A CONTRIBUIÇÃO DA PERÍCIA ODONTOLÓGICA NA IDENTIFICAÇÃO DE CADÁVERES

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1 Faculdade de Medicina da Universidade do Porto A CONTRIBUIÇÃO DA PERÍCIA ODONTOLÓGICA NA IDENTIFICAÇÃO DE CADÁVERES SUSANA DO CARMO PEREIRA SILVA Abril 2007

2 Faculdade de Medicina da Universidade do Porto A CONTRIBUIÇÃO DA PERÍCIA ODONTOLÓGICA NA IDENTIFICAÇÃO DE CADÁVERES SUSANA DO CARMO PEREIRA SILVA Tese de Mestrado em Ciências Forenses Trabalho realizado sob orientação do Prof. Doutor Américo Afonso Abril 2007

3 Sumário I SUMÁRIO ÍNDICE DE FIGURAS...IV ÍNDICE DE TABELAS... V AGRADECIMENTOS...VI RESUMO... VII ABSTRACT... VIII I. INTRODUÇÃO...1 II. ENQUADRAMENTO TEÓRICO DEFINIÇÃO E OBJECTIVOS DA IDENTIFICAÇÃO Definição de identificação Reconhecimento versus identificação Identificação geral versus identificação individual Objectivos da identificação DESENVOLVIMENTO DO PROCESSO DE IDENTIFICAÇÃO TÉCNICAS DE IDENTIFICAÇÃO Técnicas de identificação não dentárias Técnicas dentárias de identificação DADOS DENTÁRIOS ESTABELECIDOS ANTE-MORTEM Fichas dentárias Fotografias dentárias Radiografias crânio faciais e dentárias Marcação de próteses removíveis A PERÍCIA EM MEDICINA DENTÁRIA FORENSE...51 I

4 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres 5.1 Ficha dentária para a identificação forense A prova pericial em Medicina Dentária Forense RELATO DE CASOS - REVISÃO DE LITERATURA...60 III. OBJECTIVOS...65 IV. MATERIAL E MÉTODOS PARTICIPANTES METODOLOGIA Questionário Aplicação do questionário ANÁLISE ESTATÍSTICA...70 V. RESULTADOS APRESENTAÇÃO DOS DADOS AMOSTRAIS Variáveis Classificatórias, Perfil Geral da Amostra Questões que abordam as Técnicas de Identificação Utilizadas Questões que averiguam a realização de um exame da cavidade oral e de perícia odontológica Perícia Odontológica em particular Questões que determinam a Importância da Perícia Odontológica...83 VI. DISCUSSÃO...85 VII. CONCLUSÕES SÚMULA DOS RESULTADOS OBTIDOS LIMITAÇÕES DO ESTUDO LINHAS FUTURAS DE INVESTIGAÇÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS II

5 Sumário III ANEXOS III

6 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres ÍNDICE DE FIGURAS Figura 1. Variações do ângulo mandibular em função da idade Figura 2. Determinação da idade pelo desgaste da coroa Figura 3. Esquema de 4 dos 6 estágios evolutivos do desgaste dentário Figura 4. Esquema que exemplifica o cálculo da altura a partir dos dentes Figura 5 As quatro disposições fundamentais das rugosidades palatinas Figura 6 Representação modificada do diagrama utilizado pela Interpol Figura 7. Resultados das perguntas 9, 10, 11, IV

7 Índice de Tabelas ÍNDICE DE TABELAS Tabela Determinação da idade pelo ângulo mandibular Tabela Tabela 3. Gabinete/Delegação onde o perito trabalha Tabela 4. Quantidade de anos que o perito trabalha na área médico-legal Tabela 5. Nº autópsias / ano Tabela 6. Não identificados / ano Tabela 7. Casos que terminam identificação positiva Tabela 8. Técnicas de identificação utilizadas Tabela 9. Dificuldades técnicas Tabela 10. Tipo de dificuldades técnicas Tabela 11. Tipo de exame da cavidade oral realizado como rotina Tabela 12. Exame da cavidade oral em cadáveres não identificados Tabela 13. Exame da cavidade oral efectuado aos cadáveres não identificados Tabela 14. Perícia odontológica Tabela Tabela 16. Quando é requisitada a perícia odontológica Tabela Tabela 18. Quando não é requisitada a perícia odontológica Tabela 19. Perícia odontológica poderia ter alterado o resultado Tabela 20. Importância de estabelecer perícia odontológica como rotina Tabela 22 - Movimento de Tanatologia Forense Delegação (2004/ 2005) Tabela 23 - Movimento de Tanatologia dos GML (2004/2005) V

8 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres AGRADECIMENTOS Este espaço é dedicado àqueles que deram a sua contribuição para que esta dissertação fosse realizada. A todos eles deixo aqui o meu agradecimento sincero. Em primeiro lugar agradeço ao Prof. Doutor Américo Afonso a forma como orientou o meu trabalho. As notas dominantes da sua orientação foram a utilidade das suas recomendações e a amabilidade com que sempre me recebeu. Estou grata por ambas e também pela liberdade de acção que me permitiu, que foi decisiva para que este trabalho contribuísse para o meu desenvolvimento pessoal e profissional. Em segundo lugar, agradeço à Prof. Doutora Teresa Magalhães pelo incentivo amigo e por me ter disponibilizado o acesso aos peritos médico-legais para a entrega dos questionários. Deixo também uma palavra de agradecimento aos professores do Mestrado em Ciências Forenses pela forma como leccionaram o mestrado e por me terem transmitido o interesse pelas matérias forenses. São também dignos de uma nota de apreço os colegas que me acompanharam no mestrado e, em particular, a Liliana pela amizade e pela informação disponível na sua tese de mestrado. Finalmente, gostaria de deixar um agradecimento muito especial ao Rogério, aos meus pais, irmãs, cunhados e sobrinhos. VI

