VOCABULÁRIOS DE LÍNGUAS INDÍGENAS NA REVISTA DO IHGB: O PROCESSO DE GRAMATIZAÇÃO

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1 Resumo VOCABULÁRIOS DE LÍNGUAS INDÍGENAS NA REVISTA DO IHGB: O PROCESSO DE GRAMATIZAÇÃO Dantielli Assumpção GARCIA. UNESP-IBILCE (São José do Rio Preto) FAPESP (proc. n 07/ ). Neste painel, com base na perspectiva teórica da Análise de Discurso em articulação com a História das Ideias Linguísticas, pretendemos apresentar um levantamento sobre o que foi divulgado pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (RIHGB) em termos de uma produção lexicográfica em línguas indígenas. Focalizamos nossos estudos na produção concernente ao século XIX. 1. Palavras iniciais: apresentando os objetivos Neste trabalho, da perspectiva teórica da Análise de Discurso em articulação com a História das Ideias Linguísticas, pretendemos analisar como a Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (RIHGB) coletou, metodizou e divulgou materiais relativos às línguas do Brasil, especificamente às línguas indígenas, e institucionalizou/estabilizou sentidos para essas línguas no século XIX. Sentidos estes que constituirão imaginários sobre as línguas e que circularão até os dias atuais na memória nacional. Refletiremos especificamente neste trabalho sobre como a RIHGB constituiu um saber sobre as línguas indígenas no Brasil do século XIX e formulou um espaço de divulgação do processo de gramatização dessas línguas. Nosso trabalho está dividido em: (i) O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e sua Revista, em que exporemos as condições de fundação dessa instituição e de sua revista e (ii) O processo de gramatização e a produção lexicográfica na RIHGB, em que analisamos o modo como o processo de gramatização é divulgado na RIHGB e quais são os dicionários que estão contemplados na revista na periodização de 1839 a Iniciemos: 2. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e sua Revista O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) foi fundado em 1838, na cidade do Rio de Janeiro, pela Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (SAIN) com o objetivo de coletar e divulgar materiais relativos à história e à geografia do Brasil. São o militar Raimundo José da Cunha Mattos e o cônego Januário da Cunha Barbosa que desenvolveram um projeto de um instituto histórico. Raimundo Mattos e Januário da Cunha apresentam uma proposta ao conselho da SAIN em 18 de agosto de Essa proposta é aprovada em 19 de outubro do mesmo ano e o IHGB passa a funcionar em 21 de outubro de 1838, ocupando provisoriamente as instalações da SAIN. No IHGB, formulam-se discursos que buscam dar forma/unidade a um país que ainda se constituía no século XIX. Um modo de divulgar esses discursos foi a publicação da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (RIHGB). A RIHGB iniciou suas publicações no ano de 1839 e mantém essas publicações até hoje. Schwarcz (1989, p ) aponta que a organização interna da Revista do IHGB seguia uma ordem bastante previsível, podendo ser dividida em três partes distintas:

