PROTEÇÃO SOCIAL À FAMÍLIA: práticas sociais com famílias na Fundação da Criança e do Adolescente do Pará FUNCAP

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1 PROTEÇÃO SOCIAL À FAMÍLIA: práticas sociais com famílias na Fundação da Criança e do Adolescente do Pará FUNCAP Nilzaleia da Silva Santos 1 Resumo: Apresenta-se o debate sobre proteção social e família no Brasil, em seguida ilustra-se a partir de um estudo empírico as práticas sociais com as famílias dos adolescentes autores de ato infracional que cumprem medida socioeducativa na FUNCAP. A base metodológica utilizada foi à técnica do grupo focal, apontando como resultado principal que a responsabilização não pode ser o eixo central do trabalho com famílias, mas sim o fortalecimento dos vínculos relacionais,culturais,políticos, comunitários na perspectiva da autonomia e emancipação das famílias. Abstract: Is the debate on social protection and family in Brazil, then shows up from an empirical study of social practices with families of adolescents author of an infringement that comply with the measure childcare FUNCAP. The basic methodology used was the technique of focal group, indicating that the main result accountability can not be the lynchpin in working with families, but the strengthening of relational ties, cultural, political, community in terms of autonomy and empowerment of families. 1 Mestranda. Universidade Federal do Pará/Fundação da Criança e do Adolescente do Pará. 1

2 INTRODUÇÃO Nesses escritos se faz uma reflexão sobre a questão da proteção social à família do adolescente autor de ato infracional que cumpre medida socioeducativa na Fundação da Criança e do adolescente do Pará-FUNCAP. Historicamente, nota-se a tendência da família a ser sobrecarregada diante da incapacidade do mercado e do Estado de prover segurança material às pessoas. Ao analisar a família como fator de proteção social, mostra a absorção por essa de maiores responsabilidades diante da fragilidade das ações estatais, amortizando o impacto das políticas econômicas e da reestruturação capitalista. Quando se traz para o centro das reflexões, questões como a responsabilização da família e do Estado no processo socioeducativo, se confirma a presença do Estado na regulação da vida familiar como fato inegável, tanto pelo que se afirma na legislação, nas políticas públicas, quanto pela sua omissão, que define as fronteiras entre o privado e o público. Refletir sobre políticas sociais com foco na família, tomando como referência a experiência concreta do atendimento às famílias dos adolescentes que cumprem medidas socioeducativas na Fundação da Criança e do Adolescente do Pará - FUNCAP, remete a uma análise anterior, pois, para que essa família chegue até a instituição, no geral, ela apresenta um histórico de negação de direitos e exclusão social. Tal afirmação baseia-se em dados empíricos das histórias de vidas das famílias dos adolescentes que apresentam em comum situação sócio-econômica desfavorável, baixo nível de escolaridade, alto índice de desemprego, precárias condições de moradia, enfim, perfil que retrata a precarização do ser humano e o processo de exclusão social a que estão submetidas. 2

3 1. AS POLÍTICAS SOCIAIS NO CONTEXTO BRASILEIRO Nas últimas três décadas, a família vêm sendo chamada a assumir um importante espaço como agente privado de proteção social. Foi redescoberta no âmbito das políticas públicas e está presente em quase todas as agendas governamentais e, especialmente, em programas de atenção à criança, ao adolescente e aos idosos, com o objetivo de garantir o direito à convivência familiar e comunitária. A questão da família está situada como foco das políticas de proteção social, em especial na área da infância e adolescência, fundamenta-se na Constituição Federal, a qual reconhece que a família é à base da sociedade (Art.226) e, portanto, compete a ela, juntamente com o Estado, a sociedade em geral e as comunidades, assegurar à criança e ao adolescente o exercício de seus direitos fundamentais (Art.227). Esse preceito legal se confirma no Estatuto da Criança e do Adolescente-ECA, quando estabelece a mudança paradigmática para Doutrina da Proteção Integral, de sustentação na implementação de programas com ênfase no atendimento à família. Apesar da legislação brasileira vigente reconhecer a família, enquanto estrutura vital, lugar essencial à humanização e à socialização da criança e do adolescente, espaço ideal e privilegiado para o desenvolvimento integral dos indivíduos (PNCF:2006;15), o que se percebe ao longo da história é que as políticas sociais sempre tiveram pouca atenção com a defesa, proteção e promoção da família, mas, ao contrário, estão muito mais voltadas para o controle e a contenção social, principalmente nas camadas mais pobres. No Brasil, as políticas sociais de cunho neoliberal cujos programas sociais direcionados às famílias, revelam que a fundamentação ideológica de sustentação do poder público está pautada em concepções e saberes que não reconhecem nas expressões e formas de organização da família, os elementos constitutivos da cultura, gênero, condições sócioeconômicas. Criam-se programas e ações fragmentadas que reduzem as necessidades e 3

