ASSENTAMENTO TARUMÃ-MIRIM (AM): USO DO TERRITÓRIO E POLÍTICAS PÚBLICAS

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1 ASSENTAMENTO TARUMÃ-MIRIM (AM): USO DO TERRITÓRIO E POLÍTICAS PÚBLICAS George Jackson Fernandes Coelho Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA),Laboratório de Estudos Sociais (LAES) Marciclei Bernardo da Silva Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Laboratório de Estudos Sociais (LAES) Patrícia da Silva Gonçalves Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Laboratório de Estudos Sociais (LAES); Máximo Alfonso Rodrigues Billacrês Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Laboratório de Estudos Sociais (LAES) Resumo: O conteúdo do território e sua utilização são os elementos básicos neste trabalho, por meio deles, pode-se melhor analisar o território e suas dimensões. Neste estudo os territórios são criados por meio da simbiose do espaço urbano com o espaço rural, o projeto de assentamento (PA) Tarumã-Mirim se enquadra nesta lógica de produção territorial. O PA Tarumã-Mirim é como uma fração do território utilizado no espaço urbano de Manaus, sendo criado pelo INCRA para promover a ocupação da área e possibilitar condições para a sua integração ao processo produtivo da região. O presente trabalho teve os resultados obtidos com o trabalho de campo no assentamento, tendo por objetivo diagnosticar o uso deste território pelos camponeses; assim como o papel do Estado na constituição deste assentamento, tendo como objetivo secundário identificar a espacialidade das políticas públicas estabelecidas. Palavras-chave: Assentamento. Tarumã-Mirim (Am). Uso Do Território. Políticas Públicas. Introdução A partir do pressuposto de território usado como sinônimo de espaço humano, espaço geográfico (SANTOS, 2008). Sendo o uso do território que interessa, pois, por meio deste, pode-se analisar o território em si (as formas). Desta forma, a produção do 1

2 território, a produção territorial (RAFFESTIN, 2009) é necessária ser identificada, isto é, precisa-se levar em conta o processo de formação. Com isso apóia-se em Raffestin, quando este aponta que é evidente que os territórios são criados através da simbiose entre o mundo agrícola e o mundo urbano. Conforme Steinberger (2006) considera-se o assentamento Tarumã-Mirim como fração do campo do território usado no espaço urbano de Manaus. Sendo uma fração a influência de Manaus no modo de vida e na relação social dos camponeses do assentamento é identificável, mas, esta relação próxima com o urbano de Manaus não dificulta a distinção de camponeses dos não camponeses, usando a metáfora de Hobsbawm (1999) Para um zoólogo, pode ser questão muito complexa definir um cavalo, mas normalmente isso não significa que haja qualquer dificuldade em reconhecer um desses animais (p.215). Sendo assim, por meio do diagnóstico da paisagem - sendo está uma construção na maior parte realizada pelos seus sujeitos (assentados) - o atual trabalho tem por objetivo central diagnosticar o uso deste território pelos camponeses; assim como o papel do Estado na constituição deste assentamento (unidade espacial de análise), tendo como objetivo secundário identificar a espacialidade das políticas públicas estabelecidas. Os resultados analisados foram concebidos por trabalhos de campo no assentamento, pois, considera-se esta forma de pesquisa...um elemento indispensável da percepção objetiva dos dados de base do raciocínio científico; quando ela está ausente, elaboramse teorias que só tem relações longínquas com a realidade perceptível... (TRICART, 2006) Assentamento Tarumã-Mirim: Produção e uso do Território O assentamento Tarumã-Mirim é um projeto criado pelo INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), que visou ocupar as áreas da União na Zona Rural do Município de Manaus, que por meio, da Resolução 184/92 de 20/03/1992 o Projeto de Assentamento Tarumã Mirim possui uma área de ,76ha com capacidade para assentar famílias (INCRA/AM 1999:1), com o ideário de produção de alimentos para a crescente cidade de Manaus após a criação de seu pólo industrial e seu crescimento demográfico. Esta ação do INCRA enfatiza que o Estado deve ser visto, 2

