DAS BONECAS PARA AS PANELAS : O TRABALHO DOMÉSTICO INFANTIL NO NORTE DE MINAS. EXPLORAÇÃO E PERDA DA INFÂNCIA?

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1 DAS BONECAS PARA AS PANELAS : O TRABALHO DOMÉSTICO INFANTIL NO NORTE DE MINAS. EXPLORAÇÃO E PERDA DA INFÂNCIA? Guélmer Junior Almeida de Faria Bacharel em Economia Doméstica-UFV Grupo de Trabalho: Direitos humanos, Políticas Sociais e Pobreza 1. Introdução: Etimologicamente, a palavra infância vem do latim, infantia, e refere-se ao individuo que ainda não é capaz de falar. Essa capacidade, atribuída à primeira infância, estende-se até os 7 anos, que representaria a idade da razão. Percebe-se, no entanto, que a idade cronológica não e suficiente para caracterizar a infância (FROTA, 2006). De acordo com Khulmann citado por Frota (2006), Infância tem um significado genérico e, como qualquer outra fase da vida, esse significado é função das transformações sociais; toda sociedade tem seus sistemas de classes de idade e a cada uma delas é associado um sistema de status e de papel. Entretanto, não é desse modo que a infância vem se desenvolvendo no Brasil, e mais especificamente nos cinturões das grandes cidades. É evidente, a questão social que envolve as crianças, hoje em dia. As manifestações da questão social que se expressam podem ser vistas na rua, tais como: pedindo esmolas, prostituição infantil e exploração do trabalho infantil. Para Iamamoto (2007), a questão social expressa, portanto, desigualdades econômicas, políticas e culturais das classes sociais, mediatizadas por disparidades nas relações de gênero, características étnico-raciais e formações regionais, colocando em causa amplos segmentos da sociedade civil no acesso aos bens da civilização. Ianni (2004), diz que há um descompasso entre a sociedade e a economia. E que as expansões capitalistas beneficiam-se das condições adversas sob as quais os trabalhadores são obrigados a produzir, no campo e na cidade. Ou seja, a mesma sociedade que fabrica a prosperidade econômica fabrica as desigualdades que constituem a questão social.

2 E ao pensarmos na infância, logo, nos deparamos com uma massa de crianças, vulnerabilizadas dos aparatos sociais. Segundo Scliar citado por Frota (2006), para estas crianças, a infância é um lugar mítico, que podem apenas imaginar. A partir disso que surge uma questão que Sabóia (2000), relatou em 1997 as Nações Unidas, em seu relatório sobre a situação mundial da infância; denunciava o trabalho doméstico infantil como de exploração oculta e de difícil visibilidade. Ela ainda acrescenta que o trabalho doméstico é uma das formas de exploração mais difundidas e menos pesquisadas, envolvendo muitos riscos para as crianças. Para tanto, quando se pensa na distribuição regional dessa questão; o norte de Minas, por apresentar características patriarcalistas, nos remete a pensar que existem artefatos culturais que reproduzem um discurso hegemônico, demarcando locais sociais para meninos e meninas. Nesse contexto, Moreno citado por Castro et. al. (2007), afirmou que as meninas têm mais liberdade para realizar tarefas domésticas. De acordo com Pinheiro citado por Frota (2006), a análise das representações sociais das crianças e adolescentes no Brasil tem sua vida social marcada pela desigualdade, exclusão e dominação. A partir dessas inferências que se percebem as seqüelas existentes num maior entendimento da infância como fenômeno único e universal. A questão que norteou este trabalho foi analisar o trabalho doméstico no Norte de Minas. Acredita-se que é fundamental a realização de pesquisas que problematizem o trabalho doméstico infantil, para que se reflita sobre essa questão social. 2. Das bonecas para as panelas : Pulando a infância. Neste estudo optou-se por utilizar de símbolos que juntos formaram a teia complexa e tênue que se insere o trabalho doméstico infantil. A partir do símbolo bonecas pretende-se estabelecer vínculos com o universo infantil. 1 Partindo do pressuposto de que ao brincar de boneca, a criança estaria representando o papel da mãe, que é o cuidar, zelar, alimentar, retratando, segundo Castro et.al. (2007), a multiplicidade de papéis; o que alguns pesquisadores tem definido como a fragmentação da identidade. 1 Símbolos da infância: brincar, proteção e liberdade para aprender e crescer.

