SEGREGAÇÃO E MIXITÉ SOCIOESPACIAL: conceitos e realidades na França

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1 1 SEGREGAÇÃO E MIXITÉ SOCIOESPACIAL: conceitos e realidades na França Patrick Le Guirriec* Professor do Département de Sociologie, Université François Rabelais à Tours (França); professor visitante estrangeiro da UFRN e bolsista da Capes ( ). Resumo Segregação socioespacial designa diversas formas de agrupamento de populações semelhantes nos espaços urbanos. Na França, o conceito é principalmente usado para designar o agrupamento, mais ou menos forçado, das populações de origem estrangeira, que são consideradas, pela ideologia universalista, na qual se baseia a República, como uma ameaça. No intuito de espalhar essas comunidades e de possibilitar que elas sejam assimiladas, o poder público tenta misturá-las. Mas se a dispersão, a mixité, destrói o grupo primário, os seus laços de solidariedade, ela então não favorece o desenvolvimento das relações de sociabilidade no espaço de vizinhança nem a sua assimilação. Palavras-chave: Mixité; segregação espacial; políticas públicas. Abstract Socio-spatial segregation denotes several forms of groupings of homogenours populations in urban space. In France, the concept is mainly used to point at groupings of foreign origin populations, that are considered a danger by prevailing ideology. To disperse these communities and favour their assimilation, the government has tried to encourage their socio-spatial mixing (mixité). However, the dispersion of these populations destroys the primary groups and their links based on solidarity and, at the same time, it does not favour the development of social relations in the neighbourhood, nor their assimilation. Keywords: Mixité; socio-spatial segregation; government policy. 2 9

2 As principais tendências sociais que se observam na maior parte das cidades do mundo, e isso desde o nascimento da cidade industrial, traduzem-se por uma busca de vizinhos que nos sejam semelhantes, para a construção de áreas onde a população tenha as mesmas características socioeconômicas, religiosas, étnicas etc., até se constituírem espaços com fronteiras materiais e simbólicas cada vez mais fechadas. Essa segregação socioespacial ocorre em todas as categorias da população, mas não tem as mesmas características para todas, nem as mesmas causas. Este artigo pretende apontar duas coisas: primeiro, com o fechamento crescente das populações urbanas, a cidade não está mais construindo uma sociedade, mas se tornando uma justaposição de grupos que se desconhecem; segundo, na França, a mixité das populações, em que a outra face da moeda é a segregação, se tornou uma prioridade de todas as políticas urbanas, principalmente nos subúrbios, onde foram relegados os pobres e as pessoas de origem estrangeira. Mas a mixité, conceito bem francês, profundamente marcado pela interiorização dos valores universalistas da Revolução, fica muito difícil de se realizar e não resolve os problemas das minorias nos subúrbios; muito pelo contrário. Segregação: um conceito polissêmico Como se pode observar nas pesquisas que tratam da distribuição socioespacial das populações nas cidades, o conceito de segregação é usado para descrever situações muito diferentes e, às vezes, num sentido abusivo. Podem-se distinguir pelo menos cinco tipos de segregação: a institucionalizada, a natural, a sofrida, a voluntária e a voluntária e sofrida. Segregação institucional Segundo os dicionários, a segregação é uma ação: ação de separar, de afastar. Nesse primeiro sentido, a separação física dos grupos sociais é institucionalizada e aparece como efeito de uma vontade coletiva, de uma organização socioespacial que o grupo dominante impõe. Ela designa uma recusa de contatos e, principalmente, de mistura, conscientemente assumida pelo grupo que possui o poder de excluir um outro grupo do espaço que quer usar, como no regime de apartheid na África do Sul. A segregação, no sentido estrito, inclui a idéia de discriminação e se baseia no princípio de desigualdade racial, social, religiosa, ou outra. Nesse sentido estrito, como prática voluntária de relegação de uma parte da população para longe das áreas ocupadas pelas categorias mais favorecidas, a segregação está dissociada dos princípios da maioria dos países. 3 0 Segregação natural, em Chicago O conceito de segregação é apresentado pela Escola de Chicago como um fenômeno natural, resultante da competição. Segundo Robert Ezra Park (1925), citado por Yves Grafemeyer e Isaac Joseph (1984), a cidade funciona como um mecanismo de triagem e de filtragem que seleciona, no conjunto da população, os indivíduos mais capazes de morar numa área particular e num meio particular. Todo mundo quer morar nos lugares mais agradáveis, mas nem todo mundo consegue, porque os grupos não têm as mesmas características, nem a mesma influência política, nem o mesmo poder de escolher o seu lugar de residência.

