A alfabetização e a linguagem midiática

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1 A alfabetização e a linguagem midiática Camila Freitas de Santana Resumo: Este projeto de pesquisa visa compreender a comunicação social e informacional sob a alfabetização e letramento dos alunos virtuais e cibernéticos. A linguagem virtual tem desempenhado papel significativo na forma de comunicação e informação, logo esta midiatiza o processo de alfabetização e letramento. A globalização influencia positivamente ou negativamente na alfabetização e letramento? Ao longo deste trabalho esta reflexão será retomada na busca pela identificação da readaptação das teorias e metodologias de ensino para essa configuração social. O objetivo deste trabalho é pensar a sociedade atual imersa no contexto midiático, como se dá a escola cibernética, compreendera aquisição do sistema alfabético e o letramento sob interferência da pós-modernidade e que as reflexões levantadas insurjam em novas perspectivas sob a educação cibernética. A tecnologia e a informação dominam a sociedade e suas instâncias sociais, entre elas a escola. Parafraseando (LIPMAN, 1995) se não há linguagem, logo não há pensamento, a comunicação midiática expressa, ainda no poderio televiso, possui uma ideologia, valores e objetivos específicos que definem comportamentos e as relações humanas. Assim, as salas de aula têm o desafio de se transformarem em comunidades de investigação que ensinem a analisar e se apropriar criticamente dos meios de comunicação aos discentes. Esta reflexão é objetivo da educomunicação que baseada no Construtivismo centraliza o processo educativo no educando, compreendido como agente seu aprendizado. Ainda que incipiente a pesquisa não pretende estagnar a temática nem findar-se em respostas fechadas e estagnadas, mas que esta se faça como objeto de reflexão e formulação para demais inquietações. Palavras Chaves: Educação; Alfabetização; Mídia; Linguagem. Compreendendo alfabetização como o processo de aquisição da leitura e escrita da língua materna e de seu respectivo sistema ou código de escrita, sabendo-se que a capacidade de interlocução nos diversos contextos e saberes intrínsecos que não pressupõe necessariamente a codificação e decodificação também se fazem necessários, este configura-se no letramento do sujeito. A partir da prerrogativa que a alfabetização

2 se transformou com o advento tecnológico e a modernidade, é interessante refletir sobre metodologias e técnicas inovadoras em alfabetização, mas debruçar-se sobre a construção e desenvolvimento da alfabetização escolar. Anteriormente sobre o véu da Igreja Católica Apostólica Romana, o controle do conhecimento sustentou o poderio social e político do grupo durante a Idade Média. Após XV, o crescente avanço do saber científico e a mudança de paradigmas impostos por este, a cultura letrada e a posse do conhecimento ainda se fazem como instrumento semi-aberto principalmente as minorias sociais, e se configura como meio de ascensão e por outro lado, utiliza-se dessa função para mistificar, controlar e perfazer linguagens de domínio privado, apresentando-se excludente e seletivo em uma sociedade desigual e estratificada. No Brasil, a alfabetização escolar se consolida a partir da Primeira República, porém a educação ainda perpassa os ideais políticos vigentes, com uma instrução técnica e sistemática, a educação era vista como instrumento de controle social ao passo que também desenvolvia a nação. O acesso à leitura e à escrita no Brasil foi construído através dos planos e programas que dependiam do interesse do Estado para instituírem políticas de alfabetização da população. Tendo em vista os movimentos paradigmáticos que o processo enfrenta, é complexa a sucessão de rupturas e resistências quanto as metodologias de ensino durante o percurso histórico. Sabe-se que atualmente a alfabetização assume um papel fundamental de instrução básica escolar e é parâmetro para os índices da educação do país. Sem entrar no mérito da gama dos métodos, para os defensores da autonomia didática, a alfabetização ocorre na dimensão micro dentro de sala de aula, na relação professor-aluno e o objeto de conhecimento, os construtivistas propõe retirar a carga metódica da alfabetização, refletindo e se opondo as receitas didático-pedagógicas (MORTATTI, 2010). Amparados na concepção construtivista a Educomunicação propõe a leitura crítica e reflexiva dos meios de comunicação e compreender os valores e ideologias divulgadas por setores específicos de interesses bem delineados. O meio de comunicação que assume o maior poder sobre as massas e onde os fatos se tornam públicos e existentes é a televisão. A televisão é meio interessante pelo impacto emocional do elo entre som e imagem que demarcam um contexto, e cabe ao

