O CORPO DO CIDADÃO ATENIENSE SOB A ÓTICA DA SOFIA DO PERÍODO CLÁSSICO SÉC. V E IV A.C

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1 O CORPO DO CIDADÃO ATENIENSE SOB A ÓTICA DA SOFIA DO PERÍODO CLÁSSICO SÉC. V E IV A.C Graduando Fernando Guimarães Pimentel Orientadora: Prof. Dra. Maria Regina Candido Nossos corpos e mentes sofrem, atualmente, algumas desmedidas e poucas vezes refletimos sobre as origens e conseqüências de nosso descuido e menos ainda nos julgamos capazes de alterá-las. Richard Sennett, em Carne e Pedra, crítica a relação moderna dos homens com seus corpos: A plenitude dos sentidos e a atividade do corpo foram de tal forma erodidas que a sociedade atual aparece como um fenômeno histórico sem precedentes. (SENNETT, 2006: 19) A vida moderna tem, em sua dinâmica, necessidades particulares que requerem uma constante adaptação de nossos corpos e mentes. A aceleração do tempo, o exagero de informações e de atividades com as quais nos deparamos diariamente têm seus reflexos, igualmente, em nosso modo de viver. Infelizmente, boa parte desses reflexos ocorre por meio de doenças, curáveis ou não: o estresse e a depressão, hoje, são quase tão comuns, que os encaramos com naturalidade falaciosa; a falta de tempo e cuidado com alimentação potencializa doenças cardíacas, circulatórias e a obesidade; a ditadura da beleza leva a anorexia, para uns e a vigorexia (espécie de transtorno causado pelo excesso na prática de exercícios) a outros. Na antiguidade, entre os atenienses do período clássico, essas desmedidas do corpo e da mente seriam qualificadas como hýbris/ὕβρις. No dicionário Liddell e Scott, a primeira definição de hýbris é violência temerária que resulta do orgulho pela força ou pelo poder que se possui (LIDDELL SCOTT, 1883: 1594). Em outros contextos pode ser traduzido por luxúria, lascívia. De qualquer forma, hýbris, assume significados que trazem a idéia de 'exagero', 'desmedida', e que pode levar a atitudes prejudiciais tanto ao corpo social/sociedade quanto ao próprio indivíduo e seu corpo e, portanto, a hýbris deveria ser evitada. Ações moderadas, prudência, temperança, que em grego, podem ser reunidas no conceito de sophrosýne/σωφροσύνη, parecem constituir o ideal a ser alcançado 114

2 nas relações sociais e pessoais. Nos questionamos se esse ideal fazia parte da filosofia/reflexão e da paidéia/educação dos atenienses do período clássico. A busca por essas respostas será, portanto, o tema que nos propomos a pesquisar através dos textos dos autores da época. Inicialmente voltaremos nosso foco para as obras de Xenofonte, Platão e Aristóteles. Antes, porém, de nos voltarmos para o estudo do corpo (soma) na ótica da sofia ateniense, devemos discutir dois aspectos relevantes sobre a historiografia contemporânea. O primeiro aspecto se refere à possibilidade de ser o corpo, objeto de estudo. As novas formas de sociabilidade do século XX se refletiram, na historiografia, na forma de novos questionamentos, novas concepções de documento e novas interpretações. Libertando-se do paradigma rankeano, no qual a história era essencialmente política, baseada em documentos textuais, objetiva e interessada nos grandes feitos dos grandes homens, a nova história aponta para uma realidade como social ou culturalmente construída. Peter Burke, em sua obra, A Escrita da História, faz uma análise dessas novas possibilidades e afirma que nos últimos trinta anos nos deparamos com várias histórias notáveis de tópicos que anteriormente não se havia pensado possuírem uma história, como, por exemplo, a morte, a loucura, o clima, os odores, a sujeira, a limpeza, os gestos, o corpo, a feminilidade, a leitura, a fala, e até mesmo o silêncio. (BURKE, 1992: 11). O estudo sobre o corpo, na história, emerge tanto desse contexto quanto de sua emancipação ainda que incipiente do paradigma cristão, que o reduzia a um simples subordinado da alma. Roy Porter descreve essa perspectiva que, atualmente, vem sendo superada e nos convida a uma analise mais cuidadosa no estudo de tal objeto. Nas palavras do autor, esta subordinação hierárquica do corpo à mente sistematicamente degrada o corpo; seus apetites e desejos são encarados como cegos, obstinados, anárquicos ou (no Cristianismo) radicalmente pecaminosos; pode ser encarado como a prisão da alma (PORTER, 1992: 305). 115

