MUSEU NACIONAL DE HISTÓRIA NATURAL

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1 MUSEU NACIONAL DE HISTÓRIA NATURAL MUSEU E LABORATÓRIO ZOOLÓGICO E ANTROPOLÓGICO (MUSEU BOCAGE) ONÇA-PINTADA OU JAGUAR? SOBRE A UTILIZAÇÃO DOS NOMES POPULARES DE ANIMAIS E PLANTAS NO BRASIL 'Por JUAN CARLOS GUIX Departament de Biologia Animal (Vertebrats), Facultat de Biologia, Universitat de Barcelona Avda. Diagonal 645, Barcelona, Espanha LISBOA

2 MUSEU NACIONAL DE HISTÓRIA NATURAL MUSEU E LABORATÓRIO ZOOLÓGICO E ANTROPOLÓGICO (MUSEU BOCAGE) ONÇA-PINTADA OU JAGUAR? SOBRE A UTILIZAÇÃO DOS NOMES POPULARES DE ANIMAIS E PLANTAS NO BRASIL por JUAN CARLOS GUIX. LISBOA

3 Nos últimos anos, com o incremento das publicações de carácter técnico e divulgativo sobre fauna, flora e ecossistemas do Brasil, também tem aumentado o uso de nomes de plantas e animais. Se por um lado, botânicos e zoólogos se têm preocupado em uniformizar o uso dos nomes populares, pouca atenção tem sido dada à origem destas designações e ao seu significado. A maioria deles tem origem indígena (especia1lmente dos troncos linguísticos Tupi e Guarani, ou do «Nhenga1u»), e boa parte foi incorporada ao Idioma Português no Brasil, a partir da interpretação sonora dos nomes por missionários, viajantes e naturadistas. Outros, geralmente de significados mais genéricos, foram trazidos directamente pelos pol'tugueses e espanhóis, persistindo até hoje no vocabulário normalmente utilizado no Brasil (ex.: aroeira, palmiteko, veado, anta, onça, ouriço, Ilontra, mono, gato-mowrisco, garça, pica-pau, tainha, -etc.). Ao longo dos anos, o processo de veicu!lação da informação gerou derivações do mpo «telefone sem fio» 1 ou nomes a partir de erros de interpretação. Por outra parte, muitos dos vocábulos populares plenamente incorporados, possivelmente originaram-se de designações de carácter geral ou mais amplas (veja tabela I). O célebre «pau-brasil»'1 actualmente uti[jzado para nomear Caesalpinia echinata Lam. (o «ibirapitanga» dos tupis), originalmente representava uma designação geral para um grupo de espécies de árvores que produziam tinta vermelha para serem utilizadas como

4 6 Juan Carlos Guix TABELA I Nomes (de origem Tupi) utilizados por diferentes autores para designar Tayassu tajacu, conforme comentário de Francisco de Assis C. Franco (1941) em Staden (1988) deygas1i-dattu» No original de Hans Staden (1557) daygasú. dattu:& daititú» e datú» Edição em Português das viagens de Staden ao Brasil, da «Academia Brasileira», Rio de Janeiro, 1930 Grafia sugerida pela «Academia Brasileira» daiassú» Utilizado tanto para Tayassu tajacu como para Tayassu pecari, segundo Francisco de Assis C. Franco daitetú» «tajaçú. A. Couto de Magalhães Nome genérico para Tayassu spp (A. Couto de Magalhães) danhaç6-tatú» Na versão em Português das viagens de Staden ao Brasil, publicada conjuntamente pela Editora ltatiaia e Editora da Universidade de São Paulo em 1988 «caititu», «caetetu» e «cateto» Alguns dos nomes actualmente utilizados

