DITADURA MILITAR EM GOIÁS: UM PERFIL DOS TRABALHADORES RURAIS SINDICALISTAS A PARTIR DOS DOCUMENTOS DO DOPS-GO

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1 Universidade Estadual de Goiás Vinícius Felipe Leal Machado DITADURA MILITAR EM GOIÁS: UM PERFIL DOS TRABALHADORES RURAIS SINDICALISTAS A PARTIR DOS DOCUMENTOS DO DOPS-GO Anápolis/GO 2009

2 Universidade Estadual de Goiás Vinícius Felipe Leal Machado DITADURA MILITAR EM GOIÁS: UM PERFIL DOS TRABALHADORES RURAIS SINDICALISTAS A PARTIR DOS DOCUMENTOS DO DOPS-GO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Coordenação do Curso de História da Universidade Estadual de Goiás para obtenção do grau de Licenciatura em História. Professora Orientadora: Dra. Dulce Portilho Maciel Anápolis/GO

3 Dedico este trabalho a todos aqueles que, de alguma forma, colaboraram com minha formação até o presente momento. Dedico aos professores que, com tanta paciência e dedicação me instruíram a buscar o conhecimento. Mas dedico, sobretudo, à minha família, em especial aos meus pais. São eles os grandes responsáveis por este momento, já que seu apoio nunca me faltou nos momentos em que precisei. 3

4 AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar, agradeço a Deus, que em sua infinita misericórdia me concedeu a oportunidade e a força para chegar até este momento que marca o fechamento de um ciclo em minha vida. À minha professora e orientadora Dra. Dulce Portilho Maciel, a quem tenho como um exemplo a ser seguido, pois nutro por ela uma grande admiração por sua história de vida e por sua competência profissional. Aos amigos, que fizeram toda a diferença durante estes quatro anos. Com eles cresci não só academicamente, mas acima de tudo, cresci como pessoa. Por tudo isso, serão para sempre lembrados. A todos os funcionários da UEG e ao pessoal do CIDARQ-UFG, os quais deram total apoio e esta empreitada, sendo que a amiga Mitchea Berardo, foi de total relevância nos árduos dias de pesquisa de campo, merecendo assim, meus especiais agradecimentos. 4

5 Tudo bem, quando termina bem (Provérbio Inglês) Crianças gostam de fazer perguntas sobre tudo. Mas nem todas as respostas cabem num adulto. (Arnaldo Antunes) 5

6 SUMÁRIO RESUMO INTRODUÇÃO O SNI, O DOPS E OS SINDICATOS Sindicalismo e o movimento sindical rural em Goiás A PESQUISA DOCUMENTAL O Arquivo do DOPS-GO e seus documentos O método empregado A importância social da pesquisa em arquivos públicos e um histórico da legislação que regulamenta o acesso a estes arquivos A ANÁLISE DOS DADOS NOS REVELA A REALIDADE DO CAMPESINATO GOIANO SINDICALIZADO As cidades-sede dos sindicatos pesquisados Analisando as tabelas: Quem eram os trabalhadores?...58 CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS OUTRAS FONTES ANEXOS

7 RESUMO O presente trabalho traça um perfil dos trabalhadores rurais que se lançavam à atividade sindical, compondo as chapas eleitas para a direção dos sindicatos de trabalhadores rurais em suas respectivas cidades do interior de Goiás e de Goiânia no final da década de 1970 e início da década de Trabalhando com documentos originais do DOPS-GO, buscamos elucidar, a partir dos dados coletados durante a pesquisa de campo qual era a realidade pessoal e profissional dos trabalhadores sindicalistas em nosso Estado no período final da ditadura. Sob o respaldo da pesquisa bibliográfica, o presente trabalho situa estes trabalhadores em sua condição de sindicalistas, no contexto histórico do movimento sindical rural no Brasil e em Goiás, ante a realidade adversa do regime militar brasileiro. Palavras-chave: Trabalhadores Rurais; Sindicatos; DOPS-GO; Regime Militar 7

8 INTRODUÇÃO A ditadura militar brasileira não foi um fato isolado na história da América Latina. Ao contrário disso, foi um processo pelo qual passaram várias outras nações da região a partir da década de 1960 (Bolívia e Brasil em 1964 e Argentina em 1966 estes golpes de caráter mais preventivos contra um eventual contágio pelos ideais da Revolução Cubana levada a cabo em além dos golpes de caráter genuinamente contra-revolucionário da década de 1970 na Bolívia e na Argentina novamente, e no Uruguai e no Chile). Como características comuns a todos, temos: a dissolução das instituições representativas, a falência ou crise aguda dos regimes e partidos políticos tradicionais e a militarização da vida política e social em geral (COGGIOLA, 2001, p. 11). Tudo isso fora orientado pela lógica bipolarizada do mundo e da mentalidade política da época, em que, no contexto da Guerra Fria, o país deveria se alinhar ou aos EUA, ou à URSS. Neste contexto, o Brasil tomou partido do bloco capitalista, buscando, sobretudo, nas décadas de 1960 e 1970, estreitar suas relações com os EUA a fim de manter o status quo da elite, que almejava novamente se aliar ao capital estrangeiro de forma mais livre (GORENDER, 1987, p.15). No pós-guerra, este projeto das elites vinha sendo, em algumas ocasiões, atrapalhado pelos governos de orientação nacionalista, como o caso de Vargas na década de Segundo Gorender, o governo de João Goulart e sua progressiva aproximação com países do bloco socialista foram o clímax desta tensão que aumentara cada vez mais a cada governante populista que ascendia ao poder, gerando bastante desconforto e desconfiança nas alas mais conservadoras da sociedade, sobretudo entre os militares que, em seu discurso silencioso, pressentiam um futuro caótico para o país caso o 8