3 Por outro lado, a historiografia pós-moderna tem oferecido o risco, cada vez maior da fragmentação do conhecimento, da especialização excessiva e da conseqüente perda da capacidade de se entender a unidade, o todo. François Dossè faz uma importante crítica aos descaminhos da nova história: É nessa fase de refúgio individualista, de confinamento no iglu narcíseo que o político reflui para as margens e que sua importância diminui. O discurso do historiador, fora do campo político, desabrocha bem melhor em uma sociedade baseada no alargamento da privacidade e na erosão das identidades sociais. Não há mais projeto histórico mobilizador e inicia-se então a era do vazio [...] (DOSSÈ, 1992: 230). Dessa forma, é preciso ter o cuidado de articular uma historiografia que possa lidar com as novas concepções de documento e os novos questionamentos, respondendo a eles de maneira que a relevância de tal empresa não se restrinja ao ponto da sua peculiaridade ser desarticulada do entendimento das dimensões macro da sociedade que se pretende analisar. No estudo sobre o corpo, por exemplo, temos que levar em consideração que este é construído sob valores e necessidades de uma determinada sociedade: o que homens e mulheres produzem culturalmente, produzem também para seus corpos. Nesse sentido, afirmam os autores Theml, Lessa e Bustamante: [...] o corpo humano é culturalmente construído através de escolhas ou imposições sociais, de conjuntos de valores que configuram o que o homem deve ser, tanto em relação ao seu status, ao seu grupo, às virtudes morais e intelectuais, quanto às maneiras da representação, da exposição, e do uso de seu corpo físico (THEML. et alli: 2003:7). Este é, portanto, o segundo aspecto ao qual nos referíamos acima. Para estudarmos o corpo/soma dos cidadãos atenienses do período clássico, precisamos ter em mente que os corpos estão presentes para nós, apenas por meio das percepções que temos deles, então a história dos corpos deve incorporar a história de suas percepções (PORTER: 1992, p. 295). Postas essas considerações, cabe agora avaliar mesmo que parcialmente 116

4 o contexto histórico de produção da documentação que nos propomos a pesquisar, trazendo alguns questionamentos, tais como: a) qual a relação do cidadão ateniense com o seu corpo?; b) até que ponto a atuação social do cidadão na polis se refletia na concepção que fazia de seu corpo?; c) qual a identidade desses cidadãos para quem se destinavam as recomendações de cuidados com o corpo que encontramos na documentação? Inicialmente, observemos quais eram as características do local onde se ergueu a polis/πόλις a qual pertenciam o conjunto de cidadãos de que estamos tratando. De acordo com o historiador inglês Peter Jones, a polis de Atenas se organizou em uma região situada no extremo sudeste da atual Grécia, conhecida como Ática, cuja extensão é de aproximadamente 2500 km². A estrutura física predominante inclui paisagens montanhosas (Egálon, Pentélico, Himeto, Laurion) mescladas com raras planícies (Triásia, de Atenas, e Mesogéia) e uma região litorânea, a leste, limitada pelo mar Egeu. Assim como a Ática, a paisagem de grande parte do território helênico é caracterizada pela intercalação de montanhas e planícies, o que diminui a extensão do espaço habitável e cultivável. (JONES, 1997: 62-63) Tanto Jones, quanto o helenista francês François Chamoux, concordam com a idéia de que essa característica geomorfológica do território helênico contribuiu para a formação de poleis independentes, o que por sua vez dificultou ou pelo menos adiou a unificação política. Sendo assim, a extrema compartimentação do solo, devido à sua natureza montanhosa, favorece o nascimento de unidades políticas à medida humana, mas opõe-se à constituição de um grande Estado. (CHAMOUX, 1983: 12). 117