3 como uma relação ou como um processo, nesse caso sendo um exercício de poder por meio de determinados arranjos institucionais (HARVEY, 2005). O Estado possui um papel essencial na organização e produção do espaço, pois ele direciona políticas públicas - que em sua gênese são espaciais (Steinberger, 2006) que estimulam os setores competitivos da economia em diferentes escalas e circuitos de mercado com seus mais diversos sujeitos (sociais, econômicos, políticos entre outros). O espaço destinado a ser ocupado pelo projeto deve ser considerado como um espaço político e econômico, pois o espaço foi formado, modelado a partir de elementos históricos ou naturais, mas politicamente (LEFEBVRE, 2008 p.62). Desta forma: De acordo com o Diagnóstico Sócio-Econômico-Ambiental do INCRA/AM (1999:1), o assentamento foi implementado com o objetivo de promover a adequada ocupação da área por agricultores sem terra de Manaus, e possibilitar condições para a sua integração ao processo produtivo da região. (MATOS, PEIXOTO, COSTA, 2009 p.4) Isto reflete a opinião de Carlos (2004) quando esta aponta que: No campo o desenvolvimento avança reproduzindo relações especificamente capitalistas implantando o trabalho assalariado sem que as relações camponesas desaparecessem e sem que a totalidade do trabalho no campo e da vida social fosse submetida integralmente a sujeição real do capital apesar do desenvolvimento da industrialização da agricultura e da exportação das culturas para a exportação no seio da economia global (p.9) Partindo do pensamento de Lefebvre (2008) que ao considerar o espaço como político, ele fica dependendo de uma dupla critica: crítica de direita e crítica de esquerda. A crítica de direita é uma crítica da burocracia, das intervenções estatistas, na medida em que tais intervenções perturbam a iniciativa privada, ou seja, os capitais. Do mesmo modo, acrítica de esquerda é uma critica as intervenções estatistas, na medida em que essa intervenção não considera, ou considera mal, os usadores, a prática social, que quer dizer a prática urbana. Diante dessa abordagem cabe ressaltar que o órgão que tem funcionalidade burocrática territorial nessa discussão, o INCRA, exerce um poder político que provem do estado, que por sua vez tem como objetivo o desenvolvimento dos elementos da produção agrícola, por meio de projetos de assentamento, ao menos enquanto discurso legitimador de sua existência ou da existência do grupo que o dirige. 3

4 Entretanto, a opinião dos assentados (crítica de esquerda) não corresponde ao objetivo do órgão, visto que, existe insatisfação por parte dos camponeses no que diz respeito à atuação do INCRA no PA Tarumã Mirim, conforme um entrevistado: Eles so vem fiscalizar o lote, mas pra saber como estamo que é bom, nada. (sic), segundo depoimento de um dos assentados. O assentamento está localizado na área rural do município de Manaus entre as bacias do Tarumã Mirim e Tarumã-Açu (FIGURA 1). Possuindo especificidades por está próximo ao núcleo urbano do município. Figura 1: Recorte espacial do Assentamento Tarumã Mirim (unidade espacial em bordas vermelhas) institucionalizado pelo INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), em 1997 por meio de políticas publicas destinadas ao desenvolvimento rural, com funcionalidade de abastecimento das feiras e comércios da capital. Localizado a Noroeste da cidade de Manaus, os meios de transporte utilizados para se chegar ao assentamento pode ser via terrestre (BR-174, km 21), ou fluvial (Igarapé Tarumã Açu e Igarapé Tarumã Mirim 4