3 espectador, por vezes engolir essas informações, a educomunicação vem para ensinar este a digerir essa informação e compreender quem difunde tal informação, sua intenção e conseqüências. Ao par tradicional da imprensa escrita, a mídia eletrônica tem assumido seu papel nas últimas décadas, portanto para além da alfabetização lingüística, faz-se necessária a alfabetização midiática. Esta auxilia o acesso, a análise e criação de mensagens midiáticas. Assim, a mistificação tecnológica dada pelos professores, os currículos rígidos devem ser rechaçados e superados pelos debates e ambientes problematizadores dos meios comunicativos. A educomunicação parte de cinco indagações: quem cria a mensagem, por que é transmitidas, quais as técnicas envolvidas, como outros sujeitos interpretaram essa mesma mensagem, quais valores, ideologias e concepções estão imersas na mensagem. Os principais conceitos da alfabetização midiática é que a mídia sempre constrói uma realidade ao difundir uma mensagem, refletir que esta realidade também é apenas uma dimensão do real se faz iminente, a construção da mensagem e seu recorte implica diretamente em um modelo de formação pessoal, nesse recorte do real há interesses comerciais, ideológicos e implicações sociais e políticas. Adentrando a pesquisa realizada, esta foi construída durante a graduação da pesquisadora sob no curso de Pedagogia na Universidade de Brasília, na disciplina de Projeto 3, componente curricular do curso como atividade de inserção de pesquisa na academia. A metodologia de trabalho foi um estudo de caso sob análise qualitativa dos dados em que o sujeito registra e oralmente relata dois contos infantis. O estudo de caso foi compreendido como método que mais compreenderia o aprofundamento da temática específica, sob uma abordagem eminentemente empírica e o olhar categórico sobre as subjetividades do sujeito na busca por informações e dados reais de inquietação do pesquisador e pujantes do sujeito colaborador. Para traçar o perfil do sujeito colaborador expresso relatos e apontamentos importantes da criança, quando perguntada sobre o que menos gosta de fazer opta por não ler e não ir ao teatro. Relata que escreve muito na escola e as atividades de escrita fora do contexto escolar só são realizadas para escrever uma carta para os pais em datas comemorativas e que não gosta da disciplina Português. A coleta escrita ocorreu sob uma história de interesse da criança, a mesma havia sido avisada de que poderia escrever uma história, um fato que lhe ocorreu, criar uma

4 história nova, a criança poderia transitar entre vários gêneros textuais, porém optou pela escolha de dois contos. A seguir a escrita da segunda história: Era uma vez uma princesa chamada mirela que se apaixonou por um prinscipe Chamado Eric ai. eles foram num passeio no campo ai desse passeio eles derão o primeiro beijo desse beijo abrio uma flor branca, mas eles não queriam que seu pai o rei soubesse mas derrepente quando eles deram seu outro beijo o rei seu pai vio e ficou muito bravo mas so foi sua filha conversar e Explica pra ele ai ele entendeu e viveram felizes para sempre. Quanto às pontuações ortográficas e da aquisição do sistema alfabético a aluna coloca o nome próprio Mirela iniciando com letras minúsculas. A escrita incorreta da palavra príncipe redigida prinscipe e sem acento agudo. A criança repete a conjunção ai por três vezes aspecto que retrata que a criança está organizando o pensamento e procura conectivos para que a escrita adquira fluidez e coerência no texto ainda apresenta era uma vez, mas, de repente,e, quando. O verbo dar está conjugado no futuro do presente derão, quando seria deram. Utilizou ainda abrio, vio colocando a vogal o no final dos verbos conjugados no passado.o conectivo de repente foi escrito derrepente e só escrita sem acento agudo. A criança escreveu as palavras Chamado e Explica com letras maiúsculas. Analisando o conto infantil, partindo da história medieval sob um governo aristocrático reis, príncipes, princesas. Na narrativa a criança descreve um amor proibido que como este problema pode ser resolvido através do diálogo. O rei o homem, o pai como figura marcante, com certo machismo impregnado que prega que os homens são os donos da casa e controlam a família. Os contos infantis caracterizam-se por iniciar com era uma vez e terminar com foram felizes para sempre a criança demonstra positividade e otimismo ao final da história. No relato da segunda história a criança pensou um pouco tentando escolher qual história contar, ela pediu ajuda para a mãe que lhe sugeriu Cinderela, aquela que você estava assistindo o filme ontem, chapeuzinho vermelho, a menina ouve e continua pensando como escrever, antes de começar me pergunta se pode colocar era uma vez de novo, eu respondo que sim, e ainda se poderia alterar um pouco a história original concordei e disse que era livre não havia certo ou errado ela poderia contar a história como desejasse. A seguir a redação da segunda história: Era uma vez uma menig menina chamada chapeozinho vermelho. E sua vó

