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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALFENAS - MG Instituto de Ciências da Natureza Curso de Geografia Bacharelado CAETANO LUCAS BORGES FRANCO TERRITÓRIOS E IDENTIDADES: DINÂMICAS SOCIOESPACIAIS DOS ÍNDIOS XUCURU-KARIRI RESIDENTES EM CALDAS - MG Alfenas - MG

2 CAETANO LUCAS BORGES FRANCO TERRITÓRIOS E IDENTIDADES: DINÂMICAS SOCIOESPACIAIS DOS ÍNDIOS XUCURU-KARIRI RESIDENTES EM CALDAS - MG Trabalho de Conclusão de Curso apresentada como parte dos requisitos para obtenção do título de Bacharel em Geografia pelo Instituto de Ciências da Natureza da Universidade Federal de Alfenas- MG, sob orientação do Prof. Dr. Evânio dos Santos Branquinho. Alfenas MG

3 CAETANO LUCAS BORGES FRANCO TERRITÓRIOS E IDENTIDADES: DINÂMICAS SOCIOESPACIAIS DOS ÍNDIOS XUCURU-KARIRI RESIDENTES EM CALDAS - MG A banca examinadora abaixo assinada aprova o Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como parte dos requisitos para aprovação na disciplina de Trabalho de conclusão de curso II e obtenção do título de bacharel em Geografia pela Universidade Federal de Alfenas/MG, sob orientação do Prof. Dr. Evânio dos Santos Branquinho. Aprovado em: Professor: Instituição: Assinatura: Professor: Instituição: Assinatura: Professor: Instituição: Assinatura: 3

4 Aos povos indígenas que resistem e reexistem frente ao cotidiano de vida ditado por políticas governamentais baseadas em pura tecnicidade e objetividade, políticas essas que alimentam os fortes interesses econômicos existentes desde o primeiro contato com o mundo do índio, promovendo a inexistência de justiça e respeito por essas populações humanas. 4

5 Agradecimentos 5

6 A vida é um constante movimento de desterritorialização e reterritorialização, ou seja, estamos sempre passando de um território para outro, abandonando territórios, fundando outros. Rogério Haesbaert 6

7 Resumo O grupo Xucuru-Kariri é um povo indígena originário do nordeste brasileiro, que tem seu território nativo na região de Palmeira dos Índios, no estado de Alagoas. Em meados da década de 1980, por motivos conflituosos, esse grupo deixa o estado para começar a vida em Paulo Afonso, no estado da Bahia, lugar que moravam por cerca de dezoito anos, onde tinham suas terras margeadas pelo Rio São Francisco, local de grande importância para o grupo. O motivo que fez o grupo deixar a Bahia foi um longo conflito por questões limítrofes de suas terras. Novamente remanejados, o grupo é alocado em São Gotardo, estado de Minas Gerais, região sudeste brasileira, onde morou por três anos dentro do centro urbano municipal, à espera de novas terras. A terra escolhida foi no sul do estado de Minas Gerais, no município de Caldas, onde reside desde maio de O presente trabalho aborda as questões socioespaciais e culturais do grupo, buscando analisar as dinâmicas e construções territoriais e identitárias frente aos seus remanejamentos pelo território brasileiro até a atual reserva, levando em consideração aspectos materiais e simbólicos. Palavras-chave: Territórios; Identidades; Transformações Culturais; Povos Indígenas. 7

8 Resumem El grupo Xucuru-Kariri es un pueblo indígena originario del nordeste brasileño, que tiene su territorio nativo en la región de Palmeira dos Indios, en el estado de Alagoas. En la década de 1980, por razones conflictivas, este grupo abandona el estado para comenzar la vida en Paulo Afonso, en el estado de Bahía, lugar que vivieron aproximadamente dieciocho años, donde tenían sus tierras en el margen del río São Francisco, local de gran importancia para el grupo. La razón por la cual el grupo ha dejado el estado de Bahía fue un largo conflicto por cuestiones limítrofes en sus tierras. Nuevamente trasladados, el grupo se ubicó en San Gotardo, estado de Minas Gerais, sudeste de Brasil, donde vivió durante tres años en el centro urbano municipal, a la espera de nuevas tierras. La tierra elegida fue la ciudad de Caldas, en el sur de Minas Gerais, donde el grupo reside desde mayo de En este presente trabajo se abordan las cuestiones socio-espaciales y culturales del grupo, tratando de analizar las dinámicas y construcciones territoriales y de identidad frente a sus reorganizaciones por el territorio brasileño hasta la actual reserva, teniendo en cuenta aspectos materiales y simbólicos. Palabras clave: Territorios; Identidades; Transformaciones Culturales; Pueblos Indígenas. 8

9 SUMÁRIO INTRODUÇÃO OBJETIVOS Objetivo geral Objetivos específicos METODOLOGIA HISTÓRIAS E CAMINHOS: origem, remanejamentos e o atual lugar de moradia A etnia Xucuru-Kariri Espaços-tempo: o início dos remanejamentos e as diferentes dinâmicas socioespaciais do grupo Caldas, o novo morar Passados, presente OS TERRITÓRIOS: diferentes situações, múltiplas possibilidades Perspectivas teóricas Dinâmicas e processos territoriais: do território tradicional em Palmeira dos Índios a nova reserva em Caldas A desterritorialização As territorialidades A multiterritorialidade As transformações dos modos de vida: alguns exemplos IDENTIDADES: elementos culturais e territoriais Algumas considerações teóricas As identidade marcadas pelas diferenças, pelos utensílios e pelos saberes étnicos As identidades territoriais CONSIDERAÇÕES FINAIS...67 ALGUMAS FOTOGRAFIAS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