3 Conseqüentemente, os indivíduos entram em competição para ocupar os melhores lugares, e as pessoas os grupos mais fortes conseguem atribuir-se os lugares privilegiados. Assim, as pessoas que têm características parecidas agrupam-se nos mesmos bairros, resultando disso a segregação socioespacial dos grupos sociais, que são distribuídos em lugares mais ou menos distintos: as áreas naturais. A descrição do fenômeno inspira-se no que acontece nas comunidades vegetais e animais. Para resumir, numa sociedade hierarquizada, há, obrigatoriamente, marcas visíveis de pertencimento a uma categoria social. Na cidade, essas marcas são principalmente os lugares de residência. Informar o endereço é dar indicações sobre o nível socioeconômico ou outras características. Conseqüentemente, há uma competição entre os grupos para ocupar os melhores lugares, e as pessoas que têm as mesmas características reúnem-se nos mesmos lugares. Resulta disso uma segregação socioespacial. Essa visão das relações entre os homens na cidade produziu duas figuras ideais típicas da cidade: a cidade concêntrica, de E. Burgess, e o gueto, de Wirth. No seu primeiro sentido, a palavra gueto designa um bairro judeu, um bairro que era reservado e imposto aos judeus. O primeiro gueto foi construído em Veneza, em 1516, e destruído em Mas os guetos judeus espalharam-se na Europa inteira. O mais conhecido foi o de Varsóvia. O gueto era um espaço murado, fechado de noite, onde um grupo da população era forçado a reunir-se por causa do seu pertencimento religioso. Em seguida, a palavra gueto foi usada na língua comum, e o seu sentido passou a ser muito variável. No sentido mais geral, gueto significa um espaço geográfico onde se acha uma concentração de pessoas que compartilham algumas características, como a origem étnica, a situação econômica, até mesmo as tendência sexuais. Mas esse uso traz sempre uma idéia negativa sobre a população, e muito indefinida, já que não há mais espaços urbanos completamente homogêneos. O gueto de Chicago não tem nada a ver como os guetos judeus da Europa, porque, em Chicago, ele é espontâneo, enquanto, na Europa, foi ordenado pelos poderes dos Estados. Os primeiros judeus do gueto de Chicago chegaram da Alemanha e, depois, do Leste da Europa. Quando Wirth fez a sua pesquisa, em 1928, a comunidade contava com habitantes. Nem todos os judeus moravam no bairro judeu, mas se encontrava lá uma reprodução das formas da organização social e dos modelos culturais dos países de origem do povo judeu: sinagogas, escolas religiosas, jornais, organizações de assistência etc. No entanto os laços comunitários eram frágeis e, à medida que encontravam seu lugar na sociedade norte-americana, muitos judeus deixavam o gueto e se distanciavam da identidade judia, principalmente os judeus alemães, os mais ricos. Na comunidade, encontramos uma diferenciação social, e o declínio do gueto como centro da vida comunitária. Essa diferenciação social tem por efeito uma dispersão geográfica dos membros da comunidade. No primeiro momento, os judeus deixaram o gueto para juntar-se, aos poucos, num outro bairro, até a identidade judia recapturá-los e encorajá-los a uma nova dispersão. Aí está uma ilustração do processo de assimilação que tentaram desenvolver os pesquisadores da Escola de Chicago. Veremos, mais tarde, que essa situação do gueto, como transição entre o país de origem e o país de chegada, é muito interessante para se entenderem as conseqüências dos ajuntamentos étnicos que existem hoje em dia nas cidades européias, principalmente na França. 3 1

