GT 10 Políticas Públicas e Desenvolvimento Rural

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1 GT 10 Políticas Públicas e Desenvolvimento Rural Possibilidades do Agro-Extrativismo na Amazônia: preservação ambiental e populações assentadas Raquel Wiggers 1 Luciana Braga Silveira 2 Resumo: Este trabalho é baseado em trabalho de campo no assentamento rural Realidade, do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), modelo PDS (Projeto de Desenvolvimento Sustentável) localizado no sul do estado do Amazonas, município de Humaitá, no km 80 da BR 319. Apesar de este assentamento ter por princípio um modelo, proposto pelo Estado, de desenvolvimento sustentável, com preservação da floresta e garantia das condições de vida para as famílias assentadas, o que percebemos empiricamente é uma realidade bem diferente. Os moradores da comunidade dedicaram-se à derrubada da floresta durante o verão de 2012, provocando desmatamento e atraindo pessoas para trabalhar nas madeireiras que foram instaladas na vila. O que percebemos é que, em alguns casos, mesmo que o modelo proposto seja de preservação da floresta, esta só acontece quando as famílias assentadas tomam para si esta responsabilidade e conseguem viver dos recursos da floresta. As populações colonas assentadas em terras florestadas praticam o desmatamento como forma de ação do homem sobre a natureza, e a cobertura florestal praticamente intacta cede lugar ao desmatamento, situação comum na região do arco do desmatamento da floresta amazônica. Nestes casos, a criação de assentamentos na Amazônia colabora para que os dados oficiais sobre distribuição de terras crie uma falsa impressão de que está sendo feita a reforma agrária, quando a observação empírica demonstra uma realidade bastante diversa em que áreas de floresta são distribuídas para assentar famílias sem terra de outras regiões do Brasil. Palavras-chave Assentamentos Rurais, Amazônia, preservação ambiental, agroextrativismo Apresentação Este trabalho é baseado em pesquisa de campo no assentamento rural Realidade, do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra - Brasil), modelo PDS (Projeto de Desenvolvimento Sustentável) localizado no sul do estado do Amazonas, município de Humaitá, no km 100 da BR Doutora Professora da Universidade Federal do Amazonas 2 Doutora Professora da Universidade Federal de Lavras -

2 Apesar de este assentamento ter por princípio um modelo, proposto pelo Estado, de desenvolvimento sustentável, com preservação da floresta e garantia das condições de vida para as famílias assentadas, no ano de 2012 a principal atividade econômica da localidade era proveniente do corte de madeira em diversas madeireiras recéminstaladas na pequena vila de pouco mais de mil habitantes. Havia sido liberado um plano de manejo pelo órgão estadual responsável, que permitia a retirada de algumas árvores para fins comerciais de uma área determinada localizada no km 80 da BR 319. No entanto, a falta de controle efetivo sobre o local exato de onde se estava retirando as madeiras, e da quantidade delas, abriu as portas da floresta para madeireiros e atraiu, para a vila, homens de diversos lugares do Brasil, principalmente de Rondônia e de outros municípios do Amazonas, principalmente da região do arco do desmatamento que se estende ao Sul do Amazonas ao oeste do Pará, para trabalhar no corte de madeira. Além desses, outros homens chegavam à vila em busca de terras no assentamento recente. artigo. É sobre esta realidade, observada em agosto de 2012, que vamos discorrer neste Assentamentos Rurais do INCRA modelo PDS Em resposta às demandas de preservação ambiental das florestas entre elas a floresta amazônica à urgência de projetos de sustentabilidade, e, também, às denúncias de ser responsável pela maior parte do desmatamento na Amazônia, no ano de 2010 o Incra regulamentou a implementação de projetos de assentamento ambientalmente diferenciados, entre eles, Projeto de Assentamento Agroextrativista - PAE, Projeto de Desenvolvimento Sustentável - PDS e Projeto de Assentamento Florestal PAF 3. A modalidade de assentamentos rurais Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS), criado pelo INCRA em novembro de 1999, constitui-se num modelo para o uso e a ocupação do solo de forma sustentável. Tem como base, a gestão coletiva e cooperativista para evitar o parcelamento da terra com titulação individual Estes objetivos vêm a somar com outros 3 Norma de execução n 93, de 19 de julho de 2010.

