A FORMAÇÃO DO SUJEITO ECOLÓGICO POR MEIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL CRÍTICA A PARTIR DE CONCEPÇÕES PEDAGÓGICAS PAULO FREIREANAS

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1 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática A FORMAÇÃO DO SUJEITO ECOLÓGICO POR MEIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL CRÍTICA A PARTIR DE CONCEPÇÕES PEDAGÓGICAS PAULO FREIREANAS Vicente Simão de Vasconcelos Belo Horizonte 2011

2 Vicente Simão de Vasconcelos A FORMAÇÃO DO SUJEITO ECOLÓGICO POR MEIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL CRÍTICA A PARTIR DE CONCEPÇÕES PEDAGÓGICAS PAULO FREIREANAS Dissertação apresentada ao Programa Mestrado Profissional de Ensino de Ciências e Matemática da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Ensino de Biologia. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Cláudia de Vilhena S. Sabino Belo Horizonte 2011

3 FICHA CATALOGRÁFICA Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais V331f Vasconcelos, Vicente Simão de A formação do sujeito ecológico por meio da educação ambiental crítica a partir de concepções pedagógicas Paulo Freireanas / Vicente Simão de Vasconcelos. Belo Horizonte, p. Orientadora: Cláudia de Vilhena Schayer Sabino Dissertação (mestrado) Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Ensino de Biologia. 1. Sujeito (Filosofia). 2.Educadores. 3. Educação Ambiental Estudo e ensino. 4. Ecologia urbana 5.Conscientização. 6. Emancipação. 7. Freire, Paulo, I. Sabino, Cláudia Vilhena Schayer. II. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Ensino de Biologia III. Título. CDU: 577.4:37

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5 À minha querida mãe e demais familiares, pelo incentivo e apoio permanentes. Aos que acreditam que a educação pode ser, apesar de tudo e de muitos, uma opção de formação de um novo ser humano, aliada na defesa do meio ambiente e um caminho para um mundo melhor.

6 AGRADECIMENTOS À minha orientadora, Professora Cláudia de Vilhena S. Sabino, pela atenção e sugestões sempre dadas quando foram solicitadas. A todos os colegas do programa do mestrado, sobretudo os da turma de biologia, especialmente à Flavinha, Renata, Daniela, Richarlen e Nívea, pelo convívio valioso e enriquecedor, e pela certeza de que vale a pena continuá-lo, apesar das distâncias. A todos os meus familiares, colegas de trabalho e demais pessoas, que por diferentes formas, sempre me incentivaram.

7 Educar para outros mundos possíveis é educar para conscientizar, para desalienar, para desfetichizar. (...) Por isso, educar para outros mundos possíveis é também educar para a ruptura, para a rebeldia, para a recusa, para dizer não. Para gritar, para sonhar com outros mundos possíveis. Denunciando e anunciando. (...) Por isso, uma educação para outros mundos possíveis é, sobretudo, a educação para o sonho, uma educação para a esperança. Moacir Gadotti

8 RESUMO Este trabalho teve como propósito abordar a formação do sujeito ecológico crítico e autônomo em um cenário de crise socioambiental mundial a partir da educação ambiental crítica, esta fundamentada nas concepções pedagógicas do educador Paulo Freire, por meio de muitas categorias utilizadas por ele. A educação ambiental crítica, enquanto processo de conscientização, intervenção e transformação da realidade, propõe a superação do falso dualismo entre reflexão e ação e adota novos olhares sobre as questões socioambientais, considerando que elas estão inseridas em uma realidade caracterizada por múltiplos aspectos de profunda complexidade, a partir de uma visão de totalidade em um cenário de crise. O sujeito visto como foco principal foi o educador, por ele ter um papel crucial a cumprir no processo formativo do sujeito ecológico, tanto na escola como no conjunto da sociedade, mas sendo necessário para isso uma formação capaz de capacitá-lo à função de formador de outros sujeitos. Como forma de contribuição direcionada especificamente para educadores, a opção feita foi de produzir um portfólio com textos diversos abordando questões relacionadas com a causa ambiental, com a educação ambiental crítica e com vários temas vinculados à educação, todos voltados para a formação do sujeito ecológico a partir de perspectivas históricas, críticas, transformadoras, emancipatórias e cidadãs. Este portfólio foi analisado em uma pesquisa por diversos educadores, sendo possível realizar um diagnóstico a respeito de como eles avaliaram o seu conteúdo e qual a opinião que os mesmos apresentaram sobre diversos assuntos relacionados com a prática docente em relação à educação ambiental crítica. Foi possível constatar o interesse dos educadores pela educação ambiental, mas ao mesmo tempo a necessidade de haver um processo contínuo de formação e a implementação de ações mais organizadas e concretas de educação ambiental no processo educativo escolar como forma de evitar a fragmentação e aproveitar o potencial existente nesse meio, para traduzir anseios e necessidades que estão postos pelas exigências do momento em toda sociedade. Palavras-chave: Crise. Formação do Sujeito. Educação Ambiental Crítica. Educador. Paulo Freire. Concepções Pedagógicas. Conscientização, Transformação e Emancipação.

9 ABSTRACT This study was intends to deal with the formation of a critical and autonomous green person in a period of global socio environmental crisis from environmental education, grounded in the pedagogical conceptions of the educator Paulo Freire, through many categories used by him. The critical environmental education as a process of awareness, intervention and transformation of the reality, is proposed to overcome the false dichotomy between thought and action and adopt new perspectives on environmental issues, considering that they are inserted into a reality characterized by multiple aspects of deep complexity from a vision of wholeness in a crisis scenario. The subject seen as the main focus was the educator, because he has a crucial role to fulfill in the formative process of the green person, both at school and in society, but needing a formation to enable them to be trainers of other subjects. As a contribution aimed specifically for educators, the choice was to produce a portfolio with various texts dealing with issues related to the environmental cause, with the critical environmental education and various critical issues related to education, all focused on the formation of the green person based on historical critical, transforming, emancipating and citizen perspectives. This portfolio was reviewed in a survey by several educators, been possible to make a diagnosis on how they evaluated the content and what opinion that they presented on various subjects related to teaching practice in relation to a critical environmental education. It was possible to see the interest of educators in environmental education, but at the same time the need for an ongoing process and implementation of actions more organized and practical about environmental education in the school educational process as a way to avoid fragmentation and harness the potential existing to translate goals and needs that are the demands now in the whole society. Keywords: Crisis. Formation of the Subject. Critical Environmental Education. Educator. Paulo Freire. Pedagogical Conceptions. Awareness, Transformation and Emancipation.