4 2 Segregação sofrida, nos subúrbios Muitas vezes, o conceito de segregação é utilizado para designar as situações mais evidentes de ajuntamento territorial e é relacionado à pobreza e à etnicidade. Nesse caso, ilustrado pelos subúrbios franceses, a segregação é chamada de relegação. Fica difícil conhecer a origem dessa segregação, mas podemos destacar duas razões: a política pública na alocação de moradias sociais e os efeitos perversos das idéias provenientes do urbanismo moderno ( ). No início, depois da Segunda Guerra, esses bairros foram construídos numa perspectiva de igualdade, misturando, no mesmo espaço residencial, todas as camadas sociais. Mas a crise industrial, a descolonização, a fuga das classes médias para casas individuais nas pequenas cidades ao redor dos centros urbanos maiores, as medidas financeiras para ajudar o trabalhador a comprar uma casa individual provocaram a concentração de populações pobres e, muitas vezes, de origem estrangeira. Como disse Jacques Donzelot (2004, p.31), Os moradores dos subúrbios constituem uma sociedade particular marcada pela natureza sofrida do entre-nós, na medida em que a liberdade de escolher a vizinhança fica muito improvável. Eles estão nesse lugar porque não podem estar em outro e não escolhem os seus vizinhos. [ ] eles se sabem proibidos na França de ter apoio em relação às origens deles, à cultura e à religião, para constituírem uma sociedade que estaria à margem da Republica. A única característica que compartilham os moradores desses subúrbios é a pobreza. Nesses territórios, encontram-se populações de origens muito diferentes, que não podem constituir grupos de solidariedade, o que aumenta o sentimento de solidão e impede a integração na sociedade francesa. Relegada residencialmente, essa população também é relegada social, cultural e economicamente. De fato, os moradores desses bairros, muitas vezes afastados dos lugares de trabalho, não têm acesso aos meios que facilitam a integração na sociedade francesa. A frustração deles por causa dessa situação manifestou-se com violência durante o inverno de 2005, e o principal alvo dos jovens dos subúrbios era aquilo que simbolizava o que eles não tinham: os supermercados, lugares de consumo; as escolas, lugares de aprendizagem e esperança de promoção social; os veículos privados e públicos, meios de mobilidade; e, evidentemente, a polícia e os bombeiros, que simbolizam o Estado. Nessa situação, a segregação residencial aparece claramente como resultado de uma relegação que não concerne somente ao lugar de residência, mas a todas as formas de pertencimento à sociedade. Essa concentração da parte muito desfavorecida da população, relegada por causa das condições socioeconômicas, étnicas ou religiosas, dentro de um bairro bem delimitado, é um exemplo de segregação, mesmo se não institucionalizada. 3 2 Segregação voluntária Mas a segregação não pode ser estudada independentemente do conceito de agregação voluntária, ou seja, do que está acontecendo do outro lado da escada social. Pelo mecanismo da sua formação, os guetos de ricos ficam completamente diferentes dos bairros de exclusão. Nos primeiros, os habitantes decidiram livremente morar lá. Esse agrupamento significa para os moradores a vontade de preservar o entre-nós. Aqui, a segregação não é vivida como um processo negativo de exclusão, mas, antes de tudo, como uma agregação de semelhantes que preserva a qualidade da vizinhança, a homogeneidade social e um espaço de vida privilegiado.

