Crise ambiental: adaptar ou

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1 Crise ambiental: adaptar ou transformar? As diferentes concepções de educação ambiental diante deste dilema Vicente Paulo dos Santos Pinto Rachel Zacarias ** Resumo Este artigo propõe discutir as diferentes concepções da crise ambiental que estão em disputa na sociedade civil, visando demonstrar que as diversas interpretações sobre essa crise não são apenas divergências superficiais, mas representam um compromisso com a transformação ou conservação da ordem econômico-social vigente. Além disso, procura demonstrar as relações entre as concepções de crise ambiental e o papel da educação ambiental nesse contexto. O estudo foi realizado a partir de uma pesquisa bibliográfica e tem como referenciais teóricometodológicos os pressupostos centrais do método de investigação da teoria social marxiana. Abstract This article discusses the different conceptions of the environmental crisis that are in dispute in the civil society, aiming to show that the different interpretations of this crisis are not just superficial differences, but they represent a commitment to the transformation or conservation of the economic-social system. Further, this article attempts to demonstrate the relationship between the concepts Doutor em Geografia, professor do Departamento de Geociências e do Programa de Pós-Graduação em Educação e Ecologia da UFJF. ufjf.edu.br ** Pedagoga, Mestre em Educação e Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da UFRJ. É pesquisadora colaboradora do NEC e membro do Grupo de Educação Ambiental da Faculdade de Educação da UFJF. É coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Extensão das Faculdades Integradas Vianna Junior- Juiz de Fora.

2 Vicente Paulo dos Santos Pinto e Rachel Zacarias of environmental crisis and the role of environmental education in this context. The study was conducted from a literature research and its theoretical and methodological assumptions are based on the central research method of the Marxist social theory. Introdução 40 O capitalismo contemporâneo vem induzindo uma série de contradições que destroem o trabalho, a natureza e a possibilidade de reprodução da humanidade, resultado de uma crise estrutural do capital. Uma crise que vem sendo considerada orgânica, endêmica e permanente, na qual o sistema se encontra com seus próprios limites intrínsecos. Uma das principais contradições do sistema do capital na atualidade é o crescimento da produção a todo custo e o aniquilamento dos recursos naturais. A destruição incontrolável desses recursos gera sérios problemas ambientais em escala globalizada: aquecimento da terra, desflorestamento, contaminação de rios e mares, desertificação, extinção de fauna e flora, perda da biodiversidade entre outros, colocando em risco a vida no planeta. As consequências ambientais provocadas pela demanda incontrolável de recursos naturais tende a materializar-se sob formas graves e num ritmo veloz. Isto leva a vários entendimentos sobre as causas e consequências da crise ambiental assim como as alternativas para enfrentar essa problemática e em especial o papel da educação ambiental nesse contexto. Os setores reformistas 1, de maneira alarmista, vêm dando ênfase à necessidade de a sociedade global contemporânea se adaptar aos problemas ambientais através de mecanismos do mercado como ecoeficiência, certificações ambientais, protocolos diplomáticos no âmbito da política externa realista (tal como os Tratados de Quioto e de Copenhague). Em relação a um trabalho educativo, essa perspectiva considera que a educação ambiental tem como objetivo incentivar comportamentos que favoreçam a adaptação dos indivíduos, e da sociedade como um todo, face aos problemas ambientais contemporâneos, incentivando comportamentos considerados ecológicos.