3 De acordo com as diretrizes estabelecidas no II Programa Nacional de Reforma Agrária, implantado em 2003, a reforma agrária executada pelo Incra deve ser integrada a um projeto nacional de desenvolvimento, massiva, de qualidade, geradora de trabalho e produtora de alimentos. Deve, ainda, contribuir para dotar o Estado dos instrumentos para gerir o território nacional. O que se busca com a reforma agrária atualmente desenvolvida no País é a implantação de um novo modelo de assentamento, baseado na viabilidade econômica, na sustentabilidade ambiental e no desenvolvimento territorial; a adoção de instrumentos fundiários adequados a cada público e a cada região; a adequação institucional e normativa a uma intervenção rápida e eficiente dos instrumentos agrários; o forte envolvimento dos governos estaduais e prefeituras; a garantia do reassentamento dos ocupantes não índios de áreas indígenas; a promoção da igualdade de gênero na reforma agrária, além do direito à educação, à cultura e à seguridade social nas áreas reformadas. (www.incra.gov.br/index.php/reforma-agraria-2/questao-agraria/reformaagraria, 07/01/2012) Nosso estudo aqui apresentado é de um assentamento da modalidade PDS no sul do estado do Amazonas, região do arco do desmatamento, ou arco do fogo como define Becker (2009), que vem ocupando e desmatando as terras cada vez mais ao norte do país. Assentamento Realidade: algumas observações Realidade é um assentamento rural ás margens da BR 319, no km 100 no sentido Humaitá Manaus. A área delimitada para o assentamento fica no lado direito da estrada, há 4 km de sua margem. As terras nesta faixa de 4 km da margem da BR 319 já foram legalizadas na década de 1970 por ocasião da abertura da estrada. Atualmente a BR 319 está intransitável em muitos trechos, e o governo brasileiro com apoio do exército tem trabalhado para torná-la novamente utilizável.

4 Existe uma vila às margens da estrada e tem o mesmo nome do assentamento: Realidade. Na vila há padaria, mercearia, algumas lojas, um hotel bastante precário com restaurante, posto de saúde e escola que servem a vila e às comunidades vizinhas. Tem fornecimento de energia elétrica e água de poços artesianos servem as casas. Em agosto de 2012 muitos homens estavam chegando na vila, para trabalhar nas madeireiras, que no período de seca trabalham a todo vapor. Geralmente estes homens 4 chegam sozinhos e só depois, caso se fixem no lugar, trazem esposa e filhos. Alguns desses homens chegam em busca de terras para se estabelecer e depois trazer a família. Vêm de Rondônia e de outros assentamentos no Amazonas. Geralmente são famílias que já foram expulsas da terra no sul ou sudeste, muitos são paranaenses, e que vêm para Amazônia tentar conseguir mais terras. Os lotes delimitados pelo Incra são muito pequenos, cada família recebe pouca terra, o que impossibilita que fiquem três gerações em um mesmo lugar. A criação do assentamento foi demanda de alguns moradores nativos da região que queriam ver a pequena comunidade tornar-se uma cidade. Estes moradores juntamente com religiosos católicos fizeram esforços junto aos órgãos estatais e Incra para regularização e distribuição de terras. Ainda hoje são distribuídos terrenos na vila para construção de casas em uma grande área às margens da estrada pertencente à igreja. A área delimitada para o assentamento rural Realidade totaliza ,4051 ha, e segundo o Incra, sua capacidade é de 250 famílias, tendo sido assentadas até o momento 176 famílias em lotes do assentamento. Os moradores da vila querem que a BR 319 volte a ser transitável porque acreditam que só assim haverá desenvolvimento na vila. Pequenos comerciantes instalam seus estabelecimentos na esperança de haver maior movimentação na estrada. No ano de 2012 pudemos perceber que os todos os assentados que viviam na região moravam na vila 5 e nenhum no lote dentro do assentamento. Isto porque são cinco as vicinais, chamadas de linha, e apenas uma delas está aberta, ou seja, permite a passagem de carro ou caminhão. Segundo nos informaram, foi aberta por madeireiros. 4 Alguns homens chegam se oferecendo para fazer qualquer serviço, entre eles deixam claro que estão disponíveis para serem pistoleiros. É uma região onde os conflitos podem ser resolvidos à bala. Durante a pesquisa um homem loiro, com aproximadamente 45 anos, ofereceu seus serviços ao meu marido, com quem ficou conversando enquanto eu entrevistava o lider da comunidade. 5 Alguns assentados desistiram de morar no Realidade e foram embora, outros mudaram-se para Humaitá ou Porto Velho esperando as condições do assentamento ficarem mais propícias.