5 Assim, Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot (1989) estudaram as escolhas residenciais das famílias de poder aquisitivo muito alto, das famílias da grande burguesia e da aristocracia parisiense. A população que dispõe de riqueza da sua fortuna pode morar onde quiser. Para não levar em conta apenas o fator financeiro, os autores realizaram o seu estudo a partir dos endereços dos clubes mais fechados da capital, como o Jockey Club, o Automobile Club de France, ou o Pólo de Paris, que só aceitam como membros os aristocratas. Observaram que a maioria dos membros desses clubes morava num espaço muito restrito no oeste de Paris. Essas escolhas residenciais não dependem somente de fatores econômicos, mas também de fatores socioculturais. Por um lado, trata-se de dividir o espaço residencial com pessoas que compartilham os mesmos valores, os mesmos gostos, os mesmos hábitos de vida. Por outro lado, é importante oferecer aos filhos uma vizinhança em que podem encontrar pessoas do mesmo nível econômico e sociocultural, o que facilita os casamentos no mesmo grupo e a reprodução da posição social. Como destaca Anne Raulin (2001, p.93-94), o endereço é a condição necessária à definição do pertencimento social, mas não é uma condição suficiente, e os membros dessa burguesia compartilham os diferentes tipos de capital (econômico, social, cultural e simbólico) definidos por Bourdieu. O agrupamento residencial favorece a reprodução dessas diferentes formas de capital. Segregação voluntária e sofrida A França pós-guerra precisava de mão-de-obra, principalmente nas indústrias e na construção civil. Muitas empresas foram buscá-la nas aldeias das antigas colônias. Assim, milhares de imigrantes estrangeiros chegaram à França, geralmente homens solteiros ou homens que deixaram a família na aldeia. Esses homens, mal pagos, usavam o salário que ganhavam na França para sustentar a família no país de origem. Eles se instalavam nos prédios mais baratos e mais deteriorados das cidades, em geral nos centros antigos, abandonados pelos franceses que tinham se deslocado para os apartamentos novos dos subúrbios, nas décadas de 1950 e Entre os imigrantes, temos de distinguir entre os homens sozinhos que continuam a sustentar suas famílias no país de origem, para onde voltam várias vezes por ano, e que aceitam um apartamento medíocre e sem conforto, dos que trouxeram a família para morar na França. Esses últimos, muito influenciados pelos filhos, cortaram, progressivamente, os laços com o país de origem e adotaram comportamentos parecidos com os das pessoas da mesma camada social, na França, independentemente da origem étnica. Os primeiros, por causa da sua situação financeira, não tiveram a possibilidade de sair do bairro, mas também não quiseram, porque acharam lá a rede de ajuda mútua e de troca de numerosos serviços de que precisam para sobreviver, até (re)-constituírem uma comunidade com esses laços de solidariedade: os mais velhos ajudando os recém-chegados a encontrarem apartamento, trabalho, a enfrentarem os problemas administrativos; em suma, a inserirem-se na sociedade francesa sem cortar os laços com a cultura de origem. Pelo contrário, a opinião dos segundos, que pertencem às camadas médias, traduz-se seja pela dispersão residencial, o que não significa necessariamente uma ruptura dos laços com a comunidade de origem, seja pelo afastamento da cultura de origem. Por conseqüência, a integração dessa população à sociedade francesa é estritamente ligada às relações que os indivíduos continuam a ter com a cultura e o país de origem e que se traduzem seja por uma posição de fechamento no espaço comunitário, seja pela dispersão residencial e a adoção dos valores 3 3

6 culturais franceses. Essa população segregada foi forçada a concentrar-se, mas encontrou nessa concentração os benefícios do pertencimento a uma comunidade com os seus grupos primários. Nesses bairros se pode escutar isso: O que é melhor: ter um apartamento novo longe dos seus ou ficar aqui perto dos seus?. Por conseqüência, nas sociedades igualitárias, onde a discriminação não é institucionalizada, o uso do conceito de segregação fica difícil e, como sugere Yves Grafemeyer, temos de reservar essa palavra para designar as situações em que alguns grupos da população conhecem uma concentração espacial importante e são mais ou menos forçados a essa concentração. A mistura O conceito de mixité, palavra que não é traduzível em qualquer outra língua, é um conceito francês proveniente