A CONTRA-REFORMA AGRÁRIA EM RONDÔNIA: colonização agrícola, expropriação e violência

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1 A CONTRA-REFORMA AGRÁRIA EM RONDÔNIA: colonização agrícola, expropriação e violência Murilo Mendonça Oliveira de Souza 1 Vera Lúcia Salazar Pessôa 2 RESUMO O avanço sobre a fronteira amazônica ocorreu inserido em contexto de expropriação e violência. No território rondoniense, durante a década de 1970, esse processo foi ainda mais intenso, atingindo ao mesmo tempo índios, seringueiros, garimpeiros e posseiros. Ao mesmo tempo, padeceram os colonos pobres, tangidos Centro-Sul pela também excludente modernização no campo. Nesse sentido, o presente texto tem como objetivo geral compreender o processo de expropriação promovido pela colonização agrícola em Rondônia, durante a década de 1970 e primeiros anos da década de Busca-se, ao mesmo tempo, entender o contexto sob o qual os projetos de colonização foram implantados, assim como, as conseqüências resultantes de tal processo. Para isso, faz-se, inicialmente, uma re-visita ao processo de avanço sobre a fronteira amazônica, pelo governo militar. Sequencialmente analisa-se o processo de colonização dirigida (espontânea) no estado de Rondônia e, finalmente, procura-se estudar as características da ocupação do território rondoniense na primeira metade da década de Palavras-chave: Colonização Agrícola. Fronteira. Rondônia. Questão Agrária. 1 Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), membro do Núcleo de Estudos Agrários e Territoriais (NEAT) e do Laboratório de Geografia Agrária (LAGEA). Bolsista FAPEMG. 2 Professora Doutora do Programa de Pós-Graduação em Geografia/IG/UFU/ membro do Núcleo de Estudos Agrários e Territoriais (NEAT) e do Laboratório de Geografia Agrária (LAGEA).

2 INTRODUÇÃO A produção do espaço amazônico e, especificamente, do estado de Rondônia, apresentou como características fundantes a expropriação e a violência. Para o território rondoniense, em especial, a Marcha para Oeste foi sinônimo de degradação do homem e do meio natural. Os grupos indígenas, que já vinham sendo gradativamente exterminados, a partir da década de 1960, com a colonização agrícola, passam a sofrer um impacto potencializado da relação com a civilização do capital. Os conflitos entre grileiros e índios não foram exceção em Rondônia, foram regra. Grande parte dos grupos indígenas, quando entravam em contato com a frente pioneira, migrava para o interior da região amazônica, os que assim não fizeram foram exterminados. Ao fim daquela viagem para caçar, pescar e tirar palha, os índios Suruí, de Rondônia, encontraram a mata derrubada e a terra ocupada pelo branco. Era a última viagem. Aquele povo estava sendo cercado e confinado, suas terras invadidas para produzir renda fundiária. (MARTINS, 1988, p. 9). O trecho acima reflete claramente o que ocorreu não somente em Rondônia, mas em todo o território amazônico. Martins (1988) cita também o caso dos Nambikwara do Mato Grosso, que quase desapareceram durante a construção da rodovia BR 364. Esta foi a estrada que, a partir de meados da década de 1960, trouxe o grileiro, que trouxe o camponês expropriado no oeste paranaense, mas que trouxe também um processo de desenvolvimento desigual para todo o território rondoniense. Os grupos indígenas, contudo, constituem apenas uma parte dos expropriados pelo processo de colonização do governo militar na região amazônica. Seringueiros que territorializaram-se historicamente na região, assim como, garimpeiros e posseiros foram também cercados pelos arames do latifúndio. As demarcações de vários projetos de colonização, em Rondônia, sobrepuseram terras ocupadas por antigos seringueiros e posseiros que produziam em um sistema de subsistência. Por isso, o conflito entre colonos e seringueiros também foi recorrente durante o processo de colonização agrícola no território rondoniense.

