SABER COM SABEDORIA: DO EQUILÍIBRIO DO CORPO EM EPICURO

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1 SABER COM SABEDORIA: DO EQUILÍIBRIO DO CORPO EM EPICURO Flaviano Oliveira Fonsêca Doutor em Filosofia - UFPE Resumo: Este artigo trata essencialmente de filosofia prática. Epicuro argumenta que nossas escolhas passam pelos sentimentos de prazer e dor, e que a alma exerce plenamente a sua função natural, no homem, quando favorece o domínio de si. Isso é possível por duas vias: a da justiça e a da amizade. E a filosofia é a sabedoria do agir a partir de si mesmo, como um exercício para a vida feliz. Palavras-chave: filosofia prática, Epicuro, saber, sabedoria, vida feliz. Abstract: This article deals essentially with practical philosophy. Epicurus argues that our choices pass through feelings of pleasure and pain, and the soul exerts its natural function fully, in the man, when it favors the domain of itself. This is possible by two ways: justice and the friendship. And the philosophy is the wisdom of acting from itself exactly, as an exercise for the happy life. Keywords: practical philosophy, Epicuro, know, wisdom, happy life. 17

2 PREÂMBULO: O gozo mais alto e mais sólido resulta da condição de equilíbrio (boa disposição) da carne, e a esperança fundada de conservá-la, para quem saiba considerá-la, proporciona a mais alta e segura alegria. Epicuro 1. A filosofia pré-moderna tem muito a nos ensinar não apenas em momentos de crise de paradigmas ou mesmo de civilização como estamos vivendo, mas principalmente porque faz reacender as potencialidades do nosso ser e do nosso conhecer. Para nos ajudar a refletir sobre um modelo de filosofia prática, penso que seja extremamente válido e até salutar acompanhar as preciosidades do modo de pensar do mestre do jardim. Creio que esta reflexão sobre o equilíbrio do corpo como caminho capaz de induzir uma boa disposição para a alma e consequentemente para a vida como um todo é algo insubstituível e irrenunciável na urgência das contradições contemporâneas. ALGUNS DADOS SOBRE A VIDA DE EPICURO: Epicuro 2 ( a.c.) nasceu na Ilha de Samos, península itálica, e tornou-se cidadão ateniense por força da emigração do seu pai, Neócles, em 352 a.c. Diógenes Laércio foi o mais importante biógrafo de Epicuro. Conforme informação no livro X da obra de Láercio Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, há três cartas e cerca de quarenta máximas do Mestre do Jardim. Laércio conta ainda que Epicuro teria escrito uma obra com cerca de 300 volumes, entre os quais se encontraria o Perì Phýseos (Sobre a natureza) com 37 tomos 3. Epicuro, praticante de uma vida inteiramente frugal, evitou participar da vida política, e jamais incentivou seus seguidores a outra prática senão a amizade sincera. Manteve uma postura ética exemplar. Rodeado de amigos fez emergir da afinidade e da amizade o princípio ético fundamental para a sua vida, bem como para o seu tear filosófico. IMPORTÂNCIA DO CORPO PARA O FILOSOFAR EM EPICURO: Como entender o corpo como questão central para a filosofia de Epicuro? Sem dúvida, o corpo humano (sarx 4 ) ocupa um lugar importante na filosofia 18 1 Cf. Us., 68, p.186 apud Silva, 2003, p Estas datas estão conforme a biografia de Epicuro que se encontra em Diógenes Laércio, no livro X. apud Vara, J.(Tradutor). Epicuro: Obras completas. Madrid, Catedra Letras Universales,S. A., Cf. SILVA, Markus. Epicuro: sabedoria e jardim. Rio de Janeiro: Relume Dumará, A palavra grega Sarx significa carne humana e animal de modo geral. Cf. Dictionnaire Grec-François,Paris, Hachette, 1950,p.1734, e Pereira, I. Dicionário Greco-Português, Porto, Apostolado da Imprensa, 1957, p.513.