da ideologia universalista da revolução francesa. A França não foi o único país que tentou misturar as populações no sentido de homogeneizar as culturas das minorias, mas foi o único que conseguiu isso. Essa mistura foi principalmente usada na antiga URSS, para espalhar as comunidades étnicas, mas os movimentos separatistas que se seguiram à queda do muro mostraram que as minorias nunca foram realmente integradas. Por outro lado, essa necessidade de misturar aparece como uma preocupação tipicamente francesa, que não se encontra nos outros países europeus. A mistura nunca foi definida. Trata-se da justaposição de populações diferentes num prédio, sem contato nenhum? Trata-se de interpenetração de culturas diferentes? Da co-presença de diferentes populações nos shopping-centers? Podese perguntar também quais populações misturar. Já que os ricos podem morar entre eles próprios, a mixité consistiria em misturar os pobres entre eles? É, sem dúvida, porque esse conceito não tem definição nenhuma que todo mundo considera a mixité como um objetivo importante na organização socioespacial das populações no espaço urbano. 3 4 Mixité: um objetivo bem compartilhado Na França, o consenso a respeito da mistura é compartilhado tanto pelos atores políticos como pela opinião pública, ainda que os motivos não sejam os mesmos. Todo mundo concorda em que a mistura é um bem incontestável, e todos são hostis às formas visíveis demais de segregação. Ninguém aprova as formas de agregação dos ricos, mas elas são toleradas, enquanto a segregação dos pobres, e sobretudo a dos estrangeiros, é percebida como uma ameaça para os valores da República. Pela sua história, a França é um país muito centralizado, no qual todos os valores e ideologias são decididos em Paris, onde se concentram as ferramentas 3 do poder. Para difundir essas ideologias e homogeneizar o povo francês, o poder usou dois meios: as escolas públicas, gratuitas e obrigatórias para todos, e o serviço militar, que favorecia o contato entre as populações tanto das diferentes províncias como das colônias. Através desses meios, a França conseguiu assimilar as minorias do país e também os primeiros imigrantes que chegaram dos outros países europeus, no final do século XIX e início do século XX (da Polônia, da Bélgica, da Itália, da Espanha...). Esses dois meios eram favorecidos pela Igreja católica, que reunia todas as populações. Porém, depois da descolonização, chegaram populações muçulmanas, estranhas à Igreja e à cultura européia, e, com a crise econômica da década de

7 1970, elas foram as primeiras vítimas do mercado do trabalho e, aos poucos, foram afastadas da sociedade. A escola perdeu sua função de promoção social, porque os diplomas não eram mais suficientes para garantir emprego. O serviço militar foi suprimido durante os anos 1990, e a França perdeu os seus meios de assimilação, sem deixar a ideologia. Portanto, a assimilação dessas populações se tornou difícil, e o povo francês ficou menos homogêneo. Daí em diante, o Estado quis assimilá-los por meio da mistura territorial, da dispersão espacial das comunidades étnicas. Era importante impedir os estrangeiros de ficarem entre eles próprios, para não reproduzirem a sua cultura. É isso também o que quer a opinião pública, que vê na mistura um meio de esconder os pobres e os estrangeiros, não para salvar a República, mas para impedir que a presença deles seja visível demais, tornando-se um obstáculo à valorização material e simbólica do patrimônio imobiliário. Mas, se a população é favorável à assimilação dos estrangeiros, dificilmente ela aceita o processo e a vizinhança deles. Por conseqüência, a vontade de misturar as populações não tem motivos sociais ou filantrópicos o bem-estar dos estrangeiros, por exemplo, mas financeiros e, principalmente, ideológicos. Nesse último caso, trata-se de preservar a República, estabelecida sobre os valores universais da Revolução de Assim, a França não pode aceitar a presença de culturas diferentes no seu 4 território, nem qualquer forma de multiculturalismo, ou outras linguagens, no país. Mixité e relações sociais Devemos também perguntar-nos acerca dos efeitos da mistura sobre essas populações pobres e de origem estrangeira, os quais se traduzem na impossibilidade de constituírem grupos primários, não favorecendo o desenvolvimento das relações de sociabilidade. Todas as pesquisas mostram que um dos fatores essenciais no processo de assimilação no país de recepção é o apoio fornecido pelo grupo