial (Projeto Temático/FAPESP). Grupo de Pesquisa Produção do Espaço e Redefinições Regionais (GAsPERR). Presidente Prudente.

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