3 epicurista. Ainda que os textos do autor não ofereçam as condições ideais para uma análise pontuada com riqueza de detalhes, mesmo assim é possível encontrar argumentos nos quais o corpo é pensado como um receptáculo das influências sensíveis que o meio exerce sobre o indivíduo, sendo, por isso, o ponto de partida da percepção humana, já que a partir dele tem lugar a aisthesis, que é o conjunto das sensações e de onde são possíveis a prolépsis, isto é, a impressão sensível, que é operada pelo pensamento (dianóia). Para Epicuro os critérios de escolha passam pelas afecções de prazer e dor, e estes são, na verdade, a forma do corpo se comunicar com o mundo. Neste contexto, o corpo é uma forma de conhecimento. A existência da alma é notada pelo autor em questão como parte desse corpo, todavia ela diferenciase do corpo por sua função racional e pela capacidade imaginativa. No entanto, carne e alma formam uma unidade, uma vez que as afecções só se expressam a partir do composto e da interação carne/alma. E assim, a alma possui a propriedade de graduar o poder que as impressões sensíveis têm de influenciála, isto quando a alma exerce plenamente a sua função natural no homem, que é o de favorecer o domínio de si (autarquéia) 5. Assim sendo, é sobre isso que se dá o equilíbrio do corpo, porque as necessidades da carne são registradas e operadas pela alma, bem como os desejo e a vontade, posto que a alma, no exercício da reflexão, constrói um saber sobre o corpo que enseja a sua boa disposição (eustatheía). Esse saber é conhecimento de si, da medida de realização da vida, que aqui pode ser entendida como repleção, ou seja, nutrição e saúde (hygieia) 6. De fato, a conexão carne/alma é algo fortemente estruturante da filosofia epicurista: esse binômio é o ponto de partida e o ponto de chegada para compreender o homem em suas circunstâncias. Todavia, na physiología o corpo é pensado sob a forma de agregado (athroísma), isto é, como uma entidade física, ainda que num segundo momento o corpo seja compreendido como uma estrutura orgânica viva e que vem a ser também phýsis, pois a natureza própria de cada corpo encontra na relação que estabelece com as coisas do mundo-natureza uma medida de se que o mantém, acrescentandolhe o que é vital ou subtraindo-lhe substâncias que podem enfraquecê-lo 7, pelo que se torna importante prover a viabilização das condições básicas para torná-lo equilibrado. A partir disso podemos questionar: o corpo teria um métron (uma medida) a obedecer? Como Epicuro trabalha essa relação na sua filosofia tendo em vista a busca por equilíbrio? A resposta a essa questão implica entender a questão dos desejos da carne. A classificação de Epicuro apresenta três categorias que dispõem a respeito da aquisição do bem-estar e da manuten- 5 Cf. SILVA, 2003, p Idem, ibidem. 7 Idem, ibidem. 19