10 ONGs Organizações não-governamentais LISTA DE SIGLAS

11 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO Justificativa Objetivos Objetivo Geral Objetivos Específicos REVISÃO BIBLIOGRÁFICA A questão ambiental e a educação ambiental como processo formador A questão ambiental em evidência em um cenário de crise e adversidade A educação como meio de formação do ser humano Os limites do processo educativo Educação ambiental crítica O pensamento pedagógico de Paulo Freire A contribuição de Paulo Freire para a educação ambiental crítica Algumas categorias pedagógicas de Paulo Freire Diálogo/Dialogicidade Consciência/Conscientização Libertação Humanismo Autonomia Criticidade Interdisciplinaridade Problematização Práxis O educador ambiental O educador ambiental enquanto mediador da formação do sujeito ecológico O educador e o seu papel diante das possibilidades e riscos METODOLOGIA Pesquisa bibliográfica Elaboração do conteúdo do material didático (Portfólio) Aplicação do recurso didático voltado para a formação de educadores Aspectos do questionário aplicado O PRODUTO...67

12 5 RESULTADOS O perfil dos participantes da pesquisa Interpretação dos resultados Resultados da oficina pedagógica Resultados do questionário Interpretação das respostas das questões específicas relacionadas à análise do produto (portfólio) Outras considerações CONCLUSÃO...90 REFERÊNCIAS...94 APÊNDICE...103

13 11 1 INTRODUÇÃO Posto que nas últimas décadas intensificou-se o quadro de uma crise socioambiental sem precedentes no planeta Terra, derivada do modelo civilizatório atualmente em vigor, que gradativa e crescentemente veio se agravando a olhos vistos em um cenário de imprevisibilidade para todas as sociedades e culturas, torna-se oportuno desenvolver uma abordagem que possa contemplar essa questão a partir de uma perspectiva de elaboração e implementação de alternativas viáveis, adequadas e funcionais como forma de resistência e contraponto a essa situação, tendo a educação ambiental crítica como fio condutor de iniciativas voltadas para desenvolver o aspecto formativo do sujeito ecológico. Por considerar que a educação não é somente escolarização com instrução e transmissão de conteúdo, mas, sobretudo, possibilidade de formação, conscientização, transformação e emancipação das pessoas e do mundo, e dadas as circunstâncias desfavoráveis da questão socioambiental no momento atual, é impensável e impossível abdicar da educação como aliada e opção na busca de meios capazes de enfrentar e superar, ou ao menos minimizar, esse quadro de adversidades e riscos prementes que ora se apresentam. A partir do exposto acima, torna-se evidente a importância do entendimento e desenvolvimento da educação ambiental crítica como meio e oportunidade de elaboração e implementação de ideias, ideários, projetos, iniciativas e ações individuais e coletivas, ao mesmo tempo concretas e objetivas, a favor da formação do sujeito ecológico crítico, consciente e emancipado, focado prioritariamente no segmento de educadores, pois estes possuem a missão de promover a educação ambiental, na modalidade formal, ao conjunto da comunidade escolar, podendo a partir disso, haver parcerias com outros segmentos representativos da sociedade, com possíveis desdobramentos para as modalidades não-formal e informal, todas podendo ter amplo alcance ao conjunto da sociedade. Tendo essa perspectiva, a formação do educador ambiental pode ocorrer fundamentada pelo pensamento pedagógico de Paulo Freire, um educador com enormes contribuições para a educação escolar e popular libertadora, podendo as várias categorias elaboradas e propostas em suas obras e aplicadas por ele em seus trabalhos - e que ainda continuam vivas, aplicáveis e atuais -, serem utilizadas na formação do educador enquanto sujeito ecológico. Além de Paulo Freire, diversos outros autores, identificados e seguidores de uma concepção

14 12 educacional crítica, inserida no contexto histórico, portadoras de propostas transformadoras e emancipatórias também podem completar as fontes de subsídios necessários para a elaboração de processos formativos de educadores com o perfil acima descrito. No entanto, qualquer proposta de formação de educadores precisa ser precedida de diversas informações, como quem são esses educadores, seus perfis, a percepção e o envolvimento que os mesmos têm em relação à formação de educadores, a emergência e atualidade da educação ambiental crítica, o debate atual sobre meio ambiente, entre tantas outras questões necessárias e fundamentais, pois são vários os aspectos norteadores da formação de educadores, e sem o conhecimento dos mesmos, qualquer iniciativa nesse sentido poderia não corresponder às suas reais possibilidades, necessidades e alcance. Considerando essas particularidades, é possível avançar no sentido de planejar e implementar atividades que visem justamente desenvolver ações especificamente voltadas para a formação do educador. Uma delas, sem dúvida, consiste na possibilidade de produção de materiais didáticos e pedagógicos adequados, que devidamente aplicados, sejam capazes de contribuírem com a formação desses profissionais a partir de uma visão crítica, plural e interdisciplinar. Mas se a necessidade exige a tomada de medidas eficazes nesse sentido, é dada aos responsáveis por implementá-las a função de serem sabedores que o segmento de educadores possui um perfil heterogêneo em vários aspectos, apresentando vivências e experiências muito singulares, com concepções e posturas díspares e até antagônicas em muitas situações, além de profundas e diferenciadas limitações e carências quanto à percepção e noção do significado e da importância que recaem sobre eles no que diz respeito ao aspecto de formação pessoal, que em seu real significado prático, extrapola o conceito da palavra. Se quanto ao aspecto da formação de educadores há defasagens e necessidades pedagógicas ainda não atendidas, por outro lado esse quadro reforça a preocupação de haver iniciativas mais imediatas para superar essas deficiências e aproveitar o potencial existente, mas ainda estancado no segmento dos educadores, iniciativas essas que sejam capazes de dotá-los coletivamente à condição de sujeitos ecológicos críticos, função precípua cabível ao papel de educadores inseridos em contextos socioambientais diversos, multifacetados e complexos, mas que não podem prescindir da permanente e ativa atuação de educadores ambientais comprometidos com a nobre função de educar para conscientizar e transformar.

