Contribuições da Clínica: problematizando o discurso parental sobre a criança com deficiência

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1 CONTRIBUIÇÕES DO DIALOGISMO PARA A ANÁLISE DAS VOZES DO DISCURSO PARENTAL DA CRIANÇA COM DEFICIÊNCIA Introdução Fernanda Dias 1 Este trabalho tem como objetivo apresentar as primeiras considerações teóricometodológicas para analisar as vozes do discurso parental em relação ao filho com deficiência. Trata-se das reflexões iniciais de um projeto em fase de elaboração, que busca compreender como tais vozes manifestam-se no discurso sobre o nascimento de uma criança com algum transtorno do desenvolvimento. Uma das muitas maneiras de interação é a linguagem verbal. Contudo, ela é uma das mais complexas, por isso é a última a estruturar-se. Sua evolução satisfatória depende do desenvolvimento das comunicações mais primárias. Neste processo, o papel da mãe (ou quem exerce esta função) é fundamental. A convocação parental para o ingresso do filho no mundo da língua será imprescindível para possibilitar a apropriação da linguagem infantil. Se o infante apresenta alguma desordem do desenvolvimento, podem surgir dificuldades neste processo. A família recebe, no lugar daquele filho tão esperado, um bebê diferente. Se o discurso parental não sustenta um lugar para o filho, a linguagem torna-se fragmentada e a criança é impedida de ocupar o lugar de sujeito do seu discurso. Dessa maneira, é fundamental que se considere a influência do discurso parental nestas aquisições, uma vez que o sujeito é inserido na linguagem pela fala dos pais (ou quem exerce tal função). O estudo a ser desenvolvido pretende realizar uma reflexão sobre a maneira como o discurso parental e a interação mãe-filho podem interferir dialogicamente no processo de apropriação da linguagem da criança com deficiência. Para tanto, serão discutidas questões referentes à função parental, bem como os aspectos estruturais e instrumentais do infante, especialmente os aspectos linguísticos. O cenário descrito contextualiza o discurso familiar a ser analisado, permitindo observar nos enunciados como as diferentes vozes que os constituem entram em interação. Tendo como pressupostos teóricos a teoria dialógica do discurso (Bakhtin, 2003, 2004), complementada pelas considerações da Clínica da Fonoaudiologia na primeira infância, pretende-se desenvolver subsídios para a análise do discurso dos pais quanto ao desenvolvimento linguístico dos filhos com deficiência. Almeja-se também, tomando a teoria bakhtiniana, que trata da intrínseca relação entre a língua e a vida, analisar as relações dialógicas como produtoras de subjetividade e sentidos. Pressupostos teóricos Contribuições da Clínica: problematizando o discurso parental sobre a criança com deficiência Desde os primeiros tempos de vida do bebê, já existe diálogo entre ele e sua mãe, mesmo sem palavras do pequenino. Ferreira (2005) refere que na forma 1 Fonoaudióloga, especialista em Psicopedagogia e Terapeuta em Estimulação Precoce, mestranda em Linguística/Letras PUCRS. Bolsista CAPES

