10 O s í n d i o s e o B r a s i l

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1 Prefácio Qual é a definição do termo índio? Quem é índio no Brasil? Quantos povos ou etnias indígenas há no país? Onde estão localizados? Como vivem? Quais são suas terras? O índio protege o meio ambiente? Os índios também vivem nas cidades? O índio é preguiçoso? O índio é brasileiro? Há preconceito contra o índio? Quantos eram e como viviam os índios no Brasil em 1500? O que aconteceu com eles? Por que os índios são contra as hidrelétricas? Que futuro existe para os índios? Tais questionamentos são feitos todos os dias, sempre quando o tema índio é foco de alguma discussão. Interesse e curiosidade são inerentes ao brasileiro a respeito dos nossos índios, mas há também, evidentemente, um largo desconhecimento sobre o assunto, ainda que muita gente fale dos índios como se soubesse muito bem quem eles são. O presente livro vai tentar responder a essas perguntas de modo que o leitor possa não somente obter e elaborar uma ideia certa acerca dos índios quem são e como vivem no Brasil, mas também se abra para o fato de que estes (que aqui estavam antes da chegada dos portugueses e em cujo território o sistema socioeconômico de Portugal foi implantado) são os habitantes originários desta terra e hoje são parte includente da nação para onde migraram europeus, africanos e depois asiáticos o Brasil. Que fique claro desde já: os índios, isto é, uma boa parte dos povos indígenas que aqui viviam em 1500, sobreviveram e hoje estão no Brasil como parte do Brasil e para ficar para todo o sempre (enquanto o país existir como nação, por suposto).

2 10 O s í n d i o s e o B r a s i l Há 25 anos escrevi um livro a respeito dos índios, sua história e sobre o fato, até então não perceptível, de que muitos povos indígenas haviam sobrevivido aos 500 anos de destruição, massacres, doenças e opressão por parte do segmento populacional dominante. Na obra, denominada Os índios e o Brasil, uma avaliação histórica e contemporânea é feita no tocante à situação dos índios, sendo a primeira a demonstrar a sobrevivência desses povos. Durante aqueles anos todos, pensava-se que os índios estavam em declínio contínuo, se acabando, vivendo seus últimos dias. Não só os velhos livros tratavam disso, mas também os jornais, os visitantes ocasionais das tribos, os missionários e os antropólogos. Estes últimos, assim como os indigenistas (que são as pessoas que mais contato próximo e profundo têm com os índios), também achavam que os índios estavam a caminho do extermínio. Grandes antropólogos, como o brasileiro Darcy Ribeiro e o francês Claude Lévi-Strauss, que haviam estudado de perto diversos povos indígenas nas décadas de 1930 a 1950, constataram e anunciaram a extinção física e cultural dos povos indígenas, sua dénouement finale. Aquém e além de desgraças, como assassinatos, massacres, epidemias ou expulsão das terras, ao entrar em contato e conviver com a sociedade brasileira (a qual, por extensão, faz parte da cultura ocidental, europeia), os índios, considerados a parte mais vulnerável dessa convivência, iriam eventualmente mudar seus modos de viver, suas culturas, além de adotar costumes, hábitos, comportamentos e atitudes cada vez mais diferentes de seus costumes originais e cada vez mais parecidos com os costumes brasileiros. Por fim, perderiam de todo seus hábitos, abandonariam as bases de suas culturas e se assimilariam completamente ao modo de ser brasileiro. Virariam todos brasileiros se quisessem se salvar como indivíduos. Para a grande maioria dos povos indígenas originários de 1500, tudo isso quase aconteceu. Porém, não com todos, nem completamente para muitos. Eis a razão de, por volta de 1987, terem sobrevivido mais de 220 povos, os quais continuavam a se ver como índios, diferentes do restante da população brasileira. Por que houve tais exceções? Essa é uma das perguntas levantadas em Os índios e o Brasil e que foi respondida extensamente pela análise que fiz da história do nosso país não só das conquistas, dos extermínios, dos massacres, das epidemias que dizimaram tantos índios, destroçaram tantos povos e diluíram tantas culturas, mas também das ambiguidades da colonização luso-brasileira, das dúvidas sobre a legitimidade do poder real português sobre os povos indígenas e das políticas portu-