15 Justificativa Este trabalho justifica-se por ir ao encontro de várias questões que estão em evidência tanto na área educacional, em seus múltiplos aspectos, como também por conta da inserção das mesmas no debate moderno das preocupações e demandas socioambientais que têm sido cada vez mais relevantes, cabendo aos educadores um papel de notório destaque nesse cenário a partir de perspectivas direcionadas para a importância de o processo educacional estar voltado para a formação do sujeito ecológico. Lidar com a questão ambiental tornou-se, em função da conjuntura do momento, uma responsabilidade coletiva, na qual se deve incluir os educadores, a escola e todo o significado que a sua função impõe como compromisso societário, histórico e de cidadania. Por isso ser importante e necessário, é esperado que os mesmos assumam a condição de protagonista nesse debate, não devendo esquivar-se dessa exigência enquanto imperativo ético-profissional e compromisso social e político, ao contrário, assumindo-a com objetividade, embora devam saber que a tarefa de educar não seja exclusividade a ser desempenhada somente pela escola. Em função disso, é necessário que o educador se constitua de fato em um sujeito ecológico, condição que para ser alcançada exige dele formação permanente a partir de concepções críticas, transformadoras e de compromissos com a cidadania ambiental. Mas considerando que há entre os educadores condições diferenciadas quanto à percepção que os mesmos possuem em relação ao significado de seu papel e da educação ambiental, é necessário conhecer o que eles realmente pensam e fazem sobre essas questões. Assim, a razão de por que realizar uma pesquisa com os educadores ser uma forma de obter informações a respeito deles e conhecê-los melhor, dando-lhes, inclusive, a oportunidade de analisarem e avaliarem um material didático voltado para a formação desse segmento na área de educação ambiental, e decorrente disso, interpretar essas informações como forma de provocar transformações em vários aspectos, estas sempre a partir da práxis, do debate dialético crítico e propositivo e da reciprocidade permanente. O processo de formação de educadores voltado para a constituição do sujeito ecológico é uma exigência emergencial e processual da educação ambiental crítica, que exige o conhecimento da realidade para transformá-la, de forma a romper com a unanimidade estabelecida pelo discurso hegemônico e dominante do senso comum, que contribui para perpetuar o modelo de crise socioambiental. Assim, convém adotar sempre uma postura a partir de uma orientação crítica e desmistificadora, sabendo da importância do conhecimento

16 14 interagir com a realidade na qual os educadores estão inseridos, inclusive com o ambiente não escolar. Também é significativo notar que a educação ambiental não pode ser um amortecedor da crise socioambiental, servindo para ignorar, negar, justificar ou atenuar o significado desta, pelo contrário, é papel dela desvelar seus meandros e contribuir para sua superação. Quanto a isso, cabe aos educadores ficarem permanentemente atentos, a fim de não legitimarem uma situação que a eles é dada a função de conhecer, questionar e enfrentar. O sujeito ecológico enquanto educador ambiental não pode ser caudatário e refém de modismos, romantismos, aventuras inconsequentes e de incongruências em sua prática educativa. Tampouco ele deve ter a pretensão de pontificar em sua função, pois, enquanto protagonista do processo educacional, ele precisa conhecer e conviver com a pluralidade e as vozes discordantes, uma vez que a própria educação ambiental crítica apresenta indubitavelmente um caráter contestador, questionador e de abertura para o novo. Daí a importância de a educação ambiental crítica extrair do pensamento pedagógico de Paulo Freire as categorias ou concepções capazes de sustentar essas propostas, reinventado-as continuamente, pois tanto o ato de educar quanto o de formação é uma construção histórica e social, portanto, deve ser um processo dinâmico, preferencialmente enriquecido e enriquecedor de cultura, conhecimento, sentido, compromisso, posturas e ações. Para o educador, a escola como meio de formação deve se constituir como um espaço para a abertura e construção do diverso. Daí a importância do discurso e da prática ambiental serem mais permeáveis e devidamente assimilados por aqueles que se encontram no interior da escola e no espaço social onde ela se encontra inserida, espaços esses quase sempre envoltos por um turbilhão de problemas socioambientais que continuam se agravando. A educabilidade de todos os que compõem esses espaços estará condicionada muito em conta ao papel desempenhado pelo educador, por isso ser importante que o mesmo tenha uma formação diferenciada para saber problematizar essas questões a partir da educação ambiental crítica e com uma prática pedagógica comprometida com a inserção de todos e com a transformação do contexto. Por fim, é oportuno registrar o desejo de buscar por meio deste estudo e da pesquisa, apesar de suas limitações, a totalidade e a compreensão de sua importância e significado, e por meio dos seus possíveis desdobramentos, a possibilidade de aflorar e alcançar a ascensão a uma outra cena socioambiental e educacional, com a mediação da educação ambiental crítica, a favor da formação do sujeito ecológico, tendo como objetivo principal e inicial os educadores.