4 ção de uma boa disposição para o corpo, ebem como o que causa o seu desequilíbrio. A classificação dos desejos apresenta o seguinte quadro: existem os desejos naturais e necessários, os naturais e desnecessários e os não naturais e não necessários. Simplificadamente tem-se o seguinte: os desejos naturais e necessários são aqueles que impelem o corpo na direção das coisas que bastam à sua satisfação, por exemplo, o corpo necessita basicamente de alimentos, de água e de proteger-se do frio e intempéries similares; os desejos naturais e desnecessários são aqueles vinculados aos excessos ou carência de algo; e os desejos não naturais e desnecessários dizem respeito à externalidade, tais como a ereção de estátuas ou imagens em honra de si próprio 8. Para Epicuro, viver de acordo com a natureza significa dar vazão aos desejos naturais e necessários, entendendo que a medida de satisfação desses desejos está na relação estabelecida entre o corpo e os fenômenos de repleção, satisfação e proteção oferecidos pelo mundo natural. A natureza nos oferece mais do que o necessário, daí surge a importância de trabalhar o domínio de si, ou seja, de buscar um métron capaz de auxiliar a aquisição do equilíbrio. Para a realização dos desejos naturais e necessários, importa circunscrever o agir humano no âmbito da phrónesis (sabedoria) e da autárkeia (o senhorio de si mesmo). Assim, a atitude de uma pessoa marcada pela phrónesis implica numa vontade esclarecida 9. Toda essa posição pode ser retomada pela seguinte assertiva de Diógenes Laércio: Tudo o que é natural pode ser facilmente satisfeito, ao passo que tudo o que é vão é difícil de satisfazer (Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, livro X). Tendo presente de que tudo o que precisamos está na natureza, Epicuro parece indicar que o melhor phármakon (remédio) para o restabelecimento ou manutenção da saúde do corpo é a alimentação equilibrada e a administração de cuidados necessários à prevenção contra todo excesso e toda carência. Nesse sentido, podemos afirmar que o equilíbrio do corpo funde-se com a beleza energética da Natureza natural, e poderíamos até dizer que, a exemplo da ética, a busca do equilíbrio é uma ótica. E com razão devemos acrescentar que o equilíbrio é o melhor amigo da vida, e também o melhor amigo da morte, pois vida e morte são dimensões de um todo no qual estamos embarcados. Como estamos argumentando, o modo de ser do homem na natureza deve ser pensado e materializado através da busca do equilíbrio, isso o conduzirá à plenitude do seu ser. Para tanto, uma métrica no agir torna-se imprescindível, e que pode ser traduzida como sabedoria no agir.tal atitude é efetivada por força da phrónesis vinculada ao logismós, termo que deve ser traduzido por pensamento, posto que a phrónesis se expressa por meio da ataraxía 20 8 Ibidem, p.52 9 Aqui pode significar também prudência, sensatez.

5 (impassibilidade). Isso implica dizer que ataraxía passou a ser o fim e o sentido para a realização de uma vida sábia, pois significa tranqüilidade e equilíbrio para a alma. Assim, a ataraxía é condição básica para a realização de uma filosofia prática que se exprime no acontecer da própria vida. Com outras palavras, a filosofia é vista como um lógos capaz de depurar a alma, na medida em que esclarece a respeito do limite (métron) próprio à sua natureza 10. Visto deste modo, o lógos enquanto um phármakon visa, sobretudo, esclarecer as noções de natureza, alma, valor e finalidade, tal com aparece definida por sexto Empírico 11. Para Epicuro, portanto, a filosofia é uma atividade que, por força dos argumentos e raciocínios conduz à felicidade ou à vida feliz. A terapeía filosófica do mestre do Jardim apresenta a ideia do Tetraphármakon 12, e diz tratar dos elementos indispensáveis para alcançar a imperturbabilidade da alma, ou seja, a ataraxía. E, para conquistar este estado, importa saber que não há nada a temer em relação aos deuses, não a nada a temer em relação à morte, o prazer é de fácil aquisição e a dor é passível de ser suportada 13. O filosofar de Epicuro implica diretamente um entrelaçamento entre corpo/carne e uma comunhão (comum-união) para com a natureza. A vida feliz ou a imperturbabilidade da alma de que fala o mestre do Jardim significa uma ação ativa diante da vida. O estado de verdadeira felicidade é uma conquista de todos os que se despojam na inatividade e partem em busca de uma sinergia plena e profunda para com a natureza. Analisando as Obras completas 14, nota-se que a ataraxía, a imperturbabilidade da alma, é passível de ser atingida por dois caminhos, um mediante a justiça e outro por meio da amizade. A primeira é regida por força dos átomos corpóreos, e que significa um pacto humano em vista da não agressão 15 (de forma que evite toda e qualquer agressão e se trata de um princípio negativo e passivo); a segunda via de acesso ao equilíbrio é consubstanciada pela paz e pela seguridade, que pode ser traduzida pela 10 Embora Epicuro seja pré-moderno, todavia no nosso entender a reflexão sobre a ideia de métron, como aparece aqui no pensamento de Epicuro, se aproxima do pensamento de Hans Jonas (1979 e 1966). Esse autor defende que a base para o agir humano, ao contrário do que julga o niilismo contemporâneo, deverá ser pautada pelo princípio responsabilidade entendido como precaução. Cremos que há uma proximidade muito significativa entre a busca da vida feliz e o que Jonas desenvolve sobre a responsabilidade enquanto reflexão ética que aponta para a precaução com uma ética engajada. 11 Cf. SILVA, ibidem, p O Tetraphármakon se expressa nos seguintes termos: I. O ser bem-aventurado e incorruptível não sofre perturbações nem perturba outro ser; por isso é imune a movimentos de ira ou de gratidão, pois todo movimento desse tipo implica fraqueza. Cf. SILVA, 2003, p.80. II. A morte não é nada em relação a nós, pois o que é insensível nada é para nós. III. A magnitude do prazer atinge seu limite na remoção de todo sofrimento. Quando o prazer está presente, durante todo o tempo em que ele permanece não há dor nem no corpo, nem na alma, nem nos dois. IV- Uma dor contínua não dura muito na carne; ao contrário, quanto mais aguda é a dor menor é a sua duração, e também se por sua intensidade ela vence o prazer, não duram muitos dias na carne. As doenças prolongadas permitem até uma preponderância do prazer sobre o sofrimento carnal (DL, X apud SILVA, 2003, ). 13 Cf. DL, apud SILVA, p Cf. EPICURO. Obras completas. Tradução de J. Vara. Madrid: Catedra Letras Universales,S. A., Cf. Epístola a Meneceo apud VARA, 1995, p