3 Dessa forma, bonecas seria o constructo social que é a base para a inserção da menina no universo privado (doméstico). Esta linha é tênue, e representa o elo da infância, corporificado no brinquedo (símbolo). Assim como o símbolo panelas relacionam-se com o ambiente; e com um artefato cultural, significando o lócus da mulher dentro do universo privado (doméstico). A participação da mulher como força reprodutiva dentro da sociedade. Para Brougére citado por Castro et. al. (2007), analisar o brinquedo é confrontálo com a imagem do mundo e da cultura, pois o brinquedo é um objeto que traz em si uma realidade cultural, uma visão de mundo e de criança. Dessa forma, os significados atribuídos aos brinquedos e ás brincadeiras variam de acordo com o tempo e com a sociedade. Ao trata a territorialidade e da cultura de um dado território em que vivemos, é mais que um simples conjunto de objetos, mediante os quais trabalhamos, circulamos, moramos, mas também um dado simbólico (SANTOS, 2003). Logo, Brougére citado por Castro et. al. (2007), acrescentou que brincar com um brinquedo é receber, por meio de um artefato cultural, os valores complexos de uma sociedade e, ao mesmo tempo, é interpretá-lo e produzir uma nova ação cultural que, mesmo que esteja de acordo com os valores impostos pelo objeto, é sempre uma produção singular num objeto específico. Então ao abandonar seu reino de fantasia para se inserir num mundo de realidade, a criança tem sua infância solapada. Percebe-se uma troca entre a infância pelo trabalho. É tênue porque dizima uma etapa importante da vida infantil. Mas é o trabalho segundo Martins citado por Iamamoto (2007), que considera a exclusão social um sintoma grave de uma transformação social, que vem, rapidamente, fazendo de todos, seres humanos descartáveis, reduzidos à condição de coisa, forma extrema da vivência da alienação e da coisificação da pessoa. Têm-se, assim, que são os grupos mais vulneráveis que são abarcados pelas desigualdades sociais fruto da exploração do trabalho. 3. O trabalho doméstico infantil: O trabalho doméstico no Brasil existe de forma marcante e percebe-se a forte presença das mulheres neste tipo de atividade, onde persiste uma série de discriminações, baixos salários, extenuantes jornadas de trabalho e desrespeito à

4 legislação trabalhista. Muitas meninas e adolescentes se encontram hoje desempenhando estas funções, numa situação de exploração, sem nenhum direito social e trabalhista. Sabóia (2000) constatou que de cada dez meninas, nove estão presas em um ciclo de tarefas extenuantes, praticamente, em regime de escravidão. Há crianças trabalhando como domésticas na África, na Ásia, na America Latina, no Oriente Médio e em regiões do sul da Europa. Estas crianças encontram-se em situação de risco social, passíveis dos efeitos perversos deste tipo de serviço. Como a precariedade, instabilidade, condições de trabalho ruim, abuso sexual, exploração e dominação. De acordo com Beneria et. al. Citado por Hirata (2004), a globalização desvaloriza tedencialmente bens e serviços não mercantis, inclusive o trabalho reprodutivo, menosprezando valores e relações sociais que não aderem às normas do mercado e à maximização do lucro. Alguns estudos 2 que analisam a questão do trabalho infantil, nas últimas décadas, já vinham sinalizando que o emprego doméstico vem há muito tempo ocupando a mão-de-obra de meninas. Entre 1981 e 1989, esta ocupação manteve o primeiro lugar absoluto no ranking das ocupações femininas com o mesmo percentual de ocupadas e o mesmo rendimento médio (SABÓIA, 2000). Em 2001, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) do IBGE constatou que existia no Brasil meninas empregadas domésticas no país entre 10 e 16 anos. Dessas encontram-se na faixa entre 05 e 17 anos e na faixa de 16 a 17 anos. Em 1998, este contingente representava 8 % do total de trabalhadoras domésticas. Quando se analisa as condições econômicas, étnica e a escolaridade, percebe-se que este contingente é composto basicamente por meninas pobres, de cor/raça preta ou parda e com baixa escolaridade (SABÓIA, 2000). Em seu relatório Mendes (2009), indagou que o trabalho doméstico reflete a discriminação racial e de gênero que as mulheres sofrem na cultura brasileira. Para a OIT (2005), ao desenvolver o trabalho doméstico no domicílio do empregador, a própria convivência no espaço privado gera condições de ambigüidade nas relações de trabalho e emprego. Esta situação se agrava quando o trabalhador ou a 2 Ver Ribeiro e Sabóia, 1993, Sabóia e Bergman, 1994, entre outros.