10 INTRODUÇÃO Anteriormente ao descobrimento do Brasil, nessas terras havia números expressivos de populações indígenas, inseridas em uma cultura nativa que os comportava nesse espaço de uma maneira singular e diferente dos povos que aqui chegavam. Nesses espaços não havia fronteiras políticas e inexistia um processo que estruturasse uma nação. Os povos indígenas nessa época, que eram mais significativos em números que nos dias atuais, eram envoltos por costumes, tradições, hábitos e linguagens que os identificavam. Nesses tempos de descobertas, por estar em contato e vivenciando com os europeus que aqui chegaram, as populações indígenas foram, durante a história, alterando seus processos culturais. As relações indígenas com a terra e seus manuseios de artefatos fazem deles povos que nos deixaram com uma bagagem cultural rica e única, estando presente até os dias atuais. Como se trata de povos que ainda não tinham estabelecido um modo de comunicação escrito, as maiores evidências sobre o processo da etnia indígena no Brasil são por estudos arqueológicos e por relatos observados por outras etnias. Condicionado pelo espaço e pelas relações existentes, o índio cria uma identidade com o local, um laço, que é onde começa a construção de seu território, caracterizando uma identidade territorial. A abrangência sobre todos esses aspectos culturais e a viveza do índio com o espaço é muito amplo, portanto surgem-se interesses de trazer toda essa abrangência acerca desses valores para um estudo minucioso de um grupo étnico. Toda essa cultura dos povos indígenas em questão é representada de forma subjetiva a partir de suas ações, hábitos, costumes, tradições e manuseios de artefatos, solidificando assim uma identidade. Portanto, a construção do território tem seu mecanismo determinado pelas relações humanas, que juntas ao espaço irão construir uma territorialidade, que é a representação da rotina vivida de diversas maneiras e que influencia as ações a serem tomadas. Operacionalizando o conceito de territorialidade, temos que é a tentativa por um indivíduo ou um grupo de atingir, influenciar ou controlar pessoas, fenômenos e relacionamentos, através da delimitação e afirmação do controle sobre uma área geográfica (SACK, 1986 apud HAESBAERT, 2002, p.119). O grupo indígena nordestino Xucuru-Kariri, oriundo de duas etnias, os Xucurus e os Cariris, começa sua história enraizada em uma terra marcada por 10

11 diferentes condicionantes, ou seja, em outros âmbitos diversos como o cultural, o político, o social, o econômico e o físico. A história desse povo começa no município de Palmeira dos Índios, estado do Alagoas. Devido a motivos de posse de terra, saíram desse município com destino a Paulo Afonso no estado da Bahia, por volta de Posteriormente, 18 anos morando nesse município, que viviam às margens do Rio São Francisco, o grupo novamente se encontra em conflitos por questões de posse de terra e fazendeiros da região, e muda-se para São Gotardo, em Minas Gerais. Na época todo o grupo viveu em uma residência alocada no centro urbano, onde teve inúmeros contatos e dinâmicas diferentes do passado. Acreditamos que nesse momento houve um processo considerável de transformação ao que se refere às dinâmicas socioespaciais. O grupo viveu em São Gotardo por três anos, e em maio de 2001 foi instalado na nova reserva recebida em Caldas, sul do estado de Minas Gerais. Atualmente contamos com uma quantidade irrisória de população indígena pelo território brasileiro perante a quantidade que existia num passado anterior ao processo de colonização. A etnia indígena brasileira não favorece apenas a ideia de um só povo, mas sim uma pluralidade social diferente entre si e de seus colonizadores. Diante dessa diversidade de povos, conclui-se ao pensar, junto aos povos indígenas, a existência também de uma diversidade cultural, com inúmeros processos culturais (hábitos, tradição, costumes, crenças, linguagem, etc.) recorrentes a determinados grupos sociais. O que temos então, por todo o território brasileiro, são povos indígenas com várias identidades e diferenças, que junto a isso conseguem manter suas culturas, que por forças políticas e de interesses durante a história, tenderam sempre a uma visão de segundo plano ou menos importante. Desta forma, Martins (1994, p.9) discorre sobre o assunto, dizendo que: [...] é necessário, portanto, esclarecer que manifestações do fenômeno da etnicidade vêm sendo registrados nos mais variados contextos histórico-culturais; sobre a etnicidade indígena no Brasil, trata-se de fenômeno vinculado a influentes políticas indigenistas durante a história. O termo índio hoje, por exemplo, refere-se a uma definição dentro de um código jurídico-cultural, estabelecida pela política indigenista contemporânea, trata-se de uma construção históricocultural. Tendo percorrido toda a história sob atuação de políticas indigenistas voltadas para integração, esses povos nativos estiveram sempre inseridos em contextos de inter-relações e interdependências com o Estado, a Igreja e frentes de expansão. 11

12 Diante desse processo histórico-cultural que a etnia indígena passou, concluímos que o contato permanente com a nossa sociedade introduziu inúmeros hábitos e costumes de nossas culturas, adotando, por exemplo, a língua portuguesa e usos não habituais de suas culturas. É necessário ressaltar a importância dos índios na construção da nossa história e para nossa cultura com seus hábitos, costumes, vocabulário, entre outros. Entretanto, o preconceito da nossa sociedade diante à diferença étnica faz com que esqueçamos que a herança cultural deixada pelos índios está presente no nosso dia a dia. Desta forma, nos vemos frente a uma real necessidade de conhecer, valorizar e induzir a um respeito digno em relação à etnia indígena, da qual muitas heranças culturais foram deixadas. Portanto, frente a esse histórico cultural em que o grupo Xucuru-Kariri percorreu e as formas em que foram submetidos junto a um processo civilizatório da colonização, é justificável um estudo profundo de determinados grupos sociais, visto que não estão apenas em jogo as políticas em que os índios estão presentes, mas sim um processo cultural de identidade, que deixado de lado ou tratado de maneira menos importante coloca em risco sua própria existência. Os remanejamentos do grupo pelo território brasileiro configuram-se em um processo de desterritorialização e reterritorialização, e assim, inúmeras materialidades e imaterialidades foram e são lhes atribuídas ao cotidiano do grupo. Destarte, o presente trabalho objetivou-se a fazer um estudo abordando cultura e espaço de um povo indígena analisando as construções territoriais e identitárias do grupo Xucuru-Kariri frente aos seus remanejamentos pelo seu processo históricocultural. Portanto, busca-se junto ao grupo um melhor entendimento de suas raízes, de seus processos culturais e sua interação com outros grupos étnicos e o espaço. No capítulo HISTÓRIA E CAMINHOS: origem, remanejamentos e o atual lugar de moradia foram tratadas as questões de territorialização indígena de maneira geral, a fim de construir uma base para discussão sobre esses grupos étnicos. Assim, fizemos uma retomada geo-histórica do grupo desde seu território tradicional no estado de Alagoas até a atualidade, no estado de Minas Gerais. Compreendemos esse processo como um importante transformador de hábitos e técnicas do grupo. Desta maneira, descrevemos sobre esse processo e sobre o novo morar na reserva de Caldas. Acreditamos que a partir desse momento construímos uma importante linha de 12

