ANÁLISE DA INCIDÊNCIA DE DORT: UM ESTUDO DE CASO EM UM

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1 UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE UNESC CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO CONRADO FAUST DE AGUIAR ROSIANE VIEIRA ANÁLISE DA INCIDÊNCIA DE DORT: UM ESTUDO DE CASO EM UM POSTO DE TRABALHO DE UMA RECEPCIONISTA TELEFONISTA CRICIÚMA, ABRIL DE 2007

2 UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE UNESC CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO CONRADO FAUST DE AGUIAR ROSIANE VIEIRA ANÁLISE DA INCIDÊNCIA DE DORT: UM ESTUDO DE CASO EM UM POSTO DE TRABALHO DE UMA RECEPCIONISTA TELEFONISTA Monografia apresentada à Diretoria de Pósgraduação da Universidade do Extremo Sul Catarinense- UNESC, para a obtenção do título de especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho. Orientadora: Profª Drª Vera Lúcia Duarte do Valle Pereira Co-orientadora: Profª. M. Sc. Simone Teresinha Falchetti Lopes da Costa CRICIÚMA, ABRIL DE 2007

3 CONRADO FAUST DE AGUIAR ROSIANE VIEIRA ANÁLISE DA INCIDÊNCIA DE DORT: UM ESTUDO DE CASO EM UM POSTO DE TRABALHO DE UMA RECEPCIONISTA TELEFONISTA Monografia apresentada com pré-requisito para obtenção do título de especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho. UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE - UNESC Criciúma, 27 de abril de BANCA EXAMINADORA Profª. Vera Lúcia Duarte do Valle Pereira, Dra. Profª. Simone Teresinha Falchetti Lopes da Costa, M. Sc. Profº. Hyppólito do Valle Pereira Filho, Ph. D.

4 RESUMO A DORT (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho) vem acometendo um número maior de trabalhadores a cada ano. As causas desta doença, relacionadas ao sistema músculo-esquelético, tem origem devido ao mau projeto e a má utilização de equipamentos, sistemas e tarefas. Os operadores de centrais de atendimento telefônico e as telefonistas são uma das profissões com o maior número de casos de DORT registrados no Brasil. O contato dos pesquisadores, com uma recepcionista telefonista que se queixava frequentemente de dores nos membros superiores, fez surgir o interesse em realizar esta pesquisa. Este estudo caracteriza-se por ser de natureza qualitativa, do tipo exploratório. Assim, foi realizado este estudo de caso, que busca verificar se o posto de trabalho da recepcionista telefonista é, sob o ponto de vista ergonômico, compatível com a prevenção de danos ao sistema músculo-esquelético. Esta verificação realizou-se através de pesquisa bibliográfica, visitas ao local de trabalho, aplicação de questionário para levantamento dos sintomas e aplicação do método RULA (Rapid Upper Limb Assessment) para a investigação da exposição ao risco de doenças do sistema músculo-esquelético. PALAVRAS CHAVE: DORT, ergonomia, sistema músculo-esquelético, recepcionista telefonista.

5 ABSTRACT WRMD (Work-Related Musculoskeletal Disorders) has reached a major number of works every year. The cause of this illness related with the musculoskeletal system is originated in poor design workstation and misuse of system and tasks. Call center operators workers and telephone operators workers are among the professions that register a large number of WRMD causes in Brazil. The contact of the researches with a telephone operator that has often complained about pains and aches on the upper limbs of her body has arose the interest of developing this research. This study points out an exploratory type qualitative nature. So, this case study has been accomplished, it seeks to verify whether the telephone operator workstation is, according to the ergonomic point of view, compatible to the prevention of musculoskeletal disorders. This evidence has been accomplished through bibliographic research, workstations visits, symptoms survey interview and RULA (Rapid Upper Limb Assessment) method applying in order to investigate the exposure to the risk factors of the musculoskeletal system. KEY WORDS: WRMD, ergonomics, musculoskeletal system, telephone operator.

6 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - LER/DORT x Ramos de atividades econômica Tabela 2 - Características dos operadores de centrais telefônicas de acordo com a idade, estado civil, filhos, escolaridade, altura e tempo no emprego...31

7 LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Secretaria Municipal de Obras, Transportes e Serviços Urbanos, Jaguaruna - SC...53 Figura 2 - Macrofluxograma do processo produtivo da telefonista...55 Figura 3 - Macrofluxograma do estudo de caso...58 Figura 4 - Qualificação da posição do braço, segundo o ângulo do ombro...61 Figura 5 - Fazendo ligação...61 Figura 6 - Qualificação da posição do antebraço, segundo o ângulo do cotovelo...62 Figura 7 - Anotando recado durante ligação...62 Figura 8 - Qualificação da posição do punho...63 Figura 9 - Qualificação da posição do pescoço...65 Figura 10 - Consultando agende de telefones...65 Figura 11 - Qualificação da posição do tronco...66 Figura 12 - Posição do tronco durante ligação telefônica...66

8 LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Pontuação da postura: extremidades superiores...64 Quadro 2 - Pontuação do tronco...67 Quadro 3 - Pontuação final...68 Quadro 4 - Interpretação dos resultados...68

9 LISTA DE ABREVIATURAS ABERGO Associação Brasileira de Ergonomia ANATEL Agência Nacional de Telecomunicações ANSI American National Standards Institute ATP Trifosfato de Adenosina BSI British Standards Institution CEN Comitê Européen de Normalisation CID Código Internacional de Doenças CLT Consolidação das Leis do Trabalho DORT Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho DTP Difosfato de Adenosina IEA Associação Internacional de Ergonomia INSS Instituto Nacional do Seguro Social ISO International Standardization Organization LER Lesões por Esforços Repetitivos NUSAT-MG Núcleo de Saúde do Trabalhador de Minas Gerais NR Norma Regulamentadora OCD Occupational Cervicobrachial Disorder PGMQ Plano Geral de Metas de Qualidade RULA Rapid Upper Limb Assessment SC Santa Catarina SINTTEL-MG Sindicato dos Trabalhadores de Telecomunicações do Estado de Minas Gerais

10 SINTTEL-DF Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações do Distrito Federal UFMG Universidade Federal de Minas Gerais WRMD Work-Related Musculoskeletal Disorders