3 Não foram menos expropriados, no entanto, os colonos pobres que, sem terra para plantar no Centro-Sul do país, especialmente no Paraná, foram tangidos para as terras de Rondônia. De acordo com dados do IBGE (2000), somente na década de 1970 a população rondoniense cresceu 16,03%, enquanto o crescimento nacional cresceu apenas 2,48% no mesmo período. Os lotes demarcados pelo governo militar, no entanto, não foram suficientes para assentar nem mesmo metade da população migrante. Essa grande quantidade de colonos sem terra, a negligência do Estado com relação às populações indígenas, seringueiras, entre outros, produziram um contexto de extrema violência na luta pela terra, onde os únicos que ganharam foram os empresários e grileiros. Portanto, o processo de colonização agrícola da década de 1970 promoveu uma verdadeira contrareforma agrária em Rondônia, expropriando ao mesmo tempo diferentes grupos sociais em todo o estado e produzindo um grupo de produtores rurais sem terra que, ainda hoje, lutam em busca de um pedaço de chão para sobreviver e reproduzir-se. Nesse sentido, o presente texto tem como objetivo geral compreender o processo de expropriação promovido pela colonização agrícola em Rondônia, durante a década de 1970, em especial. Busca-se, ao mesmo tempo, entender o contexto sob o qual os projetos de colonização foram implantados, assim como, as conseqüências resultantes de tal processo. Para isso, faz-se, inicialmente, uma re-visita ao processo de avanço sobre a fronteira amazônica, pelo governo militar. Sequencialmente, analisa-se o processo de colonização dirigida no estado de Rondônia e, finalmente, procura-se estudar as características da ocupação do território rondoniense na primeira metade da década de 1980, com a análise do POLONOROESTE (Programa Integrado de Desenvolvimento do Noroeste do Brasil) e dos PAR (Projetos de Assentamento Rápido). OPERAÇÃO AMAZÔNIA: a ocupação política da região amazônica Em 1964, quando ocorreu o golpe militar, as estratégias para a ocupação da fronteira amazônica já estavam traçadas e, relativamente, em andamento. Cabia aos militares efetivar a ocupação econômica de toda a

4 região. A intenção era, enfim, tirar algum proveito econômico da floresta amazônica. Antes disso, contudo, nos dois primeiros anos do regime militar, debateu-se a questão agrária e definiram-se as bases sobre as quais se daria o avanço para a fronteira amazônica. Foram implementadas, por exemplo, algumas mudanças no Estatuto da Terra, para que a posse da terra por empresas capitalistas e pelo Estado fosse garantida. O objetivo primordial era a abertura da Amazônia para os investimentos do capital nacional e internacional, com a parceria do Estado. O ponto de partida para esse empreendimento foi dado em reunião realizada no rio Amazonas já em 1966, como mostra Ariovaldo Umbelino de Oliveira. As intenções desenvolvimentistas dos governos militares com relação à Amazônia foram iniciadas com a primeira Reunião de Investidores da Amazônia, realizada através de um cruzeiro a bordo do navio Rosa da Fonseca, em nove dias de viagem pelo rio Amazonas (dezembro de 1966). Nesta reunião, definiram-se os interesses dos empresários do Centro-Sul e os objetivos da adesão empresarial ao projeto governamental: só investir se o lucro fosse certo. (OLIVEIRA, 1988, p. 32). Mesmo antes dessa reunião, as bases para a ocupação capitalista da Amazônica já haviam sido preparadas. Os militares criaram uma série de instrumentos econômicos que definiriam a incorporação da Amazônia à economia brasileira. No inicio de 1965, foram estendidos para a região amazônica os incentivos fiscais e creditícios concedidos ao nordeste. No mês de setembro de 1966 autorizaram-se os incentivos fiscais para as empresas florestais, assim como, foi criado o Banco da Amazônia. Um mês depois foi criada a grande região da Amazônia Legal e, completando a estrutura de ocupação econômica, em 27 de outubro de 1966 foi criada a SUDAM (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia), em substituição à SPVEA (Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia), já em processo de decadência (SANTOS, 1993). Nesse contexto é que foi estabelecida a Operação Amazônia. Essa operação propunha uma nova perspectiva na ocupação da região amazônica, ou seja, incentivar a imigração; criar condições para o capital privado; desenvolver uma infra-estrutura na região e pesquisar o potencial dos recursos naturais (MACIEL, 2004).

