CURRICULUM E GÉNERO NA PÓS-MODERNIDADE: MOÇAMBIQUE. Geraldo Cebola João Licas (Universidade Pedagógica- Moçambique) 1

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1 CURRICULUM E GÉNERO NA PÓS-MODERNIDADE: MOÇAMBIQUE O CASO DE Geraldo Cebola João Licas (Universidade Pedagógica- Moçambique) 1 RESUMO O debate de eleição neste artigo está ligado à interpretação que se faz da categoria género e do seu enquadramento no curriculum (educacional) moçambicano. Do curriculum se refiro, mormente, ao do ensino básico moçambicano com algum salto breve para o ensino superior. Durante muito tempo se confundiu género com mulher, falar de género significou falar de mulher. Mas na saída do século XX começou a ficar claro que género não significa mulher, mas sim uma categoria relacional. Tanto que hoje se fala de equilíbrio de género nos emancipadores do feminismo e não mais da igualdade entre homens e mulheres. Na actualidade há papeis outrora tidos como femininos que, dependendo de sociedade, transitaram e passaram a ser unisexos (como o trabalho das transas nos salões); há características que eram tidas como especificamente femininas (como cuidar de crianças e fazer tranças), hoje os homens já transam e põem brincos sem constituir algo estranho. As mulheres já incorporadas no exército, jogos de boxe e futebol. Apesar de o género ser uma temática bastante discutida nos meandros académicos moçambicanos e a literatura universal concernente à categoria género já ser de acesso acessível para a sociedade africana e moçambicana em particular, em África e Moçambique em particular a categoria género ainda tem sido interpretada como mulher. E esta visão se encontra patente no curriculum moçambicano. Por outro lado, esta visão é apoiada pela ideologia vigente. Ainda este ano o presidente Armando Guebuza, de 1 Licenciado em História pela Universidade Eduardo Mondlane (UEM, Moçambique) e, mestrando em Educação/Ensino de História Pela Universidade Pedagógica (UP, Moçambique). Docente de História Política e de Ciência Política no departamento de Ciências Sociais da Universidade Pedagógica Delegação do Niassa (Moçambique). cell: ;

2 Moçambique, foi laureado como patrono do país-exemplo na promoção do género em África. Assim, se apregoa que elevar a mulher, por a considerar capaz de ocupar cargos de direcção, é sinónimo de promover o género. No curriculum moçambicano, depois da independência, o governo tratou do género como a recuperação e valorização da mulher moçambicana. Assim foram mediatizadas figuras femininas como Josina e Graça Machel; Laurinda Pachinuapa e mais algumas que se destacaram aquando do decurso da Luta de Libertação Nacional contra o colonialismo português. Apesar de hoje, na pós-modernidade, se aceitar as novas tendências sexuais e a homossexualidade como normalidade e não anomalia, o debate sobre o género em África e Moçambique ainda está amarrado à sinonímia de género como mulher. Assim, como consequência no currículo moçambicano, género ainda é colocado como mulher ou carregada do dualismo sexual homem e mulher, masculino feminino. A mudança passaria pela reforma da ideologia vigente e da interpretação institucionalizada na sociedade (do dualismo sexual e da colagem do género à mulher), uma espécie de reforma do Karl Marx chamou de tom da época. ABSTRACT The discussion in this arctic consists on interpretation of gender in Africa and Mozambique, particularly in the educational curriculum context. I refer, particularly, the basic and high education curriculums from Mozambique. Since many times ago, to toke about gender mint to toke about woman or feminism. But in the final of XX became clear that gender doesn t mean woman or feminine, it means relationship. Now days, post-modernity era, men literature tokes about equilibrium of gender instead of gender equality or equality between man and woman. Now days, some traditionally woman tasks can be performed by man and vice verse. In spite of the gender to be one of the issues many discussed by Mozambican academics and by the universal literature. In spite of much literature be available and accessible in Africa and Mozambique in particularly, the gender category still interpreted as meaning of woman. This interpretation is on educational Mozambican curriculum. In other hand, this interpretation is supported by present political ideology. In the beginning of this

