ANA PAULA OLIVEIRA HAHN ENSINO DE GEOGRAFIA E VALORAÇÃO DOS SERVIÇOS AMBIENTAIS APLICADOS A ARROIOS URBANOS CANOAS, 2009.

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1 ANA PAULA OLIVEIRA HAHN ENSINO DE GEOGRAFIA E VALORAÇÃO DOS SERVIÇOS AMBIENTAIS APLICADOS A ARROIOS URBANOS CANOAS, 2009.

2 ANA PAULA OLIVEIRA HAHN ENSINO DE GEOGRAFIA E VALORAÇÃO DOS SERVIÇOS AMBIENTAIS APLICADOS A ARROIOS URBANOS Trabalho de conclusão, Centro Universitário La Salle, exigência para a obtenção do grau de Licenciado em Geografia, sob a orientação da Prof a Elaine Regina Oliveira dos Santos. CANOAS, 2009.

3 A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. Ensinar e aprender não pode darse fora da procura, fora da boniteza e da alegria. Paulo Freire

4 RESUMO O presente trabalho pretende contribuir para a ampliação do conhecimento sobre a natureza e a construção da cidadania. Para tanto avalia a importância do ensino de Geografia e do conceito de serviços ambientais aplicados ao gerenciamento das águas urbanas do Arroio José Joaquim, Sapucaia do Sul, RS. A utilização do método de Valoração Contingente, através de entrevistas em comunidades próximas ao Arroio, possibilitou identificar a percepção dos entrevistados em relação aos serviços ambientais. Os resultados possibilitaram analisar a fragilidade dos ambientes urbanos e refletir o modo como o ensino de Geografia pode contribuir para melhorar esta relação. Palavras-chave: Águas urbanas. Serviços ambientais. Educação. Valoração. ABSTRACT This thesis is intended to contribute to the growth of knowledge on nature and the construction of citizenship. It analyzes the importance of teaching Geography and the concept of environmental services in the context of the management of the urban waters of José Joaquim stream, in Sapucaia do Sul, RS. Using the method of contingent valuation, through interviews in communities located near the stream, the interviewees perception of environmental services was identified. The results allowed analysis of the fragility of urban environments and a reflection on how Geography teaching can contribute to improve this relationship. Keywords: Urban waters. Environmental services. Education. Valuation.

5 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO A NATUREZA E OS SERVIÇOS AMBIENTAIS O conceito de natureza Os serviços ambientais e sua relevância A valoração dos serviços ambientais Métodos de valoração dos serviços ambientais O ENSINO DE GEOGRAFIA E A GESTÃO DAS ÁGUAS URBANAS Gestão das águas e planejamento urbano As águas urbanas: características e problemas O ensino de Geografia e sua contribuição A VALORAÇÃO DOS ARROIOS URBANOS: ESTUDO DE CASO O Arroio José Joaquim: localização e caracterização geral O método de valoração ambiental adotado ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Análise dos resultados Discussão dos resultados CONCLUSÃO...42 REFERÊNCIAS...44

6 1 INTRODUÇÃO Historicamente, as atividades antrópicas ligadas aos processos de produção, extrativismo e urbanização, respondem por grande parte da modificação da paisagem, redução e alteração da biodiversidade natural em escala planetária. Sendo assim, a questão ambiental é cada vez mais um desafio para a sociedade como um todo, principalmente aos governantes, que enfrentam desde os problemas físicos estruturais, até as questões sócio-culturais existentes no interior de seus territórios (GUIMARÃES, 1999). A expansão urbana se acelerou na segunda metade do século XX. A concentração da população em espaços reduzidos acarretou uma grande competição por recursos naturais como solo e água. A chamada crise da natureza é uma crise do modo de viver. A humanidade está diante de problemas que desafiam e cobram respostas. No que se refere às águas urbanas, é possível observar que o desenvolvimento urbano tem produzido um ciclo de contaminação, gerados por alguns elementos. Estes estão fortemente inter-relacionados devido à forma como são gerenciados dentro do ambiente urbano. No que se refere particularmente às águas urbanas. A degradação das águas, o acúmulo de lixo, a ocupação indevida, as inundações, são algumas das consequências geradas pela desvaloração dos ecossistemas. Na busca de alternativas apoiadas na prática de uma educação orientadora para a resolução dos problemas ambientais, a Geografia, como ciência que estuda o espaço, vem contribuindo de forma relevante. Conforme destaca Becker (2002), o espaço geográfico, em sua dimensão urbana, não é simples localização e fenômeno. O espaço geográfico é um produto social e histórico onde o ser humano não se relaciona simplesmente com a natureza, mas a partir dela, pelo processo do

7 trabalho, apropria-se da natureza transformando-a em produto seu, como condição do processo de reprodução da sociedade. Tendo isto em conta, o presente trabalho pretende contribuir para a ampliação do conhecimento sobre a natureza e a construção da cidadania. Para tanto avaliou a importância do ensino de Geografia e do conceito de serviços ambientais aplicados ao gerenciamento das águas urbanas do Arroio José Joaquim, Sapucaia do Sul, RS. O método utilizado foi o da Valoração Contingente (MOTTA, 1998) aplicado através de questionários. O método foi adaptado a fim de atender mais especificamente as demandas deste trabalho. O resultado da pesquisa serviu como indicativo sócio-ambiental, sendo possível identificar a percepção dos entrevistados em relação aos serviços ambientais. Através deste levantamento, foi possível identificar a fragilidade dos ambientes urbanos, e o quanto o ensino de Geografia pode contribuir para melhorar esta relação. O trabalho foi estruturado em quatro capítulos. O primeiro analisa o conceito de natureza e apresenta a relevância e a valoração dos serviços ambientais. O segundo discorre sobre a importância do ensino de Geografia para a valoração dos serviços ambientais e identifica os princípios básicos e legais da gestão das águas. O terceiro apresenta o estudo de caso, caracterizando a sub-bacia do Arroio José Joaquim, Sapucaia do Sul, RS, também faz uma breve citação de alguns métodos aplicados à valoração dos serviços ambientais e descreve o método adotado à área de estudo. Também é definido e apresentado o método de Valoração Contingente, o qual foi utilizado para a valoração dos serviços ambientais aplicado á área de estudo. No quarto e último capítulo analisa os dados e discute os resultados obtidos.