3 P r e f á c i o 11 guesas claudicantes para com os índios e os negros escravos. A história do modo como se desenvolveu o catolicismo implantado no Brasil, da Igreja conservadora e oficial e da Igreja salvacionista dos missionários; do malemolente Império brasileiro, da República positivista brasileira e, sobretudo, do posicionamento de alguns nobres pensadores e homens de ação brasileiros que fizeram a diferença nessa atitude mais ou menos generalizada de se posicionar contra o índio. Nas entrelinhas da história e nas brechas dos acontecimentos mais evidentes é que se acham os motivos pelos quais os índios sobreviveram. E eles resistiram! Este livro vai recontar essa história e analisar seus fundamentos sociais de um modo diferente do que está costumeiramente registrado na historiografia brasileira. Desde que sua primeira versão foi publicada, muita coisa continua e muita coisa se passou. Uma delas é que o sentimento original da primeira edição se realizou. Antes, eu apenas timidamente sugeria que havia algo de bom nessa história do Brasil, a qual auxiliara a população de índios a crescer e ter condições de sobreviver. Agora, nos últimos anos, ficou evidente que esse sentimento e previsão tinham boas razões de ser. Com efeito, os índios que sobreviveram ao que chamei de holocausto palavra forte muito ligada ao morticínio em massa de judeus durante a era nazista, mas que podia ser transplantada, com o devido respeito, para a compreensão do caso indígena cresceram, consolidaram sua sobrevivência, tiveram suas terras demarcadas (a maioria delas, pelo menos, pois ainda há falhas imensas que serão discutidas aqui) e estão aí, procurando seu espaço na sociedade brasileira. Os índios que vivem no Brasil são brasileiros, esta é a primeira resposta que tenho para dar neste livro. Brasileiros natos e originários. Isso todos sabem, ou sentem que sabem, ou duvidam pouco mesmo aqueles cuja crença é de que os índios são preguiçosos, traiçoeiros, mal-agradecidos, privilegiados ou que têm terra demais. Enfim, quase ninguém duvida de que os índios são brasileiros, originários, de raiz. Mas o que será dessa porção de sociedades, culturas e povos indígenas tão diferentes entre si e da maioria dos brasileiros, em um país onde os cidadãos praticam majoritariamente uma cultura única, com poucas diferenças regionais? O Brasil é capaz de aceitar e viver com diferenças tão grandes entre seus habitantes? A resposta para essa questão será construída aqui, devagarzinho, à medida que os dados forem sendo analisados. Não há como responder de pronto. Eu mesmo não sei dizer tão claramente se isso é possível. Muitos brasileiros, intelectuais ou não, falando seriamente ou em con-