primário. Pelo alojamento, pelo emprego, pelas formalidades administrativas, os membros da família servem de apoio para os recém-chegados. É nos grupos primários que os vínculos de solidariedade são mais ativos. É exatamente o que se encontra nas comunidades étnicas dos antigos bairros das cidades, como no gueto de Chicago. No momento em que a situação destas está estabelecida, quando têm trabalho e dinheiro suficiente, eles saem do bairro e se dispersam na cidade. Portanto, a comunidade não é um obstáculo para a assimilação, mas uma etapa transitória entre o país de origem e o país de acolhida. A situação dos bairros antigos é muito diferente da dos subúrbios, onde foram agrupadas, rejeitadas, populações pobres com origens diferentes e que não podem estabelecer vínculos de solidariedade. A única coisa que as pessoas compartilham é a pobreza. Mas também se pode contestar a utilidade da mistura quando se sabe que a intensidade da vida social é função da homogeneidade da população. Faz muito tempo que a sociologia mostrou que a mistura, quando é imposta a categorias muito diferentes quanto à forma de viver e às referências culturais, não produz relações sociais, mas, pelo contrário, distanciamento (Peter Wilmott, 1996; Pierre-Henri Chombart de Lauwe, 1959; Jean Claude Chamboredon, Madeleine Lemaire, 1970). Em Londres, Peter Wilmott (1996) comprovou que, nas ruas onde a população é homogênea, existem mais relações sociais que nas ruas 3 5

8 heterogêneas. Os pobres preferem morar entre pobres, e não aceitam ser comparados com habitantes mais ricos, porque isso evidencia os sentimentos de pobreza daqueles. Quanto às pessoas mais ricas, elas dizem que não gostam do comportamento dos trabalhadores e que têm medo deles. Existem os mesmos fenômenos de agrupamento e de diferenciamento entre os grupos étnicos. Tal como outros pesquisadores, Philippe Genestier (1991, p.54) entende que, Na ordem social, a comunidade realizada é o gueto (no sentido de Louis Wirth), já que ele constitui uma formação social caracterizada pela intensidade da sua vida comunitária e pela sua organização interna. O gueto seria a forma residencial em que a comunidade fica completamente realizada. Com certeza, ao observarem-se os territórios onde estão os agrupamentos étnicos ou religiosos, percebem-se formas de sociabilidade que não se encontram em outros lugares. Mas essa observação requer duas críticas. De um lado, os guetos constituem-se nas condições particulares de povoamento e de relações entre o grupo e a sociedade global (uma população homogênea afastada da sociedade global, como os judeus de Chicago ou os agrupamentos étnicos nas cidades, mas não se pode imaginar que todos os grupos da população constituam guetos). As populações que se fecham atrás dos muros dos condomínios horizontais, por exemplo, não desenvolvem nenhuma forma de sociabilidade particularmente estreita. Por outro lado, não se pode imaginar uma sociedade urbana constituída só de uma justaposição de guetos. A segregação e a agregação voluntária não constituem a forma ideal de organização socioespacial. Porém fica difícil conhecer as conseqüências da mistura na construção das relações sociais, porque elas são ligadas a outros fatores, como a categoria e a trajetória social, as características dos grupos e do espaço urbano. No entanto, ela provoca práticas de afastamento e de fechamento na casa. Mas, por outro lado, não se pode afirmar que a mistura constitui um fator desfavorável à construção das relações sociais. Com certeza, ela alimenta a relação com a alteridade, exacerba a consciência de si e da diferença; mas podemos nos perguntar se a presença do Outro não é indispensável à afirmação de si mesmo e à existência da sociedade. 3 6 NOTAS * Agradeço a Márcio Moraes Valença, da UFRN, pelas leituras, correções e comentários deste artigo. 1 Neste artigo, decidimos não traduzir a palavra mixité, porque, no seu sentido francês, ela não tem nenhum equivalente em português. 2 Usamos essa palavra como sinônima de periferia no seu sentido brasileiro. Como escreveu Teresa Caldeira (1984, p.7), Além de indicar distância, ela significa o que é precário, carente, desprivilegiado em termos de serviços públicos e infra-estrutura. 3 Foi só na década 1980 que a descentralização em benefício das regiões foi estabelecida. 4 A França foi o único país da União Européia que se recusou a assinar a carta das línguas regionais, que dá a estas um estatuto oficial.

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