8 2 A NATUREZA E OS SERVIÇOS AMBIENTAIS Para a maioria das culturas, inclusive as primitivas, a busca do entendimento sobre a natureza, sua importância e relação com os seres humanos se confunde com sua própria história e forma de organização social. Em alguns casos, se percebe que o estabelecimento de um conhecimento sobre a natureza recebe destaque, devido a uma relação fundamental entre esta e o ser humano, ou seja, a de interdependência. (CAMPONOGARA, et al., 2007). O aprimoramento do saber sobre a dinâmica da natureza tem atestado a necessidade de se alterar a atual relação sociedade/natureza. Neste sentido, Rosa et al. (2004) destacam os serviços ambientais gerados pelos ecossistemas naturais preservados, revelando que estes estão na base de sustentação da vida na Terra. Os autores colocam que os serviços ambientais são importantes por fornecerem: alimentos, água, combustíveis, recursos genéticos, entre outros. Além disto, a regulação da qualidade do ar e do clima, a purificação da água, o controle de erosão, o controle biológico e a mitigação de riscos são alguns dos processos fundamentais realizados e mantidos pelos serviços ambientais. Constanza (2006), discutindo sobre a necessidade de se valorar os serviços da natureza, destaca que não basta pagar pela preservação de um ecossistema. É preciso instruir a respeito da dimensão dos sistemas ecológicos como provedores de um conjunto amplo de serviços de base, sobre os quais se estruturam outros que são reconhecidos e valorizados pela economia clássica. Charlet (2009) explica que a relação dos ecossistemas com os serviços ambientais é sensível e complexa. Este capítulo abordará o conceito de natureza e de serviços ambientais, destacando a sua relevância para o ser humano. Ele finaliza com uma discussão

9 sobre a valoração dos serviços ambientais e com a apresentação de alguns métodos para este fim. 2.1 O conceito de natureza Há um consenso entre alguns estudiosos de que a maior influência sobre o pensamento ocidental teve origem na Grécia. De acordo com Gonçalves (2006), o surgimento da filosofia da natureza e da filosofia propriamente dita, se funde com a busca de uma explicação para a origem do cosmo e de todas as coisas. A idéia era de que não mais se fixasse apenas no pensamento mítico grego. Entre os povos indígenas, desde seu surgimento até os dias atuais, prevalece uma concepção de responsabilidade pelo mundo natural, baseada numa relação de parentesco ou afiliação entre os mundos humano e não-humano. Como exemplo, a percepção da tribo Maori (Nova Zelândia), para quem todos os seres humanos e não humanos partilham a mesma linhagem, têm a mesma origem. Os aborígenes vêemse como parte da natureza e todas as coisas naturais como parte de si mesmos. Para eles, o ambiente não é algo que apenas circunda um povo, mas sim que possui uma relação ontológica de pertença (WHITT, 2003). Segundo as escrituras hindus, as pessoas são proibidas de dominar outras criaturas, devendo, ao contrário, procurar paz e harmonia com a natureza, denotando profundo vínculo entre os seres humanos e todas as outras formas de vida. Em certo sentido, este pensamento encontra alguma consonância com os ensinamentos do Alcorão (livro base do islamismo), o qual não admite separação entre o ambiente natural e o divino, atribuindo responsabilidade aos seres humanos em relação aos demais seres (HAQ, 2003). No entanto, com relação à tradição judaica, Katz (2003) manifesta uma visão crítica que classifica como alienada em relação ao mundo natural, já que este pode ser usado por Deus ou pela humanidade e não tem valor em si mesmo. Assim, o judaísmo propõe um antropocentrismo radical em que a natureza é vista meramente como um recurso para a satisfação dos interesses, carências e necessidades humanas. Este pensamento judaico, apesar de extremamente destoante dos anteriores, se parece muito com o modo de pensar ocidental contemporâneo. De acordo com Gonçalves (2006) e Pelizolli (2004), o dogma judaico-cristão do criacionismo estabelece não mais uma complementaridade (como na filosofia

10 antiga), mas uma contradição e um estranhamento de espírito e natureza. Representa um retrocesso em relação ao trabalho dos filósofos gregos antigos, pois consiste no retorno de uma explicação mítica e dogmática da origem ou principio da natureza, e se tornou num inspirador da dicotomia ser humano/natureza, que está na base da crise ecológica atual. Dentre os representantes mais importantes da tradição cristã, destaca-se Santo Agostinho ( ), um dos responsáveis por acentuar o duplo sentido do conceito de natureza: a Natura Naturans (o criador tudo é criado por Deus) e a Naturans Naturata (a criação a natureza é criada em benefício do homem, imagem e semelhança de Deus). Mas é, sem dúvida, Tomás de Aquino ( ), diretamente influenciado pela filosofia aristotélica, o responsável por apresentar uma idéia de natureza o mais racional possível. Os seres da natureza são de novo expostos em uma escala hierárquica, cujo topo é Deus (GONÇALVES, 2006). Na Idade Moderna a questão fundamental a ser refletida é a posição assumida pelo ser humano que se eleva à posição de dono da natureza (objeto de dominação e manipulação da ciência), com aprofundamento da tradição experimental na pesquisa científica sobre a natureza. Segundo Becker (2002) com a invenção da agricultura há cerca de dez mil anos, a humanidade deu um passo decisivo na diferenciação de seu modo de inserção na natureza em relação àquele das demais espécies animais. A imensa variedade de espécies de um ecossistema florestal, por exemplo, é substituída pelo cultivo/criação de umas poucas espécies selecionadas em função de seu valor de mercado, seja como alimento, seja como fonte de outros tipos de matérias-primas que os seres humanos consideram importantes. No que concerne à natureza, parece ter oscilado sempre entre duas tendências opostas: uma que pensa a natureza como divina e outra que a concebe como uma grande máquina, desprovida de alma. Para Pelizzoli (2004), aí está a origem do antropocentrismo e da base racionalista, que começou a determinar de forma diferente a consideração da natureza, a partir da tentativa concreta de superação do saber do mito, dos deuses, numa desmitologização e desespiritualização da realidade e da natureza. Para Gonçalves (1998, p.34), o antropocentrismo é o homem visto como o centro do mundo, o sujeito em oposição ao objeto, à natureza. Nesta concepção, o homem, instrumentalizado pelo método científico, pode penetrar os mistérios da