5 A estratégia do Estado autoritário, para o desenvolvimento do Brasil e da Amazônia, centrou-se no lema integrar para não entregar. A partir dessa idéia, a ocupação da Amazônia, no contexto de desenvolvimento nacional, deveria ser o espaço para amenizar os conflitos de luta pela terra no Nordeste e aqueles promovidos pelo processo de modernização agrícola no Centro-Sul. Com isso, seria pavimentado o caminho para o desenvolvimento do capitalismo na Amazônia. A parceria Estado-Capital foi, via de regra, a base de ação dos militares na colonização amazônica. Esse processo de colonização, de acordo com Ianni (1979) foi estruturado pela política de colonização dirigida, por um lado, e pela expansão da empresa agropecuária, por outro. Ou seja, o controle sobre a terra era fator primordial para os planos de desenvolvimento econômico do Governo Militar. O então Território Federal de Rondônia constituiu-se, a partir de 1970, em um verdadeiro laboratório dos projetos militares para a Amazônia. Entre 1970 e 1978 foram instalados sete projetos dirigidos de colonização em Rondônia, com o assentamento de famílias de colonos. Juntamente com as famílias instaladas nos projetos do Estado Militar, veio para o estado um imenso fluxo migratório espontâneo. Todo esse contexto promoveu em Rondônia o crescimento dos conflitos pela terra. Esse processo de colonização dirigida, que foi ao mesmo tempo espontâneo, é o que se analisa a seguir. A COLONIZAÇÃO DIRIGIDA (ESPONTÂNEA) EM RONDÔNIA O avanço para áreas de fronteira e, especificamente, para a fronteira amazônica já vinha sendo ideologicamente arquitetado desde o Estado Novo. O plano rodoviário nacional, em especial, refletia a estratégia de interiorização da ocupação econômica brasileira, garantindo a segurança nacional e criando um mercado interno para a indústria em gestação. A construção da Belém- Brasília, o projeto da transamazônica e da BR 364 (Cuiabá-Porto Velho), entre outras grandes obras, adiantava os objetivos do Estado brasileiro em ocupar a região amazônica. No entanto, o avanço sobre essa fronteira, até a segunda metade da década de 1960, ainda não havia se concretizado de fato. É, basicamente, a partir do Golpe de 1964, que muitas das idéias gestadas nas décadas anteriores serão colocadas em prática. E são, também, fatores que já