11 SUMÁRIO 1 BASE DA PESQUISA Introdução Tema Reconhecimento e Formulação do Problema Fenômeno (contextualização teórica) Problemática da Pesquisa Objetivos Objetivo Geral Objetivos Específicos Metodologia Base Filosófica Caracterização da Pesquisa Natureza da Pesquisa Tipo de Pesquisa Profundidade e Amplitude da Pesquisa Métodos de Pesquisa Técnicas de Pesquisa Justificativa e Importância da Pesquisa Limitações Organização do Trabalho FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Panorama Geral do Setor Estatísticas do Setor Legislação NR Jornada de Trabalho Ergonomia Ergonomia do Posto de Telefonista Sistema Músculo-Esquelético Coluna Vertebral...40

12 2.7 DORT Breve Histórico Conceituação Tipos de DORT Tendinites e Tenossinovites Bursites Fasciites Cistos Sinoviais Neuropatias Compressivas Periféricas Sídrome Miofascial e Fibromialgia Distrofia Simpática Reflexa Graus de Sintomas de DORT ESTUDO DE CASO Descrição da Empresa Descrição do Processo Produtivo PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Metodologia Empregada Questionário Método RULA Macrofluxograma do Estudo Realizado Seleção do Tema de Estudo Seleção do Local Visita e Observação do Local Aplicação de Questionário a Recepcionista Telefonista Aplicação do Método RULA ANÁLISE DOS RESULTADOS E MEDIDAS PREVENTIVAS Análise dos Resultados Obtidos Medidas preventivas CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES PARA FUTUROS TRABALHOS Conclusões Recomendações Importância para a Engenharia de Segurança do Trabalho...74 REFERÊNCIAS...76 ANEXOS...80

13 12 1 BASE DA PESQUISA 1.1 Introdução O estudo da saúde dos trabalhadores teve seu marco em 1700, pela obra de Bernardo Ramazzini intitulada De Morbis Artificum Diatriba, com título em português As doenças dos Trabalhadores. A partir desta obra, os estudos relacionados à saúde dos trabalhadores progrediram muito. Atualmente, as legislações trabalhistas de cada país, a atuação dos sindicatos e organizações e as normas internacionais de padronização vem contribuindo para a diminuição dos acidentes e doenças do trabalho, porém, mesmo com a evolução das técnicas e operações relacionadas ao trabalho, os acidentes e doenças ainda ocorrem, causando prejuízos para os trabalhadores, os empregadores e os governos (PACHECO JR., 1995, p. 13). Um dos grandes problemas de saúde pública, em vários países, são os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho ou DORT. Esses distúrbios podem evoluir para doenças severas e incapacitantes. Vários grupos nacionais e internacionais de estudo e pesquisas buscam a melhor compreensão destas doenças, que atingem principalmente, o sistema músculo-esquelético (CHEREM, 2001, p. 9 e15). Tendo conhecimento de queixas de dores nos ombros de uma funcionária da Secretaria de Obras, Transportes e Serviços Urbanos do Município de Jaguaruna, que desenvolve a função de recepcionista telefonista, evidenciou-se neste caso, a oportunidade de realização de um estudo, sabendo que a DORT atinge o sistema

14 13 músculo-esquelético e que existe relação do desenvolvimento destas doenças com o mobiliário do posto de trabalho. Assim, este estudo busca verificar se o posto de trabalho de recepcionista telefonista é sob o ponto de vista ergonômico, compatível a prevenir danos à estrutura músculo-esquelético, descrevendo a atividade da recepcionista telefonista e avaliando os riscos à estrutura músculo-esquelético em posto de trabalho fixo. 1.2 Tema telefonista. Ergonomia e segurança do trabalho no posto de trabalho de recepcionista 1.3 Reconhecimento e Formulação do Problema Fenômeno (contextualização teórica) Na Secretaria de Obras, Transportes e Serviços Urbanos do Município de Jaguaruna, uma funcionária que exerce a função de recepcionista telefonista, e trabalha desde março de 2005 nesta função, há alguns meses vem queixando-se de dores nos ombros. Conforme a própria funcionária, as dores não são diárias, ocorrem em períodos não determinados, há dias que os ombros doem muito e em outros dias, não doem. Sabe-se que muitas situações de trabalho são prejudiciais a saúde. Uma das grandes causas de absenteísmo e incapacitação para o trabalho são as doenças do sistema músculo-esquelético, e um dos fatores que tem grande influência no

15 14 desenvolvimento destes problemas é o mau projeto dos postos de trabalho (DUL & WEERDMEESTER, 2004, p. 3). Partindo dessa premissa, supõe-se que uma das possíveis causas das dores sentidas pela recepcionista telefonista é o mobiliário do seu posto de trabalho Problemática da Pesquisa O posto de trabalho da recepcionista telefonista é sob o ponto de vista ergonômico, compatível com a prevenção de danos ao sistema músculoesquelético? 1.4 Objetivos Objetivo Geral Verificar se o posto de trabalho de recepcionista telefonista é sob o ponto de vista ergonômico, compatível com a prevenção de danos ao sistema músculoesquelético Objetivos Específicos Para alcançar o objetivo geral, algumas etapas foram definidas através do objetivo específico: - Descrever o posto de trabalho de recepcionista telefonista;

16 15 - Identificar os riscos ao sistema músculo-esquelético em posto de trabalho de telefonista; - Propor medidas que visam a diminuição ou eliminação das causas que possam afetar o sistema músculo-esquelético. 1.5 Metodologia Base Filosófica A base filosófica é necessária para a identificação da visão do pesquisador, em relação ao mundo que o rodeia. Ao identificar-se a base filosófica é possível saber a perspectiva epistemiológica do pesquisador, e é esta perspectiva que norteará o trabalho científico na escolha do método, metodologia e técnica (RICHARDSON, 1999, p. 32). Segundo Rauen (1999, p. 39), Utilizando-se o método estruturalista, não se analisa mais os elementos em si, mas as relações que entre eles ocorrem, pois somente estas são constantes, ao passo que os elementos podem variar; dessa forma, não existem fatos isolados passíveis de conhecimento, pois a verdadeira significação resulta da relação deles. De acordo com Richardson (1999, p. 42), para um modelo científico ser considerado estruturado, deve satisfazer algumas condições, que seguem: 1. Deve oferecer características de sistema, isto é, consistir em elementos tais que uma modificação de um dos elementos produza modificações nos outros. 2. Todo modelo deve pertencer a um grupo de transformações. Em outras palavras, como os elementos de um modelo estão ligados de maneira sistemática, a modificação de um deles arrasta consigo uma variação dos outros, e, como conseqüência, uma transformação do modelo. Um modelo