5 Nomes populares de animais e plantas no Brasil 7 corante. O nome «brasil» (alusivo a «brasa» e «braseiro», devido ii cor vermelha da madeira) é muito antigo (veja Cunha, 1992) e por volta de 1470 já era utilizado pelos portugueses para designar as árvores da costa africana com estas características e o «sappan» (Caesalpinia sappan L.) da Asia (Cunha, op. cit.; Lima, 1992). Colombo cm 1498, também utilizou o nome «brasil» para as espécies de árvores da América Central que produziam tinta vermelha (Trias, 1973). Brachyteles arachnoides por exemplo, possui dois vocábulos populares bem conhecidos: «mono carvoeiro» de origem ibérica e «muriqui» de origem Tupi. Muriqui é amplamente utilizado no idioma Inglês e ultimamente, devido à sua origem, também vem sendo empregado no Brasil. Entretanto, Hans Staden, que em 1554 foi mantido cativo pelos tupinambás durante nove meses e meio, comentando sobre algumas das espécies de primatas da região entre São Vicente e Angra dos Reis, utiliza o nome «buriqui» para um macaco com a seguinte descrição: «... São vermelhos, têm barba como cabras e são grandes como um cachorro de porte médio», que corresponderia a Alouatta fusca (veja Staden, 1988). Entretanto, «guariba» é a denominação geral dos tupis rpara o género Alouatta. «Buriquí» ou seria uma designação para os machos de A. fusca, ou um nome regional dado pelos tupinambás (já que na Língua Tupi também haviam dia~etos e regionahsmos), ou então um equívoco de Staden. Em alguns casos, a precariedade de comunicação entre os europeus (missionários, viajantes e naturalistas) e os indígenas americanos poderia ter gerado erros de designação. Numa estampa original de Frei Oristóvão de Lisboa, 1627 (1967), por exemplo, um Saimiri está representado juntamente com os nomes «bugio» e «machacho» (veja Almaça, 1991). Nomes em uso Actualmente, a simplificação de alguns nomes também pode gerar confusões. Assim, 11 palavra «guará», um radical de origem Tupi, é frequentemente utilizada para designar uma espécie de ave (Eudocimus ruber) e algumas vezes um mamífero (Chrysocyon brachyurus). Entretanto, o vocábulo original de E. ruber era «guará-

6 ~::::=======:=: Figura 1-O «saruê. (Dide/phis marsupialis) de Hans Staden 1557 (1988), foi chamado de «(sariguéa» pelo Padre José de Anohieta (1988), em 1560, c de «tambu» (Didelphis d. marsupialis) por Frei Cristóvão de Lisboa (1967), em 1627 Fig. 2 - Didelphis marsupiajis. Foto: Glória Jafe!

7 8 Juan Carlos Guix -pitanga» (Staden op. cit.) sendo que «guará» tem um significado mais amplo no Tupi (veja também comentário n. 148 de R. Garcia em Anchieta, 1988: 151). O mesmo pode ocorrer com algumas palavras de origem portuguesa. Frequentemente utiliza-se «onça» para designar Felis onca. Esta simplificação de «onça-pintada», não tem significado prático, já que se usa «onça-patda» para Felis concolor e em algumas regiões de São Paulo, «onça-pequena» para designar Felis pardalis. Desta forma, «jaguan> e «suçuarana» (derivação de «suaçu-arana») deveriam ser preferencialmente utilizados rpara designar, respectivamente, F elis onca e F. concolor. O conhecimento dos nomes de origem indígena é fundamental pata poder resgatar informações sobre a fauna e a flora em relatos antigos, escritos por missionários e naturaiistas europeus (veja AImaça, 1991; 1993). Graças a isso, por exemplo, foi possível obter as primeiras informações sobre uma espécie de arara-azul, hoje provavelmente extinta (Anodorhynchus glaucus), a partirr do vocábulo Guarani «guaa-obi» (Sánchez Labrador, 1968). Se por um lado, a origem de boa parte dos vocábulos disponíveis nos podem auxiliar na escolha de um ou outro nome de âmbito mais geral, em outros casos os regionalismos impossibilitam-nos de fazer uma opção única. Há numerosos exemplos de nomes regionais e locais de árvores, peixes, répteis, aves e mamíferos, que são extremamente úteis, e portanto devem ser mantidos. Entretanto, o nome de uma determinada planta ou animal, em uma localidade ou Tegião ijjode representar uma espécie distinta em outra. No sudeste do Brasil, as espécies de quelónios aquáticos são frequentemente conhecidas por «cágado», enquanto que em boa parte do Estado da Bahia o «cágado» representa uma es!pécie terrestre (Chelonoides carbonaria; «jabutí» em outras regiões do país). Em algumas áreas do Estado de São Paulo, Didelphis marsupialis é chamado de «gambá» e em outras «,raposa»; Galictis cuja pode ser «furão» ou «cachorro do mato», e etc. A confusão aumenta quando as pessoas, ao migrarem de uma região rpara outra, levam consigo os nomes aprendidos dos pais. Um exemplo são as designações utilizadas no Brasil para as espécies de veados do género Mazama. M. gouazoubira e M. rufina, devido às sua's amplas distnibuições, possuem vários nomes locais