5 As outras não passam de um caminho no mato. São elas: linha 1 19 de janeiro; linha 2 Dona Geralda; linha 3 São Francisco; linha 4 17 de maio; linha 5 Santo Antônio. A representação política do assentamento se dá pela Associação Novo Progresso do PDS Realidade, mas a presidente reside na sede do município de Humaitá, somente seu vice-presidente mora atualmente na vila Realidade. A comunidade que originou a vila começou há menos de cinco anos, com a associação de produtores organizada pelo senhor Aloísio Batista, morador da vila, e que atualmente não faz mais parte da Associação. Durante as entrevistas com as pessoas assentadas no Realidade a reclamação unânime foi sobre a impossibilidade de se produzir no lote do assentamento devido a inacessibilidade, principalmente de se escoar a produção, e sobre a impossibilidade de se produzir na floresta. Um entrevistado falou veementemente é impossível se viver do mato, e esta ideia era compartilhada pelos outros assentados. Isto denota que cada assentado recebeu um lote, o que a princípio não era o objetivo do Projeto de Desenvolvimento Sustentável, como foi concebido pelos seus idealizadores. No entanto, nem os agentes locais do Incra, nem as famílias assentadas concebem o uso compartilhado das terras, ou uso sem título de propriedade individual. E muito menos concebem a possibilidade de sobrevivência a partir da exploração sustentável dos recursos naturais oferecidos pela floresta. A população assentada atualmente no PDS Realidade é uma população que veio de outras regiões do Brasil, que compartilham uma lógica colona e camponesa de produção agrícola. Para terem seu sustento garantido necessitam da terra limpa, sem árvores, em forma de campo, para produção ou criação de gado. O campesinato requer necessariamente uma relação com a cidade, baseado na relação de produção. O que percebemos empiricamente é uma realidade bem diferente do idealizado pelos proponentes do modelo PDS de assentamentos rurais, onde o foco seria no Desenvolvimento Sustentável. Os moradores da comunidade dedicaram-se à derrubada da floresta durante o verão de 2012, provocando desmatamento e atraindo pessoas para trabalhar nas madeireiras que foram instaladas na vila. E suas reivindicações eram de que se abrissem as linhas para que eles pudessem produzir nos lotes, limpando a terra.

6 Os seus relatos eram de muito sofrimento, muito trabalho perdido, porque a produção não podia ser escoada. Descreviam a situação de andar 15 km na mata, em trilhas para chegar no lote que lhe foi atribuído pelo Incra. Um assentado explicou-nos em entrevista: precisamos de uma estrada para poder produzir. Quando sair a estrada temos terra. Meu negócio é terra. Futuro é terra. Investimento. Quanto vai valorizar com trabalho. Aqui a terra é fértil, dá tudo. Esta é uma fala que representa a ideia geral dos moradores da vila que vieram morar aqui em busca de terra para plantar e viver. São agricultores expulsos de outras regiões do Brasil que vêm em busca de uma oportunidade de vida. A madeira existente no terreno recebido é pensada pelo produtor como fonte de renda para os primeiros investimentos na produção, uma vez que o Incra não paga o fomento 6 a todos os assentados, e quando o faz, demora muitos anos. A falta de apoio dos órgãos estatais para os assentados nos primeiros tempos de chegada e início de produção das famílias faz que o primeiro esforço de desmate seja feito, quando geralmente o homem vem sozinho, ficando a família na cidade de origem. Quando os primeiros benefícios são feitos na terra, estes homens buscam a família para vir morar. Durante o ano de 2012, haviam muitos homens sozinhos na vila, os assentados e, principalmente, homens atraídos pelo trabalho nas madeireiras. Estes também geralmente não trazem a família, porque é um trabalho temporário, no tempo da seca, e enquanto houver possibilidade de corte de madeira, seja pela abundância, seja pela falta de fiscalização. Quando as madeiras nobres começam a ficar escassas, ou os órgãos de controle e fiscalização começam a intervir e multar, diminuem as demandas de mão de obra nas serrarias. Esta intervenção dos órgãos controladores como Ibama e ICMbio é esporádica e pouco incisiva. E é percebida como algo muito ruim. Um assentado explicou-nos: meio ambiente só atrapalha a vida da gente. A ausência do Estado, seja como controlador, seja como fomentador e financiador da produção agrícola destas famílias assentadas, e a atividade madeireira 6 O fomento pago pelo Incra é pensado por eles como uma doação e na verdade é um financiamento e precisa ser reembolsado aos cofres da união. Acaso não façam o reembolso qualquer financiamento futuro, ou mesmo o recebimento do benefício da aposentadoria ficará comprometido.

