PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE LETRAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS

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1 1 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE LETRAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS O RETORNO DAS CARAVELAS: narrativas moçambicana e timorense à luz dos estudos culturais Claudiany da Costa Pereira Profª. Dr. Maria Luíza Ritzel Remédios Orientadora Tese apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor em Letras, na área de concentração de Teoria da Literatura Data da Defesa: 24/03/2006 Instituição Depositária: Biblioteca Irmão José Otão Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Porto Alegre, maio de 2006

2 2 Para Dilá, que é verdade, determinação e carinho em forma de mãe.

3 3 Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não de raças, mas de existências. (Mia Couto, Vozes anoitecidas) nenhum povo é grande por ter apenas fastos a cantar mas pelas liberdades que soube viver e pelo amor que tiver para dar. (Corrigenda - Fernando Sylvan) As ruínas de uma nação começam no lar do pequeno cidadão. (Provérbio africano) Não tenhas medo de confessar o esforço De silenciar os meus batuques E de apagar as queimadas e as fogueiras E desvendar os segredos e os mistérios E destruir todos os meus jogos E também os cantares dos meus avós. Não tenha medo, amigo, que te não odeio. Foi essa a minha história e a tua história. E eu sobrevivi Para construir estradas e cidades a teu lado E inventar fábricas e Ciência, Que o mundo não pode ser feito só por ti. (Mensagem do Terceiro Mundo Fernando Sylvan)

4 4 AGRADECIMENTOS Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Científico CNPq, pela bolsa concedida para a realização do Doutorado em Teoria da Literatura na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul; À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Capes, pelo auxílio financeiro concedido para realização do Doutorado Sanduíche na Universidade de Coimbra; À coordenadora do Programa de Pós-Graduação, representada pela Prof.ª Dr. Regina Lamprecht, pela seriedade com que desenvolve seu trabalho e pela compreensão necessária ao exercício da profissão; À Prof.ª Dr. Maria Luíza Ritzel Remédios, orientadora da pesquisa, pela amabilidade com que me abriu as portas da PUCRS, pelos muitos ensinamentos, pelo acompanhamento de sete anos de trabalho e outros tantos de cumplicidade, dos quais terei sempre muita saudade; Ao sempre terno Prof. Assis Brasil, querido Mestre, pelo apoio, atenção, afeto, amizade e interesse demonstrados durante minha passagem pela PUCRS; Aos caríssimos Professores Maria Eunice Moreira, Maria da Glória Bordini, Regina Zilberman e Vera Aguiar, pela generosidade com que desenvolvem suas aulas, compartilhando seus materiais de pesquisa e seus conhecimentos; Ao Prof. Dr. José Luís Pires Laranjeira, pela simpatia e atenção com que me acolheu em Coimbra, e pelas indicações bibliográficas que complementaram este trabalho; Às secretárias do Programa de Pós-Graduação em Letras Claudia de Los Angeles, Isabel Cristina e Mara Rejane, pelo trabalho incansável e pela disponibilidade com que resolvem nossos problemas burocráticos; Ao escritor Mia Couto, por conceder entrevista à autora desta pesquisa; Ao escritor Luís Cardoso, pela entrevista concedida, pela gentileza, entusiasmo e atenção com que acolheu às minhas solicitações; Aos queridos Esmeralda e Álvaro Lapa, pela calorosa acolhida em Coimbra; Às queridas amigas Catarina Mateus e Sílvia Brunetta, pelo apoio, camaradagem e pelos cafés durante os longos intervalos das aulas do Mestrado em Literaturas Africanas na FLUC; Ao querido Leonel Borrela; À D. Neusa Costa pelo apoio em todas as horas;

5 Aos imprescindíveis amigos: Celestina Mendes, Cláudia Mentz Martins, Clóvis Dias Massa, Fabiane Bularmaque, Mara Lúcia Barbosa da Silva, Mauro Nicola Póvoas e Susana Dalcol, com especial carinho pelos bons momentos vividos nesta nossa nação de acolhida que é a PUC; À minha família: berço, chão, abrigo, raiz e identidade. 5

6 6 ABSTRACT THE RETURN OF THE CARAVELS: MOZAMBICAN AND TIMORESE WRITING FROM A CULTURAL STUDIES PERSPECTIVE Reflecting on the literature of both Mozambique and East Timor brings us inevitably to the concept of Lusophony, taken in this paper to be the total sum of linguistic, social, economic and cultural principles that comprise the idea of Lusophony. It is not only a term that identifies a commonwealth of nations that possess the same cultural matrix and a similar historiographic core, but it is also an issue that presents itself to the contemporary world, where there is a constant culture-space interaction among the countries that integrate the set of Lusophone nations. New, emerging countries, such as the Lusophone African nations and East Timor, have been born with the scars of both civil and colonial wars, and have put their mark on a new era of the socalled Third World countries not only in the political and economic fields, but also in the cultural arena. This historical change, as observed in the social context, comes to constitute the discursive universe of the contemporary fiction of Mia Couto, from Mozambique, and Luís Cardoso, from East Timor, to be analyzed in this doctoral dissertation, through the cultural identity portrayed in the writing of both authors. Key Words: Post-Colonial Literature, Cultural Identity, Lusophone Community, East Timor Literature, Mozambique Literature

7 7 RESUMO O RETORNO DAS CARAVELAS: NARRATIVA MOÇAMBICANA E TIMORENSE À LUZ DOS ESTUDOS CULTURAIS Pensar as narrativas de Moçambique e Timor Leste remete à idéia de lusofonia, aqui entendida como a soma de princípios lingüísticos, sociais, econômicos e culturais. Mais do que um termo que identifica uma comunidade de nações, que possuem uma matriz cultural comum e um núcleo historiográfico semelhante, é uma questão posta ao mundo contemporâneo, onde há a constante interação espácio-cultural. As novas nações emergentes como as africanas lusófonas e a timorense nascem com a cicatriz das guerras civil e colonial e marcam uma nova era não apenas no campo político-econômico terceiro-mundista, como também no cultural e identitário. Essa transformação histórica observada no contexto social passa a integrar o universo discursivo da ficção contemporânea dos escritores Mia Couto, de Moçambique, e Luís Cardoso, de Timor Leste, que nessa tese é analisada sob o fio condutor da identidade cultural representada nas narrativas dos dois autores selecionados. Palavras-Chave: Literatura Pós-Colonial, Identidade Cultural, Comunidade Lusófona, Literatura Timorense, Literatura Moçambicana