13 pensamento sobre a questão territorial e identitária do grupo, em que os espaços vividos se fazem de grande importância nessa dinâmica. O capítulo posterior OS TERRITÓRIOS: diferentes situações, múltiplas possibilidades analisa a questão dos territórios do grupo a fim de compreender o complexo processo que caracteriza frente a esses remanejamentos. Analisamos o processo como sendo construtivo e reconstrutivo constantemente, e de que por mais que os índios deixam de usar um território do passado materialmente, esse se faz presente na memória dos indivíduos, caracterizando um território simbólico. Assim, esse capítulo corrobora para o entendimento do processo territorial inserido na história do grupo e na transformação de seus modos de vida: da desterritorialização às multiterritorialidades. E por fim, o capítulo IDENTIDADES: elementos culturais e territoriais trata a questão da identidade cultural e territorial do grupo, mostrando que essas identidades são dinâmicas e podem ser reconstruídas constantemente. As identidades dos índios Xucuru-Kariri são totalmente atreladas aos espaços vividos pelo grupo, se configurando de maneira múltipla como as territorialidades. 13

14 1- OBJETIVOS 1.1 Objetivo geral O presente trabalho tem como objetivo geral realizar uma análise dos aspectos que correlacionam cultura e espaço do povo Xucuru-Kariri, diante de uma retomada geo-histórica da trajetória desse grupo desde sua saída de Palmeira dos Índios, em Alagoas, passando pelo município de Paulo Afonso no estado da Bahia, seguido por São Gotardo já em Minas Gerais e agora no município de Caldas, onde mora desde 2001, ao sul do estado. No entanto, para chegar a tal objetivo, algumas metas foram traçadas, e acabaram por se constituir em objetivos específicos, que serão apresentados no próximo tópico. 1.2 Objetivos específicos Analisar a construção territorial e as territorialidades do grupo: do processo de desterritorialização às multiterritorialidades. Analisar as identidades culturais e territoriais do grupo: o que os identifica e o que os diferenciam; a própria identidade como índio. Abordar a percepção dos índios em relação à sociedade atual, levando em consideração o espaço modernizado, o antes e o agora; Como eles reproduzem sua espacialidade num novo e estranho espaço. Abordar as transformações dos modos de vida do grupo. 14

15 2- METODOLOGIA O presente estudo trata-se de uma pesquisa aplicada, tendo como objetivo gerar conhecimento para uma aplicação prática que busca elucidar a questão da cultura e o espaço indígena, levando em consideração as identidades culturais e as construções territoriais. Assim, o conhecimento adquirido sobre o tema tratado derivou-se de observações de uma realidade indígena concreta, procurando entender o espaço geográfico vivido e construído pelo grupo Xucuru-Kariri. No desenvolvimento do estudo as construções conceituais e teóricas aconteceram durante toda a execução da pesquisa, havendo trabalho de campo alternadamente, buscando uma prática que renovasse as teorias pré-estabelecidas. De início houve um levantamento bibliográfico (livros, teses e artigos) para posteriormente haver trabalhos de campo, que aconteceram momentos escolhidos e diferentes durante a pesquisa. Com o levantamento bibliográfico conseguimos informações para serem levantadas e analisadas em alguns pontos de interesse para a pesquisa, como a cultura, o espaço, o tempo, os territórios e as territorialidades. Assim, conseguimos traçar características gerais sobre a questão do grupo indígena. Portanto, precisávamos de direcionamento mais claro e mais elucidativo do que então propomos a estudar, e desta forma, optamos por entrevistas qualitativas que pudessem nos alicerçar no entendimento das práticas territoriais e identitárias dos índios Xucuru-Kariri. Assim, nos fundamentamos nas histórias de vida relatadas pelos entrevistados, constituindo-se em uma prática sem documentações e dados estatísticos. Sem dúvida, esse caminho foi o mais promissor e enriquecedor para o que nos propomos a fazer, uma vez que esses elementos foram buscados na antropologia, no método da observação participante, que permite uma melhor elucidação e visualização do imaginário social do grupo, em que as subjetividades por eles (os índios) expressadas proporcionaram um entendimento das identidades e das construções territoriais. Realizamos os trabalhos de campo na reserva atual dos índios Xucuru-Kariri no município de Caldas, Minas Gerais. Eles aconteceram como dito anteriormente, em datas espaçadas e por nós escolhidas. Entretanto, fomos convidados para participar da comemoração deles no Dia do Índio, acontecida em 19 de abril de Essa data, não menos importante que as outras em que as saídas de campo aconteceram, foi de grande valia para perceber o convívio e as apropriações praticadas pelo grupo, desde a dança 15

16 tradicional (toré), como outras brincadeiras e histórias contadas pelos mais velhos, e também pela visitação de alunos de escolas do ensino básico e fundamental da região e por outros pesquisadores. A data tem uma significação para eles: é dia de festa! É dia de dançar o toré! diziam eles. Assim, foi possível ter outro tipo de participação nas práticas grupais, diferente do dia-a-dia na reserva, e observar esses comportamentos. Nesse dia, nenhuma entrevista foi realizada, optamos por estar ali com eles e observar os elementos culturais do grupo em movimento. As entrevistas foram realizadas de forma aleatória entre os índios. Procuramos não estabelecer nenhum tipo de hierarquização, entretanto, buscamos sujeitos que de algum modo participaram mais efetivamente das transformações culturais do grupo. Assim, conversamos com os mais velhos para que fosse possível colher relatos desde a saída do grupo de Alagoas em meados dos anos 1980, até nos dias atuais. Mas também houve entrevistas com índios mais novos. Acreditamos que desta forma conseguiríamos um escopo maior da subjetividade produzida nos remanejamentos do grupo. Optamos pelas entrevistas semi-estruturadas, com um roteiro primário com alguns pontos chaves para o que estávamos procurando. Procuramos um modo em que não houvesse comprometimentos para nosso trabalho e, que houvesse uma dinâmica entre nós e os sujeitos estudados. E foi assim que aconteceram nossas conversas. Destarte, as entrevistas nos proporcionam não só o encontro das identidades culturais e territoriais do grupo, mas também alguns fatos e momentos marcantes na história do grupo, como os remanejamentos e as dificuldades ou facilidades de adaptação em outros espaços vividos, e também, a percepção deles em relação à dinâmica nesses ambientes. Teorias se renovaram com a nossa prática. As entrevistas de um modo geral nos ajudaram muito. Os entrevistados se mostraram atenciosos e receptivos na maioria deles, alguns mais acanhados, outros mais desinibidos. Alguns mais saudosos dos tempos e espaços que percorreram e que hoje só existem na memória, e outros esperançosos pelas causas indígenas. E nesse momento percebemos que nossa pesquisa ali com eles, já não era só nossa, mas que também foi apropriada por eles como mais uma documentação de suas histórias e vida. 16