17 Objetivos Objetivo Geral a) Dissertar sobre o significado, a necessidade e a viabilidade de elaboração e aplicação permanente de um modelo de educação ambiental que seja caracterizada por aspectos pedagógicos críticos e emancipatórios a partir da utilização de diversas categorias do pensamento pedagógico do educador Paulo Freire, utilizando como recurso didáticopedagógico na pesquisa com educadores, o estudo e a análise de um portfólio educativo produzido com diversos textos, que objetiva contribuir como suporte teórico na formação do educador como sujeito ecológico consciente, atento e atuante em sua área Objetivos Específicos a) Elaborar um corpo teórico, fundamentado na leitura e no estudo de uma ampla referência bibliográfica e teórica, que seja capaz de contribuir com a formação do cidadão e sujeito ecológico, sobretudo dos educadores, tendo como perspectiva fundamentar estudos e ações concretas a serem desenvolvidas pelos mesmos, possibilitando a sistematização e a aplicação de uma educação ambiental, crítica, adequada e funcional, que favoreça o surgimento e o exercício permanente do diálogo, de debates, da criticidade, da autonomia, da práxis, da emancipação, da transformação social, entre outros aspectos necessários ao contexto e ao conjunto dos envolvidos, considerando as particularidades e características específicas do meio em que estiverem inseridos e diante das necessidades e dos desafios que estão postos pelo momento atual, com sua realidade e complexidade. b) Divulgar e contribuir com a contextualização da educação ambiental crítica, que pode ser implementada por vários meios nos diversos ambientes, sobretudo o escolar, como grupo de estudos, reuniões, debates, atividades de campo, etc., profundamente correlacionada e interdependente com os diversos aspectos presentes no conjunto da sociedade, tais como o político, o social, o econômico, o cultural, o histórico, o científico e tecnológico, o ético, o

18 16 estético, entre outros, de forma a potencializar a formação de um ser humano que seja de fato consciente e ativo no aspecto ambiental, considerando que ele se apresenta como sendo a síntese das interações dinâmicas e contínuas entre esses vários aspectos em seu cotidiano; c) Produzir, para o desenvolvimento do trabalho de pesquisa com educadores, um portfólio sobre temáticas socioambientais e educacionais, com textos que abordem diversos assuntos das respectivas áreas, fundamentados por uma ampla referência bibliográfica, considerando as demandas existentes e identificadas, tanto as locais como as relacionadas com os aspectos regionais, nacionais e globais, que será distribuído a profissionais da educação (professores e pedagogos) para ser analisado, tendo o mesmo o objetivo e a função de ser um recurso didático e pedagógico que possa contribuir como suporte para o desenvolvimento de estudos e com o processo de informação e de formação continuada de educadores e cidadãos ecologicamente conscientes e atuantes, aptos a desempenharem a função de formadores diante das necessidades, exigências e complexidade da atual crise socioambiental; d) Realizar um levantamento de informações, para constatar, por meio de conversas, debates, aplicação de questionário, entre outros meios possíveis e necessários, quais são as concepções, demandas, carências, objetivos, características e necessidades apresentadas pelos envolvidos na pesquisa em relação aos aspectos relacionados à sua formação na área de educação ambiental crítica que tenha como objetivo a formação permanente tanto de educadores como de educandos.

19 17 2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.1 A questão ambiental e a educação ambiental como processo formador A questão ambiental em evidência em um cenário de crise e adversidade A questão ambiental tem sido nas últimas décadas um tema de ampla abordagem, com notável destaque no cenário mundial, principalmente a partir dos últimos anos, devido o agravamento da crise socioambiental sem precedentes que se apresenta em nível planetário. Pode-se definir a crise socioambiental atualmente existente, em termos mais simples e objetivos, como sendo um processo histórico, cumulativo e crescente no interior do modelo civilizatório em voga, caracterizado por sucessivos desequilíbrios, desordens, antagonismos, incorreções e desvios generalizados, ocorridos nas várias áreas com profundos, significativos e complexos desdobramentos que se tornaram relevantes, evidentes, incompatíveis, ameaçadores e imprevisíveis, a partir, sobretudo, das últimas décadas, sem que tenha havido, até o momento, qualquer perspectiva de superação prática e consensual, ou ao menos, de minimização de seus efeitos deletérios a toda humanidade e ao planeta Terra como um todo. Essa crise socioambiental é apenas uma faceta de uma crise mais ampla que envolve nossa sociedade (BRÜGGER, 2004, p. 17), que se manifesta de diferentes formas, não poupando nenhuma região do planeta, povo e país, ainda que possa ocorrer em graus diferenciados de intensidade, ameaças, gravidade e consequências para os que por ela são atingidos e se tornam vítimas. E se por algum tempo, houve indiferença ao que estava ocorrendo, havendo inclusive uma procrastinação na busca de entender suas causas e consequências e na tomada de iniciativas reais e objetivas a fim de evitar que ocorresse um agravamento no quadro da crise, os sinais e ameaças que dela agora surgem podem acarretar o fim das condições de sustentabilidade da vida especialmente a humana (VASCONCELLOS; LOUREIRO; QUEIROZ, 2010, p. 2) e devem levar obrigatoriamente a uma mudança de posição por parte dos que têm a responsabilidade direta em lidar com essa situação.