11 natureza e, assim, tornar-se senhor e possuidor da natureza. Assim, à imagem e semelhança de Deus, ele tudo pode, isto é, o todo poderoso. Os seres humanos superaram seus limites biológicos de intervenção no meio, atingindo duramente a capacidade suporte do ambiente. Guimarães (1995) coloca que isto de deu principalmente a partir da Revolução Industrial, segundo o autor Paralelamente, o avanço científico e tecnológico desse período histórico permitiu um grande aumento da população humana sobre o Planeta, refletindo a dominação dessa espécie sobre as demais, população que assume como sociedade uma postura destrutiva na relação ser humano/natureza e na relação ser humano/ser humano (GUIMARÃES, 1995, p.33). A idéia de uma natureza objetiva e exterior ao homem, o que pressupõe uma idéia de homem não natural e fora da natureza, cristaliza-se com a civilização industrial inaugurada pelo capitalismo. Gonçalves, (1998, p.24) coloca que as ciências da natureza se separam das ciências do homem, cria-se um abismo colossal entre uma e outra e, tudo isso não é só uma questão de concepção de mundo. Conforme o autor, a ecologia enquanto saber e, sobretudo, o movimento ecológico tentam denunciar as conseqüências dessas concepções, embora o façam, muitas vezes, permeados pelos princípios e valores dos seus detratores. A Revolução Industrial, muito mais que uma profunda Revolução Técnica, foi o coroamento de um processo civilizatório que almejava dominar a natureza e para tanto submeteu e sufocou os que a ele se opunham. O absurdo é que tal projeto teve de colocar o homem como não-natureza, pois se o homem não fosse assim pensado, a questão da dominação da natureza sequer colocaria (GONÇALVES, 1988, p. 25). Segundo Odum (1988, p.1), devido aos avanços tecnológicos, parece que o ser humano passa a depender menos do ambiente natural para suprir as necessidades diárias; esquece que a dependência da natureza continua. Assim, conforme foi visto, com o passar do tempo o ser humano optou por priorizar aspectos os quais lhe desvinculam da natureza e que o fazem, muitas vezes a esquecer-se de que faz parte dela. As questões relacionadas à proteção da natureza começaram a ser discutidas efetivamente a partir da década de Em 1972 aconteceu o marco histórico na capital da Suécia, Estocolmo, a Conferência das Nações Unidas sobre o Homem e o

12 Meio Ambiente. Nela emergiram as contradições ligadas ao desenvolvimento e as questões ambientais. Neste mesmo ano, um grupo de empresários solicitou junto ao renomado Massachusetts Institute of Technology (EUA), um estudo sobre as condições da natureza, o qual foi chamado de Desenvolvimento Zero (Brasil Escola, 2009). Vinte anos após, ocorreu a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, reunindo as maiores autoridades sobre o assunto e que ajudou a propagar a importância do tema ecológico para a humanidade. O evento foi um alerta, mas seu resultado deixou mais questões em aberto que respostas definitivas (Estadão, 2009). Jöhr (1994) ressalta que, naquele momento, havia uma clara evidência da gravidade do problema ambiental, sobretudo quanto ao crescimento populacional, a finita quantidade de recursos naturais, seu uso inadequado, a extinção das espécies, o desflorestamento, a erosão do solo e a poluição. O autor menciona que o evento representou não apenas o reconhecimento e a valorização das ciências ambientais como também cristalizaram os princípios sobre os quais uma nova ética planetária deve se formar. Para ele é necessário pensar à possibilidade do nascimento de um novo modo de desenvolvimento ou de organização social com relação à natureza. A mudança precisa partir inicialmente do ser humano, pois, nenhuma solução que a ciência possa apresentar terá validade se o próprio comportamento do homem e sua inter-relação com a natureza não assumirem uma nova identidade (JÖHR, 1994, p.12). Hutchison (2000) coloca que a maior parte dos governos, das corporações e dos leitores presume que uma economia saudável é aquela que usa crescentes quantidades de energia, de materiais e de recursos para a produção de mais bens, mais empregos e mais rendimentos. O autor explica que este posicionamento, é remanescente da economia de massa da era industrial, marcada por uma constante expansão da produção de energia, do esgotamento dos recursos e da degradação do ambiente. Uma nação que viva além de seus meios enfrenta a mesma escolha que uma pessoa que vive além de suas possibilidades: ou fica mais pobre, ou pode melhorar seus recursos, tornando-se mais produtiva. Ele alerta para o agravamento da crise ambiental afirmando que, nos próximos cinqüenta anos, a população humana tende a exceder nove bilhões e a produção econômica global pode quintuplicar. Assim, em grande parte, como resultado destas tendências, a escassez de recursos renováveis pode aumentar. Segundo ele