8 8 SUMÁRIO Vol. I 1 SOBRESCRITO À ESPERA DE MAIS ESCLARECIMENTO PRESSUPOSTOS TEÓRICOS: DELIMITANDO TERRITÓRIOS: IDENTIDADES SEM RÓTULO: OS LOCAIS DA LUSOFONIA MICRO-HISTÓRIAS DE IDENTIDADES: O REGASTE DA HISTÓRIA NA FICÇÃO CONDICIONAMENTO HISTÓRICO: CONSTRUINDO IDENTIDADES MOÇAMBIQUE: LITERATURA A CAMINHO DA ESPECIFICIDADE CULTURAL TIMOR LESTE: INDEPENDÊNCIA E FORMAÇÃO IDENTITÁRIA NO MUNDO DA DIÁSPORA A NORMA DA ERRÂNCIA: NARRATIVAS DE MIA COUTO ESCRITA LITERÁRIA E CRÍTICA PROFISSIONAL OU TEMÁTICA NÃO É BARCO NAAVEGÁVEL A LUGAR ALGUM O LOCAL E O UNIVERSAL NA NARRATIVA MOÇAMBICANA Vozes anoitecidas: a semente da esperança Vinte e zinco: o espaço de todas as vozes Terra sonâmbula: a topografia da devastação Estórias abensonhadas: identidades em processo MOÇAMBICANIDADE EM PROCESSO OU ESTAR DESILUDIDO NÃO É DESISTIR A LUZ DO PETROMAX: NARRATIVAS DE LUÍS CARDOSO HOSPEDEIRO POR IMPOSIÇÃO HISTÓRICA LITERATURA ÀS MARGENS DA LUSOFONIA Identidades desmascaradas e literatura como protesto Retrato do artista quando jovem: Luís Cardoso e a vivência da 199 diáspora Babel contemporânea ou Ingredientes para o ressentimento histórico OS ESCRITORES E SUAS TRAVESSIAS: DILUINDO FRONTEIRAS DIGNIDADE REPOSTA: IDENTIDADES NA DIFERENÇA

9 9 6.2 O RETORNO DAS CARAVELAS OU UM AJUSTE DE CONTAS COM FIANÇA DA HISTÓRIA REFERÊNCIAS Vol. II CADERNO DE ANEXOS ANEXO A - Entrevistas ANEXO B Arte Africana ANEXO C Mapas e fotografias ANEXO D - Documentos coletados no Centro de Documentação 25 de Abril REFERÊNCIAS... 61

10 10 1 SOBRESCRITO À ESPERA DE MAIS ESCLARECIMENTO ADeclaração Universal dos Direitos dos Povos 1 estabelecida em 1976, em Argel, determina na Seção IV, Artigos 13 o, 14 o e 15 o que todos os povos têm direito a falar a língua desenvolvida no seu território denominada neste documento por sua língua, a fim de preservar e desenvolver a sua cultura. Fica estabelecido, também, que todos os povos têm o direito de não sofrer imposição de nenhuma cultura que lhes seja estranha. O período histórico em que se proclama esse Direito Internacional é posterior à Revolução dos Cravos em Portugal, movimento este estabelecido pelos Capitães de Abril em 25 de Abril de 1974, quando a maioria das colônias lusófonas já havia passado ou estava em processo de descolonização, encaminhado de forma omissa e displicente por parte da potência colonizadora 2. A imagem formada com os quatrocentos anos de dominação ultramarina corresponde à imagem da grande nação lusófona unida pela matriz cultural da língua portuguesa defendida com empenho durante o último período de exceção democrática pelo qual passou Portugal, o governo Salazarista. O domínio sobre as nações assegurava 1 A Declaração Universal dos Direitos dos Povos, proclamada em Argel (Argélia), em 04 de julho de 1976, aprovada pela Organização das Nações Unidas, pode ser conferida no Caderno de Anexos à página 40. Este documento surge da necessidade de se instituir uma nova ordem internacional, livre dos colonialismos. 2 A respeito deste assunto, que será recorrente nas discussões que seguem, incluindo a análise literária dos textos, a título de ilustração, poderão ser consultadas duas notas sobre a descolonização de Angola e de Timor Leste veiculadas pela imprensa portuguesa no ano de Tais documentos constam no Caderno de Anexos, às páginas 41 e 42.

11 11 à potência colonizadora não apenas o direito à exploração econômica e à determinação política sobre outros territórios além fronteiras, mas, sobretudo, diminuía a pequenez geográfica do país frente à Comunidade Internacional. Tal condição de inferiorização geográfica 3 sempre foi dirimida pela existência do império ultramarino e pela recorrência aos mitos históricos que envergaram estas descobertas. Com o colapso da Ditadura Salazarista em muito ocasionado pelos levantes nas colônias (13 anos antes da queda do regime fascista do qual as colônias foram, em parte, sustentáculo, Angola lutava pela autodeterminação), a imagem de nação deixou de ser difundida pela linha espácio-territorial para ser difundia pelo fio condutor da língua matriz. Alfredo Margarido (MARGARIDO, 2000) considera esta uma tentativa de mantenimento do poderio colonial hoje composto por estados autogestores, uma vez que Portugal continua sendo sede da Comunidade Lusófona e centro para onde convergem as novas culturas oriundas das nações emergentes 4. 3 A propósito desta questão, pode ser consultado, à página 30 do Caderno de Anexos, o mapa identificado pelo título Portugal não é um país pequeno, veiculado durante o período da Ditadura Salazarista em Portugal. Neste mapa fica clara a noção expressa sobre a condição territorial portuguesa, quando, no período citado, para dissimular esta realidade histórica, foi sobreposto ao mapa da Europa, o mapa das colônias portuguesas, dando, assim, a dimensão da imensa nação lusófona, propagada pelo regime de Salazar. 4 Preferimos a utilização do termo nações emergentes, ou jovens nações de língua portuguesa, mesmo que essa denominação não tenha um suporte teórico que a sustente, porque é antes de tudo uma convicção que surge em oposição ao termo nações terceiro-mundistas, que evoca uma situação político-econômica condicionada por um fator histórico unilateral. Ou seja, nenhuma colônia de exploração teve o direito de não se enquadrar no sistema colonial, cujo eixo de atuação esteve centrado na exploração dos recursos naturais e econômicos dos territórios dominados. Desgaste que confere, hoje, na contemporaneidade, o estatuto de nações terceiro-mundistas às nações emergentes do período imperialista, pela carência de recursos econômicos que enfrentam para sustentar o próprio desenvolvimento político-social interno.