5 Diagnóstico da Paisagem do assentamento Tarumã Mirim É importante ressaltar que se trata de um território com organização sócio-espacial e modos de vida semelhantes entre as comunidades do assentamento. Essa organização, com a produção das estruturas territoriais resulta posteriormente na produção de uma paisagem, que conforme Raffestin (2009) Esta não é uma construção material, mas a representação ideal da construção (p.17) As comunidades do assentamento enfrentam dificuldades comuns entre si, porém, possuem aspectos relativamente diferentes, tanto na sua infra-estrutura quanto em sua paisagem como sistema econômico-social, pois: Paisagem como sistema econômico-social: concebida como a área onde vive a sociedade humana, caracterizando o ambiente de relações espaciais que tem uma importância existencial para a sociedade, composto por uma determinada capacidade funcional para o desenvolvimento das atividades econômicas. (OTOK, 1988: GONÇÁLEZ, 1996 apud RODRIGUEZet all2004, p16) Este território possui estrutura política, social e econômica e como A vida em sociedade supõe uma multiplicidade de funções e quanto maior o número destas, maior a diversidade de formas e de atores (SANTOS, 1997 p.65) cada comunidade possui uma associação, a qual funciona como uma sede da comunidade local, lugar onde são discutidos diversos assuntos relacionados à comunidade e outros, exceto as comunidades Bom Destino e Nova Luz que compartilham o mesmo presidente, e por conseqüência a mesma sede. As reuniões e eventos ocorrem pelo menos uma vez ao mês, onde a comunidade e representantes são convocados. As associações são regidas por presidentes e vicepresidentes de comunidade e seus sub-representantes; secretários, tesoureiros dentre outros que possuem funcionalidade expressiva na comunidade, os quais atuam como representantes da comunidade local, dentro e fora do assentamento. Essas lideranças são instituídas por meio de voto, ou seja, democraticamente, onde cada membro da comunidade tem o direito de exercer o voto, e cada morador pode se candidatar ao cargo. Os mandatos variam de um a dois anos, e com possibilidades de reeleição, 5

6 dependendo da gestão desenvolvida no decorrer do mandato e a satisfação da comunidade geral. Os lideres contam com recursos da associação, os quais são provenientes da cota arrecadada, derivadas da taxa que os moradores da comunidade (associados) pagam mensalmente. As taxas são em média de R$ 5,00 a R$ 10,00 Reais, dependendo da associação, por exemplo: na comunidade Nova Luz e Nova Esperança a taxa é de R$ 5,00 Reais, Nova Esperança. Já na comunidade Bom Destino a taxa custa R$ 10,00 Reais. Em relação aos aspectos relativamente diferentes entre essas comunidades, no que se refere à paisagem como sistema econômico-social é possível identificar três estágios, pois segundo (RODRIGUEZ, SILVA, CAVALCANTI, 2004, p16): A paisagem percebida define-se como a imagem surgida da elaboração mental de um conjunto de percepções que caracterizam uma cena observada e sentida em um momento concreto. Figura 2: Comunidade Nova Esperança localizada ao sul do assentamento, utilizada como referencia de estagio de alto desenvolvimento em relação às demais comunidades citadas neste trabalho, principalmente no que se refere aos aspectos como estruturas físicas e paisagem e sistema econômico-social relativamente diferentes entre elas. Como por exemplo: ruas, escolas, comércios, posto médico, infra-estrutura elétrica, sede comunitária, igreja, e um poço comunitário com água potável. 6

7 O primeiro é caracterizado como baixo desenvolvimento 1, como é o caso da comunidade Nova luz, que não possui benfeitorias 2 e nenhuma infra-estrutura adequada que ofereçam melhores condições de vida, desenvolvimento e deslocamento dos moradores, e o difícil acesso o que contribui de forma negativa na produção dos assentados, pois a localização afeta usos potênciais da terra (THUNEN apud MORAN, OSTROM E MERETSKY, 2009), sobretudo dos camponeses. O segundo é considerado médio desenvolvimento, como é o caso da comunidade Bom Destino, que possui uma construção (sede/associação), onde funciona também como escola, com infra-estruturas que levam energia elétrica até as casas, porém, sem saneamentos básicos e com difícil acesso devido à ruim condição do ramal, o que não favorece o escoamento das mercadorias produzidas ali. E, por fim, o terceiro considerado alto desenvolvimento, levando em consideração as anteriores e a temporalidade, como é o caso da comunidade Nova Esperança, que possui não só uma área rural, como também uma área urbana, com benfeitorias: ruas, escolas, comércios, posto médico, infra-estrutura elétrica, sede comunitária, igreja, e um poço comunitário com água potável, e melhores condições de acesso terrestre e também fluvial, devido sua localização, com mais viabilidade para o escoamento da produção que provem do trabalho desenvolvido pelo camponês. No que diz respeito à relação estabelecida entre urbano e rural para além de políticas públicas nesse território, sobre tudo, dos órgãos atuantes no assentamento, estão: o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) que atua como órgão de fiscalização, de cadastro e auxilio na divisão e entrega dos lotes e regularização dos assentados para entrega do titulo definitivo da terra, a SEPROR (Secretaria de Estado de Produção Rural), que atua como órgão responsável pelo escoamento da produção proveniente do assentamento. O escoamento da produção é feito pelo caminhão da SEPROR, que adentra as comunidades do assentamento, auxiliando no transporte e entrega da mercadoria até as férias da cidade, e comércios que possuem relação direta ou indireta com os produtores do assentamento. Entretanto, somente os produtores associados à ASSAGRIR (Associação Agrícola Rural do Pau- Rosa) dispõem desse benefício, devido acordo político estabelecido entre SEPROR e ASSAGRIR. 7