3 year the president from Mozambique, Armando Guebuza, has been laureate as example of promoter of gender because he has put considerable number of woman in his government. Thus, gender means woman. After the independency, on the Mozambican curriculum, the government strived to trait the gender as the recuperation and to raise the value of Mozambican woman. So were considered Josina Machel, Laurinda Pachinuapa as example of courage during the fight against the colonialism. In spite of now days, in post-modernity, the acceptability of the new sexual tendencies and the homosexuality, the debate about gender in Africa and Mozambique particularly is still very linked to synonymous of woman. Thus, as consequence, on the Mozambican curriculum, gender is view as woman or means the duality of sexuality: mile and fame. The challenge is to change that concept, for that will be necessary to remove the institutionalized in mind of the African society or from Mozambican culture. Would be necessary to change the ideology of the moment, to reform what Karl Marx have named epoch ton. PALAVRAS-CHAVE Género na presente pesquisa entenda-se por género como uma categoria relacional não intrinsecamente ligada à identidade sexual. Pós-modernidade período da pós-crise da modernidade, período do domínio da matemática e da quantificação sobre o conhecimento científico, é período da incerteza. 2 Santos demonstrated that post-modernity epoch means the crises of the modernity, period that the domination of mathematics and the quantification above the scientific knowledge; is an epoch of probability and uncertainty. Is the era of the new paradigm, is the emergent paradigm. 3 Feminismo Segundo Vicent, o termo denota a investigação da opressão da mulher e entendimento e promoção da mulher em todas as esferas. 2 Vide Peter Mclaren em Multiculturalismo Crítico, Vide Boaventura de Sousa Santos 1996, em Pela Mão de Alice. Vide também, do mesmo autor, Um Discurso sobre as Ciências.

4 According to Vicent, the Word denotes the investigation of the oppression of women in the all spheres. 4 Curriculum Um conjunto de valores de suporte científico coligidos duma dada sociedade para sua transmissão. Segundo Sacristán, o Curriculum é a expressão do equilíbrio de interesses e forças que gravitam sobre o sistema educativo num dado momento, enquanto através deles se realiazam os fins da educação no ensino escolarizado. According to Sacristán, the curriculum is the expression of the equilibrium of interests and forces that gravity above the education system in certain period, while across those can possible to carry out the goals of education in the official education. 5 INTRODUÇÃO Género é uma temática deveras discutida em Moçambique, sobretudo em teses de estudantes universitários. É uma temática também propagandeada pelas ONGs e organizações feministas que estão implantadas em Moçambique. A categoria género é amiudadas vezes evocada, também pelos governos, particularmente o de Moçambique. Mas a categoria carrega consigo mitologias e preconceitos que dificilmente nos desmamamos deles. Eis a razão do presente debate. Constitui objectivo do trabalho trazer à luz a interpretação de género pautada nos currículos de ensino em Moçambique. A importância do tema reside no facto de se poder demonstrar a interpretação do género que se adeqúe à sua reconstrução pósmoderna, abarcante e inclusiva. O impacto dos movimentos feministas, que germinaram no solo da exclusão e injustiça que incidia sobre a mulher desde a Antiguidade, não se restringiu à Europa e `as Américas mas evadiu as fronteiras africanas. As discussões em trono da homossexualidade que tem alimentando o mundo das revelações sociais no ocidente transitam para África ainda de forma hesitante. A evasão das novas tecnologias e a 4 Vide Andrew Vicent, 1995, em Modern Political ideology. 5 Vide J. Gimeno Sacristán, O Currículo, Uma Reflexão sobre a Prática, 2000.