12 12 A nova relação que alguns críticos reclamam por considerarem uma tentativa de neo-colonialismo 5 originou uma instituição questionável em sua eficácia social, porém inegável em sua condição material que é a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Instituída em acordo em 1996, tem Portugal como sede e integra como países-membro todos os povos onde a língua portuguesa é oficial, a saber: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, e, por último, Timor Leste. O escritor moçambicano Mia Couto e o escritor angolano Pepetela consultados em entrevistas a respeito desta comunidade dizem que ela está em vias de implementação porque para efeitos de praticidade ela ainda não funciona. O escritor timorense Luís Cardoso, em entrevista à autora desta tese, conclui: a CPLP é uma instituição de boas intenções, mas com falta de projetos comuns. Quiçá de recursos 6. Sem deixar de mencionar o ressentimento histórico com relação à colonização, Mia Couto diz que não vale a pena ajustar estas contas, e Luis Cardoso diz que Timor está mais preocupado em reconstruir-se do que em ressentir-se contra o passado colonial. Mas é inegável que essa mágoa sentida ou negada é elevada a status de discussão quando o assunto é a CPLP ou a matriz lusófona. Portanto, se daí decorre que as jovens nações se insurgiram contra a potência colonizadora, temos também que tal condição era direcionada ao chamado inimigo 5 Em alguns documentos consultados sobre o processo de libertação das colônias portuguesas, encontramos que, mesmo com a independência, o neocolonialismo foi imposto, entre outros exemplos, pela entrada e expansão das empresas multinacionais. No caso específico da comunidade lusófona, o debate se estende à finalidade desta em atender a uma necessidade do mundo contemporâneo - quando as nações sentem-se unidas por laços de afinidades econômicas, lingüísticas, geográficas e comerciais. Discute-se, também, o fato de isso ser uma forma sutil de Portugal continuar sendo o centro de um império sob a perspectiva lingüística. 6 A entrevista com o escritor timorense Luís Cardoso pode ser conferida em anexo nessa tese, às páginas

13 13 comum dos processos independentistas das colônias africanas e de Timor Leste. Isso justifica o elo estabelecido com o povo português durante os processos de descolonização e mesmo após a queda do regime fascista. No caso específico de Timor Leste, esta ligação parece complexa porque Portugal, primeiramente, abandona o território timorense sem auxiliar na descolonização e, posteriormente, na continuidade da colonização Indonésia volta sua atenção para a ex-possessão, reivindicando a paternidade pelos quatrocentos anos de colonização através dos laços lingüísticos e culturais que os uniram. Assim sendo, a relação não deixa de ser marcada pelo ressentimento, como também não deixa de ser marcada pelo reconhecimento de uma identidade que na convivência de muitos séculos marcou a identidade local; esta, por sua vez, não se sentindo identificada com o novo colonizador invoca o vínculo edípico perdido. Observamos, conforme documentos extraídos dos arquivos do MPLA, FRELIMO, PAIGC, MLSTP e FRETILIN 7, a compreensão que os militantes pró-independência tinham sobre as diferentes instâncias que integram o poderio colonial. Nos manifestos, panfletos e estatutos partidários consultados as mensagens dirigidas sobretudo à população portuguesa elegiam o governo fascista como elemento comum a ser combatido, isentando o cidadão português considerado igualmente como vítima do regime tanto quanto os indivíduos dos povos em luta pela liberdade. 7 MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), FRELIMO (Frente de Libertação para Moçambique), PAIGC (Partido Africano de Independência da Guiné e Cabo Verde), MLSTP (Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe) e FRETILIN (Frente Revolucionária Timor Leste Independente).

14 14 Assim, no cruzamento de histórias cujo fio condutor é o imperialismo econômico começado há mais de quatrocentos anos, as nações se unem por uma matriz cultural comum. A literatura oriunda das sociedades pós-coloniais e seus agentes sociais os escritores - rememoram micro-histórias vividas ou representadas pelos agentes ativos e passivos das guerras colonial e civil, assim como da descolonização e da reconstrução nacional. Lídia Jorge, Lobo Antunes, João de Melo, Álamo Oliveira e Luísa Dacosta são escritores que voltam o seu olhar de Portugal para as colônias, sendo alguns deles autores migrantes que vivenciaram a história do outro lado dos acontecimentos. Assim como Luís Cardoso e Mia Couto também voltam seu olhar para o local de origem e para a metrópole para onde também se dirigem na condição de migrantes e, no caso de Luís Cardoso, na condição de habitante do entre-lugar (BHABHA, 1998). Recompõem este imaginário devolvendo às suas nações uma identidade que esteve em stand by por algum tempo, enquanto os destinos políticos se dissolviam de um estatuto para se concretizarem em outro. As micro-histórias contadas por estes autores formam a imagem de nação lusófona contemporânea que, longe da grande epopéia de Camões, quando Vasco da Gama percorre a rota da vitória sobre a condição histórica imposta, é uma história de caravelas retornadas, de desterrados exaustos, de lutas inglórias que o peso da história não redimirá aos seus agentes, senão também como vítimas de um mito que se quis permanecer e em não podendo sacrificou os lados envolvidos até ser destituído pela ineficácia da continuidade da sua representação.

