Arquitetos e engenheiros: duas visões de mundo?

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1 jul. ago. set. l 2009 l N Xv, Nº 58 l IN R ÇÃ 205 Arquitetos e engenheiros: duas visões de mundo? yopanan c. p. rebello*; flávio helena jr.**; josé de oliveira**; samuel dereste dos santos**; sidnei palatnik** Resumo l Esse artigo analisa as relações entre Arquitetura e Engenharia. Percorre a historiografia tanto de formação quanto de atuação incorporando as instituições de ensino como reconhecimento de uma certa prática. Apresenta para isso o surgimento das primeiras escolas como base de ensino sistematizado que distingue as duas formações: Académie D'Architecture, fundada em 1671, École des Ponts et Chaussées, fundada em 1747, e École dês Ingénieurs de Mézières em A partir da formação inicial reconhece aproximações tendo em vista os desafios contemporâneos que exigem um maior entendimento entre as áreas. Arquitetura. Engenharia. Ensino e atuação. Palavras-chave l Arquitetura. Engenharia. Ensino e atuação Title l Architects and engineers: two worldviews? Abstract l This article analyzes the relationship between architecture and engineering. Runs through the history of both formation and performance of incorporating educational institutions in recognition of a certain practice. Presents to the emergence of the first schools as a basis for systematic teaching that distinguishes the two formations: Académie d'architecture, founded in 1671, Ecole des Ponts et Chaussées, founded in 1747, and the Ecole des Ingénieurs of Mézières in From the training approaches in order to recognize the contemporary challenges that require a greater understanding between the areas. Architecture. Engineering. Education and performance. Keywords l Architecture. Engineering. Education and performance 1. antecedentes históricos No período pré-revolução Industrial, um único profissional o arquiteto projetava os espaços, definia a estrutura, as fundações, os materiais, processos construtivos e até a decoração dos edifícios. Sendo assim, ele era um profissional pleno dentro do contexto em que estava inserido, participando de todas as etapas da concepção do edifício (Rebello, s.d.). Segundo Benevolo (2006), na França, no antigo regime e antes da Revolução Francesa, o ensino sistematizado de Arquitetura compete à Académie D Architecture, fundada em 1671, que goza de grande prestígio e se mantém aberta às novas experiências tecnológicas, participando intensamente da vida cultural de seu tempo. Data de recebimento: 03/05/2009. Data de aceitação: 25/05/2000. * Professor doutor do curso de Pós-Graduação Stricto Sensu em Arquitetura e Urbanismo da USJT. ** Alunos do curso de Pós-Graduação Stricto Sensu em Arquitetura e Urbanismo da USJT. Por volta de 1748, porém, esse quadro começa a mudar. Com a demanda por novas estradas, canais e fortificações, a tradição humanista da Académie D Architecture não consegue formar técnicos especializados, fazendo-se assim necessária a fundação, em 1747, da École des Ponts et Chaussées, e em 1748 institui-se a École des Ingénieurs de Mézières, com um ensino baseado em rigorosas bases científicas. Estabelece-se assim, pela primeira vez, o dualismo entre engenheiros e arquitetos. Se num primeiro momento a Académie D Architecture ofusca as novas escolas, com o tempo o horizonte destas se expande, com a diversificação das engenharias, enquanto os arquitetos veem seu campo de ação reduzir-se. Arquitetura e engenharia, ao se distanciarem em seus objetivos, iniciaram uma cisão em que o mundo exato e o mundo sensível não coabitam. Com a Revolução Francesa, a escola de Arquitetura perde sua condição de relevância, sendo incorporada ao novo instituto, como seção de Arquitetura, ao mesmo tempo em que o título de arquiteto também perde prestígio, a ponto de qualquer um poder comprar um título de arquiteto.