2 característica de falar com bebês, o manhês, é possível observar que a mãe inclui a fala do seu bebê no seu próprio enunciado, pressupondo um interlocutor. Também é importante destacar que, antes mesmo do nascimento da criança, há toda uma expectativa quanto a sua chegada, acompanhada por projeções diversas e fantasias. Na grande maioria das vezes, o bebê idealizado é saudável, inteligente, belo. No entanto, nem sempre ocorre o esperado. Uma criança com problemas no desenvolvimento certamente frustrará os que esperavam um filho sadio, já que o bebê real, com limitações, está muito distante daquele idealizado, tão aguardado e desejado. Considerando, desse modo, o nascimento de um bebê com deficiência, rompendo, muitas vezes, as expectativas dos pais, faz-se necessário questionar que imagem será construída dessa criança no discurso familiar. Retomando a idéia do quão necessário se faz a convocação parental para o desenvolvimento da criança, inclusive o linguístico, deve-se considerar a possibilidade de o bebê com deficiência ser relacionado com uma imagem de incapacidade. Nessa perspectiva, um espaço de investigação que se coloca é referente à possibilidade ou não de o discurso parental sustentar um lugar de filho, de sujeito em pleno desenvolvimento, para esta criança. A escuta do discurso familiar pode ser importante no sentido de identificar indicadores que marquem esta (in)capacidade de desenvolvimento linguístico da criança. Assim, é possível encontrar questões a serem prevenidas na clínica de transtornos da linguagem. A pesquisa contará com contribuições da clínica fonoaudiológica da primeira infância, no sentido de contextualizar a problemática clínica que perpassa a relação mãe-filho com deficiência. Desse modo, é possível apontar para a linguística como estes aspectos podem elucidar as questões encontradas nas análises dos discursos familiares. A linguagem, entendida a partir desta visão da clínica da primeira infância, destaca a importância da função parental para a estruturação linguística da criança. A maneira como a mãe se dirige ao seu bebê tem, portanto, função constituinte da linguagem. Nesse processo, a mãe ou cuidador consegue ouvir as manifestações do seu filho, as quais contemplam desde o choro até movimentos corporais. A importância de supor significação nessas primeiras ações do infante é salientada por Jerusalinsky (2007). O autor refere que a mãe toma as manifestações infantis como uma demanda endereçada a ela. Cavalcante (2005), por sua vez, ressalta a importância do deslocamento de lugares discursivos entre a mãe e seu filho, favorecendo o surgimento da linguagem infantil inclusive com os silêncios maternos, suas pausas durante o diálogo face-a-face, que aguardam ansiosamente as primeiras palavras do bebê. Entretanto, é preciso lembrar que a criança com deficiência apresenta limitações as quais podem impedir que a suposição de pleno desenvolvimento deste filho se manifeste na expectativa dos pais. O diagnóstico e a história de problemas no desenvolvimento podem diminuir as expectativas familiares quanto ao infante. As falas que permeiam o discurso parental podem pressupor ou não uma capacidade da criança de vir a ser falante. O discurso materno ou paterno pode ser visto como um espelho, no qual o filho vê sua própria fala refletida. A imagem que ele reflete é o objeto da pesquisa em questão. 156

3 Teoria Dialógica: a relação eu / outro na linguagem A teoria dialógica do discurso, extensamente desenvolvida pelo Círculo de Bakhtin, fundamentará a análise proposta neste estudo. O dialogismo é um princípio relacional constitutivo da linguagem e do discurso, sendo todo sujeito dialógico, pois seu enunciado provém do diálogo com o outro (discurso e sujeito). Bakhtin (2003) afirma que todo enunciado dirige-se a alguém e é suscitado por algo, o que o configura como um elo real na cadeia da comunicação discursiva. Assim, pode-se dizer que o nosso discurso é pleno de palavras do outro, que são modificadas e ressignificadas em nosso enunciado. Os enunciados do outro não são indiferentes, eles interagem em um diálogo contínuo. O enunciado, para Bakhtin (2003), está relacionado aos elos precedentes e subsequentes da comunicação discursiva. No objeto do discurso cruzam-se diversos pontos de vista, pois o falante não é o primeiro a falar dele. O enunciado é constituído por atitudes responsivas, e os interlocutores ocupam posições ativas na comunicação discursiva, o que pressupõe que o sujeito aguarda respostas do interlocutor. Tal responsividade evidencia-se na tonalidade do sentido, da expressão, da composição do enunciado. Dessa forma, ele será pleno do que o autor considera as tonalidades dialógicas, uma vez que nossa ideia é construída na interação com os pensamentos dos outros, numa interlocução com enunciados já ditos e os que ainda surgirão. O princípio dialógico é considerado um processo dinâmico do discurso, uma vez que não é possível pensar no sujeito e seu discurso sem estar na relação com o outro. Bakhtin entende a língua em sua integridade concreta e viva, que é materializada em uma determinada situação de enunciação. Um dos pressupostos das ideias de Bakhtin (2003) é o fato de toda a compreensão do enunciado vivo ser de natureza ativamente responsiva, mesmo que seu efeito seja retardado. Como discutido anteriormente, toda fala é uma resposta a outra que a antecedeu. Assim, o autor afirma que nosso discurso é pleno de palavras dos outros, as quais trazem sua própria expressão e seu tom valorativo. No entanto, há uma reelaboração e reacentuação pelo falante que incorpora tais palavras. Os enunciados incorporados ao discurso de modo algum são indiferentes: eles contemplam diferentes ressonâncias de outros enunciados. A expressão do enunciado manifesta a relação do falante com os enunciados do outro. Essas formas de resposta são diversas devido à existência dos diferentes campos da atividade humana e as situações de enunciação a partir das quais o discurso se materializa. Bakhtin (2003) afirma que a ideia do falante é construída na interação com os pensamentos dos outros. Esse falante que apreende o discurso de outrem, segundo Bakhtin/Volochinov (2004), não é um ser privado de palavra. Ele mediatiza a atividade mental pelo discurso interior, operando a junção com o discurso que foi apreendido do exterior. A palavra, dessa forma, está sempre carregada de um sentido ideológico. Qualquer enunciação é construída como resposta a algo, pois os contextos da palavra estão sempre em interação, mudando seu acento avaliativo. As relações dialógicas são consideradas relações de sentido. Bakhtin/Volochinov (2004, p.130) afirmam que a multiplicidade das significações é o índice que faz de uma palavra uma palavra, a qual terá sempre um acento apreciativo, pois o conteúdo objetivo é expresso pela fala viva. Por meio dessas relações, é possível observar a interação das vozes no discurso parental de modo a verificar como elas favorecem ou 157