9 poder continuasse caminhando, na visão deles, para um viés que acabaria transformando o Brasil em uma nação comunista. Fomentados pela ideologia anti-comunista estadunidense e pela crescente pressão por reformas que os sindicatos e ligas camponesas colocavam sobre o governo de João Goulart, os militares brasileiros acreditavam piamente que um regime democrático não seria capaz de conter uma possível revolução popular. Coggiola afirma que, ao assumir o poder, a cúpula do regime militar brasileiro justificava tal ato, dando a si própria a seguinte tarefa: Cumprir a missão de restaurar no Brasil a ordem econômica e financeira e tomar urgentes medidas destinadas a drenar o bolsão comunista, cuja purulência já se havia infiltrado não só na cúpula do governo, como nas suas dependências administrativas (Ibidem, p. 13) Com a instauração do regime de exceção mediante o golpe de 1º de Abril de 1964, os governantes brasileiros, representantes das alas mais conservadoras de nossa sociedade, procuraram representar os interesses das mesmas, estreitando as relações políticas e econômicas com seus antigos aliados do capital externo, sob a tutela militar que garantiria o modelo de regime econômico-social. Para tanto, incorporaram plenamente a estratégia estadunidense de contenção do comunismo, representada pela Doutrina de Segurança Nacional elaborada pela Escola Superior de Guerra (ESG) instituição de forte orientação anticomunista criada ainda em 1949 sob a jurisdição do Estado Maior das Forças Armadas, claramente inspirada na National War College dos EUA. Segundo a Doutrina, o inimigo da pátria não era mais externo, e sim interno, e poderia estar em qualquer parte, e ser qualquer um. A partir da ESG foram emanadas todas as diretrizes que garantiriam a implantação e a defesa do Regime Militar na permanente luta contra o inimigo interno. Seus militares montaram uma verdadeira teia de órgãos e repartições que, com o intuito de zelar pela ordem investigando a vida de qualquer instituição, organização ou 9

10 cidadão brasileiro. Esta teia tinha como núcleo o Serviço Nacional de Informações (SNI), idealizado por um dos principais teóricos do regime, o General Golbery do Couto e Silva. O órgão foi criado em 13 de julho de 1964 para recolher e processar todas as informações de interesse para a segurança nacional. O aparelho de repressão era realmente gigantesco, chegando a atuar em conjunto com governos de outros países para a busca de suspeitos. Seus braços regionais eram os chamados DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) ou DEOPS (Departamento Estadual de Ordem Política e Social), dependendo da época. Eram, geralmente vinculados às Secretarias de Segurança Pública de cada Estado, e tinham como funções básicas: estar à disposição dos governos quando estes decidissem vigiar e/ou aprisionar certos indivíduos, combater determinados comportamentos e estigmatizar grupos inteiros (imigrantes, dissidentes políticos, pobres) tidos sempre como nocivos e perigosos para a ordem pública e a segurança nacional. (SOMBRA, 1996, p.37). Segundo autores como Marília Xavier, os DOPS, por sua natureza e função não era outra coisa, senão o que chamamos de Polícia Política 1. A qual, segundo ela, seria um tipo especialização do serviço policial muito presente na história da república brasileira desde a chamada república velha, mas que, seguindo linhagem ideológica do DOPS, teríamos como primeiro precursor formal, a Delegacia Especial de Segurança Política e Social, criada em 1933, vinculada à antiga Polícia Civil do Distrito Federal. Seguindo esta lógica, podemos afirmar, através da pesquisa, que algo parecido foi criado em Goiás no ano de 1953, através da Lei nº 900, de 12 de novembro daquele ano, a qual reorganizava a Secretaria de Estado do Interior, Justiça e Segurança Pública 1 XAVIER, Marília. Antecedentes institucionais da Polícia Política. In: DOPS: a lógica da desconfiança. Rio de Janeiro: Secretaria de Estado da Justiça/Arquivo Público do Estado, 1996, p

11 e instituia, na Seção VI, Art. 12, a Delegacia de Ordem Política e Social, com uma definição de funções ainda um tanto quanto imprecisas. A partir daí, a nomenclatura do órgão, foi sendo alterada, praticamente a cada nova resolução, suas funções foram se especializando cada vez mais, sobretudo durante a ditadura militar. Este trabalho pretende, portanto, além de traçar o histórico deste braço do sistema de vigilância político-social do Estado Brasileiro, tão atuante durante o regime militar, e fazer uma ponte entre os militares e o sindicalismo rural em Goiás, para que, enfim, possamos chegar o objetivo principal desta pesquisa baseada nos documentos originais do DOPS de Goiás sobre os sindicalistas que dirigiam sindicatos de trabalhadores rurais no final da década de 1970 e início da década de 1980: traçar um perfil destes, que em um período tão adverso a este tipo de atividade se lançaram no cenário de defesa da classe à qual pertenciam, sendo, desta forma, alvo das investigações do DOPS-GO que deram origem aos documentos pesquisados. Por se tratar de uma documentação original de um órgão público, o material pesquisado nos permite uma interpretação bastante rica a respeito das informações nele contidas, o que nos atentou também, para a importância da pesquisa e ao acesso a este tipo de material tão revelador. O tema do acesso ao acervo de arquivos públicos, sobretudo aqueles que abrigam documentos pertinentes ao período da ditadura, também é abordado neste trabalho visando travar um necessário diálogo com a questão jurídica, pois ao ter acesso aos documentos do DOPS-GO, nos demos conta que estávamos vivendo uma experiência de pesquisa que é essencial à realidade democrática na qual o país se encontra desde 1988, mas que, no entanto, ainda sofre com certos resquícios autoritários no sentido de proteção a certas informações. O presente estudo, portanto, foi realizado com o intuito encontrar respostas para algumas questões que consideramos assaz intrigantes e de relevância para a história de 11

12 Goiás neste período. Quem eram os trabalhadores rurais que se colocaram à frente dos sindicatos? ; De onde vinham? ; Qual seu nível de envolvimento em organizações de classe? ; Qual a idade média deste trabalhador?. Estas e outras questões guiaram a realização desta pesquisa e, mediante a ela, concluímos que qualquer organização ou associação de pessoas era acompanhada de perto pelos órgãos do SNI, dentre elas, é claro, estava o DOPS. Quando a organização em questão possuía qualquer caráter político, a atenção era redobrada. Este era o caso dos sindicatos. Sabe-se que os sindicatos de trabalhadores urbanos eram rigidamente controlados. E quanto ao campo e suas relações trabalhistas? O que os documentos do DOPS podem nos revelar sobre os trabalhadores investigados a realidade em que viviam? Em Goiás, um Estado majoritariamente agrário no período estudado e até os dias de hoje, tanto economicamente quanto na mentalidade de sua população que ainda conserva hábitos e um estilo de vida em muito ligados à vida no campo, consideramos que esta pesquisa se fez deveras pertinente. E a busca pelas respostas das questões apresentadas, e de muitas outras relacionadas ao tema trabalhado, orientam o presente trabalho. 12