4 enfrentamentos da família a categorias jurídicas, patológicas ou de suprimento de necessidades básicas, meramente assistencialistas (MIOTO, 2006). Nessa perspectiva, as políticas sociais se tornaram mais um elemento de fragmentação do sujeito e de desagregação das relações familiares, uma vez que, estabelecem critérios e executam práticas que selecionam famílias ou membros das famílias considerando faixa etária, gênero ou condições econômicas. Assim, é necessário priorizar o investimento público em programas sociais com uma mudança de ótica para se mudar as práticas, ou seja, trabalhar a família na perspectiva da proteção, defesa, promoção e apoio. Na perspectiva da prevenção de circunstâncias que prejudicam o desenvolvimento integral da criança e do adolescente e não simplesmente na tentativa de combater problemas depois que estes se instalam e se agravam, a tal ponto que sua reversão se torna difícil, até mesmo irreversível. Na verdade, o preceito legal ainda não se concretiza na vida real. O que se verifica de fato é uma pauperização e uma queda crescente da qualidade de vida das famílias brasileiras, constatada através de diferentes órgãos de pesquisa (MIOTO, 2006, p. 46). A realidade nos mostra que, embora estabelecido em lei, o Estado brasileiro ainda não consegue garantir os direitos individuais e, sobretudo, a implementação de políticas públicas que possibilitem a sustentação necessária para o bem-estar das famílias. Especialmente no que se refere à promoção do desenvolvimento saudável da criança e do adolescente, especificamente, os que vivem em famílias em situação de pobreza. 2. As Práticas Sociais com as Famílias na FUNCAP: Limites e Possibilidades Volpi (2001), afirma que as crianças e adolescentes são produtos do meio que interagem, ninguém nasce infrator. Assim sendo, o adolescente autor de ato infracional é produto e responsabilidade de uma rede de setores e fatores que são determinantes e condicionantes na perpetuação do processo de exclusão social a que estão expostos. E, portanto, a mudança dessa cadeia, implica em soluções compulsoriamente partilhadas entre o Estado e a sociedade com a necessidade de que estes assumam seus papéis, pois, não se 4

5 pode aceitar que a família seja a única responsabilizada por todos os problemas que afetam o grupo familiar. Apesar do reconhecimento da importância da família, evidenciada nas políticas públicas nas últimas décadas, não se pode perder de vista que, é o Estado o responsável principal na regulamentação das condições de vida, construindo possibilidades de padrões de bem-estar, não com programas pontuais, mas com políticas abrangentes com o desenvolvimento de ações voltadas para o interesse da família e da sociedade (CARVALHO, 2000). E, para tanto, toda prática social com a família implica, necessariamente, no investimento de ações integradas que vislumbrem o desenvolvimento da autonomia familiar, o fortalecimento do seu processo emancipatório, para o exercício do protagonismo social das famílias e de seus membros. Nesse sentido, busca-se consolidar uma política social movida pela lógica do reconhecimento dos direitos sociais e, portanto, da justiça e da eqüidade.(carvalho, 2000, p. 20). Considerando as reflexões de Carvalho (2000), observa-se que as práticas de atendimento às famílias desenvolvidas nas unidades da FUNCAP, ainda estão distantes dessa perspectiva de promoção e de inclusão social, com vista ao exercício do protagonismo social da família. Essa afirmação esta pautada não somente numa avaliação empírica, mas em dados de uma pesquisa através da qual foi possível traçar um perfil do trabalho com famílias desenvolvido na FUNCAP. Em 2007, foi realizada uma pesquisa institucional através da técnica de grupos focais com servidores, adolescentes e famílias, cujo objetivo era de conhecer as práticas socioeducativas desenvolvidas nas unidades de atendimento da FUNCAP e identificar os limites e possibilidades presentes no cotidiano desse trabalho. Essa experiência teve uma relevância êxitosa, visto ser de fundamental importância para subsidiar a elaboração do Projeto Político Pedagógico PPP institucional. Grupo focal consiste em uma técnica de pesquisa considerada de abordagem rápida, que permite a obtenção de dados de natureza qualitativa a partir de sessões em grupo, envolvendo de 4 a 12 pessoas, que compartilham alguns traços comuns, discutem aspectos de 5