8 Outro órgão é o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais) que juntamente com o IPAAM (Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas) atuam na fiscalização e no combate ao desmatamento e manejo ilegal da biodiversidade. O IDAAM (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas) e a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) atuam no auxilio e análise técnica de projetos elaborados por parte de alguns assentados e na promoção de cursos que objetivam qualificar os produtores para melhor desenvolvimento do uso da terra. E por fim a SEMED (Secretaria Municipal de Educação) que atua na implantação de projetos de educação nas comunidades do assentamento. No que se refere ao modo de vida dos assentados do PA- Tarumã Mirim foram identificados neste estudo quatro tipos que caracterizam o modo de vida diagnosticado nas comunidades do assentamento. Nos quais qualificamos como: lotes/sítios, lotes/migração, lotes/assalariados e os lotes/campesinato, para melhor descrição desses tipos. É necessário identificar a relação do modo de vida dos assentados com a terra que utilizam, pois, desta forma, encontra-se diferentes uso no território, ou seja, diversas ações e objetos, no mesmo território, sendo a diversidade na unidade. O tipo caracterizado como lotes/sítios são aqueles em que há somente a prática de lazer no uso de seus lotes, onde os proprietários geralmente não residem, pois a grande maioria reside na cidade, nesse caso contratam trabalho acessório (caseiro), o qual fica responsável pela manutenção e guarnição do terreno, ganhando em média de um salário mínimo ou até menos, dependendo do acordo entre contratante e contratado. Esses lotes também possuem vegetação diversificada, com árvores e plantas de várias espécies nativas, medicinais, frutíferas, e em alguns casos com pequena horta e pastagem, e criação (galinha, pato, porco, cabra), entretanto, sem fins de produção e comercialização por parte dos proprietários da terra, ou seja, sem apropriação de renda derivada da extração dos recursos oferecidos pelos meios naturais presentes no lugar. No entanto, esse tipo também estabelece relações sócio-espaciais e econômicas entre vizinhança, comunidade e até mesmo familiares, visto que, essa classe dos donos de sítios que aqui me refiro como lotes/sítios é resultante do repasse ou até mesmo da venda desses lotes pelos primeiros assentados, os quais por algum motivo tiveram de 8