6 vinham ocorrendo anteriormente que impulsionarão o Estado militar a avançar, concretamente, sobre a fronteira amazônica. Entre os fatores que impulsionaram a ocupação da Amazônia e, especificamente, do território rondoniense, concorrem o fechamento da fronteira no Paraná, o processo de modernização no campo e a tensão agrária no nordeste. A fronteira do oeste paranaense recebeu na década de 1960, principalmente, grande quantidade de agricultores vindos de várias regiões brasileiras. O fechamento dessa fronteira, juntamente com o acelerado processo de modernização agrícola, expulsou uma larga parcela dos produtores paranaenses que, por sua vez, migraram para a Amazônia. Migraram massivamente, contudo, para o território de Rondônia. O fluxo migratório proveniente do Paraná compôs mais de 40% dos colonos assentados em Rondônia na década de Os conflitos pela terra deflagrados desde a década de 1950 no nordeste também concorreram para a ocupação da Amazônia nos anos O fluxo nordestino, entretanto, foi direcionado em especial para as margens da rodovia Transamazônica, tendo poucos migrado para Rondônia. Nesse contexto, o Estado assumiu a iniciativa de um novo e ordenado ciclo de ocupação da região amazônica, consubstanciado em um amplo projeto geopolítico para a modernização acelerada da sociedade e do território nacional (BECKER, 2006). Finalmente, o Estado brasileiro havia visualizado a possibilidade de tirar algum proveito econômico da Amazônia. Essa nova perspectiva de ocupação se deu, claramente, inserida em um contexto no qual a agricultura passava a se submeter fortemente às relações capitalistas de produção e a conseqüente mecanização do campo excluía grande quantidade de pequenos agricultores e trabalhadores rurais no Sul e Nordeste do país. [...] tratava-se de tirar proveito econômico da utilização do espaço brasileiro, associado à disponibilidade de recursos humanos, com a aplicação de recursos do capital já assegurado às novas regiões. Proveito para apoiar a manutenção do crescimento acelerado e para a abertura de novas frentes na conquista de mercados externos. (CALVENTE, 1980, p.10). Esse processo se desenvolveu no âmbito do Programa de Integração Nacional (PIN 1970), tendo posteriormente se apoiado no primeiro e no

7 segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (PND I 1972/1974 e PND II /1979). Buscava-se com esses planos a integração de todas as regiões do país. Juntamente com os programas desenvolvidos nas áreas de cerrado, visualizava-se a região amazônica, a partir desse período, como área estratégica para a definitiva integração do país ao mercado externo. Um exemplo clássico dessa estratégia, a construção da Transamazônica, teve como objetivo principal promover o acesso a terra para 100 mil famílias de agricultores, absorvendo os excedentes demográficos do Nordeste e integrando economicamente esta região brasileira que, até então estava totalmente isolada (VALVERDE; FREITAS, 1980). É a partir daí que Rondônia passa a ser vista como uma importante fronteira para a integração das diversas regiões em um contexto de desenvolvimento nacional. A partir de 1960 os reflexos das transformações econômicas e sociais nas outras regiões do país, com a expansão do capital no sudeste, passaram a influenciar o processo de ocupação e exploração econômica de Rondônia. (CALVENTE, 1980, p. 17). Entre os projetos estatais que tomaram parte na ocupação de Rondônia é importante destacar, inicialmente, o PROTERRA 3 (Programa de Redistribuição de Terras e Estímulo à Agroindústria do Norte e Nordeste), que teve como objetivo promover o acesso mais fácil do homem a terra. Os recursos deste programa foram destinados à criação de uma linha de crédito para formação, em cooperativas agrícolas e empresas, de projetos de colonização ao longo das rodovias-tronco no norte do estado do Mato Grosso e Rondônia. Os beneficiários atingidos pelo PROTERRA foram, no entanto, majoritariamente produtores do sul que venderam suas terras para adquirir áreas bem maiores nos projetos privados do programa (SOUSA FILHO, 1996). Os projetos que estabeleceram a base para o avanço da fronteira econômica e do capital sobre o estado de Rondônia foram os Projetos Fundiários (Tabela 1), que tinham como objetivo resguardar a posse da terra sob o domínio do Estado nacional e, ao mesmo tempo, disponibiliza-la para a ação das empresas capitalistas que almejavam investir no estado. 3 Criado pelo Decreto-Lei número 1.179, de 6 de julho de 1971.