9 Resumo/Abstract RESUMO A identificação humana post-mortem é uma das grandes áreas de estudo e pesquisa da Medicina Dentária Forense, o que faz com que os médicos dentistas forenses sejam elementos indispensáveis de uma equipa forense. A identificação através de técnicas dentárias tem ganho cada vez maior importância em consequência do aumento progressivo da criminalidade e, sobretudo, da frequência com que ocorrem desastres, tais como acidentes rodoviários de grandes proporções, incêndios, explosões, acidentes de viação, actos de terrorismo, entre outros. O presente estudo tem por objectivo determinar quais as técnicas utilizadas pelos peritos médico-legais do Norte de Portugal na identificação de cadáveres e determinar a contribuição da Medicina Dentária Forense nesse processo. De igual modo, pretende-se avaliar o resultado das técnicas de identificação utilizadas, correlacionando-as com o estado de conservação do cadáver. No final determina-se se existe a necessidade por parte dos peritos médico-legais na introdução da perícia odontológica como procedimento de rotina nos casos atrás referidos. Para a recolha de dados recorreu-se a um questionário, feito propositadamente para o efeito deste estudo. Foram incluídos todos os peritos médicolegais da região Norte de Portugal, que trabalham na área da tanatologia. As técnicas dentárias, segundo os resultados deste estudo, somente são utilizadas como método de identificação nos cadáveres esqueletizados (28,6%) e nos putrefactos (16,7%), não sendo usadas nos cadáveres recentes. Quanto à requisição da perícia odontológica, a informação mais evidente é de que na maior parte dos casos esta não é solicitada. Quando a amostra é inquirida sobre o motivo por que não é requisitada a perícia odontológica, mais de dois terços das respostas (76,2%) indicaram que não se faz porque não existe um médico dentista ou não existe um local para reencaminhar essa perícia. De uma maneira geral, a perícia odontológica parece ter o seu lugar minimizado ou substituído pelo exame da cavidade oral. Além disso, o exame da cavidade oral realizado é simples, podendo ser considerado precário para ser utilizado no processo de identificação. Apesar disso, com base nas respostas de que a perícia odontológica poderia ter alterado o resultado (95,2%) e também, na informação de que os peritos acham importante o estabelecimento da perícia odontológica como procedimento de rotina em cadáveres não identificados (100%), demonstra-se que há interesse no aprofundamento da matéria, ou pelo menos é considerada importante. VII

10 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres ABSTRACT The human post mortem identification is one of the main study objects and research of Forensic Dentistry. This makes the forensic dentist a indispensable member of the forensic team. The identification through dental techniques has gain importance in consequence of the growth of criminality, specially the frequency of disasters, such as big proportion ferry accidents, fires, explosions, car accidents, terrorism acts, between others. The present study has the goal of determinate which techniques are used in corpses identification by the medico legal experts in North Portugal, and determinate the contribution of Forensic Dentistry in that process. Likewise, we pretend to appraise the result of the used identification techniques, and make the correlation with the corpses conservation. Finally it s determinate if there is necessity by the medico legal experts, in introducing the forensic dental skills us a routine proceeding in those cases. Were included all the medico legal experts in North Portugal that work in tanatology. The dental techniques, according to this study, are only used in skeletal remains (28,6%) and putrefaction corpses (16,7%), and are not used at all in fresh bodies. About the requisition of the forensic dental skills, the most evident information is that, in most cases, is not requested. When the sample is inquired about the motive of this event, more than two thirds (76,2%), say that there is no dentist at the moment of the autopsy, or there isn t a place to set forward the material. In general the forensic dental skills seems to have it s place minimized or replaced by the oral cavity examination. Besides, the oral examination that is done, is very simple, and may be considered precarious to be used in the identification process. The answers that the forensic dental skills could have changed the result (95,2%), and the information that medico legal experts think that it is important the establishment of forensic dental evaluation as a routine procedure in non identified corpses (100%), demonstrates that there is interest in studying in depth the subject, or at least finding it important. VIII

11 Introdução I. INTRODUÇÃO Os médicos dentistas forenses aplicam os conhecimentos específicos da Medicina Dentária à área médico-legal. Os aspectos fisiológicos e as variações adquiridas do aparelho estomatognático como reflexo da actividade socioeconómica do Homem, podem ser utilizados na Medicina Legal, abrangendo áreas que vão desde a avaliação do dano orofacial pós-traumático (no âmbito da clínica médico-legal do direito penal, civil ou do trabalho), até à identificação de indivíduos mortos ou à identificação de agressores (1). Em virtude da sua resistência (as estruturas dentárias representam os mais duros e resistentes tecidos do corpo humano (2), resistindo à putrefacção, ao calor, aos traumatismos e à acção de certos agentes químicos) e especificidade (cada dentadura é única), os dentes vieram a mostrar-se essenciais ao processo de identificação. A cavidade oral e os dentes nela presentes foi comparada à caixa negra dos aviões, graças à qual se pode saber o que sucedeu nos momentos imediatamente anteriores ao acidente aéreo (3). Esta ideia baseia-se no princípio axiomático da grande variabilidade dos elementos que constituem a cavidade oral. Não há dois indivíduos que tenham os dentes iguais, nem o conjunto da dentadura igual. É objectivo deste estudo perceber a actual contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres na Delegação do Porto do INML (Instituto Nacional de Medicina Legal) e nos Gabinetes Médico-legais por ela subordinados. Para isso necessitamos de determinar um conjunto de factores que nos dêem a conhecer, de um modo geral, o protocolo seguido actualmente nos processos de identificação nesta 1