5 compactação do mundo à uma janela global contribui deveras para intromissão e alicerçamento das inovações teóricas do que Santos chama de paradigma emergente ou pós-moderno. Mas ainda não se regista mudança significativa no tratamento da categoria género. Metodologia O método eleito para a presente pesquisa é o método histórico dado que, apesar da pesquisa se circunscrever num tema da actualidade, houve necessidade de se mostrar a esteira evolutiva da interpretação do conceito género por fases históricas diversificadas. A abordagem é qualitativa dado que a base das interpretações e conclusões foi a análise qualitativa. A técnica fundamental para a produção presente texto foi a documentação indirecta, isto explica-se pelo facto da colecta de informação ter-se baseado na pesquisa bibliográfica e documental. GÉNERO OU FEMINISMO, QUE APROXIMAÇÃO? A categoria género foi, desde a Antiguidade, aproximada ao conceito mulher e da modernidade para cá a categoria género foi sendo colada à dois conceitos: mulher e feminismo. O feminismo como corrente e ideologia emergiu em defesa e emancipação da mulher e dos direitos a esta atribuíveis. Hoje em África são diversas as organizações cujo vértice de acção é a mulher. No entanto, actualmente diversas organizações têm evocado o género supondo que estão a emancipar e defender os direitos e empoderamento da mulher. Assim, para o caso de Moçambique, os medias, e diversos manuais produzidos com o apoio ou sob orientação das ONG tem acompanha os títulos evocadores de género com figuras ou retratos de mulher. Seus discursos têm atrelado a categoria género ao conceito de mulher. Se tornando, elas e seus discursos, limitadoras, exclusivistas e divissionistas. Ribeiro aponta que Graham, (1995), defende que o conceito de género tem sido discutido desde a Antiguidade grega, onde Platão e Aristóteles entendem-no como conceito de classificação biológica em que, num primeiro momento, classifica seres animais usando como critério a racionalidade, critério que origina um género para referir os animais, ditos, racionais (os reses humanos) e outro género para referir os

6 seres, ditos, nãos racionais (animais propriamente ditos). Num segundo momento o conceito género, restringe-se aos seres humanos usando critérios biológicos originando o género masculino e o género feminino, em referência aos indivíduos do sexo feminino. Tanto no primeiro como no segundo momentos, encontramos uma relação clara e distinta entre o conceito género e a realidade empírica que este se refere. (RIBEIRO, 2003:1). Ribeiro refere que num terceiro momento os papéis sociais servem como critério de diferenciação de género masculino para indivíduos que possuem sexo biologicamente masculino e que exercem papéis sociais masculinos e o género feminino para indivíduos que exercem papéis saciais femininos para os do sexo biologicamente feminino. (RIBEIRO, 2003:2). A categoria género como conceito tem sido interpretada como sinónimo de mulher. Nos estudos mais recentes tratar de género tem sido sinónimo de feminismo. Realçar aspectos de índole feminino, segundo estes estudiosos valorizar e elevar a mulher significa vincar o valor de género se baseando no dualismo sexual (homem/ mulher). Mas género é uma categoria relacional abrangente que não pretere outras tendências sexuais conhecidas como homosexuais, não significando mulher ou redundância feminista. Sendo género uma categoria relacional que depende da construção social ao longo do tempo se pretende perceber se esta categoria tem sido interpretada como tal no curriculum moçambicano. A aproximação existente entre o conceito mulher e a categoria género não é imediata e muito menos de fácil apego. É neste sentido que a desconstrução do elo aproximador bem como da redefinição da categoria constituem, ainda, caminho tortuoso. Tendo em conta que papéis sociais masculinos podem ser desempenhados por mulheres e papeis sociais femininos por homens, surge espaço para quatro tipos de realidades possíveis, sendo o primeiro de homens que desempenham papéis sociais masculinos, de homens que desempenham papéis sociais femininos, de mulheres que desempenham papéis