20 18 Como parte desse processo, torna-se necessário e urgente alcançar meios de enfrentar esse problema, que tende a agravar crescentemente o já atual quadro de imprevisíveis resultados para o planeta Terra, incluindo toda a humanidade, notadamente as populações historicamente mais empobrecidas, vítimas permanentes das injustiças, das vulnerabilidades, dos conflitos e dos riscos ambientais (LAYRARGUES, 2002, 2009), além de se constituir em uma ameaça aos diversos e importantes ambientes naturais e à existência das inúmeras e variadas formas de vida que evoluíram ao longo do tempo, sendo muitas delas raras, mas fundamentais para os ambientes onde se encontram e ainda não conhecidas pela ciência. O ser humano, por meio de suas várias ações nefastas e cumulativas, vem demonstrando ser historicamente o único responsável pelo fortalecimento e agravamento dessa crise, que se sustenta em complexas questões já estruturadas, fortes ideologias antiecológicas e desumanas e em um processo civilizatório e societário que já não consegue impedir que novos e incômodos desdobramentos de crises cíclicas cada vez mais amplas e diversificadas ocorram frequentemente, conforme vários autores já abordaram (WILSON, 2008; DIAMOND, 2007; HOBSBAWM, 2008; MINC, 1998; SANTOS, 2008; BOFF, 2002, 2008, 2009; LEFF, 2006, 2007; PORTO-GONÇALVES, 2004, 2006; LOVELOCK, 2006, 2010; SAGAN, 2008; KEMPF, 2010). É consenso por parte de muitos pensadores, estudiosos, cientistas e por diversos militantes e representantes dos vários segmentos do movimento social e de Organizações Não-Governamentais (ONGs) que a construção de alternativas para superar, ou ao menos minimizar, os inúmeros problemas socioambientais do momento, deverá necessariamente considerar e envolver as mais diversas áreas do conhecimento e dos diversos setores presentes nas mais diferentes sociedades. Tendo em vista que a crise socioambiental já alcançou uma dimensão planetária, não havendo mais como qualquer segmento (governamental, político, empresarial, científico, sociedade organizada, meios de comunicação, etc.) se eximir de responsabilidades na busca de soluções concretas, funcionais e mais imediatas, já que pensar a gravidade do tempo em que vivemos, é pensar também as possibilidades de sua superação (UNGER, 2009, p. 152), incluindo o envolvimento de amplos setores da sociedade, urge entendê-la em sua totalidade. Convém reforçar que em função da amplitude, seriedade e complexidade dessa crise socioambiental e considerando as inúmeras dificuldades já conhecidas e as que ainda estão por surgir em todos os aspectos, a possibilidade de superação da crise, incluindo suas causas e consequências, em um curto espaço de tempo, é inexistente, pois é uma crise de paradigmas civilizatórios (GADOTTI, 2007, p. 191), o que também significa dizer uma crise da razão,

21 19 do pensamento, do conhecimento (LEFF, 2009, p. 18), e ainda estrutural e generalizada (GAUDIANO; KATRA, 2009, p. 54), e cada vez mais, uma crise mais profunda, que envolve um paradigma, um projeto de mundo e um modelo de sociedade que emergiu a partir desse paradigma e desse específico projeto de mundo (BRÜGGER, 2006, p 77), que para ser assimilada, enfrentada e superada, demanda tempo e a elaboração de novas concepções e projetos de vida, de mundo e de sociedade pelo conjunto da humanidade. Assim, a mesma deverá ser vista como parte de um longo e árduo processo ativo, contínuo e transformador a ser constituído pela humanidade, incluindo aí vários atores das inúmeras áreas, pois como se sabe, a crise atualmente existente não é somente limitada ao aspecto naturalista, mas comporta diversas áreas, com interesses, significados, realidades e riscos diversos. Partindo desse contexto e sabendo que o ser humano é um sujeito que se encontra histórica e socialmente situado em uma realidade dinâmica de múltiplas facetas e em permanente processo de formação de seu ser, em sua evolução biológica e cultural, na construção de sua história e por meio de sua ação concreta sobre o meio, transformando-o e sendo transformado por ele, podendo ocorrer avanços e retrocessos em todas as áreas em função de suas ações ao longo do tempo, deve-se reconhecer que sua capacidade de intervir na situação está na dependência do grau de consciência que possui da situação (SAVIANI, 2004, p. 64), sem o qual pouco adiantará qualquer iniciativa, ainda que bem-intencionada e necessária. Considerando o que acima foi exposto, cabe ressaltar a necessidade de, por meio de um processo educacional - que também se concretiza ao longo da história e se insere socialmente -, buscar meios de formar um novo ser humano em seu jeito de pensar e de agir em sociedade e em relação ao meio ambiente, tendo uma perspectiva de superação de um processo de acúmulo histórico de irracionalidades e degradação ambiental, pois as mesmas têm sido contínuas e perturbadoras do equilíbrio ecológico e socioambiental do planeta, acarretando imensos e significativos prejuízos à vida e ao planeta Terra como nunca antes ocorridos A educação como meio de formação do ser humano A educação é um processo que pode ocorrer em um determinado contexto e que possibilita às pessoas que a ela têm acesso a oportunidade de serem portadoras dos mais

22 20 diversos conhecimentos, dos saberes e das inúmeras informações sobre os mais variados assuntos que ao longo da história vêm sendo produzidos e disponibilizados pelos inúmeros meios. Percebe-se que a educação acontece como parte da ação humana de transformar a natureza em cultura, atribuindo-lhe sentidos, trazendo-a para o campo da compreensão e da experiência humana e estar no mundo e participar da vida (CARVALHO, 2004, p. 77). A partir disso, entende-se que a relação entre cultura e natureza é permanente, mas não dicotômica e dualista. Como uma construção humana, o processo educativo tem a função formativa e está sujeito às características e vicissitudes do meio onde é sistematizado e desenvolvido. Assim, as concepções e as práticas educativas existentes seguem a lógica das condições nas quais foram sendo elaboradas, de acordo com os contextos históricos, políticos, econômicos, culturais, científicos e tecnológicos, entre tantos outros existentes e possíveis em determinado espaço e tempo. E isso sinaliza para a necessidade de considerar, sobretudo tendo em vista a mediação da educação ambiental crítica nesse processo de formação, que: O processo educativo deveria ajudar os sujeitos a perceber que há determinantes (econômicos, políticos, etc.) exercendo influências na formação, agravamento e também no encaminhamento de soluções para os problemas ambientais evitando, assim, a construção de uma visão ingênua sobre a realidade (MANZOCHI; CARVALHO, 2008, p. 108). E é justamente pela necessidade de considerar toda essa complexidade e abrangência, que a educação como possibilidade e potencialidade de formação de um novo ser humano extrapola o ambiente físico da escola bem como o trabalho escolar. Educação de fato, é mais do que escolarização, ainda que esta possa fazer parte do processo educacional. Por isso ela pode ocorrer em vários lugares, como no seio familiar, nas mais diferentes atividades do sindicato, na mobilização da associação de moradores, nos trabalhos de muitas organizações não-governamentais sérias e comprometidas, nas iniciativas de formação política da militância de partidos críticos e progressistas, mediante os meios eletrônicos e tecnológicos modernos, entre tantos outros espaços e meios possíveis. Com essas múltiplas possibilidades de efetuar a prática educacional, o ato de educar em si que se propõe crítico e comprometido com a formação plena do ser humano e com as transformações sociais necessárias deve reconhecer as particularidades presentes na diversidade cultural humana e nos diferentes espaços onde ela existe, sabendo identificar neles aspectos diferenciados que se constituem em pluralidade e riquezas do ser humano,