12 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres instituição. Pretendemos saber se a perícia odontológica é utilizada na identificação post-mortem e queremos revelar, nos casos em que não é requisitada, as razões que levaram o perito a tomar esta decisão, de forma a que no futuro se possam tomar as medidas necessárias para que esta perícia se torne um procedimento de rotina. A dissertação está organizada em 7 capítulos e 2 anexos. O capítulo 1, é a apresentação da estrutura da dissertação. Este capítulo iniciase com uma secção dedicada aos Agradecimentos e outra que constitui o Resumo/Abstract. Seguidamente mostra-se o presente subcapítulo, que constitui uma introdução ao trabalho, e no qual se definem o problema e objectivos genéricos deste trabalho, se faz uma descrição dos diversos capítulos e, por fim, se apresentam as conclusões gerais. O capítulo 2 apresenta o Enquadramento Teórico da Tese, e está estruturado em 6 subcapítulos: No primeiro, Definição e objectivos da identificação, começa-se por definir identificação do ponto de vista médico-legal, passando depois à distinção entre reconhecimento e identificação, e entre identificação geral e individual. Descrevem-se também os objectivos da identificação médico-legal. No segundo, Desenvolvimento do processo de identificação, a estratégia utilizada foi a de apresentar os procedimentos a adoptar desde que chega um cadáver não identificado aos serviços médico-legais, até se conseguir um resultado positivo fazendo-se também neste ponto, a distinção entre métodos reconstructivos e comparativos. No subcapítulo seguinte, Técnicas de identificação, começámos por descrever superficialmente as principais técnicas não dentárias, passando de seguida a uma 2

13 Introdução exposição detalhada das técnicas dentárias, onde se explica de que maneira é que elas podem contribuir para a determinação da espécie, do grupo étnico, do sexo, da idade, e da altura. Também foram descritos os elementos congénitos que os dentes podem revelar, bem como alguns estigmas patológicos e traumatismos dentários. Terminouse esta exposição com referência às patologias fetais e da infância relacionadas com a cavidade oral, e aos tratamentos médico-dentários. O quarto subcapítulo, Dados dentários estabelecidos ante-mortem, apresenta elementos dentários de natureza diversa, começando-se pelas fichas clínicas, seguindo-se as fotografias, as radiografias crânio-faciais, terminando-se por uma referência à marcação de próteses removíveis. O quinto subcapítulo A perícia em Medicina Dentária Forense tem o objectivo de descrever de forma pormenorizada a perícia odontológica, desde o preenchimento da ficha dentária para identificação forense, até à execução do relatório pericial. Finalmente, o último, Relato de casos - revisão de literatura, pretende demonstrar a importância inequívoca da Medicina Dentária Forense nos processos de identificação, ao fazer um exposição de casos em que esta ciência foi determinante para a conclusão definitiva do processo em causa. O capítulo 3 Objectivos, é dedicado à definição do problema. Aqui apresenta-se o problema genérico em estudo, apresentando-se depois as questões específicas do mesmo. O capítulo 4 Material e Métodos, começa pelo subcapítulo Participantes, onde se faz a caracterização demográfica da amostra. Apresenta-se também a problemática da escolha da amostra, justificando as escolhas realizadas. No subcapítulo seguinte, Métodos, expõe-se em primeiro lugar a forma como foi construído o questionário, 3

14 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres instrumento escolhido para a recolha dos dados. Seguidamente explicam-se os procedimentos utilizados para aplicação do questionário, e por fim apresentam-se os métodos de análise estatística para os elementos obtidos. O capítulo 5 Resultados, consiste na descrição das respostas obtidas e análise descritiva dos dados. O capítulo seguinte, Discussão, pretende fazer uma análise conjunta dos resultados, correlacionado-os entre si, e também com dados recolhidos por outros autores. O capítulo 7 Conclusões, faz, em primeiro lugar, uma súmula dos resultados, seguindo-se uma abordagem às limitações do estudo, onde se faz uma resenha das presentes neste trabalho, abrangendo quer as que são específicas da forma como a tese foi conduzida, quer as que decorrem mais genericamente. Finalmente apresentam-se as linhas futuras de investigação, num subcapítulo próprio, começando por apontar aquelas recomendações que derivam directamente do estudo, mas apresentando também outras de âmbito mais alargado. O texto desta dissertação conclui-se com os 2 anexos, o anexo 1, Carta introdutória e o anexo 2, Questionário. Nos anexos apresentam-se os exemplares da carta introdutória e do questionário, tal como foram fornecidos aos elementos da amostra inquirida para preenchimento. Os resultados deste estudo estão condicionados pela amostra que, por ser uma amostra de conveniência, não permite resultados generalizáveis. Para além disso a amostra sofre de várias limitações, das quais a mais importante é, em princípio, o reduzido número de peritos. 4

15 Introdução Dos 45 questionários enviados aos Gabinetes Médico Legais do Norte de Portugal e Delegação do Porto do INML, obteve-se o retorno de 21 questionários. Em relação às técnicas de identificação mais utilizadas: no cadáver recente, o método mais frequente foi o reconhecimento visual, no cadáver putrefacto, foi mais utilizado o reconhecimento por objectos pessoais, e no cadáver esqueletizado, as técnicas mais utilizadas foram as dentárias e a análise do ADN I com a mesma taxa de utilização. As técnicas dentárias somente foram utilizadas como método de identificação nos cadáveres esqueletizados e nos putrefactos, não tendo sido usada em nenhum caso nos cadáveres recentes. Questionaram-se os peritos sobre a existência de dificuldades técnicas que atrasavam ou impossibilitavam a identificação. 81% dos peritos responderam afirmativamente, sendo que a maior dificuldade com que se deparavam era o facto de não haver dados ante-mortem para comparação. Quanto à requisição da perícia odontológica nos cadáveres não identificados, a informação mais evidente é de que na maior parte dos casos esta não é solicitada. Quando se pergunta qual é o motivo por que não é requisitada esta perícia, mais de dois terços das respostas indicaram que não se faz porque não existe um médico dentista no local ou não existe um local para reencaminhar a perícia. O exame da cavidade oral realizado por rotina na autópsia é extremamente simples, podendo ser considerado precário para ser utilizado em processos de identificação. Apesar disso, com base nas respostas de que a perícia odontológica poderia ter alterado o resultado da identificação (95,2%), e também, na resposta de que acham importante o estabelecimento da perícia odontológica como procedimento I Ácido Desoxiribonucléico 5

16 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres de rotina em cadáveres não identificados (100%), verifica-se que há interesse no aprofundamento da matéria, ou pelo menos consideram-na importante. 6