5 trabalhadora é uma criança, pois as garantias devidas geralmente ficam à discrecionalidade do empregador. Frota (2006) analisou que com a aprovação do Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) em 1990, surge uma base legal e moderna, definindo todas as crianças como sujeitos de direitos, com necessidades especificas, decorrendo de seu desenvolvimento peculiar, e que, por conta disso, deveriam receber uma política de atenção integral a seus direitos construídos social e historicamente. Desse modo, o ECA foi o marco regulamentório na relação entre o trabalho infantil e adolescente. Sendo combatido veementemente pela Organização Internacional do Trabalho/OIT. De acordo com Sabóia (2000), em Janeiro de 2000, o governo brasileiro homologava as convenções 138 e 182 da OIT, que prevêem, respectivamente, idade mínima para admissão no emprego e diretrizes para eliminação do trabalho infantil em todos os países do mundo. Contudo, apesar de terem direitos assegurados pelo ECA, as crianças pobres ainda se vêem marginalizadas. Têm-se, assim várias infâncias e diversas formas de ser crianças. Com seus direitos assegurados pela lei, falta agora fazê-los ser cumpridos em todas as instancias publicas e privadas (FROTA, 2006). 4. Exploração e perda da infância: O caso do Norte de Minas. Em Abril de 2009, uma campanha do Ministério do Trabalho (MPT), do município de Montes Claros veio esclarecer ao cidadão sobre a ilegalidade do trabalho doméstico para menores de 18 anos. Com a frase: Dizer que a menina ganha seu dinheirinho... traça-se um marco cultural da forma de pensar e agir que estão equivocados. Para a Procuradoria do Trabalho em Montes Claros, muitas pessoas não sabem dessa ilegalidade. Para ela o objetivo da campanha é que o empregador ou empregadora tenha consciência das conseqüências do trabalho infantil doméstico e deixe de contratar crianças e adolescentes para esse tipo de função (MPT, 2009). De acordo com Mendes (2009), as causas que estão além da necessidade de sobrevivência, como a cultura machista e escravocrata ainda persistente no nosso cotidiano e conseqüências que ultrapassam os efeitos negativos imediatos nas vidas das crianças e adolescentes, outras marcas de submissão e exclusão ficam estampadas na sua vida trabalhista e social.

6 O trabalho infantil doméstico no Norte de Minas é uma mácula social e cultural, que, contudo, pode ser desfeita com a conscientização. A campanha do MPT argumenta que: No tempo em que a menina está trabalhando na sua casa, ela deveria ficar com a própria família, estudar e ser feliz (MPT, 2009). Desse modo, o motivo da campanha é possibilitar novas maneiras de compreender o problema, trazê-lo à tona no debate público, discutir as nossas responsabilidades e ainda conscientizar para que não permitimos que exista o trabalho infantil doméstico. De acordo com o MPT, o esforço de esclarecimento sobre o trabalho doméstico faz parte da atuação do MPT para coibir o trabalho infantil como um todo no Norte de Minas. Segundo a Procuradoria do Trabalho no município de Montes Claros, há 37 procedimentos investigando o trabalho infantil na região. As estimativas do governo mostram que 300 mil crianças continuam sendo exploradas, principalmente, no serviço doméstico. Sabóia (2000) acredita que vários fatores aceleram o aumento de crianças empregadas neste tipo de trabalho. Com o ingresso de um número maior de mulheres nos mercados de trabalho formal e informal, juntamente com as reduções ocorridas nos serviços de assistência social em muitos países, cresceu a demanda por trabalhadores domésticos. As mulheres e um número cada vez maior de crianças provenientes de famílias empobrecidas, incluindo as famílias que a pobreza expulsou das áreas rurais para as áreas urbanas à procura de emprego, tornaram-se uma fonte imediata para esse tipo de trabalho. O compromisso social que devemos assumir segundo Mendes (2009), é partir para um processo de transformação da realidade que se antepõe então ao desejo, a decisão e o compromisso. Quando nos perguntarmos se é possível erradicar o trabalho infantil no Brasil, perguntamos sobre sua factibilidade, mais também pelo nosso grau de compromisso com essa mudança. Com quem queremos comprometer: Com os exploradores ou com os explorados? É hora de superar esta posição social cômoda que exime aos adultos (família, estado e sociedade), da sua responsabilidade na garantia da preparação das nossas crianças e adolescentes para uma inclusão social adequada. E eticamente o que é mais grave: delegamos a eles e a elas esta responsabilidade de forma precipitada. O trabalho prematuro não só gera conseqüências no desenvolvimento pessoal mais também ao desenvolvimento do país (MENDES, 2009).