5 estava muito doente e ela queria levar um remedio para sua vó quando ela estava no caminho da casa de sua vó apareceu um lobo mas ele era do bem e ajudou chapeuzinho a ir a casa de sua avó e chegando lá ele deu o remedio para a vó da chapeozinho e todos ficaram bem. Quanto a análise ortográfica da história a grafia de chapeuzinho foi redigida chapeozinho por duas vezes e uma vez corretamente com u, assim como a grafia de avó, pontuou vó por três vezes e avó uma vez corretamente. A palavra remédio foi escrita sem acento agudo e a falta da crase em a ir a casa. Analisando o conto a criança utiliza de sua imaginação para criar e modificar um clássico que é a história do chapeuzinho vermelho, propondo um final menos trágico, o lobo mau na verdade é bom e ajuda as pessoas. Um otimismo que pode demonstrar a necessidade de paz, bondade e solidariedade que a criança visualiza na sociedade atual, (CHAIGAR, ) aponta que as crianças compreendem e assimilam as mazelas sociais, assim é preciso uma escuta sensível as suas inquietações para superação da violência, degradação ambiental e construir relações humanas pautadas no amor e afetividade. O que chamou mais atenção nos dois relatos escritos da criança foi a troca de u por o, colocar letra maiúscula em palavras que não se iniciam e com letra minúscula nomes próprios, a falta de acentuação nas palavras, e a tentativa de diversificar as conjunções e conectivos. Erros que são comuns e fazem parte da aquisição dos sistema alfabético na formação da linguagem da criança. Esta está assimilando que as letras não correspondem a um único som (não possuem correspondência biunívoca). A criança já compreende a separação de silábica e compreende que no final de uma oração tem um ponto final. Os dois textos encontram verossimilhanças à linguagem oral da criança que também faz parte da pesquisa realizada. Transcrição da Linguagem Oral 1º História: - Era uma vez uma princesa chamada Mirela que ela se apaixonou por um príncipe chamado Eric ai. Eles foram ao passeio ao campo daí desse passeio eles deram o primeiro beijo, mas ela não queria que seu pai, o rei, visse, ai outra vez que eles foram ao campo, seu pai viu e ficou muito bravo com ela, mas só foi ela conversar com ele e explicar e todos viveram felizes para sempre.