7 irregular, fazem que haja um perigo iminente no ar. Há mortes e acidentes com serras de todo tipo. Há perigo de briga entre os homens trabalhadores. Há medo e ameaça constante o que torna o cotidiano muito tenso. Colonos e camponeses Faz-se necessário esclarecer o que estamos entendendo por colonos e camponeses, para isso recorremos a Giralda Seyferth que descreve o processo de colonização de um município de Santa Catarina, por colonos estrangeiros. Estes colonos quando chegaram receberam um lote e a missão de abrir na floresta caminhos e campos para produção agrícola. Descendentes destes colonos estrangeiros, expulsos da terra partem em direção ao norte do Brasil na expansão da fronteira agrícola para ocupar novas terras desde a década de 1960 (Velho, 1972 e 1979). Estou tomando por lógica colona camponesa de produção aquela onde a família constitui a unidade social de trabalho e de exploração da propriedade, sendo que os produtos geralmente satisfazem as necessidades essenciais da vida. As tarefas se dividem entre todos os membros do grupo doméstico, e a família assegura a subsistência de todos os membros. (Queiroz, 1973) É impossível se viver do mato A população assentada no PDS Realidade desconhece técnicas e formas de fazer extrativismo na floresta amazônica. Aquilo que denominamos extrativismo é um conjunto de técnicas baseadas em conhecimentos tradicionais, que as populações florestinas 7 (Gasche, 2012) dominam desde séculos. 7 Para tratar especificamente das populações tradicionais da região amazônica recorremos ao conceito de sociedade florestina desenvolvido por Gasché (2011), que cunhou o termo para designar o tipo de sociedade da Amazônia que possui intensa relação com os rios, floresta, roçado e áreas de várzea e que se distingue de maneira primordial da sociedade ocidental, urbana, capitalista. As características da sociedade florestina não privilegiam distinções étnicas entre comunidades e enfatizam aspectos culturais compartilhados, a forma de produção e a ênfase nas necessidades de sociabilidade e de mobilidade. O conceito de sociedade florestina é inovador e criativo e é muito interessante para pensarmos sobre as populações para as quais a classificação de camponesas não é adequada. Essa classificação enfatiza aspectos da matriz social dessas populações sua relação com a floresta e com o trabalho. Nas sociedades florestinas os critérios qualitativos valores sociais pesam frequentemente mais na motivação dos atores que critérios quantitativos. Isso requer que o gosto de trabalhar seja mais motivador do que uma esperada quantidade de pagamento como consequência do trabalho.

8 Estas técnicas e conhecimentos são ignorados pelos colonos que chegam na região. Além disso, a lógica de produção camponesa e o valor dado à terra não permite que essas pessoas compreendam e passem a fazer extrativismo. É preciso gostar da mata para viver dela. É preciso ter prazer na atividade de tirar castanha, por exemplo, para viver em uma cabana de palha precária com toda família durante os meses de chuva, recolhendo os ouriços de castanha, levando ao acampamento, quebrando-os. Para depois colocar em uma canoa e viajar dois dias para levar a produção para vender na cidade. Os colonos não compartilham este prazer e nem percebem a natureza como sua aliada. Desta forma, existe descompasso entre a ideia do projeto de desenvolvimento sustentável e a realidade cotidiana da população assentada. O que percebemos é que, em alguns casos, mesmo que o modelo proposto seja de preservação da floresta, esta só acontece quando as famílias assentadas tomam para si esta responsabilidade e conseguem viver dos recursos da floresta. Mas geralmente esta possibilidade só existe se as pessoas nasceram e cresceram em contato com a floresta e aprenderam com seus pais e avós a tarefa de extrair da floresta os seus recursos naturais. As populações colonas assentadas em terras florestadas praticam o desmatamento como forma de ação do homem sobre a natureza, e a cobertura florestal praticamente intacta cede lugar à terra nua, sem árvores, situação comum que faz que a região seja conhecida como arco do desmatamento da floresta amazônica. Considerações A criação de assentamentos na Amazônia pelo Instituto de Colonização e Reforma Agrária colabora para que os dados oficiais sobre distribuição de terras crie uma falsa impressão de que está sendo feita a reforma agrária no Brasil, quando a observação empírica demonstra uma realidade bastante diversa em que áreas de floresta são distribuídas para assentar famílias sem terra de outras regiões do Brasil. Não temos Reforma Agrária mas Colonização de novas terras, como indica o próprio nome do órgão responsável. Estas famílias de outras regiões do Brasil quando chegam na Amazônia não dominam os conhecimentos necessários para tirar seu sustento da floresta. Chegam com