7 Logo, em regiões com herança histórica cultural muito arraigada, há que se pesquisar, discutir e refletir sobre questões do nosso cotidiano doméstico, pois, estas se reproduzem silenciosamente e na invisibilidade. Mudança para conscientizar, ou conscientização para mudar? Os estados crônicos de dominação, exploração e submissão do masculino sobre o feminino, do branco sobre o negro, da branca sobre a negra, da mulher sobre a criança, do empregado sobre o funcionário, etc. Considerações Finais: Este artigo pretendeu analisar o trabalho doméstico infantil no Norte de Minas. Por considerar que é de fundamental importância pesquisas que versam sobre questões do nosso cotidiano doméstico, pois, estas se reproduzem silenciosamente e na invisibilidade. Para isso utilizou-se de instrumentos simbólicos como: bonecas que representaria os símbolos da infância; brincar, proteger e liberdade para aprender e crescer; e as panelas dando enfoque ao espaço doméstico, universo de reprodução. Percebendo assim, uma troca entre a infância pelo trabalho. Diz-se que é tênue porque dízima uma etapa importante da vida, vulnerabilizando uma grande parcela de crianças dos aparatos sociais. Conclui-se que o trabalho doméstico infantil coloca muitas crianças em situação de risco social, passíveis dos efeitos perversos deste tipo de serviço, como, a precariedade, instabilidade, exploração, dominação e até mesmo o abuso sexual. Para alguns pesquisadores o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a homologação das Convenções 138 e 182 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) trouxeram grandes avanços no combate a exploração do trabalho infantil. No entanto, em regiões que trazem artefatos culturais impregnados da cultura machista, escravocrata e patriarcalista, como o Norte de Minas, isto é, uma mácula social. Sendo esta combatida com a conscientização. Por fim, valem às indagações de Mendes (2009) a história e a cultura demonstram que não se erradica o trabalho infantil dos já incluídos sociais senão dos que ainda necessitam ser incluídos. O desafio possível, que o Brasil tem ensinado a comunidade internacional, é o trabalho coordenado interinstitucional e intersetorial para que cesse a ironia social de uma criança com fome (no amplo conceito e não só física) ter que servir a mesa do filho do seu patrão.

8 Referências Bibliográficas: CASTRO, A. P. P; SILVA, N. M; BARRETO, M. L. M. Brinquedo para meninos e para meninas: Uma visão dos vendedores em lojas de brinquedos. In: OIKOS. Revista Oikos, Viçosa, v. 18, n. 1, p , FROTA, A. M. M. C. A invenção da infância e da adolescência. In: OIKOS. Revista Oikos, Viçosa, v. 17, n. 1, p , HIRATA, H. O universo do trabalho e da cidadania das mulheres- Um olhar do feminismo e do sindicalismo. In: Reconfiguração das relações de gênero no trabalho. São Paulo: CUT Brasil, IAMAMOTO, M. Serviço Social em tempo de capital fetiche. SP: Cortez, IANNI, O. Pensamento Social no Brasil. Cadernos EDUSC ANPOCS, MENDES, R. J. Trabalho infantil doméstico: não leve essa idéia para dentro da sua casa. Disponível em Acesso em: 27 de Novembro de MPT. Ministério Público do Trabalho. MPT lança campanha contra trabalho infantil doméstico no Norte de Minas. Abril de OIT. Organização Internacional do trabalho. Trabalho doméstico e igualdade de gênero e raça: desafios para promover o trabalho decente no Brasil, SABÓIA, A. L. As meninas empregadas domésticas: uma caracterização socioeconômica. Estudo realizado para o Programa Internacional para Eliminação do trabalho infantil (IPEC), OIT, Rio de Janeiro, Fevereiro de SANTOS, M. O espaço do cidadão. 2 ed. São Paulo: Nobel, 1993.

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