17 Enquadramento Teórico II. ENQUADRAMENTO TEÓRICO 1 DEFINIÇÃO E OBJECTIVOS DA IDENTIFICAÇÃO 1.1 Definição de identificação A identificação humana pode definir-se como sendo o resultado positivo de um exame, ou o registo de todos os dados relevantes presentes numa pessoa viva ou presentes num cadáver, de modo a poder restabelecer-se a sua identidade (4). Os dados disponíveis e pertinentes à identificação podem apresentar uma grande variabilidade conforme os casos, o que explica a existência de diferentes técnicas ou métodos de identificação e que, conforme a técnica(s) mais indicada (s), tenha de recorrer-se a peritos especializados em diferentes áreas. As circunstâncias a ter em conta no processo de identificação de cadáveres são as seguintes: a) Cadáveres recentes (a morte ocorreu num intervalo inferior ou igual a 72 horas): acidentes em massa, avião, comboio, incêndios em locais públicos, desastres colectivos (por exemplo terramotos e inundações), vítimas deformadas bombas, cremações, entre outros. b) Cadáveres putrefactos (a morte ocorreu num intervalo superior a 72 horas. 7

18 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres c) Cadáveres esqueletizados. Inicialmente, é importante que façamos algumas considerações sobre identidade. A identidade pode ser estudada nos seus aspectos, subjectivo ou objectivo (4). No aspecto subjectivo, estuda-se a noção que cada indivíduo tem de si mesmo, no tempo e no espaço, e a consciência do eu. Este auto conceito pode variar devido a estados patológicos. Já a identidade objectiva, é o conjunto de características físicas, funcionais ou psíquicas, normais ou patológicas que individualizam determinada pessoa (14). 1.1 Reconhecimento versus identificação Um aspecto importante para o objecto do nosso estudo, diz respeito à distinção entre reconhecimento e identificação. O reconhecimento pode ser entendido como uma identificação empírica, subjectiva sem rigor científico. O reconhecimento médico-legal é normalmente visual, realizado por parentes ou conhecidos da vítima, sendo muito susceptível a enganos e falhas. Estas imprecisões ocorrem, na grande maioria das vezes, não por má-fé das pessoas que fazem o reconhecimento, mas devido às próprias limitações deste método. A influência do estado emocional das pessoas responsáveis pelo reconhecimento, causada pela provável perda de um ente querido, ou mesmo pelo ambiente lúgubre dos Institutos Médico-Legais, pode levar a uma identificação errónea. Já a identificação é caracterizada pelo uso de técnicas científicas e meios propícios para se chegar à identidade (6). 8

19 Enquadramento Teórico Esta identificação pode ser realizada por técnicos especializados (identificação judiciária ou policial) tendo o seu maior exemplo na dactiloscopia, ou pode ser realizada por profissionais com conhecimentos diferenciados e específicos na área biológica (identificação médico-legal) tendo esta uma sucessão praticamente ilimitada de técnicas e meios propícios, para se chegar à identidade humana. O senso comum remete-nos a ideia de que o médico dentista forense trabalha exclusivamente em corpos carbonizados, avaliando os trabalhos dentários realizados. Esta é uma ideia que não corresponde à realidade. Na actualidade, o auxílio prestado pela Medicina Dentária Forense no processo de identificação humana, não se limita apenas ao reconhecimento de trabalhos dentários e protéticos realizados, com o fim de determinar a identidade física de um cadáver irreconhecível, ou esqueleto. Hoje, o singelo e duvidoso reconhecimento cedeu lugar ao complexo, científico e seguro processo de identificação médico-legal por técnicas dentárias (7). Tal desenvolvimento no processo de identificação humana post-mortem, trouxe como consequência, a necessidade de se organizar em graus sucessivos de complexidade, os procedimentos deste processo, fazendo com que o processo de identificação humana post-mortem fosse dividido em Geral e Individual. Entretanto, por mais que a Medicina Dentária Forense se desenvolva, e aprofunde os seus conhecimentos, o trabalho em equipa com profissionais de outras áreas das Ciências Forenses como: Medicina Legal, Direito, Farmácia, Antropologia, Informática, Fotografia, Bioquímica, entre outros, é que permitirá, que cada vez mais, a justiça tenha elementos objectivos e seguros, ou seja, elementos de prova. 9

20 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres 1.2 Identificação geral versus identificação individual Identificação geral A identificação geral trata do estudo de vários aspectos sinaléticos, que irão formar um biótipo do indivíduo. Estes estudos iniciam-se com a determinação da espécie animal, que é realizada através de estudos antropológicos. Por esta razão, todos os Institutos Médico-Legais possuem, habitualmente, um profissional responsável pelo sector de Antropologia Forense. É para este sector que são encaminhados os cadáveres putrefactos, carbonizados ou reduzidos a esqueleto, para estudo e identificação, e onde, o médico dentista forense é membro indispensável da equipa, devido aos seus conhecimentos específicos, principalmente no que respeita ao crânio humano. Outras questões passíveis de serem esclarecidas pelo médico dentista forense na identificação geral post-mortem, dizem respeito à estimativa do sexo, estimativa da idade, estimativa da estatura, determinação do grupo étnico, entre outros. Podem, também ser determinadas outras características, como o diagnóstico de manchas ou líquidos provenientes da cavidade bucal ou nela contidos (Erro! Indicador não definido.). 10

21 Enquadramento Teórico Identificação individual A identificação individual distingue-se pela necessidade da presença de elementos comparativos anteriores à morte. Este tipo de identificação ocorre, por exemplo, em corpos carbonizados onde os elementos dentários são confrontados com os dados da ficha clínica dentária anterior aos acontecimentos. Nestes casos a identidade é instituída quando há coincidências suficientes e não são encontrados aspectos discrepantes, estabelecendo-se assim a identidade absoluta de uma pessoa. A destruição do corpo pode apresentar-se, em maior ou menor grau, como consequência da putrefacção ou da acção de agentes químicos ou físicos. Também se torna particularmente difícil a identificação nas situações de homicídio em que o criminoso provoca intencionalmente mutilações que visam dificultar a identificação, ou para ocultar o corpo. A identificação individual é muito importante em Medicina Forense, tanto por razões legais como por razões humanitárias, sendo frequentemente iniciada antes mesmo de se determinar a causa da morte (8). Muitos indivíduos são vítimas de homicídio ou encontram-se desaparecidos, dependendo a investigação destes casos da correcta identificação. Desta forma, o processo de identificação passou a ser primordial para a autópsia forense. Quer na Medicina Dentária quer na Medicina Legal, o material é o mesmo, o corpo humano. O objectivo final é sempre o mesmo, ou seja, estabelecer a identidade humana. 11