3 O presente artigo utiliza um quadro teórico bastante distinto, pois, ao contrário dessas formulações, parte-se da tese de que a destruição ambiental, ou a chamada crise ambiental, é uma manifestação da lógica destrutiva do processo de produção e acumulação do capital. A educação ambiental, nessa perspectiva, tem um papel decisivo no sentido de contribuir para ampliar a consciência crítica dos indivíduos para a necessidade de construção de uma nova ordem sociometabólica sustentável. Isto significa uma opção por uma educação ambiental crítica, emancipatória que vai além de ensinar bons comportamentos em relação à natureza e ao meio ambiente. É uma educação ambiental comprometida com as mudanças de valores e a transformação da sociedade. A partir desse cenário, o objetivo desse trabalho é analisar as concepções de crise ambiental em disputa na sociedade civil procurando demonstrar o papel da educação ambiental diante das concepções apresentadas. Para efetivar esse estudo, foi realizada uma pesquisa bibliográfica apoiada nos referenciais teórico-metodológicos centrais do método de investigação da teoria social marxiana. Nessa perspectiva, a apreensão da realidade social é baseada no princípio da totalidade, isto é, os fenômenos são compreendidos a partir de uma realidade complexa e articulada, formada por mediações, contradições e processos. Uma totalidade que é vista não como um todo no qual as partes não sejam explicitadas e bem definidas, mas uma totalidade constituída a partir da autonomia relativa de seus múltiplos momentos parciais (COUTINHO, 2008, p. 92). Nesse processo de múltiplas determinações, destaca-se o momento econômico, uma determinação entendida não como um mero reflexo das condições materiais de existência, mas sim como um elemento que vai condicionar todos os outros processos. Crise ambiental: adaptar ou transformar? As diferentes concepções de educação ambiental diante deste dilema A crise ambiental e a visão reformista A situação de precariedade encontrada nos sistemas naturais que sustentam a vida no planeta passa a ser reconhecida oficialmente por diversos setores da sociedade global a partir da década de A partir desse reconhecimento surgem diversas reações sobre as determinações da chamada crise ambiental, assim como a busca de alternativas para o enfrentamento desses problemas. 41

4 Vicente Paulo dos Santos Pinto e Rachel Zacarias 42 Uma posição hegemônica, defendida por setores reformistas, entende que o cerne da destruição ambiental está ligado às seguintes causas: ao desperdício de matéria e energia, aos limites físicos e naturais dos recursos naturais, ao excesso da população, aos altos padrões de produção e ao consumo, dentre outros. Nessa concepção, esses problemas são causados por uma disfunção que dificulta compatibilizar desenvolvimento e proteção do meio ambiente. Portanto, a chamada crise ambiental está ligada ao estilo de desenvolvimento vigente considerado insustentável. Uma das causas mais frequentes e consensuais apontadas por esse campo para explicar a destruição ambiental é a escassez e a finitude dos recursos naturais. Para demonstrar essa relação, vários estudos vêm sendo realizados. O relatório Planeta Vivo, produzido pelo WWF em 2008, revela que 20% da população mundial consomem entre 70% a 80% dos recursos no mundo. Esses 20% comem 45% de toda a carne e de todo o peixe, consomem 68% de eletricidade, 84% de todo o papel e possuem 87% de todos os automóveis. Diante desses números, uma das conclusões presentes no relatório é: caso o modelo atual de consumo e degradação não seja superado é possível que os recursos naturais entrem em colapso a partir de 2030, quando a demanda pelos recursos ecológicos será o dobro do que a Terra pode oferecer. Não resta dúvida de que os resultados do estudo produzido pela WWF são importantes, pois demonstram as iniquidades presentes no acesso ao consumo pelo conjunto da humanidade. Nesse sentido é legítima a preocupação com a economia dos recursos naturais água, solo fértil, florestas. No entanto, o estudo deixa de lado o que se pode considerar o cerne da discussão em relação a um novo modelo de produção e consumo que são os fins pelos quais esses recursos estão sendo usados, ou seja, são eles usados para produzir o quê? para quem? na satisfação de quais interesses? para produzir tanques ou arados? para servir à especulação fundiária ou para produzir alimentos? para assegurar uma vida digna às maiorias? (ACSERALD; MELLO; BEZERRA, 2009, p. 28). Além dessa lacuna, o documento reforça uma concepção dominante no seio da sociedade que é a defesa de que as causas da crise ambiental estão relacionadas a uma contradição insuperável entre um mundo com recursos finitos e um crescimento infinito da produção. Essa é uma das visões mais consensuais a respeito da cri-