23 21 evitando assim cometer equívocos muito comuns por parte de vários educadores, como a invasão cultural (FREIRE, 1992, 2009). A possibilidade de educar para essa diversidade torna-se um imperativo, daí a importância de saber reconhecer as várias maneiras de ocorrer o processo educacional nos vários espaços e tempos existentes. Diante disso, tendo como adequadas a iniciativa, a postura e a necessidade de não se impor nenhum padrão único de prática educativa em função da existência de diferentes realidades que necessitam de abordagens também diferentes, convém então considerar a flexibilidade no ato de educar para outros mundos possíveis (GADOTTI, 2007, p. 188), também como condição para que o significado do ato educativo de fato possa justificar-se enquanto possibilidade de potencializar a formação do ser humano diante das exigências cada vez maiores nos tempos atuais. É certo que a educação deve servir para a promoção do ser humano (SAVIANI, 2004), capaz de transformá-lo em um sujeito crítico, reflexivo, livre, emancipado e atuante em seu meio, buscando assim a construção de uma sociedade e de um mundo sempre melhores em todos os aspectos e sentidos. E hoje, mais do que nunca, há necessidade urgente de se promover uma educação que possa cuidar e preparar verdadeiramente o ser humano para torná-lo consciente, de fato, de sua existência, do que isso significa e de sua historicidade. E é principalmente por meio da educação que se deve buscar a formação plena e contínua do indivíduo, considerando que educar é substantivamente formar (FREIRE, 2005, p. 33) a fim de dotá-lo da capacidade de intervir no meio onde se encontra inserido, em uma relação contínua por meio da práxis (ação-reflexão, teoria-prática), superando a passividade e a alienação, que o impedem de se tornar um sujeito verdadeiramente histórico e emancipado, pois educar é emancipar a humanidade, criar estados de liberdade diante das condições que nos colocarmos no processo histórico e propiciar alternativas para irmos além de tais condições (LOUREIRO, 2005, p. 1484). Por isso que o significado e o sentido do ato educacional é muito mais do que simplesmente o ato de alfabetizar em uma sala de aula, pois somente esta condição, ainda que ela seja de fundamental importância e imprescindível, não é suficiente para a inserção das pessoas como sujeitos ativos e emancipados no conjunto da sociedade. A educação, para que seja avançada sob o ponto de vista da formação das pessoas, precisa verdadeiramente contemplar as múltiplas questões que se fazem presentes no cotidiano delas, abordando temas importantes e diversificados, como partes do mundo concreto e real no qual todas vivem. Dessa forma, o processo educativo deverá contribuir enormemente com a construção e a disseminação do saber e do conhecimento e na

24 22 assimilação crítica das informações, condições necessárias para a formação e o exercício da cidadania plena. E nesse caso, vale citar a necessidade de uma formação voltada para a consciência e o exercício específico da cidadania ambiental, que apresenta particularidades de grande importância no mundo atual diante de um contexto tomado e caracterizado por complexas questões socioambientais que estão a exigir das pessoas um mínimo de conhecimento e de ação concreta alternativa. A educação é um processo que não pode ser concebido e encarado de forma descontextualizada das circunstâncias e da realidade onde se encontra inserida, independente das condições dessa realidade serem ou não favoráveis, a saber: O processo educativo não é um processo neutro e objetivo, destituído de valores, interesses e ideologias. Ao contrário, é uma construção social repleta de subjetividade, de escolas valorativas e de vontades políticas dotado de uma especial relevância social por sua capacidade de reproduzir ou transformar a ordem social. Assume, portanto, uma função estratégica por estar diretamente envolvida na socialização e formação dos indivíduos e de sua identidade social e cultural (LIMA, 2009, p. 152). O desafio da educação que seja de fato comprometida com a formação e com a melhoria das pessoas e com a ação crítica transformadora voltada para a construção de uma sociedade melhor em todos os seus aspectos, é de ser justamente um contraponto a todas as condições e fatores que impedem que isso aconteça, tornado-se um meio de denúncia e de resistência a tudo aquilo que se mostra inadequado para o crescimento do ser humano, à vida e ao conjunto da sociedade, e, ao mesmo tempo, ser anúncio, alternativa e suporte para a concretização do novo, do necessário, do diferente e do melhor, afinal de contas, a prática educacional tem como objetivo central fazer avançar a capacidade de compreender e intervir na realidade para além do estágio presente, gerando autonomia e humanização (CORTELLA, 2009, p ), aspectos tão necessários à formação plena do ser humano. Por isso, é necessário ter a devida precaução com os discursos e com as propostas provenientes da educação conservadora (GENTILI, 2005), esta podendo ser entendida como sendo a concepção e a prática educativa caracterizadas e comprometidas apenas com a hegemonia, os ideários e pressupostos elitistas, com a legitimação dos interesses do capital, com a adesão acrítica à ordem estabelecida, e sua consequente reprodução, com o discurso da neutralidade da educação e da ciência, refém do senso comum estabelecido (SAVIANI, 2003; FRIGOTTO, 2001; GADOTTI, 2008), apenas preocupada com propostas pedagógicas