13 A área total de terras altamente produtivas para a agricultura cairá, assim como a extensão de florestas e o número de espécies que estas sustentam. As gerações futuras também sentirão o crescente desgaste e a degradação das fontes de água, dos rios e de outros mananciais aquáticos, e uma mudança climática significativa (HUTCHISON, 2000, p.67). É preciso rever o conceito de desenvolvimento. Novas alternativas menos poluentes devem ser adotadas. Jöhr (1994) defende que o atual caminho de desenvolvimento social e econômico deve ser modificado. Para ele Devem-se mudar os paradigmas que tem regido a vida, orientando-os para um desenvolvimento sustentável e criando melhores condições de vida para o futuro. Falar em ecologia, hoje, é pensar em atuações econômicas e empresariais, em novas tecnologias, novos padrões de consumo e em nova ética (JÖHR, 1994, p.16). Para tanto, é necessário trabalhar com a sociedade o conceito de natureza e sua importância. Neste particular Leff (2001) se refere à pertinência de uma atitude reflexiva que não se restrinja a questões genéricas sobre a natureza em si, mas que remeta a um olhar para o próprio ser humano, para seu interior, para a sua condição de ser existente neste planeta. O autor afirma que a discussão contemporânea sobre a insustentabilidade do planeta deve partir, inicialmente, do questionamento do ser humano no mundo. Ele lembra que, como seres historicamente situados, as concepções e as ações que norteiam o viver carregam consigo influências do pensamento filosófico desde a Antiga Grécia até os dias atuais. 2.2 Os serviços ambientais e sua relevância Os serviços ambientais são aqueles considerados úteis e que são oferecidos pelos ecossistemas para o ser humano, como a regulação de gases (produção de oxigênio e seqüestro de carbono), belezas cênicas, conservação da biodiversidade, proteção de solos e regulação das funções hídricas (Bolsa Floresta, 2009). De acordo com Groot et. al (2002) serviços ambientais resultam da interação entre os estoques de capital natural, capital construído e capital humano. Podem ser identificados de três maneiras predominantes: serviços ambientais, ecossistêmicos e ecológicos. A variedade de adjetivos indica tentativas de qualificar tais serviços, expressando a complexidade existente nas relações que vão muito além de um

14 pagamento. Para os autores o conceito de serviços ambientais [...] é inerentemente antropocêntrico: é a presença de seres humanos como agentes que habilitam a tradução de estruturas ecológicas e processos em entidades de valor agregado (Groot et. al, 2002, p.396). Desta forma, o conceito se expressa pela identificação das formas de valoração entre as atividades humanas e a natureza, valoração esta que deixa de ser vista dentro dos moldes da economia clássica, como estoque de matéria prima a ser transformada em bens de capital. Em Locaweb (2009) tem-se que serviços ambientais são atividades ou funções executadas pela natureza e que têm sido vistas recentemente, como benefícios imprescindíveis à vida e que podem ser submetidas a avaliações econômicas. É citado como serviços ambientais, a regulação hídrica (o ciclo da água), o ciclo de nutrientes, a produção de alimentos, os recursos genéticos (e recursos naturais em geral), a regulação da temperatura atmosférica e das águas, a absorção e degradação natural de poluentes gerados pela humanidade, entre outros. Para Hutchison (2000), a preocupação com a perda da funcionalidade dos serviços ambientais desafia o ser humano a proteger os recursos naturais e, ao mesmo tempo, possibilitar um desenvolvimento social justo, permitindo que as sociedades humanas atinjam uma melhor qualidade de vida em todos os aspectos. A necessidade de consolidar novos modelos de desenvolvimento sustentável exige a construção de alternativas de utilização dos recursos, orientada por uma racionalidade ambiental e uma ética da solidariedade. Deve ocorrer um novo reconhecimento, em que o bem-estar do ser humano esteja intrinsecamente relacionado à saúde do planeta. Para o autor, as tradições religiosas precisam apoiar uma nova comunhão subjetiva com os vários elementos da comunidade biótica e as noções de justiça dentro da legislação precisam começar a abordar as necessidades de proteção da comunidade como um todo. Segundo Becker (2002) os trabalhos apontam que em função de todos os problemas ambientais decorrentes das práticas econômicas predatórias a sociedade terá implicações a médio e longo prazo. Frente ao desperdício dos recursos naturais e a degradação generalizada com perda da qualidade dos serviços ambientais, torna-se urgente o planejamento físico sob as perspectivas econômico-social e ambiental. Este repensar implica estudos ambientais e econômicos, bem como as suas inter-relações e a sua interdependência. São eles que poderão dar apoio às

15 reflexões, buscando soluções para o momento atual, ou seja, estudos que possam cooperar cientificamente com um futuro economicamente próspero, porém, mais justo, mais seguro e mais harmonioso. Jöhr (1994) coloca que toda agressão à natureza, provém da incapacidade humana de avaliar os danos como fatores de prejuízo econômico, isto é, como custos adicionais que poderiam ser evitados. Os danos devem ser cobrados daqueles que degradam o meio ambiente, ao passo que esses valores devem ser repassados àqueles que ajudam a preservar os serviços ambientais que protegem a água. Há 30 anos, o ambientalista americano Michael Jenkins começou a lutar pela conservação da natureza. Ele faz parte de um grupo de especialistas que pensa alternativas para impulsionar o pagamento por serviços ambientais. O que o homem sempre usou e degradou de graça passa a ter um preço, justamente pela ameaça de escassez (Estadão, 2009). Neste particular Odum relembra que [...] os sistemas econômicos de toda e qualquer ideologia política valorizam as coisas feitas por seres humanos que trazem benefícios primariamente para o indivíduo, mas dá pouco valor aos produtos e serviços da natureza que trazem benefício a toda sociedade. Enquanto não ocorre uma crise, aproveitamos esses serviços e produtos naturais sem pensar; imaginamos que são ilimitados ou, de certa forma, substituíveis por inovações tecnológicas, apesar de evidências que indicam o contrário (ODUM, 1988, p.1). No Brasil, o conceito de serviços ambientais emergiu recentemente como uma potencial estratégia para valorização das populações extrativistas da Amazônia. Existem ainda muitas dúvidas na esfera de instituições governamentais e da sociedade civil organizada de como estabelecer políticas de serviços ambientais que possam beneficiar grupos de populações extrativistas. Reconhece-se, contudo, que populações extrativistas são importantes para a manutenção de serviços ambientais e por tal precisam ser recompensadas (LOCAWEB, 2009). O projeto de lei, PL 00792/2007, que está tramitando na Câmara Federal trata da Compensação financeira por serviços ambientais. Conforme o artigo 1º considera-se serviços ambientais aqueles que [...] se apresentam como fluxos de matéria, energia e informação de estoque de capital natural, que combinados com serviços do capital construído e humano produzem benefícios aos seres humanos, tais como,