17 3- HISTÓRIA E CAMINHOS: origem, remanejamentos e o atual lugar de moradia 3.1 A etnia Xucuru-Kariri Os Xucurus e os Kariris foram os dois grupos étnicos do nordeste que deram origem a nova etnia Xucuru-Kariri, aproximadamente em Esses povos se unem, representando assim uma força maior frente ao modo expansivo e dominador do branco. Essa formação existente é fruto de migrações entre algumas etnias nessa época. A mobilidade desses povos pelos lugares representa uma configuração de suas identidades e territórios, sendo que essa mobilidade (em diferentes situações e lugares) foi presente na vida do grupo tempos mais tarde. Desta forma, a dinâmica socioespacial se associa aos etnônimos Xucuru e Kariri, que segundo Martins (1994, p.21): Um relato do Vigário de Maia Mello, Presbítero secular da Igreja de São Pedro (Roma) e sócio-correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, tendo sido pároco de Palmeira entre os anos de 1847 e 1899, dá explicações sobre os etnônimos Xucuru e Kariri, relacionando-os também a migrações de índios originários de diferentes localidades: Cita que em 1740 desceram índios da Aldeia de Simbres do alto Sertão de Pernambuco (local do município de Pesqueira, onde ainda hoje vivem os Xucuru) e vieram outros d'aldeia do Colégio do Rio São Francisco desta Província (hoje, Porto Real do Colégio, onde localizam-se os Kariri-Xocó), aqueles da Tribo Chucuru e estes da Tribu Cariry. Esse autor ainda identifica diferentes localidades em Palmeira dos Índios, nas quais os Chucuru se aldeiaram à margem do pequeno ribeiro, Cafurna, entre terras da fazenda Olhos d'água do Accioly e Serra da Palmeira, fizeram o nome o seu aldeamento e os Cariris, também deram o nome do logar onde se aldearam, Serra do Cariry, onde fizeram uma pequena Igreja, de palha de palmeira (apud ANTUNES, 1973, p.45). Essa percepção de que os índios que atualmente localizam-se em Palmeira dos Índios migraram de outros lugares, é, portanto, encontrada em várias fontes. São inexistentes estudos profundos sobre cada etnia antes de sua junção, pois sendo esses realizados somente décadas mais tarde dessa união, os povos Xucurus e os Kariris já se encontravam com elementos culturais transformados concomitantemente com suas andanças e relações sociais pelos lugares, como nos mostra Oliveira Júnior (1997, p.2): Não há dados que possam esclarecer sobre as transformações ocorridas na organização social de Xukurus e Kariris após submetidos a este sistema, ainda no século XVIII. Porém, as inúmeras referências disponíveis sobre esta questão ao longo do século XIX mostram que durante todo esse período o plantio de produtos passíveis de comercialização, em especial o algodão, e a venda de mão-de-obra tornaram-se indispensáveis à sobrevivência dos índios, incorporandose à sua economia e modo de vida. Revelam ainda a dispersão dos 17

18 mesmos pela região, à procura de trabalho remunerado capaz de lhes fornecer os meios econômicos suficientes para o provimento das necessidades impostas pela sociedade colonial. O grupo que antes tinha uma organização social regida por sua cultura e suas próprias normas, e também com certo nível de hierarquização política em relação ao representante tribal e o restante indígena do grupo, é inserido em uma junção de novas formas de organização social pela sociedade capitalista, já que os índios desde então, tinham suas relações diretamente com o campo, como observa Oliveira Júnior (1997, p.3): [...] os Xukuru-Kariri não são apenas um grupo social organizado segundo os moldes camponeses, mas também um grupo indígena que, como lembra Amorim (1975, p.15), dispõe de reservas territoriais e uma certa proteção do Estado que ao menos em tese lhe garante o uso não contestado de alguma terra. Desta forma, estão se vinculando também à atividades que através de serviços básicos prestados se caracterizam em formas assistencialistas, em que: [...] fica evidente a tensão entre ambas formas de organização, na medida em que a centralização promovida por esta estrutura institucional e pelo conjunto de serviços básicos fornecidos e/ou gestados, direta ou indiretamente, pelo órgão indigenista reduz, em maior ou menor medida a depender do caso, a autonomia dos grupos familiares que conformam o povo indígena e colocam em cheque a própria ética que norteia suas relações sociais (OLIVEIRA JÚNIOR, op. cit., p.3) Durante décadas que se seguiram, esse povo esteve cada vez mais se inserindo em espaços diferentes que os seus produzidos e vividos de maneiras diversas, em uma passagem de tempos lentos, para tempos cada vez mais rápidos e fluídos. Os espaços vividos pelos Xucuru-Kariri a partir de então começam a ser cada vez mais institucionalizados. 3.2 Espaços-tempo: o início dos remanejamentos e as diferentes dinâmicas socioespaciais do grupo O século XX para os índios nordestinos representou o início dos movimentos de territorialização de suas terras. Por volta de 1940, os Xucuru-Kariri reiniciam processos de lutas por posses de terra, e sobre esse processo Woortman (1983 apud PARISI, 2004, p.36) discorre sobre a organização do grupo durante esse momento, vendo que essa: 18