25 23 voltadas para a transmissão de conteúdos, que se parece mais com uma forma de adestramento, disciplinarização, treinamento e docilização dos indivíduos (ORSO, 2008, p. 51), direcionada para a formação de mão-de-obra para o mercado, e sempre se posicionando para produzir tanta conformidade ou consenso quanto for capaz, a partir de dentro e por meio dos seus próprios limites institucionalizados e legalmente sancionados (MÉSZÁROS, 2005, p. 45). Em função disso, também deve haver por parte dos educadores críticos e comprometidos a devida atenção em identificar e conhecer o que é continuamente proposto pelos teóricos e representantes desse modelo educativo. Daí a necessidade de o processo educacional transformador ser dotado da capacidade permanente de se posicionar criticamente e de desmistificar e superar as posturas pedagógicas consideradas conservadoras e atrasadas, que somente servem para reproduzir esse modelo de sociedade que tem sido, dentre tantas outras coisas, profundamente antiecológico, alienante e desumano, podendo adotar como contraponto a esse quadro, o recurso do pensamento e da produção pedagógica crítica, revolucionários e comprometidos com a formação de um ser humano elevado em todos os sentidos e por um mundo melhor. Também é papel da educação realmente comprometida com mudanças significativas, procurar desenvolver e potencializar a prática da análise e da reflexão, pois somente a educação que parte da reflexão, do crescimento em consciência, pode ser uma educação verdadeiramente libertadora (GUARESCHI, 2005, p. 26), sobretudo diante das verdades apresentadas como sendo definitivas e dos pensamentos monolíticos, estes muito comuns em vários locais, com destaque em muitos espaços escolares, e por muitos meios, mas que não contribuem para construção da consciência crítica e social, com a libertação do ser humano das amarras que o prendem e o mantêm tolhido em condições de atraso, impedindo-o de ter ações concretas e objetivas capazes de emancipá-lo historicamente. Igualmente, é função da educação libertadora se insurgir e superar os falsos consensos no campo da formação, da elaboração e da assimilação do conhecimento, das informações e dos saberes, que frequentemente são estabelecidos por e a favor de alguns em detrimento do que interessa à maioria e ao bem comum. Além disso, a educação deve se posicionar contrariamente às condições de alienação, de injustiças, de atrasos, de ameaças a toda forma de vida e à dignidade das pessoas, condições estas que em muitas circunstâncias, se estabelecem mediadas e fortalecidas pelo próprio processo educativo conservador praticado pelos que temem a pluralidade e a emancipação da população. A educação não transforma o mundo, transforma as pessoas e estas transformam o mundo (BATISTA, 2007, p ), portanto, a mesma deve ser um suporte para o ser

26 24 humano ver e encarar o mundo com novos e diferentes olhares, significados, perspectivas, conhecendo-o melhor e se sentindo como parte dele e, mais do que isso, assumindo a responsabilidade por ele, mas também com e pelos que estão nele, que significa dizer não apenas o ser humano, mas todas as formas de vida e de relações estabelecidas entre elas. Por certo, a educação de fato crítica, formativa e transformadora precisa ser uma base de apoio, de fundamentos teóricos e práticos consolidados e coerentes, e se comprometer verdadeiramente e das diferentes formas, com todos aqueles que se organizam e se esforçam continuamente para a construção de uma outra realidade e de um novo ser humano, que seja a melhor para todos e para o meio onde estão inseridos nos mais diferentes sentidos, conforme Carvalho (2006) expõe: A ideia de mudanças radicais abarca não apenas uma nova sociedade, mas também um novo sujeito da educação, que se vê como parte dessa mudança societária e a compreende como uma revolução de corpo e alma, ou seja, uma reconstrução do mundo, incluindo o mundo interno e os estilos de vida pessoal (CARVALHO, 2006, p. 314). Tudo isso reforça a posição da não neutralidade da educação, embora, mesmo sabendo que há entre educadores, os que defendem o contrário, consequência de uma postura e de uma formação não reflexiva e tampouco crítica e aprofundada. Construir uma educação de fato diferente e capaz de ser profunda e amplamente inserida na realidade do cotidiano das pessoas, com perfil, formativo, funcional, plural, humanista e crítico, entre tantas outras possibilidades, é ter que se arriscar diante das condições adversas, ser capaz de criar mecanismos para superar conceitos, ideias, princípios, convicções, hábitos e posturas que se apresentam ultrapassados, descontextualizados e enviesados, mas já muito estruturados, cristalizados e influentes o suficiente para dificultar ou impedir que o processo de formação de sujeitos pensantes, críticos e atuantes possa ocorrer. Dessa forma, o significado de educar é muito profundo e pertinente, pois é a partir do ato educativo crítico, dialógico, plural, participativo e contestador que se poderá promover a formação do sujeito ecológico (CARVALHO, 2004), voltado para a construção e o exercício contínuo e significativo da cidadania plena, sobretudo em um mundo socioambientalmente desequilibrado, injusto e cada vez mais degradado em vários sentidos por conta das nefastas ações humanas. Nesse sentido, o ato de educar deve está voltado para conscientizar, para desalienar, para desfetichizar (...), para a ruptura, para a rebeldia, para a recusa, para dizer não, para gritar, para sonhar com outros mundos possíveis (GADOTTI, 2007, p. 189), havendo por