13 CAPÍTULO 1 O SNI, O DOPS E OS SINDICATOS A idéia da manutenção, por parte do Estado, de uma Polícia Política, como os DOPS ou DEOPS, que fosse responsável pela investigação das ações e pela manutenção de um arquivo que armazenasse as informações que fossem consideradas estratégicas para a segurança do regime foi, como muitas outras, gestada dentro do ideário da Escola Superior de Guerra (ESG). Os DOPS Delegacia de Ordem Política e Social, como ficaram conhecidos genericamente, os braços regionais do aparelho de investigação e repressão política do Estado durante a ditadura ( ), era somente uma das partes componentes de uma rede muito maior que visava combater e prevenir as ações do inimigo interno, ou seja, o elemento subversivo que ameaçasse a estabilidade política e social garantida pelo regime de exceção. A instância mais elevada deste aparato era o Sistema Nacional de Informações (SISNI), que fora instalado já no começo do governo do Marechal Castelo Branco em O SISNI, era divido em dois subsistemas: o primeiro compreendia o Serviço Nacional de Informações (SNI), ao qual os DOPS estavam ligados, pois compreendia uma rede nacional de investigação vinculada diretamente ao presidente da república; a outra parte componente do SISNI, era composta pelas agências setoriais inseridas no âmbito ministerial, e que eram, portanto, subordinadas aos respectivos ministros de cada pasta. Segundo a professora Dulce Portilho Maciel (2009, p.45), estes subsistemas do SISNI tinham como finalidade a vigilância e o controle sobre o inimigo interno, oferecendo às autoridades e aos órgãos de repressão, conhecimentos obtidos mediante a atuação de seus agentes especializados, lotados nas diversas unidades que compunham este gigantesco aparato. 13

14 O SNI foi idealizado pelo General Golbery do Couto e Silva quando esta ainda trabalhava no Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais IPES, instituição não vinculada ao poder público criada em 1961 para investigar possíveis lideranças comunistas e catalogar informações que pudessem ser usadas contra elas, sobretudo contra o presidente João Goulart. Segundo Élio Gaspari, somente do IPES, o SNI herdou por volta de dossiês sobre pessoas e entidades investigadas. Em determinados momentos do ciclo militar, o SNI ganhou tamanha importância, que ainda segundo Gaspari, seu chefe, que possuía status de ministro chegava a ter reuniões diárias com o presidente da república (2002, p. 133). Os próprios presidentes Emílio Garrastazu Médici e João Baptista de Oliveira Figueiredo foram chefes do antes de assumirem a presidência. Como já foi citado, os DOPS, tem sua estrutura ideológica básica de polícia política anterior ao golpe de Pode-se afirmar que sua estrutura foi absorvida, ampliada e aprimorada de acordo com os interesses e da realidade que os militares queriam enfrentar. Sua origem remonta à Divisão de Polícia Política e Social (DPS), vinculada ao Departamento Federal de Segurança Pública (DFSP), criado a partir da Polícia Civil do Distrito Federal, pelo decreto-lei nº 6.378, tendo entre suas atribuições a manutenção da ordem pública e a garantia do regime político e social vigente, além de orientar s polícias estaduais e dos territórios nestas atividades. (SOMBRA, 1996, p.37). Como podemos ver o embrião de toda a mentalidade repressora que orientava os DOPS durante o regime militar surgiu durante outro regime ditatorial: a era Vargas. Durante toda sua existência, estes órgãos tiveram sua nomenclatura alterada inúmeras vezes, dependendo do período, da legislação e da região. Porém, durante período que nos interessa, como já foi citado, perpetuou-se os nomes de DEOPS Departamento (ou Delegacia, pois as duas formas foram adotadas em momentos diferentes) Estadual de 14

15 Ordem Política e Social ou DOPS, o qual adotamos para o presente trabalho, e já que os DOPS eram órgãos estaduais, que respondiam às respectivas Secretarias de Segurança Pública de cada estado, consideramos pertinente utilizarmos a nomenclatura oficial que encontramos nos carimbos e marcações dos documentos estudados: DOPS-GO. 1.1 SINDICALISMO E O MOVIMENTO SINDICAL RURAL EM GOIÁS Nossa pesquisa foi realizada com base em documentos do DOPS-GO que continham informações sobre os trabalhadores rurais que foram eleitos para a direção dos sindicatos de suas de suas respectivas cidades entre os anos de 1979, 1980, 1981 e 1982, como será detalhado posteriormente. Desta forma, entender o sindicalismo, e sua vertente rural é essencial para a compreensão deste trabalho. O movimento sindical brasileiro teve início, formalmente falando, no início do século XX, com os operários de fábricas do Rio de Janeiro e em São Paulo e teve seu crescimento bastante ligado às ideologias políticas vindas da Europa naquela época. Segundo Antunes (1980, p. 48), pequenas organizações já existiam entre estes trabalhadores, e por muito tempo, foram conhecidas como sociedades de socorro, sendo que as primeiras surgiram ainda na década de 1850, com o objetivo de fazer frente à exploração dos patrões e de implantar uma rede de ajuda mútua entre os integrantes. Porém, o aumento do número de fábricas e conseqüentemente do número de operários, aliado à introdução de idéias marxistas no final do século XIX e, posteriormente, dos ideais anarquistas, em sua vertente anarco-sindicalista deram um impulso completamente diferente ao movimento de representação trabalhista no Brasil. Grande parte destes ideais veio com os imigrantes europeus, que já lutavam por melhores condições de trabalho a muito mais tempo em seus países de origem e onde as 15