19 [...] baseava-se na autonomia da unidade familiar como pilar de uma ética camponesa, que, ao ressaltar o trabalho como elemento de legitimação do acesso a terra, as relações familiares como constituintes do capital humano que possibilita o exercício deste trabalho e a liberdade decorrente dessa mesma autonomia constrói uma mundo de relações marcadamente horizontais entre as unidades familiares que o compõem. Na década seguinte, esse povo tem seu posto indígena instalado junto à Fazenda Canto, com o propósito de atender à população indígena que ali tinha suas terras conquistadas. Desta forma, esse povo se estabelece na zona rural de Palmeira dos Índios, no estado de Alagoas. Ainda sobre esse momento do grupo e sua relação com a terra, Oliveira Júnior (1997, p.3) relata que: Durante o período de meio século que abrange o último e o primeiro lustros dos séculos XIX e XX a história oral dos Xukuru-Kariri relata seu paulatino deslocamento das férteis terras planas que constituíam originalmente cerca de metade de seu patrimônio, (e que contavam com recursos hídricos escassos na região) em direção à franja de serras que bordeja a cidade de Palmeira dos Índios, centro original de sua sesmaria. Empurrados cada vez mais para cima, à medida que os derradeiros usurpadores apossavam-se também dos melhores trechos destas últimas terras, os Xukuru-Kariri passaram a dividir este seu resquício de espaço vital com camponeses pobres oriundos de outras regiões. A reserva do grupo em Alagoas apresentava algumas semelhanças físicas com a área que residem atualmente no sul do estado de Minas Gerais, caracterizada por áreas de matas, às quais possuem importância de grande relevância para as atividades tradicionais do grupo, como o Ouricuri, ritual sagrado que acontece em seu interior. Nas décadas de 1970 e 1980, habitavam na Fazenda Canto cerca de 80 e 100 famílias, respectivamente. Palmeira dos Índios (MAPA 1) é a segunda maior cidade do estado e conta atualmente com população de habitantes (IBGE, 2010). A partir de sua instalação, o grupo enfrentou diversos conflitos por disputas e proteção de terras, já que ocupava terras menos desejáveis (HOHENTAL apud PARISI, 2004). Segundo Sr. José Sátiro, cacique do grupo indígena, as terras da Fazenda Canto delimitavam cerca de 370 hectares. Demarcadas por volta de 1952, nessas terras começam a funcionar o Posto Indígena, que para FUNAI (Fundação Nacional do Índio) representaria como uma maneira de administrar e minimizar os conflitos inter-étnicos da região. 19

20 Mapa 1 - Localização do município de Palmeira dos Índios/Alagoas. Fonte: WIKIPÉDIA (2013). O primeiro momento de fragmentação dessa etnia formada acontece por conflitos entre famílias dentro da própria Fazenda Canto, além da escassez de trabalho para a população Xucuru-Kariri, que resultou no êxodo do grupo. Esses fatos fizeram com que em 1982, o atual cacique Uarkanã de Aruanã ou José Sátiro do Nascimento, na língua dos não índios, se reunisse com alguns pais de famílias iniciando suas reivindicações por novas terras em um outro lugar. Desta forma, o cacique teve a partir de então, a missão de liderar o grupo indígena que evade de sua terra nativa, representando assim uma figura de importâncias cultural e política para os que começam ou tentam reconstruir e reproduzir seus territórios em novas terras. A partir de meados da década de 1980 o grupo liderado por José Sátiro encontra-se instalado no estado da Bahia, em terras que lhe foi oferecida pela FUNAI. No que tange a este período não há muitos detalhes estudados sobre o grupo, mas sabese que foi instalado primeiramente em um município conhecido como Ibotirama, localizado às margens do Rio São Francisco, a cerca de 650 quilômetros de Salvador, capital do estado. Porém, por insatisfação do grupo, juntamente com conflitos por disputas de terra entre índios e fazendeiros, novamente o representante Uarkanã de Aruanã deslocou-se para a capital do país, reivindicando um novo pedaço de terra para seu povo. Posteriormente ao atendimento de sua demanda, o grupo é instalado no município de Paulo Afonso (MAPA 2), ainda no estado da Bahia. Apesar das dificuldades, porém adaptados, lá moraram por dezoito anos. Residente em uma região conhecida como Quixaba, o povo Xucuru-Kariri começa sua vida com novas formas de relações com o ambiente, em um local conhecido como Fazenda Pedrosa. Nessa nova 20

21 moradia ocorrem novas dinâmicas socioespaciais, que proporcionaram aos índios vivências diferenciadas. Essas vivências serão partes constituintes na construção e dinâmicas das territorialidades, pois é através dessas que os índios irão dominar e apropriar os espaços de maneiras diferentes. O começo naquele lugar para muitos integrantes do grupo foi de grande dificuldade, já que não estavam acostumados com o calor intenso e as secas tão prolongadas. Nesse momento, o rio passa a ter grande influência sobre os índios, pois além de um meio de subsistência para o grupo, representado pela pesca, era fonte de lazer e outras atividades rotineiras da tribo, como por exemplo, um meio de lavarem suas roupas. Instalados às margens de uma das três barragens do Rio São Francisco, apesar dos grandes momentos de seca na região, dentro da Fazenda Pedrosa, sempre corria um fio d água onde os índios podiam pescar e nadar (PARISI, 2004). Mapa 2 - Localização do município de Paulo Afonso/Bahia. Fonte: WIKIPÉDIA (2013). Com esse primeiro remanejamento do povo Xucuru-Kariri (em termos de fronteiras geográficas mais nítidas e assim mais distantes de sua terra de origem), novos espaços de usos e de trocas lhes são inseridos, proporcionando novas relações em sua vivência. Novamente envolvidos com problemas de lutas por terra com fazendeiros da região, além dos condicionantes naturais que dificultavam a vida por ali, como os longos períodos de estiagem, o grupo pede à FUNAI remoção para novas terras, a procura de um novo abrigo. Após longas negociações, o grupo novamente é remanejado 21

22 para uma área distrital do município de São Gotardo (MAPA 3), estado de Minas Gerais, conhecida como Guarda dos Ferreiros, onde residiriam por três anos. Durante esse período algumas dificuldades foram inseridas no cotidiano do grupo, como nos mostra Parisi (2004, p.41): Nesse período segundo relatos do cacique Uarcanã, os índios passaram por muitas dificuldades e enfrentaram diversos problemas como a fixação urbana, a inexistência de terras próprias para o cultivo, as dificuldades relativas ao trabalho que os auxiliasse a garantir a sobrevivência. Ainda assim, algumas famílias do grupo acabaram fixando residência neste município, em virtude da atividade agrícola do plantio e colheita de cenoura. Desta forma, fica claro como o cotidiano de vida do grupo começa a enfrentar situações até então não vividas. A dinâmica de vida no espaço urbano condiciona novos valores, ações e perspectivas a esse grupo. Cerca de cinquenta pessoas constituíam o grupo nesse momento. De começo foram instalados em uma casa pequena, onde moravam todos juntos, o que acabou acarretando dificuldades de convivência. Pouco mais tarde a FUNAI concede a eles uma casa um pouco mais ampla, permanecendo o grupo ainda junto. Além do pouco espaço disponível para moradia, o cacique José Sátiro, incessantemente, através de reivindicações e do desejo de uma terra para seu povo consegue da FUNAI o poder de escolha entre três opções de terras para se instalarem. Mapa 3 - Localização do município de São Gotardo/ Minas Gerais. Fonte: WIKIPÉDIA (2013). Foram oferecidas terras no estado da Bahia e uma ao sul do estado em que já estavam residindo, e é a partir daí que Caldas se torna o município escolhido pelo grupo 22