17 16 dado, porém, apenas pode sofrer as transformações que provêm de uma mesma matriz. 3. As condições anteriores devem permitir prever as reações do modelo a modificações em algum de seus elementos. 4. O modelo deve dar conta de todos os elementos. Seu funcionamento deve explicar todos os casos observados. A preocupação fundamental da investigação estruturalista é a descrição do sistema em termos relacionais, independente de sua evolução e de relações externas (RICHARDSON, 1999, p. 42). Em conformidade com as citações acima, e porque, como afirma Pacheco Jr. & Pereira (2003), o estruturalismo busca estudar o processo em que as variáveis estão envolvidas e, desse modo, maior importância se dá ao conhecimento do próprio processo, em detrimento da relação entre variáveis [...]. Este estudo tem como base filosófica, o estruturalismo Caracterização da Pesquisa Natureza da Pesquisa Para Richardson (1999, p. 79), há autores que não distinguem com clareza métodos, quantitativos e qualitativos, por entenderem que a pesquisa quantitativa é também, de certo modo qualitativa. Como afirmam W. Goode e P. K. Hatt (1973, p. 398 apud RICHARDSON, 1999), a pesquisa moderna deve rejeitar como uma falsa dicotomia a separação entre estudos qualitativos e quantitativos, ou entre ponto de vista estatístico e não estatístico. Além disso, não importa quão precisas sejam as medidas, o que é medido continua a ser uma qualidade.

18 17 Entretanto, a forma como se vai analisar um dado problema é que exige uma metodologia qualitativa ou quantitativa. A determinação da natureza da pesquisa se dá pela análise do problema. O modo de análise qualitativo de um problema é opção do investigador, mas justifica-se por ser o caminho para se analisar um fenômeno social (RICHARDSON, 1999, p. 79). De acordo com Richardson (1999, p. 80), [...] em geral, as investigações que se voltam para uma análise qualitativa têm como objetivo situações complexas ou estritamente particulares. Os estudos que empregam uma metodologia qualitativa podem descrever a complexidade de determinado problema, analisar a interação de certas variáveis [...]. Segundo Godoy (1995a, p. 62 apud NEVES, 1996), as pesquisas qualitativas se diferem quanto a métodos, forma e objetivos, mas algumas características são essenciais e auxiliam na identificação desse tipo de pesquisa. São eles: (1) o ambiente como fonte direta de dados e o pesquisador como o instrumento fundamental; (2) o caráter descritivo; (3) o significado que as pessoas dão as coisas e a vida como preocupação do investigador; e (4) enfoque indutivo. A pesquisa realizada neste estudo, é de natureza qualitativa, por seu caráter particular, tendo o ambiente como forma direta do levantamento de dados, por analisar um fenômeno social e por utilizar o caráter descritivo, como afirma Manning (1979, p. 668 apud NEVES, 1996), o trabalho de descrição tem caráter fundamental em um estudo qualitativo, pois é por meio dele que os dados são coletados Tipo de Pesquisa

19 18 Barros & Lehfeld (1990, p. 13 apud RAUEN, 1999, p. 24) definem pesquisa como sendo o esforço dirigido para aquisição de um determinado conhecimento, que propicia a solução de problemas teóricos, práticos e/ou operativos mesmo quando situados no contexto do dia-a-dia do homem. Para Rauen (1999, p. 25), a pesquisa trata de atos sistemáticos e intensivos que visam à descoberta e à interpretação de fenômenos da realidade. E, divide-se em três tipos: a pesquisa exploratória, a pesquisa descritiva e a pesquisa experimental. Conforme Rauen (1999, p. 25), a pesquisa exploratória visa proporcionar maior familiaridade com o problema. Este esforço tem como meta tornar um problema complexo mais explícito ou mesmo construir hipóteses mais adequadas. De acordo com Lakatos & Marconi (1995, p. 188), as pesquisas exploratórias são investigações de pesquisa empírica cujo objetivo é a formulação de questões ou de um problema, com tripla finalidade: desenvolver hipóteses, aumentar a familiaridade do pesquisador com o ambiente, fato ou fenômeno, para a realização de uma pesquisa futura mais precisa ou modificar e clarificar conceitos. Empregam-se geralmente procedimentos sistemáticos ou para a obtenção de observações empíricas ou para as análises de dados (ou ambas, simultaneamente). Obtém-se frequentemente descrições tanto quantitativas quanto qualitativas do objeto de estudo, e o investigador deve conceituar as inter-relações entre as propriedades do fenômeno, fato ou ambiente observado. Uma variedade de procedimentos de coleta de dados pode ser utilizada, como entrevista, observação participante, análise de conteúdo etc., para o estudo relativamente intensivo de um pequeno número de unidades, mas geralmente sem o emprego de técnicas probabilísticas de amostragem. Muitas vezes ocorre a manipulação de uma variável independente com a finalidade de descobrir seus efeitos potenciais. Gil (1991, p. 45 apud RAUEN, 1999, p. 25) afirma que a pesquisa exploratória, [...] envolve o levantamento bibliográfico, as entrevistas com o pessoal envolvido, a análise de exemplos, entre outros. Tais tarefas se conformam, em geral, nas formatações das pesquisas bibliográficas e nos estudos de caso.