16 os bens produzidos e proporcionados pelos ecossistemas, incluindo alimentos, água, combustíveis, fibras, recursos genéticos, medicinas naturais e também serviços obtidos da regulação dos processos ecossistêmicos, como a qualidade do ar, regulação do clima, regulação da água, purificação da água, controle de erosão, regulação de enfermidades humanas, controle biológico e mitigação de riscos (PL 00792/2007). A gestão dos recursos naturais, descrita no projeto de lei PL 00792/2007, somente poderá ser implementada com a participação de todos os cidadãos que integram a sociedade civil. O relacionamento da humanidade com a natureza tem sido caracterizado por uma forte pressão sobre os recursos naturais. Enquanto o ser humano não preserva a natureza, deixa de usufruir dos serviços oferecidos por ela. Os serviços ambientais estão se tornando a cada dia que passa mais raros. O mercado destes serviços naturais é movido pela atual crise ambiental. É preciso pagar para mantê-los. 2.3 A valoração dos serviços ambientais Com a incorporação da dimensão ambiental na análise econômica iniciam-se os estudos sobre a valoração monetária dos impactos produzidos pelo ser humano sobre a natureza. Na realidade, apesar de o problema ambiental não ser uma novidade, as tentativas de mensurar monetariamente os custos e benefícios dos impactos ambientais são relativamente recentes. Segundo Charlet (2005), valoração econômica da natureza constitui-se em um conjunto de métodos e técnicas que buscam estimar valores para os bens e serviços gerados por ela. Charlet (2005) cita a possibilidade da irreversibilidade na escassez dos recursos naturais onde coloca que a constante e necessária relação entre a natureza e as atividades econômicas gera impactos ambientais que raramente são levados em consideração quando é feita uma avaliação socioeconômica das atividades que os geram. Alguns economistas argumentam que os recursos ambientais conseguirão gerar seus próprios mercados, de modo que sua exploração e utilização ocorram de forma racional. No entanto, não é possível garantir que isto aconteça antes que estes recursos sejam extintos ou degradados, de tal forma que sua recuperação torne-se inviável economicamente. Assim, a valoração monetária ambiental torna-se essencial, caso se pretenda que a degradação da maioria dos

17 recursos ambientais seja interrompida antes que ultrapasse o limite da irreversibilidade. Algumas experiências de pagamento por serviços ambientais estão sendo desenvolvidas no Brasil e no Mundo. Pagiola (2005) cita o exemplo da Costa Rica, como o exemplo mais antigo de implementação de uma política de governo voltada para a compensação financeira a proprietários rurais. Estes produtores, através da conservação de florestas estão contribuindo no incremento da biodiversidade, bem como na melhoria da qualidade de água para o setor produtivo. O produtor rural, assim, é um ator chave no mecanismo de pagamento por serviços ambientais. Na Organização Mundial do Comércio (OMC), o conceito de serviços ambientais é delimitado sob a ótica das negociações para a liberalização do comércio de bens e serviços ambientais. Serviços ambientais são definidos pelo seu uso final, classificados em três atividades principais: controle de poluição (atmosférica, hídrica, do solo e sonora); gestão de recursos (destaque para sistemas de purificação e abastecimento de água potável); e tecnologia e produtos limpos ou eficientes no uso de recursos naturais (ALMEIDA E PRESSER, 2006). Observa-se na OMC uma tendência de enquadrar os serviços ambientais no rol dos demais serviços, vinculados a bens de consumo tradicionais. Por sua vez, países em vias de desenvolvimento, ricos em recursos naturais, atuam, no âmbito da organização, no sentido de vincular o comércio internacional dos bens e serviços ambientais a objetivos de sustentabilidade (CHARLET, 2009). Olam (2008) destaca o exemplo do estado do Espírito Santo que está implementando como estratégia de governo o pagamento por serviços ambientais, como política pública. Para tanto, instrumentos legais estão sendo criados no intuito de viabilizar legal e metodologicamente os mecanismos de PSA Pagamento por Serviços Ambientais. Um destes instrumentos é a regulamentação da metodologia dos cálculos destinados ao pagamento pela melhoria da qualidade da água, através do combate aos processos erosivos na bacia hidrográfica. O autor explica que a idéia da compensação tem origem nas Ciências Econômicas e atende ao disposto na Lei Nº /98, na qual se estabelece que a água é um bem dotado de valor econômico (ESPÍRITO SANTO, 1998). Neste caso, o impacto imediato esperado é a criação de um mercado de serviços ambientais na vertente dos recursos hídricos, no qual sejam estabelecidos, entre beneficiados e beneficiários, mecanismos de compra de serviços de recuperação e manutenção de

18 áreas estratégicas do ponto de vista hidrológico. O impacto final esperado é a melhoria das condições hidrológicas da bacia sem que isto signifique perda de renda para o setor produtivo. Em outras palavras, a prestação de serviços de manutenção das boas práticas passa a ser encarada como uma atividade econômica secundária, do mesmo modo que, em uma propriedade dedicada à floricultura, o produtor aproveita a grande oferta de matéria prima (flores) para a criação de abelhas. A valoração das águas está relacionada à proteção das bacias hidrográficas. Neste sentido a floresta se destaca ao oferecer alguns serviços como a regulação do ciclo hídrico da água, ou seja, a manutenção de vazão durante a temporada da seca e o controle para minimizar enchentes; a conservação da qualidade da água por meio da redução de sedimentos carreados; o controle da erosão e assoreamento; a manutenção dos habitats aquáticos, dentre outros (OLAM, 2008). Charlet (2005) ressalta, no entanto, que a valoração monetária de bens e serviços ambientais é necessária para induzir os agentes responsáveis pelos impactos ambientais a cumprir a legislação vigente. Não basta falar somente em ética e moral, há necessidade de se cobrar os valores monetários pelos danos causados. Assim, é preciso quantificá-los. Para que os impactos ambientais sejam minimizados, são necessários que os custos incorridos sejam muito superiores aos benefícios obtidos pelos agentes causadores, caso contrário, estes agentes não terão nenhum motivo para minimizá-los. Para o mesmo autor, muito se discute sobre a pretensão de valorar bens e serviços ambientais, já que não se pode fazer isso com bens intangíveis, como a vida humana, paisagens ou benefícios ecológicos de longo prazo. Porém, os bens e serviços ambientais são valorados todos os momentos, ao se estabelecer, por exemplo, padrões para construção de estradas, pontes, etc. Neste caso se valora a vida humana, já que se gasta dinheiro em construções que salvarão vidas. A realidade é que a sociedade valora o meio ambiente todos os dias. Christofaro (2007) coloca que alguns serviços ambientais, como aqueles proporcionados pela absorção e/ou tratamento de poluentes, que possuem grande importância na sustentabilidade de processos produtivos, são ainda pouco contabilizados. Esta ausência está relacionada ao fato de que as atividades industriais, de uma forma geral, podem gerar seus produtos mesmo sem uma disposição ou tratamento adequado de seus resíduos.