2 206 IN R ÇÃ yopanan et al l Arquitetos e engenheiros o ferro, permitindo a criação de novas formas de construir. Concorre para isso também a invenção e o desenvolvimento do concreto armado 1, que, por ser resultado das novas tecnologias, encanta mais à engenharia que à arquitetura, a qual, de imediato, não vê nele suas potencialidades plásticas, tendo o concreto sido desprezado no início pelos arquitetos (Benevolo, 2006). Dessa forma, os arquitetos veem seu território e importância reduzidos e demoram a perceber os sinais dos novos tempos e das novas demandas. Por outro lado, os engenheiros têm seu prestígio e atuação ampliados. Foto 1. Palácio de Cristal. Fonte: Disponível em <www.ric.edu/rpotter/crys_ Pal_Large_1851.jpg>. Acessado em 03/11/2009. A fundação da École Polytechnique consolida a posição dos engenheiros, que ganham cada vez mais destaque. No século XVIII, com a Revolução Industrial, surgem novas tecnologias, que fazem frente às demandas de reprodução em massa. O ornamento, requinte do trabalho do artesão e tão apreciado pelos arquitetos da época, passa a ser reproduzido industrialmente, em moldes para a fundição de peças de ferro, e oferecido na forma de variados estilos, à escolha do cliente (Silva, 1986, p. 27). Assim, os elementos de ferro vão se incorporando às construções convencionais, como varandas, balcões e escadas, entre outros, com a intenção de incorporar modernidade à construção (Silva, 1986, p. 29). Em função do surgimento de edificações com grandes vãos, como os pavilhões, estações ferroviárias e pontes, o ferro fundido é utilizado como material estrutural capaz de atender estas demandas, definindo sua forma e materialidade, como no caso da Iron Bridge, em Coalbrookdale, do Palácio de Cristal e da Torre Eiffel, e outros. Além disso, os arquitetos, ainda durante e após a Revolução Industrial, mantêm-se aferrados aos materiais tradicionais, construindo basicamente com pedra, madeira, alvenaria e cerâmicas, ligados ainda à tradição clássica, enquanto os engenheiros percebem a importância do domínio tecnológico dos novos materiais, principalmente 2. os primórdios da arquitetura moderna Em 1896, o arquiteto e historiador alemão Hermann Muthesius é enviado à Inglaterra como adido técnico, com o objetivo de estudar os avanços tecnológicos e a razão do sucesso do movimento Arts and Crafts (Artes e Ofícios) inglês, que, inspirado pelas ideias de William Morris, defendia a alta qualidade da produção artesanal, que se dava devido a um profundo conhecimento do ofício. Em 1902, Muthesius publica na Alemanha Stilarchitektur und Baukunst, em que enaltece e difunde as ideias de Morris sobre artes e ofícios. Diferentemente de Morris, no entanto, ele aceita as qualidades artísticas de certos produtos feitos por Foto 2. Torre Eiffel. Fonte: Sidnei Palatnik (autor).

3 jul. ago. set. l 2009 l N Xv, Nº 58 l IN R ÇÃ 207 a indústria farão parte integrante de qualquer processo de construção. Mas só o conhecimento técnico não é suficiente, e a arte deve estar intrinsecamente ligada a esse processo. A arte e a técnica, juntas, apontam para o futuro, o que convida engenheiros e arquitetos a uma aproximação 2. Foto 3. Vista sudoeste do edifício da Bauhaus, ala dos ateliers. Fonte: Magdalena Droste, Bauhaus Berlim: Bauhaus-Archiv Museum für Gestaltung, 1994, p máquinas, prenunciando o desenho industrial (Sorensen, 2000; Heitlinger). Muthesius é um dos fundadores, em 1907, da Deutscher Werkbund (associação de artes e ofícios DWB). Em 1912, Walter Gropius, fundador da Bauhaus, associa-se à DWB. Em 1919, Gropius torna-se diretor de duas escolas de Weimar, a Escola de Belas Artes e a de Artes e Ofícios, que se fundem e se tornam a Bauhaus (casa estatal de construção), para onde leva o ideário proposto pela DWB (Reucher). E a consequência disso foi: a Bauhaus influenciou todo o movimento moderno e o mundo contemporâneo. Em 1919, a Bauhaus inicia com uma declaração utópica: O edifício do futuro deverá combinar todas as artes numa entidade ideal e a meta final de toda atividade criativa é a arquitetura (Bauhaus). Gropius declarava: Não há diferença entre o artesão e o artista, mas todo artista deve necessariamente possuir competência técnica (Bauhaus). Este fundamento técnico era a base também para o ensino de arquitetura, que no currículo da Bauhaus vinha depois do estudo de arte, artesanato, e processos industriais, fazendo desta forma com que os arquitetos se aproximassem novamente do mundo da tecnologia dos materiais e também das estruturas. As ideias da Bauhaus, levadas por seus integrantes emigrados para os Estados Unidos, tiveram muita influência nos rumos da arquitetura americana e internacional. A