8 Tabela 1 -Projetos Fundiários em Rondônia, Projetos Áreas Discriminadas (ha) Áreas a Discriminar (ha) Alto Madeira Corumbiara Guajará-Mirim Jarú Ouro Preto Total Fonte: INCRA-CETR/CDA, 1981 apud Lopes, As grandes áreas constituídas pelos Projetos Fundiários no estado de Rondônia visavam estruturá-lo para o avanço da fronteira econômica e para a ação do capital. As terras de cada projeto foram reservadas para diferentes fins. Os principais fins para os quais foram direcionadas as terras dos projetos fundiários foram: Concorrência Pública, Regularização Fundiária e Colonização. Aos Projetos Fundiários coube a discriminação de terras devolutas e a incorporação ao patrimônio público de áreas desocupadas e daquelas que estavam sendo ilegalmente ocupadas. Esses projetos deveriam, também, promover a titulação das posses legitimáveis ou passíveis de regularização, propondo o reconhecimento dos títulos de domínio existentes (LOPES, 1983). Através desses Projetos Fundiários, foi assegurada aos seringalistas a possibilidade de regularização de áreas para membros do conjunto familiar de até ha na faixa de fronteira e de até ha fora dela; aos seringueiros, desde que comprovem a posse efetiva da área que ocupam, caracterizada por residência no local e exploração agropecuária efetiva, dentro dos limites previstos na lei. (LOPES, 1983, p. 26). Apesar da citação acima mostrar uma intenção estatal de garantir a posse de seringalistas e de seringueiros, foram raros os casos em que a posse desses últimos foi realmente garantida. Isso decorreu do fato de que as áreas a serem garantidas aos dois grupos eram as mesmas e, via de regra, era mantida a posse dos seringalistas, em detrimento de largo número de seringueiros. Quando isto não ocorria, estas terras eram alvo de intenso processo de grilagem, principalmente, por empresários do Centro-Sul. Com as áreas arrecadadas pelo processo de Regularização Fundiária foram estabelecidas, primeiramente, áreas de Concorrência Pública. As áreas

9 constituídas nos processos de licitação pública foram destinadas a projetos de desenvolvimento econômico, ligados ao grande capital. As áreas de licitação variavam de 200 a ha. São exemplos: Gleba Corumbiara (produção pecuária de corte), Gleba Burareiro (produção de cacau) e a Gleba Garças (produção pecuária de leite e corte) (LOPES, 1983; CUNHA, 1985). Sem muitas alterações, essas áreas foram acessadas por grandes grupos capitalistas. É válido ressaltar que, enquanto as áreas de Regularização Fundiária e Concorrência Pública abrangeram uma área de ha, as reservadas aos Projetos de Colonização compuseram apenas ha (LOPES, 1983). Aprofundando um pouco mais, entende-se que o Estado militar fazia um discurso de que promoveria a colonização com base em pequenas propriedades, mas, na prática, o que acontecia era a distribuição de grandes áreas para capitalistas nacionais e internacionais. Os Projetos de Colonização foram instalados, majoritariamente, sob duas formas: os PIC (Projetos Integrados de Colonização) e os PAD (Projetos de Assentamento Dirigido) (Tabela 2). Tabela 2- Projetos de Colonização Dirigida em Rondônia, Projetos Área Total (ha) Famílias Assentadas PIC Ouro Preto PIC Gy-Paraná PIC Paulo de Assis Ribeiro PIC Pe. Adolpho Rohl PIC Sidney Girão PAD Marechal Dutra PAD Burareiro Assentamento Rápido Total Fonte: INCRA-CETR/CDA, 1981 apud Cunha, Os PICs tiveram uma melhor programação, onde o INCRA fornecia, além da demarcação das áreas, a infra-estrutura socioeconômica básica, o que refletia, de certa forma, uma postura paternalista por parte do Estado. Os lotes dos PICs foram estruturados em glebas de 100 ha por família colona e, 4 Os principais projetos de Assentamento Rápido implantados foram os seguintes: Vale do Rio Anari, Nazaré, Nova Vida, Santa Rosa, Cunha do Marechal, Castro Alves, Vida Nova e D Jaru- Uaru (SOUSA FILHO, 1996).