9 abrir mão de sua própria terra. Esse tipo de lote pode ser encontrado em outras comunidades do assentamento Tarumã Mirim, geralmente aquelas com mais acessibilidade, próximas ao ramal do Pau-Rosa (principal via de acesso terrestre do PA Tarumã Mirim). Em relação ao tipo caracterizado como lotes/migração são aqueles em que se encontram moradores que residem no assentamento mais que vieram de outros lugares, de diversos municípios e estados do Brasil e que acabaram ou acabam fixando residência no assentamento, com perspectivas de melhora de vida e com intuito de trabalhar na terra (roça). Essas pessoas geralmente chegam até o assentamento, por meio, de amigos e familiares. Dentre esses alguns trabalham de forma direta com a terra e extraem dela uma produção, como é o caso do cupuaçu (polpa), mandioca e farinha, os quais são os produtos de maior destaque nessa produção, mas que também sobrevivem de outros trabalhos externos, como é o caso do trabalho acessório e aposentadoria. Enquanto uns fazem uso da terra, outros investem na terra, como é caso daqueles que constroem e sobrevivem de pequenos comércios (tabernas), e fazem disso sua principal atividade de fonte de renda. Já outros migram por estar de alguma forma vinculada ao assentamento devido seus trabalhos, como por exemplo: profissionais da educação e até mesmo da saúde, ou de qualquer outro setor que tem como área de atuação o assentamento Tarumã Mirim, onde sentem a necessidade de migrar para o lugar, para que possam desenvolver melhor suas funções, tornando-se assim um novo membro da comunidade, mesmo que tenha uma temporalidade, e com isso constituem relações sociais, culturais e econômicas, essa classe é mais comum nas áreas urbanas do assentamento. No que diz respeito à classe caracterizada como lotes/assalariados, são assentados, os quais plantam e cultivam roça, criação (galinha, pato, porco), hortaliças, com vegetação diversificada em seus lotes, e fazem uso de plantas medicinais, e utilizam para solucionar casos de doenças mais comuns. Esses assentados são camponeses, no entanto, sua principal atividade e renda provem do trabalho acessório que segundo (SANTOS, 1978, p 37): Quando isso ocorre, dá-se a transformação periódica do camponês em trabalhador assalariado, recebendo por jornada de trabalho. 9

10 Essa prática constitui sua principal fonte de renda, visto que, esse trabalhador recebe por jornada de trabalho, o que para ele torna-se mais lucrativo. Esses trabalhadores desenvolvem diversos serviços, e são contratados tanto para trabalhar na agricultura, que neste caso é a roça, como também para outros setores, como por exemplo, na construção civil, carpintaria, pintura, mecânica, eletrônica e outros. Esses serviços variam de R$ 35,00 a R$ 50,00 reais a diária, ou mais, no caso das empreitas. E por fim o tipo de lotes/campesinato são os lotes em que a prática do campesinato, onde os moradores são camponeses, pois tem a terra como principal meio de produção e comercialização (geração e fonte de renda), onde a força de trabalho é familiar e os processos e meios de vida são criados pelos próprios proprietários da terra, pois geralmente não fazem uso do trabalho acessório. Nesses lotes pode-se encontrar uma diversidade de produtos derivados do manejo e extração da biodiversidade. Esses camponeses são os responsáveis pela maior parte da produção escoada do assentamento PA Tarumã Mirim, pois tem como principal atividade o cultivo da roça, visto que a terra é seu principal objeto de produção no desenvolvimento de recursos naturais. A partir dela produzem: cupuaçu, mandioca, macaxeira, açaí, banana, coco, bacaba, patoá e outros. Dentre essas mercadorias as que mais se destacam são o cupuaçu e mandioca; o cupuaçu é comercializado tanto a fruta quanto a polpa, e da mandioca fazem a farinha que também é comercializada. Esses produtos são comercializados e vendidos para feirantes e comerciantes da capital e até mesmo para a comunidade local. Esta relação dos assentados com o meio, no qual, vivem e o uso dos lotes demonstra a simbiose entre o homem produtor e uma natureza cada vez mais modificada, desta forma, O ato de produzir é igualmente o ato de produzir espaço (SANTOS, 2008 p.202). Este espaço, que no assentamento é cada vez mais especulado havendo uma promoção do imobiliário e a mobilização do espaço (LEFEBVRE, 2008), ou seja, a especulação de terras no assentamento tornou-se uma fonte valorizada, pois o investimento no imobiliário e nas construções privadas (na produção do espaço) se revela proveitoso, porque (...) comportará por muito tempo, uma proporção superior de capital variável em relação ao capital constante (LEFEBVRE, 2008 p.119). O processo de especulação de terras no assentamento tem sua gênese ligada com a aproximação com o espaço urbano de Manaus. Esta especulação refuta o objetivo de usos da terra 10