23 Xucuru-Kariri, que esperançoso com o novo lugar de morada alimentavam a esperança de fugirem da seca e, em terras férteis, poderem novamente, viver tempos de fartura e prosperidade (PARISI, 2004, p.45). O grupo deixa São Gotardo para usufruir de suas terras conquistadas ao sul do estado, sendo que ainda existem índios que ficaram em Guarda dos Ferreiros, morando em casas de alvenaria e trabalhando (PARISI, 2004). Em maio de 2001 o grupo Xucurú-Karirí começa a se instalar no município de Caldas (MAPA 4), onde suas terras foram definidas e fixadas. A cidade é uma das mais antigas do estado de Minas Gerais completando em março de 2013, 200 anos. Um bom condicionamento natural proporciona a fortificação de algumas culturas na região. O município é localizado em altitudes adequadas para produção, por exemplo, do vinho. Outras atividades fazem parte do contexto econômico do município, como a produção leiteira e turismo. A região em que o município de Caldas está inserido corresponde a uma tendência para temperaturas mais brandas que altas, devido à altitude relativamente elevada, sendo predominante o clima tropical de altitude. A média de altitude do município é de metros, sendo o ponto mais alto do município e da região a Serra da Pedra Branca, com metros de altitude (FOTOGRAFIA 1). Mapa 4 - Localização do município de Caldas/ Minas Gerais. Fonte: WIKIPÉDIA (2013). 23

24 Fotografia 1 - Relevo em que se situa a atual reserva. Caetano Lucas Borges Franco, março/2013. Compreende-se então, no que tange às matas (bioma de Mata Atlântica), que a nova morada do grupo se assemelha com seu lugar nativo, região da Fazenda Canto em Alagoas, entretanto com condições climáticas mais extremas. A atual Reserva Xucurú- Karíri (FOTOGRAFIA 2), que possui cerca de 100 hectares está instalada na área da Fazenda Agropecuária Boa Vista, distantes oito quilômetros do centro urbano de Caldas. Localiza-se às margens da Rodovia BR 459, que faz ligação entre as cidades médias de Poços de Caldas e de Pouso Alegre. Fotografia 2 - Vista parcial da atual reserva do grupo Xucuru-Kariri em Caldas/MG. Caetano Lucas Borges Franco, março/

25 A nova reserva dos índios se caracteriza em espaços híbridos, onde o cotidiano da sociedade capitalista já se disseminou de diversas maneiras. As onze famílias residentes na tribo moram em casas de alvenaria (em sua maioria) e algumas de pau-apique (técnica escolhida para a construção de novas casas) (FOTOGRAFIA 3). Para atendimento da população indígena Xucuru-Kariri, foi instalado um posto de saúde (FOTOGRAFIA 4) dentro da própria reserva, com acompanhamento médico e odontológico. Tomados por um princípio de revitalização de sua cultura, os índios lutaram por uma escola, Escola Estadual Indígena Xucuru Kariri Warcanã, de Aruanã (FOTOGRAFIA 5) dentro da reserva em Caldas, onde buscaram, através de novas disciplinas escolares (Cultura e Uso do Território), uma maior aproximação dos índios com a própria história, através de uma educação diferenciada. Fotografia 3 - Casa construída com técnica taipa ou pau- a- pique. Caetano Lucas Borges Franco, março/

26 Fotografia 4 Posto de Saúde localizado dentro da reserva em Caldas/MG (prédio no canto esquerdo inferior). Caetano Lucas Borges Franco, março/2013. Fotografia 5 - À direta na fotografia a E. E. Indígena Xucurú Karirí Warcanã, de Aruanã. Caetano Lucas Borges Franco, março/2013. De início, as dificuldades foram com o frio da região, embora hoje estejam mais adaptados. Ressalte-se, porém, que ainda existe a dificuldade do manejo com as terras para a produção alimentícia. Assim, a questão da alimentação (problemática desde outros remanejamentos), torna necessária uma mudança nos hábitos, já que não possuem conhecimentos e técnicas para a efetivação da produção no campo em Caldas, local que, apesar de conter plantação de hortaliças e produção leiteira, não mais é capaz de atender às demandas costumeiras dos índios, tais como o peixe, a mandioca e derivações. Atualmente a população Xucuru-Kariri no município de Caldas é de 105 índios, sendo 25 deles crianças (entre 0 e 10 anos). Em sua maioria moram na reserva, porém existem índios morando na cidade, ou porque foram inseridos no mercado urbano local e/ou por terem constituído famílias ali. Ademais, assim como existem índios que saíram da tribo para residirem na cidade, existem pessoas da cidade que passaram a morar na reserva, tendo em vista a constituição de família com os índios. Nesse tópico descrevemos os remanejamentos e tentamos elucidar os espaços de vivência do grupo Xucuru-Kariri durante eles (QUADRO 1e MAPA 5). São notórias as particularidades socioespaciais contidas em cada situação que o grupo esteve, seja pelas características naturais dos municípios ou pelas características simbólicas. É importante pensar que em cada situação dessas, materialidades e imaterialidades se 26

27 afirmaram e foram absorvidas no cotidiano do grupo. No próximo tópico iremos desenvolver melhor essa ideia. Mapa 5- Percurso do grupo pelo território brasileiro. Organização: Caetano Lucas Borges Franco. 27