4 12 O s í n d i o s e o B r a s i l versa de botequim, acreditam que a cultura brasileira, embora com diferenças regionais, é tão forte, tão determinante, tão homogeneizadora, tão antropofágica (no dizer de Oswald de Andrade), que não deixa espaço para o florescimento de culturas diferentes que aqui aportam. Basta relembrar o que foi feito com as culturas dos imigrantes desde o século xix! Dos espanhóis, árabes e italianos praticamente só restaram as comidas preferidas, algumas expressões linguísticas e uma coisinha aqui e outra acolá. Os alemães, ucranianos e poloneses, exceto por suas bucólicas casas no Paraná, em Santa Catarina e na serra gaúcha, pouco se diferenciam no burburinho das cidades. Mesmo os japoneses, tão asiáticos, exceto pela consolidação de um certo estilo urbano de viver no bairro da Liberdade, em São Paulo, já misturam feijão com sushi (prato que, aliás, todo mundo aprendeu a comer e apreciar), e seus descendentes estão se casando com não nisseis, vivendo como brasileiros quaisquer, conforme as cidades, os bairros e as classes sociais a que pertencem. Coreanos, chineses e novos imigrantes da América do Sul e da África estão a caminho de serem triturados pela mó homogeneizadora da cultura brasileira. Assim pensamos muitos de nós, apesar das loas que se tecem sobre as virtudes do multiculturalismo brasileiro! E, então, será que os índios aguentarão manter suas culturas com tanta distinção? Convenhamos que será difícil. Mas, até agora, muitos as têm mantido, mesmo após anos de convivência com segmentos da sociedade brasileira. Povos indígenas contatados por sertanistas do antigo Serviço de Proteção aos Índios (spi) ou pela Fundação Nacional do Índio (Funai), a qual substituiu aquele órgão em 1967, há mais de 50, 60 e 70 anos, ainda mantêm suas culturas com todo vigor. Exemplos deles são os Xinguanos em geral (Kamayurá, Yawalapiti, Waurá etc.), os Karajá, Kayapó, Xavante, Urubu-Kaapor, Canela, Tapirapé e tantos outros que vivem nas mais diferentes condições de vida na floresta, no cerrado ou na beira dos rios. Os Guarani, seja os subgrupos Mbyá, Kaiowá e Ñandeva, que vêm dos tempos das missões jesuíticas (séculos xvii e xviii), vivem uma cultura com tradição rígida e professam uma religião exemplarmente singular, mesmo após terem absorvido elementos da religião católica. Em contrapartida, há povos indígenas que mudaram muito rapidamente, até em menos tempo. Aprenderam o português com rapidez e fluidez, adotaram elementos da sociedade brasileira e, embora a maioria habitando em suas terras, muitos dos seus líderes já vivem em cidades, se relacionam com segmentos políticos e culturais da sociedade brasileira e se posicionam como representantes de seus povos para fins de

5 P r e f á c i o 13 adaptar elementos da sociedade nacional em suas culturas. É o exemplo de povos como os Suruí e Kaxarari, de Rondônia, os Terena, de Mato Grosso do Sul, os Apurinã e diversos outros do Acre, os Makuxi e Wapixana, de Roraima, os Tikuna e até os Marubo, do Amazonas, e outros tantos, especialmente da região nordestina. Como se vê, são tantas as possibilidades de ser indígena no Brasil que só trabalhando a história das relações interétnicas no país, junto com a descrição das variadas culturas e a análise de suas adaptações à convivência amistosa, bem como suas reações e resistência aos momentos de opressão, é que poderemos formar uma ideia mais clara sobre quem são os índios, como vivem na atualidade e qual seu futuro. Precisamos reconhecer que as situações pelas quais os índios brasileiros passam são específicas. Eles estão majoritariamente instalados em suas terras, vivendo da agricultura, da caça, da pesca e da coleta, da venda de alguns produtos naturais (castanha, óleo de copaíba, peixe) ou fabricados ou catados (artesanato, farinha, ouro e pedras preciosas). Muitos já se instalaram nas cidades e vivem em condições de pobreza alguns, porém, empregados, criam seus filhos no sistema cultural dominante da sociedade brasileira, mas tentam manter sua identidade e transmiti-la com dignidade para seus filhos e descendentes. Os índios estão por quase todas as partes do Brasil, em todos os estados. No Piauí e no Rio Grande do Norte, só nesta última década, surgiram grupos de indivíduos que se autoidentificaram como índios, constituindo-se como etnias distintas. Segundo o Censo 2010, do ibge (o qual discutiremos mais adiante, com certo espírito crítico), somam cerca de 897 mil pessoas, sendo que 520 mil vivem em suas terras e 357 mil estão nas cidades. O mesmo Censo aponta 305 etnias específicas (embora aqui também tenhamos dúvidas sobre em que consiste uma etnia específica) e ao menos 274 línguas distintas (100 a mais do que sabia a Funai) são faladas na Babel indígena (mesmo que, em uns 20 casos, são pouquíssimos os falantes nativos, e em diversos outros as línguas estejam extintas algumas muito recentemente.) Em suas aldeias, em suas terras, os índios exercem sua vida social e política. Suas celeumas, suas divergências e disputas são resolvidas pelas regras e normas de conduta, pelas armas e pelos símbolos de poder tradicionais. O mais importante é defender suas terras, tanto as reconhecidas pelo Estado brasileiro quanto as que há por reconhecer. Quem tem mais parentes, quem tem melhor oratória, quem vem de linhagens e clãs com legado de poder têm mais vantagens políticas. Velhos têm precedência sobre jovens, homens sobre mulheres; guerreiros têm seu qui-