16 ideologias marxistas e anarquistas estavam em plena efervescência entre os trabalhadores. Em 1892 aconteceu o I Congresso Socialista Brasileiro, que teve por objetivo principal a fundação de um partido socialista que representasse os trabalhadores, o que não chegou a acontecer, pois os anarquistas não concordavam com a participação dos líderes sindicais na política. Esta disputa de ideologias, só viria a ser superada em 1922, com a fundação do PCB Partido Comunista Brasileiro e o enfraquecimento do anarco-sindicalismo que, apesar de mais próximo da realidade dos trabalhadores das fábricas, era alvo de muitas críticas e acabou sendo rotulado de limitado, já que suas ações práticas (paralisações, manifestações) paravam na política, não permitindo assim, na visão dos próprios trabalhadores, mudanças mais profundas. Com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, o cenário sindical brasileiro se modifica completamente, pois durante seu governo, vemos uma tentativa de domesticação dos sindicatos, criando uma legislação específica para tais organizações e trazendo-as para junto do aparato governamental através do recém criado Ministério do Trabalho. Seu objetivo era fazer dos sindicatos órgãos de conciliação entre empregadores e empregados, e para tanto, foi assinado em 1931, o Decreto , que instituiu as regras para a associação de trabalhadores que seriam seguidas a partir de então. Instituía, entre outras coisas, o controle das finanças dos sindicatos e a participação dos delegados do Ministério do Trabalho nas assembléias sindicais. Apesar de tudo isso, as greves continuaram existindo durante o governo de Vargas, chagando a ter várias reivindicações atendidas. A Consolidação as Leis Trabalhistas - CLT, assinada pelo presidente Vargas em 1º de maio de 1943 (e colocada em vigor em novembro daquele ano) é, para alguns sindicalistas e muitos trabalhadores, o coroamento das lutas empreendidas neste período, pois com ela, tornou-se lei, antigas 16

17 demandas dos trabalhadores, como por exemplo, a jornada de trabalho de oito horas diárias, o direito a férias e etc. Até meados da década de 1950, o movimento sindical se restringiu basicamente à esfera urbana, praticamente não atingindo o campo a idéia de união entre os camponeses e os trabalhadores rurais. Porém, esta idéia ganhou corpo a partir da criação de ligas camponesas e da ULTAB União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil 2, que passaram a reivindicar melhores condições para o pequeno proprietário, como financiamento para a agricultura familiar, estimular a formação de sindicatos e, o principal foco de tensão, que seria um dos principais pontos de pressão sobre o governo de João Goulart e de apreensão por parte doa militares que observavam os acontecimentos: a reforma agrária. Após sua dissolução pelo regime militar, muitos de seus integrantes foram perseguidos, presos e torturados. Mas grande parte dos remanescentes permaneceu integrando a recém-criada Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura CONTAG. A CONTAG foi fundada em 22 de dezembro de 1963, no Rio de Janeiro. Na época existiam 14 federações e 475 Sindicatos de Trabalhadores Rurais em todo o país. O reconhecimento oficial da entidade ocorreu em 31 de janeiro de 1964, por meio do Decreto Presidencial nº O golpe militar resultou em intervenção na entidade e prisão e exílio de vários dirigentes. Esta intervenção foi um dos motivos que garantiu 2 Fundada em São Paulo, em 1954 por militantes do PCB. Ela foi responsável pela criação de associações de lavradores que buscavam organizar os camponeses em suas lutas. A partir do início dos anos 1960, as associações foram sendo transformadas em sindicatos. A ULTAB não só desempenhou papel fundamental nesse processo de sindicalização que culminou na criação, em 1963, da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), como também se constituiu na principal força em ação no interior da nova entidade. Em 1964 foi extinta pelo golpe que implantou a ditadura militar no Brasil. 17

18 que a CONTAG não tivesse o mesmo fim da ULTAB, pois o período sob o qual esteve sob o comando de um interventor nomeado pelo Estado, a entidade, a princípio, enfraquecer sua postura combativa, porém isto levou a uma posterior reorganização de sua estrutura. A retomada da direção da entidade pelos trabalhadores se deu através desta organização, na qual os sindicalistas, reunidos em torno de um grupo existente dentro da CONTAG, chamado Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (MSTTR), derrotaram o candidato da situação (o interventor, que desde 1965 havia se legitimado no cargo sendo eleito pelo voto dos colegas) nas eleições para a diretoria em Porém, mesmo com a retomada do poder pelos trabalhadores rurais, a CONTAG continuou existindo (sob a rígida vigilância do governo), pois a instituição não mais representava perigo à ordem instituída pelos militares. No que diz respeito a esta convivência do sindicalismo com o regime militar e esta aparente tolerância dos governantes para com instituições como a CONTAG e as federações de trabalhadores rurais espalhadas pelo Brasil, o professor José Santana as Silva afirma que: Aspecto importante a se registrar acerca da política do regime militar em relação ao sindicalismo é o fato de que não interessava ao novo grupo dirigente a sua liquidação pura e simples. Os sindicatos se constituíram num importante meio de controle social e político sobre os trabalhadores. A própria estrutura herdada da legislação corporativista do Varguismo favorecia tal ação. (SILVA, 2003, p.37) Desta forma, observa-se que a infiltração de membros aliados ao governo dentro das entidades sindicais continuava garantindo bons frutos aos governantes, que assim acompanhavam de muito perto suas atividades, quando não as estava controlando diretamente. Esta foi a realidade que se perpetuou em muitos momentos - com alguns esboços de rebeldia logo controlados pelos órgãos repressivos do Estado durante o regime militar no Brasil. 18