19 Alguns países estão desenvolvendo esquemas de pagamento por serviços ambientais como política moderna de conservação do meio ambiente e de desenvolvimento sustentável. É o reconhecimento de que a proteção dos ecossistemas, essenciais para a produção dos serviços ambientais básicos, não será alcançada apenas com a criação de instrumentos legais restritivos aos usos da terra (BOLSA FLORESTA, 2009). Charlet (2005) afirma que é clara a existência de uma profunda interação entre os sistemas econômicos e os sistemas naturais de tal forma que os sistemas econômicos são dependentes dos fundamentos ecológicos e, em última instância, do sistema global de suporte à vida. Para ele [...] a iniciativa de valoração deve ocorrer dentro de um referencial mais amplo e estratégico sob a perspectiva da sustentabilidade. Deve-se considerar também que os mais diversos conceitos de sustentabilidade, necessariamente, incluem como foco de suas preocupações, as questões relativas ao meio ambiente e aos recursos naturais (CHARLET, 2005, p.3). Por outro lado, Charlet (2005) coloca que as sociedades estabelecem também normas e regras sociais, ou princípios de comportamento que devem ser seguidos. Ao longo do tempo estas normas devem estar compatibilizadas ou serem consistentes com as leis naturais que governam a manutenção dos ecossistemas, ao mesmo tempo em que estes devem ser conservados se a sustentabilidade for aceita como um objetivo a ser alcançado. Pelo exposto acima, percebe-se que uma forma de reverter a indiferença do ser humano em relação à natureza é o pagamento ou compensação por serviços ambientais que tem como principal objetivo transferir recursos, monetários ou não monetários, para aqueles que ajudam a conservar ou produzir tais serviços. No Art 1º do Projeto de Lei 00792/2007, mediante a adoção de práticas, técnicas e sistemas que beneficiem a todos. Quando se fala em "pagamento por serviços ambientais" é importante entender o seu significado para quem recebe e para quem paga. Este pagamento pode ser pensado como uma maneira de envolver os moradores no controle dos recursos naturais. Neste caso, os moradores recebem um "pagamento contratual" para um serviço de sensibilização e fiscalização. Outra forma de pensamento consiste em compensar a perda da competitividade ou da remuneração devido ao respeito às regras de manejo (custo adicional) ou de proteção (dentro de Unidades

20 de Conservação). Também se pode considerar este pagamento como sendo uma forma de recompensa aos usuários que adotem voluntariamente regras ou práticas dedicadas a manter os serviços ambientais (BOLSA FLORESTA, 2009). Charlet (2005) ressalta que quem deveria receber este pagamento é quem faz o esforço de manter os serviços ambientais, seja morador, uma empresa usuária ou o próprio poder público. Os pagadores estão diretamente vinculados a quem recebe os benefícios dos serviços ambientais. Os serviços ambientais são usufruídos por todos. Portanto, para o autor, parece lógico que todos contribuam financeiramente para remunerar os que se esforçam para manter estes serviços. Qualquer decisão quanto ao uso dos recursos naturais e os serviços ambientais disponíveis no meio ambiente envolvem estimativas de valor, mesmo quando valores monetários não são utilizados. Sendo assim, ciente de que nem tudo pode ser salvo e mantido intacto, é essencial optar por formas de intervenção que tenham a melhor relação custo/benefício. Neste ponto é que a valoração econômica de bens e serviços ambientais pode prestar um relevante papel (BOLSA FLORESTA, 2009). 2.4 Métodos de valoração dos serviços ambientais Alguns métodos são utilizados para se estimar valor econômico de bens e serviços ambientais e várias são as propostas de classificá-los. Hufschmidt (1983) faz suas divisões de acordo com o fato do método utilizar preços provenientes: i) de mercados reais; ii) de mercados substitutos; ou iii) mercados hipotéticos. Já Pearce (1993), observando a metodologia em uso corrente na economia ambiental, afirma que existem quatro grandes grupos de técnicas de valoração econômica desenvolvidos a um nível sofisticado. Já Hanley e Spash (1993) os agrupam da seguinte maneira: i) forma direta e ii) forma indireta. Nogueira et al. (1998) comparam e analisam essas diferentes classificações, buscando compatibilizá-las. O Método de Valoração Contingente (MVC), utilizado neste trabalho, é comum a todas essas classificações. A idéia básica do MVC é que as pessoas têm diferentes graus de preferência ou gostos por diferentes bens ou serviços e isto se manifesta quando elas vão ao mercado e pagam quantias específicas por eles. Isto é, ao adquiri-los, elas expressam sua disposição a pagar (DAP) por esses bens ou serviços. Este método busca exatamente extrair a DAP de uma amostra de

21 consumidores por uma mudança no nível do fluxo do serviço ambiental através de questionamento direto, supondo um mercado hipotético cuidadosamente estruturado. O MVC foi originalmente proposto em 1963 num artigo escrito por R. Davis. Durante os anos 1970 e 1980, houve um grande desenvolvimento da técnica a nível teórico e empírico tornando-a bastante utilizada pelos economistas, (HANLEY E SPASH, 1993).