27 25 isso a necessidade de fazer dele um gesto generoso, valioso e necessário, principalmente para os que ainda não tiveram a percepção de seu profundo significado e importância no cotidiano das pessoas e da sociedade. O papel da educação comprometida com a formação e a emancipação do ser humano, com a valorização da vida e com um futuro melhor para todas as sociedades e culturas se torna ainda mais valioso e necessário diante da crise socioambiental que já é concreta e perceptível em praticamente todos os lugares, com o agravante de se caracterizar por imprevisíveis consequências ao longo do tempo. E quanto a isso, sempre é necessário considerar que a preservação do meio ambiente depende de uma consciência ecológica, e a formação da consciência depende da educação (GADOTTI, 2004, p. 405), o que coloca a educação crítica e transformadora em um ponto de destaque no que diz respeito ao seu caráter formativo em relação ao desafio de construir essa consciência, que precisa ser simultaneamente individual e coletiva, local e global, enfim, planetária, mas cada vez mais urgente. Posto que a educação visa o homem; na verdade, que sentido terá a educação se ela não estiver voltada para a promoção do homem? (SAVIANI, 2004, p. 35), torna-se factível que ela esteja voltada para a formação plena do ser humano em todas as suas potencialidades, mas considerando as inúmeras possibilidades de ocorrerem progressos/retrocessos, acertos/erros, crescimento/estagnação, entre tantas outras opções Os limites do processo educativo O ser humano, em suas múltiplas e complexas dimensões, necessita continuamente, sobretudo nos dias atuais, dos benefícios advindos do processo educativo crítico e transformador contínuo, formal ou não, pois o mesmo possibilita a formação do ser humano enquanto cidadão e sujeito histórico, tendo como certo que em qualquer processo pedagógico os atores são diversos e múltiplos, carregando dentro de si representações que foram, e continuam sendo construídas a partir de inúmeras relações e experiências (BARCHI, 2009, p. 75). Logo, há necessidade de uma maior atenção a esses aspectos, pois os mesmos podem se constituir em fatores determinantes para um melhor ou não aproveitamento da prática educativa.

28 26 Mas uma ressalva é pertinente fazer. A educação, por mais necessária e importante que seja em qualquer circunstância, não pode ser vista e entendida como sendo o caminho único e a redentora de todos os males e atrasos existentes nas mais diferentes sociedades, pois seria ingenuidade não associar a educação existente com o contexto no qual ela está inserida e suas múltiplas facetas e possibilidades, favoráveis ou não. Nesse sentido, é idealismo ingênuo e simplista creditar à educação a salvação do planeta (LOUREIRO, 2004, p. 97). Essa postura, quando estabelecida como consenso, contribui enormemente para impedir que o entendimento das reais possibilidades da educação seja de fato conhecido e utilizado adequadamente, pois o torna caudatário de interesses, posturas e concepções inadequadas, fantasiosas e contraproducentes. Os vários problemas existentes na sociedade, que têm causas estruturais e conjunturais as mais diversas, inclusive as relacionadas com as questões ambientais do momento e com as condições humanas em sociedade, e também no que diz respeito à sua formação plena enquanto sujeito complexo, dadas sua amplitude e significado, exigem a participação, intervenção e a mediação de outras áreas. Também são necessários outros meios e recursos formativos que vão além dos utilizados pela natureza da prática educacional, sobretudo daqueles produzidos a partir dos espaços e tempos escolares formais, mesmo por mais eficientes que eles sejam no aspecto funcional, pois não conseguem contemplar satisfatoriamente a totalidade das questões que envolvem a sociedade. Quando se pensa na formação do ser humano enquanto sujeito crítico, atento e atuante, é sempre valioso perceber as limitações e até mesmo os desvios de propósitos, intencionais ou não, existentes no ato educativo, que sob muitas circunstâncias, podem anular ou descaracterizar o que a prática educacional autêntica e crítica poderia fazer ao longo do tempo. Também convém ressaltar a necessidade de considerar a importância e a validade de outros meios e áreas que influenciam decisivamente os rumos da sociedade, como a política, a economia, os meios de comunicação de massa, a ciência, a religião, a sociedade civil organizada, e o tipo de ser humano existente nela, fatores esses de notável significado no contexto atual. Ter de forma clara o entendimento das limitações da educação enquanto meio e caminho de possibilidade no processo de formação do ser humano e de construção de uma sociedade que seja melhor nos seus mais diferentes aspectos, é uma condição para todos

29 27 aqueles que se empenham em elaborar propostas e práticas que objetivem a formação contínua do cidadão e sujeito ecológico em um mundo tomado por constantes desafios. Além disso, é uma forma de evitar os extremos opostos do otimismo ingênuo, que atribui à Escola uma missão salvífica, ou seja, ela teria um caráter messiânico (CORTELLA, 2009, p. 110) e/ou o pessimismo ingênuo, que segundo o mesmo autor, defende a ideia de que a função da Escola é a de reprodutora da desigualdade social, com um caráter dominador (CORTELLA, 2009, p. 112). Dessa forma, ainda que seja necessário entender as limitações da educação, tanto na formação dos sujeitos quanto para a colaboração na construção de uma nova sociedade em sua plenitude, não se deve adotar e aceitar, sobretudo acriticamente, a postura de ilusão ou de rendição que as condições acima citadas apresentam, pois ambas se posicionam ao mesmo tempo em extremos opostos e não contribuem para uma leitura real do verdadeiro papel e possibilidade da educação a favor do ser humano e do tecido social. Entender que a educação, sozinha, não pode tudo, é tão importante como também entender que sem ela não haverá qualquer possibilidade de avanço na busca de superação dessa forte crise socioambiental estabelecida, daí surge o desafio dos processos educativos de contribuir para reverter tal situação (GAUDIANO; KATRA, 2009, p. 54), sendo para isso necessária uma postura livre de condicionamentos míticos e antidialógicos e com mais capacidade de análise, reflexão e criticidade. Dessa forma, a educação deve contribuir como mediadora, mas nunca como a única forma de alcançar, sobretudo isoladamente, qualquer avanço significativo e contínuo no conjunto da sociedade. 2.2 Educação ambiental crítica Dentro das várias correntes e abordagens existentes sobre o pensamento ambiental e sobre educação ambiental, inclui-se a que concebe a educação ambiental crítica como sendo aquela que mais próxima esteja de contribuir com a análise e a formação de uma visão mais profunda, ampla, realista e propositiva do assunto. As definições possíveis sobre o que seja educação ambiental crítica são várias, pois elas contemplam múltiplas possibilidades e visões, podendo haver entendimentos diversificados sobre os seus significados, mas buscam convergir em muitos pontos, sobretudo naqueles que se diferenciam de leituras e entendimentos conservadores do que seja educação

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