19 Em Goiás, não foi diferente, principalmente no período que compreende os documentos estudados na durante a pesquisa no DOPS-GO, por se tratar já do período final do regime. No início da década de 1980, pelo que observamos na pesquisa, os sindicatos de trabalhadores rurais das cidades goianas ainda eram monitorados de forma intensa pelo Estado, porém, entre os casos estudados, nota-se que não representavam perigo real ao regime. Entidades como a FETAEG Federação dos Trabalhadores em Agricultura do Estado de Goiás representavam os trabalhadores sindicalizados mediante reivindicações de melhorias de certa forma já previstas na lei, e muitas vezes que se estendessem os benefícios já concedidos aos trabalhadores urbanos à realidade trabalhista do campo, como por exemplo, um regime de previdência social. A história da FETAEG tem início no final da década de 1960, quando tem início das articulações para o agrupamento dos sindicatos existentes em Goiás naquele momento em uma federação, nos moldes das que já existiam no Rio de Janeiro e em São Paulo, por exemplo. O primeiro sindicato de trabalhadores rurais fundado em Goiás é o de Anápolis, cuja fundação ocorreu em 04 de junho de Depois dele, outros sindicatos foram fundados seguidamente: Pirenópolis, Goianápolis, Nova Veneza, Caturaí e Catalão. Em 28 de outubro de 1970, os seis sindicatos de trabalhadores rurais destas cidades, fundaram, em Goiânia, A FETAEG, com a finalidade de coordenar e defender os interesses dos trabalhadores rurais goianos e se encarregar da fundação legal de novos sindicatos, papel que até então era desempenhado aqui pela Delegacia Regional da CONTAG, instalada em Goiânia em A partir da fundação da FETAEG novos sindicatos de trabalhadores rurais foram sendo criados no Estado de Goiás, tendo a Igreja Católica, através de entidades como a Comissão Pastoral da Terra CTP, desempenhado um papel significativo, apoiando e incentivando os trabalhadores, na década de 70, na criação de novas entidades sindicais. 19

20 Faz-se necessário também conhecer a respeito da estrutura sindical do Brasil, desde a era Vargas. Primeiramente, elucidaremos o que entendemos por sindicato. Sindicato é essencialmente uma associação de classe que, através da união de seus membros, busca ter maior representatividade junto às entidades patronais e assim, poder ter seus interesses ouvidos de forma mais respeitável aos olhos de quem é alvo de reivindicações. Além disto, os sindicatos abordados nesta pesquisa 10 ao todo - representavam os trabalhadores do campo, assalariados ou não, junto às instâncias mais elevadas quanto à representação dos interesses dos trabalhadores, como FETAEG, que por sua vez, os representava na CONTAG. Conhecer a função de cada uma destas entidades sindicais e a história do sindicalismo de trabalhadores rurais é essencial para termos ciência do que representavam para os militares os sindicatos e os trabalhadores estudados no presente trabalho. Como o próprio nome diz, cada uma destas entidades, as federações e confederações, atuavam, de acordo com e legislação vigente, em uma esfera que lhe era pertinente: estadual ou nacional, englobando em uma pirâmide hierárquica lógica as entidades que compõe o sistema sindical rural brasileiro. Na base da pirâmide estão, obviamente, os sindicatos de classes afins. Os sindicatos unidos formam as federações. Estas, por sua vez, formam as confederações. As Confederações são as organizações sindicais de maior grau numa determinada categoria, podendo ser um agrupamento tanto de trabalhadores, como é o caso da CONTAG, quanto patronal, como a CNA Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária. O artigo 535 da CLT estabelece que para que uma confederação possa ser formada, é necessária a existência de pelo menos três federações no setor. Quanto às federações, a CLT estipula, no artigo 534, que para que em um ramo haja uma federação devem haver pelo menos cinco sindicatos, e estes devem, obrigatoriamente, 20

21 que representar, numericamente, a maioria absoluta de um grupo de atividades ou profissões. Esta estrutura obedece a um princípio do direito trabalhista que, segundo o Estado, é o de atividades econômicas idênticas. Entretanto, são incluídas, sob a forma de grupos que se encaixam nesses troncos, outras atividades meramente similares ou conexas. Assim a Confederação Nacional da Indústria agrupa os diversos tipos de indústrias: alimentação, vestuário, construção e mobiliário, extrativas, etc. 21

22 CAPÍTULO 2 A PESQUISA DOCUMENTAL Neste capítulo, busco explicitar como a pesquisa no acervo do DOPS-GO foi feita e qual foi o tratamento dado às informações colhidas. Desta forma, elucidaremos a respeito da estrutura encontrada no acervo ao qual tivemos acesso, da documentação disponível, e do método científico empregado na pesquisa. Apontaremos também a relevância social deste tipo de pesquisa na qual são trabalhados documentos oficiais tidos como sigilosos atualmente, ou no momento histórico pesquisado, apresentando, para a compreensão de tal importância, um histórico da legislação que regulamenta a divulgação e o acesso a documentos sigilosos. 2.1 O ARQUIVO DO DOPS-GO E SEUS DOCUMENTOS Tendo em vista lidar com documentos originais do período estudado para suprir a necessidade de desenvolver de forma mais concreta e aprofundar ao máximo a pesquisa, durante o mês de junho de 2009, estive realizando uma pesquisa empírica com fontes primárias provenientes dos Arquivos do Departamento de Ordem Política e Social o DOPS de Goiás. É importante frisar novamente, que meu tema de pesquisa aborda as ações dos governos militares para manter a ordem instituída e lutar contra o inimigo interno, que segundo a Doutrina de Segurança Nacional da Escola Superior de Guerra (ESG), poderia ser qualquer idéia ou indivíduo que atentasse contra os interesses dos militares durante seu regime. Neste sentido, meu projeto se afunila tratando especificamente da interessante relação entre os sindicatos de trabalhadores rurais do estado de Goiás e o estado durante o regime militar. Para tal estudo, foram coletados dados de trabalhadores 22