5 Mapa da região da Ática. Disponível em: Acesso em 09/12/ às 01:15. Ser cidadão de uma polis como Atenas era, nesse contexto, participar ativamente de um corpo social na qual a coletividade possuía preponderância sobre os indivíduos ou famílias isoladas. Dessa maneira, afirma Fustel de Coulanges, nada havia no homem que fosse independente. O seu corpo pertencia ao Estado 1 e era dedicado à defesa dele (COULANGES, 2009: 236). Fosse para defender a polis de um ataque inimigo, fosse para atacar outra polis, o cidadão deveria estar preparado fisicamente para a guerra. As competições atléticas, por exemplo, exigia treinamentos constantes, e de certa forma, mantinha os cidadãos saudáveis e fisicamente estruturados para as batalhas, que, à época, 1 Fustel de Coulanges, em A Cidade Antiga refere-se às cidades que analisa, Atenas, Roma e Esparta, utilizando o conceito de Estado, que na época em que o autor escreve, século XIX, começava a ganhar sentidos próximos ao que se tem hoje. Na realidade, falar em Estado implica atribuir às cidades antigas, características que elas não possuíam e, portanto, atualmente a historiografia dá preferência ao conceito de polis para as cidades gregas e urbs, para as latinas. 118

6 fazia parte do cotidiano dos atenienses. Era nos ginasios que os jovens atenieneses treinavam e se preparavam para as competições sob a orientação de um paidotribes, que lhes ensinava as técnicas da corrida a pé, do lançamento de discos e do pugilato, por exemplo. Segundo Chamoux (1983: 219), o efebo, a partir dos quinze anos, passava a frequentar tais ginásios públicos, estes dotados de pistas de corrida, além de jardins e salas de reunião A sociabilidade nos ginásios era de extrema relevância para a manutenção dos ideais de cidadania ateniense, que deveriam ser ensinados as gerações vindouras. Nesse sentido, Sennett retoma hipótese de Coulanges, exposta acima, e conclui que o ginásio ateniense ensinava que o corpo era parte de uma coletividade maior, a polis, e que pertencia à cidade (SENNETT, 2006: 42). Reconstituição da polis ateniense no século V a. C. Disponível em: Acesso 09/12/ às 01:08. Uma das definições de ginásio/γσμνάσιον, em Lidell Scott s (1992: 319) é lugar público onde eram praticados exercícios atléticos e o termo deriva do substantivo gumnós/ γσμνός, que significa estar nu. De fato, o treinamento nos ginásios se davam com os 119

7 atletas/cidadãos sem idumentárias para cobrir o corpo. A nudez assumia, entre os helenos antigos, uma importância crucial. O corpo desnudo distinguia civilizado de bárbaro; forte de vulnerável. Richard Sennett afirma que, para o cidadão, exibir-se era preponderante para confirmar sua dignidade como tal Dessa forma, o desnudamento coletivo a que se impunham algo que hoje poderíamos chamar de compromisso másculo reforçava os laços de cidadania (SENNETT, 2006: 30). Entretanto, a cidadania ateniense era, de certa maneira, um privilégio concedido aos atenienses filhos de pai e mãe ateniense. Ficavam de fora, os estrangeiros, residentes ou não, os escravos e as mulheres. Dentro desse grupo devemos restringir ainda mais o nosso foco para entendermos quem, de fato, treinava nos ginásios, competia nos jogos, e para quem, enfim, os filósofos e demais autores antigos escreviam. Dessa forma o que lemos em Xenofonte, por exemplo, em suas referências à boa maneira de cuidar do corpo, eram instruções destinadas aos aristoi (os melhores), aos que tinham a skholé (tempo livre, ócio) necessária para participar ativamente da vida pública na polis ateniense. Ao pesquisarmos a documentação, não encontraremos um tratado propriamente dito que descorra sobre nossas questões. Nem mesmo Aristóteles, que possui algumas obras de zoologia e botânica para usar termos modernos escreveu um tratado que falasse apenas dos cuidados do corpo. 2 No entanto essas preocupações sobre aquisição e a manutenção do corpo ideal, que evitasse a desmedida e servisse aos interesses da pólis pode ser observada nos mais diversos textos sobre os variados temas que versavam os autores do período clássico. Xenofonte, na sua obra Memorabilia, defendia Sócrates das acusações que o levaram a condenação a morte enquanto deixava tranparecer suas propostas e também as de Sócrates sobre a relação dos cidadãos com seus corpos. A prática de exercícios, era uma da suas recomendações. Era através do esforço disciplinado, em contraponto à 2 Maria da Graça Schalcher chama a atenção para a necessidade de estabelecer um diálogo entre as obras do corpus aristotélico a fim de extrair da multiplicidade desses momentos, uma teoria, um discurso unitário e totalizador sobre o corpo. (SCHALCHER, 2003: ) 120