4 não o processo de apropriação discursiva da criança com deficiência, dependendo dos acentos de valor que o enunciado receber. A alternância de sujeitos do discurso que Bakhtin (2003) discute pode auxiliar na análise das interações verbais. O relato de uma mãe, por exemplo, pode limitar-se a um discurso médico-tecnicista, destacando as limitações orgânicas de seu filho. A entonação que isola o discurso do outro (no caso, o médico) pode ser considerado um fenômeno de alternância dos sujeitos do discurso, cujos limites encontram-se enfraquecidos. A expressão do falante (a mãe) atravessa esses limites, tonalizando o discurso do outro de diferentes maneiras. O modo como a fala materna dialoga com esse discurso organicista pode indicar como a falante percebe a criança com deficiência. Assim, é possível investigar se a fala dos pais sugere uma aposta ou uma descrença no potencial do filho. A teoria bakhtiniana pressupõe que o discurso é sempre plurivocal, manifestando uma diversidade de vozes que se encontram em constante diálogo. O conceito bakhtiniano de vozes refere-se aos pontos de vista, opiniões e posições sociais que habitam ou mesmo atravessam o discurso. Como foi exemplificado anteriormente, deve-se considerar como essas vozes manifestam-se e entram em interação no discurso parental ao falar da criança com deficiência, uma vez que a presença constitutiva de tais vozes deveria ser fundante da linguagem infantil. Para tanto, faz-se necessário investigar se tal discurso pode apontar uma perspectiva ou uma barreira para o estabelecimento das interações verbais, além daquelas já impostas pela patologia orgânica. No estudo proposto, o desenvolvimento de linguagem da criança será tomado a partir de uma perspectiva enunciativa, cuja análise ocorre pela relação com o outro. Para tanto, serão considerados os conceitos bakhtinianos de alteridade e intersubjetividade e a percepção de que o objeto do discurso é um palco de encontro com outros pontos de vista (Bakhtin, 2003). Na cena em questão, busca-se pesquisar que diálogo se manifesta no discurso parental sobre o filho com deficiência. O espetáculo encenado nesse palco é o foco do projeto em elaboração. Metodologia: buscando caminhos As reflexões metodológicas apresentadas estão sendo desenvolvidas na estruturação do projeto de pesquisa de mestrado, que se ancora em um paradigma qualitativo. A investigação contará com crianças de ambos os sexos que possuam diagnóstico de problemas no desenvolvimento, e seus pais ou responsáveis. Os procedimentos metodológicos, atualmente em discussão, possivelmente consistirão em entrevistas semi-dirigidas com as famílias dos pacientes diagnosticados quanto a suas expectativas em relação ao desenvolvimento linguístico do filho. A partir desse material, pretende-se analisar como aparecem e dialogam os diferentes pontos de vista presentes na fala dos pais, buscando observar se tais relações dialógicas são favorecedoras ou não do processo de apropriação da linguagem infantil. Em outro momento, será realizada uma observação de uma situação de diálogo entre a criança com deficiência e sua mãe ou responsável para avaliar os sintomas linguísticos da criança e complementar a hipótese diagnóstica. Muitas correntes da clínica fonoaudiológica e da linguística entendem seu objeto de pesquisa dentro de uma perspectiva mais formalista. Para Bakhtin/Volochinov (2004), no entanto, é essencial olhar para o enunciado como palavra viva, atualizada no 158