23 e sindicatos que possuíam fichas de identificação no DOPS-Goiás, assim como foram analisadas matérias de periódicos da época que nos proporcionam uma idéia da atmosfera do momento estudado. O estudo destes dados visa, sobretudo, traçar um perfil dos trabalhadores camponeses que se lançavam na cena político-sindical em uma época tão adversa a este tipo de organização, e assim tentarmos vislumbrar possíveis motivos para tal empreitada, através de uma análise global feita mediante o cruzamento de dados recorrentes ou semelhantes existentes entre estas pessoas. Desta forma é possível entender como agia a polícia política do governo militar nos processos de investigação e intervenção, quando necessário, nas questões agrárias, seja acompanhando os passos dos membros dos sindicatos (suas mudanças de endereço, por exemplo), acompanhando de perto as eleições para a direção das entidades, ou mesmo emitindo pareceres contrários à candidatura de certos indivíduos considerados suspeitos e até emitindo os chamados pedidos de busca daqueles que, por algum motivo relacionado à sua conduta ou histórico de vida, pudessem ser considerados suspeitos. Os documentos analisados neste trabalho fazem parte do arquivo do Centro de Informação e Documentação Arquivística da UFG CIDARQ, localizado no Campus II da referida universidade em Goiânia. Por se tratar de documentos sigilosos e que remetem a um período relativamente recente da história de Goiás e do Brasil, durante muito tempo, ficaram sob o poder da Secretaria de Segurança Pública do Estado de Goiás, aguardando, desde o término do período militar a tramitação da uma legislação específica que selasse o destino deste tipo de documento, e que, conforme previsto na 23

24 Constituição Federal 3 regulamentasse o acesso a estes papéis por pesquisadores e pessoas com interesse no tema. Em 1995, um convênio celebrado entre o Estado de Goiás, com a interneviência da Secretaria de Segurança Pública Estadual, e a Universidade Federal de Goiás, dispôs sobre a transferência da documentação do DOPS, que até então se encontrava sob o poder do Exército, para a universidade, à qual passaria a posse definitiva de tais documentos após dez anos da assinatura do convênio, Ou seja, desde 2005, a UFG detém a responsabilidade total por essa documentação e, desde então vem trabalhando sistematicamente com uma equipe de pesquisadores da própria UFG, composta por arquivistas, biblioteconomistas e historiadores, além de estagiários oriundos dos cursos de graduação nestas áreas, no intuito de conhecer o conteúdo, descrever, catalogar e organizar estes documentos, já que os mesmos, segundo o arquivista responsável, Rodolfo Peres Rodrigues 4, se encontravam completamente desordenados e alguns até danificados devido ao anterior armazenamento inadequado. Oficialmente, conforme celebrado no acordo de transferência dos arquivos do DOPS de Goiás para a UFG, todos os documentos produzidos pelo órgão seriam repassados à universidade. Porém, como as pastas denominadas de Doc s - são numeradas seguindo uma lógica crescente e o maior número de uma pasta é superior a 7 mil, estima-se, segundo os estudos desenvolvidos pelos arquivistas liderados por Rodrigues, que o arquivo continha originalmente mais de 7 mil Doc s (pastas numeradas). No CIDARQ, atualmente se encontram apenas 776 pastas. Logo, constatase que aproximadamente 90% do material produzido pela polícia política no Estado foi 3 Todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado. (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, art. 5º, inciso XXXIII) 4 Arquivista, graduado pela UNESP - Campus de Marília. Arquivista na UFG desde agosto de 2007, lotado no CIDARQ desde agosto de

25 extraviado antes de ser entregue à UFG. Cada pasta, na maioria dos casos, relaciona mais de uma pessoa ou entidade investigada, levando à conclusão de que o número de investigados e monitorados pelo DOPS em Goiás, entre sindicatos e pessoas físicas, teria sido de, no mínimo, 14 mil. O que restou deste suposto imenso arquivo e que está na referida universidade, foram as já citadas 776 pastas (Doc s), nas quais pessoas e entidades são citadas nas capas dos dossiês. Destes, 203 são de sindicatos e deste total, 96 são de Sindicatos de Trabalhadores Rurais. O jornal O Popular, diário de grande circulação no Estado, realizou, mediante pesquisa nos arquivos do DOPS no CIDARQ, uma série especial de reportagens sobre a ditadura em Goiás, publicadas entre os dias de 26 de julho de 2009 e 29 de julho de 2009, totalizando quatro textos que tratam sobre o tema. A matéria O sumiço dos documentos da série, que é intitulada Revelações da luta armada em Goiás revela que, segundo levantamento feito no próprio CIDARQ, os documentos do DOPS que lá se encontram constituem 7,72 metros lineares de papéis, ou seja, se colocados enfileirados em pé, um imediatamente atrás do outro dariam esta medida 5. No arquivo, os documentos são armazenados em quatro armários com quatro gavetas cada. O jornal relata que na ocasião da transferência dos papéis, em 1995, chegaram à UFG apenas nove caixas sob escolta policial. As caixas estavam todas lacradas com a inscrição confidencial. Quando as caixas foram abertas, logo foi constatada a nítida ausência de grande parte dos documentos do período militar que estavam até então sob a posse do Exército. Mas nenhuma providência no sentido de esclarecer o paradeiro dos documentos foi tomada na ocasião: 5 O POPULAR, Caderno Cidades. p. 4. Goiânia, quarta-feira, 29 de julho de

26 [...] Ex-delegados do DOPS responsabilizaram o Exército brasileiro pelo sumiço dos papéis. O Estado teria entregue às Forças Armadas um volume de dossiês e documentos muito maior do que as nove caixas encaminhadas à UFG. A universidade descartou ir atrás dos papéis. Argumentou que sua atribuição era apenas preservar o acervo. (Idem.) Ainda segundo o jornal, legalmente, a alegação da universidade era coerente, pois no convênio celebrado para a transferência do arquivo, o Estado nomeava a UFG como guardiã dos arquivos, responsável apenas por sua conservação e pela permissão aos cidadãos a ter acesso aos documentos, observando, é claro a legislação em vigor naquele momento para este tipo de assunto. Em setembro de 1995, cedendo a pressões da sociedade civil, foi permitido, mediante comprovação, que apenas familiares de desaparecidos políticos e pessoas fichadas pelo DOPS tivessem acesso aos papéis. O jornal narra que houve um sentimento de frustração entre as pessoas que, por algum motivo particular, foram ver conhecer o arquivo. Ao reitor da UFG na época, Ary Monteiro do Espírito Santo, restou a seguinte desculpa: O pente fino já foi passado nos arquivos 6. Muitos dossiês têm apenas a folha de apresentação contendo somente o nome do fichado e o número da ficha. O conteúdo real destes dossiês nunca chegou à universidade. Outro indício claro da falta de documentos do acervo original é a ausência de dossiês a respeito de militantes históricos goianos ou com alguma ligação direta com Goiás que são considerados desaparecidos políticos. Um exemplo é o caso de Divino Ferreira de Souza, sabidamente, o único goiano morto na Guerrilha do Araguaia e, curiosamente, sem nenhum vestígio entre os nomes de dossiês. Destes grandes nomes da militância de esquerda que desapareceram em Goiás, encontra-se no arquivo um número reduzido de dossiês, mas de relevância histórica considerável, como é o caso de José Porfírio de Souza, principal líder do movimento camponês-comunista de Trombas e Formoso, desaparecido em Idem. 26