7 sociais femininos e de mulheres que desempenham papéis sociais masculinos. Neste contexto, falar da relação de género pode estar a referir-se a realidade que este categoriza perdendo sua delimitação clássica, uma vez que género pode estar a referir-se a qualquer das situações, o que levanta algumas questões, tais como o que é género, que realidade designa o género feminino e a que realidade designa género masculino? Onde se enquadram as novas tendências sexuais? CURRICULUM E GÉNERO NA PÓS-MODERNIDADE: O CASO DE MOÇAMBIQUE O curriculum reflecte o conflito entre interesses dentro de uma sociedade e os valores dominantes que regem os processos educativos. E a escola em geral adopta uma posição e uma orientação selectiva frente à cultura, que se concretiza no curriculum que transmite. O sistema educativo serve a certos interesses concretos e eles se reflectem no curriculum. (SACRISTÁN, 2000:17). Os nossos curricula do sistema de educação em África tiveram fases históricas antagónicas e de difícil reconstrução. Em muitos países africanos, com excepção de casos raros como Alexandria no Egipto, não registou uma escola no conceito de hoje que levasse as pessoas a saírem de casa com o objectivo de frequentarem em classes com professores indicados. Mas, entenda-se bem, não significa que as sociedades não tivessem aprendizagem ou educação. A escola para os africanos era a própria sociedade, a própria comunidade. Anciãos, famílias, pessoas indicadas para dirigirem ritos diversificados eram e sempre foram os verdadeiros professores das escolas africanas. Esses professores sempre obedeceram um dado curriculum, conjunto de valores aprovados como magnos para serem transmitidos. A diferença com os curricula trazidos pelos europeus incidia sobremaneira na tradução do curriculum para sua forma escrita e no facto de se indicar um espaço específico para a transmissão dos valores culturais coligidos - a escola. Mas, frise-se, os curricula europeus eram, como muitos autores já documentaram, eurocentristas e imperialistas no sentido de fazer entender ao africano que a sua europeização significava sua civilização. Os manuais de ensino representavam apenas

8 exemplos europeus. Para o caso de Moçambique se fez crer que o moçambicano era português. Depois da independência a educação em África e particularmente foi marcada pela negação dos curricula idos do tempo colonial, desconstruindo-os, como forma de trazer à luz os valores culturais reais, sobretudo nos campos da história e geografia. Assim se lutou por um curriculum representativo em Moçambique, fase acompanhada pela campanha ideológica da construção do homem novo de influência socialista Segundo Loforte & Artur, (1998:11), durante muito tempo na tradição académica (moçambicana), se tratou a categoria género como uma categoria homogénea quer na sua composição assim como nos seus comportamentos e práticas. De outra forma, se privilegiaram as opiniões, as ideias e concepções masculinas na análise social ignorando o carácter relacional do conceito de género. A autora documenta que estudos mais recentes têm elevado a heterogeneidade desta categoria, e que as relações de género são socialmente construídas. Assim, no entender das autoras, homens e mulheres ocupam lugares diferenciados na sociedade, sendo as relações de género configuradas de acordo com factores de natureza ideológica, histórica, étnica, religiosa e cultural. Ribeiro, (2003), conjectura que em Moçambique o conceito género, continua a ser um conceito para representar realidades sociais, no entanto a sinonímia género e indivíduos do sexo feminino é resultante da possibilidade de não incluir indivíduos de sexo masculino não pela sua inexistência, mas condicionada por um lado por interesses e afinidades dos pesquisadores, em relação as abordagens teóricas em torno da questão de género, influenciados pelo multiculturalismo e por outro por condicionalismos de financiamentos, que favorecem a avaliação e legitimação da sinonímia em análise. Loforte documenta que no concernente à docência os conteúdos programáticos das diferentes disciplinas dos cursos de geografia, história ou linguística congregam diferentes áreas de conhecimento, mas não têm fornecido instrumentos metodológicos e conceptuais que possibilitem aos estudantes uma análise das sociedades moçambicanos numa perspectiva de género. (LOFORTE, 1998:11).