22 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres 1.3 Objectivos da identificação Segundo Adão Pereira (4), quanto à intervenção médico-legal realizada no sentido de se estabelecer a identificação de cadáveres ou de ossadas não reconhecidas, os objectivos podem ser diversos e agrupam-se da maneira seguinte: Objectivos Sentimentais Quando uma pessoa é dada como desaparecida, os familiares e amigos mais próximos exigem saber, o mais rapidamente possível o que aconteceu ao seu ente querido. Em primeiro lugar querem saber se essa pessoa está viva ou morta, e nesta última hipótese desejam poder fazer-lhe o funeral e dar-lhe uma sepultura que não seja anónima Objectivos Legais e Sociais 12

23 Enquadramento Teórico Quando um corpo não é identificado, o respectivo certificado de óbito não pode ser passado, criando-se uma situação de vazio social, verificando-se a impossibilidade imediata da satisfação de requisitos da lei civil, como a transmissão do património do falecido e o estabelecimento do estado civil do cônjuge sobrevivente. Também na investigação judiciária de um crime é necessária a existência do corpo de delito (facto material em que se baseia a prova do crime). 2 DESENVOLVIMENTO DO PROCESSO DE IDENTIFICAÇÃO No processo de identificação devem ser utilizados todas as técnicas reconhecidas cientificamente, não esquecendo de ter em conta, a disponibilidade de recursos, a eficiência das técnicas e o treino da equipa pericial. Gustafson (14) considera que o processo de identificação humana se desenvolve em três fases principais cuja sequência lógica é a seguinte: Quando aparece um cadáver desconhecido, procede-se à observação e descrição cuidadosa de todas as suas características que possam vir a ser úteis para a sua posterior identificação. De se guida recolhem-se todas as informações dum tipo semelhante e relacionadas com a pessoa desaparecida. Finalmente, procede-se a um estado comparativo dos dados obtidos a partir do cadáver com aqueles que foram recolhidos em relação à pessoa desaparecida. Neste momento resulta importante distinguir métodos comparativos de reconstructivos. Nas técnicas de identificação humana utilizam-se diferentes 13

24 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres métodos que, de acordo com Sassouni (9), podem ser classificados em métodos comparativos e métodos reconstrutivos. A utilização de métodos comparativos pressupõe a existência de elementos altamente fiáveis estabelecidos ante-mortem, nomeadamente, impressões digitais, radiografias, fichas médicas ou dentárias, os quais servem de referência aquando do exame comparativo. Os métodos reconstructivos são utilizados quando não existem dados estabelecidos ante-mortem, uma situação que, com relativa frequência, torna muito difícil a obtenção duma identificação positiva. Em tal caso, a investigação desenvolve-se a partir das informações obtidas pela observação do cadáver e tem como finalidade a determinação tão exacta quanto possível da idade, sexo, altura, raça e profissão da pessoa a que correspondem o cadáver ou as ossadas encontradas. Obtidos estes elementos, o acesso a determinadas elementos torna-se mais fácil, sendo então possível o recurso aos métodos comparativos que, por sua vez, podem tornar exequível uma identificação positiva. Na determinação da idade, os dados dentários oferecem mais confiança do que os dados fornecidos pelo exame do esqueleto pois a cronologia do desenvolvimento dentário é menos passível de variações que o desenvolvimento ósseo. Estas são conclusões de Johansen (10), autor que considera três períodos distintos na vida dos indivíduos quanto à dentição: um primeiro período in utero, até ao nascimento, um segundo período desde o nascimento até aos 14 anos, e um terceiro período desde os 14 anos até à perda dos dentes ou até à morte do indivíduo. Geralmente, e mesmo antes que se verifique o aparecimento dos respectivos cadáveres, acontece que as autoridades policiais recolhem e arquivam todos os dados relativos às pessoas dadas como desaparecidas, o que pode vir a revelar-se muito útil 14

25 Enquadramento Teórico para efeitos de identificação. 15

26 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres 3 TÉCNICAS DE IDENTIFICAÇÃO Têm sido propostas e frequentemente utilizadas diversas técnicas de identificação humana. Neste trabalho classificámo-las em dois grandes grupos: técnicas de identificação não dentárias e técnicas de identificação dentárias. 3.1 Técnicas de identificação não dentárias As técnicas de identificação não dentárias incluem as comparações morfológicas, as técnicas radiográficas, o reconhecimento visual, o reconhecimento por objectos pessoais, os métodos osteoantropométricos, a reconstrução facial, a análise documental, a análise de ADN, a dactiloscopia, entre outras. O reconhecimento visual, o reconhecimento por objectos pessoais e a análise documental não são mais do que aproximações indiciárias de uma hipotética identificação, que têm que ser comprovadas cientificamente (11,12). Diferentes técnicas não dentárias, de identificação humana, têm sido utilizadas frequentemente e desde longa data. A propósito dos métodos não dentários de identificação, utilizados no Instituto de Medicina Legal de Lisboa, Reys (13) classifica-os em métodos dactiloscópicos, osteoantropométricos, radiológicos e biológicos. Por sua vez, Gustafson (14) refere o reconhecimento visual, o reconhecimento por objectos pessoais, a identificação pelas características corporais e pelas impressões digitais. Qualquer destas técnicas têm-se revelado insuficientes, em numerosos casos, e algumas delas têm conduzido, inclusivamente, a graves erros judiciários (Erro! Indicador não definido.,erro! Indicador não definido.,15). 16