11 estipulado pelo INCRA que tem como propósito o desenvolvimento dos elementos da produção agrícola. Os impactos das políticas públicas sobre a dinâmica do projeto de assentamento tarumã-mirim. No PA Tarumã-Mirim o poder do Estado, representado pelo INCRA, se torna um dos principais agentes no processo de ordenamento territorial da área e, se materializa através de políticas públicas que são destinadas para este local, visando a melhoria de condições de reprodução social das famílias que ali vivem. Desde sua criação, as dinâmicas sociais, culturais, econômicas e políticas vêm sofrendo impactos relacionados com as políticas públicas do Estado, que no caso desta área estão associadas como meios de garantir a função social da terra. Dentre estas destacaremos as mais evidentes no meio social como a construção de estradas, ramais e vicinais, o processo de migração de algumas famílias para o assentamento e a forma de organização dos assentados, como infra-estrutura territorial existente na espacialidade dos processos. No que se refere à construção de estradas, ramais e vicinais, esta prática pode ser considerada talvez, como a principal política no processo de ordenamento da área. Entretanto como veremos adiante, construir por construir determinado ramal ou estrada não garante o sucesso da política implementada. As estradas e ramais funcionam como meios de integração entre o Assentamento com outros espaços, entre estes se destacando a cidade de Manaus. Antes da construção destes meios de integração já existiam famílias vivendo no local e habitavam principalmente as margens de canais fluviais conhecidos como igarapés, pois era o único meio de ligação entre essas famílias com a cidade. No contexto da construção das estradas e ramais, a idéia que se tinha era de que funcionaria como meio para a escoação da produção local, isto associado às políticas de reforma agrária, no qual seria concedido um lote para o assentado e uma das maneiras de garantir a função social da terra seria através de cultivos agrícolas que abasteceria o mercado consumidor de Manaus, logo seria através dessas estradas que os produtos 11

12 chegariam ao consumidor. A idéia continua sendo válida, no entanto, o objetivo de abastecer a cidade de Manaus com produtos agrícolas fracassou. E entre os motivos que podem explicar esta situação, estar a manutenção das estradas e ramais construídos que não é realizada constantemente. No caso de algumas comunidades em período chuvoso ficam isoladas e impossibilitadas de transportarem a produção. Claro, que o acesso não é o único motivo formidável para o funcionamento de uma cadeia produtiva, outros como financiamento e credito rural também se tornam substanciáveis. Estruturalmente o Assentamento possui duas estradas principais: Estrada do Pau-Rosa e Ramal da Cooperativa, ambas possuindo diversos ramais durante sua extensão. A estrutura da estrada do Pau-Rosa é bem melhor que da Cooperativa, isto se reflete, por exemplo, pelo fato desta ser asfaltada, enquanto que as famílias que dependem do Ramal Cooperativa encontram uma estrada sem asfalto, sendo visível em todo seu trajeto feições erosivas dificultando a passagem de veículos. Curiosamente, no que se refere à espacialidade das cadeias produtivas existentes no Assentamento, observou-se que estas possuem uma dinâmica mais acentuada no sentido de comercialização comparada com as comunidades do Ramal da Cooperativa. Reflexo também da organização comunitária desses moradores, cuja forma se baseia no associativismo. Os impactos das estradas não se restringem somente a práticas sociais e econômicas, outro ponto que vale ser discutido estar relacionado com os impactos ambientais. Nas proximidades das estradas observou-se que as áreas desmatadas são mais freqüentes. Algumas regras do Assentamento tentam combater esta prática, entre estas o uso somente de 2 ha de terra no lote e a proibição de comercio madeireiro, regras que são ameaçadas, o não cumprimento pela ineficiência no processo de fiscalização. De um modo geral, as estradas possibilitaram que o processo de ocupação dentro do Assentamento ocorresse de forma mais rápida, atrelado a esta ação que associa-se o processo de migração. A criação desse território desencadeou a vinda de famílias de vários lugares, tendo em comum o objetivo de ter acesso a terra. Nesta vinda, vale ressaltar, diferentes modos de vida e saberes se entrelaçaram com aqueles já existentes, tornando o espaço com características plurais. De acordo com Veiga (2002): apesar de relativamente há pouco tempo na região, estes povos não tradicionais, em função de sua própria sócio-diversidade e de sua produção ao meio da região de instalação. A maioria dos assentados nasceu no estado do Amazonas, mas no procedimento de pesquisa se encontrou pessoas vindas de outros estados, principalmente de Pará e 12

