Para analistas, EUA ainda têm vantagens sobre demais mercados financeiros globais, mas sua robustez é motivo de dúvida

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1 Crise Financeira Folha de S. Paulo, CLÓVIS ROSSI... 1 NOURIEL ROUBINI... 4 DANIEL COHEN... 5 NICOLAS BAVEREZ... 5 Para analistas, EUA ainda têm vantagens sobre demais mercados financeiros globais, mas sua robustez é motivo de dúvida Mecanismos mais baratos e eficientes de transferência de fundos e sistema judicial confiável são benefícios citados por economistas Atestado de óbito a Wall Street é prematuro CLÓVIS ROSSI Pelo menos dois importantes líderes globais assinaram nos últimos dias o atestado de óbito de Wall Street, a ruazinha que, por abrigar a Bolsa de Nova York, tornou-se sinônimo de mercados financeiros (norte-americanos e mesmo globais, porque Nova York é a mais global das cidades). Disparou primeiro Peer Steinbrück, o ministro alemão de Finanças: "Os Estados Unidos perderão seu status de superpotência no sistema financeiro mundial". Emendou o presidente russo, Dimitri Medvedev: "A época de dominação de uma única economia e uma única divisa ficou relegada ao passado de uma vez por todas". Crises costumam suscitar afirmações definitivas e grandiloqüentes. Crises graves, como a atual, tornam ainda mais ribombantes as declarações e também mais verossímeis. Tanto é assim que Sebastian Mallaby, diretor do Centro para Estudos Geoeconômicos, montou no site do respeitado Council on Foreign Relations -cuja sede, aliás, não fica muito longe de Wall Street- um fórum para discutir a morte da ruazinha como centro financeiro do mundo e, por extensão, o fim do dólar como refúgio nas tormentas e moeda universal de referência. A Folha acompanhou o fórum e ainda foi atrás de outras opiniões para descobrir que, salvo novas catástrofes, a notícia da morte de Wall Street é prematura. É fato, no entanto, que há motivos para suspeitar da higidez de Wall Street, como afirma

2 Charlie Calomiris, da Columbia Business School: "Já havia muita preocupação com a resistência de Nova York como centro financeiro, mesmo antes da turbulência atual. Assim, pode parecer razoável preocupar-se mais agora. Mas, por outro lado, Londres, a principal rival de Nova York, pode sofrer tanto quanto Nova York na crise". Calomiris lembra que lideranças de qualquer natureza dependem de criar a imagem de centros de inovação, em uma economia como a atual, baseada no conhecimento. É essa imagem que passam o Vale do Silício em software, Hollywood para o cinema, Nova Jersey para produtos farmacêuticos e, claro, "Nova York como o lugar para estar no mundo financeiro, porque jovens e ambiciosos financistas a escolheram". Imbatível Do outro lado do oceano Atlântico, Juan José Cruz, economista-chefe do grupo espanhol Santander, testemunha que não se trata de presunção de um norte-americano. "Todas as pessoas financeiramente ricas que conheço estão fascinadas com as oportunidades da China e querem ir para Xangai para ver como se constrói a Manhattan do século 21. Mas não conheço um só deles que queira ir para a China para montar o quartel-general de sua empresa financeira ou que eleja a legislação chinesa para dirimir conflitos em contratos", afirmou Cruz. Imagem não é tudo o que define as vantagens comparativas de Nova York. Mesmo no território exclusivamente dos produtos financeiros, que hoje estão no olho do furacão, Wall Street é imbatível, como depõe Roger Kubarych, que conhece a fundo esse mundo, como ex-economista-chefe justamente da Bolsa de Nova York, e que agora está escrevendo um livro sobre o sistema financeiro norte-americano e escândalos corporativos. "Os Estados Unidos têm contínuas vantagens sobre outros centros financeiros em nove dimensões", diz Kubarych, para citar, entre elas, derivativos, mecanismos mais baratos e eficientes de transferência de fundos, firmas que descobrem e financiam a próxima geração "de excitantes companhias", um sistema judicial confiável e a habilidade para trabalhar com parceiros (empresas e indivíduos) de diferentes culturas. A essas "nove dimensões", Brink Lindsey, vice-presidente de Pesquisa do Cato Institute, um dos principais centros do liberalismo puro e duro, acrescenta a saúde geral da economia: "A saúde da economia norte-americana no longo prazo depende da solidez das instituições econômicas. E há boas razões para acreditar que a presente crise não causará danos duradouros para essas instituições. Pode até estimular alguns aperfeiçoamentos que são de fato necessários". Um pouco na mesma linha vai um professor que está bem mais à esquerda, caso de James Galbraith, da Universidade do Texas e diretor da associação Economistas para Paz e Segurança. "Os Estados Unidos têm um problema de governança financeira e necessitam desesperadamente de um novo governo. O povo norte-americano parece ter entendido isso." Como um novo governo está a três meses de distância, deduz-se inevitavelmente que tampouco Galbraith assinaria o atestado de óbito de Wall Street. Pré-aviso Em meio a esse coro virtualmente unânime de confiança em Wall Street ("a menos que haja um cataclismo", como ressalva Lindsey), Jeffrey Frankel, da Kennedy School of Government, introduz uma palavra de pré-aviso. Primeiro lembra que Europa, nos anos 60, Japão, no fim dos 80, e mesmo países árabes, em 1991 (na Guerra do Golfo), estavam dispostos a pagar gastos que os EUA faziam, com o que o déficit em conta corrente (que mede todas as transações com o exterior)