27 Enquadramento Teórico Comparações morfológicas As características corporais com interesse para efeito de identificação são constituídas, nomeadamente, por traços faciais particulares, deformidades, cicatrizes e manchas cutâneas. Compreende-se que a sua importância seja pequena ou mesmo nula quando o cadáver sofreu alterações mais ou menos profundas, em consequência de fenómenos de putrefacção ou por acção de agentes físicos ou químicos e, principalmente, quando ocorreu a sua exposição prolongada a um fogo intenso. Por outro lado, e com o intuito de dificultarem ou impossibilitarem a identificação da sua vítima, os criminosos produzem, com bastante frequência, a amputação dos membros do cadáver, da cabeça, das orelhas, do nariz ou de outros órgãos Técnicas radiográficas Os raios X são um método auxiliar para a identificação e muitas vezes definitivo para obter a prova que faz chegar a um resultado definitivo (16). Consistem essencialmente na comparação entre radiografias ante e post-mortem. Sanders et al (17), conseguiram identificar um sujeito utilizando um único osso (clavícula), que ficou depois do acidente em causa. 17

28 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres Reconhecimento visual O reconhecimento visual é um método que deve ser sempre considerado com muitas reservas pois, frequentemente, tem conduzido a erros (11,12), quer a sua aplicação tenha sido feita para identificar pessoas vivas, geralmente criminosos, quer para identificar pessoas mortas. Além de factores emocionais que podem, em certas condições, ser determinantes para uma identificação falsa, também esta pode estar relacionada, em alguns casos, com intuitos fraudulentos. O reconhecimento visual é insuficiente para que se possa estabelecer uma identificação positiva. Os seus resultados devem ser sempre comprovados por métodos científicos e através de averiguações realizadas pelas autoridades policiais. O reconhecimento visual deve ser considerado circunstancial e só ganha valor quando confirmado por outros métodos Reconhecimento por objectos pessoais Os objectos de uso pessoal encontrados no cadáver ou na sua proximidade podem constituir um indicador importante da identidade do morto. Objectos de uso pessoal como por exemplo vestuário, relógios, jóias e calçado, são, entre outros, os objectos mais frequentemente encontrados. 18

29 Enquadramento Teórico A valorização destes objectos deve ser feita com cuidado, porque estes podem não constituir características pessoais, no verdadeiro sentido do termo, podendo mesmo não ser propriedade do cadáver, ou então terem, inclusivamente, sido colocados próximo deste para induzir a uma identificação falsa. O seu interesse torna-se ainda mais limitado quando se considera que podem ser facilmente destruídos pelo fogo e pela água. Deve proceder-se à descrição pormenorizada dos objectos, tendo em atenção a cor, o desenho e as dimensões No caso do vestuário, deve-se registar o tipo de tecido e o seu estado de uso, nunca esquecendo de verificar se tem etiquetas ou qualquer marca de tinturaria. Todos os objectos encontrados junto do cadáver devem ser fotografados (14). Deve ficar correctamente assinalada a distância e a sua posição, relativamente ao cadáver, recomendando-se a realização de um desenho ou esquema. No que respeita ao calçado é muito importante que fique registado o tamanho, o modelo, a cor, o material em que foi confeccionado, as características do tacão e da sola e, ainda, o seu estado de uso. Quanto aos relógios, caso sejam encontrados, deverá registar-se a marca, o modelo, o material em que é constituído e eventuais inscrições. As jóias também podem conter importantes elementos para a identificação (inscrições, nomes, datas de acontecimentos, indicação do grupo sanguíneo, entre outros) (4). Incluem-se neste caso, por exemplo, as alianças de casamento. As características do vestuário e de certos objectos encontrados no cadáver ou na sua proximidade podem facilitar muito a identificação ou, pelo menos, constituir um indicador importante da profissão, classe social, hábitos e, inclusivamente, do país de origem da vítima. 19

30 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres Métodos osteoantropométricos O exame osteoantropométrico permite constatar o desenvolvimento geral do indivíduo a idade e o sexo do indivíduo, a sua constituição, a relação entre estatura e peso, o estado de nutrição e a apreciação de patologias que possam condicionar alterações do desenvolvimento (síndromes congénitos, doenças endócrinas, entre outras). Podem também ajudar a determinar a causa da morte (18) Reconstrução facial A reconstrução facial não é considerada uma prova conclusiva, por si só, mas indiciária. Permite obter um retrato a partir de fragmentos ósseos, que pode ser posteriormente difundido por álbuns de desaparecidos e pelos meios de comunicação social. O resultado desta difusão pode ser o aparecimento de mais pistas, que por sua vez podem levar à identificação Análise documental Passaportes, bilhetes de identidade, fotografias, cartões de visita, endereços e registos de números telefónicos, entre outros, são analisados de forma a poder 20

31 Enquadramento Teórico estabelecer-se uma relação com o cadáver Análise do ADN A prova genética é considerada por muitos, a mãe de todas as técnicas de identificação, mas só deveria ser realizada quando já se esgotaram todos os outros recursos de identificação sem sucesso, ou como meio de comprovar os resultados obtidos, quando existem dúvidas (19). Os seus custos são elevados, e os resultados que dela advêm são demorados. Importante também é referir que existe uma cadeia de custódia na recolha de amostras, que se falhar pode resultar na contaminação da amostra, e consequentemente resulta na falibilidade da técnica Dactiloscopia A identificação pelas impressões digitais constitui o método de identificação mais conhecido e também aquele que tem sido mais utilizado. Sublinhe-se, desde já, que o método apresenta importantes limitações. A integridade das polpas digitais constitui, com efeito, a primeira condição para a sua utilização. Em casos de incêndio ou de naufrágio as polpas digitais podem apresentar-se consideravelmente alteradas, o que pode tornar impossível a identificação dactiloscópica. 21