20 19 Desta forma, considerando as definições citadas, classifica-se para o presente estudo a pesquisa exploratória. Esta classificação baseia-se nos procedimentos que serão utilizados neste estudo, como pesquisa bibliográfica, o estudo, a observação, e a descrição do fenômeno, e coleta de dados Profundidade e Amplitude da Pesquisa Este estudo classifica-se como estudo de caso, como pode ser observado nas palavras de Rauen (1999, p. 30), um estudo de caso é uma análise profunda e exaustiva de um ou de poucos objetos de modo a permitir o seu amplo e detalhado conhecimento. A execução de estudos de casos é essencial, em técnicas psicoterápicas, como métodos didáticos e como pesquisa, devido a sua flexibilidade. É também muito utilizado para inícios de estudos complexos, para a confecção de hipóteses e reformulação de problemas (RAUEN, 1999, p. 30). Segundo com Fonseca (2002), Um estudo de caso pode ser caracterizado de acordo como um estudo de uma entidade bem definida como um programa, uma instituição, um sistema educativo, uma pessoa, ou uma unidade social. Visa conhecer em profundidade o seu como e os seus porquês, evidenciando a sua unidade e identidade próprias. É uma investigação que se assume particularística, isto é, que se debruça deliberadamente sobre uma situação específica que se supõe ser única em muitos aspectos, procurando descobrir a que há nela de mais essencial e característico Métodos de Pesquisa A ciência caracteriza-se pela utilização de métodos científicos, estes métodos são fundamentais para diferenciar a atividade científica. Nem todos os ramos de

21 20 estudos que utilizam estes métodos são ciências, portanto a utilização de métodos científicos não é somente exclusividade da ciência. Entretanto, não é possível existir ciência sem a aplicação de métodos científicos. Segundo Lakatos e Marconi (1988 apud RAUEN, 1999, p. 10), a finalidade da atividade científica é a obtenção da verdade, através da comprovação de hipóteses, que, por sua vez, são pontes entre a observação da realidade e a teoria científica que explica a realidade. Segundo Pacheco Jr. & Pereira (2003), os métodos de pesquisa se referem ao modo de raciocínio que levam ao conhecimento do fenômeno em estudo [...]. Como afirma Fonseca (2002), no estudo de caso o pesquisador não pretende intervir sobre o objeto, mas revelá-lo tal como ele o percebe. O estudo de caso apresenta deste modo uma forte tendência descritiva. Para Rauen (1999, p. 25), a pesquisa descritiva objetiva conhecer e interpretar a realidade sem nela interferir para modificá-la. Ela está interessada em descobrir e observar fenômenos, procurando descrevê-los, classificá-los e interpretálos. Segundo Rauen (1999, p. 12), a dedução, é um processo mental por meio do qual, parte-se de um argumento geral, universal, que funciona como uma premissa maior, e de uma premissa menor, para chegar-se a uma conclusão em nível particular, cujo conteúdo semântico já estava incluso pelo menos implicitamente nas premissas. Com base nas observações acima, o desenvolvimento deste estudo utilizará o método descritivo e o dedutivo Técnicas de Pesquisa

22 21 Técnica é um conjunto de preceitos ou processos de que se serve uma ciência ou arte; é a habilidade para usar esses preceitos ou normas, a parte prática. Toda ciência utiliza inúmeras técnicas na obtenção de seus propósitos (LAKATOS & MARCONI, 1995, p. 174). Com base nos objetivos deste estudo, serão utilizadas as seguintes técnicas: a) Pesquisa bibliográfica: levantamento de dados referentes ao tema de pesquisa e ao objeto de estudo. A pesquisa bibliográfica consiste na busca de dados a partir do acervo bibliográfico existente, isto é, em toda espécie de informação registrada em bibliografias e que pode, em tese, ser arquivada em uma biblioteca (RAUEN, 1999, p. 25). b) Observação sistemática: é utilizada para a busca de respostas de propósitos preestabelecidos. Deve ser sistematizada e planejada, no entanto, não deve ser rígida demais. Neste caso o observador sabe o que procura e quais pontos são de maior importância em determinadas situações, deve reconhecer possíveis erros e não influenciar a observação e os dados recolhidos. Alguns instrumentos que podem ser utilizados são: anotações, escalas, dispositivos mecânicos etc. (LAKATOS & MARCONI, 1995, p. 193). 1.6 Justificativa e Importância da Pesquisa Muitas condições de trabalho e situações do cotidiano são prejudiciais à saúde. As doenças que atingem o sistema músculo-esquelético e doenças psicológicas são a causa principal de faltas ao trabalho e de afastamentos por incapacitação. Esses casos podem ter origem devido ao mau projeto e a má utilização de equipamentos, sistemas e tarefas, devido a esses fatores, em muitos

23 22 países é obrigatório a contratação de ergonomistas nos serviços de saúde (DUL & WEERDMEESTER, 2004, p. 3). No Brasil, as doenças que atingem o sistema músculo-esquelético, também denominadas LER/DORT (Lesões por Esforços Repetitivos/Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho) têm destaque nas estatísticas de doenças do trabalho. De acordo com o Ministério da Saúde do Brasil (2001): No Brasil, o aumento na incidência de LER/DORT pode ser observado nas estatísticas do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) de concessão de benefícios por doenças profissionais. Segundo os dados disponíveis, respondem por mais de 80% dos diagnósticos que resultaram em concessão do auxílio-acidente e aposentadoria por invalidez pela Previdência Social em [...] Segundo Cláudia Vargas em reportagem para revista Proteção, entre 2002 e 2004, a Previdência Social registrou um aumento de 15,6% nas doenças do trabalho, de para casos. Já a alta de casos de LER/DORT é bem superior a média geral, no caso de lesões de músculo e tendões da parte inferior das costas (dorsalgias). Neste mesmo período, o aumento foi de 75%, passando de para casos. Outro exemplo são as mononeuropatias de membros superiores alterações decorrentes de compressão de um dos nervos desses membros que teve um aumento de 34,2%, de para casos. Estes dados demonstram que a média de surgimento das doenças relacionadas ao sistema músculo-esquelético é maior que a média geral de doenças relacionadas ao trabalho. Estes valores são apenas para o aumento das doenças, pois não foram considerados o aumento do número de trabalhadores entre os anos de 2002 a Os casos de doenças do sistema músculo-esquelético vêm sendo registrados no Brasil, desde No momento estes casos representam os registros mais freqüentes no Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Uma das profissões

24 23 com maior número de casos de DORT é a de operadores de centrais de atendimento telefônico (ROCHA et al, p. 637, 2005). O estudo da DORT é de grande importância. Como pode ser observado nos parágrafos anteriores a DORT vem crescendo a cada ano, e numa média maior que as outras doenças relacionadas ao trabalho. Além deste crescimento, o setor de telefonistas e operadores de centrais de atendimento telefônico são uma das profissões com maior número de ocorrências de DORT. Estes fatos demonstram a necessidade de serem realizados estudos nestes profissionais, pois é através dos estudos que se pode conhecer melhor os fatores de risco e conseqüências deste tipo de trabalho e assim tomar decisões que auxiliem na prevenção destas doenças. 1.7 Limitações Este estudo apresenta limitações quanto aos critérios de análise e quanto à amostra da população. Limitações quanto os critérios de análise A compatibilidade quanto à prevenção de riscos ao sistema músculoesquelético irá ser observada a partir destes elementos: a) mobiliário; b) levantamento de sintomas relacionados ao sistema músculo-esquelético; c) jornada de trabalho. Limitações quanto à amostra