5 se, mas, quando se passa por uma análise mais profunda, emergem várias dificuldades teóricas que vão desconstruir essa visão. A primeira dificuldade apontada por Foladori (2001) está relacionada à defesa da finitude dos recursos naturais, pois o planeta Terra, como tal, é finito como lugar de vida, haja visto que qualquer espécie tem seu ciclo de vida determinado. Isso significa que o problema não está na finitude dos recursos naturais ou das espécies já que o limite ou a finitude é uma característica da própria vida na Terra, mas, sim, da velocidade de sua utilização. Portanto, nessa perspectiva, o problema dos limites deve ser considerado um problema de velocidade de utilização. A segunda dificuldade está ligada à utilidade de um determinado recurso. Um recurso pode ser ou não utilizado, estando seu caráter de utilidade ligado à evolução através do tempo. Um dos exemplos é o petróleo: esse recurso passa a ser utilizado sistematicamente em meados do século XIX; antes disso, apesar de existir, não era considerado útil. Nesse sentido, o que conta é o ritmo da sua utilização, de seu emprego pela sociedade humana. Para Foladori (2001, p. 120), ritmo e utilidade, mostram que os limites físicos ao desenvolvimento humano dizem respeito primeiro a como se produzem e se consomem os recursos, isto é, aos limites humanos, acima dos físicos. É por isso que a contradição entre os limites físicos e o desenvolvimento social parece ser equivocada, uma vez que a sociedade nunca se defronta em seu conjunto com limites físicos, pois, como muito bem esclarece Foladori (2001, p. 18), a sociedade humana antes de deparar com limites naturais ou físicos está frente a frente com as contradições sociais. No entanto, na perspectiva reformista e liberal, os problemas ambientais são frutos de um mau funcionamento no sistema, derivados de um estilo de desenvolvimento considerado insustentável. É a partir desse entendimento que esse setor advoga a necessidade de se adotar um novo estilo de desenvolvimento, agora sustentável. Esse novo conceito passa então a ser referência para se pensar o desenvolvimento no contexto do domínio do capital. A implantação desse novo tipo de desenvolvimento defende ações reformistas da chamada modernização ecológica, destinadas essencialmente a promover ganhos de eficiência e ativar mercados. Suas alternativas estão no âmbito da lógica econômica, conferindo ao mer- 43 Crise ambiental: adaptar ou transformar? As diferentes concepções de educação ambiental diante deste dilema

6 Vicente Paulo dos Santos Pinto e Rachel Zacarias cado a capacidade institucional de resolver a degradação ambiental, economizando o meio ambiente e abrindo mercados para novas tecnologias ditas limpas. Um exemplo de alternativa dentro dos parâmetros da lógica do mercado é o Protocolo de Quioto. Ele prevê, dentro dos marcos atuais, que a redução das emissões de carbono na atmosfera seja estabelecida dentro de um limite médio imposto globalmente. As nações ricas ganham o direito de poluir, aumentando a produção industrial e compensando suas emissões de carbono através de um mecanismo de mercado, ou seja, compram as cotas dos países pobres, possuidores de baixa atividade industrial, para manterem o crescimento econômico. Trata-se do velho princípio: eu pago, eu poluo. Pode-se dizer que esse novo modelo de desenvolvimento, proposto dentro da ordem do capital, traz ações remediadoras, ajustes feitos estritamente nos efeitos e consequências. Essas ações reformistas, remediadoras, não são surpresas, e nem poderia ser de outra maneira, pois enfrentar a destruição ambiental em suas causas exige adoção de estratégias reprodutivas que mais cedo ou mais tarde enfraqueceriam inteiramente a viabilidade do sistema do capital. A crise ambiental e a visão crítica 44 Diferentemente da proposta reformista, a perspectiva crítica entende que a chamada crise ambiental deve-se a um conjunto de variáveis interconexas, dadas em bases sociais, econômicas, culturais e políticas, estruturalmente desiguais, que conformam a sociedade capitalista. Portanto, a crise ambiental não tem como causa o desenvolvimento tecnológico, o excesso de população, os altos padrões de produção e consumo, mas é de responsabilidade da lógica destrutiva da acumulação do capital. Diz respeito a um processo que tem duas fontes privilegiadas de riqueza: a exploração da força de trabalho, através retirada da mais-valia e a exploração dos recursos naturais. Essas duas fontes contribuem, fundamentalmente, para o acúmulo de capital. A primeira gerando valor, pois só o trabalho tem essa capacidade. Já a natureza é incorporada como agente no processo de produção pelo capital, através da apropriação dos recursos naturais coletivos que não são propriedades privadas, possibilitando, assim, a redução dos custos da produção, de modo a cumprir o desígnio da obtenção do lucro fácil e imediato do regime de produção capitalista.