6 um determinado tema que se quer pesquisar. Consiste em uma técnica de forma rápida, fácil e prática de pôr-se em contato com a população que se deseja investigar. A técnica do grupo focal é um grupo de discussão informal e de tamanho reduzido, com o propósito de obter informações de caráter qualitativo em profundidade. A técnica de grupo focal é reconhecida como uma experiência que permite conhecer idéias e opiniões dos membros do grupo sobre um determinado assunto, em um tempo relativamente curto, uma vez que, estimula discussões que vão desde o confronto de idéias, como também a concordância em torno de uma mesma opinião, permitindo conhecer o que o grupo pensa. De maneira que em alguns poucos encontros, é possível conhecer percepções, expectativas, representações sociais e conceitos relevantes no grupo. Portanto, é com base na pesquisa do PPP que foi possível identificar as práticas sociais desenvolvidas com famílias na FUNCAP e, as quais apontam que: os atendimentos com as famílias são assistemáticos e pontuais; resume-se em entrevistas iniciais para obter informações dos adolescentes, reuniões mensais ou bimestrais (quando havia) com assuntos descontínuos; palestras com temas diversos sem nenhum encadeamento; os contatos telefônicos com os familiares dos adolescentes acontecem somente em situação de emergência ou de extrema necessidade. Quanto à participação da família, se verificou que somente acontecia nos eventos previamente organizados pela equipe das unidades, na condição de convidada; todos os técnicos eram responsáveis pelo atendimento com a família, sendo realizado, se houvesse tempo, pois a prioridade estava voltada para a jornada pedagógica com o adolescente; as visitas domiciliares são eventuais, sem uma programação prévia ou agendada com as famílias; as visitas domiciliares no geral são direcionadas, exclusivamente, para a dimensão socioeconômica e são realizadas tão somente para compor relatório de avaliação do adolescente, como exigências do Judiciário; os encaminhamentos para a rede de serviço socioassistencial, não são acompanhados para saber se foram atendidos ou não. Em resumo, essa foi à prática social que ao longo dos anos vêm se consolidado na FUNCAP, salvo raríssimas exceções destaca-se experiências exitosas, porém, pontuais, ou 6

7 seja, um ou outro evento, como por exemplo às datas comemorativas. Enfim, o que foi identificado na pesquisa e que de certa forma já era do conhecimento da maioria dos profissionais da instituição é que o trabalho desenvolvido na FUNCAP, pela própria inconsistência e fragilidade, pouco tem contribuído para proporcionar alternativas de mudança para essas famílias. É importante ressaltar que a Norma Operacional Básica/Sistema Único de Assistência Social NOB/SUAS, destaca que a família é o núcleo social básico de acolhida, convívio, autonomia, sustentabilidade e protagonismo social (2005, p.90). E, portanto, qualquer trabalho com família precisa necessariamente, construir possibilidades que caminhem nessa perspectiva. E, ainda, assegura também que a família deve ser apoiada e ter acesso a condições para responder ao seu papel no sustento, na guarda e na educação de suas crianças e adolescentes, bem como na proteção de seus idosos e portadores de deficiência (NOB/SUAS 2005, p.90). Para tanto, o trabalho com as famílias na FUNCAP não pode ter como eixo principal à responsabilização das famílias no processo socioeducativo, sem antes conhecer suas condições reais de assumir de forma adequada suas funções perante os seus membros. É necessário, inicialmente, criar essas condições, ou seja, proporcionar apoio, orientação, defesa e promoção da família para que assim ela possa assumir efetivamente seu papel. É mister ressaltar que a responsabilidade da família, sociedade e Estado pela promoção e a defesa dos direitos de crianças e adolescentes, está pautada nos artigos 227 da Constituição Federal e no Art. 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente ECA. Mas, é o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo SINASE, que estabelece as diretrizes e responsabilidades do atendimento socioeducativo, destacando que: (1) a sociedade e o poder público devem cuidar para que as famílias possam se organizar e se responsabilizar pelo cuidado e acompanhamento de seus adolescentes, evitando a negação dos direitos, principalmente quando se encontram em situação de cumprimento de medida socioeducativa; (2) à família, à comunidade e à sociedade em geral cabe zelar para que o Estado cumpra com responsabilidades, fiscalizando e acompanhando o atendimento socioeducativo, reivindicando a melhoria das condições do tratamento e a prioridade para esse público específico (inclusive orçamentária) (SINASE,2006, p. 26). 7