6 14 O s í n d i o s e o B r a s i l nhão de comando; chefes cerimoniais, sacerdotes, xamãs e pajés falam com voz de sabedoria. O poder é normalmente exercido com base nas tradições, ainda que novos símbolos de poder, como o dinheiro obtido por salários ou pela venda de produtos, ou a nova oratória de relacionamento com os demais brasileiros, interfiram e, às vezes, provoquem distúrbios e desavenças internas terríveis. Já nas cidades, os instrumentos e os símbolos do poder são outros. Salários fixos, empregos seguros, participação em instituições de prestígio valem mais. Aqui, jovens com discursos de protesto, com práticas de disputas, com manejo de linguagens de pressão valem mais. Nas cidades, os anciãos indígenas, com raras exceções, como Raoni, o famoso cacique Kayapó, vêm perdendo prevalência na expressão das demandas de seus povos. Porém, quem é jovem um dia fica velho, e certamente a roda da vida virará. São os jovens indígenas, em sua maioria, que vivem nas cidades, que hoje comandam o movimento indígena com forte teor político, aos moldes das organizações políticas e não governamentais brasileiras, com demandas por recursos, empregos e oportunidades educacionais, por novos espaços na sociedade brasileira, por mais respeito pessoal, pela garantia de direitos já rezados na nossa Constituição e por novos direitos. É um mundo novo, esse mundo indígena, e ele não está de cabeça para baixo, mesmo porque, na sociedade mais ampla, essas mudanças vêm ocorrendo com igual intensidade. É um mundo muito diferente daquele do passado, mesmo do passado recente. Este livro, portanto, trata do presente dos povos indígenas brasileiros, porém com revisão de seu passado (de 1500 até os dias atuais) e com vistas ao seu futuro. Tentarei demonstrar isso no texto que se segue, bem como em mapas e fotos ilustrativas. No Anexo apresento um resumo de dados gerais e concretos de quantos são os povos indígenas, suas populações e suas línguas faladas. NOTA DE ESCLARECIMENTO Informações sobre os índios, suas terras, suas culturas, sua participação no mundo atual deixaram de ser exclusivas de antropólogos, jornalistas e estudiosos. Elas se encontram facilmente na internet, em sites, blogs, ao toque de chamada no Google ou no Yahoo. No Facebook, centenas de jovens índios participam inserindo fotos de suas aldeias, discutindo assuntos políticos, compartilhando ideias, ou simplesmente

7 P r e f á c i o 15 fofocando. O site da Funai (www.funai.gov.br) contém mapas de todas as terras indígenas plotados no Google Earth e alguns sites especializados, como o do Instituto Socioambiental (www.socioambiental.org), traz informações atualizadas sobre a maioria dos povos indígenas e as notícias mais atuais. As únicas falhas ou o que fazem falta nessa massa de informações são análises dos dados e sínteses interpretativas dos temas. Eis por que livros ainda são necessários para se compreender o mundo indígena. Por sua vez, apelo para a boa vontade do leitor em duas instâncias. A primeira é pelos nomes dos povos indígenas, que variam muito no tempo, nas grafias e em função de autodenominações diferentes dos nomes mais conhecidos ou usados na literatura antropológica. A segunda é pelos momentos em que alguns temas são trazidos à discussão repetidamente, em capítulos diferentes, porém sempre em contextos de explicações distintos e com o intuito de esclarecimentos mais amplos.

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