9 Ribeiro refere que o espaço para o debate em torno das relações homem-mulher em Moçambique é aberto com o início da luta pela independência de Moçambique, uma vez que o movimento de libertação nacional FRELIMO, consciente não só desse destacamento, mas também da exploração do povo pelo colonialismo, assume que só através da eliminação de todas as formas de discriminação existentes contra a mulher é que se pode emancipa-la e leva-la a participar da luta armada. (RIBEIRO, 2003:26). Ribeiro cita Hirvonen & Braga (1999), com a independência nacional, a nova constituição nacional não só reconhece a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres, como também proclama a emancipação da mulher como uma das tarefas primordiais do Estado e a coloca no exercício do poder popular. O factor decisor para a emancipação da mulher era o engajamento na tarefa principal que era a transformação da sociedade: na edificação de uma base material ideológica para a construção da sociedade socialista. Mas na prática as mulheres continuaram subalternas, uma vez que a nível da OMM continuaram a ser instrumentalizadas, já não para o combate, mas a realização de actividades não remuneradas, de benefício comum, embora o acesso a saúde e educação fossem gratuitos. (RIBEIRO, 2003:28). Mas a mulher cai no conformismo. No pós independência, a mulher era levada para grupos de canto no partido por vezes sem consentimento dos maridos e temendo o divórcio muitas deixavam a emancipação de lado. Na verdade a mudança que se verificou na interpretação de género no período pósindependência incidiu, apenas, na negação da exclusão da mulher africana e moçambicana em particular. Justifica-se assim a elevação da mulher no processo da luta de libertação de Moçambique como forma de reverter o quadro feminino da ideologia anterior. Desta forma a imagem de Josina Machel é deveras evocada nos manuais de ensino, cânticos e coros culturais. Mas, frise-se, o currículo moçambicano não foge da simples distinção dos homens na base do dualismo sexual, fotografando, documentando e retratando a mulher como o lado fraco do ser: mulher mãe, mulher protectora dos filhos, mulher cozinheira. Ou de forma emancipada: outrora atrasada em relação homem, agora operária, militar/combatente, professora, por vezes maquinista chefe

10 hierárquica Graça Machel (ex ministra da Educação). Nesta matriz, a mulher africana, em particular moçambicana, é restaurada para a história. Mas, concordando com Loforte & Artur (1998:11-12), ao trabalhar com género como categoria exclusiva (mulher), esvazia-se e simplifica-se o conteúdo das outras identidades dos sujeitos classe, a idade, a etnia. Essa realidade inibe que se reconheça que múltiplas identidades significam também múltiplas posições e estratégias. Como se pode depreender, ainda que as autoras revistam com nova roupagem a interpretação de género e seu encaixe no currículo, a sua tese não se distancia tanto dos que olham para o género como versão sinonímica de mulher. A concepção de género que é trazida da Antiguidade é consolidada na modernidade por causa do dualismo cultural ou da visão dualista. A inspiração bíblica que conduz a humanidade a considerar a mulher como o oposto do homem e parte complementar do mesmo eleva a masculinização da cultura e civilização humanas e, isto pode se provar olhando para as gramáticas nascidas da modernidade como viários exemplos de dualidade cultural: masculino feminino, forte e fraco; alto e baixinho; bonito e feio; ordem e desordem; etc. E como, de acordo com Santos (1996:16), o conhecimento nascido da modernidade é um conhecimento causal que aspira à formulação de leis, à luz de regularidade observadas, com vista a prever o futuro, as teses da modernidade e suas consequências são evidentes. Isto porque alterar a visão dualista da cultura que ainda comanda nossas vidas ainda está aquém de ser significativa e, a interpretação da categoria género com base no dualismo sexual continua deveras forte, não só a nível de África e Moçambique e sim mesmo no ocidente. Por outro lado, um conhecimento baseado na formulação de leis tem como pressuposto metateórico a ideia de ordem e de estabilidade do mundo, a ideia de que o passado se repete no futuro (SANTOS, 1996:17). Assim, o facto de o futuro ser um continuum devir e indeterminado torna ainda difícil a imediaticidade da alternância da ordem moderna e com ela o dualismo cultural.