25 24 Alguns elementos não serão analisados neste trabalho, são eles: a) fatores psicossociais; b) metas de produção; c) capacitação; d) estresse; e) conforto térmico; d) número de ligações; e) organização e disposição dos equipamentos de trabalho. 1.8 Organização do Trabalho A presente monografia se divide em: Capítulo I: Base da pesquisa neste capítulo são apresentadas as bases científicas da pesquisa. Constam neste capítulo a introdução, tema, reconhecimento e formulação do problema, problemática da pesquisa, objetivos, metodologia, justificativa e importância da pesquisa, limitações e organização do trabalho. Capítulo II: Fundamentação teórica neste capítulo é apresentada a revisão bibliográfica da pesquisa. Constam neste capítulo panorama geral do setor, estatísticas do setor, legislação, ergonomia, ergonomia do posto de trabalho de telefonista, sistema músculo-esquelético, coluna vertebral e DORT. Capítulo III: Estudo de caso neste capítulo são apresentados a descrição da empresa, a descrição do processo produtivo e o macrofluxograma do processo produtivo. Capítulo IV: Procedimentos metodológicos constam neste capítulo a metodologia empregada, o objetivo do questionário aplicado, o objetivo da aplicação do método

26 25 RULA, o macrofluxograma do estudo realizado, seleção do tema de estudo, seleção do local, visita e observação do local, aplicação do questionário a recepcionista telefonista, aplicação do método RULA. Capítulo V: Análise dos resultados e medidas preventivas neste capítulo são apresentados, a análise dos resultados obtidos e medidas preventivas. Capítulo VI: Conclusões e recomendações para futuros trabalhos neste capítulo são apresentados, a conclusão do estudo realizado e recomendações para futuros trabalhos.

27 26 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 Panorama Geral do Setor Com o surgimento nas últimas três décadas, de legislações que protegem o consumidor, e de empresas a procura da qualidade total, criou-se uma demanda de atendimentos aos compradores e usuários de bens e serviços, além disso, começaram a surgir às vendas através da telefonia. Essas vendas evoluíram de passivas, onde o consumidor ligava para determinado número de telefone buscando um produto, para também vendas ativas, onde as empresas que oferecem produtos ligam para os consumidores. Assim, na década de 1990, surgem os grandes call centers ou centrais de teleatendimento (SILVA, 2004, p. 15). Conforme Vilela e Assunção (2004, p. 1069), call center é o nome que se dá a uma estrutura organizacional que compreende postos de trabalho para atendimento ao cliente por meio da utilização de um terminal de computador e um aparelho telefônico. Em 1998, o mercado mundial de call centers arrecadou aproximadamente 23 bilhões de Euros, empregando nos Estados Unidos da América cerca de 5 milhões de pessoas e 1,5 milhões na Europa (TOOMINGAS, 2002 apud SILVA, 2004, p. 15). No Brasil, nos últimos 20 anos, o número de trabalhadores em call centers ou operadores de centrais de atendimento telefônico cresceu aproximadamente 30% (ROCHA et al, 2005, p. 637). A expectativa para 2006, conforme a Associação

28 27 Brasileira de Telesserviços 1, era da criação de mais 60 mil novos empregos no setor, totalizando aproximadamente 675 mil operadores trabalhando no Brasil. A forma atual de teleatendimento no Brasil, como um grande ramo empresarial, é decorrente ao processo de privatizações na última década e das mudanças na política de telecomunicação. Anteriormente, grandes empresas estatais, sem objetivo evidente de lucratividade, eram responsáveis pela operação do sistema de telecomunicação, suas atuações iam da instalação física de fios e equipamentos, distribuição de chamadas, comercialização de linhas e serviços e atendimento ao cliente. Com a privatização o cenário mudou, os lucros eram predeterminados por políticas tarifárias, gerando medidas rígidas das empresas para atingirem margens de lucros maiores, assim ocorrendo rigidez dos mecanismos gerenciais, cortes de custos, aumento de produtividade, entre outras medidas. Desta forma, as empresas de teleatendimento, criadas neste cenário, dividem as mesmas práticas gerenciais (SILVA, 2004, p. 17). Com a privatização da área telefônica do Brasil, a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), em 1998, criou um regulamento para o serviço de telefonia fixa. Este regulamento influenciou nas condições de trabalho dos call centers da área telefônica. Com um Plano Geral de Metas de Qualidade (PGMQ), a ANATEL exige das prestadoras de serviços telefônicos que o acesso dos clientes de telefonia aos call centers deve ser, contínuo, rápido e gratuito a central de informações e atendimento (SILVA, 2004, p. 18). Os trabalhadores do setor de call centers, em sua maioria possuem o 2º grau completo, ou ensino superior completo, são na maioria mulheres, jovens, em seu primeiro emprego. Quanto a saúde dos trabalhadores, apresentam doenças do 1 Conforme resultados preliminares da pesquisa Global Call Center Industry Project, comandada no Brasil pelo Programa de Pós-Graduação em Administração da PUC-SP e pela Associação Brasileira de Telesserviços (ABT). Disponível em:<http://www.abt.org.br/>. Acesso em: 22 fev