8 Nomes populares de animais e plantas no Brasil 9 e regionais (Ihering, 1968). O vocábulo «mateiro» (normalmente designado para Mazama americana) algumas vezes também é uti[izado, indistintamente, para M. rufina e M. gouazoubira. Por outro lado, M. americana também é chamado de «veado-pardo» (Ihering, op. cit.), nome este 'que seria mais adequado a M. gouazoubira. Casos semelhantes também ocorrem entre países de Língua Castelhana. Na Venezuela, Felis onca pode ser chamado de «tigre», enquooto que «onza» é utilizado partla F. yagouaroundi (Bisbal, 1987). :É também bastante comum um único nome eng.jobar duas ou mais espécies, como ocori.1e com «tatu-galinha», «ouriço-cacheiro», «preguiça de três dedos», etc. Este fenómeno parece ser mais frequente ao referirmo-nos às piantas. Muitos dos vocábulos utilizados para as árvores brasileiras originaram-se a pa!l'tir das designações de «homólogos» europeus e asiáticos (devido ao antigo comércio dos portugueses com as «índias»). A princípio, os portugues<ese espanhóis designavam uma espécie ou grupo de espécies de árvores pela cor da madeira, sua consistência ou aplicação. Desta forma, não é de estranhar que alguns dos nomes de árvores do leste e sudeste do Brasil às vezes 11epresentem espécies com características morfológicas externas tão distintas entre si (ex.: cedro, canela, carvalho, cerejeira, pereira, etc.; d. Rizzini, 1981). Nestes casos, na falta de vocábulos de origem indígena, nomes artificiais poderiam ser utillizados para diferenciar as pri-ncilpais espécies. Algumas sugestões Em princípio, não existem <<Domes populalics incorrectos»; o que existe é uma grande variedade de nomes, que podem ter diferentes significados de um 1ugar para outro. Desta forma, não convém ao pesquisador,se «apegar» a um ou outro nome popular e sim procurar utilizá-los dentro de um contexto que julgue adequado (ex.: em escala local, regional, continental, etc.). I Dado o aspecto histórico, cultura<! e mesmo utilitário, sempre que possível, deve-se dar preferência aos nomes populares de carácter amplo, regionais ou,locais (como já proposto por Sick, 1985), em

9 10 Juan Carlos Guix detrimento dos vocábulos artificiais normalmente utilizados pelos especialistas. Pelas mesmas razões, os vocábulos de origem indígena, desde,que oorrectamentje 'nterpretados, poderiam ter prioridade sobre os vocábulos de origem ibérica. Para evitar confusões, ~elo menos uma vez no texto, cada nome popular viria acompanhado do respectivo nome científico. AGRADECIMENTOS Ao Biol. Carlos Yamashita (IBAMA) e à Dra. Mizué Kirizawa (Instituto de Botânica de São Paulo) ~elos comentários, sugestões e bibliografia cedida. Ao Prof. Carlos Almaça (Departamento de Zoologia e Antropologia, Museu Bocage e Centro de Fauna Portuguesa, Faculdade de Ciências) pela revisão do manuscrito. Ao Dr. Xavier Ruiz (Dflpt. de Biologia Anillmal, Facultat de Biologia, Universitat de Barcelona) e a Robin Rycroft (Escola d'rdiomes Modems, Uni "ersitat de Barcelona), pela revisão dos resumos. NOTA 1 «Telefone sem fio» é uma brincadeira de crianças que consiste em trans mitir uma palavra, verbalmente e de forma individual, sucessivamente ao longo de urna fila. Via de regra, a palavra que chega aos ouvidos da última criança da fila difere muito da palavra original. ABSTRACT ln Brazil there is a great variety af popular names for plants and animais. Most af thero have their origin in Indian (mainly from Tupi and Guarani) or Romance languages (mainly from Portuguese). Vernacular names at present used in Portuguese as spoken in Brazitl are the outcome af interpretations made by the first naturalists, missionaries and explorers followed by a long transformation processo ln this note, evidence is given to the interest in recovering and re interpreting most of the 1erms of Indian origin as weil as the practicability of their application in d'ifferent situations.