mensagem da Bauhaus é inequívoca: o mundo será industrial. A técnica e 3. os métodos de projeto na arquitetura e na engenharia moderna Ao longo do período modernista, as grandes obras incorporaram de maneira frequente os novos materiais oriundos do desenvolvimento industrial. O concreto armado, o aço e o vidro foram os materiais mais empregados nesse período. Em contrapartida, a cisão entre arquitetura e engenharia ganhou proporções mais evidentes: a formação dos arquitetos e engenheiros, em geral e de forma comum no Brasil, não acompanhou os conceitos oriundos da Bauhaus, criando naqueles o hábito de pensar que a parte estrutural de um projeto é de única e exclusiva responsabilidade do engenheiro, e nestes, o de acreditar que as estruturas resolvidas, somente com base na lógica e ciência, resultam nas melhores soluções estéticas. Na medida em que essas ideias equivocadas são adquiridas, cria-se uma distância entre a engenharia e a arquitetura, impossibilitando a diversidade de combinações que podem ser feitas entre elas. Fica evidente, nesse contexto, que também compete mao arquiteto conhecimentos especializados da engenharia das estruturas, noções básicas de análise numérica, ciência dos materiais e de escala. O que acontece muitas vezes é a omissão, por parte do arquiteto, da concepção da estrutura, o que concentra esta decisão na abordagem do engenheiro estrutural, que muitas vezes se sente limitado a adotar a solução mais adequada para as exigências arquitetônicas. Sendo assim, é evidente a importância da concepção estrutural como parte do processo da criação arquitetônica e a necessidade de desmistificar e sistematizar o entendimento dos sistemas estruturais pelos arquitetos e cursos de Arquitetura. Por outro lado, persiste nos cursos de Engenharia, uma tradição politécnica, que leva o

4 208 IN R ÇÃ yopanan et al l Arquitetos e engenheiros Foto 4. Casa do mestre Gropius. Fonte: Magdalena Droste, Bauhaus Berlim: Bauhaus-Archiv Museum für Gestaltung, 1994, p profissional apenas a questionar variáveis técnicas. Forma um bom otimizador de processos, porém, com uma formação parcial, no que se refere à abrangência de suas decisões em relação aos métodos de projeto estrutural e arquitetônico. 4. conclusões Atualmente, diversas correntes arquitetônicas estão em voga. A marca característica de nosso tempo, segundo Montaner (2001), não é mais o modernismo, mas a pulverização de abordagens arquitetônicas. Uma dessas abordagens envolve a tecnologia, a arquitetura e a estrutura de tal forma imbricadas, que não é possível distingui-las. Torna-se necessário um amplo diálogo entre arquitetos e engenheiros, para lidar com essa linguagem. Peter Rice, engenheiro inglês falecido em 1992, e que trabalhou com arquitetos como Renzo Piano e Richard Rogers, escreveu que Em contrapartida ao pensamento de Rice, fica evidente que, apesar de o arquiteto ser motivado por questões pessoais, precisa ter conhecimentos técnicos suficientes que permitam desenvolver um projeto de maneira responsável, assim como o engenheiro também precisa ter a dimensão humana em sua formação, para melhor entender o impacto de suas decisões, sejam elas tecnológicas, de processos ou mesmo estéticas. No processo de desenvolvimento de produtos na área do desenho industrial, é fundamental, tanto o conhecimento humanista, como o conhecimento técnico dos materiais e processos, para que se possa ter controle criativo do objeto a ser produzido. De forma similar, aos arquitetos, além dos conhecimentos humanistas, é necessário um conhecimento dos materiais e das estruturas para que também possam ter um controle criativo de seus projetos. Novos desafios apresentam-se à arquitetura contemporânea, exigindo um maior entendimento entre essas áreas, que no fundo têm as mesmas origens e pretendem o mesmo objetivo: uma boa solução para a edificação, tanto do ponto de vista criativo, como tecnológico. Nesses tempos, em que engenheiros, destituídos de preconceitos, fazem arquitetura e arquitetos fazem engenharia, o que importa é que a estética e a estática sejam preocupações de quem projeta, independentemente o arquiteto, da mesma forma que o artista, é motivado por considerações pessoais, enquanto o engenheiro está essencialmente buscando transformar o problema em algo em que as propriedades essenciais da estrutura, dos materiais ou algum outro elemento impessoal, possam ser expressas. Esta distinção entre criação e invenção 3 é uma chave para entender a diferença entre o engenheiro e o arquiteto, e como ambos podem trabalhar no mesmo projeto, mas contribuindo de formas diferentes (Rice, 1994). Foto 5. Renzo Piano e Peter Rice. Fonte: David Crosley (Jodidio, 2008, p. 101).