32 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres Importa referir que, em caso de incêndio, as polpas dos dedos ficam em geral mais protegidas que as outras partes do corpo porque a mão ao fechar-se comprime-as fortemente contra a região palmar. Todavia, Reys (13) refere um conjunto de circunstâncias em que a obtenção das impressões digitais a partir do cadáver é muito difícil, designadamente nos casos de: - dificuldade em abrir os dedos devido ao rigor mortis II ; - sujidades, tais como sangue, óleo, etc. nas polpas dos dedos; - exsicação post-mortem das polpas digitais; - desidratação após submersão em água por bastante tempo. - destruição por fenómenos de putrefacção, carbonização ou outros processos. 3.2 Técnicas dentárias de identificação A cavidade bucal é considerada a caixa negra do corpo humano (6). Na maioria dos casos, em que os corpos se encontram decompostos, esqueletizados, fragmentados, queimados ou mutilados por qualquer outra razão, é comum a dentição estar intacta e fornecer informações preciosas para o processo de identificação. Isto é particularmente verdadeiro no caso de vítimas de incêndios e desastres em massa (4). II Por rigors mortis deve entender-se um estado de rigidez cadavérica, constante mas, algumas vezes, pouco acentuado e fugaz, podendo o momento da sua aparição ser influenciado pela idade, causa da morte, temperatura ambiente, desenvolvimento muscular e outros factores. 22

33 Enquadramento Teórico Mesmo quando nada se tem, mesmo quando a vítima nunca realizou tratamentos (14) dentários, mesmo quando nem sequer consultou um médico dentista, as informações que se podem obter do exame dentário aos restos encontrados, podem contribuir com dados úteis para a investigação policial. Além de permitir identificar ossos e dentes da espécie humana, o mesmo estudo pode fornecer informações sobre a vítima que possibilitem a individualização, por exemplo, quando há casos de desaparecimento referenciados. Nestes casos os dentes podem oferecer elementos sobre o cadáver, como por exemplo: espécie, grupo étnico, sexo, idade, altura, elementos congénitos, estigmas resultantes da profissão e hábitos pessoais, estigmas patológicos, traumatismos dentários, tratamentos médico-dentários, entre outros Espécie É obvio que ninguém questionará o diagnóstico da espécie à qual pertencem certas peças dentárias, quando as mesmas se encontram fixadas nos respectivos alvéolos. Basta analisar superficialmente o crânio ou a mandíbula, para detectar se é ou não humano. De facto, o diagnóstico da espécie só constitui um problema quando apenas temos uma ou mais peças dentárias isoladas. O que interessa, nesses casos é saber se esses dentes pertencem ou não à espécie humana. Caso não sejam humanos, em regra, desaparece o interesse forense, a menos que existam razões supervenientes. 23

34 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres A característica morfológica fundamental, única dos dentes humanos e que os torna diferentes de quaisquer outras espécies animais, é que nos dentes humanos a coroa e a raiz encontram-se num mesmo plano, apresentando-se como segmentos de hastes rectas. Contrariamente, nos animais as raízes descrevem, habitualmente, curvas, exibindo uma grande angulação. Apenas os macacos antropóides mostram uma certa semelhança com a raça humana, particularmente nos incisivos e caninos. Nestes casos, que são bastante raros, torna-se necessário um exame mais minucioso e, por vezes, será mesmo necessário recorrer à Zoologia (anatomia comparada). Tratando-se de fragmentos de peças dentárias, o exame microscópico também se pode realizar Grupo étnico Do ponto de vista dentário e crânio-facial existem algumas características mais frequentes em determinada raça (20). Segundo alguns autores (21), a característica dentária mais útil na determinação da raça são os incisivos em forma de pá, encontrados em quase todos os Asiáticos Mongolóides, e em menos de 10% dos Caucasianos e Negróides. Entre os Negróides existem frequências altas de primeiros molares inferiores bicúspides e segundos molares inferiores tricúspides (16). O tamanho e forma dos dentes, incluindo os incisivos em forma de pá, o Tubérculo de 24

35 Enquadramento Teórico Carabelli, e a forma da polpa dentária, têm sido apontados como as características dentárias determinantes da raça (23) Sexo A determinação do sexo, num cadáver não identificado, constitui uma das primeiras e mais importantes fases para o estabelecimento da identificação do indivíduo. A determinação do sexo é fundamental para efeito de identificação. De salientar, desde já, que o desenvolvimento do esqueleto e o desenvolvimento dentário variam segundo o sexo, sendo mais precoces no sexo feminino. É do conhecimento geral que o desenvolvimento do esqueleto, nas raparigas, precede em cerca de um ano o desenvolvimento dentário, enquanto que a diferença nos rapazes em relação aos dentes é apenas de um a quatro meses. Quando a idade óssea e a idade dentária são semelhantes, o indivíduo é provavelmente do sexo masculino mas se a idade óssea for maior que a idade dentária, então o indivíduo é provavelmente do sexo feminino. Estas conclusões resultam de um estudo comparativo e dos resultados obtidos por Schours e col (24), sobre a idade dentária, e por Greulich e col (25)sobre a idade óssea. Conhecido o sexo, a determinação da idade fica obviamente facilitada. Relativamente à morfologia dos dentes, verifica-se que os incisivos superiores são as peças dentárias que exibem maior dimorfismo sexual e, por consequência, os 25

36 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres dentes que podem oferecer mais dados relacionados com o sexo de um crânio ou de uma vítima. Sabe-se que os incisivos centrais superiores são mais volumosos nos indivíduos de sexo masculino, do que nos de sexo feminino. Todavia, as diferenças são milimétricas. Outra diferenciação morfológica refere-se à relação entre o diâmetro mesio-distal do incisivo central com o do incisivo lateral, no maxilar superior. Este diâmetro é menor na mulher do que no homem, e na mulher os dentes têm uma regularidade maior do que no homem, isto é, são mais semelhantes entre si. Oliveira (26), estudando apenas mandíbulas e relacionando-as com a estimativa do sexo, desenvolveu metodologias específicas a padrões nacionais, onde as características consideradas foram: a altura do ramo mandibular e a distância entre os dois pontos médios do ângulo goníaco mandibular. Os valores foram posteriormente analisados estatisticamente, usando duas metodologias, a regressão logística e a análise discriminante, que demonstraram boa margem de sucesso, respectivamente de 77,7% e 78,33%, apresentando ainda através da regressão logística, um score de probabilidade de pertinência ao sexo feminino. No final o autor desenvolveu um programa informático para utilização de padrões métricos, de indivíduos brasileiros adultos, independentemente do grupo racial a que pertençam. 26