11 A época em que vivemos tem sido apelidada de pós moderna ou do paradigma emergente por autores como Santos Serra 67 e por parte de estudiosos de currículos como McLaren querendo traduzir a transição ou a desconstrução do projecto da modernidade. MacLaren documenta que vivemos uma época de cepticismo, em momentos históricos gerados em um clima de desconfiança, de desilusão e de desespero. Relações sociais de desconforto e de desconfiança sempre existiram, mas o nosso tempo é particularmente ofensivo neste aspecto, marcado pelo fascínio com a ganância, pelo desejo de consumo hipererotizado e descontrolado, por correntezas de narcisismo, por severas injustiças sociais e económicas e por uma paranóia social intensificada. (MACLAREN, 1997: 54). Mas no âmago dessa conjuntura contextual se regista levantes contra a submissão e exclusão de grupos sociais e culturais que lutam pela expressão e reconhecimento. É no âmbito da desconstrução da lógica epistemológica modernista marcada pelo positivismo, pelo dualismo cultural masculino feminino, que se relevam grupos homossexuais contra o dualismo sexual e que apesar de muitas sociedades já serem permeáveis à sua expressão, em África continua a constituir um mito e de difícil acepção. O género não deixou de ser assunto nos curricula das primeira República Moçambicana. A interpretação de género volta a registar um segundo momento de crise, se considerarmos que o primeiro se verifica com a negação da tamanha subordinação da mulher em relação ao homem e das desigualdades de oportunidades na educação, porque as outras tendências sexuais são agora propagadas e comprovadas pela biologia moderna. Assim biologia moderna sustenta a tese homosexualista: a pessoa pode ser do sexo masculino e sua tendência sexual ser direccionada também ao homem e o mesmo acontecendo com pessoas do sexo feminino. E sendo o curriculum uma representação cultural da sociedade ou a Expressão de valores que a sociedade deseja que sejam perpetuados/transmitidos se espera ou deve ser, também, representada a nova negação do dualismo sexual na interpretação da categoria género. 6 Vide Andrew Vicent em Modern Political Ideologies, Vide Carlos Serra em Combates Pela Mentalidade Sociológica, Maputo, UEM, Vide também DOLL Jr., 1997.

12 Em África, oficialmente, quer a evocação para se olhar o género como categoria relacional que eleve a complementaridade, quer a evocação para que se sepulte no cemitério da modernidade o dualismo sexual por causa das revelações das novas tendências sexuais continuam deveras aquém da sua efectivação. Um exemplo mais recente que sustente a tese apresentada é o facto do laureamento de Armando Guebuza (presidente da República de Moçambique) pela abertura de oportunidades para a mulher (ocupando cargos de direcção no Governo) no dia 3 de Abril deste ano pela Femmes Africa Solidarité, este acontecimento reside na visão do género condensada no dualismo sexual. Por outro lado, em Moçambique o novo livro escolar ainda não é inclusivo em termos de tendências sexuais e vinca apenas a heterosexualidade. Continuando a atribuir os papeis do homem a quem seja, biologicamente, do sexo masculino e; os papeis sociais da mulher a quem seja, biologicamente do sexo feminino. Na educação a expectativa em torno dos rapazes e raparigas é dissemelhante desde o afecto, as sanções ou premiação de condutas. Parafraseando Osório (1998:72), na história ensinada no currículo moçambicanas as crianças são levadas a identificar-se com os heróis (marcadamente masculinos) que pela sua força física e coragem enfrentam inimigos perigosos e vencem batalhas Tcaka; Ngungunhane; Maguiguane; Nyantsimba Mutota. E um ou dois nomes apenas de heroínas- Josina Machel; Ndzinga Mbade (que presume-se ser apenas lendária). Isto influi também no comportamento dos professores e das professoras no tratamento dos alunos e das alunas. Nos pós independência, o currículo moçambicano se ocupou da restauração ou até introdução da mulher na sociedade e na história da sociedade moçambicana apenas como sustentáculo da negação à sua exclusão pelo jugo colonial. Mas para além de exemplos soltos como os de Josina Machel não houve mais exemplos. Embora tenham surgido contribuições inovadoras em torno da desconstrução e reconstrução da categoria género como as de Loforte & Artur (1998), Osório (1998), Casimiro (1998), Ribeiro (1998), Tereza (1998), para o caso de Moçambique, estas não se distanciaram tanto das anteriores interpretações. O prémio atribuído ao presidente da República de