10 verdadeiramente, tinha como objetivo prover mão-de-obra para os projetos ligados ao grande capital. O INCRA além de identificar e selecionar os beneficiários, designalhes parcelas, fornece infra-estrutura e, por meios próprios ou de outros órgãos, implantam atividades de assistência técnica, creditícia, de comercialização, saúde, educação e até de associativismo. (CUNHA, 1985, p. 62). Nos PADs o Estado apenas investia na locação e abertura de estradas, desde que os assentados tinham uma melhor situação econômica e os lotes recebidos eram maiores (250 ha). Esses projetos contemplavam agricultores com maior experiência agrícola e capacidade de acesso a recursos financeiros no sistema bancário. A responsabilidade do INCRA se restringia à seleção dos beneficiários e titulação dos lotes. (CUNHA, 1985; PERDIGÃO; BASSEGIO, 1992; MESQUITA, 2001). Esses projetos foram focados, basicamente, na produção de cacau e na pecuária. Os PICs e os PADs não foram suficientes para assentar a massa de migrantes que chegava, ininterruptamente, ao estado de Rondônia. A chegada espontânea de grande quantidade de migrantes nesse período levou o INCRA a assentar grande quantidade de famílias nos PAR (Projeto de Assentamento Rápido). Os conflitos pela terra aumentaram de forma muito rápida durante a década de 1970, mas somente a partir de 1980 o Estado passa a implementar os projetos rápidos. O objetivo dos militares não era, contudo, somente o de resolver os conflitos agrários em Rondônia, mas, também, de implantar novas estruturas para o desenvolvimento do capitalismo. Nesse contexto, os PARs foram desenvolvidos de forma concomitante com o POLONOROESTE. Este programa e os projetos de assentamento rápido são discutidos abaixo. O POLONOROESTE E OS PROJETOS DE ASSENTAMENTO RÁPIDO É certo que os projetos de colonização implantados entre 1970 e 1978 em Rondônia trabalharam na contramão da democratização do acesso a terra. O elevado fluxo migratório direcionado para o estado e a proposta conservadora do governo militar levaram a uma intensa desestruturação na posse da terra. Índios e seringueiros foram expropriados, garimpeiros e colonos

11 sem terra foram completamente esquecidos. Os projetos integrados e dirigidos de colonização não resolveram e ainda intensificaram os conflitos pela terra no território rondoniense. Em 1981, com a suposta intenção de amenizar o conflito agrário em Mato Grosso e Rondônia, promovendo ao mesmo tempo o desenvolvimento econômico da região, foi estabelecido o POLONOROESTE. Com recursos financeiros de 1,5 bilhões de dólares (34% proveniente do Banco Mundial), o programa tinha como principais objetivos, os seguintes: - Asfaltamento de km da rodovia BR 364, ligando Cuiabá e Porto Velho; - O estabelecimento de cerca de camponeses em novos projetos de colonização, dos quais se estabelecerão em Rondônia (24% dos meios financeiros do programa); - O desenvolvimento rural integrado nas áreas de influência da estrada BR 364 no Mato Grosso e em Rondônia (23%); - O combate à malária em Rondônia (2%); - A proteção das populações indígenas na zona de influência da BR 364 (3%); - A proteção do meio ambiente na região-programa (1%) (COY, 1987). Contudo, os objetivos estabelecidos mostraram, posteriormente, um caráter apenas demagógico, desde que, os recursos do programa foram concentrados basicamente no estabelecimento de infra-estrutura produtiva para a região atendida. Somente o projeto de asfaltamento da BR 364 foi responsável pelo consumo de 42% de todos os recursos destinados ao programa nos dois estados (COY, 1987). Carvalho (2004, p. 44) confirma esse fato dizendo que [...] o POLONOROESTE tinha como principal objetivo o asfaltamento dos km da BR 364 entre Cuiabá e Porto Velho. Mesmo os recursos que estavam destinados ao fortalecimento de políticas socioambientais foram re-alocados para a criação de infra-estrutura, especialmente, viária. O recurso destinado ao assentamento de famílias colonas em projetos de assentamento, não foi totalmente utilizado, sendo que apenas três projetos foram efetivamente implementados (Tabela 3).