9 uma lógica de uso e propriedade da terra que requer que a vegetação nativa seja retirada para plantio de espécies vegetais com rentabilidade econômica e plantio extensivo, ou ainda criação de gado de forma extensiva. O solo amazônico é rico e abundante a ponto de sustentar uma floresta tropical cuja característica é a diversidade, variedade de espécies, grandes árvores. No entanto, floresce com esta abundância em um solo arenoso cujas características de temperatura, umidade e pressão, possibilitam um alto índice de reciclagem. Ou seja, a floresta vive da camada de humos, graças à rapidez com que as folhas, galhos e frutas se degeneram e tornam-se sustentação para a vegetação farta, criando um ciclo de intensa atividade florestal. Ao se retirar a camada florestal de uma determinada área, a camada de folhas e galhos apodrecidos fornecem nutrientes às primeiras colheitas de soja, milho ou outra cultura qualquer, fazendo que haja uma impressão de terra fértil e produtiva, no entanto, depois do segundo ou terceiro ano a terra arenosa não produz mais. Temos, com respeito a este fenômeno, outro problema de ordem das concepções técnicas sobre campesinato e produção agrícola. Os agentes financiadores concebem produção agrícola campesina sem floresta uma vez que compartilham conhecimentos produzidos sobre o tema em ecossistemas de outras regiões do Brasil e do mundo. Mesmo que tenhamos elaborado conceito de extrativistas e percebamos essa categoria como produtiva, há uma imensa dificuldade de conceber as lógicas nativas necessárias para este tipo de produção. Os financiamentos para produção tomam como garantia terras limpas e sem floresta, com pastagem ou plantação, uma vez que estas são consideradas terras produtivas. Os modelos de assentamentos diferenciados, como os PAE e PDS, podem dar certo inclusive em um deles nossa pesquisa demonstra isso. Dar certo no sentido de se trabalhar na preservação da floresta e não compartimento da propriedade em lotes individuais, mas para isso é preciso necessariamente que sejam assentadas moradores florestinos. Homens e mulheres nativos da região, conhecedores dos saberes tradicionais passados de geração em geração, que têm prazer no modo de vida extrativista. Deve-se respeitar a organização social familiar, em que famílias extensas são também vizinhas. Com isso se favorece o trabalho familiar na extração dos frutos da floresta. Os órgãos governamentais devem realmente compreender que há uma lógica diferente de organização social, e que as casas precisam ser distribuídos para pessoas de

10 uma mesma família extensa. Outra necessidade é garantia de uma renda mínima por família, como bolsa floresta ou bolsa família, o que impede de se vender as madeiras nobres nos tempos de apuros econômicos. Temos que ter em mente que nossa sociedade abrangente está ávida por madeiras de lei da floresta amazônica, e que sua preservação depende do fortalecimento político e econômico destes florestinos, para que possam manter afastados a fome e as madeireiras. É preciso ter sensibilidade para as estratégias de preservação pouco convencionais que algumas comunidades assumem, como trocar de lugar placas de reservas ambientais, puxando fraudulentamente os limites de certa reserva para lugares onde querem afastar madeireiros. É preciso urgência em uma discussão do que seja atualmente, em nosso sistema capitalista de produção, Desenvolvimento Sustentável. São duas palavras que não se combinam facilmente. Principalmente quando falamos da floresta amazônica com toda sua grandiosidade, diversidade e recursos madeireiros valiosos no Brasil e no exterior. Que tipo de desenvolvimento pode ser sustentável para as pessoas e para a floresta? Referências Bibliográficas ALLEGRETTI, M. A construção social de políticas públicas. Chico Mendes e o movimento dos seringueiros. In: Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 18, p , jul./dez APPADURAI, A. El lugar de la naturaleza y la naturaleza del lugar. Disponível em: Acesso em: 22/07/2011 BECKER, B. Revisão das políticas de ocupação da Amazônia: é possível identificar modelos para projetar cenários? Disponível em: Acesso em: 13/06/2011 BERGAMASCO, S.M.P.P. A realidade dos assentamentos rurais por detrás dos números. In: São Paulo: Estudos avançados 11 (31), 1997.

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