27 Entende-se, portanto, que todas as suspeitas do extravio dos documentos recaiam tanto em 1995, quando se deu transferência e a UFG se viu pressionada a dar respostas sobre o assunto, quanto posteriormente - sobre o Exército. Possivelmente interessado em encobrir qualquer informação que desabonasse a instituição (as Forças Armadas) ou pessoas ligadas aos fatos ou ainda que implique em cobranças da sociedade para que a justiça seja feita contra aqueles que atentaram contra os direitos humanos no período retratado pelos documentos, o Exército teria recolhido os documentos mais comprometedores neste sentido antes do remanejamento das caixas. Esta suspeita é reforçada pelo fato de, na época, o chefe do Comando Militar do Planalto, General Casales, ameaçar queimar os documentos. Os desdobramentos desta ameaça foram acompanhados de perto pela imprensa goiana e amplamente debatida entre os deputados, que há mais de um ano pediam por sua abertura (CATELA, 2009 p. 445). Neste cenário, os documentos, que no momento da tal ameaça ainda estavam em poder da 3ª Brigada de Infantaria Motorizada, foram então entregues ao governo de Goiás e logo depois repassados à UFG. Estes papéis com os quais tive contato para a realização da pesquisa de campo são, portanto, fontes primárias, já que se trata de documentos originais do DOPS no período que abrange desde o ano de 1964 até Eles estão organizados na forma de várias pastas numeradas denominadas Docs. Estes Docs. são basicamente divididos em dois tipos: os de pessoas físicas e os de entidades que mereciam atenção dos investigadores daquela repartição. Estas são, em sua maioria, entidades como sindicatos patronais, sindicatos de trabalhadores, organizações estudantis, algumas empresas privadas e etc. Os documentos de pessoas físicas investigadas são, majoritariamente, dossiês com informações que vão desde os documentos pessoais, como RG e CPF a até relatórios que narram atitudes e o estilo de vida da pessoa. Muitas vezes inclui até o 27

28 apelido ou codinome pelo qual a pessoa era conhecida. Dentro de alguns destes dossiês, podemos encontrar também, recortes de jornais relacionados ao tema do documento e pedidos de busca (mandado de prisão), todos com os carimbos oficiais do DOPS e de Confidencial. Nas pastas de Doc s. de instituições como sindicatos e organizações estudantis encontramos predominantemente fichas contendo informações como a documentação pessoal, a profissão, e o endereço (atual e anterior) de cada membro da direção da entidade investigada O MÉTODO EMPREGADO Para manusear os documentos é necessário utilizar luvas de látex e uma máscara de proteção das vias aéreas. Durante toda a pesquisa tive o auxílio de uma estagiária, que buscava as pastas que eu havia previamente selecionado. Em um momento anterior, tive acesso à lista de pastas e dossiês nomeados e enumerados existentes no arquivo. A partir desta lista, selecionei, através de um sorteio, 10% do total dos dossiês com o tema relacionado à pesquisa. Em termos absolutos, de um total de 96 Sindicatos de Trabalhadores Rurais existentes no arquivo, cada um de uma cidade diferente, foram analisados 10, de cidades aleatórias, conforme anteriormente dito, selecionados através de sorteio. Como alguns Doc s (pastas), continham mais de um sindicato sorteado, fezse necessário trabalhar com apenas sete deles. Os sindicatos analisados foram os das seguintes cidades: Aragoiânia e Aurilândia (Doc nº 22); Carmo do Rio Verde e Cristalina (Doc nº 258); Goiânia (Doc nº 262); Inhumas (Doc nº 31); Itauçu (Doc nº 29); Mineiros (Doc nº 34); Nazário e Nova Veneza (Doc nº 35). Assim, foram analisados e transcritos dados de 118 trabalhadores rurais sindicalizados. As fichas em questão possuem datas que compreendem os anos de 28

29 1979, 1980, 1981 e 1982, sendo este, portanto o recorte temporal ao qual o método nos conduziu. Isso nos leva a crer que foi nesse período que foi produzida pelo DOPS de Goiás, grande parte da documentação entregue à UFG, ou seja, se realmente aconteceu o extravio intencional de uma parcela significativa do acervo original, percebemos que o que foi enviado à universidade para conhecimento do público abrange o período da chamada Abertura Política iniciada por Geisel em 1974, e que se contrapõe ao anos de chumbo dos governos militares anteriores. É importante ressaltar que as organizações trabalhistas estudadas, são de cidades de todas as regiões do Estado, inclusive da capital, podendo, portanto, conforme fora constatado, proporcionar uma visão global a respeito dos perfis dos sindicatos e dos sindicalistas de Goiás no período. É importante esclarecer que as fichas que compunham nosso objeto de estudo foram transcritas em decorrência da impossibilidade de xerocopiar os documentos, pois no próprio CIDARQ não há uma máquina copiadora e a retirada dos mesmos do prédio do arquivo não é permitida. Os responsáveis justificam tal procedimento afirmando que desta forma estão primando pela conservação e pela longevidade dos papéis. A saída para esta imposição foi transcrever os conteúdos desejados. Para isso desenvolvi fichas para agilizar o processo de coleta dos dados. Para ilustrar e ao mesmo tempo garantir confiabilidade aos dados recolhidos mediante a comprovação da existência dos documentos citados, recorri à fotografia. Trabalhar com documentação original é extremamente importante para o pesquisador, pois o documento proporciona informação que, apesar de não-lapidada, é fidedigna. Manusear um documento antigo e extrair dele informações importantes, sem dúvida enriquece bastante uma pesquisa, concedendo-lhe profundidade e maior grau de confiabilidade. 29