7 Para Foster (2005), a história do capital mostra que o processo de acumulação impôs a necessidade de expandir fronteiras a todas as regiões do mundo para a exploração de seus recursos, assim como da força de trabalho. Esse processo começa a configurar-se na fase de desenvolvimento mercantil, período em que o capital conseguiu transformar em mercadorias os minerais, os vegetais, os animais e o espaço do mundo permanecido até então usufruto das sociedades pré-capitalistas. Esse processo de saqueamento dos recursos naturais tornou-se uma guerra de extermínios: animais mortos em numerosas zonas do planeta; ouro e prata pilhados da América, convertidos em moeda; destruição das florestas com a introdução da agricultura; e retirada de madeiras para a transformação em carvão. Pode-se dizer que essa pilhagem de recursos naturais é uma tendência exclusiva de comportamento em relação ao meio ambiente própria do modelo de produção capitalista. Foladori (2001) ressalta que a primeira tendência exclusiva mais geral é de produção ilimitada, fruto direto e fundamental de um modelo econômico que gira em torno da produção de lucro e não da satisfação das necessidades diretas. Para Mészáros (2007), a lógica da expansão do capital vem induzindo a uma série de contradições, uma delas é o crescimento da produção a todo custo e a concomitante destruição ambiental. Tais contradições levam à destruição dos recursos naturais, solapando uma importante fonte de acumulação do capital. Para o referido autor, a busca pelo crescimento, em última instância incontrolável, sempre foi uma característica fundamental do capital, como uma determinação sistêmica intrínseca. Sem isso o capital não teria conquistado o palco histórico, como de fato conquistou. Esse crescimento está fundamentado na taxa de utilização decrescente do valor de uso das mercadorias. Para Mészáros (2006, p. 671), essa tendência em reduzir a taxa de utilização real das mercadorias tem sido um dos meios pelo qual o capital conseguiu atingir o seu crescimento verdadeiramente incomensurável no curso do desenvolvimento histórico. Tratase de uma técnica empregada, sobretudo, na área de consumo de duráveis, como eletrodomésticos, eletrônicos etc., que consiste em piorar a qualidade dos produtos, levando-os a possuir resistência e durabilidade menores; é o obsoletismo artificial, a deterioração dos produtos (HAUG, 1997, p. 52). 45 Crise ambiental: adaptar ou transformar? As diferentes concepções de educação ambiental diante deste dilema

8 Vicente Paulo dos Santos Pinto e Rachel Zacarias 46 Durning (2002) aponta que estudos realizados na Inglaterra revelam uma tendência na direção a essa obsolescência planejada. Os eletrodomésticos datados de 1950 são muito mais sólidos, feitos, em sua maior parte, de metal, com suas partes parafusadas ou soldadas. Com o passar dos anos, essas máquinas tornaram-se mais inconsistentes, frágeis, sendo a maioria delas feita de partes de plástico coladas, em vez de parafusadas. Atualmente, um exemplo significativo dessa tendência decrescente do valor do uso dos objetos é a indústria de computadores. Um equipamento recémlançado torna-se obsoleto em pouco tempo, pois a utilização de novos sistemas passa a ser incompatível com as máquinas, que se tornam arcaicas. Para Mészáros (2006), somente se a sociedade puder consumir artificialmente e em grande velocidade (descartar prematuramente) imensas quantidades de mercadorias, antes pertencentes à categoria de bens duráveis, é que ela se mantém como sistema produtivo, manipulando até mesmo a aquisição dos chamados bens de consumo, lançados ao lixo antes mesmo de se esgotar sua vida útil. Ademais, o que é benéfico para a expansão do capital não é um incremento na taxa com que uma mercadoria é utilizada, e sim, ao contrário, o decréscimo de suas horas de uso diário. Pode-se dizer que isso só foi possível, pois, nesse sistema, o vínculo entre o uso e a produção foi rompido, impondo a implacável submissão da necessidade humana à necessidade alienante do capital. Nessa perspectiva, a produção é voltada não para o atendimento das necessidades humanas e sim, para as necessidades de autorreprodução do capital. Para Mészáros (2006), tudo isso demonstra como o sistema do capital é essencialmente antagônico devido à estrutura hierárquica de subordinação do trabalho ao capital. De acordo com o autor, esse antagonismo prevalece em todo o lugar, e é precisamente por ser estrutural que o sistema do capital sempre deverá permanecer assim irreformável e incontrolável. Partindo desses princípios, o referido autor ressalta que é inconcebível introduzir mudanças fundamentais, requeridas para remediar a situação, sem superar o antagonismo estrutural destrutivo do sistema do capital. Nesse contexto, o campo crítico defende que a alternativa capaz de apontar uma saída para a crise verdadeiramente global da humanidade é uma reorientação qualitativa da reprodução meta-