10 Nomes populares de animms e plal1tas 110 Brasil 11 RESUMEN Existe en Brasil una gran variooad de llombres populares de plantas y animales. Buena parte de estos nombres son de origen indígena (especialmente de los troncos linguísticos Tupí y Guaraní) e ibérico (principalmente dei Portugués). Los llombres de origen indígena actualmente utilizados en e1 Idioma Portugués son el resultado de la interpretación, por parte de los primeros misioneros, naturalista.s y viajeros, de los apelativos utilizados por los nativos y de un largo proceso de transform,ación. En esta nota se evidencia la necesidad de rescatar y reinterpretar muchos de los vocablos de orígen indígena, así como Ja utilidad de su aplicación en distintos contextos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS ALMAÇA, C. (1991) - The beginning of the portuguese mammalogy. Museu Nacional de História Natural. Edição da Universidade de Lisboa, Lisboa. 20 p. ALMAÇA, C. (1993) - Bosquejo histórico da zoologia em Portugal. Museu Nacional de História Natu~l. Edição do Museu Bocage, Lisboa. 50 p. ANCHIETA, J. de (1988) -Ao Padre Geral de São Vicente, ao último de maio de 1560; descrição das CD' sas naturais da Capitania de São Vicente. En: Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões. Série Reconquista do Brasil (2.' série). Ed.!tatiaia & Bd. Univ. de São Paulo. São Paulo. Vo! p. BISBAL, F. J., E. (1987) - Carnívoros considerados en peligro de extinción en Venezuela. ln: Memórias de la Sexagésima Segunda Rreunión de Ia Comisión de Supervivencia de Especies SSC UICN. Pp CRISTóVÃO DE LISBOA (1967) - História dos animaes e arvores do Maranhão. Arquivo Histórico Ultramarino, IICT, Lisboa. CUNHA, M. W. da (1992) - Aspectos históricos de pau-brasi!. Pp ln: Viagem à Terra do Pau-Brasil (M. W. da Cunha & H. C. de Lima, OOs.). Agência Brasileira de Cultura, Rio de Janeiro. IHERING, R. von (1968) -Dicionário dos animais do Brasil. (2.' 00.), São Paulo. LIMA, H. C. de (1992) - Aspectos botânicos do pau-brasi!. Pp ln: Viagem à Terra do Pau-Brasil (j\1. W. da Cunha & H. C. de Lima, eds.). Agência Brasileira de Cultura, Rio de Janeiro. RIZZINI, C. T. (1981) -Arvores e madeiras úteis do Brasil: manual de dendrologia brasileira. Editora Edga"d Blücher. 296 p. e anexos.

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12 OUTROS TRABALHOS PUBLICADOS A.A. SOARES Técnicas de transporte de peixe "ivo C. ALMAÇA Recursos animais e sua conservação. As populações portuguesas do lagostim-da-rio Astacus pallipes Lereboullet, The beginning of lhe Portuguese mammatogy As classificações zoológicas. Aspectos hisfóricos Bosquejo histórico da Zoologia em PortugaZ-1993 Evolutionisl1'L in Portugal-1993 Edição do Museu Bocage Rua Escola Politécnica, Lisboa I

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