5 discurso e não reduzida a uma mera abstração. Assim, se a significação dinâmica da palavra não for considerada, fica reduzida a sua realidade física. Tal limitação é impensável para uma linguística e uma clínica que considera a singularidade do sujeito e suas relações dialógicas. Contudo, deve-se lembrar que o conteúdo do psiquismo individual é social, assim como o signo (ideológico por natureza). Ele sempre dialoga com a palavra do outro e precisa de uma certa estabilidade para que ocorra compreensão entre os falantes. Considerar a propriedade dialógica do enunciado é, portanto, necessário para compreender a interação entre os discursos que se manifestam na fala dos pais. Considerações finais Este trabalho buscou apresentar algumas reflexões iniciais sobre a pesquisa de dissertação a ser desenvolvida. No percurso a ser feito, muitas interrogações ainda deverão ser respondidas. Este estudo deve ser considerado como uma tentativa de articular a problemática observada na clínica dos transtornos do desenvolvimento e as contribuições da linguística, mais precisamente dentro de uma abordagem enunciativodiscursiva. Neste sentido, a teoria dialógica contribui para a análise do discurso parental, proporcionando indicadores linguísticos que possam explicitar as relações mãe filho com deficiência. O nascimento de um bebê com deficiência pode gerar uma série de questões que envolverão essa criança e sua família. O olhar atento do clínico que atua com esta clientela é essencial para desenvolver suas potencialidades, impedindo que tais fatores prejudiquem a evolução do infante. O exercício das funções parentais é um dos aspectos a serem considerados nesse processo, pois será o eixo para a aquisição das questões estruturais e instrumentais, uma vez que as favorece. Tais fatores poderão ser melhor analisados dentro de uma perspectiva linguística, desde que considere a singularidade das relações humanas. A análise do discurso parental requer considerações acerca da teoria dialógica do Círculo de Bakhtin, que considera as relações de sentido. Em tais enunciados habitam várias opiniões, pontos de vista, que precisam ser evidenciados para elucidar qual a expectativa familiar sobre o desenvolvimento do filho com deficiência. O contexto em que essas vozes interagem e o tom valorativo com que o falante colore tais falas podem ser indícios a serem observados na clínica. Para tanto, esta investigação não pode prender-se à língua como sistema, limitando-se a uma simples repetição de formas linguísticas, mas sim deve considerar a sua dinamicidade, em que o discurso se renova a cada instante em que a palavra é proferida. O objeto de análise deve ser observado como signo ideológico, percebido como uma manifestação concreta e viva. Referências BAKHTIN, M. Estética da criação verbal (1979). Trad. Paulo Bezerra. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes, BAKHTIN, M./VOLOCHÍNOV, V.N. Marxismo e filosofia da linguagem (1929). 11.ed. Trad.: Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Editora Hucitec,

6 CAVALCANTE, M.C.B. Pausas no manhês: lugar de subjetivação. In: SALES, L.M. (org.) Pra que essa boca tão grande? Questões acerca da oralidade. Salvador: Ágalma, FERREIRA, S.S. Manhês: uma questão de estrutura. In: SALES, L.M. (org.) Pra que essa boca tão grande? Questões acerca da oralidade. Salvador: Ágalma, JERUSALINSKY, A. e col. Falar uma Criança. In: Psicanálise e desenvolvimento infantil. 4.ed. Porto Alegre: Artes e Ofícios,

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