22 3 O ENSINO DE GEOGRAFIA E A GESTAO DAS AGUAS URBANAS Compreender o modo como o ser humano se relaciona com a natureza é um passo decisivo para desvendar e interpretar as transformações geradoras da degradação dos recursos hídricos decorrentes do processo de urbanização. No que se refere à gestão das águas, Galindo (2008), destaca a necessidade de articular-se ao processo de planejamento local, conjugando os instrumentos de gerenciamento com os de planejamento urbano, de modo a incorporar os aspectos sociais, políticos, econômicos ambientais do processo de construção e gestão do espaço. A Geografia como ciência tem como objeto de estudo o espaço geográfico, compreendido como socialmente elaborado, ou seja, fruto da interação constante entre o homem, organizado socialmente, e o meio natural. Considerando-se o papel da escola, de fornecer ao aluno às bases necessárias a real constituição de sua cidadania, entende-se como dos mais relevantes o compromisso da Geografia neste novo paradigma, notadamente pelos temas e assuntos intrínsecos a esta ciência. Neste capítulo serão abordadas as características da gestão das águas urbanas, bem como a problemática ocasionada pela falta deste instrumento nestes ambientes. O capítulo finaliza com a contribuição do ensino de Geografia para a construção de novos pensamentos os quais vinculem o aluno afetivamente ao ambiente urbano, tema de suma importância no trabalho de construção da cidadania discente. 3.1 Gestão das águas e planejamento urbano Segundo Prette (2002), embora o Brasil seja um país privilegiado quanto aos recursos hídricos, às formas diferenciadas de apropriação e suas conseqüências tornam o país um laboratório de problemas.

23 Quais são esses limites e quais as condições possíveis de se encaminhar institucionalmente uma gestão dos usos múltiplos dos mananciais constitui um desafio tanto para a administração pública, quanto para as organizações civis. O cerne da questão consiste em saber como garantir multiplicidade de usos com prioridade para o abastecimento público, quando a degradação dos recursos hídricos tem chegado a um ponto crítico, cuja origem é eminentemente social. O autor salienta que [...] o maior desafio para a gestão de recursos hídricos consiste em aproximar questão ambiental e questão social. Não é possível isolar os aspectos naturais das questões ambientais em um debate sério sobre as condições de desenvolvimento social e econômico e de um ordenamento institucional justo (PRETTE, 2002, p.148). No que se refere ao processo de planejamento e gestão urbana, as cidades brasileiras estão vivendo um momento crucial, o Estatuto das Cidades, ao determinar que os municípios elaborem planos diretores, possibilitou não apenas a regulação dos processos espaciais e do desenvolvimento urbano, mas a busca de soluções para os principais problemas que afligem a maioria dos municípios, principalmente no que se refere à degradação ambiental (GALINDO, 2006; POLEZA E POMPEO, 2007). Afinal, mais do que uma lei municipal, o Plano Diretor é o principal instrumento de Reforma Urbana, pois nele estão estabelecidos os meios pelos quais o município fará cumprir as funções sociais da cidade, que, necessariamente, remetem à proteção dos recursos naturais (MAGLIO, 2007). A legislação de proteção a mananciais, aprovada na maioria dos estados brasileiros, protege a bacia hidrográfica utilizada para abastecimento das cidades. Nestas áreas, é proibido o uso do solo urbano que possa comprometer a qualidade da água utilizada para o abastecimento. Segundo Tucci (2005), ao se declarar de utilidade pública a bacia hidrográfica do manancial deveria ser adquirida pelo Poder Público. O autor sugere também, para a propriedade na qual a bacia está inserida, a atribuição de um mercado indireto para a área, ou seja, poderiam ser implementadas, além disto, outros benefícios para os proprietários para compensar a proibição pelo seu uso e incentivá-los a preservá-la. Conforme o autor, a gestão das ações dentro do ambiente urbano pode ser definida de acordo com a relação de dependência da água através da bacia hidrográfica ou da jurisdição administrativa do município, do Estado ou da nação. A gestão dos recursos hídricos tem sido

24 realizada através da bacia hidrográfica, no entanto a gestão do uso do solo é realizada pelo município ou grupo de municípios numa Região Metropolitana. A gestão pode ser realizada de acordo com a definição do espaço geográfico externo e interno à cidade. Conforme Prette (2002), na última década do século XX, houve uma grande mudança institucional na gestão de recursos hídricos no Brasil. Iniciada com a Constituição de 1988 e estimulada por entidades da sociedade civil, a gestão de recursos hídricos cria um sistema próprio para tratar do grave problema da escassez da água. O autor coloca que a Constituição de 1988, ao considerar um capítulo exclusivo sobre meio ambiente, estabeleceu um novo tratamento para a questão ambiental. Condicionou, portanto, estados e municípios a adotarem procedimentos semelhantes, cujas constituições e leis orgânicas passaram criar sistemas de gestão e respectivos conselhos. Nesse processo, dois sistemas passaram a convergir: o Sistema Nacional de Meio Ambiente, conforme a Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº de ), e o Sistema Nacional de Recursos Hídricos. Segundo Prette a Política Nacional dos Recursos Hídricos estabelece, entre seus instrumentos, o enquadramento dos corpos de água em classes, segundo os usos preponderantes, a outorga dos direitos de uso, a cobrança pelo uso, a compensação aos municípios e o sistema de informações sobre recursos hídricos. Além disso, uma integração participativa, com a constituição de Conselhos Nacional e Estaduais, bem como de Comitês de Bacias Hidrográficas compostos por entidades públicas, institutos de ensino superior, de pesquisa e desenvolvimento tecnológico, e entidades civis, além de usuários das águas representados por entidades associativas, associações especializadas em recursos hídricos, entidades de classe, associações comunitárias e outras associações não governamentais. 3.2 As águas urbanas: características e problemas Ao mesmo tempo em que a as áreas urbanas crescem de maneira desordenada, a natureza destes locais sofre com a intensa ocupação. Rodrigues (1989) destaca que a maior parte das favelas estão localizadas em terras públicas, da União, estado ou município. Em geral as ocupações ocorrem nas chamadas áreas verdes. Pela legislação em vigor os lotadores são obrigados a deixar 15% da gleba total para serem utilizadas como áreas verdes. Em geral estas áreas é que

25 são ocupadas pelos favelados. Na maior parte das vezes são os locais de maior declividade ou próximas aos mananciais, também os mais insalubres, o que também explica o porquê das favelas ocuparem as piores terras. O autor também enfatiza que este fator faz com que muitas vezes o morador não tenha uma boa relação com a natureza, em face da falta de recursos e do baixo nível de instrução, fazendo com que desconheçam a importância dos serviços ambientais que estes ecossistemas realizam. Não significa que pessoas que residem em lugares nobres não poluam o ambiente, mas sim que as possibilidades de ocupação e de saneamento são diferentes. A figura 1 ilustra de forma reduzida o ciclo de contaminação das águas urbanas. Com o aumento da urbanização, a água utilizada nas cidades retorna aos rios contaminada. A conseqüência da expansão sem uma visão ambiental é a deterioração dos mananciais e a redução da cobertura de água segura para a população (TUCCI, 2009). Figura 1: Ciclo da contaminação Fonte: Tucci, 2009.