13 Roraima. O etnoconhecimento é uma das formas de manifestação desses modos de vida diferentes, consistindo também como prática territorial. O modo de vida influenciará decisivamente nas constituição de cadeias produtivas dos assentados. Considerações finais O assentamento Tarumã-Mirim criado pelo INCRA apresenta diversidades em sua forma de uso, contrariando o propósito do instituto de colonização que é de promover a produção agrícola no local. No entanto, o diverso uso dos lotes pelos assentados, de certa forma, refuta as metas do instituto. Foi possível identificar e classificar os níveis de estruturas das comunidades (Nova Esperança, Bom Destino e Nova luz) no assentamento. O desenvolvimento e a disponibilidade de benfeitorias nas comunidades não ocorrem exclusivamente pela aproximação do espaço urbano, mas, também, pela atuação de políticas públicas, onde, por exemplo, são mais atuantes na comunidade Nova Esperança a mais distante do espaço urbano de Manaus. Sendo assim, no assentamento Tarumã-Mirim, uma unidade territorial apresenta diferentes paisagens, pois, encontram-se diferentes relações sociais, evidenciando diversas formas no território, pois, cabe lembrar, que a paisagem representa uma herança (social ou natural) de uma relação social no espaço, no sentido de ser uma dinâmica da relação sociedade-natureza que é resultante da formação sócio espacial brasileira. Notas 1 Este termo é aqui para caracterizar qual comunidade possui a melhor estrutura física, e melhores condições de relação social com serviços públicos, como escola, saúde entre outros. E as analises foram comparadas entre as comunidades. 1 É considerado aqui como estrutura física, por exemplo, edificações como: Escola, posto médico, igreja, sede da associação, comércios. Referências CARLOS, Ana Fani Alessandri.A questão da cidade e do campo: teorias e política.mercator - Revista de Geografia da UFC, ano 03, número 05, 2004 HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume,

14 HOBSBAWM, Eric. Pessoas Extraordinárias: Resistência, Rebelião e Jazz. Paz e Terra, LEFEBVRE, HENRI. Espaço e política. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008 MATOS, Luciana Lima de; PEIXOTO, Renata Andrade; COSTA, Reinaldo Corrêa. Os assentados e a cidade: o assentamento tarumã-mirim e Manaus (AM). XIX Encontro Nacional de Geografia Agrária, São Paulo, 2009, pp RAFFESTIN, Claude. A produção das estruturas territoriais e sua representação. In: SAQUET, Marco Aurélio; SPOSITO, Eliseu Savério (Org). Território e Territorialidades: Teoria, processos e conflitos. São Paulo: Expressão Popular- Unesp, RODRIGUEZ, José Manuel Mateo; SILVA, Edson Vicente da; CAVALCANTI, Agostinho Paula Brito. Geoecologia das paisagens: Uma visão geossistêmica da analise ambiental. Fortaleza, 2004 SANTOS, José Vicente Tavares dos. Colonos do Vinho. HUCITEC, SANTOS, Milton. Espaço e Método. São Paulo: Nobel, Da totalidade ao Lugar.São Paulo: Edusp, Por uma Geografia nova. São Paulo: Edusp, 2008 STEINBERGER, Marília. Território, ambiente e políticas públicas espaciais. 1ª. ed. Brasília: Paralelo 15 e LGE, v p TRICART, Jean. O Campo na dialética da Geografia. Revista do Departamento de Geografia, 19 (2006) WEY, Leah K. Van; OSTROM, Elinor; MERESTSKY, Vicky. Teorias Subjacentes ao estudo de interações homem-ambiente. In: MORAN, Emílio F.; OSTROM, Elinor. Ecossistemas florestais: Interação homem-ambiente. São Paulo. Edusp, VEIGA, Iran; Saber e participação na transformação dos sistemas de produção da agricultura familiar amazônica; In SIMÕES, Aquiles; (org); Coleta Amazônica Iniciativas em pesquisa, formação e apoio ao desenvolvimento rural sustentável na Amazônia; Ed. UFPA, NEAF, SBSP; Belém, PA;

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