28 Quadro 1 - Remanejamentos do grupo Xucuru-Kariri pelo território brasileiro. Palmeira dos Índios/ Alagoas Paulo Afonso/ Bahia São Gotardo/ Minas Gerais Caldas/ Minas Gerais População atual (IBGE, 2010) Ano de chegada Terra nativa Tempo de moradia Desde o início da etnia Aproximadamente 18 anos Aproximadamente 3 anos 12 anos (Maio de 2013) Moradia dos índios: espaço rural ou urbano? Rural Rural Urbano Rural Tipos de moradia dos indígenas Características naturais Técnicas tradicionais: taipa/ pau a - pique Clima tropical úmido Agreste alagoano Áreas de matas Técnicas tradicionais: taipa/ pau - a - pique Clima semiárido Relevo de planaltos e depressões Predomínio da caatinga Casa de alvenaria Clima tropical de altitude Região de morros Casas de alvenaria e taipa/pau a pique Clima tropical de altitude Região de serras e morros Mata atlântica Características socioeconômicas Observações Modesto comércio, agricultura e pecuária Até esse momento as migrações ocorridas foram regionais, no processo de construção da etnia Xucuru- Kariri Um dos maiores PIB do estado da BA Setor industrial forte Psicultura Nesse período o grupo viveu às margens do Rio São Francisco, forte valor simbólico Agricultura Pecuária Comércio Indústria O grupo, nesse período com 40 pessoas, morou todo em uma casa no centro urbano Importante produção de uvas no estado Produção leiteira Agricultura Pecuária Turismo Novamente a reserva destinada ao grupo volta a se encontrar no meio rural, entretanto, existem dinâmicas socioespaciais urbanas do grupo Organização: Caetano Lucas Borges Franco. 3.3 Caldas, o novo morar A chegada do grupo ao município de Caldas, se deu em maio de 2001, época de inverno, de baixas temperaturas na região, que faz com que o município seja um dos mais frios do estado. Situa-se nas ramificações da Serra da Mantiqueira, a cidade possui diversas cachoeiras, trilhas e é uma estância hidromineral. A população caldense, segundo dados do IBGE (2010) equivale a habitantes. A atual reserva do grupo 28

29 Xucuru-Kariri encontra-se na antiga Fazenda Agropecuária Boa Vista, como já foi descrito no tópico anterior. Acreditamos que esse novo local de moradia do grupo é o que mais se difere dos outros ao que diz respeito aos aspectos naturais, por ser uma região de altas altitudes e clima frio (FOTOGRAFIA 6). Assim, pensamos como a questão da paisagem é importante na análise cultural do grupo, ou seja, de como o conteúdo geográfico desses locais se manifestam nas escolhas e nas mudanças feitas pelos membros de certa comunidade. Fotografia 6 Relevo presente na nova reserva em Caldas. Caetano Lucas Borges Franco, março/2013. Para pensar essa questão, de como os índios viram e sentiram a cidade de Caldas, nos primeiros momentos, usamos de um trecho de entrevista do trabalho de Silva (2010, p.46-7) sobre o cenário da chegada, a fala é do cacique José Sátiro do Nascimento (66 anos) (FOTOGRAFIA 7): Arrumamos uma roça aqui em Caldas, MG. Chegamos na região do sul de Minas. Achei muito boas de um lado e ruim do outro. Não temos o costume de ver gelo e aqui nós estamos vendo. Na nossa chegada um cabra da FUNAI me disse a verdade. Você não vai para o sul de Minas, que lá você vai matar os seus índios. A situação lá é feia. Eu pensava que era mentira. Tenho um grande colega que trabalha em Brasília, que é natural de Machado, MG, que me disse assim: Cacique estou com oito anos que moro em Brasília. Isso foi em 1998 que ele me falou. Só vou na casa dos meus pais na época da chuva, 29

30 na época da chuva é quente. Eu até pensei que era brincadeira. Na época da chuva lá no nosso Nordeste é o frio e quando se diz a época da seca que se diz o verão aí e quente. Aqui no sul de Minas é muito diferente, na época da chuva é quente, tudo é o contrário. Para o pessoal mineiro a chuva é o verão e o verão que é a época da seca é o inverno. Vem frio de arrebentar, mas felizmente já estamos acostumados aqui. Meus índios, eu não. Não acostumei ainda não que é difícil acostumar com o frio. Eu já penso, de vez em quando falo com eles: minha gente vamos até a FUNAI, pedir para o pessoal do governo arrumar outro canto para nós, que aqui é muito frio e ainda não me adaptei, Estou aqui há nove anos, no sul de minas, mas o meu povo mais novo infelizmente não aceitam, já acostumaram e por isso, pela palavra do meu povo, eu como porta voz digo o seguinte. A minha vontade era sair, mas eles não querem, vamos assinar ficar. Só vamos sair daqui quando formos fazer a última viagem. Que essa viagem é a partida final. Fotografia 7 - Cacique José Sátiro do Nascimento, na reserva em Caldas/MG. Caetano Lucas Borges Franco, março/2013. Podemos notar com as primeiras palavras do cacique de como surgiram novas experiências ao grupo. Primeiramente ele cita o gelo, que não tinham costume de ver e agora estão vendo. Esse gelo quer dizer a geada, pequenas camadas finas de água sólida que são produzidas em noites muito frias, e depositadas sobre as gramíneas. É interessante observar o imaginário construído pelo cacique sobre o frio a partir de 30

31 relatados de outras pessoas. Assim ele vai fazendo as comparações entre Minas Gerais e o Nordeste, principalmente através das estações do ano e as respectivas dinâmicas temporais. Dessa forma, notamos como essa questão, mesmo se tratando de um grupo, é também individual, pela divergência adaptativa dos seres, uma vez que o cacique ainda não se adaptou com o clima, enquanto a maioria do grupo já se encontrava adaptada em O grupo passou por dificuldades adaptativas e habitacionais quando chegou a Caldas, as casas de alvenaria e o frio reorganizou hábitos dos indígenas. Entretanto, com o tempo eles foram se adaptando e construindo laços e relações com o novo morar. Grande parte dos indígenas em nosso trabalho de campo afirmou gostar e estar adaptado ao novo local, embora os locais que viveram no passado ainda fazem muito sentido na vida do grupo, tanto pelas questões de funcionalidades espaciais, quanto simbólicas. São Gotardo a Caldas, e de Caldas agora não tenho vontade de sair não. Vizinho aqui é o frio, mas o frio não é direto, ele vem e vai simbora, dá para gente ir levando. (Dona Josefa, 59 anos. Anotação em campo, Caldas /abril 2012). Fotografia 8 - Área central da reserva Xucuru-Kariri. Caetano Lucas Borges Franco, março/