26 Conforme Maricato (2001), as águas urbanas têm sido tradicionalmente usadas para atender o abastecimento público. Entendidas como um recurso mineral, elas são armazenadas, utilizadas e descartadas no curso de água mais próximo a jusante. Os autores afirmam que a água, sendo avaliada como mercadoria e não como um ecossistema, induz para um quadro impactante de difícil reabilitação. De acordo com Tucci (2009), os volumes de esgotos e de lixos retratam problemas críticos no mundo inteiro, principalmente nos países em desenvolvimento. No Brasil, todo tipo de substância é jogada nas correntes dos rios e nas redes de esgoto. Isto altera a composição da água e a qualidade dos mananciais que abastecem as cidades. O autor coloca que o abastecimento de água de fontes seguras e a coleta de esgoto, com despejo a jusante (sem tratamento) do manancial da cidade, tiveram como finalidade evitar doenças e seus efeitos, mas acabaram transferindo os impactos para mais adiante do ponto de lançamento. Essa fase é chamada de higienista. O crescimento urbano no século XX se acelerou depois da Segunda Guerra Mundial. Esse processo foi seguido da urbanização acelerada, levando uma alta parcela da população para as cidades, resultando em colapso do ambiente urbano em razão dos efluentes sem tratamento. Para o autor, o Brasil infelizmente está ainda na fase higienista em razão da falta de tratamento de esgoto, transferência de inundação na drenagem e falta de controle dos resíduos sólidos. A situação tem-se agravado em função da crescente impermeabilização do solo, como também da imprevidente ocupação urbana, muitas vezes relacionada a canalizações de córregos. Os autores mencionam, que todas as atividades relacionadas com o uso e ocupação do solo, bem como o uso e controle dos recursos hídricos de uma bacia, são vinculadas pelo movimento da água, através de seu território. Segundo Godin Filho e Medeiros (2004), os efeitos do processo desenvolvimento urbano refletem sobre toda a infra-estrutura urbana, em particular sobre aquela relativa a recursos hídricos, gerando impactos de naturezas diversas (sociais, econômicos e ambientais) em função do inadequado gerenciamento da água. Dentre os problemas mais comuns em áreas urbanas pode se destacar as inundações, figura. 2.

27 Figura 2 Enchentes urbanas Fonte: SWITCH, Rodrigues (1989) coloca que a cidade é lugar da modernidade, do progresso da artificialidade, e os rios, muitas vezes, não são vistos como um elemento integrado na sua planta. Exclui-se a idéia cultural da cidade. A não-existência dessa visão ecológica é também uma representação social e acaba justificando, entre outras coisas, práticas do Poder Público de canalização dos rios, aterramento de áreas alagadas, retirando as águas das vistas da sociedade, sem encontrar resistência. O posicionamento correto do individuo frente à questão ambiental dependerá da sua sensibilidade e consequente interiorização de conceitos e valores, os quais devem ser trabalhados de forma gradativa e contínua (Guimarães, 1995). Na busca de alternativas, apoiadas na prática de uma educação orientadora para a resolução dos problemas concretos embasados pela natureza, o ensino de geografia possui um enfoque interdisciplinar e uma participação ativa de cada indivíduo e da coletividade. A seguir, será abordado o ensino de Geografia e a importância do espaço de vivência dos alunos para a construção da consciência ambiental.

28 3.3 O ensino de Geografia e sua contribuição De acordo com Noronha (1997, p.37) a urbanização das grandes cidades parece ser o elemento de maior influência no processo de degradação dos arroios, esse fenômeno tomou impulso a partir do século XX, o crescimento dos grandes centros urbanos gerou subúrbios, que são os bairros que surgem e se desenvolvem na periferia urbana ao longo das grandes vias de circulação. A degradação dos arroios urbanos é uma situação presente no cotidiano dos alunos moradores destas localidades. Devendo ser trabalhado de forma concreta e elucidativa, partindo da realidade, a fim de significar algo representativo em suas vidas. A Geografia é uma ciência humana. Logo o aluno e a sociedade em que vive. O seu ensino não pode ser algo alheio, distante, desligado da realidade. Não pode ser um amontoado de assuntos, de temas soltos, sempre defasados ou de difícil compreensão. Não pode ser feita apenas de descrições de lugares distantes ou de fragmentos do espaço. A geografia que o aluno estuda deve permitir a ele se perceber como participante do espaço estudado, onde os fenômenos que ali ocorrem resultam da vida e do trabalho dos homens inseridos num processo de desenvolvimento (VESENTINI, 1992). O ensino de geografia deve possibilitar aos alunos o entendimento dos contrastes presentes na realidade local, regional e global, compreendendo que os arranjos espaciais são resultantes das atividades humanas, são construções sociais que tem como base a natureza. Ao referir-se a capacidade de compreender o que o espaço geográfico representa para um povo, Guimarães (1995) menciona que essa compreensão passa necessariamente antes pelo entendimento da lógica que existe no lugar, no qual vivemos. O autor adverte que não é o lugar em si que importa compreender, e sim, como as forças ali existentes estabelecem o jogo que vai permitir o resultado da complexidade da vida social. São forças decorrentes da ação humana sobre a natureza, das relações humanas entre si, das dimensões econômicas, sociais, políticas e culturais. Para Azambuja (1994), a Geografia não deve se reduzir a concepções tradicionalmente difundidas nas escolas, onde é proporcionado um acúmulo de informações sobre os lugares, conteúdos memorizados e fragmentados, tanto nos aspectos da natureza, quanto nos aspectos da sociedade.

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