29 28 sistema músculo-esquelético, distúrbios mentais e alterações no aparelho de fonação (SINTTEL-MG, 2006, p. 4). Esta pesquisa tem como objeto de estudo uma recepcionista telefonista, a analogia feita com os call centers se dá, devido ao fato de muitas pesquisas fazerem referencia a estes trabalhadores. Isso ocorre, como já foi descrito nos parágrafos anteriores, pelo fato de um crescimento considerável, do número de trabalhadores neste setor nas últimas décadas. A analogia entre telefonistas e trabalhadores de call centers não se dá apenas neste estudo, outros estudos também consideram similaridades nestas atividades. Segundo o Sinttel-MG (2006, p. 4), o que este sindicado tem apontado é que na realidade a antiga telefonista hoje trabalha em um call center sob a mesma lógica de trabalho fazendo uso de uma nova tecnologia [...]. Conforme Silva (2004, p.35), apesar da similiaridade estrita da atividade de operador de teleatendimento (ou de telemarketing ), sob diversas denominações, com o antigo cargo de telefonista, a interpretação da legislação ainda não é unânime [...]. Rocha et al. (2005, p. 644), também encontrou similaridades entre os telefonistas e os trabalhadores de call centers. Esse estudo mostrou que os operadores de centrais telefônicas apresentam semelhança com telefonistas. Telefonistas fornecem recursos humanos para uma comunicação eletromecânica chamada sistema telefônico. Eles cumprem essa tarefa através da escuta de cada cliente, identificando necessidades, e traduzindo essas necessidades para sinais elétricos através de um tipo de console eletrônico. Muitas vezes, as tarefas de telefonistas hoje em dia estão associadas à provisão de assistência direta e transferência dos clientes para os serviços especializados. O trabalho é sedentário e as tarefas são comumente padronizadas. Os operadores devem ser capazes de lidar com o estresse, caso os clientes sejam rudes e quando o número de chamadas é grande. Simultaneamente esse estudo mostrou que operadores de centrais telefônicas apresentam diferenças dos telefonistas. Mais que receber e transmitir simples dados, o trabalho em call centers demanda tratamento de informações, resolução dos problemas e ação de decisão. Nesse sentido, as atividades dos operadores apresentam uma nova configuração determinada pela necessidade de lidar com um novo instrumento

30 29 tecnológico (o computador), da mesma forma, pela exigência dos clientes que exigem do operador um nível de interação muito mais complexa que a exigida dos telefonistas (tradução nossa). 2.2 Estatísticas do Setor Os dados a seguir são de trabalhadores portadores de LER/DORT, que foram atendidos no Núcleo de Saúde do Trabalhador de Minas Gerais (Nusat-MG), serviço que faz parte da estrutura do INSS (OLIVEIRA, 1998, p. 73). Tabela 1 LER/DORT x Ramos de atividade econômica RAMOS DE ATIVIDADE 1993(%) 1994(%) 1995(%) 1996(%) Instituição financeira 26,73 35,38 20,52 16,74 Ind. mat. elet. eletrônico 10,54 5,23 9,22 4,29 Comércio varejista 8,00 5,41 5,26 13,04 Serv. aux. diversos (P.D.) 7,27 5,78 1,90 1,76 Serv. comunicação 6,73 5,51 8,97 6,52 Ind. mat. transporte 6,00 3,25 6,72 3,05 Ser. adm. loc. bens móveis 5,64 10,29 7,41 7,52 Serv. saúde 4,73 5,95 11,9 10,22 Serv. utilid. pública 4,00 4,15 4,91 7,05 Outros ramos 24,36 22,2 28,1 29,81 TOTAL Fonte: Nusat/INSS-MG (Oliveira, 1998, p.81) Como pode ser observado na tabela 1, a LER/DORT está presente nos diversos ramos de atividades. Pode-se concluir que a profissão de telefonista esteja presente em todos esses ramos. No ano de 1991, a ocupação de telefonista foi responsável por 11,82% dos casos de LER/DORT registrados pelo Nusat-MG, ficando atrás apenas dos digitadores, profissão com maior número de casos, que representaram 26,06%. No ano de 1992, o percentual de casos de DORT registrados em telefonistas foi 9,76%. Em 1993, o percentual de casos de DORT em telefonistas foi de aproximadamente 5,1% do total de registros. No ano de 1994, as telefonistas, os digitadores, os caixas

31 30 bancários, os auxiliares de escritórios e escriturários de banco foram responsáveis por 60% dos casos de DORT, ficando as telefonistas com aproximadamente 5,2%. Em 1995, 5,3% dos casos de DORT são registrados em telefonistas e em 1996 este número foi de 4,9% (OLIVEIRA, 1998, p.88-93). Gubert (2001, p. 78), em estudo realizado em uma central do disque-saúde do Ministério da Saúde, onde são prestados serviços de teleatendimento para usuários de diversas regiões do Brasil, constatou ao analisar documentação referente a afastamentos durante o ano de 1999, que 92 operadores ficaram afastados durante 483 dias. Destes, 23 operadores que ficaram afastados 167 dias, ausentaram-se do trabalho por problemas relacionados a especialidade de ortopedia, representando 25% do total de operadores, e 34,5% do total de dias de afastamento. Dos operadores com atestados relativos a ortopedia, 13, representando 56,5%, foram afastados por doença, classificada no Código Internacional de Doenças (CID), como sinovite e tenossinovite. Estes 13 operadores ficaram afastados do trabalho por 102 dias, que representam 61,7%, dos dias de afastamento dos trabalhadores com problemas relacionados a área de ortopedia. Os outros operadores ficaram afastados devido aos seguintes diagnósticos: neurite ou radiculite torácica ou lombossacra, lumbago, fratura na falange das mãos, estenose da coluna vertebral, entorse ou distensão do punho, dor lombar baixa, desarranjos externos do joelho, cirurgia na mão e cervicalgia. Em um estudo realizado por Rocha et al (2005, p. 638), em uma central de atendimento de um banco de São Paulo, dos 181 operadores que trabalhavam na central 50 estavam ausentes, destes, 28 estavam ausentes devido a problemas no sistema músculo-esquelético. Neste mesmo estudo, 108 operadores responderam a um questionário, sendo 95 mulheres e 13 homens. Os dados levantados pelos

32 31 pesquisadores demonstram a predominância de jovens, como pode ser observado na tabela 2. Tabela 2 Características dos operadores de centrais telefônicas de acordo com a idade, estado civil, filhos, escolaridade, altura e tempo no emprego Feminino Masculino Características N (%) N (%) Idade N=94 N= (23) 9 (69) (44) 3 (23) (16) 1 (8) > (17) - - Estado civil N=92 N=13 Solteiro 64 (70) 13 (100) Casado 28 (30) - - Filhos N=93 N=13 Sim 21 (23) - - Não 72 (77) 13 (100) Escolaridade N=94 N=13 2º grau completo 20 (21) - - Graduação incompleto 60 (64) 13 (100) Graduação 14 (15) - - Altura N=90 N=12 > ou = 1,60 metros 67 (74) 12 (100) < 1,60 metors 23 (26) - - Tempo no emprego N=92 N= meses 20 (22) 12 (100) Mais de 13 meses 72 (78) - - Fonte: Rocha et al, 2005, p.639 Conforme Rocha et al (2005, p. 641), a prevalência de sintomas no sistema músculo-esquelético entre as operadoras mulheres que participaram do estudo, de