13 Moçambique pela promoção do género em Moçambique revela que os políticos assim como todos ligados à imprensa continuam a confundir género com mulher. Por outro lado, demonstra de forma evidente que ainda não são aceites outras tendências sexuais (homosexuais). Neste contexto, se nega género como uma categoria relacional que a pós-modernidade (pelo paradigma de rotura, emergente ou multicultural) propõe, preferindo-se o dualismo sexual. No concernente ao currículo moçambicano, pode se afirmar que não é representativo quando se toca na categoria género. CONCLUSÃO O currículo moçambicano (nos seus diversos sistemas e subsistemas de ensino) ainda não desconstruiu a cosmovisão dualista sexual do conceito género. Ele traduz reduzidamente pessoas do sexo feminino em mulheres (em termos de papeis) e as do sexo masculino em homens. O pior é a permanência ou resistência de posições tradicionais que teimem em considerar género como mulher. Os manuais de ensino representam a mesma visão tradicionalista, esta visão não é inclusiva é exclusivista porque deixa de fora os do sexo masculino (as masculinas) com tendência sexual feminina e as do sexo feminino (os femininos) com tendência sexual masculina ou com papeis sociais inversos. Contudo, entende-se que a visão e representação do género no currículo no modelo que se propõe neste trabalho requerem uma viragem, rotura com a mulherinização ou do conceito e aceitabilidade social que depende da ideologia norteadora do currículo. Esta rotura e regerminação do género não estão perto de acontecer, mas já é gritantemente necessária em África e Moçambique em particular. A categoria género ao ser interpretada como sinónimo de mulher, não é totalizante e logo exclusiva e separatista. Ao ser interpretada como uma categoria relacional mas, ainda, privilegiando a oposição sexual- marido/mulher, mãe/pai; é outrossim separatista. A categoria género, para que possa ser de facto inclusiva, deve tomar em consideração, também as tendências homosexuais e não considerá-las uma aversão `a normalidade.

14 BIBLIOGRAFIA DOLL Jr., William E. Uma Perspectiva Pós-Moderna, Porto Alegre, Artes Médicas, DUBY, Georges & PERROT, Michelle. História das mulheres: a Antiguidade, Porto, Edições Afrontamento, José Negrão, José. Homens e Mulheres na Agricultura: mitos e realidades. In: LOFORTE, A. & ARTUR M., Relações de Género em Moçambique: Educação, Trabalho e Saúde, Maputo, DAA-UEM, 1998 LOFORTE, Ana M. & ARTUR, Maria J. Relações de Género em Moçambique: Educação, Trabalho e Saúde, Maputo, DAA-UEM, MCLAREN, Peter. Multiculturalismo Crítico, São Paulo, Cortez editores, RIBEIRO, Marlen Isabel Monteiro. Género: entre conceito e realidades. Uma Abordagem ao Contexto Moçambicano. Setembro 2003, (Tese de licenciatura), Faculdade de Letras, UEM-UFCS, Curso de Antropologia, Maputo, Conceição Osório. Escola e Família. In: LOFORTE, A. & ARTUR M., Relações de Género em Moçambique: Educação, Trabalho e Saúde, Maputo, DAA-UEM, SACRISTÁN, J. Gimeno. O Currículo, Uma Reflexão Sobre a Prática. 3ª ed., Porto Alegre, SOUSA SANTOS, Boaventura de. 8ª ed. Um Discurso Sobre as Ciências Sociais, Porto, Afrontamento, SOUSA SANTOS, Boaventura de. 5ª ed. Pela Mão de Alice, Porto, Afrontamento, 1994.

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