37 Enquadramento Teórico Idade As técnicas dentárias também podem auxiliar na estimativa da idade, quer em crianças, adolescentes ou em adultos (27,28,29). A erupção dentária começa por volta dos 6 aos 9 meses, com os dentes temporários, e pode prolongar-se até aos 30 anos, com a erupção do terceiro molar definitivo, que até pode mesmo nunca chegar a erupcionar (30). Durante o período de desenvolvimento do ser humano, os dentes vão erupcionando, com uma cronologia bastante precisa, dentro da variabilidade que pode existir dependendo da dieta, factores metabólicos, sexo, entre outros (Erro! Indicador não definido.). Numa dentição madura, a idade pode ser calculada com base na espessura do cemento, o tamanho da cavidade pulpar, o grau de abrasão dentária e o estado dos tecidos vizinhos. O desaparecimento dos dentes, tem como consequência o início do processo de reabsorção dos alvéolos o que, obviamente, produz modificações significativas nos maxilares. Nomeadamente, na mandíbula o foramen mentoniano que se encontra equidistante dos bordos superior e inferior da mandíbula, em consequência deste processo de reabsorção vai, gradualmente, aproximando-se do bordo superior. Da mesma maneira, o ângulo formado pela linha que acompanha o bordo posterior do ramo ascendente da mandíbula e a linha que acompanha o bordo inferior do ramo horizontal mandibular, aumenta paulatinamente a partir da idade adulta (31). 27

38 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres Figura 1. Variações do ângulo mandibular em função da idade. Da esquerda para direita: no recém-nascido, no adulto e no idoso. Modificado de Angle (31) Tabela 1. Determinação da idade pelo ângulo mandibular. Modificado de Lewis (31) Mínimo Máximo Médio Idade (anos) 110 º 135 º 130 º 5 a º 130 º 125 º 11 a º 125 º 120 º 16 a º 120 º 115 º 21 a º 120 º 110 º 26 a º 120 º 110º 36 a 45 28

39 Enquadramento Teórico Figura 2. Determinação da idade pelo desgaste da coroa. Indivíduos com mais de 30 anos de idade, modificado de Ponsold (Erro! Indicador não definido.) Gustafson (14) estabeleceu critérios múltiplos, que levam em consideração não só o fenómeno do desgaste a que os dentes estão sujeitos, como também as modificações estruturais e dos tecidos circunvizinhos. O mesmo autor fixou seis processos evolutivos, que devem ser considerados simultaneamente ou em conjunto. Cada um dos seis estágios propostos por Gustafson (14), em função da sua intensidade, é representado com um algarismo, de 0 a 3, com o prefixo A, S, P ou C, consoante se observa abrasão, dentina secundária, paradontose, ou cemento de aposição, respectivamente. O somatório dos pontos de cada dente, acaba por produzir um valor numérico. Mann (32), produziu uma metodologia para estimativa da idade biológica humana, através do estudo do intervalo de obliteração das suturas palatinas de trinta e seis peças ósseas conhecendo-se a idade, sexo e raça das mesmas. Este estudo atesta, o potencial que tem o exame das obliterações da suturas palatinas, para se estimar a 29

40 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres idade biológica dos indivíduos, contudo, os autores reconhecem a necessidade de novas pesquisas, utilizando-se amostras mais representativas. Figura 3. Esquema de 4 dos 6 estágios evolutivos do desgaste dentário. Modificado do esquema proposto por Gustafson (14) A-abrasão, S-dentina secundária, P-paradontose, C-cemento de aposição. 30

41 Enquadramento Teórico Tabela 2. Representação dos estágios evolutivos do desgaste dentário (cont.) Modificado do esquema de Gustafson (14) AO AI A2 A3 PO PI P2 P3 SO SI S2 S3 CO C 1 C2 C3 RO R 1 R2 R3 TO T 1 T2 T3 Ausência de desgaste. Desgaste leve atingindo o esmalte. Desgaste que atinge a dentina. Desgaste que atinge a polpa. Ausência de paradontose. Início de paradontose. A paradontose atinge mais de 1/3 da raiz. Atinge mais de 2/3 da raiz. Ausência de dentina secundária. Início de formação da dentina secundária. A dentina secundária preenche metade da cavidade pulpar. A dentina secundária preenche quase completamente a cavidade pulpar. Apenas cemento normal. Depósito de cemento maior que o normal. Grande camada de cemento. Abundante camada de cemento. Inexistência de reabsorção. Pequena reabsorção em manchas isoladas. Grau mais adiantado de reabsorção. Grande área de reabsorção de dentina e de cemento. Ausência de transparência. Transparência visível. Transparência atinge 1/3 da raiz. Transparência atinge 2/3 da raiz. 31

42 Contribuição da perícia odontológica na identificação de cadáveres Altura Existe um método de determinação matemática que permite o cálculo da altura do indivíduo a partir das dimensões dos dentes. A fundamentação deste método reside no facto de que existe proporcionalidade entre os diâmetros dos dentes e a altura do indivíduo. Este procedimento foi criado e aperfeiçoado por Carrea (33). Mede-se o arco de circunferência em milímetros, constituído pelo somatório, no arco inferior, dos diâmetros meso-distais do incisivo central, do incisivo lateral e do canino inferior A corda deste arco, geometricamente falando, é medida traçando a linha recta entre os pontos inicial e final - (bordo mesial do incisivo central até ao bordo distal do canino ipsilateral) - do arco. Carrea atribuiu a esta medida o nome de raio-corda inferior. A altura humana deve encontrar-se entre estas duas medidas, que hão-de ser consideradas proporcionais, uma máxima, à medida do arco, e outra mínima, proporcional à medida do raio-corda inferior. As fórmulas para fazer a estimativa da altura em milímetros, são as seguintes: 1. Altura máxima (em mm) = (Arco x 6 x 10 x 3,1416) / 2 2. Altura mínima (em mm) = (raio-corda x 6 x 3,1416) / 2 32

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