15 15 O fato é que o exílio, o entre-lugar, o desenraizamento, sendo ou não conceitos da moda, como destaca Eduardo Lourenço (LOURENÇO, 2001), são antes de tudo condições vivenciadas e, portanto, sentidas no contexto contemporâneo em qualquer lugar onde a identificação com a diáspora ou o desterro esteja presente, por situações econômicas, políticas ou socais. Retomando a idéia de abertura desta introdução sobre a Declaração dos Direitos Universais dos Povos, no que respeita ao desenvolvimento da cultura de cada nação, voltamos nossa atenção para a representação que se faz da identidade 8 cultural nas literaturas oriundas dos países emergentes. Como no exercício literário e na sua inserção social o jogo textual que dele emana precisa ser compartilhado para que se efetive o contrato estabelecido entre literatura-autor-leitor, analisamos as narrativas do escritor timorense Luís Cardoso e do moçambicano Mia Couto à luz dos estudos culturais, embasados em conceitos que são, antes de tudo, pertencentes ao universo de inserção do indivíduo diaspórico na sociedade contemporânea. A partir desses elementos extraídos do campo textual componente da obra literária, permeia-se uma análise, do exterior, dessa condição social emergente que povoa o imaginário das narrativas contemporâneas diaspóricas. Ou seja, não está aqui expressa uma análise literária que privilegie as estratégias narrativas consagradas à obra literária, realidade que não se ignora, mas, por não ser ignorada também não foi eleita como fio condutor desta pesquisa. 8 Julgamos pertinente salientar a preferência pelo uso dos termos identidade cultural social ou identidade social abrangente, em detrimento da condição designada pelo uso da expressão identidade nacional, por levar-se em consideração a questão nacional desenvolvida durante os períodos fascistas, cujo eixo de sustentação do discurso político evocava o sentimento nacionalista e o desenvolvimento da identidade nacional calcada em mitos históricos, e em narrativas de caráter ideológico-fascista construídas para alicerçar estes governos.

16 16 Salientamos, igualmente, o fato de que as narrativas oriundas das nações diaspóricas, escritas por indivíduos diaspóricos, não ignoram a tradição literária em que estão inseridas, pelo contrário, por conhecer essa tradição é que inovam na sua forma de inserção no mundo, porque também elas não são um retrato do que existe no mundo como forma histórica vivida, mas são justamente pertencentes a uma nova ordem do vivido e, assim sendo, do simbólico representado. Aproximam-se, com isso, na ânsia da representação e na afirmação de uma identidade em constante construção, do discurso histórico recente ou próximo da formação do país. Não o retomam, entretanto, sem o distanciamento crítico e, por vezes, irônico predominante na narrativa considerada por Linda Hutcheon (HUTCHEON, 1991) como pós-moderna, ainda que tal narrativa não seja entendida, especificamente, como sinônima de contemporâneo, sendo antes uma tendência que se observa nos estudos contemporâneos. O retorno crítico, irônico e paródico ao passado recente ou distante ocorre através do distanciamento do que é vivido, ou do que é representado, e o autor posiciona-se enquanto sujeito histórico que é condicionado pela realidade circundante e agente passivo ou ativo da transformação que se processa na sociedade por via do seu discurso ficcional. Nossa pesquisa, partindo da premissa de Benedict Anderson (ANDERSON, 1989) de que nações são comunidades imaginadas, de Homi Bhabha (BHABHA, 1998) de que as nações se imaginam através de suas narrativas, e de Stuart Hall (HALL, 2003) de que a impureza é a forma como o novo entra no mundo, segue o percurso das narrativas escritas na pós-independência de Moçambique e Timor Leste para ver como se

17 17 processam suas identidades e como formulam o imaginário simbólico de nação no momento do construto histórico. Segundo Stuart Hall, estas questões de como as novas nações se imaginam são centrais não apenas para seus povos, mas para as artes e culturas que produzem, onde um certo sujeito imaginado está sempre em jogo (HALL, 2003, p. 26). Ao estudarmos as literaturas nascentes das jovens nações pós-coloniais vários pontos são importantes para discussão. Um deles, especificamente, diz respeito ao lugar que essa literatura ou os autores assumem na história da literatura de seu país. Em Timor Leste, tal aspecto pode ser constatado em seu processo germinativo. Alguns autores escrevem sobre Timor Leste do exterior, bem como timorenses escrevem fora dos limites territoriais da pátria afetiva. Seja como tema ou nacionalidade a representação literária deste jovem país está se fazendo na esteira das duas vertentes. Se futuramente poderão ser deslocados do universo crítico da história da literatura autores não genuínos, ou se a literatura por eles produzida receberá outra denominação, são questões à descoberta. No entanto, é importante lembrar que tanto Ruy Cinatti, quanto Ponte Pedrinha, Xanana Gusmão ou Luís Cardoso têm o mérito de fazer voltar os olhos para essa terra distante, pertencente ao nosso imaginário de comunidade que se reconhece através da língua portuguesa. Se a observância do nascimento da literatura brasileira nos permitiu vislumbrar movimentos como o Romantismo, cuja tendência estética partiu de um imaginário que não dava conta da realidade social, as literaturas nascentes africanas de língua portuguesa e timorense nascem sob o signo da representação intensiva da realidade social, a qual inclui 400 anos de colonialismo

18 18 português, governo ditatorial, guerra colonial, guerra civil, investida Indonésia e processo de descolonização. A cosmovisão africana e timorense é aqui abordada como representação de um universo social. Se, de acordo com Lukács (LUKÁCS, [s.d]), o romance é representativo do mundo moderno em sua relação com o contexto social, o contexto de onde emergem essas literaturas está representado em sua ficção e não necessariamente precisa passar pelos parâmetros estéticos eleitos pela herança cultural do ocidente para ser legitimada. Portanto, o patrimônio literário dessas nações precisa ser analisado enquanto resistência (ou recusa) à idéia de civilização européia e não em comparação com o mundo ocidental, para quem a lógica mítica foge à convenção herdada pela sociedade. Quando o assunto foi literatura africana o material recolhido levou-nos a um contacto mais direto com o imaginário das guerras colonial e civil, num primeiro plano, em outro, o contato com indivíduos cujas famílias participaram ativamente da guerra proporcionou-nos uma compreensão alargada do sofrimento causado também ao elemento que ocupa na metrópole a condição de imperialista ou colonizador, esclarecendo que este fenômeno gera malefícios em todas as instâncias em que se manifesta. Por último, mas não menos importante, porque as imagens de nação imprimidas a estas sociedades não se desviam quer do imaginário construído pela imprensa, quer do imaginário representado pelas narrativas deste fenômeno histórico que constituía o imaginário dos livros escolares (estudávamos as guerras pelo viés por vezes abonador da história), nos casos aqui citados estes fenômenos, sobretudo o que