3 desapareceu. Depois, Frankel acrescenta: "Infelizmente, desde 2001, durante o mesmo período em que os déficits gêmeos dos EUA reapareceram (o fiscal e o externo), nós também perdemos simpatia popular e suporte político em boa parte do mundo. Agora, a hegemonia perdeu o direito a reivindicar legitimidade aos olhos de muitos. Da próxima vez que os Estados Unidos pedirem a outros bancos centrais para salvarem o dólar, eles estarão dispostos a fazê-lo, como a Europa, nos anos 60, ou o Japão, nos 80?" Sua própria resposta: "Temo que não". Não é, ainda, um atestado de óbito tão claro quanto o de Medvedev ou Steinbrück, mas é um boletim médico que desconfia da robustez do paciente Mesmo com os EUA mais fracos, dólar deve continuar a ser moeda de referência DO COLUNISTA DA FOLHA Se, como tudo indica, os Estados Unidos sairão da crise mais fracos (quão mais fracos é uma questão em aberto), então o dólar necessariamente declinará e poderá até perder o papel de moeda de referência, que exerce desde que desbancou a libra esterlina há mais de 50 anos, certo? Errado, como constata Juan José Cruz, economista-chefe do grupo Santander, de um país (Espanha) que usa a moeda rival do dólar, o euro: "O refúgio para perdas nas Bolsas, para fugas de depósitos em bancos e para crash imobiliário são os papéis denominados em dólar". Reforça Antonio Corrêa de Lacerda, do Departamento de Economia da PUC-SP e expresidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais: "A economia norte-americana goza do privilégio de ser emissora exclusiva do dólar, ainda a moeda de referência internacional que concentra cerca de 75% de todas as transações mundiais e em torno de 65% das reservas cambiais dos bancos centrais dos demais países, estimadas em mais de US$ 7 trilhões. A despeito da crise, o dólar e os títulos emitidos pelo Tesouro norte-americano seguem exercendo o papel de refúgio para as aplicações. Isso, aliás, significa um importante trunfo para a recuperação norteamericana". Quem já viveu no comando de um banco central o derretimento de uma moeda (o real brasileiro), caso de Armínio Fraga, tem ponto de vista parecido, embora ressalve, como vários outros consultados, que "há uma tendência clara de crescimento do papel do euro na economia mundial a partir de seu lançamento, em 1999, e do sucesso do Banco Central Europeu (BCE) em replicar a moeda forte alemã". "Mas", acrescenta Armínio, "não creio que essa redivisão da função de moeda âncora do mundo vá ocorrer em pouco tempo, especialmente se não houver uma grande depreciação do dólar" (e não está havendo por enquanto; ao contrário, o dólar tem se valorizado). A manutenção do papel relevante do dólar não é mérito apenas da moeda norteamericana, mas demérito das outras moedas, como constata Desmond Lachman (American Enterprise Institute e ex-funcionário do FMI, no qual teve papel ativo na formulação de políticas para países emergentes): "Não há dúvida de que o sistema financeiro norte-americano será seriamente afetado pela presente crise. Mas os sistemas financeiros da Europa, em especial o do Reino Unido, também serão. Parece-me que os EUA têm mais flexibilidade política que a