9 bólica (MÉZÁROS, 2006, p. 632). Isso significa que a construção de uma ordem de reprodução economicamente viável e historicamente sustentável requer modificar as determinações internas em si mesmas, contraditórias da ordem estabelecida, que impõe a submissão da necessidade e do uso humano à necessidade alienante da expansão do capital. Mészáros (2006) defende que nessa nova ordem societal deve existir uma reorientação da produção de riqueza: de limitadora e perdulária para a direção de uma riqueza de produção humanamente enriquecedora, com sua taxa de utilização ótima, antinômica àquela perigosamente decrescente. Portanto, o tipo de crescimento necessário e plausível no socialismo só pode basear-se na qualidade diretamente correspondente às necessidades humanas: as necessidades reais e historicamente desenvolvidas desde a sociedade como um todo quanto de seus indivíduos particulares (MÉSZÁROS, 2007, p ). A partir de todas essas reflexões, pode-se dizer que um dos maiores desafios é aquele que envolve a transformação de toda ordem social. Isso requer, de acordo com Mészáros (2007, p. 358), uma consciência crítica inflexível da inter-relação cumulativa, em lugar de buscar garantias reconfortantes no mundo da normalidade ilusória até que a casa desabe sobre nossas cabeças. É nesse cenário que o papel da educação e, em especial, o da educação ambiental torna-se fundamental. Pois poderá contribuir no processo de construção de uma consciência crítica dos indivíduos. Para tanto, é preciso que se rompa com a visão conservadora e reformista centrada na busca de adaptações dos indivíduos diante da crise ambiental e se assuma uma perspectiva crítica comprometida com a transformação do atual modelo sociometabólico. É sobre essas questões que o próximo item vai tratar. Crise ambiental: adaptar ou transformar? As diferentes concepções de educação ambiental diante deste dilema O papel da educação ambiental e as concepções de crise ambiental: adaptar ou transformar Para discutir o papel da educação ambiental no contexto de crise é importante clarificar que esse estudo parte do princípio de que o cerne da educação ambiental é a educação. Uma educação que se sustenta de uma pedagogia liberadora comprometida com a transformação social. O termo educação ambiental é composto 47

10 Vicente Paulo dos Santos Pinto e Rachel Zacarias 48 por um substantivo e um adjetivo que envolvem respectivamente o campo da educação e o campo ambiental. Segundo Layrargues (2004), o substantivo educação confere a sua essência, definindo os próprios fazeres pedagógicos necessários à prática educativa, o adjetivo ambiental anuncia o contexto desta prática educativa, ou seja, o enquadramento motivador da ação pedagógica. Portanto, educação ambiental é educação e, como tal, pode contribuir para manter a atual estrutura da sociedade ou colaborar para a transformação do atual modelo sociometabólico. Além disso, acredita-se que as visões que estruturam o debate da crise ambiental refletem por extensão nas práticas educativas que tem como tema a questão ambiental. É nesse contexto que esse item do trabalho discute as relações existentes entre as concepções de crise ambiental e o papel da educação ambiental. Como discutido acima, uma compreensão reformista da crise ambiental defende que as causas do atual estágio de degradação do planeta estão relacionadas ao desperdício de matéria e energia, a explosão demográfica, a falta de eficiência nos processos produtivos. As alternativas dessa visão para superação da crise estão relacionadas às ações da chamada modernização ecológica, destinadas essencialmente a promover ganhos de eficiência e ativar mercados. Agem, principalmente, no âmbito da lógica econômica, conferindo ao mercado a capacidade institucional de resolver a degradação ambiental, economicizando o meio ambiente e abrindo os mercados para novas tecnologias ditas limpas, sem mudar o modelo econômico vigente. Em relação a um trabalho educativo, essa perspectiva considera que a educação ambiental tem um papel decisivo no sentido de incentivar comportamentos que possam favorecer a adaptação dos indivíduos e a sociedade face aos problemas ambientais contemporâneos, incentivando comportamentos que são considerados ecologicamente corretos. Para Gustavo Lima (2002), as ações de educação ambiental baseadas nessa visão têm, entre outras, as seguintes características: uma tendência a sobrevalorizar as respostas tecnológicas diante dos desafios ambientais; uma leitura individualista e comportamentalista da educação ambiental e dos problemas ambientais; uma abordagem despolitizada da temática ambiental; uma separação entre as dimensões sociais e ambientais da problemática ambiental; uma responsabilização dos impactos ambientais a um homem genérico.