33 32 acordo com a região foram: 41 casos no pescoço/ombro, sendo 43% e 37 casos no punho/mão, sendo 39%. Entre os operadores do sexo masculino, foi registrado 1 caso, com sintomas no pescoço/ombro, sendo 8%. 2.3 Legislação NR-17 A ergonomia contribui para a melhora do desempenho dos trabalhadores. Em centrais de controle, a ergonomia é uma das características mais importantes para a redução dos erros operacionais, conseqüentemente reduzindo os acidentes. Em alguns países, determinados conhecimentos da ergonomia transformaram-se em normas, essa transformação se dá para estimular sua utilização. Alguns exemplos da aplicação dos preceitos ergonômicos podem ser observados em algumas normas, como por exemplo, nas normas internacionais ISO (International Standardization Organization), nas normas européias do Comitê Europeu de Normalização (CEN Comitê Européen de Normalisation), em normas nacionais, como exemplo a ANSI (American National Standards Institute Estados Unidos) e BSI (British Standards Institution Inglaterra). Além destas normas, algumas normas são específicas para empresas e setores da indústria. E, no Brasil, a Norma Regulamentadora NR-17 Ergonomia, estabelecida pela Portaria de 8 de junho de 1978 do Ministério do Trabalho (DUL & WEERDMEESTER, 2004, p. 3). A NR-17 Ergonomia 2, como descreve no item 17.1, e subitens e , tem como objetivo. 2 Disponível em: <http://www.mte.gov.br/legislacao/normas_regulamentadoras/nr_17.asp>.

34 Esta Norma Regulamentadora visa a estabelecer parâmetros que permitam a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente As condições de trabalho incluem aspectos relacionados ao levantamento, transporte e descarga de materiais, ao mobiliário, aos equipamentos e às condições ambientais do posto de trabalho, e à própria organização do trabalho Para avaliar a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, cabe ao empregador realizar a análise ergonômica do trabalho, devendo a mesma abordar, no mínimo, as condições de trabalho, conforme estabelecido nesta Norma Regulamentadora. Com relação ao posto de trabalho, a NR-17 faz referência em seu item 17.3 Mobiliário dos postos de trabalho Sempre que o trabalho puder ser executado na posição sentada, o posto de trabalho deve ser planejado ou adaptado para esta posição Para trabalho manual sentado ou que tenha de ser feito em pé, as bancadas, mesas, escrivaninhas e os painéis devem proporcionar ao trabalhador condições de boa postura, visualização e operação e devem atender aos seguintes requisitos mínimos: a) ter altura e características da superfície de trabalho compatíveis com o tipo de atividade, com a distância requerida dos olhos ao campo de trabalho e com a altura do assento; b) ter área de trabalho de fácil alcance e visualização pelo trabalhador; c) ter características dimensionais que possibilitem posicionamento e movimentação adequados dos segmentos corporais Para trabalho que necessite também da utilização dos pés, além dos requisitos estabelecidos no subitem , os pedais e demais comandos para acionamento pelos pés devem ter posicionamento e dimensões que possibilitem fácil alcance, bem como ângulos adequados entre as diversas partes do corpo do trabalhador, em função das características e peculiaridades do trabalho a ser executado Os assentos utilizados nos postos de trabalho devem atender aos seguintes requisitos mínimos de conforto: a) altura ajustável à estatura do trabalhador e à natureza da função exercida; b) características de pouca ou nenhuma conformação na base do assento; c) borda frontal arredondada; d) encosto com forma levemente adaptada ao corpo para proteção da região lombar Para as atividades em que os trabalhos devam ser realizados sentados, a partir da análise ergonômica do trabalho, poderá ser exigido suporte para os pés, que se adapte ao comprimento da perna do trabalhador Para as atividades em que os trabalhos devam ser realizados de pé, devem ser colocados assentos para descanso em locais em que possam ser utilizados por todos os trabalhadores durante as pausas.

35 34 Outros itens da NR-17 que apresentam relevância com o objeto do presente estudo destacam-se: Equipamentos dos postos de trabalho Condições ambientais de trabalho Organização do trabalho Jornada de trabalho Atualmente, a jornada de trabalho das telefonistas é de 6 horas diárias ou 36 horas semanais, como pode ser observado na Consolidação das Leis do Trabalho CLT em seu artigo 227. Art Nas empresas que explorem o serviço de telefonia, telegrafia submarina ou subfluvial, de radiotelegrafia ou de radiotelefonia, fica estabelecida para os respectivos operadores a duração máxima de 6 (seis) horas contínuas de trabalho por dia ou 36 (trinta e seis) horas semanais. Mesmo que estabelecida em lei a jornada de trabalho das telefonistas, e os trabalhadores de centrais de teleatendimento apresentarem similaridades significativas com estes profissionais. A falta de uma normatização específica para os teleatendentes ocasiona em interpretações diferenciadas na esfera jurídica. Isso permite jornadas diferenciadas para estes trabalhadores, estas jornadas variam de 6 a 8 horas diárias ou 36 a 44 horas semanais. Os trabalhadores vinculados aos sindicatos da antiga telefonia pública trabalham com jornadas de 6 horas, porém operadores de outros setores econômicos, com atividade em empresas que dão variadas denominações a seus funcionários, acabam trabalhando por 8 horas diárias, inclusive em domingos e feriados (SILVA, 2004, p ).