2 1ª Parte: compunha-se de artigos e documentos que versavam sobre questões relevantes ao Instituto, interpretavam-se eventos históricos, textos sobre limites geográficos atentavam para os problemas territoriais; artigos referentes à etnografia indígena revelam a influência do movimento romântico local. 2ª Parte: constavam biografias de brasileiros distintos por letras, armas e virtudes. 3ª Parte: formada por extratos das atas das sessões quinzenais, que reproduzem o cotidiano do IHGB, com suas hierarquias internas, costumes e competências. De acordo com Guimarães (1988, p. 22), há três temas que mais são contemplados na Revista, chegando a ocupar 73% do volume de publicações: a problemática indígena, as viagens e explorações científicas abordando questões de fronteiras e limites, as riquezas naturais do país e o debate da história regional pensando as regiões não nas suas especificidades, mas na sua relação ao conjunto nacional. Expõe Guimarães (1988, p. 22) que trabalhos e fontes relativos à questão indígena ocupam indiscutivelmente o maior espaço da Revista, abordando os diferentes grupos, seus costumes, sua língua, assim como das diferentes experiências de catequese empreendidas e o aproveitamento do índio como força de trabalho. Vejamos como o saber sobre as línguas indígenas, realizado pelo processo de gramatização, aparece nas RIHGB. 3. O processo de gramatização e a produção lexicográfica na Revista do IHGB Podemos ver na RIHGB a publicação de diversos dicionários, vocabulários, listas de palavras de línguas indígenas e também de variações da língua portuguesa. Na Revista, há a criação de um espaço para se pensar nas línguas do Brasil. Um conceito importante para compreendermos esse processo de descrição das línguas do Brasil é o de gramatização. No campo da História das Idéias Linguísticas, Auroux (1992, p. 65) desenvolveu o conceito de gramatização. De acordo com o autor, Por gramatização deve-se entender o processo que conduz a descrever e a instrumentar uma língua na base de duas tecnologias que são ainda hoje pilares de nosso saber metalingüístico: a gramática e o dicionário. O dicionário é visto como um instrumento linguístico que prolonga a fala natural, permitindo o acesso a formas que não figuram na competência do locutor. Conforme Auroux (1992, p. 69): A gramática não é uma simples descrição da linguagem natural, é preciso concebê-la também como um instrumento lingüístico: do mesmo modo que um martelo prolonga o gesto da mão, transformando-o, uma gramática prolonga a fala natural e dá acesso a um corpo de regras e de formas que não figuram junto na competência de um mesmo locutor. Isto é ainda mais verdadeiro acerca dos dicionários: qualquer que seja minha competência lingüística, não domino certamente a grande quantidade de palavras que figuram nos grandes dicionários monolíngües. A Revista do IHGB em termos de produção lexicográfica de línguas indígenas produziu, coletou e divulgou os seguintes materiais: Vocabulário Puri. Lista de palavras ordenadas alfabeticamente em LP-LI 1. Foi coletada pelo engenheiro Alberto de Noronha Torrezão. Traz um pequeno texto descritivo sobre os índios Puri. Palavras Guaranis. 1 Em que LP: Língua Portuguesa e LI: Língua Indígena.

3 Lista de palavras não ordenada alfabeticamente em LI-LP. Elaborada por Benjamin Gonçalves da Cruz. Vocabulário da Língua Bugre. Lista de palavras ordenada alfabeticamente em LP-LI. Esse vocabulário não apresenta indicação de autor, nem de coletador. Collecçao de Etimologias Brasílicas. Essa obra traz algumas palavras em língua indígena com significações em português, focando principalmente a etimologia das palavras indígenas. Contém alguns topônimos e nomes de plantas e animais provenientes do tupi. Foi produzida por Fr. Francisco dos Prazeres Maranhão. Noticia sobre os Botocudos acompanhada de um vocabulário de seu idioma e algumas observações. Lista de palavras em LP-LI. Elaborada por M. Jomard. Vocabulário da Língua Geral usada hoje em dia no Alto Amazonas. Lista de palavras em LP-LI. Elaborada por Gonçalves Dias. Vocabulário dos Índios Cayuaz. Lista de palavras em LP-LI. Manuscrito oferecido pelo Barão de Antonina, não há a indicação de autor do vocabulário. Vocabulário da Língua Guaná ou Chané. Lista de palavras em LP-LI. Elaborada por Alfredo d Escragnolle Taunay. Os índios Caingangs e seu dialeto. Estudo sobre os índios Caingangs (religião, costumes) e uma lista de palavras LP-LI. Elaborado por Alfredo d Escragnole Taunay. Vocabulário do dialeto Caingang. Lista de palavras em LP-LI. Elaborada por Alfredo d Escragnolle Taunay. Dicionário abreviado tupinambá-português: apêndice a Poranduba Maranhense. Dicionário LI-LP. Elaborado por Fr. Francisco Prazeres do Maranhão e oferecido ao IHGB por Varnhagen. Dicionário da Língua Geral do Brasil.