5 jul. ago. set. l 2009 l N Xv, Nº 58 l IN R ÇÃ 209 do profissional que propõe a edificação. O resultado tem sido estruturas de rara beleza, com formas que, além de belas, apresentam grandes desafios estruturais. Referências bibliográficas BAUHAUS-Archiv Museum für Gestaltung Berlin. Portal disponível em <http://www.bauhaus.de/english/ bauhaus1919/index.htm>. Acessado em 03/11/2009. BENEVOLO, L. História da arquitetura moderna. Trad. de A. M. Goldberger. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, HEITLINGER, P. Verbete Adam Gottlieb Hermann Muthesius (1861-). Disponível em <http://tipografos. net/designers/muthesius.html>. Acesso em 03/11/2009. JODIDIO, P. Piano Renzo Piano Building Workshop 1966 to Today. Colônia (Al.): Taschen, KAEFER, L. F. A evolução do concreto armado. Disponível em <http://www.cimento.org/concreto.htm>. Acessado em 03/11/2009. MONTANER, J. M. Depois do movimento moderno arquitetura da segunda metade do século XX. Barcelona: Gustavo Gili, 2001, 271 p. REBELLO, Y. C. P. Engenheiros, arquitetos e um único objeto: a edificação. Anotações de aula. Curso de Mestrado em Arquitetura e Urbanismo da USJT, s.d. REUCHER, G. 1919: Inauguração da escola Bauhaus. Disponível em <http://www.dw-world.de/dw/ article/0,,782396,00.html>. Acessado em 03/11/2009. RICE, P. An Engineer Imagines. Londres: Artemis, SILVA, G. G. Arquitetura do ferro no Brasil. São Paulo: Nobel, 1986, p. 27. SORENSEN, Lee (ed.). Verbete Muthesius, [Adam Gottlieb] Hermann. In: Dictionary of Art Historians A Biographical Dictionary of Historic Scholars, Museum Professionals and Academic Historians of Art (27/11/2000). Disponível em <www. dictionaryofarthistorians.org/muthesiush.htm>. Acessado em 03/11/2009. TORROJA, E. Razón y ser de los tipos estructurales. Madri: Instituto Eduardo Torroja de la Construcción y del Cemento, Segundo Eduardo Torroja, engenheiro de estruturas, [...] La solución natural de un problema arte sin artificio -, óptima frente al conjunto de impuestos previos que la originaron, impresiona con su mensaje, satisfaciendo, al mismo tiempo, las exigencias del técnico y del artista. El nacimiento de un conjunto estructural, resultado de un proceso creador, fusión de técnica con arte, de ingenio con estudio, de imaginación con sensibilidad, escapa del puro domínio de la lógica para entrar en las secretas fronteras de la inspiración. Antes y por encima de todo cálculo está la Idea, moldeadora del material en forma resistente, para cumplir suya misión (Torroja, 1960). 3 Distinção entre criação, invenção e resolução de problemas: Inventar: propor algo novo que não existia antes. Descobrir: revelar pela primeira vez algo que já existia. Resolver problemas: achar soluções para determinada solicitação. Criar: capacidade de desestruturar a realidade e reestruturála de outras maneiras (Rebello). Notas 1 A utilização das estruturas de concreto como recurso de construção, segundo Kaefer, vem se valendo do longo período de experimentação. A primeira publicação sobre cimento armado (denominação do concreto armado aproximadamente até 1920) foi do francês Joseph Louis Lambot. Presume-se que em 1850 Lambot tenha efetuado as primeiras experiências práticas visando a estudar o efeito da introdução de ferragens numa massa de concreto (Kaefer).

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