11 Essa abordagem é facilmente visível em programas e projetos de educação ambiental desenvolvidos pelas grandes ONGs 2, pelas TVs 3, empresas e por muitos educadores ambientais. Em geral, incentivam a criação de hábitos como, por exemplo, a economia de energia e de água, a separação do lixo visando a reciclagem das embalagens, etc. É importante ressaltar que todas essas ações são fundamentais em um outro modelo sociometabólico. O que se questiona são os pressupostos dessa concepção e a forma como são abordados os problemas e o papel da EA. Genericamente, esses programas educativos partem da ideia de que, se cada um fizer sua parte, é possível superar os problemas da degradação ambiental. Além disso, essa proposta pedagógica não discute as causas e os sintomas dos problemas, e muito menos visa a transformação da ordem social vigente. Ao contrário da visão reformista, a concepção crítica 4 se define no compromisso de transformação da ordem social vigente, de renovação plural da sociedade e de sua relação com o meio ambiente. Está relacionada aos movimentos sociais e libertários da sociedade civil. Para essa concepção, a crise ambiental é uma manifestação da lógica destrutiva do processo de produção e acumulação do capital. Isso significa que as condições que levam à degradação ambiental têm causas econômicas e políticas: sua gênese está ligada às relações sociais que se firmam entre os seres humanos a partir da maneira como se distribuem os meios de produção. Quanto ao papel da educação ambiental, a abordagem crítica acredita que este seja um processo permanente, no qual indivíduos e comunidades tomam consciência das questões relativas ao ambiente e adquiram conhecimentos. Valores e atitudes que possam torná-los aptos a agir, individual e coletivamente, no sentido de buscar transformar as causas estruturais da crise ambiental. Isto implica uma opção por uma educação ambiental crítica, emancipatória, que vai além de ensinar bons comportamentos em relação à natureza e ao meio ambiente. É uma educação ambiental comprometida com as mudanças de valores e a transformação da sociedade. Para Lima (2002), uma proposta pedagógica a partir dessa visão possui algumas características: uma compreensão complexa e multidimensional da questão ambiental; uma politização e publicização da problemática socioambiental; uma associação dos argu- 49 Crise ambiental: adaptar ou transformar? As diferentes concepções de educação ambiental diante deste dilema

12 Vicente Paulo dos Santos Pinto e Rachel Zacarias mentos técnico-científicos à orientação ética do conhecimento, de seus meios e fins, e não sua negação. Além dessas características, uma proposta pedagógica de educação ambiental numa perspectiva crítica deve aplicar um enfoque interdisciplinar, aproveitando o conteúdo específico de cada disciplina, de modo que se adquira uma perspectiva de totalidade. Deve ajudar a descobrir os sintomas e as causas reais dos problemas e conflitos socioambientais. Pode-se dizer que as práticas educativas, que têm como elemento estruturante os conflitos ambientais, podem se constituir num espaço privilegiado para discutir as questões ambientais numa perspectiva crítica. A noção de conflito ambiental vem sendo pensada no interior do processo de construção do campo ambiental e a noção de campo; neste estudo está tomada no sentido conferido por Bourdieu (1989) a noção de campo de forças, isto é, um campo social em que se constituem relações de concorrência e de disputa de poder entre agentes nele situados. Para Oliveira (2004), o campo ambiental, tal como os campos jurídico e político definidos por Bourdieu, constitui-se também num espaço social de diferenciações, em que são travadas lutas de poder e lutas simbólicas, no bojo das quais os agentes se esforçam para manter ou transformar a estrutura das relações existentes no campo, legitimando ou deslegitimando práticas sociais ou culturais. Nesta perspectiva, os conflitos ambientais são: aqueles envolvendo grupos sociais com modos diferentes de apropriação, uso e significado do território, tendo origem quando pelo menos um dos grupos tem a continuidade das formas sociais de apropriação do meio que desenvolvem ameaçada por impactos indesejáveis-transmitidos pelo solo, água, ar ou sistemas vivos-decorrentes do exercício de práticas de grupos (ACSELRAD, 2004, p. 26). 50 Para Oliveira (2004), a luta destes grupos sociais no campo simbólico estará relacionada à capacidade de cada qual em fazer com que suas respectivas representações e crenças, neste caso, relacionadas aos recursos ambientais, sejam reconhecidas como legítimas. No campo material, os diversos tipos de capital (social, econômico, e político) constituem trunfos com pesos relativos no espaço social em que se configuram as relações de hegemonia e dominação.