12 Tabela 3- Projetos de assentamento implantados com recursos do POLONOROESTE em Rondônia ( ). Projeto Ano Município Número de Área por Famílias família (ha) PA Urupá 1981 Urupá e Alvorada ,0 do Oeste PA Machadinho 1982 Machadinho do 2934* 73,0 Oeste e Vale do Anary PA Cujubim 1984 Cujubim ,0 Fonte: adaptado de Maciel (2004). * Este projeto foi estruturado, inicialmente, para o assentamento de famílias. Essa característica do programa possibilitou o aumento das desigualdades sociais e da degradação do meio natural (principalmente, nas margens da BR 364), pois possibilitava o desenvolvimento das grandes propriedades em detrimento do fortalecimento e legitimação de posseiros e colonos. Tal perspectiva agravou ainda mais o quadro agrário no estado de Rondônia. Esse programa foi responsável por intensificar a exclusão de posseiros, índios e camponeses. Na fase de implementação do programa, entretanto, intensificou-se a organização dos movimentos de luta pela terra no estado. Isto ocasionou a aceleração dos Projetos de Assentamento Rápido (PAR), já mencionados, e que foram instalados, no sentido de prevenir conflitos mais graves na luta pela terra. O Projeto de Assentamento Rápido foi criado, em 1980, como meio de solucionar o excedente de 23 mil famílias localizadas em lotes de outros ou núcleos urbanos, e tiveram uma diferença marcante: Reduziram pela metade a área dos lotes, que passou a ser de 50 hectares, e não possuem linhas que possibilitem seu acesso (CUNHA, 1985, p. 62). Esses projetos eram compostos por lotes de 50 ha e não foram beneficiados com nenhum tipo de estrutura física, apenas um picada para chegar à gleba de terra recebida. De acordo com o Estado, estava-se buscando apenas controlar os conflitos pela terra, mas, durante o processo de distribuição de terras nos PARs, foram legitimados diversos latifúndios em todo o estado de Rondônia. Ou seja, assentaram algumas famílias de colonos, mas intensificaram ainda mais os conflitos pela terra no território rondoniense.

13 Nesse último período aumentou os movimentos e intensificou-se a luta pela terra em Rondônia. O POLONOROESTE, focado na criação de infraestrutura negligenciou a questão fundiária Com isso, os trabalhadores rurais sem-terra no estado somam nesse período mais de 20 mil famílias. Entende-se que os grupos organizados em movimentos de luta pela terra, atualmente, são de forma geral, [...] pessoas que sobraram dos projetos de colonização do governo e estão redesenhando o mapa de Rondônia (MESQUITA, 2001, p. 26). Nessa massa de trabalhadores sem terra estão incluídos: indígenas expulsos de suas terras pelas frentes de expansão e pioneira; antigos seringueiros que vieram para o estado nos dois ciclos da borracha; antigos garimpeiros que ficaram na região após a privatização da extração de cassiterita no estado; posseiros de várias origens, que já sobreviviam da terra antes do processo de colonização dirigida; colonos que migraram espontaneamente para Rondônia a partir da década de 1970; entre outros. Resumidamente, a história da fronteira amazônica de forma geral e, em especial, no estado de Rondônia, foi uma história de degradação, do homem e da natureza. Mas nas últimas décadas tem sido também uma história de resistência camponesa, de protesto e de esperança. E é no sentido de iniciar uma discussão sobre esse processo de degradação humana na fronteira rondoniense, que situamos este texto. CONSIDERAÇÕES FINAIS A ocupação da fronteira amazônica foi sinônimo de expropriação e de violência. No território rondoniense, durante a década de 1970, mais concretamente, este processo exterminou diversos grupos indígenas, desterritorializou seringueiros, garimpeiros e posseiros. A colonização agrícola no estado foi resposta, também, para os problemas agrários do Centro-Sul do país, principalmente, do oeste paranaense, onde a fronteira se fechava. Os produtores excluídos no sul foram tangidos para Rondônia. A maioria não conseguiu acessar a terra de trabalho. Foram assentadas na década de 1970 e início de 1980, aproximadamente, 25 mil famílias no estado, fato que é ressaltado como uma efetiva reforma agrária. No entanto, ainda hoje, lutam pela terra, no estado, mais de 20 mil famílias, de acordo com dados da CPT