36 Ergonomia A ergonomia é o estudo da adaptação do trabalho ao homem. Não somente o trabalho que é executado com o auxílio de máquinas e equipamentos, onde ocorre a transformação de materiais. O trabalho aqui é toda situação de relacionamento entre o homem e uma atividade produtiva (IIDA, 2005, p. 2). De acordo com Dul & Weerdmeester (2004, p. 1), a Associação Internacional de Ergonomia (IEA), que atualmente representa associações de ergonomia de 40 países, define ergonomia como: Ergonomia (ou fatores humanos) é uma disciplina científica que estuda as interações dos homens com os outros elementos do sistema, fazendo aplicações da teoria, princípios e métodos de projeto, com o objetivo de melhorar o bem estar humano e o desempenho global do sistema. A Associação Brasileira de Ergonomia (Abergo), de acordo com Iida (2005, p. 2), adota a seguinte definição: Entende-se por Ergonomia o estudo das interações das pessoas com tecnologia, a organização e o ambiente, objetivando interações e projetos que visem melhorar, de forma integrada e não-dissociada, a segurança, o conforto, o bem-estar e a eficácia das atividades humanas. A ergonomia é uma ciência com características interdisciplinares. Buscando a adaptação do posto de trabalho e do ambiente as características e necessidades do trabalhador, apóia-se em várias áreas científicas, são elas, a antropometria, biomecânica, fisiologia, psicologia, toxicologia, engenharia mecânica, desenho industrial, eletrônica, informática e gerência industrial. Utilizando-se dos conhecimentos relevantes dessas áreas para a sua aplicação, foram desenvolvidos métodos e técnicas específicas. Atualmente, os conhecimentos desenvolvidos pela

37 36 ergonomia são aplicados para melhorar, não só as condições de trabalho, mas também as condições de vida do homem (DUL & WEERDMEESTER, 2004, p. 2). Os ergonomistas com freqüência trabalham em áreas especializadas, utilizando-se de características específicas do sistema. Segundo Iida (2005, p. 3), essas características são as seguintes: Ergonomia Física Ocupa-se das características da anatomia humana, antropometria, fisiologia e biomecânica, relacionados com a atividade física. Os tópicos relevantes incluem a postura no trabalho, manuseio de materiais, movimentos repetitivos, distúrbios músculo-esqueléticos relacionados ao trabalho, projeto de postos de trabalho, segurança e saúde do trabalhador. Ergonomia Cognitiva Ocupa-se dos processos mentais, como a percepção, memória, raciocínio e resposta motora, relacionados com interações entre pessoas e outros elementos de um sistema. Os tópicos relevantes incluem a carga mental, tomada de decisões, interação homemcomputador, estresse e treinamento. Ergonomia Organizacional Ocupa-se da otimização dos sistemas sóciotécnicos, abrangendo as estruturas organizacionais, políticas e processos. Os tópicos relevantes incluem comunicações, projeto de trabalho, programação do trabalho em grupo, projeto participativo, trabalho cooperativo, cultura organizacional, organizações em rede, teletrabalho e gestão de qualidade (grifo do autor). Como pode ser observado, a ergonomia estuda inúmeros fatores que influenciam na interação entre o homem e o trabalho. E é aplicada de várias formas, porém sempre em busca dos mesmos objetivos, proporcionar saúde, segurança e satisfação aos trabalhadores (IIDA, 2005, p. 3). Conforme o Prof. Mario César Vidal 3, a ergonomia brasileira como disciplina científica, conquistou seu espaço no cenário mundial, e em especial na America Latina, porém o Brasil ainda enfrenta algumas dificuldades nos aspectos da aplicação prática da ergonomia, dificuldades na obtenção de recursos, ausência de uma preocupação social etc. Infelizmente, por essas dificuldades, dentro das empresas, organizações sociais, serviços públicos e privados há carência de 3 Membro Brasileiro da missão IDC/IEA (International Ergonomics Association). Ex-presidente da ABERGO Membro do Conselho Científico da ABERGO.

38 37 desenvolvimento e aplicação da ergonomia. Esta carência demonstra a necessidade de uma política pública que alavanque a aplicação da ergonomia, pois sua eficácia já é comprovada, para cada real investido obtem-se um retorno de 4 reais, ou seja, as ações ergonômicas geram retornos na economia além de serem um bem social Ergonomia do Posto de Telefonista Posto de trabalho é a configuração física do sistema homem-máquinaambiente. É uma unidade produtiva envolvendo um homem e o equipamento que ele utiliza para realizar o trabalho, bem como o ambiente que o circunda (IIDA, 2005, p. 189). Um posto de trabalho com enfoque ergonômico tende a colocar o trabalhador em boa postura, reduzindo as exigências biomecânicas e cognitivas. Os objetos são colocados dentro da área de alcance do trabalhador e as informações necessárias para o desenvolvimento do trabalho são organizadas de forma a facilitar sua percepção, ou seja, o posto de trabalho é confeccionado para que o trabalhador realize suas tarefas com conforto, eficiência e segurança (IIDA, 2005, p. 192). Conforme Iida (2005, p. 192), No enfoque ergonômico, às máquinas, equipamentos, ferramentas e materiais são adaptados às características do trabalho e capacidade do trabalhador, visando promover o equilíbrio biomecânico, reduzir as contrações estáticas da musculatura e o estresse geral. Assim, pode-se garantir a satisfação e segurança do trabalhador e a produtividade do sistema. Procura-se também eliminar tarefas altamente repetitivas, principalmente aquelas de ciclo menores a 1,5 minuto (grifo do autor). Uma das dificuldades ao se projetar um posto de trabalho é a variabilidade das dimensões antropométricas da população. Essas variações levam a

39 38 dimensionamentos inadequados que podem provocar esforços musculares estáticos, movimentos exagerados dos braços, ombros, tronco e pernas, posturas inadequadas. Sabe-se que posturas inadequadas e alcances forçados provocam dores musculares e queda de produtividade (IIDA, 2005, p. 194). 2.5 Sistema Músculo-esquelético A movimentação do corpo humano depende do sistema muscular. Este sistema é distribuído pelo corpo todo e representa cerca de 40% do seu peso. Os músculos são formados por fibras musculares, que variam de tamanho conforme o músculo, essas fibras podem variar de 0,5 a 14 cm de comprimento, e podem ter espessuras de aproximadamente 0,1mm. Cada músculo conta com um número de a de fibras musculares, cada ponta dessas fibras unem-se nas fibras dos tendões. Nas extremidades dos músculos encontram-se os tendões, conjunto de fibras tendinosas com pouca elesticidade, que estão fixados no sistema ósseo (GRANDJEAN, 1998, p. 13). A capacidade de contração dos músculos é a sua mais importante característica, um músculo pode contrair-se até metade de seu comprimento, consequentemente quanto maior o músculo maior o seu trabalho de contração. As fibras musculares contêm substâncias protéicas, destacam-se a actina e a miosina, que são responsáveis pela capacidade de contração do músculo. Isto é possível porque a actina e a miosina possuem forma de filamentos, assim deslizam um sobre o outro (GRANDJEAN, 1998, p. 13). A força muscular é resultante da quantidade de fibras musculares contraídas. A força máxima de um músculo é em torno de 3 a 4 kg/cm², ou seja, para um

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