19 19 diz respeito a Timor Leste, puderam ser observados (em seu desenrolar histórico) na contemporaneidade. As discussões apresentadas sobre literatura africana são fruto da leitura de críticos africanistas e de questões consideradas tabus no estudo dessa literatura. Não procuramos legitimar nenhuma das abordagens, mas chamamos a atenção, entretanto, para o fato discutido (mas nem sempre respeitado) acerca do tratamento dado a essa literatura não raro denominada fantástica. Alguns argumentos se repetem como, por exemplo, a discussão em torno da cor da pele do escritor africano ser ou não representativa de sua importância literária, enquanto elemento de representatividade do seu país. Argumento envolto, certamente, pelos resquícios do movimento da Negritude africana, afirmação extremamente necessária no momento histórico vivenciado, que é distinto do contexto da atualidade. Observa-se no elenco de escritores moçambicanos contemporâneos que Moçambique, sua gente e sua cultura mesmo sendo influenciados pela ocidentalidade não se sentem identificados pelas mesmas regras sociais, morais e religiosas que caracterizam essa cultura. E essa particularidade para nós é imprescindível, pois a cultura moçambicana não sendo pautada na mesma matriz cultural do Ocidente não pode ser regida, igualmente, pelos mesmos padrões de análise social, moral e religioso destinados à literatura canônica. Assim sendo, conceitos como realismo mágico ou maravilhoso (TODOROV, 1992) podem não definir o que, nas palavras do autor Mia Couto, é a representação indispensável de quem quer retratar a mundividência moçambicana. Não nos passa despercebido o fato de que Moçambique completa 30 anos

20 20 de história política pós-independência, enquanto Timor Leste completou três anos de autogestão em 2005, configurando a forma interstícia como vão prosseguindo as formações identitárias no pós-colonialismo. O que aproxima estes autores é que ambos são expoentes literários do seu local de origem, e o que os distancia, num primeiro plano, é o fato de um, Luís Cardoso, rememorar histórias vividas, enquanto o outro, Mia Couto, narrar um imaginário construído pela observação do cenário social. Para desenvolver essa proposta, a tese foi assim estruturada: o capítulo intitulado Delimitando Territórios introduz os estudos sobre nação e identidades nas sociedades pós-colonias, bem como o viés de abordagem da literatura através das micro-histórias ficcionais; Construindo Identidades trata dos locais da lusofonia através das particularidades nacionais dos complexos culturais eleitos para discussão; Muito Oralmente contém a análise das narrativas de Mia Couto 9 considerando as imagens de nação moçambicana e a formação da identidade africana daí depreendida; À Luz do Petromax analisa narrativas de Luís Cardoso 10 que privilegiam elementos como hibridismo lingüístico, identidades associativas e desenraizamento cultural, no que eles contribuem para a formação da imagem de nação timorense; Diluindo Fronteiras, capítulo conclusivo, trata da análise literária comparativa dos dois complexos culturais distintos em seus elementos conformativos ou destoantes, que delimitam a forma como o novo entra no mundo. 9 Serão analisadas as obras Vozes anoitecidas, Terra sonâmbula, Vinte e Zinco e estórias abensonhadas. 10 A obra analisada é Crônica de uma travessia, seguida de comentários sobre Olhos de coruja olhos de gato bravo e A última morte do Coronel Santiago.

21 21 A proposta apresentada na tese teve como ponto de partida as disciplinas oferecidas pelo Programa de Pós-Graduação em Letras desta Universidade, na área de Tópicos de Literaturas Lusófonas, e, antes disso, de Literatura Portuguesa Contemporânea, todas ministradas pela orientadora da pesquisa, Profa. Dr. Maria Luíza Ritzel Remédios. Posteriormente, a pesquisa foi estendida ao Centro de Estudos de Culturas de Língua Portuguesa (CECLIP), cuja atividade se volta ao estudo da Literatura Portuguesa, Brasileira, Africana Lusófona, e, a partir desta pesquisa, alarga-se o horizonte de expectativa do CECLIP para abranger a literatura de Timor Leste.

22 22 2 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS: DELIMITANDO TERRITÓRIOS Restaurar a dignidade ofendida: quem se identifica no pós-colonial? Otermo cultura na sociedade contemporânea, sobretudo na sociedade ocidental pode adquirir diversas significações. Analisada sob a perspectiva do senso comum, cultura remete a um código de refinamento ou aprimoramento intelectual que abrange obra de arte, livro, revista, jornal, elementos que pertencem a um mundo em que a decodificação e o acesso escapam ao poderio econômico das grandes camadas sociais. Do ponto de vista acadêmico, o conceito adquire pelo menos duas concepções distintas: uma remete ao imaginário simbólico social, que são as características não inatas, mas criadas, assimiladas e transmitidas num meio social específico (que também podem ser antagônicas à atividade escrita ou em outras palavras, transmitidas oralmente), como também pode ser o conjunto de valores estabelecidos pela mídia, que caracterizam a denominada cultura de massa. Os conceitos se solidificam em confrontamento ou complementarização uns com os outros. Assim, os códigos que regulam a ação humana na sociedade contemporânea, bem como a compreensão de cultura retratam a existência da alteridade como elemento social, diverso de nós, e também da alteridade cultural ou identitária. As afirmações identitárias coletivas não mais se distinguem somente em temos nacionais, como foi observado ao longo da história. Se, num primeiro momento, quando