14 (Comissão Pastoral da Terra). Se somado àqueles que não estão inseridos nos movimentos de luta pela terra, esse número certamente passa de 30 mil famílias. Portanto, foram expropriadas mais famílias do que foram assentadas, o que nos permite assegurar que o que ocorreu em Rondônia foi uma contrareforma agrária. Isso explica, sem dúvida, o persistente conflito pela terra no território rondoniense. Espera-se, contudo, que a luta dos trabalhadores rurais sem terra possa transformar não somente o desenho agrário do estado, mas também a compreensão que se tem da reforma agrária no país. REFERÊNCIAS BECKER, B. K. Amazônia: geopolítica na virada do III milênio. 2. ed. Rio de Janeiro: Garamond, CALVENTE, A. T. Formações não capitalistas no movimento de ocupação da Amazônia: colonização agrícola em Rondônia 1970/ f. Dissertação (Mestrado em Economia) Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília, Brasília, CARVALHO, R. M. C. Agricultura sustentável em áreas de fronteira: discursos e práticas f. Tese (Doutorado em Planejamento Urbano e Regional) Instituto de Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, COY, M. Desenvolvimento regional na periferia amazônica. Organização do espaço, conflitos de interesses e programas de planejamento dentro de uma região de "fronteira": o caso de Rondônia. In: AUBERTIN, C. (Org.). Fronteiras. Brasília: Universidade de Brasília, p CUNHA, S. R. P. O xadrez da terra: um estudo da colonização de Rondônia f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sócio-Ambientais) Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará, Belém, IANNI, O. Colonização e contra-reforma agrária na Amazônia. Petrópolis: Vozes, (Coleção Sociologia Brasileira, v. 11). IBGE. Sinopse preliminar do censo demográfico v. 7, Rio de Janeiro: IBGE, CD-ROM. LOPES, E. S. A. Colonização agrícola em Rondônia: a relação parceleiroagregado como manifestação de resistência à expropriação f. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Agrícola) Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Itaguaí, 1983.

15 MACIEL, A. C. Dinâmica do processo de ocupação sócio-econômica de Rondônia: trajetórias e tendências de um modelo agropecuário na Amazônia f. Tese (Doutorado em Ciências Sócio-Ambientais) Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará, Belém, MARTINS, J. S. Não há terra para plantar neste verão: o cerco das terras indígenas e das terras de trabalho no renascimento político do campo. 2 ed. Petrópolis: Vozes, MESQUITA, H. A. de. Corumbiara: o massacre dos camponeses. Rondônia, f. Tese (Doutorado em Geografia Humana) Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, OLIVEIRA, A. U. Integrar para entregar: políticas públicas e Amazônia. Campinas: Papirus, (série educando). PERDIGÃO, F.; BASSEGIO, L. Migrantes amazônicos: Rondônia: a trajetória da ilusão. São Paulo: Loyola, SANTOS, J. V. T. Matuchos exclusão e luta: do sul para a Amazônia. Petrópolis: Vozes, SOUSA FILHO, F. R. Política agrária brasileira durante os anos de autoritarismo na transformação do espaço da fronteira amazônica: o exemplo de Rondônia. In: Encontro de Pesquisadores da Amazônia, VIII, 1996, Porto Velho, Anais... Porto Velho: UFRO, VALVERDE, O.; FREITAS, T. L. R. O problema florestal da Amazônia brasileira. Petrópolis: Vozes, 1980.

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