8 preguiça e aos excessos, que um cidadão poderia melhor ser útil a sua polis e praticar ações justas: os hábitos de indolência e os prazeres fáceis não podem, no dizer dos ginastas, dar boa compleição ao corpo nem fazer penetrar no espírito nenhum conhecimento apreciável. Ao invés, os exercícios que requerem constância nos conduzem à prática de belas e boas ações, como dizem os grandes homens. (XENOFONTE, II, 1) Em outro momento, Xenofonte recomenda a temperança como caminho que conduz a virtude. Deixar levar-se pelos impulsos não traria bons frutos, pelo contrário, apenas prejudicaria a si e aos outros. O autor atribui a Sócrates tal explanação: Não é um dever, para todo aquele que saiba ser a temperança o cimento da virtude, o encastoá-la antes de tudo na própria alma? Sem ela como discernir o bem e praticá-lo dignamente? O escravo das próprias paixões não degrada vergonhosamente o corpo e o espírito? (XENOFONTE, I, 5) Parece-nos que o caminho indicado estabelece as recomendações sobre a prática de exercícios dialogando com o ideal de sophrosýne aparecem constantemente na documentação analisada até então Memorabilia, de Xenofonte. Mesmo em outros textos, como a Constituição de Atenas (Athenaion Politeia), de Aristóteles, a justa medida, o caminho do meio, será valorizado. Ao falar do legislador Sólon, o autor enaltece sua postura, que ao tentar amenizar uma crise social na polis ateniense, não se colocou nem do lado dos mais ricos, nem dos mais pobres, mas antes preferiu posicionar-se como um forte escudo entre ambos (ARISTÓTELES, A Constituição de Atenas, XII, 2) Podemos então supor que a antítese hýbris/sophrosýne era especialmente observada nas relações sociais e, no que se configura como objeto de pesquisa, ou seja, as relações dos cidadãos atenienses com seus corpos. A análise desses temas será, portanto, a intenção de nossos próximos artigos. 121

9 DOCUMENTAÇÃO TEXTUAL ARISTÓTELES. A Constituição de Atenas (Atenaion Politeia). Tradução e comentários de Francisco Murari Pires. São Paulo: Editora Hucitec, 1995; XENOFONTE. Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates. Coleção 'Os Pensadores'. Traduções de Jaime Bruna, Libero Rangel de Andrade, Gilda Maria Reale Strazynski. São Paulo: Nova Cultural, REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BURKE, Peter. A Escrita da História. Tradução de Magda Lopes. São Paulo: Unesp, 1992; CHAMOUX, François. A Civilização Grega. Tradução de Pedro Elói Duarte. Lisboa: Edições 70, 1983; COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga. Tradução de Roberto Leal Ferreira. Rio de Janeiro: Martin Claret, 2009; DOSSÈ, François. A História em Migalhas: dos Annales à Nova História. Campinas: Unicamp, 1992; JONES, Peter. O mundo de Atenas. Tradução de Ana Lia de Almeida Prado. São Paulo: Martins Fontes, 1997; LIDDELL SCOTT S. An Intermediate Greek-English Lexicon. Oxford: At the Clarendon Press, 1992;. Greek-English Lexicon. New York: Harper Brothers, 1883; SCHALCHER, M. da Graça Ferreira. Pensando o corpo com Aristóteles: Um diálogo entre Metafísica, Ética e Física. In.: Olhares do corpo. Rio de Janeiro: Mauad, 2003; 122

10 PORTER, Roy. História do corpo. In.: A Escrita da História. Tradução de Magda Lopes. São Paulo: Unesp, 1992; SENNETT, Richard. Carne e Pedra. Tradução de Marcos Aarão Reis. Rio de Janeiro: Editora Record, 2006; THEML, Neyde; BUSTAMANTE, Regina M. da Cunha; LESSA, Fábio de Souza (orgs). Olhares do corpo. Rio de Janeiro: Mauad, 2003; 123

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