4 Europa, o que torna provável que se recupere mais rápido que a Europa. Além disso, as economias emergentes da Ásia e especialmente a da China serão duramente atingidas pela crise". Armínio concorda: "A crise financeira americana é extraordinária, mas a Europa não está imune, o que evita um movimento mais rápido para o euro. Mais adiante é provável que a moeda chinesa entre também na disputa, mas vai demorar um certo tempo". (CLÓVIS ROSSI) NOURIEL ROUBINI O domínio do capitalismo financeiro anglo-saxão acabou? A crise é fruto dos excessos do liberalismo e do laissez-faire destes últimos dez anos. Os reguladores acreditaram nas virtudes do livre mercado e da auto-regulamentação. O julgamento deles foi incorreto. A lição é clara: precisamos de uma regulamentação melhor. O paradoxo, hoje, é que, para resolver esses excessos, o Estado americano está se excedendo no sentido inverso. Ele injeta aqui US$ 200 bilhões para nacionalizar Freddie Mac e Fannie Mae, os dois gigantes do refinanciamento hipotecário, ali US$ 85 bilhões para recapitalizar a seguradora AIG. Os USA se tornam URSSA, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas da América. O governo age de maneira precipitada, tomando decisões que terão conseqüências profundas. Temos a sensação de estarmos numa república de bananas! Dessa maneira, passamos de um extremo ao outro. A via mais correta é a do meio, com uma regulamentação mais rígida que, entretanto, não crie obstáculos à inovação. Sem dúvida chegaremos a isso depois de algum tempo. Será que o Velho Oeste selvagem (do sistema financeiro) faz parte do passado? É preciso ser prudente. Daqui a alguns anos é possível que tudo isso tenha sido esquecido. Já passamos por muitas crises: a dos anos 1980, a recessão dos anos 1990, a implosão da bolha da internet em A cada vez, uma bolha se refaz com dinheiro fácil e reguladores que parecem estar dormindo. Vamos ver o que vai acontecer. NOURIEL ROUBINI é professor de economia da Universidade de Nova York e presidente do Roubini Global Economics Monitor. FRASE Os USA se tornam URSSA, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas da América. O governo age de maneira precipitada, tomando decisões que terão conseqüências profundas. Temos a sensação de estarmos numa república de bananas! Dessa maneira, passamos de um extremo ao outro. A via mais correta é a do meio, com uma regulamentação mais rígida que, entretanto, não crie obstáculos à inovação DANIEL COHEN é professor da École Normale Supérieure, em Paris

5 DANIEL COHEN O mercado financeiro precisa ser inteiramente revisto. Desde a crise de 1929, a atenção voltou-se principalmente aos bancos comerciais. Tendo o pânico dos depositantes sido o principal vetor da crise dos anos 1930, a regulamentação foi concentrada sobre os bancos de depósitos. E isso funcionou razoavelmente bem. Não houve nenhuma crise de grandes proporções no sistema bancário dos EUA após a guerra. Um dos objetivos principais do mercado financeiro era sair do ambiente regulamentar imposto aos bancos. As regras clássicas obrigam os bancos a manterem US$ 1 de capital, mais ou menos, para cada US$ 12 de crédito. O mercado financeiro permitiu a seus atores darem US$ 32 de crédito para cada US$ 1 de capital! Os bancos de investimento, os fundos de hedge e as seguradoras se beneficiaram de brechas na regulamentação para multiplicar o montante de suas operações. Os bancos comerciais, por sua vez, criaram "veículos" que não constam de seus balancetes, para poderem passar ao largo da regulamentação (de maneira legal). O resultado é o que estamos vendo agora. Todo o trabalho dos próximos anos vai consistir em traçar regras que vão recolocar a pasta dental do capitalismo financeiro dentro de seu tubo. Será preciso impor regras de prudência novas ao conjunto dos atores, regulamentar a titularização dos créditos, fiscalizar as agências de classificação, rever as normas contábeis. DANIEL COHEN é professor da École Normale Supérieure, em Paris. NICOLAS BAVEREZ A expressão "capitalismo financeiro de tipo anglo-saxão" cria a impressão de que apenas EUA, Reino Unido e Irlanda estão em crise. Na realidade, o choque abalou o capitalismo globalizado, do qual o sistema financeiro é a ponta-de-lança. Os países que poupam e exportam, como China, Alemanha e Japão, são afetados. China, Rússia e Brasil correm para socorrer seus bancos. Estamos assistindo a uma deflação pela dívida, como ocorreu em 1929: a explosão de uma bolha de crédito leva a uma contração violenta de patrimônios, receitas, atividade e emprego. Duas grandes lições podem ser tiradas dos anos 30: frear a cascata das quebras de bancos e privilegiar soluções cooperativas no plano internacional, para evitar a espiral de barreiras protecionistas e desvalorizações competitivas. O resgate dos bancos já iniciou, mas nacionalmente. A ajuda internacional é inexistente. O capitalismo vai sair da crise profundamente transformado. A prioridade será dada à segurança em lugar do risco, com conseqüente redução do crescimento potencial; reequilíbrio entre Estado e mercado; nova valorização da indústria, em detrimento do setor financeiro; mudança do modelo econômico dos bancos, com uma concentração dos atores e novo foco sobre os bancos comerciais; declínio relativo dos países desenvolvidos -especialmente os EUA- e aceleração da passagem para um sistema econômico multipolar e heterogêneo. NICOLAS BAVEREZ é economista-historiador.

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