4 Dicionário em LI-LP. Elaborado por Fr. Francisco Prazeres do Maranhão e oferecido ao IHGB por Varnhagen. Nunes (2006, p. 138) aponta que nessa obra de Francisco Prazeres há um duplo interesse: a documentação de uma língua primitiva e a interpretação de termos tupi no português. Vocabulários Indígenas. Vocabulário da Tribu dos Xerentes. Vocabulário da Tribu Caiapó. Vocábulos indígenas e outros introduzidos ao uso vulgar. Vocabulário escrito em português mostrando as palavras indígenas que foram incorporadas ao português. Elaborado por Braz da Costa Rubim. Essas listas, esses vocabulários e dicionários estão distribuídos em duas partes da revista: (i) documentos relativos ao Brasil e (ii) trabalhos dos sócios do IHGB. Esses trabalhos em geral são materiais que os membros do IHGB coletaram ou em aldeamentos realizando uma pesquisa de campo ou em bibliotecas realizando uma pesquisa de arquivo. Esses materiais são oferecidos ao IHGB para fazerem parte do acervo dessa instituição. Nas Revistas do IHGB, o processo de gramatização é realizado/divulgado. Temos nas revistas: transcrição alfabética de termos indígenas; citações, comentários, traduções de termos indígenas, diálogos; listas temáticas de palavras LI-LP e LP-LI, vocabulários bilíngues LP-LI; vocabulários bilíngues LI-LP; vocabulários monolíngues de LP no Brasil. A RIHGB institui um lugar para o processo de gramatização. Na RIHGB, temos a estabilização de um dizer sobre as línguas e a criação de um espaço que legitima esses dizeres. Podemos notar que a elaboração/divulgação de dicionários/vocabulários bilíngues pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro está relacionada à formação de uma História do Brasil que busca constituir uma identidade aos brasileiros, com um passado linguístico de origem indígena. Segundo Nunes (2006, p.135), As línguas indígenas passaram a ser consideradas como provas de um passado linguístico brasileiro. Despontaram, então, alguns modos de interpretar o lugar dos índios, e, paralelamente, o lugar das línguas indígenas na História do Brasil. Ainda nos dizeres de Nunes (2006, p. 244), as práticas de arquivo durante o período imperial apontam múltiplas transformações discursivas localizadas: estabelecimento de um passado lingüístico com a imagem do tupi antigo, construção de uma temporalidade passada no enunciado definidor, elaboração de uma narrativa histórica no interior dos verbetes, surgimento de uma descrição etimológica que ligava o tupi ao português, assim como um trabalho específico com a noção de radical, numa filiação à gramática histórica. Simultaneamente, temos nesse período a inauguração de instituições como a Biblioteca Nacional e os Institutos Históricos e Geográficos e, com isso, a formação de dispositivos de interpretação que relacionam o saber linguístico à elaboração de uma História do Brasil.

5 É isso que vemos na RIHGB. A formação de um dispositivo de interpretação dos arquivos que relacionam os saberes linguísticos à elaboração de uma História do Brasil. Nesse gesto de interpretação, a própria revista se constitui como um arquivo e serve como material para a constituição de uma história da prática lexicográfica brasileira realizada no século XIX e também em séculos anteriores. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AUROUX S. A revolução tecnológica da gramatização. Campinas: Editora da Unicamp, GUIMARÃES, M.L.S. Nação e civilização nos trópicos: o instituto histórico e geográfico brasileiro e o projeto de uma história nacional. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 1, 1988, p NUNES, J.H. Dicionários no Brasil: análise e história do século XVI ao XIX. Campinas, São Paulo, São José do Rio Preto: Pontes, Fapesp, Faperp, SCHWARCZ, L. M. Guardiões de nossa história oficial. São Paulo: Idesp, 1989.

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