23 23 florescem os novos Estados após a Revolução Francesa a identidade das nações surge como meio de afirmação de ordem política e simbólico-ideológica (BALAKRISHNAN, 2000, p. 239) diante das outras, na contemporaneidade, associa-se a essa identificação cultural a busca por traços de similitude. Tais semelhanças culturais podem ocorrer no âmbito econômico, como no caso da União dos Estados Europeus (U.E.E.), lingüísticocultural, como no caso da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), continental, como a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). A identidade no mundo globalizado antes de ser algo que diverge é, também, além da identidade marcada pela diferença, identificação por agrupamento. O agrupamento torna-se possível, sobretudo no caso dos jovens Estados nacionais, pelo reconhecimento de que constituem complexos culturais cuja diversidade, multiplicidade e hibridismo são realidades da nova ordem mundial que passou a integrar a compreensão do mundo contemporâneo, mas pela inserção no contexto histórico de onde emergem mantêm-se ligadas a um passado imemorial através dos antigos Estados nacionais. Se no passado que remonta ao expansionismo ultramarino a idéia universalizante de civilização justificou o enfrentamento decorrido do choque cultural entre Velho e Novo Mundo nas Américas, na África e na Ásia (TODOROV, 1999), no presente, a noção particularizante de cultura (o simbolismo que pauta as relações contemporâneas) deveria evitar que os conflitos se repetissem com a mesma barbárie. Ernest Renan (RENAN apud ROUANET, 1997) afirma que se quiséssemos identificar traços distintivos entre as nações na Antigüidade não poderíamos confundi-

24 24 las entre si uma vez que cada individualidade nacional possuía costumes, hábitos e língua (na realidade sabemos que possuía cultura) comuns. E as pequenas ou grandes comunidades que se identificavam por elementos afins eram o que denominamos de nação. Por isso, as nações são também designadas como artefatos culturais, comunidades imaginadas (ANDERSON, 1989) que já existiam na história, mas com o desdobrar dos séculos e na contingência da evolução social intercambiam os conceitos em novas realidades sociais e históricas. Ainda na atualidade, numa análise superficial da sociedade recente, verificamos que o significado abrangido pela noção de cultura por mais particularizante que se apresente identificando a relação de alteridade existente entre os povos, não impede os confrontos culturais, religiosos, étnicos, políticos e econômicos que ainda ocorrem. Mesmo com a máxima evolução dos conceitos através do progresso científico, tecnológico e social ainda existem nações impondo-se culturalmente ou economicamente umas às outras. O escritor moçambicano Mia Couto numa crônica dedicada à análise dos atentados de 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos da América reflete sobre a questão e conclui: o que se pretende em toda e qualquer guerra não é apenas ganhar. É abolir o inimigo, dissolver o Outro. É fazer desaparecer não apenas o adversário, mas todo o seu mundo. Pretende-se anular a sua história, apagar a sua memória (COUTO, 2005, p. 42). Podemos citar como exemplo do que foi acima exposto e colhendo o ensejo do momento histórico a que o autor refere a nação norte-americana que parece repetir os padrões civilizadores que dominaram o contexto histórico dos grandes descobrimentos,

25 25 ao impor sua hegemonia cultural e econômica e, sobretudo, ao pretender homogeneizar as divergências culturais que pontuam as identidades sociais abrangentes na contemporaneidade. Fato que pode ser outorgado pela Constituição norte-americana, mas, nem por isso, obriga-nos a aceitá-lo como argumento irrefutável. Ao exercer a dominação de uma cultura sobre a outra os elementos de ambos os lados hibridizam-se nessa convivência, seja no aspecto rácico, pois geram novos cruzamentos; no aspecto lingüístico, pois comunicam e trocam experiências entre si, apropriando-se e recriando elementos de seus códigos de comunicação, e nos costumes, pois se misturam no mesmo cenário geográfico e social. Esta realidade em essência multicultural e heterogênea compõe a formação identitária das jovens nações pósindependentistas. Os países africanos de língua portuguesa e Timor Leste, que constituem as últimas colônias portuguesas existentes na geografia mundial, conquistaram sua liberdade política por intermédio de conflito armado e hoje estão em processo de reconstrução identitária, ou, como refere Mia Couto, estão reconstruindo uma memória violada, irrecuperável porque está miscigenada com a do colonizador. Tal fato tomado isoladamente no que diz respeito à Comunidade Lusófona, ou em conjunto por constituir uma nova ordem mundial determinante da forma como o novo entra no mundo (HALL, 2003), consiste em um importante legado cultural. Desse confronto específico as lutas independentistas empregadas contra o sistema colonial - surge o ressentimento histórico gerado pelos Descobrimentos, mote temático que integrará uma parcela considerável da ficção contemporânea em língua

26 26 portuguesa. Não significa que as nações colonizadas estejam sempre a cobrar esta conta, mas não significa igualmente que ignorem esse processo de subjugação político-cultural. Se tomarmos como exemplo a sociedade brasileira, dentro da Comunidade Lusófona, veremos que a violência urbana embora assuma contornos distintos dos adotados nas guerras coloniais não deixa de compor uma marca identitária dessa nação no exterior. A imagem que se forma não é apenas a da cultura carnavalesca, porque centenas de pessoas morrem nas guerras civis não declaradas como a ocorrida no momento da escrita desse trabalho no Rio de Janeiro, na Favela da Rocinha 11. E essa realidade também tem integrado o discurso ficcional contemporâneo brasileiro. Invasões, intercâmbio cultural e dominação de território fazem parte da história da humanidade. No caso das novas nações como as integrantes da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) essa dominação é presente e cotidiano. Por isso as discussões acerca desse assunto nunca se esgotam, quer no âmbito político, quer no econômico ou no cultural. Estas nações emergentes que nascem com a cicatriz das guerras civil e colonial e do estigma de terem sido colônias de exploração marcam um novo imaginário simbólico circunscrito para além da fronteira da língua portuguesa. São novos cânones que estão formando história ao longo desse universo cultural. No campo literário, da teoria literária aos estudos culturais, já não podemos categorizar as obras literárias oriundas destas sociedades seguindo os padrões clássicos vigentes, os estudos 11 Referimo-nos ao conflito armado que recebeu reforço do exército nacional, para conter a luta entre traficantes de duas favelas rivais na cidade do Rio de Janeiro. Começado no dia 09 de abril de 2004, mesmo que tenha acabado o conflito, há ainda a agonia de esperar por uma solução que seja permanente, que não ratifique a imagem de que a violência está inserida como elemento identitário da cultura brasileira.