13 Outro elemento importante a ser considerado é quanto à origem dos conflitos. Estes podem derivar das disputas por apropriação de uma mesma base de recursos ou de bases distintas, mas interconectadas por interações ecossistêmicas mediadas pela atmosfera, pelo solo, pelas águas etc. É importante ressaltar que, apesar de os problemas ambientais serem os motes dos conflitos, a existência destes problemas não se constitui em conflito, pois o conflito se estabelece quando há alguma reação da sociedade. Carvalho e Scotto (1995) afirmam que, onde há risco e/ou dano social/ambiental, pode não haver nenhum tipo de reação por parte dos atingidos ou de outros atores da sociedade civil; portanto, isto não se configura em um conflito. Essas colocações sobre as diferenças entre problemas ambientais e conflitos ambientais são fundamentais, pois, numa perspectiva crítica de EA, os conflitos ambientais podem ser o fio condutor, os temas geradores 5 de um trabalho educativo. Para que isso aconteça, é fundamental que o professor, ou o educador ambiental, tenha uma formação consistente que o possibilite compreender as causas políticas, sociais, econômicas e naturais do conflito, e, principalmente, o papel dos sujeitos envolvidos na organização social e participação popular. Crise ambiental: adaptar ou transformar? As diferentes concepções de educação ambiental diante deste dilema Considerações Finais Ao final dessas reflexões, pode-se reafirmar que as diferentes concepções sobre as determinações da crise ambiental, presentes na sociedade civil, não são divergências superficiais, mas representam a conservação ou transformação da ordem vigente. Como se depreende, a visão reformista argumenta que as determinações da crise ambiental estão relacionadas às dificuldades técnicas, que se originam da contradição entre os limites físicos e sociais, ou aos altos padrões de produção e consumo, principalmente dos países ricos. Um ponto que evidencia o compromisso dessa concepção com a conservação da ordem política, social e econômica vigente está nas alternativas defendidas por esse campo para o enfrentamento da crise ambiental. Essas são pensadas dentro da lógica do mercado; portanto, se conectam perfeitamente ao fluxo da história das classes dominantes. 51

14 Vicente Paulo dos Santos Pinto e Rachel Zacarias A educação ambiental a partir da perspectiva reformista tem um papel importante no sentido de incentivar bons comportamentos em relação ao meio ambiente, como por exemplo, as campanhas de coleta seletiva e reciclagem. Essas campanhas, como já foi apontado por vários estudos 6, ao invés de possibilitarem uma discussão profunda sobre os atuais padrões de produção e consumo, o consumismo e as desigualdades distributivas, dão ênfase ao papel individual do consumidor, valorizando apenas um único bom comportamento: a separação do lixo. A visão crítica adota uma perspectiva diametralmente oposta à perspectiva reformista. Considera a chamada crise ambiental como sendo uma das principais manifestações da lógica destrutiva do capital. Essa lógica destrutiva está presente tanto na exploração do capital pelo trabalho, quanto na irracionalidade do uso dos recursos naturais. Portanto, o pensamento crítico compreende que as causas da crise ambiental não são apenas determinadas por fatores conjunturais ou pela ignorância tecnológica. As causas da degradação socioambiental devem-se a um conjunto de variáveis interconexas que se dão em bases sociais, econômicas, culturais e políticas estruturalmente desiguais, que conformam o modo de produção capitalista. As práticas sociais e educativas, a partir de uma visão crítica, devem ir além do incentivo de comportamentos considerados ecologicamente corretos e o mapeamento dos problemas ambientais. Devem possibilitar a discussão crítica dos problemas e conflitos socioambientais, identificando suas causas, consequências e alternativas. Além disso, deverão proporcionar a construção de novos valores e atitudes diante desses novos desafios ambientais, e, principalmente, estar comprometidas com a construção de uma nova ordem sociometabólica. Por fim, para que isso aconteça, é necessário que o professor, o educador ambiental, tenha uma formação ambiental que o possibilite a compreender os problemas e conflitos ambientais numa perspectiva integral envolvendo as dimensões econômicas, sociais, política, ideológica, cultural e ecológica. Notas 52 1 Esses setores integram desde representantes ligados a instituições financeiras multilaterais, as grandes corporações nacionais, até ONGs ambientalistas globais.