8 O SINASE, como instrumento legal de consolidação do trabalho socioeducativo destaca a família na centralidade das políticas sociais e com participação ativa no processo socioeducativo ao adolescente autor de ato infracional. Dessa forma, hoje não se pode mais desenvolver trabalho com famílias pautado em práticas assistemáticas, descontínuas, ou seja, não reproduzir práticas de atendimentos eventuais, com reuniões casuais e discussões de temas pontuais. Para Costa (2004), é a dimensão sistemática, e contínua do trabalho que oportuniza uma constante avaliação e renovação das pessoas e, conseqüentemente, a modificação de hábitos e a interiorização de propostas para mudanças de atitudes. O SINASE, estabelece orientações para a sistematização e reordenamento do processo de coordenação e execução das medidas socioeducativas pautado numa nova visão de atendimento, pois prima por uma prática social concebendo a família como extensão do atendimento ao adolescente. E, assim, recomenda que: As práticas sociais devem oferecer condições reais, por meio de ações e atividades programáticas à participação ativa e qualitativa da família no processo socioeducativo, possibilitando o fortalecimento dos vínculos familiares e a inclusão dos adolescentes no ambiente familiar e comunitário. As ações e atividades devem ser programadas a partir da realidade familiar e comunitária dos adolescentes para que em conjunto - programa de atendimento, adolescentes e familiares possam encontrar respostas e soluções mais aproximadas de suas reais necessidades. (SINASE, 2006, p 63). Quanto a essa orientação, percebe-se que o trabalho com famílias na FUNCAP ainda está longe de atingir a eficácia necessária enquanto espaço do exercício da cidadania, pois, de acordo com o resultado da pesquisa do PPP, o trabalho socioeducativo é fragmentado e frágil, uma vez que não se consegue envolver ativamente as famílias no processo socioeducativo junto aos adolescentes. As ações são sempre programadas separadamente, inclusive, por equipes diferentes, ou seja, o pedagogo cuida da jornada pedagógica, o assistente social e o psicólogo do atendimento individual do adolescente e o trabalho com família fica a cargo de um desses profissionais, ou mesmo de um educador que exerce a função de monitoria. CONSIDERAÇÕES FINAIS: É importante reconhecer que no processo de cumprimento das medidas socioeducativas, tudo que é objeto na formação do adolescente deve ser extensivo à sua 8

9 família, é claro que levando em consideração as possibilidades e capacidades de cada uma, pois, as necessidades trazidas pelos adolescentes, no geral são demandas também de outros membros de suas famílias. Portanto, trabalhar o protagonismo do adolescente não acontece fora das relações mais íntimas, daí o reconhecimento da família e da comunidade como espaços indispensáveis de intervenção do trabalho socioeducativo. Sua cidadania não acontece plenamente se ele não estiver integrando à comunidade e compartilhando suas conquistas com a sua família. As experiências positivas na área do atendimento socioeducativo com adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas, mostram a necessidade do envolvimento das famílias. Agora o que precisa ser repensado é a metodologia e execução deste trabalho, para que não seja mais um faz de conta, ou seja, fazer qualquer atividade para as famílias, não quer dizer está trabalhando com famílias. Pois, de acordo com os instrumentos normativos e legais, as diretrizes principais, desse trabalho precisa necessariamente está pautada na promoção da emancipação, autonomia e protagonismo social da família. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF, Senado, BRASIL, Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei Federal 8.069, de 13 de julho de BRASIL, Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa de Criança e Adolescente ao Direito à Convivência Familiar e Comunitária, Brasília Distrito Federal, 2006 BRASIL, Política Nacional de Assistência Social, PNAS/2004 & NOB/SUAS- Brasília - Novembro de BRASIL, Sistema Nacional de atendimento Socioeducativo SINASE. Brasília-DF: CONANDA, CARVALHO, Maria do Carmo Brant de (Org.). A Família Contemporânea em Debate. São Paulo: Cortez, COSTA, A.C.G. A presença da Pedagogia: métodos e técnicas de ação socioeducativa. São Paulo: Global: Instituto Ayrton Senna,

10 LAURELL, Asa Cristina (Org.). Estado e Políticas Sociais no Neoliberalismo. São Paulo: Cortez, MIOTO, Regina C.T. Novas propostas e velhos princípios: a assistência às famílias no contexto de programas de orientação e apoio sociofamiliar. Política Social, Família e Juventude: Uma questão de direitos. São Paulo: Cortez, VOLPI, Mario. Sem Liberdades, Sem Direitos. São Paulo: Cortez,

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