27 27 culturais nascem, assim, da necessidade de preencher esse hiato entre o discurso academicista e a nova prática social. As inovações lingüísticas observadas na escrita do angolano Luandino Vieira e do moçambicano Mia Couto; a perspectiva do universo feminino, da cultura tribal moçambicana e da força da dominação masculina representada na obra dos moçambicanos Paulina Chiziane e Luís Bernardo Honwana; a descrição do espaço local (descrito porque desconhecido) na obra do timorense Luís Cardoso e do brasileiro Sérgio Faraco; e as canções e poesias de protesto de Zeca Afonso e Xanana Gusmão são a expressão de uma sociedade oriunda do contexto imperialista e globalizado, capitalista e subjugado. Mesmo as nações mais jovens como Timor Leste têm suas vozes de protesto a narrar histórias de guerras, mas também de esperança e reconstrução identitária. Consideramos necessário, portanto, trazer para o centro de discussão o universo dessa literatura que ainda precisa reivindicar seu espaço para ser reconhecida. Ocorre que a realidade social vivenciada hoje é a realidade destas nações emergentes - embora não somente delas - e não dos antigos porém clássicos padrões estéticos. 2.1 IDENTIDADES SEM RÓTULO: OS LOCAIS DA LUSOFONIA Pensar a formação identitária na sociedade recente, sobretudo como se processa esse fenômeno sócio-político e cultural nas nações lusófonas; compreender quando passa a existir na história, quer como idéia, quer como entidade política e questionar o

28 28 que vem a ser identidade social abrangente são questões que remetem a uma gama de possibilidades de discussão, seja teórica, histórica, sociológica e antropológica. Podemos traçar o perfil evolutivo desses conceitos partindo da Era das Revoluções, porque nesse contexto histórico iniciado no século XVIII as modernas nações passaram a se identificar como estados independentes e nacionais. Nas lutas por liberdade buscavam afirmar uma identidade própria que fosse representativa da comunidade de indivíduos antagonistas dos governos autoritaristas vigentes. Esta vem sendo, salvo corte diacrônico, a mesma realidade vivenciada pelos países-membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Uma vez tendo conquistado suas independências pela ação da guerrilha estas nações encontram-se, hoje, em processo de identificação coletiva, o que pressupõe o mascaramento das especificidades culturais sociais em oposição a plataformas de governo homogeneizantes lingüística, cultural e politicamente. Os movimentos de independência política mostram num primeiro plano um desejo conjunto de identificação. E a partir da identificação coletiva e da representação imaginária coletiva é que se formam os preceitos componentes de nação. Ou seja, no plano do discurso as nações se constituem no momento em que os indivíduos identificam-se coletivamente (ou, em outras palavras, quando se tornam comunidades imaginadas) por laços que podem ser de raça, etnia, língua, história e limites territoriais. São os discursos históricos e também literários que trazem para a realidade histórica as nações como construtos imaginários ou narrações.

29 29 Duas questões são imperativas quando pensamos as origens de nação e identidades na sociedade moderna. A primeira questão parte da identificação para o conceito de coletividade. Seria o caso de indivíduos que enquanto coletividade possuem elos ou matrizes culturais afins e, por isso, reconhecem-se como nação e agrupam-se nesta identidade comum, como a Comunidade Lusófona. Ou, no segundo caso, por terem uma identidade comum (história, língua, cultura, memória, esquecimento) reconhecem-se como nação, a exemplo das nações moçambicana e timorense. Partindo da idéia de nação como entidade política, constructo ideológico e espaço de identificação buscamos compreender seu lugar na história e sua inserção no mundo contemporâneo a partir de Ernest Renan. A teoria desenvolvida por este historiador remete ao contexto histórico do século XIX, enquanto outros estudiosos aqui mencionados desenvolvem suas teorias nas últimas décadas do século XX, momento posterior ao nascimento das novas nações oriundas do sistema colonial e do colapso de modelos políticos até então vigentes. Algumas destas teorias estão em conformidade com a teoria de Ernest Renan e buscam a essência do conceito de nação desenvolvido por este historiador, como é o caso de Benedict Anderson e a idéia de comunidade imaginada, de memória e de esquecimento. Ernest Renan fala em comunidade imaginada como algo que se forma não somente pela identificação lingüística de um povo ou pelos traços de raça e etnia, como também por um sentimento de união e fraternidade em torno de uma história comum que todos são capazes de esquecer e rememorar. Nesse sentido, Benedict Anderson

30 30 (ANDERSON, 1989) diz que nação como uma nova idéia 11 é um conceito ao mesmo tempo concreto e abstrato, pois existindo em sentido evolutivo às antigas formas de organização política, que são os reinos dinásticos e as comunidades religiosas, a idéia de nação é dotada de um forte sentimento de pertença pelo qual as pessoas são capazes de combater, matar e morrer. Entram neste imaginário as memórias de guerra que Walter Benjamin (BENJAMIN, 1993) diz ser das poucas experiências humanas que o homem não é capaz de comunicar: não, ao menos, enquanto elas ainda são experiências próximas do quotidiano. Há traços que indiscutivelmente são abordados ao longo da história como sendo constitutivos ou definidores das identidades nacionais, sendo eles a raça, a etnia, a língua e o limite territorial. Ernest Renan analisa cada um deles através das especificidades que poderiam torná-los elementos identificatórios, mas que deixam de ser na medida da sua incompletude representativa. A Europa desde a desintegração do império de Carlos Magno passa a se reorganizar sob a forma de pequenas nações que, em dado momento da história, pretenderam exercer hegemonia sobre as demais sem, no entanto, conseguirem fazer disso uma conquista ininterrupta justamente por causa desse sentimento identitário que une os indivíduos em traços comuns e afins e os torna uma comunidade imaginada. Ernest Renan compreende nação como uma idéia também originária das conquistas concretizadas por invasões de territórios, cujo imaginário coletivo se 11 Eric Hobsbawn (HOBSBAWN, 1990) salienta que a novidade da nação é ser um conceito político e um construto ideológico uma vez que, destaca Ernest Renan, traços distintivos de nação existiram na evolução da história social.