15 2 Um dos exemplos é a campanha desenvolvida pelo Greenpeace sobre o aquecimento da Terra. O filme Mudança de vida e mudança de clima apresenta uma discussão interessante sobre o aquecimento global, apresenta causas como o desmatamento da Amazônia, o tipo de transporte utilizado nas grandes cidades, mas não toca no modelo econômico. Além disso, apresenta como alternativa a adaptação do indivíduo nesse novo contexto, incentivando, por exemplo, a adoção de energia solar. 3 Um dos programas de TV que se insere nessa concepção é o Globo Ecologia. 4 Para definir uma concepção de EA que rompe com a visão reformista, os educadores ambientais no Brasil vem utilizando: Educação ambiental emancipatória, educação ambiental transformadora, educação ambiental popular. Todos esses conceitos partem de uma visão crítica da crise ambiental e estão comprometidos com a transformação da atual ordem vigente. 5 O conceito de temas geradores é entendido a partir da Pedagogia de Paulo Freire. 6 A dissertação de mestrado de um dos autores desenvolvida nos meados da década de 1990 já apontava para essa contradição. O referido estudo demonstrou que na época uma das mais populares campanhas de latinhas desenvolvidas nas escolas, patrocinada pela Latasa, na verdade era mais uma necessidade de mercado do que um trabalho educativo, já que a empresa tinha como objetivo mudar os padrões de consumo dos brasileiros. Para maiores informações, consultar: ZACARIAS, R. Consumo, lixo e educação ambiental: uma abordagem crítica. Juiz de Fora: Feme, Crise ambiental: adaptar ou transformar? As diferentes concepções de educação ambiental diante deste dilema Referências ACSERALD, H. As práticas espaciais e o campo dos conflitos ambientais. In: VÁRIOS AUTORES. Conflitos ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará, p BORDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand, CARVALHO, I.; SCOTTO, G. (Coords.). Conflitos sócio ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: IBASE, COUTINHO, C. N. Marxismo e política: a dualidade de poderes e outros ensaios. 3. ed. São Paulo: Cortez Editora, DURNING. Alan. How much is enough: the consumer society and the future of the earth. New York: W.W. Norton & Company, FOLADORI, G. Limites do desenvolvimento sustentável. Campinas: Unicamp, FOSTER, John Bellamy. A ecologia de Marx: materialismo e natureza. Tradução: Maria Teresa Machado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,

16 Vicente Paulo dos Santos Pinto e Rachel Zacarias LAYRARGUES, P.P. Para que a educação ambiental encontre a educação. In: LOUREIRO, C. F. B. Trajetória e fundamentos da educação ambiental. São Paulo: Cortez, p LIMA, G.F. da C. de. Crise ambiental, educação e cidadania. In: LOUREIRO, C. F. B.; LAYRARGUES, P. P.; CASTRO, R. S. de (Orgs.). Educação ambiental: repensando o espaço da cidadania. São Paulo: Cortez, p MÉSZÁROS, I. O desafio e o fardo do tempo histórico. São Paulo: Boitempo, Para além do capital. São Paulo: Boitempo, OLIVEIRA, S. A releitura dos critérios de justiça na região dos lagos do Rio de Janeiro. In: VÁRIOS AUTORES. Conflitos ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará, p WWF. Relatório planeta vivo Disponível em: <www.wwf. org.br>. Acesso em: 03 nov Data de recebimento: fev/2009 Data de aceite: jul/

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