32 Fotografia 9 - Casa de alvenaria na atual reserva. Caetano Lucas Borges Franco, março/ Passados, presente Com essa breve introdução sobre a história e os caminhos do grupo Xucuru- Kariri foi possível construir uma linha sequencial sobre os espaços vividos por ele. Ou seja, foi possível traçar um processo histórico de importante análise para a pesquisa, pois é desse momento em que partimos para estudar as dinâmicas socioespaciais do grupo. A nossa análise sobre o grupo na atualidade é sustentada justamente por essa construção processual de acontecimentos e espaços vividos que permeia a existência desses índios, tendo seu início no passado. Partimos do passado que se caracteriza para esse grupo como a vida em sua terra nativa, Palmeira dos Índios e região, em que seu modo de vida tradicional acontecia de maneira integrada ao ambiente, e seguimos para os remanejamentos que sucederam esse período, começando por Paulo Afonso, já no estado da Bahia. E assim adiante, São Gotardo e Caldas, ambos em Minas Gerais. Abordaremos dessa forma a transformação das dinâmicas identitárias e territoriais do grupo ao longo desse período: do passado ao presente, a fim de sustentar que a cultura que envolve esse grupo é móvel, está sempre em (re) construção de hábitos e técnicas a partir dos remanejamentos. Sendo assim, levamos em consideração as diferentes situações ocorridas com o grupo que (re) organizaram seus modos de vida, que a partir de sua terra nativa esteve cada vez mais se inserindo na modernidade. Dessa mesma forma, 32

33 podemos compreender as diferentes situações no que tange ao morar do grupo no meio rural ou no meio urbano, os diferentes recursos e necessidades contidos nessa dinâmica. As temporalidades também muito influenciam o agir nesses espaços vividos, por isso podemos pensar territorialidades e temporalidades como sendo indissociáveis. O ritmo das condutas espaciais de diversas maneiras ativam a percepção e os fenômenos do grupo. Para Saquet (2011, p.79), as temporalidades significam: [...] ritmos lentos e mais rápidos, desigualdades econômicas, diferentes objetivações cotidianas e, ao mesmo tempo, distintas percepções dos processos e fenômenos, ou seja, leituras que fazemos dos ritmos da natureza e da sociedade. Assim, a (re) produção agora se faz em espaços fluídos e híbridos, em processos confusos ao índio entre dominação e apropriação, sendo compreendido pelas doações, lutas e demarcações de terras. A partir daí foram expostos à necessidade de uma inserção ao trabalho nos meios de produção econômica, urbana e rural, para que o salário mensal representasse sua sobrevivência, uma vez que o cotidiano da sociedade não índia imbrica-se aos seus, inserindo a esse povo modos, percepções e fenômenos antes desconhecidos e não vividos, sobre normas e regras que lhes proporcionaram novas maneiras de construir seus territórios. 4- OS TERRITÓRIOS: diferentes situações, múltiplas possibilidades 4.1 Perspectivas teóricas Nesse capítulo iremos apresentar as construções teóricas e práticas que embasaram a pesquisa acerca dos processos territoriais envolvendo os índios Xucuru- Kariri, para que depois consigamos pensar a questão identitária do grupo para uma melhor situação de como sua dinâmica, a partir de múltiplas possibilidades, pode acontecer. Primeiramente construímo-nos teoricamente para pensar a questão territorial Xucuru-Kariri levando em consideração o processo histórico-geográfico vivenciado por eles em seus remanejamentos pelo território brasileiro. As relações dos grupos humanos com os meios em que vivem centralizam-se aspectos culturais entre sociedade e ambiente. Desta forma, esses grupos humanos dependem do ambiente para nele e com ele sobreviver. É do ambiente que são provindas às necessidades de subsistência humanas, como alimentação, água, abrigo, entre outros. E é nessa relação, apropriando 33

34 do espaço que o homem irá construir seus territórios. As sociedades, por mais simples que sejam não podem ser pensadas sem seus territórios, seja ele político e/ou cultural. Em 1880, para elaborar estudos sobre a relação sociedade/meio, Ratzel os desenvolve na obra Antropogeografia. Assim, ao considerar a cultura como elemento entre o homem e a natureza, o autor alemão prioriza os objetos materiais, sendo importante o que os homens construíram e de que maneira construíram. Com a antropogeografia é possível mapear as áreas descritas onde vivem populações humanas, procurando estabelecer quais as causas geográficas das partes em que os homens se espalham pela superfície terrestre e a influência da natureza sobre os grupos humanos. A cultura na obra de Ratzel aparece com a importância de um lugar vivido pelos sujeitos, uma vez que os grupos humanos se vinculam a ele, em que esses grupos aproveitam do meio e das facilidades para fazerem seus deslocamentos. Porém, a cultura para ele é analisada sobre aspectos materiais, como um conjunto de artefatos utilizados pelos homens em sua relação com o espaço. As ideias que a subentendem e a linguagem que a exprimem não são mais evocadas (CLAVAL, 1995, p.22). No decorrer do tempo, devido às transformações que a geografia sofre na Alemanha, a geografia francesa a partir de Paul Vidal de La Blache ganha uma dimensão cultural, em que os gêneros de vida e paisagem ganham valores juntamente com o estudo das influências do meio sobre as sociedades humanas (concepção proposta por Ratzel). Junto á essa análise, La Blache interessou-se a estudar as técnicas e utensílios que os homens usam para transformar seus contextos, modelando-os á seus interesses e necessidades de onde vivem. Assim, quando considera as questões sociais e psicológicas dos grupos humanos, afirma que esses analisados fora do contexto dos gêneros de vida, não têm sentidos. Na análise dos gêneros de vida é mostrado como a elaboração das paisagens por esses grupos irá refletir na organização social do trabalho: [...] a noção de gênero de vida permite lançar um olhar sintético sobre as técnicas, os utensílios ou as maneiras de habitar das diferentes civilizações: ela os organiza na sucessão dos trabalhos e dos dias e assinala como se relacionam hábitos, maneiras de fazer e paisagens (CLAVAL, 1995, p.33). Para que uma paisagem ganhe valores humanístico ou cultural, é preciso que exista a cultura, que para La Blache é o que se interpõe entre o homem e o meio. Assim, estimula a geografia a pensar a integração do homem e do meio em contextos diversos e complexos, em que os indivíduos ou o coletivo constroem nos espaços que viveram ao 34

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