31 31 reproduz pela rememoração e pelo esquecimento: a essência de uma nação é que todos os indivíduos tenham muito em comum, e também que todos tenham esquecido muitas coisas (RENAN apud ROUANET, 1997, p. 20). O esquecimento, como elemento constitutivo da idéia de nação contribui para a construção de uma identidade sólida e soberana, segundo Renan, ao contrário do rememorar ruínas que poderia excitar antigos ressentimentos infecundos para compor a unidade desejada. Sobre essa questão, salienta o autor: é por isso que o progresso dos estudos históricos é muitas vezes um perigo para a nacionalidade (RENAN apud ROUANET, 1997, p. 19), pois eles trazem à tona elementos históricos que deveriam ser esquecidos para a constituição de uma nação livre das amarras do passado. A lembrança de determinados fatos gerados pela violência, por mais necessários que tenham sido para a conquista da autodeterminação dos territórios, ao serem rememorados, não raro, acirram os ressentimentos históricos. Entretanto, ao pensarmos sobre o contexto contemporâneo estabelecendo como foco de análise as nações lusófonas percebemos que rememorar os fatos passados, por um lado, torna-as identificadas com uma comunidade maior, cujo mapeamento atende aos critérios lingüísticos e históricos; e, por outro, esta mesma amarra histórica pautada nas relações imperialistas foi o motivo que as impulsionou a se tornarem nações independentes. Tese que reforça e atualiza o argumento de Ernest Renan de que nação, antes de tudo, precisa ser identificação coletiva não dependendo somente da autoridade muito embora possa dela emergir (como afirmará posteriormente Benedict Anderson), mas a autoridade sem a projeção coletiva do nacionalismo não se sustenta.

32 32 Ao pensar sobre os traços identificadores e determinantes das nações Renan diz, em primeiro lugar, que o conceito de raça é limitado, pois mesmo os países que se julgam mais nobres em sua ascendência têm na sua origem o sangue misturado dos invasores e dos rendidos. Enquanto para os antropólogos raça tem sentido semelhante ao de permanência e, em zoologia, de parentesco de sangue, para os historiadores - e aí se insere Ernest Renan - tem sentido transitório e distinto de pertença e familiaridade. Em segundo lugar, o autor analisa o artefato lingüístico também considerado na sua incompletude. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, para exemplificar o contexto cultural em discussão neste trabalho, parte da matriz cultural centrada na língua portuguesa porém não na mesma língua portuguesa -, e cada país-membro constitui um Estado nacional, fato que, se levássemos em consideração a teoria de Ernest Renan para esta realidade nos impediria de considerá-las comunidades que se imaginam por possuírem uma matriz comum. Fica expresso, assim, que o conceito que Renan atribui à nação parte da formação dos Estados nacionais considerados como individualidades históricas. E, então, adotamos a noção de Benedict Anderson, porque nos permite considerar as nações, na contemporaneidade, como agrupamentos por afinidade. A terceira proposição centra-se no princípio religioso que não serve de unidade para o estabelecimento de uma nação, muito embora Benedict Anderson afirme mais tarde que as modernas nações derivam também de comunidades religiosas, que se faziam reconhecer por seus signos sagrados. Já no período histórico em que Renan profere sua conferência, religião ou crença se tornaram algo individual e, portanto,

33 33 sectário. A quarta consideração do historiador volta-se à comunhão de interesses, que é um elemento importante para a união entre os homens. Esta, segundo Ernest Renan, é responsável pelos frutíferos acordos comerciais e pelos laços político-econômicos internacionais, mas não é imprescindível para compor uma nacionalidade. Os limites territoriais, para o historiador, desempenham uma função importante na formação nacional, uma vez que abrigam uma infinidade de indivíduos que coabitam o mesmo solo e que se sentem unidos por esse laço. Porém, os limites geográficos tomados individualmente, ou aliados aos quatro elementos anteriormente citados, não são responsáveis pela consolidação de uma nação, pois o que a constitui e a torna indissolúvel é o indivíduo. E é exatamente aqui que queríamos chegar ao buscar os conceitos deste historiador para embasar os traços identitários de nação: no tecido humano que a compõe. Esse é o elemento fundamental na constituição de uma nação, o que a torna, antes de tudo, um princípio espiritual que nos permite analisar, também, as micro-histórias ficcionais como constitutivas de um imaginário que é individual e coletivo concomitantemente. Por ser princípio espiritual pautado no homem a nação carrega em si características intrínsecas ao ser humano como, por exemplo, a memória, que é também o revés do esquecimento. Os indivíduos têm em comum um legado de lembranças que podem partilhar como herança dos antepassados e podem também cultivar para a posteridade, fazendo desse legado ou dessa matriz cultural ancestral uma identidade na diferença. Ernest Renan enfatiza que o homem é o princípio da nação e não pode ser improvisado: a nação, como o indivíduo, é o resultado de um longo passado de

34 34 esforços, de sacrifícios e de devoções (RENAN apud ROUANET, 1997, p. 39). Deste passado permanece a memória, a omissão e o esquecimento do que é sensível à composição da identidade de uma nação. Um princípio basilar observado no conceito de Ernest Renan é que nação seja uma grande solidariedade constituída pelo sentimento dos sacrifícios que fazemos e daqueles que ainda estamos dispostos a fazer. Teoria que será ampliada por Benedict Anderson e Homi Bhabha, e de onde se desenvolve, portanto, o labirinto conceitual contemporâneo acerca desse assunto. Em princípio, Anderson considera nação uma grande fraternidade, tal como formula Renan. Já Homi Bhabha diz que as nações se constroem através do discurso, o que Ernest Renan enfatiza quando salienta que a nação pode ser construída, desconstruída ou compartilhada entre os seus compatriotas através dos elementos já citados como a memória, a omissão e o esquecimento. Outro ponto de discussão das modernas teorias que tem seu embrião plantado em Ernest Renan é o que trata da identificação coletiva, que torna um povo capaz de matar e morrer por causa do sentimento que o une, ao que Anderson chama de fraternidade em larga escala (ANDERSON, 1989). Amin Maalouf (MAALOUF, 2001) no recente livro intitulado Identidades asesinas diz que a insistência do indivíduo ou da nação em assumir para si uma identidade unitária e, portanto, excludente - é o que acirra hoje as guerras étnicas, as segregações sociais e raciais. Logo, se o sentimento de fraternidade é suficiente para unir os indivíduos componentes de uma nação, em um dado momento, esse fato tomado isoladamente não garante a identidade na unificação, mas na diversidade. Segundo Amim Maalouf: la identidad no se nos da de una vez por todas, sino que se

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