6 amizade. A amizade não se limita a evitar o mal entre os amigos, mas deve superar em muito essa condição mínima, o que a torna um princípio sumamente positivo. Como assinala a Carta a Meneceu, a amizade goza de uma relevante função em todo o sistema filosófico de Epicuro. Ainda na mesma perspectiva, VARA (1995) afirma que os sentimentos compartilhados por Epicuro no contato com seus discípulos e amigos não se reduziam simplesmente às horas de trabalhos profissionais, mas que tanto ele quantos seus seguidores haviam assimilado muito bem a amizade como um princípio dístico e estruturante de seu pensar filosófico 16. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Neste sentido, é possível falar de uma filosofia prática em Epicuro, uma vez que todos os seus pressupostos fundamentais apontam para essa direção. O modo de pensar epicurista encontra-se eivado de elementos que frequentemente recorrem tanto ao modus operandi quanto ao modus vivendi do sábio, e a amizade enquanto fonte de prazer é um caminho marcado pela autárkéia, pois, sendo o sábio autárquico, ele vive bem satisfazendo apenas os desejos considerados naturais e necessários [...] e o prazer identificado ao bem não é um prazer raro e luxuoso, mas aquele indicado e medido pela phrónesis 17. Assim, a phýsis, enquanto expressão de equilíbrio, proporciona ao sábio o prazer suficiente à vida feliz. Disto infere-se que o caminho para a ataraxía atravessa toda a vida do homem e o conduz ao equilíbrio da alma. Posto que, quando se vive junto à natureza o prazer é completo e, consequentemente, podemos afirmar que sua filosofia é fundamentalmente, no seu próprio dizer, uma sabedoria de agir a partir de si mesmo, como um exercício para a vida feliz. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: Dicionário Greco-Português. Porto: Apostolado da Imprensa, Dictionnaire Grec-François. Paris: Hachette, EPICURO. Obras completas. Tradução de J. Vara. Madrid: Catedra Letras Universales,S.A., LAÉRTCIO, Diógenes. Vida e doutrinas dos filósofos ilustres. Brasília: UnB, SILVA, Markus. Epicuro: sabedoria e jardim. Rio de Janeiro: Relume Dumará, CF. VARA, 1995, p Cf. SILVA, 2003.p.107.

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