6 É interessante ressaltar que a criança escreveu a história e posteriormente transcreveu, ao ser informada para que contasse a história ela começou a ler a história novamente para relembrar a história, a pesquisadora lhe orienta, e diz que não era preciso contar completamente igual ao que a discente já havia escrito, ela concorda e eu se inclina a para a proximidade com o gravador e iniciou a narração. Quanto à gravação ela se mostrou confortável e já esperava o gravador, porém fez uma leitura rápida do que já tinha escrito e começou a narrar suas histórias. 2º História: - Era uma vez uma menina chamada chapeuzinho vermelho que ela tinha uma vó que estava muito doente, e queria levar um remédio pra ela, mas quando ela estava no caminho ela encontrou um lobo, mas o lobo era do bem, que ajudou ela a ir até a casa de sua avó, chegando lá ele deu o remédio pra vó dela e todos ficaram bem. Os contos infantis são voltados para contextos históricos, sociais e culturais sem uma conectividade com seu real contexto, os contos infantis são impregnados de linguagens simbólicas que não devem passar despercebidas, o universo infantil influenciado por estas histórias, ao mesmo tempo em que estimulam a imaginação traz a amálgama da aculturação apontada por (BOSI, 1992), a apropriação indiretamente impositiva de uma cultura sobre as demais. A pesquisa influi que a utilização dos contos infantis apesar de ser um gênero textual interessante surge em um contexto distante do vivenciado pela criança. E que interessante seria partindo destes contos comparar e debater política e Estado que inserem a aristocracia, o papel do homem e da mulher na sociedade, o controle social o não vivenciado por todas as crianças, o que se configura como boas ações e más ações e todas as essas temáticas dentro da comunicação televisiva, em revistas, jornais, no rádio, pesquisas de opinião pública e a identificação de como essas temáticas são encaradas em cada um destes contextos. A alfabetização midiática não só na alfabetização é uma maneira de ensinar que deve perpassar todas as disciplinas escolares, não é mais uma disciplina é uma concepção educativa. Essas atividades propõem habilidades comunicativas, investigativas, de raciocínio lógico e a formação e reformulação de conceitos presentes em todas as áreas. Assim alfabetizar-se atualmente implica não só estar a par e compreender os aspectos lingüísticos, mas olhar para a realidade nos seus diversos recortes e analisá-los é uma ação urgente na formação discente, assim a alfabetização

7 midiática insere uma concepção de ensino reflexiva e investigativa, em que o sujeito é construtor de seu aprendizado nos diversos ambientes educativos. Referências BRAGA, José Luiz. Meios de Comunicação e Linguagens: A questão educacional e ainteratividade. In: Revista Linhas Críticas. Brasília. v. 5, n. 9, p , jul./dez., BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. B823p. Parâmetros curriculares nacionais: língua portuguesa / Secretaria de Educação Fundamental. Brasília. p BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. Companhia das Letras, ª ed., com posfácio, 2001; CultureBrésilienne. Une Dialectique de lacolonisation, Paris, L'Harmattan, 2000; Cultura Brasileña. Una dilectictica de lacolonizacion, Salamanca, Ed. Universidad de Salamanca, CHAIGAR, Vânia. A cidade, as crianças e os animais. Universidade do Vale do Rio dos Sino. ano: EDUCAÇÃO, Ministério da; O Pacto Nacional pela Educação na Idade Certa. GLOCAL. Fundamentos conceituais da alfabetização midiática. KELLNER, D.; SHARE, J. Educação para a leitura crítica da mídia, democracia radical e a reconstrução da educação. Educação & Sociedade, v. 29, n. 104, p , out KLEIMAN, Angela. Os significados do letramento. Campinas: Mercado de Letras, MORTATTI, Maria do Rosário Longo. Alfabetização no Brasil: conjecturas sobre as relações entre políticas públicas e seus sujeitos privados. Universidade Estadual Paulista. Revista Brasileira de Educação v. 15. n. 44. ano: SOARES, Ismar de Oliveira. Educomunicação: um campo de mediações. Comunicação & Educação. São Paulo. ano : WILSON, Carolyn. Alfabetização midiática e informacional: currículo para formação de professores / Carolyn Wilson, AltonGrizzle, Ramon Tuazon, KwameAkyempong e Chi-Kim Cheung. Brasília: UNESCO, UFTM, p Adendo

8 A partir da leitura de um trabalho que pressupõe a alfabetização midiática e contextualizada, o registro da escrita e a visualização da forma e do conteúdo das histórias foi selecionado como um aspecto enriquecedor ao trabalho. 1º História

9 2º História

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