30 2.3 A IMPORTÂNCIA SOCIAL DA PESQUISA EM ARQUIVOS PÚBLICOS E UM HISTÓRICO DA LEGISLAÇÃO QUE REGULAMENTA O ACESSO A ESTES ARQUIVOS O governo federal vem cedendo à pressão de setores da sociedade que lutam pelos direitos humanos e, nos últimos anos, parece estar tomando providências para afastar permanentemente o fantasma dos anos de autoritarismo e mostrar para a população que, sendo um governo democrático, não tem nada a esconder sobre o que foi feito pelos dirigentes da nação no passado. Através de ações promovidas por órgãos como a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República SEDH 7, o Estado vem tentando promover a debate sobre os acontecimentos ocorridos durante a ditadura. O projeto Direito à Memória e à Verdade é uma destas ações, tendo sido iniciado em 29 de agosto de 2006 com o objetivo de recuperar e reunir documentos de todo tipo (fotos, textos e outros) para divulgá-los no intuito de chamar a atenção da sociedade para o que aconteceu durante todo o período militar. Outro projeto nesse sentido é o Memórias Reveladas, que na verdade se trata de um Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil criado em 13 de maio de 2009 visando, por meio de parcerias com órgãos públicos federais e estaduais, e de doações provenientes de qualquer pessoa que possua documentos relativos ao período que abrange desde o dia 1º de abril de 1964 até 15 de março de 1985, reunir, organizar, divulgar e incentivar o acesso da população a todo esse material. Desta forma, o 7 Criada pelo Decreto nº 2.193, de 7 de abril de 1997, a Secretaria Nacional dos Direitos Humanos - SNDH, estava subordinada ao do Ministério da Justiça. Em 1º de janeiro de 1999, a SNDH foi transformada em Secretaria de Estado dos Direitos Humanos - SEDH, com assento nas reuniões ministeriais, ou seja, seu titular passou a ter status de ministro. A Secretaria Especial dos Direitos Humanos, criada pela Lei nº , de 28 de maio de 2003, é o órgão da Presidência da República que trata da articulação e implementação de políticas públicas voltadas para a promoção e proteção dos direitos humanos. 30

31 Memórias Reveladas pretende ser o maior acervo de documentos da ditadura e centro irradiador de todo o debate acerca deste assunto, pois segundo o endereço eletrônico do projeto: O Centro constitui um marco na democratização do acesso à informação e se insere no contexto das comemorações dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Um pedaço de nossa história estava nos porões. O "Memórias Reveladas" coloca à disposição de todos os brasileiros os arquivos sobre o período entre as décadas de 1960 e 1980 e das lutas de resistência à ditadura militar, quando imperaram no País censura, violação dos direitos políticos, prisões, torturas e mortes. Trata-se de fazer valer o direito à verdade e à memória. A criação do Centro suscitou, pela primeira vez, acordos de cooperação firmados entre a União, Estados e o Distrito Federal para a integração, em rede, de arquivos e instituições públicas e privadas em comunicação permanente. Até o momento, em 13 Estados e no Distrito Federal foram identificados acervos organizados em seus respectivos arquivos públicos. Digitalizados, passam a integrar a rede nacional de informações do Portal "Memórias Reveladas", sob administração do Arquivo Nacional. (Disponível em: =43) A primeira iniciativa prática empreendida pelo governo federal visando abrir seus arquivos referentes à ditadura ao grande público através do projeto Memórias Reveladas, data de 18 de novembro de 2005, foi publicado o Decreto Presidencial nº que regulamentou a transferência para o Arquivo Nacional dos acervos dos extintos Conselho de Segurança Nacional - CSN, da Comissão Geral de Investigações e Serviço Nacional de Informações - SNI, até então sob custódia da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). O projeto também atua em nível regional, e em Goiás, em parceria com a UFG, vem realizando inúmeros eventos, como exibição de filmes e documentários, exposições fotográficas, debates e palestras com estudiosos do tema e pessoas que viveram no período do regime militar. Porém, infelizmente, como me foi relatado pela equipe do CIDARQ, entre eles o próprio Rodolfo Perez Rodrigues, na maioria das vezes estes 31

32 eventos ficam restritos a apenas à comunidade universitária ou a um grupo reduzido de pessoas que tem interesse e acesso à divulgação das datas. Desta forma, podemos afirmar que o projeto ainda não atinge seu objetivo que deveria estar em primeiro plano, que é de atingir a sociedade de forma ampla, levando-a não só a conhecer sobre o período militar, mas também a pensar sobre os fatos e sobre a importância de se exigir que o Estado seja transparente em suas ações. Ao empreender tais iniciativas, o Estado Brasileiro não está fazendo nenhum favor a seus cidadãos. Está apenas cumprindo seu dever previsto na constituição democrática de Mas cabe a nós refletir se estas medidas são realmente suficientes no propósito de deixar o povo exercer sua cidadania e ter acesso à verdade ou se são apenas medidas paliativas e midiáticas que pretendem apenas criar a sensação de transparência. A pesquisa ampla e sistemática nos arquivos públicos de órgãos como os DOPS (ou o que sobrou deles) e a produção intelectual proveniente dela poderia render novos debates, gerar novos pontos de vista e esmiuçar de forma mais criteriosa informações sobre quem foram, e como viveram os brasileiros que participaram direta ou indiretamente do período militar. Nesse sentido, concluímos que nossa legislação deve apoiar plenamente, e não dificultar o acesso aos documentos. O artigo 1º, parágrafo único da Constituição de 1988 diz que todo o poder emana do povo, desta forma, podemos entender que o poder estatal em nosso país é popular, e assim sendo, o povo, na qualidade de detentor do poder, deve participar ativamente das decisões tomadas pelos governantes eleitos por este povo para representar sua vontade. Em um país democrático, portanto, exercer esse poder, é exercer a plena cidadania. Uma prerrogativa indispensável ao exercício do poder é o conhecimento da situação sobre a qual ele será exercido. Desta forma, se o poder emana do povo, o conhecimento acerca da realidade e da história do Estado deve estar à sua 32

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